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Êxodo 7:12

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 34 acessos
cada um jogou o seu cajado, e eles viraram serpentes; mas o cajado de Arão engoliu os cajados deles.
No piso de um salão egípcio, várias serpentes lançadas ao chão e, entre elas, um único cajado de madeira de pé; os outros cajados já não estão ali.

Estudo


cada um jogou o seu cajado, e eles viraram serpentes; mas o cajado de Arão engoliu os cajados deles.

1. Introdução

Êxodo 7:12 é o versículo que resolve o empate do anterior — e resolve num lugar onde ninguém estava olhando.

A primeira metade repete o feito dos egípcios com um detalhe novo: cada um jogou o seu. Não foi ato coletivo nem demonstração de um representante; foram vários homens, vários cajados, várias serpentes.

A segunda metade é a frase que o capítulo vinha preparando. O cajado de Arão engole os deles. E convém dizer desde já o que ela não diz: não diz que o dele era maior, nem mais forte, nem mais verdadeiro. Diz o que ele fez com os outros.

A diferença, portanto, não está em poder fazer. Os dois lados fizeram. A diferença está no que sobra depois — e o que sobra é um objeto só.

Há ainda uma estranheza de vocabulário que quase toda tradução conserva sem chamar atenção: a frase fala em cajados engolindo cajados, embora os cajados já fossem serpentes. O item 3 examina isso; o item 10 mostra a forma exata do verbo. E o item 2 trata do que os egípcios entendiam por aquilo que estavam fazendo ali — uma coisa que tinha nome próprio e até um deus.

2. Contexto Histórico e Cultural

O Egito tinha uma palavra para aquilo — e um deus com esse nome

Para entender por que o versículo não precisa desqualificar os egípcios, convém saber o que eles achavam que estavam fazendo.

O egípcio chamava aquilo de heka (em egípcio, o termo que se costuma traduzir por "magia", mas que designava antes uma força disponível no mundo). E a palavra não era abstrata: Heka era também o nome de um deus, representado em forma humana e cultuado em Esna, entre outros lugares.

Isso muda o desenho da coisa. Onde o leitor moderno imagina um truque ou uma transgressão, o egípcio via um recurso — algo que existia desde a criação, que os deuses usavam, que o rei possuía por ofício e que homens treinados podiam manejar.

Uma força, não um pacto

Vale insistir nesse ponto, porque ele é a diferença entre o mundo do versículo e a categoria com que costumamos lê-lo.

Na compreensão egípcia, heka não era obtida por acordo com nenhuma potência. Não havia contrato, não havia entrega de alma, não havia lado escolhido. Era uma propriedade do mundo, como a força do vento ou a corrente do rio, e quem soubesse operá-la operava.

Nos textos funerários escritos no interior dos caixões do Reino Médio — os chamados Textos dos Sarcófagos — há passagens em que o morto, ou um ser divino, se identifica com essa força e fala em primeira pessoa. A ideia que atravessa esses textos é a de um poder criado no princípio e posto à disposição.

E por isso não era pecado

Decorre daí uma consequência que o leitor precisa carregar para o versículo: no Egito não havia infração moral em fazer o que os magos fizeram.

Não era crime, não era heresia, não era desvio. Era competência. O sacerdote que recitava no templo e o homem que rezava contra picada de escorpião estavam na mesma linha de trabalho, com diferenças de formação e de acesso a texto.

É por isso que o capítulo não mostra nenhum constrangimento na corte. Ninguém acusa ninguém. O rei manda chamar quem faz aquilo, e quem faz aquilo faz.

A distância em relação a Israel

Convém marcar o contraste, porque ele é grande e o próprio livro o marcará adiante.

Na legislação de Israel, a mesma atividade não é tratada como técnica: é tratada como deslealdade. O motivo não é que ela não funcione — é que ela põe o homem diante de uma força que ele opera, em vez de diante de alguém a quem ele pede. O estudo de Êxodo 7:11 expõe o vocabulário legal, e o de Gênesis 30:27 trata da proibição da adivinhação em geral.

Não se pode afirmar que o Êxodo esteja pensando nessa distinção neste versículo. O texto não a enuncia. O que se pode afirmar é que a oposição do capítulo não é montada entre técnica boa e técnica má, e que os egípcios não estão sendo julgados aqui pelo que sabiam fazer.

O instrumento, e o que significa perdê-lo

Resta uma nota prática, e ela é a razão de o versículo terminar como termina.

O bastão era ferramenta de ofício. O estudo de Êxodo 7:9 traz o objeto concreto — o bastão de cobre em forma de naja achado na caixa de um profissional, sob o Ramessêum —, e o ponto aqui é outro: ferramenta se guarda, se transmite e se repõe com dificuldade.

Quando o versículo diz que os cajados dos egípcios foram engolidos, ele não está dizendo que eles perderam uma disputa. Está dizendo que saíram da sala sem o que trouxeram. O texto não comenta isso, e não descreve reação nenhuma — mas o dado material está na frase.

3. Análise Teológica do Versículo

"cada um jogou o seu cajado"

O hebraico diz, ao pé da letra, "e jogaram cada homem o seu cajado". A expressão individualiza, e a individualização é o dado.

Não houve um representante do Egito. Não houve gesto coletivo, nem objeto único passado de mão em mão. Eram vários homens, cada um com a sua ferramenta, e cada um fez o que Arão tinha feito.

Isso aumenta o que o versículo anterior já tinha registrado. Ali o texto disse que fizeram o mesmo; aqui mostra o tamanho da coisa. O que Arão fez uma vez, a corte do Egito fez em várias mãos ao mesmo tempo.

E repare no verbo: é o mesmo de Arão, o mesmo de Êxodo 4:3 — o verbo áspero de arremessar, largar fora. O Êxodo não muda o vocabulário quando muda de lado.

"e eles viraram serpentes"

A mesma construção de transformação do versículo 9 e do versículo 10, agora no plural, e com a mesma palavra.

Este é o ponto em que a maior parte das leituras tenta fazer alguma coisa, e o texto não deixa. Não há adjetivo que diminua, não há advérbio que relativize, não há verbo que sugira aparência. O Êxodo escreve dos egípcios exatamente o que escreveu de Arão, palavra por palavra, e a única diferença entre as duas frases é o número.

Quem quiser sustentar que as serpentes deles eram de outra natureza precisa dizer que está acrescentando, porque a frase não permite.

"mas o cajado de Arão engoliu os cajados deles"

Aqui está o versículo, e ele merece ser lido devagar, porque muda o terreno da discussão.

Repare no que a frase não faz.

Não diz que a serpente de Arão era maior. Não diz que era mais forte. Não diz que era real e as outras não. Não diz que Deus interveio, e não nomeia Deus em lugar nenhum do versículo.

Diz uma coisa só: o objeto de Arão fez desaparecer os outros.

A diferença que o capítulo estabelece, portanto, não é de capacidade. Os dois lados produziram. A diferença é do que acontece depois que os dois lados produziram — e ela é uma diferença de subtração, não de superioridade demonstrada.

É um modo estranho de ganhar uma disputa, e vale dizê-lo com todas as letras: no fim do versículo há menos coisas na sala do que no começo. O que resta é um cajado.

A palavra "cajado", que já não deveria estar ali

E agora a estranheza que quase toda leitura atravessa sem notar.

A frase diz que o cajado de Arão engoliu os cajados deles. Não diz "a serpente dele engoliu as serpentes deles".

Mas a frase anterior acabara de dizer que os cajados dos egípcios viraram serpentes, e o versículo 10 dissera o mesmo do de Arão. No momento da ação, pela letra do texto, não havia cajado nenhum na sala: havia répteis.

As leituras possíveis são três, e nenhuma se impõe.

Numa, o texto chama os objetos pelo nome de sempre, independentemente da forma que tivessem naquele instante — como se continua dizendo "o meu carro" de um veículo desmontado. É a leitura mais simples, e o hebraico narrativo faz isso com frequência.

Noutra, houve reversão antes. Rashi (Rabi Salomão ben Isaac, comentarista judeu francês do século XI) lê exatamente assim: o cajado de Arão teria voltado a ser cajado, e só então engolido os outros — o que, para ele, torna o feito maior, porque um pau engolindo paus é mais desconcertante do que uma cobra comendo cobras. A leitura resolve o vocabulário, mas acrescenta um passo que o versículo não narra.

Numa terceira, a troca é do próprio texto e não deve ser desfeita. O Êxodo alternaria de propósito entre o nome do objeto e o nome do bicho, deixando o leitor sem saber exatamente o que estava vendo — o que combina com um capítulo que se recusa a explicar o que aconteceu.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que a palavra escrita ali é "cajado", nas duas pontas da frase, e que nenhuma tradução portuguesa corrente a troca — o estranhamento é do original.

O verbo, e quem já o tinha ouvido

O verbo hebraico de engolir tem dono no acervo: é o de Gênesis 41:7, onde as espigas magras engolem as cheias no sonho do rei do Egito, e o estudo daquele versículo trata do campo de sentido da palavra.

O que é próprio daqui é a coincidência, e ela é do texto: a palavra que descreve a perda dos egípcios neste versículo é a mesma que um rei do Egito, no Gênesis, viu em sonho e não conseguiu interpretar. Lá o que engolia era a escassez; aqui é um pedaço de pau.

Convém marcar o limite: o Êxodo não faz essa ligação e não dá sinal de tê-la em mente. É observação de quem lê os dois livros, não afirmação do texto.

O que o versículo deixa sem dizer

Quatro ausências, e todas na mesma direção.

Não há reação dos magos. Perderam os instrumentos e o texto não registra protesto, susto ou explicação.

Não há reação do rei. Ele agirá no versículo seguinte, e o que fará não é comentar isto.

Não há comentário de Moisés ou de Arão. Nenhum dos dois diz "viram?".

E não há interpretação. O Êxodo não escreve o que aquilo significava. Deixa o fato e segue.

Essa recusa é constante em todo o episódio, e é ela que faz do capítulo uma leitura difícil: o livro conta o que houve e não ensina o que concluir.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os magos do Egito

Neste versículo eles aparecem no plural e em ação individual: "cada um jogou o seu cajado". O texto não diz quantos eram e não nomeia ninguém.

É a última vez que fazem alguma coisa nesta cena. Saem dela sem uma palavra registrada e sem os cajados.

Arão

Não age neste versículo. Quem age é o cajado dele.

Isso merece nota: a frase tem como sujeito um objeto. Arão está presente por posse — "o cajado de Arão" —, e não por verbo.

Os cajados

São o verdadeiro elenco do versículo. Vários de um lado, um do outro; todos jogados no chão, todos transformados, e no fim só um de pé.

Eram ferramenta de trabalho para os egípcios e objeto de uso comum para Arão. O que era um cajado naquele mundo está no estudo de Êxodo 4:17.

Faraó

Presente e sem ação. O rei mandou chamar no versículo anterior e vai reagir no seguinte; neste, o Êxodo não o menciona.

A corte

Continua na sala, desde Êxodo 7:10, e continua sem falar. O que aconteceu aconteceu diante dela.

O lugar e o tempo

A mesma audiência, sem interrupção indicada. O Êxodo não diz quanto tempo passou entre a convocação dos especialistas e a chegada deles — a narrativa corre como se tudo fosse seguido, mas o texto não afirma que foi.

O que já tinha acontecido

Dois versículos antes, o cajado de Arão virara serpente diante do rei. Um versículo antes, os especialistas egípcios haviam sido convocados e tinham feito o mesmo. Este versículo é a terceira cena seguida no mesmo lugar.

5. Pontos de Ensino

A diferença não é conseguir fazer

É o ponto do versículo e o ponto do capítulo. Os dois lados produziram o mesmo efeito, e o texto não desmente nenhum dos dois.

O que distingue aparece depois, e num terreno que a competência dos egípcios não alcança. Quem monta a defesa da fé na exclusividade do prodígio está defendendo uma coisa que o Êxodo não afirma — e, pior, deixando de ver o argumento que ele de fato faz.

Um resultado feito de subtração

O versículo não termina com uma demonstração maior. Termina com menos objetos na sala.

Vale reparar na estranheza disso. Numa disputa de força, espera-se que o vencedor mostre mais. Aqui o vencedor faz o do outro desaparecer, e a prova é a ausência.

Perder o instrumento é diferente de perder a discussão

Os magos não foram refutados. Não houve argumento, não houve desmentido, não houve humilhação verbal.

Eles ficaram sem os cajados. Num ofício em que o bastão era ferramenta, isso é concreto, e o Êxodo o registra sem explicar o que significa.

O texto não interpreta o próprio episódio

Nenhuma frase do versículo diz o que aquilo provou. Não há moral, não há conclusão, não há "e assim ficou claro que".

É um traço que se repete no Antigo Testamento e que vale conhecer: o relato entrega o fato e deixa a leitura por conta de quem lê. Quem acha que a Bíblia sempre explica o que quer dizer não leu com atenção nem um capítulo inteiro.

Vários de um lado, um do outro

A frase põe uma quantidade contra uma unidade — "cada um" o seu, contra "o cajado de Arão".

O Êxodo não faz disso nenhuma lição sobre maioria e minoria, e seria forçar o texto atribuir-lhe isso. Mas a assimetria está na frase e é visível a olho nu.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe um problema de critério: como se distingue entre duas coisas que produzem o mesmo efeito?

A resposta instintiva é procurar uma diferença dentro do próprio efeito — dizer que um é mais forte, mais real, mais bem feito. É o caminho que quase toda a tradição de comentário tomou, e é o caminho que o texto não oferece: ele descreve os dois lados com as mesmas palavras.

O que o capítulo faz é trocar o terreno. Em vez de comparar os dois resultados entre si, mostra o que um faz com o outro. A diferença deixa de ser uma propriedade de cada coisa e passa a ser uma relação entre elas.

Vale notar o preço dessa escolha. Um critério assim só aparece depois — não é possível aplicá-lo olhando para os dois cajados no chão, antes de um engolir o outro. Quem estivesse na sala naquele instante não teria como decidir nada, e é exatamente por isso que o rei pôde mandar chamar os seus técnicos com naturalidade.

Há uma consequência incômoda e honesta: a distinção que o versículo estabelece não é um teste que alguém possa fazer. Ela é um acontecimento. Quem procura na cena uma regra para separar o verdadeiro do falso sai de mãos vazias, e o Êxodo não parece achar isso um defeito.

7. Aplicações Práticas

Quando a diferença não está no que você faz

A aplicação de relação real vem da estrutura do versículo: dois lados fazem a mesma coisa, e o que os separa aparece depois, em outro plano.

Isso acontece o tempo todo em trabalho. Duas propostas entregam o mesmo; dois profissionais têm o mesmo currículo; dois produtos fazem a mesma função. Gastar energia tentando provar que o seu é melhor naquilo em que os dois são iguais é o erro mais comum — e é inútil, porque quem olha de fora vê a igualdade.

O que serve é o que o capítulo faz: parar de comparar no terreno em que há empate e olhar para o que resta depois de algum tempo. Quase sempre a diferença real é essa, e ela não é visível no dia da demonstração.

O silêncio de quem perdeu

Os magos ficam sem os cajados e o texto não registra uma palavra deles. Nem justificativa, nem protesto, nem pedido de nova chance.

Não há como saber o que houve ali — o texto não diz. Mas o registro serve de espelho: a reação mais comum a uma perda pública é falar demais sobre ela, e falar não devolve a ferramenta.

Um limite

O versículo não traz aplicação sobre disputa espiritual, sobre confronto com o mal ou sobre superioridade de fé. Ele não trata disso, e o texto não usa nenhuma dessas categorias. Estender por aí é acrescentar o que não está.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o cajado já era serpente, por que o texto diz que o cajado engoliu?

Esta é a pergunta boa do versículo, e ela não tem resposta fechada. Três leituras cabem, e o item 3 as expõe — incluindo a de Rashi, que supõe uma reversão não narrada. Não é possível decidir, e o estranhamento está no hebraico, não na tradução.

As serpentes dos magos eram de verdade?

O texto as descreve com as mesmas palavras que usou para a de Arão, e não estabelece diferença de natureza. Quem afirma que eram de outra espécie de coisa está acrescentando informação ao versículo.

Por que o Êxodo não diz que Deus fez o cajado engolir?

Não se sabe. O nome divino não aparece neste versículo — o sujeito da frase é um objeto. É mais um dos silêncios do episódio, e permanece em aberto.

Isso prova alguma coisa?

O texto não diz que provou. Não há frase de conclusão, e o próprio capítulo mostrará, no versículo seguinte, que o rei não mudou de posição. Se o episódio tinha função de prova, ela não produziu o efeito que uma prova produz.

Os magos ficaram sem os cajados para sempre?

O versículo diz que foram engolidos e não fala em devolução. E os especialistas egípcios reaparecem mais adiante no livro fazendo o seu trabalho — o Êxodo não explica como, e não parece considerar isso uma pendência.

Por que ninguém reage, outra vez?

É a terceira cena seguida sem reação registrada. O capítulo conta gestos e não conta rostos. Se é economia de escrita ou observação sobre a corte, o texto não permite decidir.

Qual é, então, a diferença entre os dois lados?

Pela letra do versículo: o que o cajado de Arão fez com os outros. Nada além disso é afirmado — e o leitor que quiser mais precisa saber que está pondo de si.

9. Conexão com Outros Textos

O verbo, no sonho de outro rei do Egito

Gênesis 41:7 — “E as sete espigas mirradas engoliram as sete espigas cheias e graúdas. Faraó acordou, e eis que era um sonho.”

É o mesmo verbo hebraico, e o estudo daquele versículo é o dono do campo de sentido dele. A coincidência é do vocabulário: lá o que engolia era a escassez; aqui, um pedaço de pau.

O rei recontando o mesmo verbo

Gênesis 41:24 — “E as espigas mirradas engoliram as sete espigas boas. Contei isso aos magos, mas não houve quem me explicasse.”

Vale pela junção dos dois elementos: o verbo de engolir e os magos do Egito, na mesma frase, séculos antes desta cena.

O gesto original, com uma palavra diferente

Êxodo 4:3 — “E disse: ‘Jogue-o no chão.’ Ele o jogou no chão, e o cajado virou uma cobra; e Moisés fugiu dela.”

O mesmo verbo de arremessar que os egípcios usam aqui. A diferença de vocabulário entre aquele bicho e o deste capítulo está no estudo de Êxodo 7:9.

O feito de Arão, na frase que esta repete

Êxodo 7:10 — “Moisés e Arão foram a Faraó e fizeram como o SENHOR havia ordenado: Arão jogou o seu cajado diante de Faraó e dos seus servos, e ele virou uma serpente.”

Ler as duas lado a lado é o modo de ver que o Êxodo não distingue os dois lados no vocabulário. A única diferença entre as frases é o número.

O mesmo verbo, com a terra como sujeito

Números 16:32 — “E a terra abriu a sua boca e os engoliu, com as suas casas, e todos os homens que eram de Corá, e todos os seus bens.”

A palavra aparece em contextos de desaparecimento, e não de alimentação. É o mesmo verbo do peixe que traga Jonas.

O verbo e a palavra do capítulo, na mesma frase

Jeremias 51:34 — “Nabucodonosor, rei da Babilônia, devorou-me, esmagou-me, deixou-me como um vaso vazio; engoliu-me como um monstro, encheu o ventre com as minhas delícias e me lançou fora.”

Ali estão juntos o verbo de engolir e a palavra que o Êxodo usa para o que o cajado se tornou. É o único lugar do Antigo Testamento em que as duas coisas aparecem coladas, e a imagem é de um rei estrangeiro.

O mesmo verbo, com a morte por objeto

Isaías 25:8 — “Ele engolirá a morte para sempre; e o Senhor DEUS enxugará as lágrimas de todos os rostos, e tirará de toda a terra o opróbrio do seu povo, porque o SENHOR o disse.”

O uso mais forte da palavra na Bíblia hebraica, e o que mostra o perfil dela: o que é engolido não fica em lugar nenhum.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

cada um jogou o seu cajado, e eles viraram serpentes; mas o cajado de Arão engoliu os cajados deles.

Texto hebraico

וַיַּשְׁלִיכוּ אִישׁ מַטֵּהוּ וַיִּהְיוּ לְתַנִּינִם וַיִּבְלַע מַטֵּה־אַהֲרֹן אֶת־מַטֹּתָם׃

Transliteração

wa-yashlikhu ish mattehu wa-yihyu le-tanninim; wa-yivla matteh-Aharon et-mattotam.

Análise palavra por palavra

וַיַּשְׁלִיכוּ — wa-yashlikhu, "e jogaram".

O mesmo verbo dos versículos 9 e 10, e o mesmo de Êxodo 4:3, na forma causativa do hebraico: arremessar, atirar, largar fora. A diferença é o número — aqui é plural.

Vale o registro, porque é o tipo de coisa que passa: o Êxodo não reserva um verbo para Arão e outro para os egípcios. É o mesmo, na mesma forma.

אִישׁ מַטֵּהוּ — ish mattehu, "cada homem o seu cajado".

Construção característica do hebraico e digna de nota.

Ish é "homem", "cada um". Posta assim, depois de um verbo no plural, a palavra distribui a ação: o grupo fez, e cada integrante fez a sua parte com o que era dele. O português resolve com "cada um", e perde a palavra "homem" que está no original.

O efeito é individualizar. A frase não descreve uma demonstração coletiva; descreve várias demonstrações simultâneas.

Mattehu é matteh, cajado, com sufixo de terceira pessoa do singular — e o singular é deliberado: cada um jogou o dele. É exatamente a mesma palavra e a mesma forma que o versículo 10 usou para o cajado de Arão.

וַיִּהְיוּ לְתַנִּינִם — wa-yihyu le-tanninim, "e viraram serpentes".

A mesma construção de transformação usada nos versículos 9 e 10 — o verbo "ser" mais a preposição le, "ser para", isto é, tornar-se —, agora no plural.

E o substantivo é o mesmo, no plural: tanninim. O campo semântico da palavra está desenvolvido no estudo de Êxodo 7:9, e o que importa aqui é o que não muda: o Êxodo emprega para o resultado dos egípcios a mesmíssima palavra que empregou para o de Arão.

Não há qualificativo, não há diminutivo, não há marca de aparência. As duas frases são idênticas menos no número.

וַיִּבְלַע — wa-yivla, "e engoliu".

A raiz é bala, e o estudo de Gênesis 41:7 é o dono dela — lá está o perfil da palavra no restante da Bíblia hebraica, que é constante e nada tem de doméstico.

O que é próprio deste versículo é a forma, e ela merece atenção.

O verbo está no singular. Um sujeito só, engolindo um objeto plural. E está na forma simples do verbo hebraico (o Qal), não numa forma intensiva: a língua não reforça nada aqui. É o verbo comum, na forma comum, sem ênfase.

Some-se a isso o que o versículo faz com a ordem das palavras: o verbo vem primeiro, e o sujeito só aparece depois dele. Ao pé da letra, a frase é "e engoliu — o cajado de Arão — os cajados deles". O leitor hebraico recebe a ação antes de saber quem a praticou, e isso é o ritmo normal da narrativa hebraica, não um efeito especial.

מַטֵּה־אַהֲרֹן — matteh-Aharon, "o cajado de Arão".

Aqui está a estranheza, e ela é do original.

A palavra é matteh: cajado. Não tannin, não serpente. O texto acabara de dizer, no versículo 10, que aquele objeto tinha virado serpente, e agora o chama de cajado ao descrever o que ele faz.

Repare que não é descuido de tradução: qualquer versão portuguesa conserva "cajado" aqui, porque é o que está escrito. E a construção é a de posse direta do hebraico — dois substantivos encostados, "cajado-de-Arão", sem preposição no meio.

אֶת־מַטֹּתָם — et-mattotam, "os cajados deles".

A partícula et marca o objeto direto e não se traduz. Aqui ela tem função prática, como sempre que há dois substantivos iguais em volta de um verbo: é ela que informa quem engoliu quem. Sem ela, a frase teria cajado de um lado, cajados do outro, e um verbo no meio.

E mattotam é outra vez matteh, agora no plural com sufixo: os cajados deles. Ou seja, a mesma palavra aparece três vezes no versículo — no "cada um o seu", no "de Arão" e no "deles".

Três ocorrências de "cajado", numa frase em que, pela narrativa, não havia cajado nenhum. As leituras possíveis estão no item 3, e nenhuma delas se impõe.

O que a frase não tem

Um último registro, e é o mais consequente.

O nome divino não aparece neste versículo. Nem YHWH, nem Elohim, nem verbo com Deus por sujeito. O único sujeito ativo da segunda metade é um objeto de madeira com nome de dono.

Isso não autoriza concluir coisa alguma sobre quem fez o que — o capítulo inteiro vem de uma ordem divina, e o leitor sabe disso. Mas convém notar a escolha de escrita: no instante em que o episódio se decide, o Êxodo não nomeia Deus.

11. Conclusão

Do que foi exposto, quatro conclusões.

Primeira: o Êxodo descreve os dois lados com as mesmas palavras. Mesmo verbo de jogar, mesma construção de transformação, mesmo substantivo para o que apareceu no chão. A única diferença entre a frase de Arão e a dos egípcios é o número. Qualquer leitura que ponha as serpentes deles numa categoria inferior está acrescentando ao texto.

Segunda: a distinção que o capítulo faz é de relação, não de qualidade. Não se diz que um era maior, mais forte ou mais real. Diz-se o que um fez com os outros. E o resultado é uma subtração: no fim do versículo há um objeto na sala onde havia vários.

Terceira: essa distinção não serve de teste. Ninguém que estivesse ali, olhando os cajados no chão antes do desfecho, teria como separar um lado do outro. O critério do versículo só existe depois do acontecimento — e é por isso que o rei pôde mandar chamar os seus técnicos sem constrangimento algum.

Quarta: o texto não interpreta o que narrou, e não nomeia Deus no momento em que a coisa se decide. Não há moral, não há conclusão, não há sujeito divino na frase. O Êxodo entrega o fato e deixa o leitor com ele — o que é coerente com um capítulo que, do começo ao fim, se recusa a explicar o que aconteceu naquela sala.

O que não se conclui daqui: por que o texto volta a chamar de cajado o que já era serpente, o que os magos fizeram em seguida, e o que a corte entendeu. As três coisas são levantadas pelo versículo e nenhuma é resolvida por ele.

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