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Êxodo 7:3

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 31 min de leitura·👁 30 acessos
Eu, porém, tornarei duro o coração de Faraó e multiplicarei os meus sinais e os meus prodígios na terra do Egito.
Um rei egípcio sentado no trono, imóvel, enquanto a luz do pátio entra pela porta aberta diante dele.

Estudo


Eu, porém, tornarei duro o coração de Faraó e multiplicarei os meus sinais e os meus prodígios na terra do Egito.

1. Introdução

Este é o versículo mais difícil do bloco, e a dificuldade está na primeira palavra.

"Eu, porém." O versículo anterior tinha acabado de dizer que o rei deixaria o povo sair. Este diz que o coração do rei será tornado duro — e quem diz é Deus, na primeira pessoa, sem intermediário e sem explicação.

Três coisas ficam levantadas aqui.

A primeira é o verbo. O Êxodo usa três palavras hebraicas diferentes para o que o português chama de "endurecer" o coração, e esta é a terceira delas — a mais rara, a que significa literalmente ficar duro. O sistema inteiro, com os três verbos e a alternância de sujeito, já foi exposto no estudo de Êxodo 4:21, e não se reabre aqui.

O que é deste versículo é a posição da frase: ela vem antes dos sinais, e não depois deles. O item 3 mostra o que isso muda.

A segunda é o par "sinais e prodígios". As duas palavras já tinham aparecido separadas no livro; aqui elas aparecem juntas pela primeira vez, e as duas vêm com possessivo: os meus sinais, os meus prodígios. O item 10 mostra o que a forma hebraica faz com isso.

A terceira é o verbo "multiplicarei". Não se anuncia um sinal: anuncia-se uma quantidade. O confronto é apresentado, desde antes de começar, como série — e o item 2 trata do costume antigo de dizer o fim antes do começo.

E há o que o versículo não faz. Não diz quando, não diz como, não diz se Faraó poderia agir de outro modo, e não concilia esta frase com a do versículo anterior. As duas ficam lado a lado, sem costura.

2. Contexto Histórico e Cultural

Dizer o fim antes do começo era um jeito reconhecido de escrever

O que este versículo faz, em termos de composição, é estragar a surpresa. Antes do primeiro sinal, antes da primeira ida ao rio, antes de qualquer confronto, o leitor já sabe que o rei não vai ceder e que haverá muitos sinais.

Um leitor de hoje chama isso de defeito. No mundo em que o Êxodo tomou forma, era recurso corrente — e tinha função.

A família de textos que "previa" o que já tinha acontecido

Existe na literatura da Mesopotâmia um grupo de composições que os estudiosos modernos costumam chamar de profecias acádias. São textos em que uma voz — de um deus ou de um rei antigo — anuncia uma sequência de reinados, de guerras e de desastres, no futuro, em fórmula fixa: "virá um rei, e ele fará isto; depois virá outro, e será assim".

Um exemplo conhecido é a chamada Profecia de Shulgi, atribuída a Shulgi, rei de Ur do terceiro milênio antes de Cristo, e conservada em cópias bem posteriores achadas em Assur.

O que interessa nesses textos não é o conteúdo, e sim o procedimento. Eles foram escritos depois dos acontecimentos que descrevem, e escritos em forma de previsão — porque, naquele mundo, dizer uma coisa antecipadamente era o modo de afirmar que ela tinha sido decidida, e não que tinha simplesmente acontecido.

Convém marcar o limite com clareza, porque a aproximação é fácil de esticar. O Êxodo não é um texto desse tipo, o gênero é outro, a forma é outra, e não há aqui nenhuma dependência demonstrável. O que a comparação mostra é um hábito de enquadramento compartilhado pela região: quem queria dizer que um desfecho não era acaso, dizia-o antes. O costume egípcio aparentado — o plano do rei anunciado antes do feito — tem tratamento próprio no estudo de Êxodo 1:9.

A consequência para quem lê o capítulo

Assumido esse enquadramento, a leitura muda de pergunta.

Quem lê sem ele pergunta: o rei vai ceder? E fica esperando o desfecho ao longo de sete capítulos.

Quem lê com ele já tem a resposta e passa a perguntar outra coisa: então para que serve tudo isto? — e é essa a pergunta que o capítulo responde dois versículos adiante, em Êxodo 7:5.

"Multiplicarei": o confronto é anunciado como série

Há um segundo dado de fundo neste versículo, e ele é de natureza prática.

Um sinal único, feito diante de uma corte, era coisa discutível. Quem visse podia atribuí-lo a habilidade, a preparo, a truque — e, no caso do Egito, havia no palácio gente contratada exatamente para responder a esse tipo de demonstração, assunto que pertence ao estudo de Êxodo 7:11.

Uma série é outra coisa. Repetida, variada, estendida no tempo e aplicada a campos diferentes da vida do país, ela deixa de ser um número de habilidade e passa a ser uma sequência de acontecimentos.

O versículo já anuncia a série antes do primeiro item dela. E é bom notar o que isso implica sobre a ordem das coisas: a multiplicação dos sinais é apresentada depois da dureza do coração, na mesma frase, ligada por um simples "e". A quantidade não é resposta à recusa; é anunciada junto com a recusa, como parte do mesmo plano.

E o que este item não trata

Duas coisas, porque as duas já têm lugar próprio.

O que o coração significava no Egito — a mumificação, o escaravelho posto sobre o peito, a fórmula em que o morto pede ao próprio coração que não testemunhe contra ele — está no item 2 de Êxodo 4:21.

E a discussão sobre o que significa Deus tornar duro o coração de um homem é do item 3 daquele mesmo versículo. Este estudo não a retoma.

3. Análise Teológica do Versículo

"Eu, porém"

Duas palavras, e elas viram o versículo anterior do avesso.

Êxodo 7:2 tinha terminado assim: "para que ele deixe os filhos de Israel saírem da sua terra". Êxodo 7:3 começa assim: "Eu, porém, tornarei duro o coração de Faraó".

Entre as duas frases não há nada. Nenhuma conjunção que explique, nenhuma ressalva, nenhum "mas antes disso". O texto põe a finalidade e o impedimento lado a lado e segue.

O "porém" da nossa versão traduz um pronome enfático do hebraico, que serve para marcar contraste de sujeito: eu, em oposição a vocês dois que vão falar. O item 10 mostra a construção, e ela é rigorosamente a mesma de Êxodo 4:21 — as duas frases começam com as mesmas duas palavras.

O efeito é claro: o versículo separa o que cabe aos homens do que cabe a Deus. A Moisés e a Arão, falar. A ele, o coração do rei.

"tornarei duro o coração de Faraó"

Aqui está o ponto em que quase toda leitura deste capítulo derrapa, e convém dizer primeiro o que não vai ser feito neste estudo.

O Êxodo usa três verbos hebraicos diferentes para o coração de Faraó, e o português os achata todos em "endurecer". O sistema inteiro — as três raízes, quantas vezes cada uma aparece, quem é o sujeito em cada caso, e o que a tradução grega antiga fez com a distinção — está exposto no item 10 de Êxodo 4:21. Quem quiser a discussão completa deve ler aquele estudo, e este não a repete.

O que é deste versículo são duas coisas, e as duas são de posição.

A primeira: é a terceira raiz que entra em cena, e é a única que "endurecer" traduz literalmente.

As outras duas falam de firmeza e de peso. Esta fala de dureza, no sentido material: a dureza da pedra, a rigidez do que não dobra. É a raiz de que vem a expressão bíblica "dura cerviz", isto é, pescoço duro, que o Antigo Testamento aplica a Israel com frequência.

E é a única vez, no Êxodo inteiro, que essa raiz aparece ligada ao coração do rei. Uma vez, aqui, e não volta.

A segunda, e é o achado: a frase vem antes dos sinais.

Repare onde ela está colocada. O primeiro sinal ainda não foi feito — o cajado só vira serpente em Êxodo 7:10. A primeira praga está a onze versículos de distância. A primeira vez em que o texto vai registrar um coração firme é em Êxodo 7:13, depois do episódio na corte.

Ou seja: o anúncio não é comentário sobre uma reação já ocorrida. É premissa do que vai começar.

Isso é diferente de dizer que nada aconteceu antes. Aconteceu: o rei já tinha respondido, em Êxodo 5:2, que não conhecia o SENHOR e que não deixaria Israel ir. O que se afirma aqui é mais preciso — a frase precede a série de sinais a que ela se refere, e precede o primeiro relato de dureza dentro do confronto.

E a ordem das duas metades importa

Leia a frase inteira de novo, na ordem em que está escrita: tornarei duro o coração e multiplicarei os sinais.

A leitura corrente inverte isso sem perceber. Ela imagina: o rei se recusa, então vêm mais sinais; ele se recusa de novo, então vêm mais. Como se a multiplicação fosse resposta à teimosia.

O versículo não diz isso. Ele apresenta as duas coisas como partes de um mesmo anúncio, ligadas por um "e" e nada mais. A dureza não aparece como obstáculo ao plano: aparece dentro dele.

Convém marcar o limite, porque aqui se exagera com facilidade. Que a frase junte as duas coisas é observável. Que ela esteja afirmando uma relação de causa entre uma e outra é leitura, e o hebraico não a marca — há apenas a conjunção mais comum da língua.

O que a frase não diz

Quatro ausências, e é honesto enumerá-las.

Não diz quando. Não há indicação de momento, e o livro nunca mostra a operação acontecendo.

Não diz como. Nenhuma descrição de mecanismo, nenhuma cena, nenhum efeito sentido pelo rei.

Não diz se Faraó poderia ter agido de outro modo. A questão não é levantada no capítulo.

E não diz como conciliar esta frase com Êxodo 7:13, onde o coração simplesmente fica firme, sem que ninguém o endureça. O Êxodo alterna os sujeitos e não harmoniza, e o estudo de Êxodo 4:21 mostra que essa alternância percorre o livro inteiro, sem sistema.

Quem preenche essas quatro lacunas está construindo uma doutrina — o que é legítimo, contanto que se diga que é isso. O versículo não a contém.

"e multiplicarei os meus sinais e os meus prodígios"

Três observações.

O verbo. Não é "farei": é "multiplicarei". O que se anuncia é quantidade, e é a primeira vez no livro que o confronto é descrito assim.

Há um eco que vale registrar com cuidado. O Êxodo abriu com uma multiplicação — a dos filhos de Israel, que se tornaram muitos a ponto de assustar um rei (Êxodo 1:7). O verbo daqui pertence ao mesmo campo. A repetição é observável; que seja intencional é leitura possível e não demonstrável, porque se trata de um dos verbos mais comuns da língua.

O par. "Sinais" e "prodígios" são duas palavras diferentes, com campos diferentes, e a diferença entre elas já foi tratada no item 10 de Êxodo 4:21.

O que é novo aqui é que elas aparecem juntas, pela primeira vez no livro. Daqui por diante, o par vira a fórmula fixa com que o Antigo Testamento resume a saída do Egito. Este versículo é o lugar em que os dois termos se encontram.

O possessivo. São os meus sinais e os meus prodígios.

Isso tem consequência para a leitura do capítulo inteiro. Quem vai fazer o gesto é Arão, com um cajado na mão, diante de uma corte. A frase que descreve tudo isso de antemão atribui a coisa a outro dono — e essa atribuição é o que separa, no vocabulário do livro, o que Arão fará do que os especialistas egípcios farão em seguida.

"na terra do Egito"

Uma nota curta, e é sobre a preposição.

Os sinais acontecerão dentro do país. Não na fronteira, não no deserto, não num lugar reservado: no meio da vida corrente do Egito. O alcance disso — que os atingidos não são uma corte, e sim uma população — já está tratado no estudo de Êxodo 3:20.

O que se acrescenta aqui é apenas o contraste de vocabulário com o versículo anterior. Em Êxodo 7:2 o lugar foi chamado de "a sua terra", a terra do rei. Aqui é "a terra do Egito", o nome do país. Duas linhas de distância, dois modos de nomear o mesmo chão.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

É o único nome próprio do versículo, e ele aparece como objeto.

Repare no que se diz dele: nada. Não se descreve o que pensa, o que quer, o que teme. O que entra em cena é o coração dele, e mesmo esse não é descrito — apenas anunciado como alvo de uma ação futura.

Vale saber o que a palavra "coração" designava para quem lia. Não é o órgão do sentimento, como no português corrente: é a sede do pensamento, da deliberação e da escolha. O que se está dizendo, portanto, tem a ver com a capacidade de decidir do rei, e não com os sentimentos dele. O fundo egípcio desse vocabulário — o coração pesado na balança, o escaravelho posto sobre o peito do morto — está no estudo de Êxodo 4:21.

Deus, em primeira pessoa

O sujeito dos dois verbos do versículo é o mesmo, e é ele.

Isso é diferente do versículo anterior, onde os sujeitos eram Moisés, Arão e o rei. Aqui os três saem de cena e sobra um só agente. É o único versículo do bloco em que nenhum ser humano faz coisa alguma.

Os sinais e os prodígios

São anunciados e não são descritos. Não se diz quantos, quais, em que ordem nem em que intervalo.

Quem lê o livro sabe o que virá: o cajado que vira serpente, ainda neste capítulo, e depois a sequência de pragas. Mas isso é informação do leitor, não do versículo. Aqui não há lista, e a falta dela é o que permite ao capítulo seguinte surpreender com cada item.

A terra do Egito

É o palco, e é nomeada como país inteiro.

Não se distingue região, cidade nem população. A distinção entre a terra onde os hebreus viviam e o resto do Egito só aparecerá adiante, em Êxodo 8:22 e 9:26, e aqui não existe: o que for feito, será feito na terra toda.

O que já aconteceu, e que este versículo pressupõe

Dois fatos, e o leitor precisa dos dois.

O primeiro: já houve uma ida a Faraó, em Êxodo 5, e o rei recusou nos termos mais diretos possíveis — "Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir" (Êxodo 5:2).

O segundo: já houve um anúncio parecido com este, em Êxodo 4:21, dito a Moisés antes mesmo de ele voltar ao Egito, e com outro dos três verbos.

Este versículo, portanto, não é a primeira vez que o assunto aparece. É a segunda — e a primeira em que a raiz da dureza é usada.

5. Pontos de Ensino

O texto não protege Deus da frase

Este é o primeiro ponto de ensino do versículo, e ele é sobre método de leitura.

O Êxodo podia ter escrito "Faraó endurecerá o próprio coração", e escreve em outros lugares — Êxodo 8:15 e 8:32, por exemplo. Aqui escreve o contrário, com Deus em primeira pessoa, e não acrescenta nenhuma explicação, nenhuma atenuação e nenhuma defesa.

Quem lê a Bíblia esperando que ela resolva os próprios desconfortos vai ter trabalho neste capítulo. O que o livro faz é registrar, e alternar os sujeitos ao longo do caminho sem nunca dizer como as duas coisas se encaixam.

O ensino, aqui, é negativo e é útil: não se constrói doutrina a partir de uma frase isolada de um texto que diz a mesma coisa de três maneiras diferentes. A discussão inteira está no estudo de Êxodo 4:21, e mesmo lá ela termina sem desfecho.

A dureza de um homem não explica a dureza de outro

Uma aplicação equivocada deste versículo é antiga e continua em uso: atribuir a Deus a obstinação de alguém que não se converte, não muda, não cede.

O texto não autoriza a transferência, e por uma razão simples. A frase é dita de um rei determinado, numa situação determinada, por quem a está dizendo. Não é enunciado geral sobre como Deus trata os que resistem, e o Êxodo não a aplica a mais ninguém.

Quem a usa como chave geral está fazendo com o versículo exatamente o que ele não faz consigo mesmo: generalizar.

Saber o fim não dispensa o caminho

Moisés e Arão acabam de ser informados de que o rei não vai ceder. E vão assim mesmo — no versículo 6, sem uma pergunta.

É um ponto sóbrio e vale tê-lo à mão: a incumbência não foi condicionada ao resultado. Eles não foram enviados para convencer; foram enviados para falar. O que aconteceria depois já tinha sido dito, e não mudou nada no que lhes cabia fazer.

Quantidade não é o mesmo que evidência

O versículo anuncia muitos sinais, e o capítulo mostrará que os primeiros deles são repetidos pelos especialistas do Egito.

Vale reter a lição desde já, porque ela evita ingenuidade: o Êxodo nunca apresenta os sinais como argumento irrespondível. Eles são feitos, são copiados, e a diferença aparece em outro lugar. Um estudo honesto deste livro não pode prometer ao leitor uma prova que o próprio livro não oferece.

6. Aspectos Filosóficos

A questão: o que muda quando se conhece o desfecho de antemão?

O versículo faz, com o leitor, exatamente o que faz com Moisés: entrega o fim antes do começo. E isso cria um problema que não é teológico, e sim de estrutura do que chamamos de ação.

Uma ação, tal como a entendemos, supõe um futuro em aberto. Deliberar é escolher entre caminhos que ainda não estão definidos; agir é fechar um deles. Quando o desfecho já está dito, a deliberação parece perder o objeto — e é aí que a maioria dos leitores trava.

Repare, porém, no que o texto faz em seguida. Ele não trata o anúncio como dispensa. Moisés e Arão recebem a informação e, três versículos adiante, fazem o que lhes foi ordenado. O livro não registra neles nenhuma hesitação nova, nenhuma pergunta do tipo "então para quê?".

Ou seja: o Êxodo põe lado a lado duas coisas que a discussão filosófica costuma tratar como incompatíveis — um desfecho declarado e uma tarefa a cumprir — e não se ocupa da incompatibilidade.

Isso é, em si, uma posição, ainda que não argumentada. A pergunta "vale a pena agir se o resultado já está dado?" só aparece quando se supõe que o sentido da ação está no resultado dela. Neste capítulo, não está. O que Moisés e Arão têm a fazer é definido pela incumbência recebida, não pelo efeito que produzirá.

A discussão propriamente teológica — o que significa Deus tornar duro o coração de alguém, e o que sobra da responsabilidade desse alguém — pertence ao estudo de Êxodo 4:21, e não é reaberta aqui.

7. Aplicações Práticas

O que fazer com um versículo que incomoda

Esta é a aplicação mais honesta que o texto permite, e ela não é devocional.

Há versículos na Bíblia que não confortam, não instruem a conduta e não oferecem promessa. Este é um deles. A tentação diante de um caso assim é sempre a mesma: encontrar depressa uma explicação que o torne aceitável e seguir adiante.

A prática útil é o contrário. Primeiro ler o que está escrito, inclusive o que desagrada; depois verificar se o resto do livro diz a mesma coisa; só então concluir alguma coisa — e, se o livro não for coerente, dizer que não é.

No caso deste versículo, o resto do livro não é coerente: às vezes Deus endurece, às vezes o rei endurece a si mesmo, às vezes o coração simplesmente fica duro sem sujeito nenhum. Quem lê o Êxodo inteiro encontra as três coisas. Registrar isso é mais útil, e mais fiel, do que escolher uma e apagar as outras.

Não usar este versículo sobre pessoas

Aplicação prática, no sentido estrito de coisa a não fazer.

A frase já foi usada, em pregação e em conversa, para explicar por que alguém não muda: "Deus endureceu o coração dele". É dito de parentes que não se convertem, de cônjuges que não cedem, de gente difícil em geral.

Isso ultrapassa o texto de três maneiras ao mesmo tempo. O Êxodo diz a frase de uma pessoa; diz num contexto único, o do confronto com Israel no Egito; e a diz em primeira pessoa, ou seja, é Deus quem afirma, e não um observador que conclui.

Ninguém está em posição de repetir essa frase sobre outro. Quem a repete está fazendo um diagnóstico que o versículo não autoriza a fazer.

Ir mesmo sabendo

Há, por fim, uma aplicação que nasce do que acontece três versículos adiante.

Moisés e Arão são informados de que o rei não vai ouvir e vão assim mesmo. Não há registro de discussão, de pedido de garantia nem de negociação de termos.

Isso tem uso em situações reais — uma conversa que precisa ser tida com alguém que provavelmente não vai mudar, uma posição que precisa ser registrada, uma denúncia que provavelmente não terá efeito. Nem toda coisa que se faz é feita pela probabilidade de sucesso. Algumas se fazem porque precisam ficar ditas.

Convém não esticar isso em regra geral: o Êxodo está falando de uma incumbência recebida, não de teimosia por conta própria. Mas o princípio serve — quando a tarefa é clara, o prognóstico não a cancela.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se Deus vai endurecer o coração dele, por que mandar falar com ele?

A pergunta é inevitável e o capítulo a responde — não aqui, mas dois versículos adiante.

Êxodo 7:5 dá a finalidade: "E os egípcios saberão que eu sou o SENHOR". O alvo declarado da operação não é a decisão do rei. É o que ficará sabido.

Isso não desfaz o desconforto da frase, e não é para desfazer. Apenas mostra que o Êxodo não apresenta o convencimento de Faraó como objetivo — e, portanto, que o fracasso em convencê-lo não é, para o livro, um fracasso.

Faraó ainda podia escolher?

O versículo não trata disso, e o Êxodo em nenhum lugar formula a pergunta.

O que se pode fazer é olhar como o livro distribui os sujeitos ao longo do ciclo, e o resultado é irregular: em alguns lugares Deus endurece, em outros o rei endurece a si mesmo, em outros o coração fica duro sem agente. A lista completa está no item 10 de Êxodo 4:21.

De uma distribuição assim não se extrai uma tese. Não é possível decidir, com o texto na mão, entre as leituras que circulam — e quem decide está trazendo de fora o critério que usa.

Por que a frase aparece duas vezes, em Êxodo 4:21 e aqui?

As duas são anúncios, e há três diferenças entre elas.

A primeira é o verbo: lá, a raiz da firmeza; aqui, a da dureza.

A segunda é o momento: lá, Moisés ainda estava em Midiã, antes de voltar; aqui, já está no Egito e já houve um encontro com o rei.

A terceira é o que vem junto: lá, a consequência anunciada foi "ele não deixará o povo ir"; aqui, a consequência anunciada é a multiplicação dos sinais.

Que o livro repita o anúncio em dois pontos, com verbos diferentes e consequências diferentes, é dado observável. O que ele significa quanto à composição do texto é assunto de especialistas, é discutido, e não se resolve pela leitura.

"Sinais e prodígios" são a mesma coisa?

Não, e a diferença entre as duas palavras está tratada no item 10 de Êxodo 4:21.

O que interessa perguntar aqui é outra coisa: por que as duas juntas? Até este ponto o livro vinha usando uma ou outra. Daqui em diante o par vira fórmula, e é com ele que o resto da Bíblia resumirá a saída do Egito.

Uma leitura possível é que a junção acompanhe a mudança de destinatário — palavras diferentes para públicos diferentes. Ela é plausível e não é demonstrável pelo versículo, que não comenta nada.

Onde, no livro, aparece a cena em que o coração é endurecido?

Em lugar nenhum, e vale registrar isso com todas as letras.

O Êxodo anuncia a operação, e depois informa o resultado dela — "o coração de Faraó ficou firme", em Êxodo 7:13 e 7:22. Nunca mostra o ato. Não há cena, não há descrição, não há momento em que alguma coisa aconteça dentro do rei.

Quem imagina esse instante está acrescentando ao texto. O texto não diz.

Este versículo contradiz o anterior?

Ao pé da letra, os dois dizem coisas opostas: um termina com o rei deixando o povo sair; o outro anuncia que ele não ouvirá.

A tensão é real e o capítulo não a desfaz. Há uma saída gramatical, exposta no item 10 de Êxodo 7:2: a frase final daquele versículo pode ser lida como finalidade — o objetivo da diligência — e não como previsão. Assim lida, não há contradição: diz-se para que os dois vão, e em seguida o que de fato acontecerá.

É a leitura que nossa versão adotou. Ela é razoável e não é demonstrável, porque o hebraico não marca a diferença.

9. Conexão com Outros Textos

O primeiro anúncio, com outro verbo

Êxodo 4:21 — "E o SENHOR disse a Moisés: 'Quando você voltar ao Egito, veja que faça diante de Faraó todos os prodígios que pus na sua mão. Eu, porém, tornarei firme o coração dele, e ele não deixará o povo ir.'"

Ponha as duas frases lado a lado. Começam com as mesmas duas palavras — "eu, porém" — e divergem na terceira: lá, firme; aqui, duro. É a comparação obrigatória do versículo, e o estudo daquele texto é o dono do assunto.

O resultado, sem agente

Êxodo 7:13 — "E o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."

Dez versículos adiante, o mesmo assunto volta — e agora ninguém endurece nada. O coração fica. A alternância entre as duas maneiras de dizer percorre o livro inteiro, e o Êxodo nunca a explica.

O único outro rei descrito assim

Deuteronômio 2:30 — "Mas Seom, rei de Hesbom, não quis deixar-nos passar por ali, porque o SENHOR seu Deus lhe tinha endurecido o espírito e tornado obstinado o coração, para o entregar nas suas mãos, como hoje se vê."

Este é o paralelo mais próximo em toda a Bíblia hebraica, e vale reparar em três coincidências: é um rei, é uma recusa de deixar Israel passar, e o verbo é a mesma raiz da dureza que aparece em Êxodo 7:3.

A diferença é que o Deuteronômio diz a finalidade na mesma frase — "para o entregar nas suas mãos" —, coisa que o Êxodo só fará dois versículos adiante.

A mesma raiz, aplicada a Israel

Deuteronômio 9:6 — "Saiba, pois, que não é por causa da sua justiça que o SENHOR seu Deus lhe dá esta boa terra para a possuir, porque você é um povo de dura cerviz."

A expressão "dura cerviz" — pescoço duro, isto é, quem não baixa a cabeça — vem da mesma raiz hebraica do verbo de Êxodo 7:3.

É um dado que corta as leituras fáceis. A palavra não foi reservada para o inimigo: o Antigo Testamento a usa com frequência muito maior a respeito do próprio Israel.

O par "sinais e prodígios", já como fórmula

Deuteronômio 6:22 — "E o SENHOR fez, diante dos nossos olhos, sinais e prodígios grandes e terríveis contra o Egito, contra Faraó e contra toda a sua casa."

O par que se encontra pela primeira vez em Êxodo 7:3 aparece aqui já estabilizado, como resumo pronto do episódio. É assim que o resto do Antigo Testamento vai se referir à saída do Egito.

A finalidade dita ao próprio Moisés, mais adiante

Êxodo 10:1-2 — "Então o SENHOR disse a Moisés: ‘Vá a Faraó, porque eu tornei pesado o coração dele e o coração dos seus servos, para pôr estes meus sinais no meio deles, e para que você conte aos ouvidos do seu filho e do filho do seu filho como zombei do Egito, e os meus sinais que pus entre eles; e vocês saberão que eu sou o SENHOR.’"

Três capítulos adiante o livro volta ao mesmo arranjo — coração e sinais na mesma frase — e ali acrescenta uma finalidade que Êxodo 7:3 não traz: que a história seja contada aos filhos. É o próprio Êxodo dizendo para que serve a série.

O eco do começo do livro

Êxodo 1:7 — "Mas os filhos de Israel foram fecundos, fervilharam, multiplicaram-se e se tornaram fortes, muito fortes; e a terra se encheu deles."

Traz-se este versículo por causa de um verbo. O livro começou com uma multiplicação que assustou um rei; aqui, quem multiplica é Deus, e o que se multiplica são sinais. O campo da palavra é o mesmo. Que a repetição tenha intenção é leitura possível, e não se demonstra.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Eu, porém, tornarei duro o coração de Faraó e multiplicarei os meus sinais e os meus prodígios na terra do Egito.

Texto hebraico

וַאֲנִי אַקְשֶׁה אֶת־לֵב פַּרְעֹה וְהִרְבֵּיתִי אֶת־אֹתֹתַי וְאֶת־מוֹפְתַי בְּאֶרֶץ מִצְרָיִם׃

Transliteração

wa-ani aqsheh et-lev Par'oh, we-hirbeti et-ototai we-et-mofetai be-erets Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַאֲנִי — wa-ani, "e eu", aqui "eu, porém".

Conjunção mais pronome pessoal de primeira pessoa. O pronome é dispensável — o verbo seguinte já traz a pessoa — e está ali para marcar contraste.

E vale reparar numa coincidência exata. Êxodo 4:21 abre a mesma declaração com estas duas palavras idênticas: wa-ani. As duas frases do livro que anunciam o que Deus fará com o coração do rei começam do mesmo jeito e divergem na palavra seguinte.

אַקְשֶׁה — aqsheh, "tornarei duro".

Raiz qashah, no Hiphil — a conjugação causativa do hebraico, a que transforma "ser duro" em "fazer duro" —, imperfeito de primeira pessoa do singular.

O campo da raiz é material antes de ser moral. Ela descreve o que é duro ao toque e rígido à pressão: a pedra, o metal, a terra que não cede ao arado. Daí passa para o que é pesado de suportar — em 1 Reis 12:4, o povo diz a Roboão que o pai dele tinha tornado duro o jugo sobre eles — e para o que não se dobra: qesheh oref, "duro de pescoço", a expressão que o português traduz por "dura cerviz".

Dos três verbos que o Êxodo usa para o coração do rei, este é o único que "endurecer" traduz ao pé da letra, e é o mais raro dos três. O sistema completo — as três raízes, a contagem de ocorrências, a alternância de sujeito e o que a tradução grega antiga fez com tudo isso — está no item 10 de Êxodo 4:21, e não se repete aqui.

O que se acrescenta é apenas o registro do paralelo mais próximo fora do Êxodo: em Deuteronômio 2:30, a mesma raiz descreve o que Deus faz com Seom, rei de Hesbom, também para que ele não deixasse Israel passar.

אֶת־לֵב פַּרְעֹה — et-lev Par'oh, "o coração de Faraó".

Et marca o objeto direto. Lev é coração; a palavra está em construção com o nome do rei, isto é, ligada a ele: "o coração de Faraó".

Há uma diferença pequena e verificável em relação a Êxodo 4:21. Lá está escrito libbo, "o coração dele", com sufixo, porque o nome do rei tinha acabado de aparecer na frase anterior. Aqui o nome é escrito por extenso.

O efeito, para quem lê em hebraico, é de formalidade: a frase nomeia o alvo em vez de apontá-lo por pronome. É observação de estilo, e não se deve extrair dela mais do que isso.

Quanto ao que lev designa — a sede do pensar e do decidir, e não a do sentir —, o assunto está tratado no estudo de Êxodo 4:21.

וְהִרְבֵּיתִי — we-hirbeti, "e multiplicarei".

Raiz ravah, ser muito, tornar-se numeroso, no Hiphil: fazer muito, aumentar o número. Perfeito de primeira pessoa, encadeado pela conjunção ao verbo anterior — a forma com que o hebraico põe uma ação em seguida de outra.

Note que o verbo não fala de força nem de intensidade. Fala de quantidade. O que se anuncia é que os sinais serão muitos, e não que serão grandes.

É a mesma raiz do verbo que abre o livro, em Êxodo 1:7, a respeito da multiplicação dos filhos de Israel — e o estudo daquele versículo é o dono da palavra. O eco é registrável; a intenção, não demonstrável.

אֶת־אֹתֹתַי וְאֶת־מוֹפְתַי — et-ototai we-et-mofetai, "os meus sinais e os meus prodígios".

Aqui está o achado do item, e ele é de partícula.

As duas palavras — ot, sinal, e mofet, prodígio — estão no plural e trazem o sufixo de primeira pessoa: meus sinais, meus prodígios. A diferença de campo entre as duas já foi analisada no item 10 de Êxodo 4:21, onde mofet entra pela primeira vez no livro, e não se reabre.

O que este versículo tem de próprio é duplo.

Primeiro: é o lugar em que as duas se encontram. Até aqui o Êxodo usava uma ou outra, conforme o destinatário. Daqui em diante, o par "sinais e prodígios" se fixa e vira a fórmula com que o Antigo Testamento resume a saída do Egito.

Segundo, e é o detalhe que só o hebraico mostra: cada uma das duas palavras traz a sua própria partícula de objeto. Está escrito et-sinais-meus e-et-prodígios-meus, e não um único et cobrindo as duas.

Isso significa que a língua está tratando as duas como dois objetos distintos do mesmo verbo, e não como uma expressão fixa. É uma pista fina, e é honesto dizer o que ela sustenta e o que não sustenta: ela mostra que, neste ponto do texto, o par ainda não funciona como bloco único. Dizer que isso prova que a fórmula ainda não existia seria ir longe demais — a repetição da partícula é comum em hebraico e nem sempre significa alguma coisa.

בְּאֶרֶץ מִצְרָיִם — be-erets Mitsrayim, "na terra do Egito".

Preposição be, que indica lugar onde, mais erets, terra, em construção com o nome do país.

Vale acompanhar a preposição ao longo do bloco, porque ela muda três vezes em quatro versículos.

Em Êxodo 7:2: me-artso, "da sua terra" — procedência, e a terra é do rei.

Aqui: be-erets Mitsrayim, "na terra do Egito" — lugar onde, e o país é nomeado.

Em Êxodo 7:4 e 7:5: me-erets Mitsrayim, "da terra do Egito" — procedência outra vez, com o nome do país.

O desenho é simples e é observável: o que Deus faz acontece dentro; o que ele tira sai de dentro. E o único lugar em que a terra aparece como propriedade de alguém é aquele em que a frase se dirige ao dono.

O que o hebraico faz e o português não faz

Duas perdas, e a primeira é a maior do capítulo inteiro.

A raiz do verbo. Em hebraico, quem lê Êxodo 4:21 e depois Êxodo 7:3 vê duas palavras diferentes e sabe que são duas imagens — firmeza e dureza. Em português corrente, os dois versículos dizem "endurecer", e a distinção desaparece. Nossa versão a preservou, e é por isso que aqui se lê "duro" onde lá se leu "firme".

E a partícula repetida antes de cada palavra do par, que nenhuma tradução tem como mostrar.

11. Conclusão

Do que foi exposto, três conclusões.

A primeira: a dificuldade do versículo é de posição, antes de ser de teologia.

A frase não comenta uma recusa já ocorrida dentro do confronto: precede a série de sinais e precede o primeiro relato de um coração duro. E liga as duas coisas — a dureza e a multiplicação — por uma conjunção simples, sem estabelecer causa. Conclui-se que a leitura corrente, segundo a qual os sinais se multiplicam porque o rei resiste, inverte a ordem do que está escrito.

A segunda: o Êxodo não protege a própria frase.

Deus é o sujeito, em primeira pessoa, e não há atenuação, explicação nem defesa. Dez versículos adiante o mesmo assunto reaparece sem sujeito nenhum, e mais tarde com o rei como agente. Conclui-se que o livro registra as três formulações e não as concilia — e que qualquer doutrina construída sobre uma delas isoladamente está apoiada em menos texto do que declara. A discussão pertence ao estudo de Êxodo 4:21 e termina lá sem desfecho.

A terceira: o verbo é o único que "endurecer" traduz literalmente, e o par de palavras nasce aqui.

A raiz da dureza aparece uma única vez no livro ligada ao coração do rei, e é a mesma que o Antigo Testamento aplica com frequência ao próprio Israel. Ao mesmo tempo, "sinais e prodígios" se encontram neste versículo pela primeira vez e seguirão emparelhados no resto da Bíblia. Conclui-se que Êxodo 7:3 é, ao mesmo tempo, um lugar de passagem — a fórmula que sai daqui — e um lugar único: a palavra que entra aqui não volta.

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Êxodo 7:3

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