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Êxodo 7:21

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 42 acessos
Os peixes do Nilo morreram, o rio fedeu, e os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo; e houve sangue em toda a terra do Egito.
Margem do Nilo com peixes mortos boiando na água escura e avermelhada, moradores afastando-se com o rosto coberto e jarros vazios na mão.

Estudo


Os peixes do Nilo morreram, o rio fedeu, e os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo; e houve sangue em toda a terra do Egito.

1. Introdução

O versículo descreve a praga pelo efeito. Não há espetáculo, não há reação de ninguém, não há comentário: há uma lista.

E a lista tem ordem, que é a ordem real dos fatos. Os peixes morreram; o rio fedeu; ninguém conseguiu beber. Uma coisa puxa a outra, e o texto as escreve na sequência em que aconteceriam.

É a primeira vez no Êxodo que uma ação divina é narrada por consequência material. Até aqui o livro trabalhava com cajado, cobra e mão que muda de cor — coisas que se veem uma vez e passam. Isto é outra escrita: peixe boiando, cheiro que não sai, gente sem o que beber, por dias.

Três pontos que o estudo desenvolve adiante.

O peixe não é detalhe pitoresco. Era comida — a proteína barata do povo egípcio, e a lembrança que Israel guardaria do Egito, conforme Números 11:5. Um rio de peixe morto é um problema de mesa antes de ser um problema de fé.

"Fedeu" é palavra carregada. A mesma raiz hebraica descreve, em Êxodo 5:21, o que os supervisores acusaram Moisés de ter feito com eles diante de Faraó. Duas vezes no mesmo livro, e na segunda quem fede é o Egito.

A frase final amplia o alcance e cria uma dificuldade. "Houve sangue em toda a terra do Egito" cumpre o que Êxodo 7:19 mandara — sangue até nas vasilhas de madeira e de pedra. Três versículos depois, os magos do Egito acharão água limpa e os egípcios cavarão poços que funcionam. O texto não harmoniza as duas coisas, e o estudo mostra onde a costura falta.

2. Contexto Histórico e Cultural

Peixe era a carne dos pobres do Egito

Para medir o tamanho desta praga é preciso saber o que o peixe representava naquele país, e a resposta é: quase tudo o que não fosse pão.

Carne de boi era comida de templo, de festa e de gente rica. Aves e porco apareciam conforme o lugar e a época. O que estava ao alcance de qualquer família, o ano inteiro, num país cortado de ponta a ponta por um rio e por canais, era peixe. Ele não precisava de pasto, não precisava de rebanho e não custava nada além do trabalho de pegá-lo.

Os métodos estão desenhados nas paredes dos túmulos: rede de arrasto puxada por uma fileira de homens, cesto armado na correnteza, linha e anzol, arpão de duas pontas para o pescador sozinho na canoa de papiro. Ao lado das cenas de pesca vêm as de processamento — homens abrindo o peixe, tirando as vísceras e pendurando as postas em varais para secar ao sol, ou salgando-as em jarras.

Esse é o dado que interessa. Peixe seco e peixe salgado eram estoque: davam para guardar, transportar e distribuir, entravam nas rações pagas a trabalhadores junto com pão e cerveja, e circulavam como mercadoria corrente.

O que Israel se lembrou de ter comido

Há uma confirmação vinda de dentro da própria Bíblia, e ela é impressionante de tão concreta.

Uma geração depois da saída, no deserto, o povo reclama da comida e enumera o que perdeu: "Lembramo-nos do peixe que comíamos de graça no Egito, dos pepinos, dos melões, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos" — Números 11:5. O primeiro item da lista é peixe, e a palavra usada é "de graça".

A queixa é de escravos famintos e não é relatório econômico; mas mostra o que ficou na memória de quem viveu lá. Ponha isso ao lado deste versículo: o primeiro golpe da primeira praga não tirou do egípcio comum um luxo, tirou o prato dele.

Mortandade de peixe é coisa que acontece — e cheira

Um segundo dado de fundo, este de ordem prática.

Mortandades de peixe em rio são fenômeno conhecido, e no Egito havia estação para elas: quando a água baixava e ficava parada nas poças da margem, o oxigênio caía e o peixe morria em quantidade. Qualquer ribeirinho daquele país sabia como era o cheiro de uma poça de peixe podre no calor.

O que o versículo descreve não é, portanto, inédito para quem estava lá. É um fenômeno conhecido em escala desconhecida: o rio inteiro, de uma vez, e não a poça da curva. A praga não inventa uma categoria nova de desgraça; pega uma desgraça familiar e a multiplica. A observação é de contexto — o Êxodo não a faz e não diz nada sobre causa natural.

Uma nota sobre o peixe e a religião egípcia

O peixe tinha estatuto religioso ambíguo no Egito, com espécies cultuadas em certas províncias e evitadas em outras; essa estrutura de proibição alimentar está descrita no estudo de Gênesis 43:32 e não se repete aqui. O que cabe registrar é que nada disso aparece no versículo: o Êxodo não menciona templo, sacerdote, deus nem tabu. Diz que os peixes morreram, e a razão pela qual isso importa, no texto, é que as pessoas ficaram sem comer e sem beber.

3. Análise Teológica do Versículo

"Os peixes do Nilo morreram"

A praga começa a ser contada pelo que morreu, e o que morreu não foi gente.

Repare na função dessa primeira frase dentro do episódio. Ela é a prova. Um rio de cor mudada é coisa que se discute; peixe boiando de barriga para cima, não. O peixe morto é o que transforma um espetáculo em fato verificável — e foi essa a observação que Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) fez ao comentar o versículo: se tivesse sido só aparência, não teria matado os peixes.

O argumento tem força e tem limite: estabelece que alguma coisa real aconteceu com a água, não estabelece o que foi. E há uma consequência que o texto não enuncia e estava diante dos olhos de quem viveu a cena — peixe era comida, e comida barata, conforme o item 2. A praga tirou a bebida e o prato ao mesmo tempo.

"o rio fedeu"

Três palavras, e elas fazem duas coisas.

A primeira é de ordem física. O cheiro é o que torna a praga permanente. Cor se olha e se deixa de olhar; cheiro de podridão em rio grande, no calor do Egito, acompanha a cidade inteira o dia todo, e durará, segundo Êxodo 7:25, sete dias.

A segunda é de vocabulário. O verbo é o mesmo que Jacó usa em Gênesis 34:30 para dizer que os filhos o tornaram "malcheiroso" diante dos povos da terra, e o campo da palavra está desenvolvido naquele estudo. O que interessa aqui é a outra ocorrência: em Êxodo 5:21 os supervisores israelitas acusam Moisés e Arão de os terem feito "feder aos olhos de Faraó". Era acusação, era figurada, e era dirigida contra os dois enviados.

Agora a mesma raiz volta, e volta literal. Quem fede é o rio do Egito. O que era metáfora na boca de escravos humilhados virou fato na terra de quem os humilhava.

O Êxodo não comenta a passagem de uma coisa à outra. Não escreve "assim como", não faz a ligação, não marca ironia. Pôs as duas frases a dois capítulos de distância e seguiu adiante — e é possível que a repetição seja apenas o vocabulário corrente para mau cheiro, sem intenção nenhuma. Não é possível decidir. O que se pode dizer é que a palavra é a mesma e que o alvo trocou de lado.

"e os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo"

Esta é a frase do problema real, e ela merece ser lida devagar.

O texto não diz que era proibido beber, nem que era perigoso, nem que estava impuro. Diz que não conseguiam. É uma constatação sobre o corpo humano: a água estava num estado que o organismo recusa. Ellicott observa exatamente isso — antes eles tinham nojo, agora simplesmente não dava.

E aqui aparece o dado que dá o tamanho do desastre, e que o versículo espera que o leitor já saiba: não havia outra água. O Egito praticamente não tem chuva; toda a vida do país estava no rio e nos canais que saíam dele — assunto tratado no estudo de Gênesis 41:1. Tirar o Nilo de um egípcio não é tirar uma opção entre várias. É tirar a única.

Repare também no sujeito: não é Faraó, não é a corte, não são os sacerdotes — são "os egípcios", o povo. A frase desce do palácio para a rua, e é esse sujeito que voltará em Êxodo 7:24, cavando, enquanto o rei entra em casa.

"e houve sangue em toda a terra do Egito"

A frase final sai do rio e cobre o país, e é a mais difícil do versículo.

Ela cumpre, palavra por palavra, o que Êxodo 7:19 ordenara: sangue sobre os rios, os canais, os açudes, os reservatórios, e até nas vasilhas de madeira e de pedra. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) leem assim — o alcance inclui a água já recolhida e guardada dentro das casas.

Se for essa a leitura, a dificuldade fica evidente no próprio capítulo. Em Êxodo 7:22 os magos do Egito conseguem água limpa suficiente para repetir o sinal, e em Êxodo 7:24 os egípcios cavam e bebem. O texto não explica nem uma coisa nem outra.

Há uma alternativa. Em hebraico, "toda a terra de X" costuma funcionar como expressão de extensão, não como inventário — o mesmo uso que faz "todo o povo saiu" significar que a cidade saiu, e não que ninguém ficou em casa. Lida assim, a frase diz que o sangue se espalhou pelo país inteiro, sem afirmar que cada gota de líquido do Egito foi atingida. Nenhuma das duas leituras pode ser demonstrada a partir deste versículo, e o Êxodo escreve a frase mais ampla possível aqui e descreve gente bebendo três versículos adiante sem ver nisso problema nenhum.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os peixes

São os primeiros seres vivos a morrer no bloco das pragas, e os únicos deste episódio. O hebraico usa um coletivo — a população de peixes tomada como um todo, e não peixes contados um a um: é o vocabulário de quem descreve um estoque. O que eles eram para aquele país está no item 2.

Os egípcios

Aparecem pela primeira vez neste episódio como sujeito de um verbo, e o verbo é "não conseguiam".

Convém reparar em quem está e em quem não está na frase. Não está Faraó, que no versículo anterior era apenas quem via. Não está a corte. Não estão os magos, que entram no versículo seguinte. Está o povo — e é ele que volta em Êxodo 7:24, cavando a própria solução.

O Nilo

O rio é nomeado três vezes em um versículo só: os peixes que estavam nele, ele que fede, a água que vem dele. É a maior concentração do nome em todo o capítulo.

O que o rio significava para o Egito está tratado no estudo de Gênesis 41:1, e a primeira aparição dele no Êxodo, em Êxodo 1:22.

A terra do Egito

A expressão fecha o versículo e amplia o alcance para fora do leito do rio.

Vale lembrar a geografia concreta, porque ela não é intuitiva: o Egito habitado era uma faixa estreita de terra ao longo do rio, mais o leque do Delta onde ele se abre antes do mar. Dizer "toda a terra do Egito" é dizer essa faixa — fora dela, deserto. O país e o rio praticamente coincidem no mapa.

O acontecimento

Este versículo é o terceiro movimento da primeira praga: anúncio em Êxodo 7:17-18, execução em Êxodo 7:20, efeitos aqui.

Note-se que ele é o cumprimento exato de um anúncio. Êxodo 7:18 tinha dito, em ordem: os peixes morrerão, o rio federá, os egípcios não conseguirão beber. Este versículo repete os três, na mesma ordem, no tempo passado — e acrescenta um quarto item que não estava lá.

5. Pontos de Ensino

A praga é contada pelo estrago, não pelo efeito visual

O que o versículo registra é peixe morto, cheiro e sede. Não registra assombro, não registra multidão correndo, não registra grito.

O Êxodo poderia ter demorado no vermelho da água, que é a imagem forte; preferiu as consequências, que são as chatas. O que interessa ao texto é o que ficou depois que a cena passou.

Desgraça grande começa em coisa pequena

A sequência do versículo é uma cadeia: morreu peixe, por isso cheirou mal, por isso ninguém bebeu.

Vale notar a ordem. O que arruína o rio não é a mudança em si — é o que apodrece por causa dela. O dano maior veio de segunda mão.

O que primeiro falta é a coisa mais simples

Não faltou ouro, não faltou exército, não faltou templo. Faltou água para beber, e faltou peixe para comer.

Um império inteiro pode continuar de pé com todas as suas instituições funcionando e mesmo assim parar, porque as pessoas que o sustentam precisam beber todo dia. A praga age exatamente nesse ponto, e por isso não precisa de exército.

A palavra que voltou contra quem a usou

Em Êxodo 5:21 os supervisores de Israel disseram a Moisés que ele os fizera feder diante de Faraó. Aqui quem fede é o rio do Egito.

Não é preciso transformar isso em lição moral — o Êxodo não a extrai. Basta registrar o que está escrito: a acusação que o povo fez ao seu libertador e o que aconteceu ao país que o oprimia usam a mesma palavra.

Cumpriu-se o que tinha sido dito, item por item

Êxodo 7:18 anunciou três coisas e este versículo registra as três, na mesma ordem.

É um padrão que o livro repete e vale reter: a credibilidade do anúncio não se apoia no tamanho do prodígio, e sim na correspondência entre o que foi dito antes e o que se viu depois. Quem quiser conferir tem os dois textos a três versículos de distância.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe uma questão de método, e ela não é religiosa: como se descreve um acontecimento grande?

Há duas maneiras, e elas competem desde que existe relato. Uma descreve a aparência — o que se viu, a cor, a cena. Outra descreve a consequência — o que deixou de funcionar depois. O Êxodo tinha à mão a primeira, que é a mais impressionante, e escolheu a segunda.

A escolha tem um efeito lógico que vale enunciar. Aparência é contestável; consequência é verificável. Quem discorda da descrição de uma cor discute a percepção de quem olhou; quem discorda de um peixe morto tem de explicar o peixe. Ao contar a praga pelo estrago, o texto se coloca num terreno em que o desmentido exigiria mais do que uma opinião.

Há um limite, e ele é honesto: descrever por consequência estabelece que algo aconteceu, não estabelece o que aconteceu. Esta é a razão pela qual o versículo não resolve a discussão sobre a natureza da praga, e não é possível decidi-la a partir dele. O texto fecha a porta da negação e deixa aberta a da explicação.

E vale observar que essa é a mesma economia com que o livro tratará a fé do povo e a recusa do rei: nunca pelo que sentiram, sempre pelo que fizeram ou deixaram de fazer.

7. Aplicações Práticas

O versículo é descritivo e rende pouco em aplicação direta. Ficam dois pontos com relação real com o que está escrito.

O dano que importa costuma ser o de segunda mão

A água mudou, mas quem arruinou o rio foi o peixe morto que apodreceu nela. O estrago não veio do acontecimento: veio do que o acontecimento deixou apodrecer.

Isso se repete fora do texto com regularidade cansativa. A perda do emprego não costuma ser o que quebra uma casa — é a dívida que se acumula nos meses seguintes. A discussão não costuma ser o que acaba com uma amizade — é o silêncio que vem depois. Quem trata do fato inicial e não trata do que ele pôs em decomposição administra a coisa errada.

A aplicação prática é simples de enunciar e difícil de fazer: depois de qualquer perda, a pergunta útil não é "o que aconteceu", é "o que isto vai estragar se ficar parado".

Contar o estrago, e não a impressão

O texto descreve por consequência: peixe morto, cheiro, sede. Não descreve emoção.

Vale como regra de conversa e de trabalho. Quem precisa relatar um problema — a um chefe, a um médico, a um cônjuge — costuma relatar como se sentiu, e o interlocutor fica sem o que fazer com aquilo. Dizer o que deixou de funcionar, em ordem, é mais curto, é conferível e permite agir. É também mais difícil, porque exige ter olhado para o estrago antes de falar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto conta a morte dos peixes antes de contar a sede das pessoas?

Porque é a ordem dos fatos, e porque é a ordem da prova.

A sequência do versículo não é dramática: é causal. Primeiro morre o peixe, depois o corpo dele apodrece, depois o cheiro toma o rio, depois ninguém bebe. Invertida, a frase perderia o encadeamento e viraria lista.

Há um efeito secundário. Ao começar pelo que morreu, o texto põe na frente o item menos discutível do episódio — e só depois chega ao que dependeria do relato de alguém.

Se havia sangue "em toda a terra do Egito", como os magos acharam água no versículo seguinte?

O texto não diz, e é importante não inventar resposta.

As saídas propostas pelos comentaristas existem e são plausíveis, sem serem demonstráveis: que os magos tenham usado água recolhida antes da praga, que a tenham obtido cavando, como o povo fará em Êxodo 7:24, ou que trabalhassem com quantidade pequena, numa vasilha. São hipóteses construídas para fechar uma conta que o Êxodo deixou aberta.

A pergunta pertence, por direito, ao estudo de Êxodo 7:22, que a enfrenta. Aqui basta registrar que a dificuldade nasce nesta frase.

Os peixes mortos foram aproveitados?

O texto não diz, e a pergunta não é ociosa: peixe era comida, e peixe morto recém-boiado poderia, em tese, ser recolhido. O que o versículo afirma é que o rio fedeu, o que descreve decomposição já adiantada. Não se pode ir além disso.

O que se pode observar é o silêncio: o Êxodo não tem nenhum interesse pela sorte material dos egípcios comuns neste ponto. Eles aparecem como quem não consegue beber, e depois como quem cava. Nada mais.

9. Conexão com Outros Textos

O anúncio, três versículos antes

Êxodo 7:18 — "Os peixes que há no Nilo morrerão, o rio federá, e os egípcios não conseguirão beber a água do Nilo."

Ponha os dois lado a lado e note que não falta nem sobra nada: os mesmos três itens, na mesma ordem, no tempo futuro e depois no passado. O que este versículo acrescenta é a quarta frase, que não estava no anúncio.

A mesma raiz, como acusação

Êxodo 5:21 — "e lhes disseram: 'Que o SENHOR olhe para vocês e julgue! Porque vocês nos fizeram feder aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos, pondo na mão deles uma espada para nos matar.'"

Lá o verbo é figurado e o alvo são Moisés e Arão. Aqui é literal e o alvo é o rio do Egito. O campo da palavra está no estudo de Gênesis 34:30, onde ela é a queixa de Jacó contra os filhos.

O peixe de que Israel se lembrou

Números 11:5 — "Lembramo-nos do peixe que comíamos de graça no Egito, dos pepinos, dos melões, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos."

É a única lista de comida egípcia que a Bíblia oferece, e o peixe encabeça. Vale contra a impressão de que a morte dos peixes seja detalhe decorativo da praga.

Como Israel cantou a praga

Salmo 105:29 — "Converteu as águas deles em sangue e matou os peixes."

Doze palavras para o episódio inteiro, e das quatro frases deste versículo o salmo reteve uma: o peixe morto.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Os peixes do Nilo morreram, o rio fedeu, e os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo; e houve sangue em toda a terra do Egito.

Texto hebraico

וְהַדָּגָה אֲשֶׁר־בַּיְאֹר מֵתָה וַיִּבְאַשׁ הַיְאֹר וְלֹא־יָכְלוּ מִצְרַיִם לִשְׁתּוֹת מַיִם מִן־הַיְאֹר וַיְהִי הַדָּם בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם׃

Transliteração

we-ha-dagah asher-ba-ye'or metah; wa-yiv'ash ha-ye'or; we-lo-yakhlu Mitsrayim li-shtot mayim min-ha-ye'or; wa-yehi ha-dam be-khol-erets Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וְהַדָּגָה — we-ha-dagah, "e a peixaria".

A palavra não é o plural comum de peixe. Dag é peixe, e o plural seria dagim; dagah é a forma coletiva feminina — o conjunto dos peixes tomado como massa, do mesmo modo que o português diz "o gado" e não "os bois".

A escolha tem efeito. Não morreram muitos peixes: morreu o peixe do rio, a população inteira tratada como uma coisa só — e o verbo seguinte confirma, no singular, concordando com o coletivo. A mesma forma aparece em Números 11:5, na lembrança do peixe comido de graça no Egito: é palavra de estoque e de comida, não de animal individual.

אֲשֶׁר־בַּיְאֹר — asher-ba-ye'or, "que estava no Nilo".

A mesma construção que Êxodo 7:20 usou para as águas: o texto identifica cada coisa pela relação dela com o rio. Ye'or é o termo egípcio para o Nilo, tratado no estudo de Gênesis 41:1.

מֵתָה — metah, "morreu".

Verbo mut, morrer, no perfeito, terceira pessoa do feminino singular, concordando com o coletivo — o verbo mais simples e mais comum do hebraico para morte, sem nuance de violência ou de castigo. Repare que ele vem no perfeito, e não na forma que encadeia a narrativa: o hebraico marca assim um estado alcançado, e quando a cena é retomada os peixes já estão mortos.

וַיִּבְאַשׁ הַיְאֹר — wa-yiv'ash ha-ye'or, "e o rio fedeu".

Raiz ba'ash, feder, cheirar mal. A forma aqui é a simples (o Qal), intransitiva: o rio fede, ninguém o faz feder.

É exatamente a diferença com Êxodo 5:21, onde a mesma raiz aparece na forma causativa — "vocês nos fizeram feder" —, com sujeito, objeto e acusação. O campo semântico da palavra, com as ocorrências no resto da Bíblia, está desenvolvido no estudo de Gênesis 34:30.

וְלֹא־יָכְלוּ מִצְרַיִם לִשְׁתּוֹת מַיִם — we-lo-yakhlu Mitsrayim li-shtot mayim, "e não podiam os egípcios beber água".

Yakhol é o verbo da capacidade: poder, conseguir, ser capaz de. Não é o verbo da permissão. A frase não diz que era proibido nem impuro: diz que não dava.

Li-shtot é o infinitivo de shatah, beber. Ele voltará duas vezes em Êxodo 7:24, no versículo dos poços: os egípcios cavam "água para beber" porque não podiam "beber" do rio. O verbo da falta é o verbo da solução.

וַיְהִי הַדָּם בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם — wa-yehi ha-dam be-khol-erets Mitsrayim, "e houve o sangue em toda a terra do Egito".

Duas coisas merecem nota nesta frase.

A primeira é o artigo. O hebraico não diz "houve sangue": diz "houve o sangue". É o sangue de que já se falou, o de Êxodo 7:20 — a frase não anuncia fenômeno novo, retoma o mesmo e diz até onde chegou.

A segunda é be-khol-erets, "em toda a terra de". É expressão fixa, muito frequente no Êxodo, e o alcance dela é discutido: em hebraico bíblico ela serve tanto para totalidade estrita quanto para extensão geral, do mesmo modo que "a cidade inteira saiu" não obriga a supor que ninguém ficou em casa. Não é possível decidir, só a partir da expressão, qual dos dois usos está aqui — e é dessa indeterminação que nasce a dificuldade com Êxodo 7:22 e Êxodo 7:24.

11. Conclusão

Do que foi examinado, quatro conclusões.

A primeira: o Êxodo conta a praga pelo estrago, e essa escolha tem consequência. Havia uma imagem forte disponível — o rio vermelho — e o texto não demora nela. Descreve peixe morto, cheiro e sede, isto é, coisas que continuam existindo depois que a cena acaba. Aparência se contesta discutindo quem olhou; peixe morto, não. O texto se põe num terreno em que o desmentido custaria mais do que uma opinião — e paga por isso o preço de não dizer o que, afinal, aconteceu com a água.

A segunda: a ordem das três frases é causal, e o dano decisivo é o de segunda mão. A água mudou, o peixe morreu, o corpo dele apodreceu, o cheiro tomou o rio, e só então ninguém pôde beber. O que inutilizou o Nilo não foi a transformação: foi o que a transformação deixou apodrecendo dentro dele.

A terceira: a palavra do mau cheiro já tinha sido usada neste livro, e contra o lado contrário. Em Êxodo 5:21 os supervisores de Israel acusaram Moisés de os ter feito feder diante de Faraó; aqui a mesma raiz volta, literal, e quem fede é o rio do Egito. O Êxodo não marca a inversão e não faz ironia — é possível que seja apenas o vocabulário corrente para podridão, e não é possível decidir. O que se pode afirmar é que a palavra é a mesma e que o alvo trocou de lado.

A quarta: a frase final é a mais ampla do episódio, e é dela que nasce o problema do capítulo. "Houve sangue em toda a terra do Egito" cumpre ao pé da letra a ordem de Êxodo 7:19, que alcançava até as vasilhas dentro das casas. Um versículo depois, os magos acham água limpa; três versículos depois, o povo cava e bebe. Ou "toda a terra" é expressão de extensão e não de inventário, ou o texto simplesmente não se importou com a conta. Nenhuma das duas saídas pode ser demonstrada, e é honesto dizer que o Êxodo não mostra o menor constrangimento em escrever as três frases seguidas.

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