📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 7:11

›
✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 26 acessos
Então Faraó chamou também os sábios e os feiticeiros; e os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas:
Homens de cabeça raspada e faixa cruzada no peito, segurando rolos de papiro abertos, diante de cajados caídos no piso de um salão egípcio.

Estudo


Então Faraó chamou também os sábios e os feiticeiros; e os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas:

1. Introdução

Êxodo 7:11 é o versículo mais desconfortável do capítulo, e a maior parte das leituras trata de contorná-lo. O que ele diz é simples: os especialistas egípcios fizeram o mesmo.

O texto não diz que foi truque. Não diz que a serpente deles era falsa e a de Arão verdadeira. Não diz que houve engano, ilusão ou ajuda demoníaca. Registra a repetição em meia linha e passa adiante — e a defesa que o leitor moderno espera encontrar ali nunca foi escrita.

Quatro coisas para observar.

A primeira é que o rei convoca duas categorias e uma terceira executa. Sábios e feiticeiros são chamados; quem age são os magos. O item 3 examina se são três grupos ou dois.

A segunda é uma palavra que a lei de Israel vai tratar como crime capital quinze capítulos adiante, no mesmo livro — e que aqui aparece sem uma sílaba de condenação.

A terceira é o termo traduzido por "artes ocultas". O Êxodo o escreve de dois jeitos diferentes ao longo dos capítulos das pragas, e só neste versículo usa a grafia que se liga à palavra de chama. O item 10 mostra a diferença.

A quarta é a profissão em si. O item 2 trata dos sacerdotes leitores egípcios — a classe cuja função era ler em voz alta, de um rolo aberto na mão, as palavras exatas de um ritual.

2. Contexto Histórico e Cultural

O homem que lia

O Egito tinha um cargo para quem executava ritual, e o nome do cargo diz o que ele fazia: kheri-heb (em egípcio, aproximadamente "o que leva o rolo da festa"). Costuma-se traduzir por sacerdote leitor, e a tradução é boa, porque a função era essa mesma — ler.

Não improvisar. Não intuir. Não receber inspiração. Ler, em voz alta, as palavras certas, na ordem certa, do texto certo.

Nas imagens de túmulo e de templo ele é reconhecível de longe por um detalhe: aparece segurando um rolo de papiro aberto nas duas mãos, ou enrolado sob o braço. Em várias representações traja uma faixa cruzada no peito, que era marca do ofício. Onde há cerimônia — funeral, oferenda, procissão, fundação de templo —, há um desses ao lado, com o texto na mão.

Por que a leitura era o ponto

Isto é o que separa o ofício egípcio da imagem que a palavra "mágico" evoca hoje.

No entendimento egípcio, a eficácia estava nas palavras e na correção com que fossem ditas. Uma fórmula pronunciada errado não era uma fórmula fraca: era outra coisa. Daí a insistência no texto escrito, no rolo aberto durante o ato e no arquivo onde os rolos eram guardados.

O sacerdote leitor de mais alto posto de um templo administrava esse arquivo. Era ele o responsável pelos textos de ritual da casa. A oficina de templo onde os rolos eram copiados e conservados tem tratamento próprio no estudo de Gênesis 40:8, e não se reabre aqui.

Não era clandestino, e não era vergonhoso

Este é o ponto que mais custa ao leitor moderno, e é preciso dizê-lo com todas as letras.

O ofício era oficial. Fazia parte da estrutura do templo, tinha hierarquia, tinha títulos e tinha carreira. Um sacerdote leitor não era um charlatão tolerado à margem: era funcionário do culto do Estado. E o mesmo homem que oficiava no templo prestava serviço a particulares — recitava em funerais e em ritos de proteção para quem pagasse.

Ou seja: quando o rei do Egito manda chamar essa gente, ele não está recorrendo ao submundo. Está convocando o pessoal técnico da casa, do mesmo modo como convocaria um médico ou um escriba do tesouro.

A palavra hebraica e a função egípcia não são a mesma coisa

Convém marcar o limite com cuidado, porque aqui é fácil escorregar.

O termo hebraico que a nossa versão traduz por "magos" tem origem discutida e provável ligação com o ofício egípcio dos rolos. A palavra em si, a história dela e a distribuição no cânon estão tratadas no estudo de Gênesis 41:8, que é o dono do assunto, e não se repetem.

O que se pode afirmar é modesto e suficiente: a palavra hebraica designa gente de corte estrangeira ligada a texto sagrado, e o ofício egípcio que melhor corresponde a essa descrição é o do sacerdote leitor. Que as duas coisas se recubram exatamente, não é possível decidir — e egiptólogos discutem as propostas de origem sem chegar a acordo.

Duas categorias antes dessa

O versículo nomeia mais gente, e as duas primeiras categorias têm fundo diferente.

Os sábios são os escribas de carreira, conselheiros e administradores — a gente formada no gênero egípcio das "Instruções", em que um funcionário experiente ensina o aprendiz a se comportar, a falar diante de superiores e a administrar. O saber deles vinha de observação e experiência, e o estudo de Gênesis 41:8 expõe a distinção entre esse grupo e o pessoal do templo.

Os feiticeiros são outra coisa, e o termo hebraico aqui não é egípcio: é a palavra que a legislação de Israel usará para um ofício proibido. O item 10 trata dela.

O que a corte fez, tecnicamente

Uma última observação de fundo, e ela precisa de guarda-corpo.

Perguntar "como eles fizeram aquilo?" é a pergunta natural, e o Êxodo não a responde. Não descreve procedimento, não menciona objeto, não indica gesto. Diz que fizeram o mesmo e nomeia o meio com uma palavra só.

Há propostas em circulação — que teriam usado najas manipuladas, que teriam trocado objetos por bichos, que o efeito seria de destreza manual. Nenhuma delas vem do texto, e voltaremos a elas no item 3, porque quem as propõe são os comentaristas e vale saber de quem é cada uma. Aqui basta o registro de fundo: o Egito tinha profissionais formados para produzir efeito ritual, e o versículo diz que eles foram chamados e produziram.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Faraó chamou também os sábios e os feiticeiros"

A primeira palavra que importa é "também".

O hebraico tem uma partícula para isso, e a usa duas vezes neste versículo — uma na convocação e outra na execução. O rei chamou também; eles fizeram também. O item 10 mostra onde. O efeito é que o próprio texto sublinha a correspondência: não é o comentarista que aproxima os dois lados, é a frase.

E repare no verbo. Faraó chama. Não discute, não pergunta, não acusa de fraude. A reação do rei ao cajado que virou serpente é administrativa: manda buscar quem faz aquilo.

Isso diz alguma coisa sobre como a cena foi entendida dentro dela. O rei não trata o sinal como impossível. Trata como item de competência profissional, e vai atrás dos seus profissionais.

Três palavras, e talvez só dois grupos

O versículo nomeia três categorias: sábios, feiticeiros, magos. E a estrutura da frase é estranha.

Quem é chamado são os sábios e os feiticeiros. Quem faz são os magos do Egito, que aparecem sem terem sido convocados na frase anterior.

Duas leituras cabem.

Numa, "os magos do Egito" é o resumo das duas categorias já nomeadas — o modo de dizer "esse pessoal todo", com o termo mais conhecido. A favor: é o termo que o Êxodo continuará usando sozinho no resto dos capítulos das pragas, e as outras duas palavras não voltam.

Noutra, são três grupos distintos, e o texto registra que os dois primeiros foram chamados enquanto o terceiro é quem efetivamente atuou. A favor: as três palavras são diferentes e o hebraico as separa.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o texto acumula nomes — e o acúmulo tem efeito: a resposta do rei mobiliza tudo o que o Egito tinha de gente treinada.

"os feiticeiros" — a palavra que o próprio livro vai proibir

Aqui está uma das coisas mais notáveis do versículo, e ela costuma passar sem comentário.

O termo hebraico traduzido por "feiticeiros" é o mesmo de Êxodo 22:18, quinze capítulos adiante neste mesmo livro: "A feiticeira não deixarás viver." É a pena capital, na forma mais curta que a lei de Israel conhece.

E aqui a palavra aparece sem uma sílaba de reprovação. O Êxodo não acrescenta "os malditos", não acrescenta "os que enganam o povo", não acrescenta advertência nenhuma. Nomeia a categoria como se nomeasse qualquer outro corpo de funcionários.

Vale ser preciso sobre o que isso mostra e o que não mostra. Não mostra que o Êxodo aprove a atividade — o mesmo livro a condena expressamente. Mostra que, ao contar o que aconteceu no Egito, o texto descreve antes de julgar. A condenação está no lugar dela, que é o código de leis, e não na narrativa.

É um traço de escrita que aparece em muitos lugares da Bíblia hebraica e que a pregação corrente costuma apagar, antecipando o julgamento para dentro da cena. O Êxodo não faz isso aqui.

A proibição da adivinhação em geral, com Levítico 19:26 e Deuteronômio 18:10, tem tratamento próprio no estudo de Gênesis 30:27.

"e os magos do Egito fizeram o mesmo"

Esta é a frase do versículo, e não há como suavizá-la.

Fizeram o mesmo. Não "tentaram". Não "pareceram fazer". Não "fingiram fazer". O hebraico usa o verbo comum de fazer e o advérbio "assim" — a mesma construção que o versículo anterior usou para dizer que Moisés e Arão fizeram como o SENHOR havia ordenado.

É exatamente a mesma fórmula, aplicada aos dois lados, com um versículo de distância.

O que os comentaristas fazem com isso, e de quem é cada leitura

Vale expor, porque a tradição de comentário é quase unânime em não aceitar a frase como está — e o leitor tem direito de saber que a explicação que ouviu não vem do texto.

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) sustenta que a palavra traduzida por "artes ocultas" implica aparência enganosa, ilusão, truque de prestidigitador, e não exercício de poder.

Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) descreve o ato dos egípcios nos mesmos termos.

Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) os chama de malabaristas e enganadores, e registra, junto com Josefo, que aquilo apenas parecia ter acontecido — embora também recolha a opinião de que teria havido auxílio demoníaco.

O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) propõe reconstituição concreta: os magos teriam levado najas previamente entorpecidas, rígidas ao ponto de parecerem varas, e as teriam despertado ao jogá-las.

A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) vai pela mesma estrada e lembra a técnica de encantadores de serpentes, que obtêm rigidez do animal por pressão na nuca.

Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) admitem as duas portas: encantamento de serpentes, ou prodígios mentirosos operados por um poder adversário.

Agora o que é preciso dizer, e é do próprio texto.

Nenhuma dessas explicações está no Êxodo. Nenhuma. O livro não usa palavra de engano, não descreve procedimento, não distingue entre o efeito de Arão e o dos egípcios, não chama os magos de fraudadores e não atribui a nada nem a ninguém o que eles conseguiram.

As reconstituições são hipóteses de comentarista, montadas para resolver um desconforto que o texto não demonstra ter. São leituras respeitáveis e antigas; não são dados. E convém notar o que elas custam: para preservar a exclusividade do sinal de Arão, precisam acrescentar ao versículo uma informação que ele não dá.

A régua do livro nunca foi a capacidade

Se o Êxodo não se incomoda com a repetição, é porque ele nunca apoiou o argumento onde o leitor moderno o apoia.

Deuteronômio 13:2-4 é explícito nisso: um sinal ou prodígio pode acontecer nas mãos de quem chama para outro deus, e ainda assim deve ser rejeitado. A lei considera a hipótese do prodígio bem-sucedido e não a trata como impossível. Trata como insuficiente.

Quer dizer: dentro da própria Bíblia, conseguir fazer nunca foi credencial. Quem chega a Êxodo 7:11 esperando que o sinal prove alguma coisa por ser inimitável chega com uma expectativa que o Antigo Testamento não sustenta.

"com as suas artes ocultas"

A última expressão do versículo, e ela nomeia o meio sem descrevê-lo.

A palavra hebraica é rara e o Êxodo a escreve de duas maneiras diferentes ao longo dos capítulos seguintes — aqui de um jeito, nos demais de outro. Só nesta ocorrência a grafia é a que se liga à palavra de chama, de labareda. O item 10 expõe a diferença e o que é possível concluir dela, que é pouco.

Para o item 3 basta o sentido: o termo aponta para o que é coberto, escondido, feito sem que se veja como. É a palavra de quem observa de fora e não sabe o mecanismo — o que é exatamente a posição do texto em relação ao que aconteceu ali.

E o que o versículo deixa de fora

Três ausências, e as três são informação.

Não há avaliação. O texto não diz que o feito dos egípcios foi menor, mais lento, imperfeito ou de outra natureza.

Não há reação. Nem do rei, nem da corte, nem de Moisés, nem de Arão. Ninguém protesta, ninguém explica, ninguém desmente.

Não há explicação teológica. O Êxodo não diz de onde vinha o que os magos faziam. Não atribui a demônio, não atribui a ilusão, não atribui a permissão divina. Simplesmente não trata do assunto.

O livro reserva a diferença para o versículo seguinte, e a diferença não estará no poder fazer. Estará no que acontece depois que os dois lados fizeram.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os sábios

Escribas de carreira, conselheiros, administradores — o corpo de funcionários formado na tradição egípcia de sabedoria prática. É a mesma categoria que Faraó convocou em Gênesis 41:8 diante dos sonhos, e que não deu conta.

Convém notar: são chamados e não reaparecem. O versículo não diz que fizeram coisa alguma.

Os feiticeiros

Categoria nomeada por palavra hebraica, e não por termo de origem egípcia. É o ofício que Êxodo 22:18 punirá com a morte na legislação do mesmo livro.

Aqui aparecem sem julgamento e, como os sábios, não voltam a ser mencionados.

Os magos do Egito

Os que agem. O termo hebraico e a classe estão tratados no estudo de Gênesis 41:8. São eles que continuarão aparecendo no resto dos capítulos das pragas, sempre com esse nome.

É o mesmo grupo que, naquele capítulo do Gênesis, foi chamado diante de dois sonhos e não teve resposta. Aqui têm.

Faraó

Age pela primeira vez desde o começo do episódio, e a ação é uma convocação. Não fala — o Êxodo não registra nenhuma palavra dele neste versículo.

Os nomes que a tradição posterior deu a eles

O Êxodo não nomeia nenhum dos especialistas egípcios. A tradição judaica posterior nomeou dois, e os nomes chegaram ao Novo Testamento: Janes e Jambres, citados em 2 Timóteo 3:8 como os que resistiram a Moisés.

Os dois nomes circulam em textos judaicos anteriores àquela carta, e um deles aparece, numa forma parecida, em autor romano do século I. Não há como saber de onde a tradição veio, e ela não está no Êxodo: o livro conta o episódio inteiro sem dar nome a ninguém do lado egípcio.

Quem não aparece

Moisés e Arão continuam na sala e o versículo não os menciona. Não reagem, não falam, não são consultados. Estão presentes por estarem na cena anterior e na seguinte.

O lugar

A mesma sala do versículo 10, com a mesma corte. Os convocados chegam até ela; o texto não descreve a espera nem a entrada.

5. Pontos de Ensino

O texto não defende o sinal de Arão

O primeiro ponto de ensino é de método, e é o mais difícil de aceitar.

Quando os especialistas egípcios repetem o feito, o Êxodo não intervém. Não explica, não desqualifica, não protege. Deixa a frase de pé.

Quem lê a Bíblia esperando que ela sustente as próprias posições do jeito que nós as sustentaríamos vai tropeçar aqui a cada leitura. O livro é mais seguro do que os seus defensores — não precisa negar o que o outro lado conseguiu.

O que consegue fazer não é, por isso, verdadeiro

Este é o critério do próprio Antigo Testamento, e ele está escrito em Deuteronômio 13:2-4: o prodígio pode acontecer e ainda assim ser rejeitado, porque o que se julga é para onde ele chama.

A aplicação atravessa três milênios sem esforço. Capacidade de produzir efeito não é argumento sobre a verdade da mensagem — vale para o prodígio da corte egípcia e vale para qualquer demonstração de força posta como prova de razão.

A reação do rei é administrativa

Faraó não discute nem se assusta. Manda chamar gente. É a resposta de quem tem estrutura e a aciona.

E ela funciona no curto prazo: o problema é neutralizado antes de virar problema. Vale notar o preço disso, porque o capítulo vai cobrá-lo — resolver depressa é também deixar de examinar.

Descrever não é aprovar

O Êxodo nomeia uma categoria que a lei do mesmo livro pune com a morte, e a nomeia sem adjetivo.

É um traço de leitura que serve para todo o Antigo Testamento: a narrativa bíblica descreve com frequência o que ela não endossa, e sem avisar o leitor. Quem toma toda cena narrada como aprovação implícita lê mal quase todo o Gênesis e boa parte do Êxodo.

A diferença está adiante, não aqui

O versículo termina com os dois lados empatados, e é assim que o texto quer que fique por uma linha.

Quem parar aqui sai com a impressão de que nada distingue o sinal de Arão. O Êxodo põe a distinção no versículo seguinte, e ela não será sobre quem pode fazer.

6. Aspectos Filosóficos

A pergunta errada

Diante deste versículo, a pergunta que todo mundo faz é: funcionou mesmo?

O antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014, nascido no Sri Lanka, professor em Harvard, com pesquisa de campo na Tailândia e no Sri Lanka) dedicou boa parte da obra a mostrar por que essa não é a pergunta certa — e por que insistir nela torna o ato ritual incompreensível.

O argumento está reunido em Magic, Science, Religion, and the Scope of Rationality ("Magia, ciência, religião e o alcance da racionalidade", conferências publicadas em 1990) e vinha de ensaios anteriores dos anos 1960 e 1970 sobre o poder das palavras no ritual.

Atos que se fazem, não frases que descrevem

A tese central de Tambiah é que o rito mágico é um ato performativo: alguma coisa que se faz, e não uma afirmação sobre o mundo que possa ser verdadeira ou falsa.

Uma afirmação se julga por ser verdadeira ou falsa. Um ato se julga por outra régua: saiu bem ou saiu mal. Foi executado pela pessoa certa? Com as palavras certas? Na ordem certa? No lugar e no momento em que devia ser executado? Essas são as perguntas que se fazem a um ato — e são as mesmas que um casamento, uma sentença ou uma posse respondem.

Aplicar a um rito a régua do verdadeiro e do falso, diz Tambiah, é trocar a medida. É como perguntar se um juramento é verdadeiro: um juramento não é verdadeiro nem falso, é válido ou inválido.

Contra a magia como ciência mal feita

Tambiah construiu isso contra a explicação que dominou o século XIX e boa parte do XX: a de que a magia seria uma ciência primitiva, um erro de raciocínio sobre causas, a tentativa desastrada de fazer o que a técnica faz.

Essa explicação, argumentou ele, nunca conseguiu dar conta de um fato simples: os praticantes continuam praticando, geração após geração, sem que o suposto fracasso os demova. Se fosse hipótese sobre causas, a hipótese teria sido abandonada. Não é hipótese sobre causas.

E Tambiah também não aceitou o caminho oposto, o de reduzir o rito a puro símbolo sem pretensão de eficácia. Ele insistiu que os ritos são construídos por analogia persuasiva: transferem uma qualidade de um modelo para um destinatário — o que se quer que aconteça é encenado com aquilo que já tem a propriedade desejada. O ato não descreve nem apenas simboliza. Ele opera, na régua dele.

O que isso ilumina no versículo

Os sacerdotes leitores egípcios eram profissionais de execução correta. O item 2 mostra o retrato: o rolo aberto na mão, as palavras exatas, a ordem exata. A régua da profissão era, ponto por ponto, a que Tambiah descreve — o ato saiu bem ou saiu mal.

E é exatamente aí que o Êxodo os encontra e — este é o ponto — não contesta. O texto registra que fizeram o mesmo, e não discute a execução. O que ele faz é outra coisa: muda de assunto. No versículo seguinte, a diferença aparecerá num lugar em que a competência dos egípcios não tem o que dizer.

Tambiah, note-se, escreveu sobre ritual em geral e nunca sobre este capítulo. Trazê-lo para cá é movimento do comentarista, não do texto — e serve para uma coisa só: mostrar que a pergunta "funcionou?" é importada de fora, e que o Êxodo não a faz.

7. Aplicações Práticas

Quando o outro lado também consegue

A aplicação de relação real deste versículo é a situação em que alguém descobre que o que fazia de melhor não é exclusivo.

Acontece em qualquer ofício. O argumento que parecia decisivo é usado pelo adversário; a técnica que distinguia a casa aparece na concorrência; o resultado que se apresentava como prova de competência é obtido por quem não tem a mesma competência.

A reação instintiva é a dos comentaristas do item 3: dizer que o do outro não é igual, que é imitação, que é truque. Às vezes é verdade. Muitas vezes não é — e insistir nisso gasta tempo e credibilidade.

O que o capítulo faz é mais útil: não discute a igualdade e vai procurar a diferença em outro lugar. Isso, sim, é transferível — quando a vantagem deixou de existir, o trabalho não é provar que ela existe; é encontrar qual é a nova.

Resolver depressa não é examinar

A segunda aplicação vem da reação do rei. Ele não pergunta nada. Aciona a estrutura, o problema some da mesa, e o assunto se encerra.

É uma competência real, e o capítulo vai mostrar o custo dela. Quem tem sempre uma resposta pronta para o que aparece raramente chega a considerar o que apareceu. A eficiência em neutralizar é inimiga da atenção.

Um limite

O versículo não traz aplicação sobre ocultismo, sobre práticas espirituais ou sobre discernimento de espíritos — ele não trata disso e não diz nada a respeito. Estender por aí seria pôr no texto o que ele não tem.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Os magos realmente transformaram os cajados?

O texto diz que fizeram o mesmo, e não diz mais nada. Não descreve como, não avalia o resultado e não estabelece nenhuma diferença de natureza em relação ao de Arão.

As explicações que circulam — ilusão, destreza manual, najas entorpecidas, auxílio demoníaco — são todas de comentaristas, e o item 3 diz de quem é cada uma. Nenhuma é demonstrável a partir do versículo.

Por que o Êxodo não os desmente?

Não se sabe. O que se pode observar é que o livro nunca apoiou o argumento na exclusividade do feito: Deuteronômio 13:2-4 considera expressamente a hipótese do prodígio bem-sucedido em mãos erradas. Se o critério nunca foi "quem consegue fazer", desmentir não era necessário.

De onde vinha o que eles conseguiam?

O texto não diz, e este é um silêncio que vale respeitar. Não atribui a demônio, não atribui a fraude, não atribui a permissão divina, não atribui a técnica. A pergunta é do leitor e permanece em aberto.

Se a lei de Israel manda matar feiticeiro, por que o versículo os nomeia sem condenar?

Porque narrativa e lei fazem coisas diferentes no mesmo livro. Êxodo 22:18 é legislação para Israel; este versículo é relato do que havia numa corte estrangeira. O Êxodo descreve sem julgar, e o julgamento está no lugar próprio dele.

Os sábios e os feiticeiros fizeram alguma coisa?

O versículo diz que foram chamados e atribui o feito aos magos. Se "os magos do Egito" resume os convocados ou nomeia um terceiro grupo, não é possível decidir — as duas leituras cabem na frase.

Por que a corte não reage?

Não há reação registrada em nenhum dos dois lados, e é a segunda vez seguida que isso acontece no capítulo. O Êxodo conta o empate e não anota o efeito dele em ninguém.

Este empate anula o sinal?

O versículo termina empatado de propósito, e a resposta do livro está no próximo. Quem para aqui não viu o argumento do Êxodo — mas convém dizer desde já que o argumento dele não será sobre capacidade.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma gente, chamada antes, e sem resposta

Gênesis 41:8 — “Pela manhã, o seu espírito estava perturbado; então mandou chamar todos os magos e todos os sábios do Egito. Faraó lhes contou os seus sonhos, mas não havia quem os interpretasse para ele.”

As mesmas duas categorias, o mesmo verbo de mandar chamar, e a mesma corte. Lá não deram conta; aqui dão.

O rei recontando o próprio fracasso

Gênesis 41:24 — “E as espigas mirradas engoliram as sete espigas boas. Contei isso aos magos, mas não houve quem me explicasse.”

O termo dos magos na boca do próprio soberano, e no registro de uma derrota profissional. É o antecedente que o leitor do Êxodo carrega para esta cena.

A lei do mesmo livro, quinze capítulos adiante

Êxodo 22:18 — “A feiticeira não deixarás viver.”

A mesma raiz hebraica do termo deste versículo, agora como objeto de pena capital. A distância entre uma frase e outra é a distância entre narrativa e legislação.

A lei que recusa ao prodígio o poder de credenciar

Deuteronômio 13:2-3 — “Se se levantar no meio de você um profeta ou um sonhador de sonhos, e lhe der um sinal ou um prodígio, e se cumprir o sinal ou o prodígio de que lhe falou, dizendo: ‘Vamos após outros deuses, que você não conheceu, e sirvamos a eles’, você não ouvirá as palavras daquele profeta.”

É a passagem que torna o versículo 11 suportável sem inventar explicação: a Bíblia já contava com prodígios que se cumprem do lado errado.

A mesma classe, noutra corte estrangeira

Daniel 2:2 — “Então o rei mandou chamar os magos, os encantadores, os feiticeiros e os caldeus, para que declarassem ao rei os seus sonhos.”

Séculos depois e em outro império, a mesma lista de especialistas, com duas das três palavras deste versículo. A categoria acompanha o rei estrangeiro em toda a Bíblia hebraica.

Os nomes que a tradição deu aos egípcios

2 Timóteo 3:8 — “E como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes resistem à verdade: homens corrompidos de entendimento e reprovados quanto à fé.”

O Novo Testamento nomeia dois adversários que o Êxodo deixou sem nome. A tradição é anterior à carta e não vem deste livro.

O contraste de postura, no Gênesis

Gênesis 41:16 — “José respondeu a Faraó: ‘Não sou eu; Deus é quem dará a Faraó uma resposta de paz.’”

Naquele capítulo, quem se apresenta diante do rei começa negando ter a competência que lhe atribuem. Aqui ninguém nega nada, e ninguém explica nada.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Faraó chamou também os sábios e os feiticeiros; e os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas:

Texto hebraico

וַיִּקְרָא גַּם־פַּרְעֹה לַחֲכָמִים וְלַמְכַשְּׁפִים וַיַּעֲשׂוּ גַם־הֵם חַרְטֻמֵּי מִצְרַיִם בְּלַהֲטֵיהֶם כֵּן׃

Transliteração

wa-yiqra gam-Par'oh la-chakhamim we-la-mekhashefim; wa-ya'asu gam-hem chartummei Mitsrayim be-lahateihem ken.

Análise palavra por palavra

וַיִּקְרָא — wa-yiqra, "e chamou".

Raiz qara: chamar, convocar, gritar. É o mesmo verbo de Gênesis 41:8, quando o rei mandou chamar os intérpretes diante dos sonhos.

Está no singular: quem chama é uma pessoa só.

גַּם־פַּרְעֹה — gam-Par'oh, "também Faraó".

Aqui está a primeira das duas partículas que sustentam o versículo.

Gam é "também", "igualmente", "por sua vez". Colocada antes do sujeito, ela liga a ação dele à ação de alguém que acabou de agir: o outro lado fez, e também este faz.

A construção hebraica é mais apertada do que o português consegue ser: também Faraó chamou — ou seja, o rei está sendo posto na mesma linha de quem jogou o cajado no versículo anterior.

לַחֲכָמִים — la-chakhamim, "os sábios".

Plural de chakham: sábio, hábil, perito. A raiz cobre tanto a sabedoria moral quanto a competência técnica — o mesmo adjetivo se aplica ao conselheiro e ao artesão qualificado.

É o segundo grupo nomeado em Gênesis 41:8, e o estudo daquele versículo trata do que era, no Egito, esse tipo de saber.

וְלַמְכַשְּׁפִים — we-la-mekhashefim, "e os feiticeiros".

Esta é a palavra que merece mais atenção, porque é hebraica de ponta a ponta e carrega peso legal.

A raiz é kashaf. A forma aqui é o particípio plural da forma intensiva do verbo (o Piel), com artigo: "os que praticam kashaf".

O sentido exato da raiz é discutido. As propostas mais correntes ligam-na a cortar, a aparar ou a misturar — o que apontaria para preparo de substâncias —, e há quem a aproxime de um verbo acádio de encantar. Não há consenso, e convém não escolher uma delas como se estivesse estabelecida.

O que é seguro é a distribuição da palavra no Antigo Testamento, e ela é uniforme: aparece sempre em contexto de condenação ou de corte estrangeira. É a palavra de Êxodo 22:18, na sentença mais curta da lei. É a de Deuteronômio 18:10, na lista de práticas proibidas. É a que descreve as feitiçarias de Jezabel em 2 Reis 9:22, as da Babilônia em Isaías 47:9 e 47:12, as de Nínive em Naum 3:4. E é uma das categorias convocadas pelo rei da Babilônia em Daniel 2:2.

De modo que o Êxodo, ao nomear esse grupo aqui, usa a palavra mais carregada do vocabulário hebraico para a matéria — e não acrescenta uma sílaba de juízo. O item 3 trata do que isso mostra.

וַיַּעֲשׂוּ גַם־הֵם — wa-ya'asu gam-hem, "e fizeram também eles".

Segunda ocorrência de gam, agora reforçada pelo pronome: gam-hem, "também eles".

O hebraico não precisava do pronome — o verbo já traz a pessoa na terminação. Estando ali, ele marca ênfase. A frase não diz apenas que fizeram; diz que eles também fizeram.

E o verbo é asah, fazer: o mais comum e o mais neutro da língua. Não é "simular", não é "tentar", não é "produzir aparência de". É fazer.

Some-se a isso o que o versículo anterior escrevera de Moisés e de Arão — wa-ya'asu khen, "e fizeram assim" — e o paralelo fica completo. O Êxodo usa a mesma fórmula verbal para os dois lados, com um versículo de distância. Essa correspondência é do texto, e não do comentário.

חַרְטֻמֵּי מִצְרַיִם — chartummei Mitsrayim, "os magos do Egito".

O termo, a origem discutida dele e a distribuição no cânon estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 41:8, que é o dono do assunto.

Registre-se apenas o que é próprio daqui: a expressão vem depois do verbo, em posição de esclarecimento — "e fizeram também eles, os magos do Egito". Ela identifica quem são os "eles". É isso que sustenta a leitura de que o termo resume os convocados, e é também isso que deixa a alternativa aberta.

בְּלַהֲטֵיהֶם — be-lahateihem, "com as suas artes ocultas".

Chegamos à palavra rara do versículo, e ela tem uma peculiaridade que nenhuma tradução mostra.

A forma aqui é lahatim, com sufixo de terceira pessoa do plural. Nos demais lugares em que o Êxodo usa a expressão — em Êxodo 7:22, em Êxodo 8:7 e em Êxodo 8:18 — a palavra vem escrita de outro jeito, latim, sem a consoante do meio.

Só nesta primeira ocorrência a grafia é a mais longa.

A diferença importa porque as duas formas puxam para lados diferentes do dicionário.

A forma longa, lahat, liga-se à raiz de arder, flamejar. É a palavra da espada flamejante que guarda o caminho da árvore da vida em Gênesis 3:24.

A forma curta, lat, liga-se a cobrir, envolver, fazer às escondidas. É a palavra do advérbio hebraico que significa "de mansinho", "sem que se visse" — a expressão usada quando Jael se aproxima em Juízes 4:21 e quando Rute se deita aos pés de Boaz em Rute 3:7.

O que fazer com isso exige cuidado, e é preciso ser honesto sobre o limite.

Há quem entenda que são duas grafias da mesma palavra, e que a diferença não tem peso: o hebraico tolera variação assim, e o sentido nos quatro lugares é o mesmo — o meio pelo qual os especialistas produziam o efeito. Esta é a leitura mais econômica.

Há quem entenda que são duas palavras distintas, e que o Êxodo teria começado com a de chama e passado à de segredo. Não é possível decidir, e a alegação de que a escolha seja deliberada não se demonstra.

O que se pode afirmar com segurança é o dado: a primeira ocorrência da expressão no livro está escrita de um jeito e as três seguintes de outro, e nenhuma tradução portuguesa registra isso.

Quanto ao sentido em português, "artes ocultas" é boa escolha se entendida ao pé da letra — as artes cujo mecanismo fica encoberto para quem olha. Não é "artes malignas" nem "artes falsas": nenhuma das duas coisas está na palavra.

כֵּן — ken, "assim", "do mesmo modo".

A última palavra do versículo, e ela fecha o paralelo.

É exatamente o advérbio que o versículo 10 usou para dizer que Moisés e Arão fizeram "assim" como o SENHOR havia ordenado. Aqui ele qualifica o que os egípcios fizeram.

Ao pé da letra, a frase inteira termina assim: "e fizeram também eles, os magos do Egito, com as suas artes ocultas, assim". A palavra que mede a correspondência entre os dois lados fica na última posição, sozinha, e é a nota final do versículo.

11. Conclusão

Do que foi exposto, quatro conclusões.

Primeira: o Êxodo registra a repetição e não a contesta. Usa o mesmo verbo, o mesmo advérbio e a mesma fórmula que empregou uma linha antes para Moisés e Arão, e não acrescenta nada. Não há palavra de engano, não há avaliação, não há explicação. Toda a defesa que a tradição de comentário construiu — ilusão, destreza, najas entorpecidas, poder adversário — é acréscimo, e os comentaristas que a propuseram estão nomeados no item 3.

Segunda: isso não é um problema para o livro, porque o critério dele nunca foi a capacidade. Deuteronômio 13:2-4 considera expressamente o prodígio que se cumpre nas mãos de quem chama para outro deus, e manda rejeitá-lo assim mesmo. Um texto que prevê essa hipótese não precisa negar que os egípcios tenham conseguido.

Terceira: a pergunta "funcionou?" é importada. O ofício egípcio era de execução correta — ler as palavras certas, na ordem certa, pela pessoa certa —, e é por essa régua que um ato ritual se julga. O Êxodo não entra nessa discussão. Registra o empate e vai buscar a diferença em outro lugar.

Quarta: o versículo nomeia sem julgar, e isso é traço de escrita, não descuido. A palavra usada para "feiticeiros" é a mesma que Êxodo 22:18 punirá com a morte. Aqui ela vem sem adjetivo. A narrativa descreve; a lei condena; e o livro não mistura as duas funções.

O que não se conclui daqui: como os magos fizeram, de onde vinha o que fizeram, e se os três nomes designam três grupos ou dois. O versículo levanta as três coisas e não resolve nenhuma.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 7:11

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%