E o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito.
1. Introdução
Êxodo 7:13 fecha o episódio do cajado com três frases curtas, e a primeira delas tem uma particularidade que nenhuma tradução corrente mostra.
O coração de Faraó "ficou firme" — e não há sujeito. Ninguém o endurece. Não é Deus, não é o rei, não é ninguém: o coração é que fica. Compare-se com Êxodo 7:3, dez versículos antes, onde quem fala em primeira pessoa e diz "eu tornarei duro" é Deus.
O texto alterna, e este estudo não vai harmonizar. O sistema completo dos verbos que o Êxodo usa para o coração do rei — e são três, que o português achata num só — pertence ao estudo de Êxodo 4:21, e é lá que a discussão teológica inteira está feita. Aqui trata-se de uma coisa só: esta ocorrência não tem agente, e o item 10 mostra em que forma verbal isso está escrito.
A segunda frase é "e ele não os ouviu" — no plural, e o plural são Moisés e Arão. E há um detalhe curioso: nada foi pedido a Faraó nesta cena. O item 3 examina o que ele deixou de ouvir.
A terceira é "como o SENHOR havia dito", e ela tem endereço exato. O item 3 mostra qual frase do capítulo ela cumpre — e a resposta não é a que se espera.
O item 2 trata de uma ironia que só aparece quando se olha do lado de lá da fronteira: no Egito, firmeza era a virtude do rei, e estava escrita no próprio nome dele.
2. Contexto Histórico e Cultural
No Egito, um rei firme era o que se devia ser
A frase que abre este versículo descreve o rei do Egito com a palavra da firmeza. E há uma coisa que o leitor precisa saber para sentir a estranheza da cena: do lado egípcio, aquilo seria elogio.
O egípcio tinha um verbo para isso: men (em egípcio, "permanecer, durar, estar firme, estabelecer-se"). Não era palavra rara nem técnica. Era uma das ideias centrais do que aquela civilização considerava bom.
Aparece no substantivo menu ("monumento", em egípcio — literalmente "aquilo que dura"), que é como os egípcios chamavam o que um rei construía. Um templo não era um edifício: era uma permanência.
E aparece no nome dos reis
Este é o dado que fecha o quadro.
O soberano egípcio tinha uma série de nomes oficiais, e um deles — o que se costuma chamar de nome de trono — era o mais usado nos documentos. Vários desses nomes foram formados sobre a raiz da firmeza.
Seti I reinou como Menmaatré, algo como "firme é a ordem de Rá". Ramsés I usou Menpehtiré, "firme é a força de Rá". O padrão se repete ao longo dos séculos, com variações do segundo elemento.
Quer dizer: a firmeza não era uma qualidade que um rei egípcio pudesse ter ou não ter. Era parte do nome com que ele governava. Um soberano que cedesse à pressão de dois estrangeiros estaria falhando naquilo que o próprio nome dele afirmava.
O que fazer com isso, e o que não fazer
Convém marcar o limite com clareza, porque aqui é fácil exagerar.
O Êxodo não está traduzindo nenhum epíteto egípcio. A palavra hebraica deste versículo é hebraica, tem história própria dentro da língua e o estudo de Êxodo 4:21 trata dela. Não há como demonstrar que o texto esteja jogando com a titulatura do Egito, e afirmar isso seria hipótese apresentada como dado.
O que se pode afirmar é mais modesto e igualmente útil: a mesma descrição lida em dois lugares produz dois juízos opostos. Na narrativa hebraica, o coração que fica firme é o problema do capítulo. Na ideologia real egípcia, é o que se esperava de quem sentava naquele trono.
Isso não resolve nada e não explica nada. Mas ajuda a não ler a cena como a teimosia de um homem mau. O rei não está sendo excêntrico. Está sendo rei, do jeito que o cargo dele era entendido do lado de dentro.
E o que já está dito em outro lugar
Duas coisas que este item não reabre, porque têm dono.
O coração no Egito — a mumificação, o escaravelho que se punha sobre o peito do morto, a fórmula em que o morto pede ao próprio coração que não testemunhe contra ele — é assunto do estudo de Êxodo 4:21, e quem quiser o quadro deve lê-lo ali.
E o fato de que, em egípcio, ouvir e obedecer eram a mesma ideia, com o funcionário que julga chamado de "aquele que ouve", está no estudo de Êxodo 5:9. Basta reter a frase para a segunda metade deste versículo: quando o texto diz que o rei não os ouviu, o leitor antigo entenderia que ele não os obedeceu.
3. Análise Teológica do Versículo
"E o coração de Faraó ficou firme"
Três palavras em hebraico, e a tradução delas é o trabalho inteiro deste item.
Comece-se pelo que a frase não tem: não tem quem.
Ninguém aparece endurecendo coisa alguma. Não há "e o SENHOR tornou firme". Não há "e Faraó endureceu o próprio coração". O sujeito da frase é o coração, e o que ele faz é ficar firme.
Essa é a diferença que o versículo carrega, e ela só é visível quando se põe ao lado o que o mesmo capítulo já dissera.
Em Êxodo 7:3, dez versículos antes, quem fala é Deus, em primeira pessoa: "Eu, porém, tornarei duro o coração de Faraó". Ali há sujeito, há ação e há autor declarado.
Aqui não há nada disso. O texto descreve um estado, não um ato.
Por que a nossa versão diz "ficou firme"
Quase todas as traduções portuguesas põem "endureceu-se" ou "o coração de Faraó endureceu". A escolha é compreensível e cobra um preço.
O verbo hebraico daqui é o da firmeza, da consistência, do que não cede à pressão — e é a mesma raiz que Êxodo 4:21 usou quando Deus disse que tornaria firme o coração do rei. Nada nela aponta para insensibilidade ou crueldade. Aponta para solidez.
"Endurecer" traz outra imagem e um julgamento embutido. "Ficar firme" traz o que a palavra tem. E, sobretudo, "ficar" conserva o que é decisivo aqui: o verbo é intransitivo. O coração não foi endurecido; ele ficou.
O sistema completo — os três verbos que o Êxodo alterna para o coração do rei ao longo do livro, e o que cada um deles significa — está desenvolvido no estudo de Êxodo 4:21, que é o dono do assunto. Este versículo trata de uma ocorrência só, e do que ela tem de próprio.
A alternância, e por que não se deve resolvê-la
Dito isso, é preciso encarar o que a comparação produz.
No versículo 3, Deus é o sujeito. No versículo 13, não há sujeito. Os dois estão no mesmo capítulo, a dez versículos de distância, e o Êxodo não comenta a diferença.
A tentação — e ela é antiga — é encaixar as duas frases numa explicação só: dizer que Deus endureceu e o texto está registrando o efeito; ou dizer que Faraó endureceu e o versículo 3 é antecipação do que Deus permitiria. As duas saídas existem, as duas têm defensores respeitáveis, e as duas fazem a mesma coisa: acrescentam ao texto a informação que ele recusa a dar.
O honesto é registrar o que está escrito. O Êxodo alterna, e não explica a alternância. Em alguns lugares Deus é o agente, em outros o rei, e aqui não há agente nenhum. Quem quiser sistema terá de construí-lo; o livro não o entrega.
E vale notar uma coisa sobre esta ocorrência em particular: ela é a primeira do livro em que o coração aparece como sujeito de um verbo sem agente. O que vinha antes eram anúncios; este é o primeiro registro de acontecimento.
"e ele não os ouviu"
Aqui há um detalhe pequeno e uma estranheza grande.
O detalhe é o plural. Não os ouviu — a eles, Moisés e Arão. Não é "não ouviu ao SENHOR". A frase põe o rei recusando dois homens.
A estranheza é outra: nada foi dito a Faraó nesta cena.
Volte ao versículo 10. Os dois chegam, Arão joga o cajado, o cajado vira serpente. Nenhuma palavra é registrada. No 11, o rei manda chamar os especialistas. No 12, os cajados são engolidos. Em nenhum desses três versículos há um pedido, uma exigência ou uma frase dirigida ao rei.
De modo que "não os ouviu" não pode se referir a coisa nenhuma dita ali. As leituras possíveis são estas, e nenhuma é conclusiva.
Pode referir-se ao pedido antigo, o de Êxodo 5:1 — "deixe o meu povo ir" —, que continua de pé e nunca foi retirado. A favor: é o único pedido formulado no livro até aqui.
Pode referir-se ao que o sinal dizia sem palavras. Nesse caso "ouvir" estaria sendo usado no sentido largo de atender, dar-se por convencido. A favor: em egípcio e em hebraico, ouvir e obedecer são a mesma ideia — o estudo de Êxodo 5:9 expõe o lado egípcio disso.
Pode ser fórmula. O Êxodo repetirá essa mesma frase várias vezes ao longo das pragas, e é possível que ela funcione como encerramento de episódio, sem apontar para uma fala específica. A favor: é exatamente assim que ela será usada em Êxodo 7:22.
Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o versículo registra uma recusa sem que o texto tenha registrado o pedido correspondente nesta cena.
"como o SENHOR havia dito"
A última frase, e ela merece precisão, porque quase sempre é lida errado.
A fórmula declara que o que acabou de acontecer confere com uma fala anterior. A pergunta é: qual fala?
A resposta que vem à cabeça é o versículo 3 — "eu tornarei duro o coração de Faraó". Mas confira o vocabulário. O versículo 3 fala em tornar duro; este versículo fala em ficar firme e em não ouvir.
E há, dez versículos atrás, uma frase que bate exatamente: Êxodo 7:4 abre com "Faraó não os ouvirá". É a mesma construção, o mesmo verbo, o mesmo objeto no plural.
Ou seja: a fórmula de cumprimento se prende, palavra por palavra, à previsão de que o rei não ouviria — e não à declaração sobre endurecer o coração.
A consequência é fina e vale enunciá-la devagar. Este versículo não diz que Deus fez o que tinha anunciado que faria. Diz que aconteceu o que tinha sido anunciado que aconteceria. A diferença entre as duas coisas é justamente o agente — e o agente é o que a frase não tem.
Convém não ir além disso. Não se está afirmando que o versículo 3 foi esquecido nem que ele não vale. Está-se registrando onde a fórmula encaixa, que é um dado verificável, e o que ela deixa de dizer, que é outro.
O que o versículo faz com o episódio inteiro
Uma última observação, sobre a função da frase no lugar em que ela está.
O episódio do cajado termina aqui, e termina sem consequência. O sinal foi feito, os egípcios repetiram, o cajado de Arão engoliu os deles — e o resultado é que nada mudou.
Repare que o Êxodo não trata isso como fracasso. Não há decepção, não há lamento, não há revisão de método. O livro registra o desfecho com a fórmula de quem constata o esperado, e no versículo seguinte começa outra coisa.
É o primeiro de muitos fechamentos iguais, e o leitor que acompanhar o livro vai reconhecê-lo várias vezes.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
O versículo é sobre ele, e mesmo assim ele não age em nenhuma das três frases.
Na primeira, o sujeito é o coração dele. Na segunda, o verbo é negativo — o que se registra é o que ele não fez. Na terceira, o sujeito é o SENHOR.
Vale reparar: o rei atravessa o versículo inteiro sem um verbo ativo.
É o mesmo soberano de Êxodo 5:2, que perguntou quem era o SENHOR e disse não o conhecer. O Êxodo continua sem lhe dar nome próprio.
Moisés e Arão
Aparecem apenas no pronome: "não os ouviu". Não falam, não reagem e não são descritos.
É o fim da primeira ida deles à corte com um sinal na mão. Saem da cena do mesmo jeito que entraram — sem ter conseguido nada.
O coração
Sujeito gramatical da primeira frase e, neste versículo, quase uma personagem. A palavra hebraica designa a sede do pensamento e da decisão, não a do sentimento; o quadro egípcio e bíblico do coração está no estudo de Êxodo 4:21.
O SENHOR
Aparece só na última frase, e no passado: como quem tinha dito alguma coisa, não como quem faz alguma coisa aqui.
É a única menção divina em todo o bloco que vai do versículo 10 ao 13 — quatro versículos de ação em que o nome de Deus aparece uma vez, e num verbo de falar.
O que acabou de acontecer
Três versículos de cena: o cajado jogado, os especialistas convocados, os cajados engolidos. Este versículo é o fecho, e não retoma nada disso — não menciona cajado, não menciona serpente, não menciona mago.
O que vem depois
O versículo seguinte muda de lugar e de assunto. O Êxodo não diz quanto tempo passou, não diz se Moisés e Arão foram mandados embora, e não descreve a saída deles da sala.
5. Pontos de Ensino
O texto não diz quem endureceu
É o ponto do versículo e vale insistir nele, porque a leitura corrente o preenche sem perceber.
A frase não tem agente. O coração fica firme, e o Êxodo não informa por obra de quem. Dez versículos antes, o mesmo capítulo tinha dito que Deus o tornaria duro. As duas frases convivem, e o livro não as concilia.
Quem pretende ter uma doutrina fechada sobre isso está construindo, e deve saber que está. O material do texto é alternância, não sistema.
A fórmula de cumprimento aponta para o não ouvir
"Como o SENHOR havia dito" encaixa, palavra por palavra, na previsão de Êxodo 7:4 — que Faraó não ouviria. Não na declaração do versículo 3 sobre o coração.
É diferença pequena e consequente: o versículo confirma um resultado anunciado, e não a autoria dele.
Um episódio inteiro sem consequência
O sinal foi feito, foi repetido pelo outro lado e teve o desfecho que teve. E no fim nada mudou.
O Êxodo não trata isso como derrota nem revisa o plano. Vale notar o que esse fecho ensina sobre o livro: ele não mede os acontecimentos pelo efeito que produzem em quem assiste.
Firmeza não é, em si, virtude nem defeito
A mesma palavra que aqui descreve o problema é, do outro lado da fronteira, o que se esperava de um rei — o item 2 mostra a raiz da firmeza escrita no nome dos soberanos egípcios.
É um ponto de leitura útil para muito além deste versículo: a mesma qualidade muda de sinal conforme o que ela sustenta. Não ceder é virtude quando o que se defende merece; é o contrário quando não merece. O texto não faz esse comentário, mas monta a cena em que ele se impõe.
Uma recusa sem pedido registrado
O versículo diz que o rei não os ouviu, e nesta cena ninguém lhe pediu nada. O que ele recusou, portanto, está fora do que o texto narrou aqui.
É um bom lembrete de como a narrativa bíblica funciona: ela conta por blocos, e nem sempre repete o que já disse. O pedido continua de pé desde Êxodo 5:1.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo põe uma questão que a linguagem levanta antes da teologia: o que muda quando se descreve uma mudança sem nomear quem a causou?
"O coração de Faraó ficou firme" é uma frase de estado. Ela registra que alguma coisa passou a ser de um jeito, e não diz por obra de quem. A língua permite isso e usa o tempo todo — "a porta emperrou", "o preço subiu", "a conversa esfriou".
O efeito é conhecido e tem consequências práticas. Uma frase sem agente não atribui responsabilidade a ninguém. Ela descreve, e ao descrever suspende a pergunta sobre a causa. Quem lê fica com o fato e sem o responsável.
Há duas maneiras de ler isso, e as duas são legítimas.
Numa, a ausência de agente é discrição: o texto não quer dizer de quem foi porque não quer entrar nesse assunto, e deixa a frase no ponto em que ela é verificável. Numa cena em que o mesmo capítulo já atribuiu a coisa a Deus e o livro adiante a atribuirá ao rei, a construção sem sujeito funciona como recusa de escolher.
Noutra, a ausência de agente é a descrição correta do que se passa numa decisão. Quem decide raramente sente que está decidindo — sente que a coisa ficou daquele jeito. A frase sem sujeito pode não estar escondendo nada: pode estar registrando a experiência de quem endurece sem notar que endureceu.
Nenhuma das duas é demonstrável a partir do texto, e este item não escolhe. O que fica é a observação: a forma da frase é parte do que ela diz, e nesta frase a forma deixa um buraco no lugar do autor.
7. Aplicações Práticas
Firmeza é uma qualidade sem sinal próprio
A aplicação de relação real deste versículo vem da palavra que o abre.
Não ceder é elogiado em quase todo discurso sobre caráter — constância, determinação, não voltar atrás. E o versículo mostra o mesmo traço do lado em que ele arruína: um homem que não cede a nada continua sendo um homem que não cede a nada, e a diferença está inteiramente no que ele está segurando.
Na prática, isso significa que a pergunta útil não é "sou firme?", e sim "firme em quê?". Quem se orgulha de nunca mudar de posição não está descrevendo uma virtude; está descrevendo um mecanismo que funciona igual para o acerto e para o erro.
Ouvir e atender são a mesma coisa
A segunda metade do versículo registra que o rei não os ouviu — e não há notícia de que tenha tapado os ouvidos. Ele estava lá, viu tudo, e não atendeu.
A aplicação é direta e incômoda. Dizer "eu ouvi você" depois de não fazer nada com o que se ouviu é, na prática, o mesmo que não ter ouvido. Quem pede é capaz de perceber a diferença entre ser escutado e ser atendido, e não se consola com a primeira.
Quando o resultado não vem e o trabalho continua
A terceira aplicação é sobre quem executou. Moisés e Arão fizeram o que foi mandado, o outro lado repetiu, o cajado engoliu — e o rei não se moveu.
O Êxodo não registra desânimo nem revisão de estratégia. Isso não é um elogio à teimosia: é o registro de que, em certos trabalhos, o resultado de um dia não é a medida do trabalho. Quem confunde as duas coisas abandona no primeiro desfecho igual a este.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Afinal, quem endureceu o coração de Faraó?
Neste versículo, ninguém — e é isso que ele tem de próprio. A frase não tem agente. Dez versículos antes, Deus dissera que o tornaria duro; adiante no livro, o próprio rei aparecerá como sujeito. O Êxodo alterna e não explica, e a discussão teológica completa é do estudo de Êxodo 4:21.
Não é a mesma palavra do versículo 3?
Não. São verbos hebraicos diferentes, e a nossa versão os distingue de propósito: "duro" lá, "firme" aqui. O português corrente traduz os dois por "endurecer" e apaga a diferença. O item 10 mostra a forma de cada um.
O que exatamente Faraó não ouviu?
Nada foi pedido a ele nesta cena — do versículo 10 ao 12 não há uma palavra dirigida ao rei. As leituras possíveis estão no item 3, e não é possível decidir entre elas.
"Como o SENHOR havia dito" — dito onde?
Em Êxodo 7:4, com as mesmas palavras: "Faraó não os ouvirá". A fórmula encaixa na previsão do não ouvir, e não na declaração do versículo 3 sobre o coração. A diferença é pequena no texto e grande no que se pode concluir.
Se o resultado já estava anunciado, o sinal foi inútil?
O texto não diz que foi. E convém notar que ele nunca prometeu efeito: a ordem de Êxodo 7:9 disse o que o cajado faria e calou sobre o que o rei faria. Permanece em aberto para que serviu, e o livro não responde neste ponto.
O rei está sendo teimoso ou está sendo rei?
O item 2 mostra que, na ideologia egípcia, firmeza era o que se esperava de quem ocupava aquele trono — a ponto de a raiz da palavra entrar no nome de reinado de vários soberanos. Isso não desculpa nada e não é afirmação do Êxodo; é contexto, e ajuda a não reduzir a cena a um defeito de caráter.
Por que o episódio termina sem ninguém comentar?
Porque é assim que o Êxodo fecha os episódios das pragas, e este é o primeiro fechamento do tipo. A fórmula volta em Êxodo 7:22 quase sem alteração. Se a repetição é recurso de composição ou registro de acontecimentos iguais, o texto não permite decidir.
9. Conexão com Outros Textos
A frase que este versículo cumpre
Êxodo 7:4 — “Faraó não os ouvirá; então porei a minha mão sobre o Egito e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos.”
É a previsão exata, com o mesmo verbo e o mesmo objeto no plural. A fórmula de cumprimento deste versículo encaixa aqui, e não no versículo 3.
A declaração com Deus por sujeito, no mesmo capítulo
Êxodo 7:3 — “Eu, porém, tornarei duro o coração de Faraó e multiplicarei os meus sinais e os meus prodígios na terra do Egito.”
Dez versículos antes, primeira pessoa e verbo diferente. Ler as duas frases lado a lado é o modo de ver a alternância que o Êxodo não resolve.
O anúncio original, ainda em Midiã
Êxodo 4:21 — “E o SENHOR disse a Moisés: ‘Quando você voltar ao Egito, veja que faça diante de Faraó todos os prodígios que pus na sua mão. Eu, porém, tornarei firme o coração dele, e ele não deixará o povo ir.”
Ali está a mesma raiz hebraica deste versículo — firme —, mas com Deus como sujeito. É o estudo daquele versículo que trata do sistema inteiro.
O pedido que continua de pé
Êxodo 5:1 — “Depois disso, Moisés e Arão foram a Faraó e disseram: ‘Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Deixe o meu povo ir, para que me celebre uma festa no deserto.’”
É o único pedido formulado ao rei até aqui, e nunca foi retirado. É a candidata mais provável ao que ele "não ouviu".
A recusa que abriu a disputa
Êxodo 5:2 — “Mas Faraó respondeu: ‘Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.’”
O verbo de ouvir já estava ali, na boca do próprio rei, e ligado à condição de obedecer. Este versículo registra que a posição não mudou.
O mesmo fecho, nove versículos adiante
Êxodo 7:22 — “Mas os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas; e o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito.”
A frase volta quase idêntica depois da praga. O que muda entre uma e outra, e o que isso significa, é assunto do estudo daquele versículo.
A mesma raiz, aplicada a quem obedece
Josué 1:9 — “Não lhe ordenei eu? Seja forte e corajoso; não tema nem se espante, porque o SENHOR, seu Deus, está com você por onde você andar.”
A palavra da firmeza aparece no Antigo Testamento como ordem e como bênção. Não é, em si, termo de censura — o que ela vale depende do que sustenta.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito.
Texto hebraico
וַיֶּחֱזַק לֵב פַּרְעֹה וְלֹא שָׁמַע אֲלֵהֶם כַּאֲשֶׁר דִּבֶּר יְהוָה׃
Transliteração
wa-yechezaq lev Par'oh we-lo shama alehem, ka'asher dibber YHWH.
Análise palavra por palavra
וַיֶּחֱזַק — wa-yechezaq, "e ficou firme".
Aqui está o versículo inteiro, e a forma do verbo é tudo.
A raiz é chazaq: ser forte, ser firme, ter consistência. É a mesma de Êxodo 4:21, e o estudo daquele versículo trata do campo de sentido dela e do sistema dos três verbos que o Êxodo alterna para o coração do rei.
O que é próprio daqui é a forma, e a diferença é grande.
Em Êxodo 4:21 o verbo está na forma intensiva do hebraico — o Piel —, e ali ele é causativo: achazzeq, "eu farei firme". Tem sujeito, tem objeto e tem autor: Deus faz alguma coisa ao coração de outra pessoa.
Aqui o verbo está na forma simples do hebraico, o Qal, e nesta raiz o Qal é intransitivo. Não é "tornar firme": é ficar firme, estar firme, endurecer-se por si. Não há objeto direto na frase, e não há como haver: o verbo, nesta forma, não admite um.
Ou seja, a diferença não é de ênfase nem de estilo. É gramatical, e ela elimina o agente por construção. A frase, no hebraico, não tem lugar para quem endureceu.
Foi por isso que a nossa versão pôs "ficou firme" e não "endureceu-se". "Ficou" carrega as duas coisas ao mesmo tempo: a firmeza da raiz e a intransitividade da forma.
Um registro de método, para não exagerar: o Qal intransitivo não afirma que ninguém causou a coisa. Ele apenas não diz quem causou. A língua está descrevendo um estado, e o silêncio sobre a causa é silêncio — não é negativa.
לֵב פַּרְעֹה — lev Par'oh, "o coração de Faraó".
Construção de posse direta do hebraico, dois substantivos encostados. E lev é o sujeito da frase: quem fica firme é o coração, e não o homem.
Vale a nota, porque o português esconde isso. Uma tradução como "Faraó endureceu o coração" põe o rei como sujeito e o coração como objeto — exatamente o contrário do que o hebraico faz. Aqui o rei é genitivo, não sujeito.
Sobre o que lev designa — a sede do pensamento e da decisão, não a do sentimento —, e sobre o lugar do coração na cultura egípcia, o estudo de Êxodo 4:21 é o dono do assunto.
וְלֹא שָׁמַע — we-lo shama, "e não ouviu".
Raiz shama, ouvir. E, como em egípcio, o hebraico usa o mesmo verbo para ouvir e para obedecer — é o verbo da ordem central de Deuteronômio 6:4, "ouve, Israel", onde "ouvir" nunca significou apenas captar um som.
A forma é o perfeito simples, terceira pessoa masculina. O sujeito muda em relação à frase anterior: ali era o coração, aqui é o rei.
Convém reparar no que a negação faz. O texto não escreve que ele recusou, que se opôs ou que respondeu. Escreve que não ouviu — e a única coisa que a frase registra do rei, em todo o versículo, é um verbo negativo.
אֲלֵהֶם — alehem, "a eles".
A preposição el com sufixo de terceira pessoa do plural masculino.
Este é um detalhe pequeno e consequente: o plural são Moisés e Arão, não Deus. O hebraico constrói "ouvir a alguém" com esta preposição, e o objeto do não ouvir são os dois homens que estavam na sala.
Se o texto quisesse dizer que ele não ouviu ao SENHOR, teria o nome divino ali — como, aliás, Êxodo 5:2 tem, na boca do próprio rei: "para que eu ouça a sua voz".
כַּאֲשֶׁר דִּבֶּר יְהוָה — ka'asher dibber YHWH, "como o SENHOR havia dito".
Fórmula de conformidade, e o verbo dela merece nota.
Ka'asher é "conforme", "segundo o que" — a mesma partícula que o versículo 10 usou para dizer que Moisés e Arão fizeram conforme fora ordenado. Lá o verbo era tsavah, ordenar; aqui é dabar, falar, na forma intensiva.
A troca é coerente com o que cada frase faz. O versículo 10 mede obediência contra uma ordem. Este mede um acontecimento contra uma fala — e uma fala que era previsão, não mandado. Ninguém tinha ordenado a Faraó que não ouvisse.
E resta a questão de qual fala. A candidata natural é Êxodo 7:4, que abre com we-lo yishma alekhem Par'oh, "e não ouvirá a vocês Faraó" — o mesmo verbo, a mesma preposição, o mesmo plural, mudando apenas o tempo. A correspondência é literal.
Já o versículo 3, que fala em tornar duro o coração, usa outra raiz — qashah — e não tem o verbo de ouvir. A fórmula deste versículo não bate com ele.
Isso é observação de vocabulário e não fecha nenhuma questão teológica. Mas é verificável, e nenhuma tradução portuguesa permite ao leitor fazer a conferência, porque todas achatam as raízes.
O versículo inteiro, e o que ele não tem
Sete palavras em hebraico. Três frases. E, somando tudo:
Um sujeito que é um órgão. Um verbo intransitivo que dispensa agente. Um verbo negativo cujo sujeito é o rei. E uma fórmula que remete a uma fala anterior sem repeti-la.
Em nenhuma das sete palavras há alguém fazendo alguma coisa ao coração de Faraó. É esse o dado, e ele não é conclusão do comentarista: é o que a gramática permite e o que ela não permite.
11. Conclusão
Do que foi exposto, quatro conclusões.
Primeira: esta ocorrência não tem agente, e a ausência é gramatical. O verbo está na forma simples do hebraico, que nesta raiz é intransitiva e não admite objeto — não há como pôr um autor na frase sem reescrevê-la. Isso não afirma que ninguém tenha causado coisa alguma; afirma que o texto não diz quem.
Segunda: o Êxodo alterna, e não se deve harmonizar por ele. Dez versículos antes, Deus fala em primeira pessoa e diz que tornará duro. Aqui o coração fica firme sozinho. As duas frases estão no mesmo capítulo e o livro não as concilia — quem as concilia está acrescentando. A discussão completa dos três verbos é do estudo de Êxodo 4:21.
Terceira: a fórmula de cumprimento aponta para o não ouvir. "Como o SENHOR havia dito" corresponde, palavra por palavra, à previsão de Êxodo 7:4, e não à declaração do versículo 3. O versículo confirma um resultado anunciado; sobre a autoria dele, cala.
Quarta: o episódio do cajado termina sem consequência, e o livro não trata isso como derrota. Não há lamento, não há revisão, não há explicação. A fórmula fecha a cena e o capítulo segue — e é o primeiro de vários fechamentos iguais.
O que não se conclui daqui: o que exatamente o rei deixou de ouvir, se a firmeza foi dele ou posta nele, e por que o texto muda de agente de um versículo para outro. As três coisas são levantadas por este versículo e nenhuma é resolvida por ele.













