Assim fizeram: Arão estendeu a mão com o seu cajado e feriu o pó da terra, e houve piolhos nos homens e nos animais; todo o pó da terra virou piolhos em toda a terra do Egito.
1. Introdução
É o versículo da execução, e ele é curto porque a ordem já foi dada. Arão faz o que foi mandado, e o Êxodo repete as palavras da ordem quase sem mudar nada — quase, porque há três acréscimos, e os três importam.
O primeiro é a mão: a ordem dizia "estenda o cajado", e a execução diz "estendeu a mão com o seu cajado". O segundo é o alcance: a ordem falava em "toda a terra do Egito", e a execução diz "todo o pó da terra". O terceiro é o alvo, e é o maior de todos — "nos homens e nos animais".
Esse terceiro acréscimo é o que faz deste versículo uma virada. Até aqui as pragas atingiram coisas: o rio, os peixes, a água de beber, a casa, o forno, a cama. As rãs chegaram a subir sobre as pessoas, em Êxodo 8:4, mas subiram e desceram. Agora a praga se instala no corpo — e não só no corpo humano: os animais entram pela primeira vez na conta.
E há o que continua faltando. O rei não foi avisado, não é mencionado e não reage. Esta é a única praga do capítulo que acontece sem que Faraó apareça antes nem durante.
2. Contexto Histórico e Cultural
“Homem e animal” não é lista: é fórmula
Quando o versículo diz "nos homens e nos animais", ele não está enumerando duas vítimas. Está usando uma expressão pronta, e quem ouvia sabia disso.
O par aparece dezenas de vezes na Bíblia hebraica, sempre com a mesma função: dizer "tudo o que respira dentro do alcance de uma casa". O Gênesis o usa ao anunciar o dilúvio e ao registrá-lo; os profetas o repetem quando descrevem uma desgraça que não deixa nada de pé.
Há um caso que mostra bem como o par funcionava, e é o mais estranho da Bíblia: em Jonas 3, quando Nínive faz penitência, o decreto do rei manda que homens e animais se cubram de pano e jejuem. Aos olhos de hoje é quase cômico; para quem escreveu, é coerente. A casa era uma unidade, e o gado fazia parte dela.
Fora da Bíblia, o mesmo par sustenta as maldições dos acordos entre reis do Antigo Oriente Próximo. A praga invocada contra quem quebrasse o juramento não era sobre pessoas: era sobre pessoas, rebanhos e campos, nessa ordem, porque a ruína de um homem se media pelo que ele tinha vivo em volta.
O que era um rebanho para uma casa egípcia
A palavra "animais" chega ao leitor de hoje como paisagem, e naquele mundo era patrimônio.
O gado era o capital de uma família: o boi que puxava o arado e pisava o grão na eira, o jumento que carregava, a cabra e a ovelha que davam leite, lã e pele. Não era luxo, e não ficava longe — nas casas comuns, o animal dormia no pátio ou num cômodo encostado, atrás da mesma parede de tijolo de barro em que as pessoas dormiam.
O Egito contava esses bichos com atenção de contador. Os inventários de propriedades e de templos registram rebanhos por cabeça, e a contagem do gado foi, em certas épocas, tão importante para a administração que servia para datar os anos de um reinado. O lugar dos animais sagrados no culto é outro assunto, e está no estudo de Êxodo 8:26.
Junte as duas coisas — o bicho é patrimônio e o bicho mora colado na gente — e a frase do versículo muda de tamanho. Uma praga que se instala em homens e animais ataca ao mesmo tempo o corpo e a poupança de uma família, e não há como separar um do outro.
O que não havia contra isso
Falta o dado prático, e ele é curto porque as opções eram poucas.
Contra bicho que se agarra ao corpo, num país quente, o repertório antigo era um só: raspar, lavar e trocar de roupa. Não havia sabão como o nosso, não havia veneno de aplicar em bicho pequeno e não havia como tratar um rebanho inteiro. O Egito tinha uma versão severa dessas medidas, reservada a quem entrava no templo, e ela é assunto do estudo de Êxodo 8:18.
E há o que torna a coisa pior: não se fecha a porta contra o chão. As rãs vinham do rio e podiam ser recolhidas; contra elas, uma casa ainda era uma casa. O que sai do pó não tem por onde ser barrado, porque o pó está do lado de dentro também.
A ressalva
Nada disso está escrito no versículo, que gasta quatro palavras no assunto. O Êxodo não descreve sofrimento, não menciona rebanho perdido, não conta prejuízo e não diz quanto tempo a praga durou. O fundo serve para mostrar por que a fórmula "homens e animais", que em português soa a acréscimo, era para quem ouvia a maneira mais econômica de dizer que não sobrou nada de vivo sem ser atingido.
3. Análise Teológica do Versículo
“Assim fizeram”
Duas palavras, e um plural que não bate com a ordem.
A ordem do versículo anterior era dirigida a uma pessoa: "diga a Arão: estenda o seu cajado e fira". Quem devia agir era Arão, sozinho. A execução, porém, abre no plural — "assim fizeram" —, e só depois o texto nomeia o executor no singular: "Arão estendeu a mão".
O mesmo já tinha acontecido em Êxodo 7:20, onde "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR havia ordenado" e em seguida "ele levantou o cajado". É o modo de o Êxodo tratar os dois irmãos como uma unidade quando registra obediência, e de separá-los quando descreve o gesto. A obediência é dos dois; a mão é de um.
Vale notar que a fórmula "assim fizeram" é exatamente a que reaparecerá no versículo seguinte, com os especialistas do Egito como sujeito. O Êxodo usa a mesma frase para os dois lados, com um versículo de distância.
“Arão estendeu a mão com o seu cajado e feriu o pó da terra”
A execução acrescenta a mão, que a ordem não pedia. É detalhe pequeno e não é descuido: a expressão inteira — mão e cajado juntos — já tinha aparecido nas ordens de Êxodo 7:19 e 8:5, e o versículo devolve ao gesto a forma completa que Êxodo 8:16 abreviara.
O resto da frase é a ordem repetida palavra por palavra, e convém reparar no que essa repetição comunica. Não há relato. Ninguém descreve o que aconteceu no instante do golpe, ninguém diz o que se viu, ninguém registra reação. O Êxodo escreve a ordem e depois escreve que a ordem foi cumprida, com as mesmas palavras.
“e houve piolhos nos homens e nos animais”
Aqui está a virada do versículo, e ela precisa ser lida com atenção ao que mudou.
Primeiro: a praga passa a ser no corpo.
O rio virou sangue: a praga estava na água. As rãs cobriram a terra, entraram nas casas e subiram nas camas: a praga estava no espaço. Até em Êxodo 8:4, quando o texto diz que as rãs subiriam "em você, no seu povo e em todos os seus servos", o contato é de fora — o bicho sobe e desce, e o versículo 11 registrará que eles voltaram para o Nilo.
Agora não. A praga não está em volta das pessoas: está nelas. A diferença não está na preposição, que é a mesma das rãs, e sim no verbo — as rãs sobem, e os piolhos são. O item 10 examina a construção.
Disso decorre uma consequência que o texto não enuncia e que qualquer leitor de então enxergaria: não há para onde ir. De uma praga no rio, alguém se afasta. De uma praga na casa, alguém sai. De uma praga na pele, não.
Segundo: os animais entram na conta.
É a primeira vez no livro. Nem o sangue nem as rãs foram descritos atingindo o gado — os peixes do Nilo morreram, mas peixe não é rebanho de ninguém.
O par "homens e animais" é fórmula fixa da língua, e o item 2 mostra o que ela significava. O efeito é de alargamento: a praga deixa de ser um problema de pessoas e passa a ser um problema de tudo o que vive numa casa. E o gado, num país agrícola, é o que produz.
Terceiro: e não se diz mais nada.
O Êxodo não descreve coceira, não fala em noite sem dormir, não menciona doença, não conta animal morto e não estima prejuízo. Quatro palavras, e o assunto se encerra. O silêncio é de método e aparece em todas as pragas: o livro registra o que aconteceu e recusa a cena de sofrimento. Quem reconstruir a cena deve marcar que está reconstruindo.
“todo o pó da terra virou piolhos em toda a terra do Egito”
A frase fecha o versículo repetindo a ordem e acrescentando uma palavra: todo.
A ordem dizia "o pó da terra… em toda a terra do Egito". A execução diz "todo o pó da terra… em toda a terra do Egito". O "todo" aparece agora duas vezes na mesma frase, uma para a matéria e outra para o território.
Tomada ao pé da letra, a frase produz um país sem chão. Tomada como se fala, ela diz o que qualquer língua diz com "não sobrou nada" — recurso que o hebraico bíblico usa com frequência, inclusive neste mesmo capítulo, quando Êxodo 8:31 dirá que "não ficou um sequer". Não é possível decidir onde termina a afirmação estrita e onde começa o modo de dizer. O que a frase faz, com certeza, é fechar a escapatória geográfica: não há canto do Egito com pó limpo.
O que continua não sendo dito
Duas ausências, e as duas são do versículo.
Faraó não aparece — não foi avisado, não é mencionado, não reage. É a única praga do capítulo assim, e ele só voltará à cena em Êxodo 8:19, procurado pelos seus próprios técnicos.
Israel não aparece. A frase "em toda a terra do Egito" não abre exceção, e o Êxodo continua sem dizer uma palavra sobre os israelitas. A primeira resposta virá em Êxodo 8:22.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Arão
O executor, e a última vez que ele age com o cajado no Êxodo: as ameaças seguintes deste capítulo serão de envio direto, sem gesto e sem objeto. Repare que, nas três pragas em que Arão estendeu o cajado, os especialistas do Egito estiveram presentes — duas vezes repetindo o feito, e a terceira, no versículo seguinte, tentando sem conseguir.
Moisés
Presente no plural de "assim fizeram", ausente do gesto. Recebeu a ordem e a repassou, e é a última vez no capítulo em que ele aparece sem falar.
Faraó
Ausente por inteiro. Não é avisado, não é mencionado, não é procurado e não reage. É o único episódio de praga em Êxodo 8 em que o rei não aparece nem antes nem durante.
“Os homens e os animais”
Não são personagens, e é por isso que merecem linha. São a população do Egito e o gado dela, tratados como um bloco só — a fórmula que o item 2 examina. É a primeira vez que o Êxodo põe os animais entre os atingidos por uma praga: os peixes do Nilo tinham morrido em Êxodo 7:21, mas peixe do rio não é rebanho de ninguém.
O pó da terra, e a terra do Egito
O material e o território, ambos precedidos de "todo". O pó era o único elemento do país que não tinha dono nem administração, e é o que passa a cobrir gente e bicho.
O acontecimento
A terceira praga, executada. Fecha o primeiro grupo de três, aberto na margem do Nilo em Êxodo 7:15, e é a primeira que atinge corpos.
5. Pontos de Ensino
Obedecer, aqui, é fazer a mesma frase acontecer
O versículo é a ordem anterior repetida no passado. Sem comentário, sem hesitação, sem pergunta e sem relato do efeito imediato. É assim que o Êxodo escreve obediência — e vale reparar que ele não elogia ninguém por isso.
A praga que muda de lugar muda de natureza
Enquanto a praga estava no rio, na água e na casa, havia distância possível. A partir do momento em que ela está no corpo, não há. O ponto não é retórico: é o que separa esta praga das duas anteriores, e é o que explica por que ela não precisa de aviso nem de negociação para pesar.
O texto não mostra o sofrimento
Quatro palavras para uma praga que atinge um país inteiro. Nenhuma descrição, nenhuma cena, nenhum apelo. Vale guardar isso como régua de leitura: quando um texto bíblico quer comover, ele sabe fazê-lo — e quando não faz, é porque não está tentando. Ler compaixão onde o texto é seco é acrescentar.
Um adversário que não está na sala
O rei não aparece neste episódio, e a praga acontece do mesmo jeito. É um dado sobre a estrutura do livro: o que está em curso não depende da presença nem da resposta dele.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo desloca uma coisa de lugar, e o deslocamento levanta uma questão antiga: o que muda quando um mal deixa de estar fora e passa a estar no corpo?
Um incômodo externo pode ser enfrentado, contornado ou suportado à distância. Enquanto ele está no rio, na casa ou na rua, quem sofre continua tendo um ponto de onde olhar para o problema. O corpo tira esse ponto. Não se toma distância da própria pele, e não se decide ignorar o que está grudado nela.
Daí sai um problema que atravessa a reflexão sobre a dor desde a Antiguidade: a diferença entre o que se tem e o que se é. Quem perde uma colheita perde alguma coisa; quem não consegue dormir por causa do que está sobre si não perde — fica impedido. A primeira situação admite cálculo, negociação e paciência; a segunda consome a capacidade de fazer qualquer uma das três.
Há um segundo ponto, menor e mais frio: o versículo trata pessoas e animais pela mesma frase, sem nenhuma distinção. Diante de um inseto, a diferença entre um homem e um boi não opera. O Êxodo não comenta isso — nem para negar a distinção, nem para defendê-la —, e vale registrar que a frase, como está, não a marca.
Convém o limite de sempre: o texto não levanta nenhuma dessas questões. Ele registra onde a praga ficou. Quem pergunta o que isso significa é quem lê.
7. Aplicações Práticas
É um versículo de execução, e não traz muita coisa para a vida prática. Duas observações cabem; o resto seria enchimento.
O incômodo pequeno e contínuo desgasta mais que o grande e episódico
Nenhuma das três primeiras pragas matou alguém, e esta é a menor de todas em escala: são insetos. O que a torna pesada é que ela não sai de cima e não tem hora de parar.
As pessoas se organizam bem diante de uma crise com começo, meio e fim; o que as esgota é o atrito diário que ninguém consegue nomear como problema porque, tomado isoladamente, cada episódio é ridículo. Quem administra equipe, casa ou saúde faz bem em medir a duração do incômodo, e não só o tamanho dele.
Cumprir a instrução como ela foi dada
Arão não melhora a ordem, não a adapta e não a explica. Estende a mão, fere o pó, e o texto usa quase as mesmas palavras que usou para descrever o que foi mandado.
Há um limite óbvio nessa aplicação, e é honesto marcá-lo: o versículo não está ensinando obediência em geral, e não serve para exigir obediência de ninguém a ninguém. O que ele mostra é uma cena de execução fiel — e o que se pode tirar dela é técnico: quando a instrução é clara, a criatividade do executor costuma ser o problema, não a solução.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o versículo diz “assim fizeram”, no plural, se a ordem era só para Arão?
O Êxodo faz isso mais de uma vez, e sempre do mesmo jeito: registra a obediência dos dois irmãos e depois nomeia quem executou o gesto — em Êxodo 7:20 a construção é idêntica. Há quem veja aí sinal de que os dois agiram juntos, e quem entenda o plural como fórmula, sem valor descritivo. Não é possível decidir, e a diferença não altera nada do episódio.
Os israelitas foram atingidos?
O versículo diz "em toda a terra do Egito" e não abre exceção. As duas pragas anteriores também não abriram.
Duas leituras circulam. A primeira entende que a separação anunciada em Êxodo 8:22 vale desde o começo, e que o texto só a explicita quando ela vira argumento. A segunda entende que a separação começa ali, e que antes disso os israelitas sofreram como todo mundo. A segunda tem a seu favor o silêncio e o fato de o anúncio de Êxodo 8:22 ser apresentado como novidade; a primeira, a coerência do conjunto. O texto não diz, e quem afirmar qualquer uma das duas com segurança está preenchendo.
Se todo o pó virou insetos, o que sobrou no chão?
A frase não suporta leitura aritmética, e o próprio livro usa esse tipo de exagero em outros lugares — inclusive em Êxodo 8:31, com "não ficou um sequer". É a linguagem de quem diz que uma coisa foi geral.
Por que o Êxodo não descreve o sofrimento?
Porque não descreve em praga nenhuma. O livro gasta versículos inteiros em ordens e em diálogos e resolve os efeitos em uma linha — escolha de composição constante, não falha desta passagem. Quando a Bíblia quer produzir comoção, ela sabe: basta ler Lamentações. Aqui não está tentando.
Por que os animais aparecem agora, e não antes?
O Êxodo não explica. O que se observa é que esta é a primeira praga que se instala em corpos, e que o par "homens e animais" é a fórmula da língua para dizer "tudo o que vive numa casa". É plausível que os animais entrem porque a praga é do tipo que não distingue — mas isso é inferência de quem lê, e não afirmação do texto.
9. Conexão com Outros Textos
A ordem que este versículo cumpre
Êxodo 8:16 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Diga a Arão: Estenda o seu cajado e fira o pó da terra, e ele virará piolhos em toda a terra do Egito.'"
Ponha os dois versículos lado a lado e o método do livro fica visível: a execução é a ordem passada para o passado, com três acréscimos — a mão, o "todo" e o par "homens e animais".
A mesma fórmula de cumprimento, na praga anterior
Êxodo 7:20 — "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR havia ordenado: ele levantou o cajado e feriu as águas do Nilo, diante de Faraó e dos seus servos, e todas as águas do Nilo viraram sangue."
Plural para a obediência, singular para o gesto. E uma diferença que salta: ali o ato é praticado "diante de Faraó e dos seus servos"; aqui não há ninguém assistindo.
“Homem e animal”: o par, e de onde ele vem
Gênesis 7:23 — "Assim foram exterminados todos os seres que havia sobre a face da terra, desde o homem até os animais, os répteis e as aves do céu; foram exterminados da terra, e restou somente Noé e os que estavam com ele na arca."
A fórmula aparece no anúncio do dilúvio, em Gênesis 6:7, e no registro dele, e serve ali para dizer que nada ficou de fora. É a mesma função que cumpre neste versículo, em escala menor.
O par nos profetas
Jeremias 7:20 — "Por isso assim diz o Senhor DEUS: Eis que minha ira e meu furor serão derramados sobre este lugar: sobre os homens, sobre os animais, sobre as árvores do campo, e sobre os frutos da terra; e se acenderá, e não se apagará."
Séculos depois, a expressão continua sendo a maneira padrão de dizer que uma desgraça não abre exceção. Sofonias 1:3 a usa do mesmo modo.
O caso que mostra como a fórmula era entendida
Jonas 3:8 — "E que as pessoas e os animais se cubram de saco, e clamem fortemente a Deus; e convertam-se cada um de seu mau caminho, e da violência que está em suas mãos."
O rei de Nínive põe o gado de jejum e de luto junto com a população. Para quem escreveu, homem e animal estavam na mesma casa e no mesmo destino — e é essa mentalidade que torna natural a frase deste versículo.
O salmo que recontou a praga
Salmo 105:31 — "Ele falou, e vieram vários bichos e piolhos em todos os seus limites."
A recontagem mais tardia conserva os insetos e o alcance, e deixa cair tudo o mais: o pó, o cajado, a mão de Arão e o par "homens e animais".
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Assim fizeram: Arão estendeu a mão com o seu cajado e feriu o pó da terra, e houve piolhos nos homens e nos animais; todo o pó da terra virou piolhos em toda a terra do Egito.
Texto hebraico
וַיַּעֲשׂוּ־כֵן וַיֵּט אַהֲרֹן אֶת־יָדוֹ בְמַטֵּהוּ וַיַּךְ אֶת־עֲפַר הָאָרֶץ וַתְּהִי הַכִּנָּם בָּאָדָם וּבַבְּהֵמָה כָּל־עֲפַר הָאָרֶץ הָיָה כִנִּים בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם׃
Transliteração
wa-ya'asu-khen, wa-yet Aharon et-yado ve-mattehu wa-yakh et-afar ha-arets, wa-tehi ha-kinnam ba-adam u-va-behemah; kol-afar ha-arets hayah khinnim be-khol-erets Mitsrayim.
Análise palavra por palavra
וַיַּעֲשׂוּ־כֵן — wa-ya'asu-khen, "e fizeram assim".
Verbo asah, fazer, no plural, e o advérbio khen, assim. Não há sujeito expresso: o hebraico não diz quem fez, e só a frase seguinte nomeia Arão.
As duas palavras são a fórmula de cumprimento do livro, e abrem também Êxodo 7:22 e Êxodo 8:18, ali com os especialistas do Egito como sujeito. É a mesma dupla de palavras para os dois lados do episódio, e o Êxodo não acrescenta nenhuma marca que separe um cumprimento do outro.
וַיֵּט אַהֲרֹן אֶת־יָדוֹ בְמַטֵּהוּ — wa-yet Aharon et-yado ve-mattehu, "e Arão estendeu a sua mão com o seu cajado".
Wa-yet é o verbo natah, estender, na forma que encadeia a narrativa. Yado é "a sua mão".
O detalhe está na preposição de ve-mattehu. É o be hebraico, que aqui funciona como o nosso "com" de instrumento: a mão se estende por meio do cajado. A ordem de Êxodo 8:16 tinha dito só "estenda o seu cajado", sem a mão; a execução repõe a construção completa, que é a mesma de Êxodo 7:19 e de Êxodo 8:5.
וַיַּךְ אֶת־עֲפַר הָאָרֶץ — wa-yakh et-afar ha-arets, "e feriu o pó da terra".
Mesma raiz nakah da ordem, agora no passado narrativo. É o verbo do golpe, e o comentário sobre o que significa desferi-lo contra pó está no estudo de Êxodo 8:16.
וַתְּהִי הַכִּנָּם — wa-tehi ha-kinnam, "e houve os piolhos".
Três observações, e as três são pequenas e reais.
O verbo está no feminino singular. Wa-tehi é hayah, ser, concordando com ha-kinnam como se esta fosse uma palavra feminina única — o que indica que a forma está sendo tratada como coletivo: não "os piolhos", mas "a bicharada", tomada como massa.
Vem com artigo, marcando que a coisa já tinha sido nomeada no versículo anterior. E é a outra forma da palavra: aqui está kinnam, e no fim do mesmo versículo estará kinnim. A disputa sobre o que elas significam e por que são duas está desenvolvida no estudo de Êxodo 8:16.
בָּאָדָם וּבַבְּהֵמָה — ba-adam u-va-behemah, "no homem e no animal".
Os dois substantivos estão no singular, com artigo, e é assim que o hebraico forma um coletivo: "o homem" é a espécie humana, "o animal" é o gado. O português precisa do plural para dizer a mesma coisa.
Behemah é palavra específica. Não designa bicho em geral — para isso o hebraico tem chayyah, que cobre o animal do campo, o selvagem. Behemah é o animal doméstico: o que fica no curral, o que puxa, o que dá leite, o que se conta no inventário. A frase, portanto, não fala de fauna. Fala do que pertence a uma casa.
Quanto à preposição be, ela é larga e serve tanto para "em" quanto para "sobre". Convém não construir demais em cima dela: é a mesma preposição que Êxodo 8:4 usou para as rãs. O que muda de um versículo para o outro não é a preposição, e sim o verbo. Lá as rãs sobem — movimento, ação que começa e termina. Aqui os piolhos são — estado, situação que se instala e fica. A diferença é pequena na página e grande na cena.
כָּל־עֲפַר הָאָרֶץ הָיָה כִנִּים — kol-afar ha-arets hayah khinnim, "todo o pó da terra virou piolhos".
Kol, "todo", é a palavra nova em relação à ordem, que dizia apenas "o pó da terra".
E há uma diferença de construção que vale notar. Em Êxodo 8:16 o hebraico dizia we-hayah le-khinnim — "e será para piolhos", com a preposição que marca a passagem de um estado a outro. Aqui a preposição some: hayah khinnim, "foi piolhos", predicação direta. O anúncio descreveu a transformação em curso; o cumprimento registra o resultado pronto. Não é regra rígida do hebraico e a distinção não deve ser forçada, mas a troca está no texto.
בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם — be-khol-erets Mitsrayim, "em toda a terra do Egito".
A fórmula do alcance, repetida da ordem. Some-se a ela o kol anterior e o versículo termina com dois "todos": todo o material e todo o território. É o grau máximo que a linguagem do livro oferece, e ele aparece aqui pela primeira vez no capítulo.
11. Conclusão
Do que foi examinado, três conclusões.
A primeira: a praga muda de categoria neste versículo. Enquanto as pragas atingiam o rio, a água de beber e o espaço das casas, quem sofria ainda tinha de onde olhar para o problema. A partir do momento em que o mal se instala em corpos, esse lugar deixa de existir. Conclui-se que a terceira praga é menor em escala e mais difícil de suportar do que as duas anteriores — e que o Êxodo produz esse efeito sem gastar uma palavra descrevendo sofrimento.
A segunda: o alcance é declarado no grau máximo. Dois "todos" na mesma frase, um para a matéria e outro para o território. Não se extrai disso uma contagem; o que se conclui é que o texto fecha a porta a qualquer escapatória — não há região limpa, não há material poupado e, até aqui, não há exceção anunciada para ninguém.
A terceira: a ausência do rei é parte do que o versículo diz. A praga é executada sem aviso, sem plateia e sem reação registrada. Conclui-se que o que está em curso não depende da presença dele — e que, quando Faraó voltar à cena, dois versículos adiante, quem terá ido procurá-lo não serão Moisés e Arão.
Fica em aberto o que o Êxodo ainda não disse: onde estavam os israelitas. Três pragas, e nenhuma palavra sobre eles.













