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Êxodo 8:15

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✍️ Por Alberto Adriano·16 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 43 acessos
Mas, vendo Faraó que houve alívio, tornou pesado o seu coração e não os ouviu, como o SENHOR havia dito.
Faraó de pé à janela do palácio, olhando para um pátio já sem rãs, com o semblante fechado.

Estudo


Mas, vendo Faraó que houve alívio, tornou pesado o seu coração e não os ouviu, como o SENHOR havia dito.

1. Introdução

Este é o versículo que fecha a praga das rãs, e o que ele registra é uma reversão.

A ordem das frases é o essencial. Primeiro o rei vê. O que ele vê é o alívio. Depois, e só depois, o coração fica pesado e a palavra dada em Êxodo 8:8 deixa de valer.

Ou seja: o Êxodo apresenta uma causa, e a causa não é a praga. É o fim dela. Enquanto as rãs estavam nas camas, o rei chamou, pediu e prometeu. Quando saíram, voltou atrás.

Duas coisas mais merecem exame. A palavra traduzida por "alívio" é rara — aparece duas vezes em toda a Bíblia Hebraica — e não significa "fim do problema": significa espaço, folga, ar para respirar. E a frase sobre o coração tem, no original, uma forma verbal sem sujeito, o que vale registrar com cuidado.

O versículo termina com a fórmula que o livro vem repetindo: "como o SENHOR havia dito". Nada do que acabou de acontecer é apresentado como surpresa.

Sobre os verbos do coração de Faraó — são três em hebraico, e o português os achata num só — o tratamento completo está no estudo de Êxodo 4:21. Aqui trata-se de uma ocorrência e de uma causa.

2. Contexto Histórico e Cultural

O Egito tinha um roteiro para o que se faz quando o alívio chega

Interessa a este versículo uma pergunta cultural precisa: naquele mundo, o que uma pessoa fazia depois de ser livrada de um mal que atribuía a um deus?

A resposta está documentada, e é bastante uniforme: registrava-se em público.

Do Império Novo egípcio sobrou um conjunto de monumentos particulares em que homens comuns contam, em primeira pessoa, uma história com sempre o mesmo formato. O deus ficou irado. O homem sofreu — doença, cegueira, perda. O homem clamou. O deus se voltou para ele. E então o homem mandou fazer uma pedra para dizer isso a quem passasse.

O exemplo mais conhecido é a estela do desenhista Nebre, hoje em Berlim, do tempo de Ramessés II. Ela foi mandada fazer depois que o filho dele, Nakhtamon, escapou de uma doença grave, e o texto agradece a Amon-Rá chamando-o de aquele que vem à voz do pobre. O próprio Nebre diz por que fez a pedra: para que o louvor ficasse escrito.

Outra peça do mesmo conjunto, a estela do operário Neferabu, é usada no estudo de Gênesis 42:15 a propósito de juramento falso; ali o assunto é outro, e aqui o que interessa é apenas a forma do gênero. E as estelas com orelhas esculpidas, ligadas à ideia do deus que ouve, estão tratadas no estudo de Êxodo 3:7.

O que o roteiro supunha

Três coisas, e vale enumerá-las porque as três estão presentes na cena deste capítulo.

Primeiro, que o mal tinha autor conhecido — e o rei foi informado disso, ao pedir que suplicassem a um nome específico.

Segundo, que o pedido tinha sido feito e atendido — e foi, com hora marcada pelo próprio rei.

Terceiro, que o beneficiado devia responder com alguma forma de reconhecimento público. É esse o passo que existia na cultura e que este versículo mostra não acontecendo.

E o que o rei tinha empenhado

O compromisso de Êxodo 8:8 era oral, unilateral e sem nenhuma garantia. Não houve juramento, não houve testemunha nomeada, não houve refém, não houve documento e não houve monumento.

Isso não é detalhe. No mundo antigo, o que amarrava um acordo era exatamente aquilo: a fórmula de juramento, a presença de testemunhas, o penhor, a pedra escrita. Nada disso foi usado aqui — e o resultado está no versículo.

Convém marcar o limite, como sempre. O texto não diz que o rei devesse ter feito estela nenhuma, não cobra dele um rito e não compara o comportamento dele com o de ninguém. O material acima serve para mostrar o que era esperado naquele ambiente, e não para transformar o silêncio do Êxodo em acusação.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas, vendo Faraó"

O versículo começa com um verbo de ver, e a escolha organiza tudo o que vem depois.

O rei não é informado, não é avisado e não consulta ninguém. Ele vê. O que se segue no versículo é apresentado como consequência daquilo que entrou pelos olhos dele.

E vale perguntar o que exatamente ele viu, porque o capítulo acabou de descrever duas coisas muito diferentes acontecendo no mesmo dia. Do lado de fora havia montes de rãs mortas e uma terra cheirando mal (Êxodo 8:14). De dentro do palácio, o que havia era a ausência delas.

O Êxodo não diz onde o rei estava nem o que foi olhar. Diz o que ele viu: o alívio. O que não está no campo de visão dele é justamente o preço do alívio, e o texto põe as duas frases uma ao lado da outra sem apontar a diferença.

"que houve alívio"

A palavra é rara e não significa o que a tradução sugere.

"Alívio", em português, soa como fim do problema. A palavra hebraica pertence a outro campo: o da largura, do espaço que se abre, do ar que volta. É parente próxima da palavra que significa sopro e vento. Quem tem isso não teve o problema resolvido — teve espaço para respirar.

Ela aparece duas vezes em toda a Bíblia Hebraica, e a outra ocorrência confirma o sentido: em Lamentações 3:56, é o que o aflito pede a Deus, no meio de um livro inteiro de desgraça que não termina. O item 10 trata da forma e das ocorrências.

Isso muda a leitura do versículo, e muda para melhor. O rei não recebeu uma solução: recebeu uma folga — e decidiu sobre a folga como se fosse uma solução. A distinção está na palavra, e quase nenhuma tradução consegue guardá-la.

Há ainda o artigo. O hebraico não diz "houve um alívio"; diz "houve o alívio" — aquele, o esperado, o que tinha sido combinado. O que aconteceu foi exatamente o que se pediu, e o texto marca isso com uma letra.

"tornou pesado o seu coração"

Aqui está o centro, e há três coisas a separar.

A primeira é a palavra, e ela não é deste estudo. O Êxodo usa três verbos hebraicos diferentes para o coração de Faraó — o de tornar firme, o de tornar pesado e o de endurecer —, e o português traz os três como "endurecer". O sistema inteiro, com as ocorrências e a variação de sujeito, está desenvolvido no estudo de Êxodo 4:21. Aqui basta saber que o verbo desta vez é o do peso: a imagem não é a de um material que resiste, e sim a de uma coisa que ficou pesada demais para se mover.

A segunda é a forma verbal, e essa é própria deste versículo. O hebraico usa aqui uma construção impessoal — uma forma do verbo que não traz pessoa nem sujeito, e que se poderia traduzir por "e um tornar pesado o coração dele". Quem tornou não está escrito.

Isso precisa ser dito com cuidado, para não virar mais do que é. Praticamente todas as traduções escrevem "Faraó endureceu o seu coração", e há bom motivo: em Êxodo 8:32, na mesma situação, o texto escreve a frase por extenso e com o nome do rei como sujeito. A leitura está apoiada. Mas neste versículo, o original não nomeia ninguém, e quem lê em hebraico percebe que a atribuição foi feita pelo leitor.

A terceira é a causa, e essa é o achado do versículo.

O Êxodo raramente explica por que as pessoas fazem o que fazem. Aqui ele encadeia: viu que houve alívio, e então o coração pesou. A ordem das frases estabelece uma relação, e a relação é a que interessa: o que produz a reversão não é a praga — é o fim da praga.

Repare no que isso significa para a leitura do capítulo. Enquanto as rãs estavam nas camas, nos fornos e nas amassadeiras, o rei chamou Moisés e Arão, pediu socorro e prometeu deixar o povo ir. Nada disso foi arrancado sob tortura: foi dito por ele, em palácio, com a corte presente. E nada disso sobreviveu ao desaparecimento do desconforto.

Convém não ir além do texto aqui, e a tentação é grande. O Êxodo não diz que o rei mentiu em Êxodo 8:8; não diz que fingiu; não descreve arrependimento, cálculo, remorso ou zombaria. Não entra na cabeça dele em nenhum momento. Descreve uma sequência: pressão, promessa, fim da pressão, promessa desfeita.

Registre-se também que essa sequência vai se repetir no próprio capítulo, com outra praga e outras palavras. O padrão é do texto, e o exame dele cabe onde ele se completa, em Êxodo 8:32.

E vale saber que o Antigo Testamento tem um caso que repete este ponto por ponto, e com o mesmo assunto em jogo. Em Jeremias 34, com a Babilônia cercando Jerusalém, o rei Zedequias e o povo firmam um pacto e soltam os escravos hebreus. O exército inimigo então se afasta da cidade — e os libertos são trazidos de volta e reduzidos outra vez à servidão. A instituição jurídica por trás disso, a alforria como ato de direito, está tratada no estudo de Êxodo 4:23; o que interessa aqui é só a forma do acontecimento: soltaram sob cerco e retomaram quando o cerco afrouxou. O texto está citado no item 9.

"e não os ouviu"

"Ouvir", nesta construção do hebraico, não é escutar: é obedecer, atender ao que foi pedido. O funcionamento da expressão está tratado no estudo de Êxodo 5:2.

O detalhe curioso é o pronome. "Não os ouviu" — a eles, Moisés e Arão. Só que os dois não estavam lá: saíram do palácio em Êxodo 8:12 e não voltaram.

Quer dizer que a frase não descreve uma conversa. Não houve cena, não houve novo pedido, não houve recusa dita na cara de ninguém. O que o rei não atendeu foi uma exigência já formulada, e o não-atendimento consistiu em não fazer nada.

É a mesma fórmula de Êxodo 7:13 e 7:22, e o Êxodo a usará outras vezes. Ela descreve sempre o mesmo: a exigência continua de pé, e o rei continua onde estava.

"como o SENHOR havia dito"

A última frase tira do episódio qualquer ar de reviravolta.

O que foi dito, e onde? Em Êxodo 4:21, antes de Moisés voltar ao Egito: "eu, porém, tornarei firme o coração dele, e ele não deixará o povo ir". E em Êxodo 7:3-4, na mesma linha. O anúncio é anterior a tudo.

Há um detalhe que vale notar e que quase ninguém repara. O verbo do anúncio não é o verbo do cumprimento. Em Êxodo 4:21 o SENHOR disse que tornaria firme o coração do rei; aqui o coração fica pesado. São raízes diferentes, com imagens diferentes. A fórmula "como o SENHOR havia dito" liga o resultado ao anúncio — não o mecanismo ao mecanismo.

Isso importa para não se ler no versículo mais precisão do que ele tem. O que foi anunciado e cumprido é o desfecho: o rei não deixaria o povo ir. Por qual dos três verbos isso aconteceria, e com qual sujeito, o anúncio não fixou — e o livro, de fato, varia.

Resta o efeito da frase sobre quem lê. Ela é uma advertência de leitura: não trate isto como fracasso da negociação. O capítulo não está contando uma tentativa que deu errado. Está contando o que foi dito que aconteceria.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Único personagem presente. É sujeito de três verbos seguidos — ver, tornar pesado, não ouvir — e é a primeira vez no livro que uma ação do coração dele vem encadeada a uma causa declarada no mesmo versículo.

Também é a primeira vez que ele desfaz uma palavra dada. Em Êxodo 5:2 ele recusou; em Êxodo 7:13 e 7:22 ele não cedeu. Aqui ele tinha prometido, em Êxodo 8:8, e a promessa é desfeita sem que nenhuma palavra sobre ela seja pronunciada.

Moisés e Arão

Ausentes, e mencionados apenas por um pronome: "não os ouviu". Saíram do palácio em Êxodo 8:12 e não são descritos voltando. A recusa acontece sem que eles estejam na sala.

O SENHOR

Aparece no fim do versículo, e não como agente: aparece como quem havia dito. O que ele disse está em Êxodo 4:21 e em Êxodo 7:3-4, antes de a primeira praga começar.

O alívio

Vale como acontecimento, e é o único fato novo do versículo. É o que o rei vê, e é o que o texto aponta como causa do que vem depois.

O que ficou para trás

As rãs mortas, os montes e o cheiro de Êxodo 8:14 não são mencionados aqui. Continuam existindo — o capítulo não diz que foram removidos — e não entram no que o rei vê.

5. Pontos de Ensino

Decisões tomadas sob pressão precisam de algo que as segure

A promessa de Êxodo 8:8 foi feita por um homem com rãs em casa. Não houve juramento, testemunha, penhor nem escrito. Quando a pressão saiu, não sobrou nada segurando a palavra — e ela caiu sozinha.

O ponto não é sobre caráter. É sobre estrutura: uma decisão que depende inteiramente do estado em que foi tomada dura o que durar aquele estado.

O alívio não é a solução

A palavra do original diz folga, espaço, ar. O rei tratou a folga como se fosse o fim do assunto, e o assunto continuava inteiro: o povo continuava no Egito, a exigência continuava de pé e as rãs mortas continuavam empilhadas.

Distinguir o fim do incômodo do fim da questão é o ensinamento mais direto deste versículo, e ele está dito no vocabulário, não numa lição.

O que se vê depende de onde se está

O versículo anterior descreveu o mesmo dia pelo cheiro. Este o descreve pela sensação de quem estava no palácio. A decisão foi tomada a partir da segunda versão.

O que não é dito não foi desfeito

Ninguém anunciou a quebra da promessa. Não houve comunicado, nem discussão, nem recusa dita a alguém. Simplesmente não se fez o que se tinha dito que se faria — e o Êxodo chama isso de não ouvir.

É a forma mais comum de uma palavra dada se perder: sem cena nenhuma.

Não tratar como surpresa o que foi anunciado

A última frase do versículo existe para isso. Quem leu Êxodo 4:21 sabia. O texto não quer que a reversão seja lida como reviravolta.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo mostra uma decisão que não sobreviveu ao fim da dor, e essa é uma das questões mais bem trabalhadas da filosofia prática contemporânea.

O filósofo e cientista social norueguês Jon Elster (1940- ), em Ulisses e as sereias (livro de 1979 sobre racionalidade e irracionalidade), parte da cena da Odisseia em que Ulisses manda amarrar-se ao mastro e tapar com cera os ouvidos dos remadores. O ponto que interessa é o seguinte: Ulisses não confia em si mesmo. Ele sabe que o homem que ouvir o canto vai querer outra coisa, e toma providências contra esse homem — que é ele próprio, poucas horas depois.

Elster chama isso de autovinculação: a pessoa em um estado limita de antemão o que a pessoa em outro estado poderá fazer. E a razão de a autovinculação existir é a constatação que sustenta o argumento: o que alguém quer depende do estado em que está — com fome, com medo, com dor, sem dor. Não é fraqueza moral; é como as preferências funcionam.

Aplicado à cena, o desenho fica nítido. A promessa de Êxodo 8:8 foi feita por um homem sob praga. O cumprimento caberia a um homem sem praga. São estados diferentes, e entre os dois não havia nada: nenhuma amarra, nenhum juramento, nenhum penhor, nenhum terceiro encarregado de cobrar. Faltou o mastro.

Repare que isso não é psicologia do personagem, e é importante que não seja. Não se está dizendo o que Faraó sentiu, se foi sincero em Êxodo 8:8 nem se calculou alguma coisa. Está-se descrevendo a arquitetura da situação: uma decisão inteiramente sustentada por um estado, e nenhum dispositivo que a atravessasse quando o estado mudasse. Numa arquitetura assim, o desfecho deste versículo é o desfecho esperado — quem quer que estivesse no trono.

Uma nota sobre a divisão do assunto. A questão de por que uma promessa feita sob pressão não é confiável para quem a recebe tem tratamento próprio no estudo de Êxodo 8:8. O que se examina aqui é a outra metade: por que ela não vincula quem a fez, depois que a pressão passa.

E o limite habitual. Elster escreve sobre escolha racional e sobre o modo como as pessoas lidam com a própria inconstância; não escreve sobre o Egito antigo, e o Êxodo não formula nada disso. A aproximação é do comentário — o texto se contenta com quatro verbos e uma fórmula.

7. Aplicações Práticas

Não decidir o que vai valer depois de a dor passar

Promessas feitas no auge de um problema — durante a doença, no meio da crise, na véspera do prazo — são feitas por alguém que não vai existir mais quando chegar a hora de cumprir. É a situação deste versículo, e é comuníssima.

A saída prática não é desconfiar de si: é criar o que a cena de Faraó não tinha. Escrever o que foi combinado. Dizer a alguém. Marcar data. Deixar o compromisso fora do próprio alcance, para que ele não dependa de como a gente vai estar no dia.

Olhar o preço do alívio, e não só o alívio

O rei viu a folga e não viu os montes. A decisão dele foi tomada com metade da informação que o próprio capítulo tinha acabado de dar ao leitor.

Em qualquer alívio real — o exame que deu bom, a conta que foi paga, a crise que passou — vale a pena, antes de decidir qualquer coisa, ir ver o que ficou do outro lado.

A promessa que cai sem cena nenhuma

Ninguém desdisse nada. Não houve conversa, não houve aviso, não houve briga. O combinado simplesmente não foi feito.

É assim que a maior parte dos compromissos se perde, e por isso mesmo é difícil perceber quando está acontecendo. A pergunta útil não é "eu voltei atrás?", e sim "o que eu combinei fazer e ainda não fiz?".

Não confundir folga com resolução

A palavra hebraica deste versículo é a de respirar melhor, não a de resolver. Muita decisão ruim nasce de tomar a primeira por segunda: o dinheiro entrou e o orçamento continua errado; a dor parou e a causa continua lá.

Folga serve para uma coisa só, e é boa nisso: dá espaço para tratar do que ainda não foi tratado.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quem tornou pesado o coração de Faraó neste versículo?

O hebraico não diz. A forma verbal empregada aqui é impessoal e não traz sujeito. As traduções escrevem "Faraó endureceu o seu coração", e têm apoio para isso — em Êxodo 8:32, na mesma situação, o texto põe o nome do rei por extenso. Mas, neste versículo, a atribuição é do tradutor, e vale saber disso. O item 10 mostra a construção.

Faraó mentiu quando prometeu, em Êxodo 8:8?

O texto não diz, e esta é a pergunta que mais convida a inventar. O Êxodo não descreve sinceridade nem falsidade, não entra na cabeça do rei e não o acusa de nada. Descreve uma ordem de acontecimentos: ele prometeu com rãs em casa, e não cumpriu depois que elas saíram. Não é possível decidir se houve engano desde o começo ou mudança depois.

O alívio foi real?

Foi, e o texto o diz com o artigo definido: houve o alívio — aquele que tinha sido combinado, na hora marcada pelo próprio rei. Nada no versículo sugere que o atendimento tenha sido parcial ou enganoso. O que ele mostra é o que o rei fez com um atendimento completo.

Se o SENHOR já tinha dito que isso aconteceria, Faraó tinha escolha?

A pergunta é antiga e o versículo não a resolve. O que se pode observar é a distribuição do livro: às vezes é Deus quem age sobre o coração do rei, às vezes é o rei, às vezes o texto não nomeia ninguém — como acontece justamente aqui. O exame dessa alternância está no estudo de Êxodo 4:21, e a honestidade manda dizer que ela não foi resolvida por ninguém em vinte e cinco séculos de leitura.

Moisés e Arão souberam?

O texto não conta. Eles não estão na cena, e o capítulo passa direto para a ordem seguinte, em Êxodo 8:16. Não há reação registrada de nenhum dos dois.

Por que o versículo diz "não os ouviu", se não havia ninguém falando?

Porque a expressão hebraica significa atender, obedecer, e não escutar. A exigência estava feita desde Êxodo 8:1 e continuava de pé; não atendê-la não exigia que alguém a repetisse.

9. Conexão com Outros Textos

Êxodo 8:8 — "Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: 'Supliquem ao SENHOR que tire as rãs de mim e do meu povo, e eu deixarei o povo ir, para que ofereça sacrifícios ao SENHOR.'"

A promessa que este versículo desfaz. Entre uma frase e a outra há sete versículos e um alívio.

Êxodo 4:21 — "...Eu, porém, tornarei firme o coração dele, e ele não deixará o povo ir."

O anúncio a que a fórmula final remete. Note-se que o verbo ali é o de tornar firme, e o deste versículo é o de tornar pesado.

Êxodo 7:13 — "E o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."

A mesma fórmula de fecho, na praga anterior, com outro verbo e sem agente nomeado.

Êxodo 8:32 — "Mas Faraó tornou pesado o seu coração também desta vez, e não deixou o povo ir."

A mesma coisa, no fim do capítulo, com o nome do rei escrito como sujeito. É o versículo que sustenta a leitura corrente deste.

Lamentações 3:56 — "Tu ouviste a minha voz; não escondas o teu ouvido ao meu suspiro, ao meu clamor por alívio."

A única outra ocorrência da palavra traduzida aqui por "alívio". Ali é o que se pede no meio de uma desgraça que continua.

1 Samuel 16:23 — "E acontecia que, quando o espírito vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa e tocava; Saul sentia alívio e melhorava, e o espírito mau se retirava dele."

A mesma raiz, em forma aparentada, para o alívio que vem e vai. Também ali o que se descreve é folga, e não cura.

Salmo 78:34-35 — "Quando os matava, então o procuravam, voltavam e buscavam a Deus de madrugada. Lembravam-se de que Deus era a sua rocha, e o Deus Altíssimo, o seu redentor."

O mesmo desenho, aplicado a Israel e não ao Egito: a busca que aparece sob a aflição e some com ela. O salmo é justamente o que recorda as pragas.

Jeremias 34:10-11 — "Todos os príncipes e todo o povo que entraram no pacto concordaram em deixar ir livres os seus escravos e as suas escravas, e não os manter mais em servidão; obedeceram e os deixaram ir. Mas depois se arrependeram e fizeram voltar os escravos e as escravas que tinham deixado ir livres, e os sujeitaram como escravos e escravas."

O paralelo mais exato que a Bíblia oferece a este versículo: a soltura decidida sob cerco e desfeita quando o cerco afrouxou — e com o mesmo assunto, que é deixar gente ir. A instituição jurídica da alforria está tratada no estudo de Êxodo 4:23.

Juízes 2:18-19 — "...o SENHOR estava com o juiz e os livrava da mão dos inimigos todos os dias do juiz... Mas, morrendo o juiz, voltavam a corromper-se mais do que os pais deles."

O livro dos Juízes constrói um livro inteiro sobre este versículo: a fidelidade que dura o que dura a pressão.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Mas, vendo Faraó que houve alívio, tornou pesado o seu coração e não os ouviu, como o SENHOR havia dito.

Texto hebraico

וַיַּרְא פַּרְעֹה כִּי הָיְתָה הָרְוָחָה וְהַכְבֵּד אֶת־לִבּוֹ וְלֹא שָׁמַע אֲלֵהֶם כַּאֲשֶׁר דִּבֶּר יְהוָה׃

Transliteração

wa-yar Par'oh ki hayetah ha-revachah, we-hakhbed et-libbo we-lo shama alehem, ka-asher dibber YHWH.

Análise palavra por palavra

וַיַּרְא פַּרְעֹה — wa-yar Par'oh, "e viu Faraó".

Raiz ראה, ver, no Qal (a forma simples), terceira pessoa do masculino singular. É o verbo comum de enxergar, e serve também para perceber, constatar, dar-se conta.

Estando na abertura da frase, ele põe tudo o que vem depois na posição de consequência. O hebraico não precisa de "porque": a ordem dos verbos já estabelece a ligação.

כִּי הָיְתָה — ki hayetah, "que houve".

Ki é a conjunção que introduz o que foi visto. Hayetah é o verbo hayah, ser, existir, acontecer, no perfeito, terceira pessoa do feminino singular — concordando com o substantivo seguinte.

הָרְוָחָה — ha-revachah, "o alívio".

Esta é a palavra do versículo, e ela merece o espaço.

Substantivo feminino, com artigo. A raiz é רוח, cujo campo é o da largura e do espaço aberto: ser amplo, ter folga, ganhar respiro. É a mesma raiz de ruach — sopro, vento, espírito —, e a ligação entre as duas ideias é a do ar que circula onde há espaço.

Não é, portanto, uma palavra de solução. É uma palavra de folga. O que o rei vê não é o problema resolvido: é o aperto afrouxado.

A palavra é rara ao extremo. Fora deste versículo, aparece uma única vez em toda a Bíblia Hebraica: em Lamentações 3:56, onde o aflito pede a Deus que não feche o ouvido ao clamor dele por alívio — e onde, convém dizer, a desgraça não termina.

Uma forma aparentada da mesma raiz aparece em mais dois lugares que ajudam a fixar o sentido. Em Gênesis 32:17, Jacó manda pôr "espaço" entre um rebanho e outro — e é o mesmo substantivo, no sentido físico, o de intervalo. Em Ester 4:14, Mardoqueu diz que "alívio e livramento" virão de outro lugar, e ali as duas palavras estão emparelhadas: o alívio é uma coisa, o livramento é outra.

A tradução grega antiga escolheu, para este versículo, uma palavra que significa refresco, arejamento, a pausa em que se respira melhor. O campo é exatamente o do hebraico.

Falta o artigo, e ele não é enfeite. "Houve o alívio" — o esperado, o combinado, aquele que tinha sido marcado para o dia. O texto está dizendo que o acordo foi cumprido à risca.

וְהַכְבֵּד — we-hakhbed, "e tornar pesado".

Raiz כבד, no Hifil (o tronco causativo do hebraico), e na forma chamada de infinitivo absoluto — a forma neutra do verbo, que não traz pessoa, número nem gênero.

Isto é o que é próprio deste versículo, e convém ser exato.

Um infinitivo absoluto usado no lugar de um verbo conjugado é construção conhecida do hebraico, e aparece aqui como aparece em outros textos narrativos. O efeito é que a frase não tem sujeito gramatical. Ao pé da letra: "e um tornar pesado o coração dele".

Quase todas as traduções escrevem "Faraó endureceu o seu coração", e a leitura tem apoio sólido: em Êxodo 8:32 o mesmo acontecimento é narrado com o verbo conjugado e com o nome do rei como sujeito. O que se pede aqui é apenas que o leitor saiba que a atribuição, neste versículo, foi feita pela tradução e não pelo original.

Quanto à raiz: o campo de כבד é o do peso, e por extensão o da importância — o que pesa é o que conta. O sistema dos três verbos que o Êxodo usa para o coração de Faraó, a distribuição deles e a variação de sujeito estão desenvolvidos no estudo de Êxodo 4:21.

אֶת־לִבּוֹ — et-libbo, "o seu coração".

Marcador de objeto direto com lev, coração, mais sufixo de terceira pessoa. O coração hebraico é a sede do pensamento e da decisão, não do sentimento — o que faz da expressão algo mais próximo de "endureceu a sua posição" do que de "ficou insensível".

וְלֹא שָׁמַע אֲלֵהֶם — we-lo shama alehem, "e não os ouviu".

Shama, ouvir, no Qal, perfeito, terceira pessoa do masculino singular, com a negação. Acompanhado desta preposição, o verbo significa atender, obedecer, e não simplesmente escutar; a expressão está tratada no estudo de Êxodo 5:2.

O pronome é plural — "a eles", Moisés e Arão. E os dois haviam saído do palácio em Êxodo 8:12. A fórmula, portanto, não descreve uma conversa recusada: descreve uma exigência não atendida.

כַּאֲשֶׁר דִּבֶּר יְהוָה — ka-asher dibber YHWH, "como o SENHOR havia falado".

Fórmula fixa: preposição ke com o relativo, e o verbo davar, falar, no Piel (forma intensiva), perfeito.

Ela já apareceu, idêntica, em Êxodo 7:13 e 7:22, e vai reaparecer. Aponta para o que foi dito em Êxodo 4:21 e em Êxodo 7:3-4.

E há um desencontro que merece registro. O anúncio de Êxodo 4:21 usou o verbo de tornar firme; este versículo usa o de tornar pesado. A fórmula liga o cumprimento ao anúncio pelo resultado — o rei não deixaria o povo ir —, e não pelo verbo. O Êxodo não considera isso um problema, e o leitor não deve tratar a fórmula como se prometesse identidade de vocabulário.

Uma observação sobre o conjunto

O versículo é construído sobre quatro verbos, e a ordem deles é o argumento inteiro: viu — houve — tornar pesado — não ouviu. Não há adjetivo, não há explicação, não há discurso e não há comentário.

Repare, por fim, no que a frase põe em cada extremidade. Ela começa com o rei vendo e termina com o SENHOR tendo falado. Entre uma coisa e outra está tudo o que o capítulo contou — e o que o rei viu chegou depois do que já tinha sido dito.

11. Conclusão

Do exame acima saem três conclusões.

A primeira, e é a do versículo: a causa da reversão é o alívio. O Êxodo quase nunca explica por que alguém faz o que faz, e aqui explica — encadeando. O rei viu a folga, e então a palavra dada deixou de valer. Não foi a praga que endureceu a posição dele; foi o fim dela. Isso está na ordem das frases e não depende de nenhuma leitura psicológica: a promessa durou exatamente o tempo em que havia rãs na cama.

A segunda: o que foi recebido é menos do que o rei achou que recebeu. A palavra do original não diz "fim do problema": diz espaço, folga, ar. É um termo raríssimo, e a outra vez em que aparece na Bíblia está na boca de alguém que continua na desgraça. O que houve foi um respiro — e a decisão foi tomada como se tivesse havido um desfecho. Os montes de Êxodo 8:14 continuavam no chão, o povo continuava no Egito e a exigência continuava de pé.

A terceira: nada disso é apresentado como surpresa. A fórmula final devolve o episódio inteiro ao que fora anunciado antes de a primeira praga começar. O capítulo não conta uma negociação que fracassou: conta o que tinha sido dito que aconteceria. Quem esperava do texto um momento de reviravolta fica sem ele.

Resta o que o versículo deixa em aberto, e é honesto terminar por aí. Não se diz quem tornou pesado o coração — a forma verbal empregada não tem sujeito, e é preciso ir a Êxodo 8:32 para encontrar a frase completa. Não se diz se a promessa de Êxodo 8:8 era sincera. Não se diz o que o rei pensou, nem se voltou a olhar para fora do palácio. O Êxodo é curto onde a pregação costuma ser longa, e essa economia é parte do que ele tem a dizer.

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📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%