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Êxodo 8:18

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✍️ Por Alberto Adriano·16 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 27 acessos
Os magos fizeram o mesmo com as suas artes ocultas para produzir piolhos, mas não conseguiram. E os piolhos ficaram nos homens e nos animais.
Dois sacerdotes egípcios de cabeça raspada e túnica de linho, de joelhos sobre o chão seco de um pátio, as mãos abertas sobre a poeira, enquanto um terceiro observa em silêncio.

Estudo


Os magos fizeram o mesmo com as suas artes ocultas para produzir piolhos, mas não conseguiram. E os piolhos ficaram nos homens e nos animais.

1. Introdução

Este é o versículo em que o Egito perde alguma coisa que não era o rio, nem o gado, nem a colheita.

Pela terceira vez os especialistas da corte são chamados a repetir o que Arão fez. Nas duas primeiras eles conseguiram — em Êxodo 7:22 com a água, em Êxodo 8:7 com as rãs —, e o Êxodo registrou isso sem escândalo e sem comentário. Agora eles tentam e não conseguem.

Duas coisas fazem deste versículo um dos mais importantes do capítulo, e nenhuma delas é a derrota em si.

A primeira é o que o texto não faz com ela. Não há deboche, não há triunfo, não há uma palavra dizendo que o deles era truque e o de Arão era real. A frase que descreve a tentativa é a mesma que descreveu a obediência de Arão no versículo anterior — "assim fizeram". A única diferença registrada está no resultado.

A segunda é que o texto não explica por quê. Não diz que foram impedidos, não diz que o poder acabou, não diz que Deus os calou. Diz que tentaram e não puderam, e passa adiante. Os comentaristas preencheram a lacuna de quatro ou cinco maneiras diferentes, e o item 3 examina cada uma com o que ela custa.

Há ainda um detalhe de fundo que o item 2 reúne e que não pode ser transformado em ironia, porque o Êxodo não a faz: o corpo de especialistas do templo egípcio tinha, entre as suas regras de ofício, a de não carregar piolho.

E há o fecho do versículo, que muita leitura atropela: depois da tentativa fracassada, a frase final não fala dos magos. Fala da praga, que continuou exatamente onde estava.

2. Contexto Histórico e Cultural

Uma regra de ofício que tinha o piolho como alvo

O Egito é o país antigo sobre o qual mais se sabe em matéria de limpeza do corpo, e a informação mais específica que sobreviveu está num parágrafo curto de Heródoto, historiador grego do século V antes de Cristo, autor das Histórias.

Convém dizer de saída de onde vem a citação, porque este comentário já usou o mesmo autor três vezes, sempre em outro assunto: no estudo de Gênesis 50:3, sobre o embalsamamento; no de Êxodo 4:9, sobre o rio; e no de Êxodo 8:16, poucos versículos atrás, sobre os mosquitos do delta. O trecho de agora é o capítulo 37 do livro segundo, e trata de outra coisa: a rotina dos sacerdotes.

Heródoto abre dizendo que os egípcios são, na observância religiosa, mais escrupulosos que qualquer outro povo — e passa a listar o que isso significava na prática para quem servia nos templos.

Eles raspavam o corpo inteiro, de dois em dois dias. Não só a cabeça: o corpo todo. E Heródoto dá o motivo, com todas as letras: para que nenhum piolho, nem qualquer outra coisa impura, estivesse sobre eles enquanto serviam aos deuses.

Eles se lavavam quatro vezes em cada volta do dia — duas de dia e duas de noite, em água fria.

Eles vestiam só linho e calçavam só sandália de papiro, sem couro e sem lã, que eram materiais de bicho.

É uma das poucas vezes em que uma fonte antiga diz não apenas o que se fazia, mas por quê. E o motivo declarado é, literalmente, o piolho.

E o piolho estava lá mesmo

Não é preciso acreditar em Heródoto na palavra. Há material.

Os pentes egípcios que a arqueologia recolheu — em cemitérios, em casas e nos povoados de operários, como o de Deir el-Medina — são, em boa parte, de dois lados: um lado de dentes grossos, para desembaraçar, e outro de dentes finíssimos, juntos, que só serve para uma coisa. Pente de dente fino é instrumento de tirar lêndea. É o mesmo objeto que se vende hoje nas farmácias, com o mesmo desenho, pela mesma razão.

E há o testemunho que não admite dúvida: o exame de cabelos de múmias e de restos humanos egípcios encontrou piolhos e ovos de piolho presos aos fios, em corpos de várias épocas e de várias condições sociais. Não era problema de pobre.

Some-se a isso o que já se sabia do país: calor o ano inteiro, gente morando junto, animais dentro de casa e água para lavar que dependia de ir buscar. Piolho, no Egito, era rotina. E a raspagem do corpo, que os relevos mostram em quase toda cabeça de figura importante, tinha função prática antes de ter significado. O costume egípcio de barbear-se e o que a barba significava para eles estão tratados no estudo de Gênesis 41:14, e não se refazem aqui.

O que isso muda na leitura, e onde está o limite

Aqui é preciso andar devagar, porque o material é bom demais e a tentação é grande.

O que se pode afirmar, com apoio documental, é isto: os homens que fracassam neste versículo pertenciam a uma classe cuja regra de trabalho era não ter piolho no corpo. A limpeza não era higiene pessoal — era condição para entrar no lugar onde eles trabalhavam. Quem tivesse um bicho no corpo estava, pela regra da casa, impedido de servir.

O que não se pode afirmar é que o Êxodo saiba disso ou queira dizer isso.

O texto não menciona templo, não menciona raspagem, não menciona impedimento e não faz nenhuma piada. Ele diz que eles tentaram e não conseguiram, e depois diz que os piolhos continuaram em homens e animais. A coincidência entre a praga e a regra do ofício é observação de quem lê com a documentação egípcia na mão, e deve ser apresentada como tal — nunca como intenção do texto, e nunca como deboche, que é exatamente o que o Êxodo não faz.

Vale acrescentar um dado que atravessa o capítulo inteiro: a documentação oficial egípcia não registra derrota, nem própria nem dos seus. O assunto está no estudo de Êxodo 3:19. De modo que não há, e não haverá, versão egípcia deste episódio.

3. Análise Teológica do Versículo

“Os magos fizeram o mesmo com as suas artes ocultas”

A frase é conhecida. É a terceira vez que o Êxodo a escreve, e nas três vezes ela é praticamente a mesma: em Êxodo 7:11, diante do cajado que virou serpente; em Êxodo 7:22, diante do rio; em Êxodo 8:7, diante das rãs.

Quem são esses homens, o que era o ofício deles e o que são as "artes ocultas" já foi tratado por inteiro nos estudos de Êxodo 7:11 e de Gênesis 41:8, e o fato de o texto registrar a repetição sem uma palavra de defesa foi examinado no estudo de Êxodo 7:22. Nada disso se reabre.

O que é deste versículo começa numa comparação curta e vale a pena fazê-la de imediato.

Repare nas duas palavras com que o versículo abre — e nas duas com que abriu o anterior. São as mesmas. Êxodo 8:17 começou com "assim fizeram", falando de Arão. Este começa com "fizeram o mesmo", falando dos magos. No hebraico a coincidência é literal: é a mesma dupla de palavras, na mesma ordem, com um versículo de distância.

Isso já tinha acontecido antes, entre Êxodo 7:20 e 7:22, e já foi observado ali. O que muda aqui é o que vem depois. Pela primeira vez, a mesma frase não conduz ao mesmo resultado.

“para produzir piolhos”

Esta é a novidade do versículo, e é fácil passar por ela sem ver.

Nas duas vezes anteriores, o Êxodo escreveu o que os magos fizeram: fizeram o mesmo, e também fizeram subir rãs. Verbo no passado, ação concluída, resultado obtido.

Aqui a construção muda. Eles fizeram o mesmo para produzir piolhos. A frase deixa de descrever um resultado e passa a descrever uma finalidade — e uma finalidade é justamente o que se enuncia quando o resultado não veio.

Há ainda uma escolha de palavra que reforça isso. O verbo não é o de fazer, que o texto vinha usando; é o de fazer sair, tirar de dentro, trazer à tona. O item 10 trata da forma. O que interessa à leitura é que o verbo descreve exatamente a operação que Arão executou: tirar bicho de matéria que não é bicho. Os magos tentam a mesma operação, e o Êxodo a nomeia com precisão antes de dizer que ela falhou.

“mas não conseguiram”

Três palavras em português, duas em hebraico, e é aqui que o capítulo vira.

Primeiro: não há causa.

Convém dizer isso com todas as letras, porque quase todo comentário preenche a lacuna e o leitor sai achando que o preenchimento estava no texto.

O Êxodo não diz que Deus os impediu. Não diz que o poder deles tinha limite. Não diz que a praga era grande demais. Não diz que eles se recusaram, que erraram a fórmula, que ficaram sem material ou que perderam a coragem. Não diz que o deles era falso. Diz que eles não puderam, e vai embora.

Segundo: o que os comentaristas propõem, e o que cada proposta custa.

Vale pôr as saídas na mesa com o nome de quem as sustenta, porque cada uma leva a uma leitura diferente da cena — e todas são acréscimos.

Deus os conteve. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) leem o fracasso como restrição imposta de fora: os poderes de que os magos dispunham teriam sido segurados, para mostrar a impotência das artes secretas. Custo: introduz na cena uma mecânica de poderes que o Êxodo nunca menciona, e uma intenção didática que o texto não declara.

Deus não permitiu que continuassem enganando. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) segue por aí, supondo que os feitos anteriores tenham sido engodo tolerado até certo ponto. Custo: além do acréscimo da causa, pressupõe que os dois primeiros episódios foram fraude — coisa que o Êxodo, tendo usado para eles o verbo mais neutro da língua, não escreve em lugar nenhum.

O bicho era pequeno demais para truque. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) observa que insetos minúsculos não se apanham, não se escondem e não se soltam na hora certa por destreza de mão. Custo: é uma explicação engenhosa e tem a vantagem de ser verificável, mas responde a uma pergunta que o texto não fez, e só funciona se antes se admitir que tudo era prestidigitação.

Não havia mais matéria-prima. Há uma leitura, antiga na tradição judaica e repetida por comentaristas depois, que tira a explicação do próprio versículo anterior: se "todo o pó da terra" já tinha virado piolho, não sobrou pó para eles ferirem. Custo: é a única proposta que se apoia numa palavra do texto, e por isso merece registro; mas depende de levar ao pé da letra um "todo" que, como se viu em Êxodo 8:17, é linguagem de alcance e não de contagem.

Eles próprios estavam infestados. Esta não vem dos comentários clássicos, e sim de leitores modernos que cruzam o versículo com o que se sabe da regra de limpeza dos sacerdotes egípcios, reunida no item 2. Custo: o Êxodo não menciona templo, regra nem impedimento, e transformar isso em causa do fracasso é construir sobre material de fora.

Terceiro: o que sobra depois de tirar os acréscimos.

Sobra uma frase, e ela é suficiente para o que o capítulo está fazendo.

Os especialistas do Egito — não charlatães de esquina, mas o corpo técnico oficial de um país, convocado pelo procedimento normal, como o estudo de Gênesis 41:8 mostrou para um episódio anterior — tentaram e não puderam. Não é possível decidir por quê, e a honestidade manda dizer isso em vez de escolher a explicação mais confortável.

E convém marcar o que o texto não está construindo. Ele não monta um argumento de exclusividade: não afirma que só o Deus de Israel faz coisas assim, não desqualifica o que foi feito antes e não usa este versículo para revisar os anteriores. A frase registra um limite, não uma refutação.

“E os piolhos ficaram nos homens e nos animais”

O versículo podia acabar em "não conseguiram". Não acaba. Acrescenta uma frase, e ela é a repetição literal do que Êxodo 8:17 já tinha dito.

Essa repetição faz duas coisas.

A primeira é dizer que nada mudou. Houve uma tentativa, ela falhou, e a situação do país continua exatamente a mesma. O fracasso dos magos não aliviou nada e não piorou nada. Quem esperava que o episódio produzisse algum efeito no mundo — e não apenas no palácio — fica sabendo que não produziu.

A segunda é deslocar o foco na hora de fechar. A última coisa que o versículo diz não é sobre os magos: é sobre a praga. O Êxodo não termina no constrangimento deles, não descreve a cara que fizeram e não os deixa em cena. Fecha com os insetos, onde eles estavam desde a linha anterior.

Há quem leia nessa frase final uma segunda informação: que os piolhos estavam também sobre os próprios magos, já que eles são homens e a praga está "nos homens". A leitura é gramaticalmente possível e é defensável, e tem o mérito de não precisar de nada externo ao texto. Mas o Êxodo não os singulariza, e quem afirmar que a frase foi escrita para dizer isso está atribuindo ao texto uma intenção que ele não enuncia.

Quem não está neste versículo

Feche a leitura com a lista das ausências, que é curta e eloquente.

Faraó não aparece. Moisés não aparece. Arão não aparece. Os únicos que agem na frase são os especialistas do Egito, e eles agem sozinhos, sem plateia registrada e sem interlocutor.

É o único versículo da narrativa das pragas em que isso acontece. E é a última vez em que eles tentam fazer alguma coisa: no versículo seguinte, a única ação que lhes restará é falar.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os magos

O termo hebraico designa a gente de corte ligada aos textos sagrados, e a função egípcia que melhor lhe corresponde é a do sacerdote leitor — o homem do rolo de papiro, funcionário do culto do Estado. O ofício está tratado no estudo de Êxodo 7:11, e a palavra, no de Gênesis 41:8.

Importa para este versículo lembrar três coisas já estabelecidas. Eram oficiais, e não marginais. Foram convocados pelo rei, pelo procedimento normal da casa. E tinham conseguido duas vezes, em Êxodo 7:22 e em Êxodo 8:7.

Esta é a última vez em que eles fazem alguma coisa no livro. No versículo seguinte falarão, e depois disso o Êxodo os menciona uma vez só, e para dizer que nem de pé conseguiam ficar.

Faraó

Ausente da cena, e é a segunda vez seguida. Ele não mandou fazer o teste — pelo menos o texto não diz que mandou —, não está assistindo e não reage. Voltará no versículo 19, procurado pelos seus próprios técnicos.

Moisés e Arão

Também ausentes. É o único versículo do episódio das pragas em que nenhum dos dois é mencionado, nem em ação nem como referência.

O detalhe não é decorativo: a tentativa dos magos não acontece diante deles. Não há confronto, não há disputa em praça pública e não há ninguém para vencer. Há um grupo de profissionais tentando reproduzir um efeito, e falhando.

“Os homens e os animais”

A mesma fórmula do versículo anterior, e o mesmo alcance: tudo o que vive dentro de uma casa. O que ela significava está no estudo de Êxodo 8:17.

Repetida aqui, ela mede o resultado da tentativa: nenhum.

O acontecimento

A terceira e última tentativa dos especialistas do Egito de repetir um sinal, e a primeira que fracassa. Fecha a série aberta em Êxodo 7:11.

Com ela se encerra também o primeiro grupo de três pragas. O segundo grupo começa no versículo 20, e nele os magos não voltarão a tentar.

5. Pontos de Ensino

O texto registra o fracasso e não comemora

Não há sarcasmo, não há vitória declarada e não há uma linha reduzindo o que os magos tinham feito antes. A Bíblia sabe ser irônica quando quer — Isaías 44:25 e 47:12 mostram como —, e aqui não é. Vale como régua de leitura: quando um texto bíblico é seco, a secura é escolha, e ler nela um tom que não está escrito é acrescentar.

“Não conseguiram” não é o mesmo que “estavam errados”

O versículo registra um limite de capacidade, e só. Não declara que o método deles era falso, não revisa os episódios anteriores e não constrói argumento de exclusividade. Quem transforma esta frase numa refutação está fazendo um trabalho que o Êxodo não fez.

A lacuna que os comentários fecham

Cinco explicações diferentes circulam para o fracasso, e nenhuma está no texto. É um bom exercício de leitura perceber isso: o que parece "o que a Bíblia diz" é, muitas vezes, o que alguém pôs ali para tapar um buraco. O buraco, neste caso, é pequeno e não atrapalha nada.

A competência é sempre de alguma coisa

Eles não perderam o ofício: continuam sendo o que eram, e voltarão a falar no versículo seguinte com a autoridade de quem sabe do assunto. O que aconteceu foi encontrarem um caso que o ofício não cobria. É outra coisa, e o Êxodo mantém a distinção.

A praga não depende do episódio

A frase final do versículo registra que os insetos continuaram onde estavam. Nada do que acontece no palácio, nem do lado de lá nem do lado de cá, altera o que está acontecendo no país.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe em cena um acontecimento que a filosofia do conhecimento examina com cuidado: o momento em que uma técnica encontra um caso que ela não cobre.

Convém separar duas coisas que a leitura apressada junta. Uma técnica pode falhar porque foi mal executada — e aí o problema é do operador. Pode falhar porque estava errada desde sempre — e aí o problema é dela. E pode falhar porque o caso está fora do campo em que ela funciona, sem que nada nela esteja errado e sem que ninguém tenha se enganado.

O texto registra o terceiro caso e não diz mais nada. Os magos não erram a fórmula, não são desmascarados e não mudam de opinião sobre o que sabem. Eles esbarram num limite, e um limite é uma informação sobre a fronteira de um saber, não sobre a falsidade dele.

Daí sai a pergunta que o versículo deixa no ar: o que faz alguém reconhecer a fronteira do que sabe?

A resposta não é o argumento. Ninguém os refutou, ninguém lhes mostrou um erro de raciocínio e ninguém os convenceu de nada. O que houve foi um resultado — a operação foi tentada e não saiu. É o tipo mais bruto de informação que existe, e também o mais difícil de contestar: não se discute com um fracasso repetido diante de testemunhas.

E há o reverso, que é o ponto mais interessante e que só se completa no versículo seguinte. Reconhecer um limite não obriga ninguém a mudar de lado. Os magos vão dizer de onde vem aquilo, e vão dizer em voz alta — sem deixar de ser quem eram. Um saber pode admitir que não alcança um caso e continuar inteiro, porque a admissão se faz por dentro dele.

Convém o limite de sempre: o texto não levanta nada disso. Ele diz que tentaram e não puderam. A distinção entre método errado e método limitado é de quem lê, e é preciso dizer que é.

7. Aplicações Práticas

O versículo é breve e o que ele oferece para a vida prática é específico. Duas coisas, e nenhuma delas é moral.

Dizer “não consegui” sem transformar isso em julgamento sobre si

O Êxodo escreve o fracasso dos especialistas do Egito em duas palavras, sem adjetivo e sem diagnóstico. Não diz que eram incompetentes, não diz que eram fraudulentos e não diz que deviam ter conseguido.

Quem trabalha com qualquer ofício conhece a tentação contrária: diante de um caso que não sai, ou a pessoa conclui que não presta, ou conclui que o caso é impossível, ou inventa uma explicação para não ter de conviver com a frase seca. A frase seca é a mais útil das três — porque é a única que descreve o que de fato aconteceu, e a única que deixa espaço para descobrir depois por quê.

Distinguir o limite do método do erro do método

Esta é a aplicação mais aproveitável do versículo, e vale fora de qualquer contexto religioso.

Um procedimento que funcionou duas vezes e falhou na terceira não vira lixo. Também não vira infalível por ter funcionado duas vezes. O que o terceiro caso ensina é onde fica a borda — e saber onde fica a borda de uma ferramenta é parte de saber usá-la.

Na prática: quando alguma coisa que costuma dar certo não dá, a primeira pergunta útil é "o que este caso tem de diferente?", e não "de quem é a culpa?". A segunda pergunta produz defesa; a primeira produz informação.

Um limite honesto

Convém não esticar. O versículo não está ensinando humildade profissional, não está falando de reconhecer os próprios erros e não traz lição sobre o orgulho. Ele registra um fato num palácio egípcio. O que se pode tirar dele para hoje é o que vem da forma como o fato é registrado — e não de um sentido moral que o texto não escreveu.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que eles não conseguiram?

É a pergunta do versículo, e a resposta honesta é que o texto não diz. O item 3 reúne as cinco explicações que circulam e mostra o que cada uma acrescenta ao que está escrito. Nenhuma se impõe, e o Êxodo não parece incomodado com a lacuna.

Se os dois primeiros feitos eram reais, por que este não saiu? E se eram truque, por que o texto não diz?

Essa é a pergunta por trás da pergunta, e ela merece ser enfrentada.

O Êxodo usa para os magos o mesmo verbo que usa para Arão — o verbo mais comum e mais neutro da língua, o de fazer. Não escreve "simularam", não escreve "fingiram", não escreve "pareceu que". Fez isso três vezes, e nas três resistiu à chance de qualificar.

De modo que a pergunta é do leitor, e não do texto. Quem quiser sustentar que eram truques terá de fazê-lo por conta própria, e quem quiser sustentar que eram reais, também. O que se pode afirmar é o que está escrito: nas duas primeiras vezes o resultado veio, na terceira não veio, e o livro não explica nenhuma das três.

Quem pediu que eles tentassem?

O versículo não diz. Nas duas vezes anteriores, também não — em Êxodo 7:11 foi o rei quem os chamou, mas em Êxodo 7:22 e em Êxodo 8:7 eles simplesmente agem.

É plausível que a convocação fosse rotina de corte, e o estudo de Gênesis 41:8 mostra que era assim que um rei do Egito lidava com um problema sem resposta. Mas isso é reconstrução de procedimento, não informação do texto.

Os magos estavam com piolhos enquanto tentavam?

A frase final do versículo diz que os piolhos estavam "nos homens", e os magos são homens. A leitura é gramaticalmente possível e é defensável.

Ela fica mais interessante quando se sabe, pelo item 2, que o corpo de especialistas do templo egípcio tinha por regra de ofício não carregar piolho. Mas o Êxodo não os singulariza, não menciona a regra e não faz o gancho. Não é possível decidir se a frase foi escrita com essa intenção.

Por que o versículo termina falando da praga, e não deles?

O Êxodo faz isso com frequência: encerra o episódio no fato, e não na reação. Aqui o efeito é preciso — o fracasso dos magos não muda nada no país, e o fecho registra exatamente isso.

Vale notar o contraste com o versículo seguinte, que fará o inverso: começará com a fala deles e terminará com o rei.

Este é o fim dos magos no Êxodo?

Como agentes, sim. Eles ainda falam uma vez, no versículo 19, e o livro os menciona mais uma vez depois disso — em Êxodo 9:11, para dizer que não conseguiam nem ficar de pé diante de Moisés. Nunca mais tentam repetir um sinal.

9. Conexão com Outros Textos

As duas vezes em que conseguiram

Êxodo 7:22 — "Mas os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas; e o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."

Êxodo 8:7 — "Mas os magos fizeram o mesmo com as suas artes ocultas, e também fizeram subir rãs sobre a terra do Egito."

Ponha os três versículos em fila e o desenho aparece: a mesma abertura nas três vezes, e três desfechos diferentes. Na primeira, empate. Na segunda, empate com agravamento — eles acrescentaram rãs em vez de tirá-las. Na terceira, nada.

E a primeira de todas

Êxodo 7:11 — "Então Faraó chamou também os sábios e os feiticeiros; e os magos do Egito fizeram o mesmo com as suas artes ocultas:"

Ali eles são convocados, e o texto nomeia três grupos. Daqui em diante só um deles continua em cena.

A mesma classe, gerações antes, no mesmo país

Gênesis 41:8 — "Pela manhã, o seu espírito estava perturbado; então mandou chamar todos os magos e todos os sábios do Egito. Faraó lhes contou os seus sonhos, mas não havia quem os interpretasse para ele."

É o outro lugar da Bíblia em que o corpo técnico do Egito é convocado e não entrega. O episódio, e o cuidado do texto em registrar o fracasso sem deboche, estão tratados no estudo daquele versículo. A comparação que interessa aqui é de tom: lá ninguém diz nada e o assunto passa; aqui eles próprios vão falar com o rei no versículo seguinte.

A última notícia que o Êxodo dá deles

Êxodo 9:11 — "E os magos não conseguiram ficar de pé diante de Moisés por causa das feridas, porque as feridas estavam nos magos e em todos os egípcios."

Uma praga adiante, o mesmo grupo aparece pela última vez — e não para tentar nada. O verbo é o mesmo deste versículo: não podiam.

Quando a Bíblia quer desqualificar, ela usa outro tom

Isaías 44:25 — "Que desfaço os sinais dos inventores de mentiras, e faço de todos aos adivinhos; que faço aos sábios retrocederem, e torno o conhecimento deles em loucura;"

Isaías 19:3 — "E o espírito dos egípcios se esvaziará dentro de si, e destruirei seu conselho; então eles perguntarão aos ídolos, encantadores, adivinhos que consultam espíritos de mortos, e feiticeiros."

Ironia declarada, vocabulário de escárnio, juízo explícito. É a prova de que o silêncio de Êxodo 8:18 é escolha, e não falta de recurso.

A mesma cena, em outro império

Daniel 2:27 — "Daniel respondeu diante do rei, e disse: O mistério que o rei demanda, nem sábios, nem astrólogos, nem magos, nem adivinhos podem explicar ao rei;"

Séculos depois e noutra corte, a mesma estrutura: o aparato inteiro convocado, e o limite reconhecido em voz alta. As demais ocorrências desse padrão estão reunidas no estudo de Gênesis 41:8.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Os magos fizeram o mesmo com as suas artes ocultas para produzir piolhos, mas não conseguiram. E os piolhos ficaram nos homens e nos animais.

Texto hebraico

וַיַּעֲשׂוּ־כֵן הַחַרְטֻמִּים בְּלָטֵיהֶם לְהוֹצִיא אֶת־הַכִּנִּים וְלֹא יָכֹלוּ וַתְּהִי הַכִּנָּם בָּאָדָם וּבַבְּהֵמָה׃

Transliteração

wa-ya'asu-khen ha-chartummim be-lateihem lehotsi et-ha-kinnim, we-lo yakholu; wa-tehi ha-kinnam ba-adam u-va-behemah.

Análise palavra por palavra

וַיַּעֲשׂוּ־כֵן — wa-ya'asu-khen, "e fizeram assim".

As mesmas duas palavras que abriram Êxodo 8:17, a propósito de Arão, e as mesmas que abriram Êxodo 7:22, a propósito deste mesmo grupo.

O verbo é asah, fazer: o mais comum e o mais neutro da língua. Não é simular, não é tentar, não é produzir aparência de. O ponto foi estabelecido no estudo de Êxodo 7:11 e não se refaz; o que se registra aqui é que o Êxodo chegou à terceira ocorrência sem trocar o verbo.

הַחַרְטֻמִּים — ha-chartummim, "os magos".

O termo, a origem discutida dele e a distribuição no cânon estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 41:8.

O que cabe notar aqui é a forma, e é um detalhe pequeno com um efeito visível. Em Êxodo 7:11 e em Êxodo 7:22 a palavra vem ligada ao nome do país: chartummei Mitsrayim, "os magos do Egito". Em Êxodo 8:7 e aqui, ela aparece sozinha, com artigo: "os magos". O título encolheu ao longo do capítulo, e passou a funcionar como nome de um grupo já conhecido, sem a qualificação que antes o apresentava.

בְּלָטֵיהֶם — be-lateihem, "com as suas artes ocultas".

Palavra rara, e com uma peculiaridade de grafia que o estudo de Êxodo 7:11 expôs por inteiro e que o de Êxodo 7:22 retomou: a estreia do livro traz a forma longa, que puxa para a raiz de arder, e as demais ocorrências trazem a forma curta, que puxa para a de cobrir e fazer às escondidas. Esta é a forma curta, a terceira e última do livro.

לְהוֹצִיא אֶת־הַכִּנִּים — lehotsi et-ha-kinnim, "para fazer sair os piolhos".

Aqui está a palavra nova do versículo, e ela merece atenção por dois motivos.

O primeiro é a construção. Trata-se de um infinitivo com a preposição le, que em hebraico marca finalidade: fizeram assim para fazer sair. Nas duas ocorrências anteriores não havia nada disso — o texto dizia apenas o que eles fizeram, e o que fizeram tinha acontecido. A frase de finalidade é a marca do que não se cumpriu, e o hebraico a introduz exatamente na vez em que o resultado não vem.

O segundo é o verbo. Hotsi é yatsa, sair, na forma causativa do hebraico (o Hiphil): fazer sair, tirar de dentro, trazer para fora. Não é "criar", não é "fabricar", não é "produzir" no sentido de manufatura. É extrair alguma coisa do lugar em que ela está — e descreve com precisão a operação de Êxodo 8:17, em que o bicho veio de dentro do pó.

Cabe aqui uma observação, com a ressalva que ela exige. Este é o verbo central do livro do Êxodo — é com ele que Deus promete tirar Israel do Egito, em Êxodo 6:6, e é dele que vem, pelo grego, o próprio nome do livro; o assunto está tratado no estudo de Êxodo 6:26. Que a única coisa que os especialistas do Egito não conseguem fazer sair apareça na mesma página em que se anuncia quem será feito sair daquele país é uma correspondência que o texto não estabelece. O Êxodo não a comenta, não a sugere e não a explora. É observação de quem lê o livro inteiro, e precisa ser dita como tal.

וְלֹא יָכֹלוּ — we-lo yakholu, "e não puderam".

Duas palavras, e o verbo é yakhol: poder, ser capaz, dar conta. A raiz cobre tanto a capacidade técnica quanto o levar a melhor numa disputa — é a mesma de Gênesis 32:25, quando o adversário de Jacó "não prevaleceu contra ele".

A negativa é seca e absoluta: não há complemento, não há "desta vez", não há "ainda". Só "não puderam".

E há um eco dentro do próprio livro que vale registrar, porque é a mesma construção. Em Êxodo 7:21, depois da primeira praga, o texto escreveu que "os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo" — we-lo yakhelu, o mesmo verbo, a mesma negativa. As duas únicas vezes em que o Êxodo usa essa fórmula nas pragas descrevem, uma, um país que não consegue beber, e outra, os seus especialistas que não conseguem repetir. O Êxodo não liga as duas, e a aproximação é de quem lê.

וַתְּהִי הַכִּנָּם בָּאָדָם וּבַבְּהֵמָה — wa-tehi ha-kinnam ba-adam u-va-behemah, "e houve os piolhos no homem e no animal".

Repetição literal da segunda metade de Êxodo 8:17 — mesmo verbo no feminino singular, mesma forma coletiva da palavra com artigo, mesmos dois substantivos no singular com artigo, mesma preposição. A análise de cada peça está no estudo daquele versículo.

Note-se, porém, que a forma da palavra volta a ser kinnam, e não kinnim, que é a que aparece na oração de finalidade no meio deste mesmo versículo. As duas formas convivem numa linha só, pela segunda vez. A disputa sobre o que elas significam está no estudo de Êxodo 8:16.

E a repetição, em si, é o recurso. O Êxodo não escreve "e a praga continuou": escreve de novo a mesma frase. É o modo de o livro dizer que nada se moveu — o mesmo recurso que ele já tinha usado em Êxodo 7:22, repetindo palavra por palavra o fecho de Êxodo 7:13.

11. Conclusão

Do que foi examinado, quatro conclusões.

A primeira: o texto registra um limite, e não uma refutação. Ele não revisa o que os magos tinham feito antes, não declara falso o método deles, não os chama de fraudulentos e não constrói, com este versículo, nenhum argumento sobre quem pode e quem não pode. Conclui-se que o Êxodo não está travando uma disputa de credenciais: está registrando que uma operação foi tentada e não saiu.

A segunda: a lacuna da causa é do texto, e não da nossa informação. As cinco explicações que circulam — a contenção divina, a proibição do engano, a impossibilidade técnica, a falta de matéria-prima e a infestação dos próprios magos — são todas construções de leitores, e cada uma acrescenta ao que está escrito. Conclui-se que não é possível decidir, e que quem quiser ler o versículo como ele está terá de conviver com um fracasso sem motivo declarado.

A terceira: o fundo egípcio ilumina e não conclui. Sabe-se, por Heródoto e pelo material recolhido no Egito, que o corpo de especialistas do templo tinha por regra de ofício não carregar piolho no corpo. É uma informação que torna a cena mais densa para quem a conhece. Conclui-se, porém, que ela não pode virar chave do versículo: o Êxodo não menciona a regra, não faz o gancho e não zomba de ninguém.

A quarta: o episódio não muda nada fora do palácio. O versículo fecha repetindo, palavra por palavra, a frase que descrevia a praga antes da tentativa. Conclui-se que o Êxodo trata o fracasso dos magos como acontecimento de corte, e não como virada no mundo — o país continua exatamente como estava, e o efeito real deste versículo se dará no seguinte, quando os mesmos homens forem falar com o rei.

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Êxodo 8:18

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