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Êxodo 7:18

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 25 acessos
Os peixes que há no Nilo morrerão, o rio federá, e os egípcios não conseguirão beber a água do Nilo.’”
Peixes mortos boiando junto à margem lodosa de um grande rio, sob o sol da manhã.

Estudo


Os peixes que há no Nilo morrerão, o rio federá, e os egípcios não conseguirão beber a água do Nilo.’”

1. Introdução

O anúncio continua, e muda de assunto. O versículo 17 falou do golpe e da mudança da água; este fala do que virá depois dela.

São três coisas, e nenhuma delas é espetáculo: os peixes morrem, o rio cheira mal, e as pessoas não conseguem beber. A mudança da água já foi anunciada; o que se acrescenta agora são as consequências para quem vive ali. As mesmas três serão registradas como fato em Êxodo 7:21, e o estudo daquele versículo é o dono do que a ordem delas significa.

Duas coisas deste versículo merecem ser anunciadas.

A primeira é o verbo "feder". Não é palavra decorativa: é a mesma que os supervisores israelitas atiraram contra Moisés e Arão em Êxodo 5:21, ao acusá-los de os terem feito cheirar mal diante do rei. A palavra volta, e o sujeito dela mudou de lado. O item 3 mede o que essa volta faz.

A segunda são os peixes. É a primeira morte do bloco das pragas, e não é morte de gente. O item 2 mostra o que o peixe era para o Egito — comida barata, ofício de muita gente e, em alguns lugares, animal que não se podia tocar —, e por que um rio cheio de peixe morto é mais do que um problema de cheiro.

E há o fecho, que é o mais concreto do versículo: os egípcios não conseguirão beber. O verbo hebraico é ambíguo e admite duas leituras, examinadas no item 3. Nas duas, o resultado prático é o mesmo — e é o pior que se pode dizer de uma água num país onde praticamente não chove.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que o peixe era para o Egito

Um rio cheio de peixe morto, para o leitor de hoje, é uma imagem de sujeira. Para quem vivia ali, era outra coisa — e para medi-la é preciso saber três fatos, um econômico, um de ofício e um religioso.

Antes, uma remissão: que toda a água do país viesse do Nilo, e que não houvesse fonte alternativa, é assunto tratado no estudo de Êxodo 4:9. Aqui trata-se do que vivia dentro da água.

1. Era a comida barata

Carne era coisa de festa e de templo. O que sustentava a mesa comum do Egito era pão, cerveja, legumes — e peixe, que o rio dava em abundância o ano inteiro e que não custava criar.

A melhor testemunha disso não é egípcia: é bíblica, e vem do deserto. Em Números 11:5 o povo, já fora do Egito e reclamando do maná, lembra com saudade exatamente o que perdeu: "Lembramo-nos do peixe que comíamos no Egito de graça, dos pepinos, dos melões, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos." A lista começa pelo peixe, e o detalhe que ela conserva é o preço — de graça. Gente em trabalho forçado tinha peixe na comida.

Era também mantimento que se guardava. O peixe era aberto, salgado e seco ao sol, e assim virava ração: entrava nas listas de entrega a trabalhadores do Estado, ao lado do grão e do óleo. Havia pescadores vinculados às equipes de operários com a função de abastecê-las.

2. Era ofício de muita gente

As cenas de túmulo mostram a pesca com detalhe e com frequência: redes de arrasto puxadas por dois grupos de homens, redes de mão, cestos-armadilha, arpão, anzol e linha. Há pinturas em que se conta o peixe na margem, por espécie, como se contava o gado.

Isso quer dizer que um rio sem peixe não tira só o almoço. Tira o trabalho de pescadores, de quem salgava, de quem transportava e de quem vendia. O profeta Isaías, séculos depois, descreve um desastre no Nilo exatamente por aí: em Isaías 19:8 os que lançam anzol e os que estendem rede no rio são os que ficam de luto.

3. Havia peixe que não se podia comer

E aqui está a peculiaridade que o leitor de hoje não adivinha.

No Egito, o peixe tinha estatuto ambíguo. Era alimento corrente do povo e, ao mesmo tempo, era objeto de restrição religiosa: os sacerdotes se abstinham dele, e havia dias e lugares em que ninguém devia tocá-lo. Em várias regiões uma espécie determinada era sagrada, e comê-la ali era falta grave — enquanto na região vizinha a mesma espécie ia para a panela.

A explicação que circulava na Antiguidade está em Plutarco (escritor grego dos séculos I e II, autor de Sobre Ísis e Osíris): quando o corpo de Osíris foi despedaçado e lançado ao rio, três peixes teriam devorado a parte que faltou, e por isso os egípcios os detestavam. Ele os nomeia — o lepidoto, o fagro e o oxirrinco —, e não por acaso há cidades egípcias chamadas pelo nome dos peixes que ali se veneravam. Em Esna, no sul, a percanilótica era sagrada; escavações acharam peixes mumificados e enterrados com cuidado, como se faz com gente ou com gatos.

Convém pesar a fonte: Plutarco escreve mais de mil anos depois do período em que o Êxodo situa a cena, é grego, e explica costumes egípcios por meio de um mito que ele mesmo recolheu de segunda mão. A explicação dele é tardia e não é confiável como história. O que os dados egípcios de fato sustentam é mais simples e mais seguro: havia peixes sagrados, havia peixes proibidos por lugar e por função, e havia peixe enterrado com honras.

O que isso soma

Junte as três coisas e a frase do versículo fica do tamanho certo.

Um rio cheio de peixe morto tira, ao mesmo tempo, a comida barata do povo, o ganho de um ofício inteiro e — em algumas cidades, para alguns animais — a integridade de uma criatura que ninguém deveria sequer manusear. E deixa tudo isso boiando, à vista, ao longo de centenas de quilômetros de margem.

Uma última ressalva, que a régua deste estudo exige: o Êxodo não diz nada disso. Não menciona pescadores, não menciona espécies, não menciona culto a peixe e não faz comentário religioso sobre o assunto. Diz que os peixes morrerão e que o rio cheirará mal. O fundo serve para o leitor entender o peso da frase, não para ser lido para dentro dela.

3. Análise Teológica do Versículo

"Os peixes que há no Nilo morrerão"

A primeira morte anunciada no bloco das pragas, e ela não é de gente.

Vale reparar no que isso desloca. O livro já pronunciou uma ameaça contra pessoas: em Êxodo 4:23 o aviso dado a Moisés em Midiã falava do filho primogênito do rei. Aquela ameaça fica em suspenso por muitos capítulos. O que começa a acontecer, aqui, é outra coisa — e o que morre primeiro são animais que ninguém precisou matar.

A construção também merece atenção: "os peixes que há no Nilo". É a mesma limitação do versículo anterior, que falava das "águas que estão no Nilo". O objeto não é a espécie nem o rio como entidade: é o que está dentro dele naquele momento.

E há o efeito que o versículo produz ao começar por aqui. Não se descreve a cor da água, não se descreve o espanto de ninguém, não se descreve o gesto. Começa-se pelo peixe morto — e a mudança da água, anunciada no versículo 17, passa a ser conhecida pelo que ela deixa boiando. O item 2 mostra o que o peixe era para aquele país, e por que a frase é maior do que parece.

"o rio federá"

Duas palavras em hebraico, e são o achado do versículo.

O verbo é cru. Não significa "ter mau cheiro" no sentido educado: significa feder — cheirar de modo que se dê a volta, que se afaste, que não se chegue perto. A raiz e o seu percurso estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 34:30, onde Jacó a usa contra os próprios filhos, e não se reabrem aqui.

O que é deste versículo é de onde a palavra vem, dentro do próprio livro.

Ela já apareceu no Êxodo uma vez, e em circunstâncias que não se esquecem. Em Êxodo 5:21, depois que o trabalho foi agravado, os supervisores israelitas saíram do palácio e encontraram Moisés e Arão à espera. E disseram: vocês nos fizeram feder aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos. Era acusação, e das mais duras: por culpa de vocês, viramos aquilo de que se dá a volta.

Agora a mesma palavra volta, e olhe o que mudou de lugar.

O sujeito não é mais Israel: é o rio do Egito. Quem fede não é o povo diante do rei — é o país inteiro, pela própria água. E não é figura de linguagem: lá o verbo era figurado, sobre reputação; aqui é literal, sobre cheiro. A palavra desce do sentido moral para o sentido físico ao trocar de alvo.

Convém medir o que essa observação permite dizer. Permite registrar que o Êxodo usa duas vezes um verbo raro, com dois anos de narrativa entre uma e outra, e que a segunda vez inverte quem ocupa a posição. Permite notar que a acusação feita a Moisés era, naquele momento, verdadeira em termos práticos — o trabalho tinha piorado — e que o livro não a refuta com discurso.

Não permite afirmar que haja aqui resposta deliberada àquela acusação. O Êxodo não aponta a ligação, não cita a frase dos supervisores e não comenta a inversão. Que a repetição seja intencional é leitura possível e não demonstrável; que os dois usos existam e sejam da mesma raiz é verificável em qualquer interlinear.

Uma última observação sobre o alvo. Um rio que fede é um dano de um tipo particular: não mata, não fere, não prende — afasta. Torna impossível estar perto daquilo de que se depende. É essa a forma do desastre anunciado, e ela explica a terceira frase do versículo.

"e os egípcios não conseguirão beber a água do Nilo"

O fecho, e ele tem uma ambiguidade que vale expor.

O verbo hebraico traduzido por "não conseguirão" tem dois sentidos próximos e não idênticos. Pode significar estar impossibilitado — não ter como, não conseguir de jeito nenhum. E pode significar cansar-se de tentar — esgotar-se numa coisa, desistir por exaustão.

A diferença é pequena no resultado e grande na cena. Na primeira leitura, a água simplesmente não é bebível, e ponto. Na segunda, há gente tentando: pessoas que se abaixam à margem, experimentam, tentam de novo, procuram um ponto melhor rio acima, e acabam desistindo. Não é possível decidir qual sentido está em jogo, e as traduções se dividem — umas escrevem "não poderão", outras "terão nojo de", outras "cansarão de procurar".

A segunda leitura, registre-se, combina bem com o que o capítulo contará em Êxodo 7:24, quando os egípcios cavarem ao redor do rio em busca de água. Combinar bem não é prova, e a observação fica como observação.

Repare, por fim, em quem aparece nesta frase. Não é Faraó. São "os egípcios" — e é a primeira vez, no anúncio, que o povo do país entra em cena.

Isso é desconfortável e não deve ser suavizado. Quem recusou foi o rei; quem não vai conseguir beber é todo mundo. O Êxodo não explica a desproporção, não diz que o povo egípcio fosse cúmplice e não oferece justificativa. Apenas anuncia o efeito, e o efeito é geral.

Uma nota de vocabulário que a tradução esconde: o hebraico usa aqui a mesma palavra para o país e para o seu povo — a frase diz, ao pé da letra, "e o Egito não conseguirá beber". Não há distinção entre o lugar e a gente. É o país inteiro, tratado como um só sujeito sedento.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os peixes

Entram aqui pela primeira vez no Êxodo, e entram morrendo. Eram a comida barata do país, o ganho de um ofício inteiro e, em algumas cidades, animal sagrado — o item 2 reúne o que se sabe.

Vale registrar o que o livro não diz sobre eles: não diz quantos, não diz quais, não diz o que foi feito com os corpos. Diz que morrerão.

Os egípcios

É a primeira vez que o povo do Egito aparece no anúncio da praga. Até aqui a mensagem falava com o rei, sobre o rei e para o rei. Nesta frase o sujeito é outro: quem não conseguirá beber é a população.

E o hebraico não separa o país da gente — usa a mesma palavra para os dois. A tradução precisa escolher, e ao escolher perde a indistinção do original.

O Nilo

Nomeado três vezes em dois versículos: as águas que estão nele, os peixes que há nele, a água que vem dele. A repetição é do hebraico e não é descuido — o versículo martela o nome do rio do qual tudo depende.

Os supervisores israelitas

Não estão em cena, e é preciso mencioná-los mesmo assim. A palavra "feder", que este versículo aplica ao rio do Egito, foi usada por eles em Êxodo 5:21 contra Moisés e Arão, à saída do palácio, para dizer o que a intervenção dos dois tinha feito com a reputação do povo diante do rei.

Desde aquela cena eles não voltaram a falar. A palavra voltou.

Onde estamos

No fim da mensagem da manhã. O versículo 16 cobrou, o 17 anunciou o golpe, e este descreve o que virá depois. A fala de Moisés termina aqui — e o rei não respondeu nada.

O que o versículo anuncia será registrado como acontecido em Êxodo 7:21, com as mesmas três consequências e na mesma ordem.

5. Pontos de Ensino

1. O anúncio é feito pelo efeito, não pelo prodígio

Nada aqui sobre a cor da água, o espanto da corte ou a grandeza do gesto. Peixe morto, cheiro ruim, sede. A praga é apresentada pelo que ela faz na vida das pessoas — e é assim que quem sofreu um desastre o descreve, e não como quem o assiste de longe.

2. O que atinge o país não é o que atinge quem decidiu

Quem recusou foi um homem; quem não vai beber é todo mundo. O Êxodo não explica isso, não atenua e não culpa o povo egípcio. Vale encarar a desproporção em vez de contorná-la com explicações que o texto não dá.

3. A mesma palavra muda de lado

"Feder" foi a acusação dos israelitas contra Moisés em Êxodo 5:21. Aqui é o rio do Egito que fede. O livro não comenta a volta da palavra, e ela está lá.

4. O dano que afasta

Um rio que cheira mal não mata ninguém nem derruba nada. Torna impossível chegar perto do que se precisa. É uma forma de estrago que não aparece nos relatos heroicos e é a que mais pesa no dia a dia.

5. O que é abundante não é contado como bem

O peixe do rio estava sempre lá e não custava criar; por isso ninguém o punha em lista nenhuma. É exatamente o que este versículo remove primeiro.

6. O anúncio precede o ato

Tudo o que este versículo descreve ainda não aconteceu. É dito antes, à beira do rio, ao homem que pode evitá-lo. O texto não registra resposta dele.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo mede um desastre por uma coisa que a filosofia raramente leva a sério: o cheiro.

Há uma hierarquia antiga entre os sentidos, e ela atravessa o pensamento ocidental quase sem contestação. A visão está no topo, porque permite distância, comparação e medida; a audição vem em seguida, porque carrega a palavra. O olfato fica embaixo — sentido animal, incapaz de argumento, ligado ao apetite e à repulsa.

Este versículo faz o contrário, e faz sem discutir. Das três coisas anunciadas, a do meio é o cheiro; e é a que torna as outras duas insuportáveis. O peixe morto poderia ser retirado. A água poderia ser filtrada. O cheiro não se negocia: ele chega antes de qualquer decisão, e a reação a ele não passa por deliberação nenhuma. O corpo recua primeiro, e a pessoa descobre depois que recuou.

Daí vem o que o versículo tem de mais eficaz. A repulsa não precisa ser convencida, e por isso não pode ser respondida com argumento. Um rei pode discutir a autoridade de quem lhe fala — e foi o que fez em Êxodo 5:2. Diante de um rio que fede, não há o que discutir com quem, e a recusa do corpo acontece igual no palácio e fora dele.

Vale reparar também no que a palavra "feder" carrega quando se aplica a pessoas, como em Êxodo 5:21. Dizer que alguém fede é dizer que os outros se afastam — a repulsa vira, ali, um juízo social sem juiz, que ninguém pronuncia e todos executam. É uma das formas mais duras de exclusão justamente porque não tem autor e não admite defesa.

Convém marcar que o Êxodo não está propondo nada disso. Ele não discute os sentidos, não teoriza sobre repulsa e não comenta a escolha. Descreve um rio que cheira mal. A observação é de quem lê — e o que o texto oferece é o dado: o ponto em que o desastre se torna irrespondível não é o que se vê, é o que se sente.

7. Aplicações Práticas

O que não custava nada

A frase do deserto, em Números 11:5, guarda um detalhe que o versículo torna útil: o peixe do Egito era comido "de graça". Era o que ninguém contabilizava, porque estava sempre ali.

É quase uma regra de vida comum. O que sustenta o dia a dia costuma ser aquilo que não aparece em lista nenhuma — a água que sai da torneira, a saúde de quem ainda não adoeceu, a presença de quem sempre esteve. Não se agradece, não se protege e não se conta como bem, porque não custou.

A aplicação não é moralista e não precisa ser: é um exercício de inventário. Vale perguntar, de vez em quando, o que na sua vida está na posição do peixe do Nilo — abundante, gratuito, invisível — e o que aconteceria se sumisse numa semana.

Os efeitos chegam a quem não decidiu

Quem recusou foi o rei; quem fica sem beber é o país. Isso é dito no versículo sem nenhuma tentativa de justificar.

A aplicação honesta aqui é para quem decide. Em qualquer posição em que uma escolha alcança outras pessoas — numa empresa, numa casa, numa diretoria —, o custo da teimosia raramente é pago por quem teima. Vale saber quem vai pagar antes de decidir, e vale saber que essa conta não costuma aparecer sozinha.

E há a outra ponta, que é a de quem paga. O versículo não oferece consolo e não vamos inventar um: ele apenas registra que foi assim. Reconhecer a injustiça de uma situação é diferente de explicá-la, e o texto faz só a primeira coisa.

Dizer antes o que vai acontecer

Tudo o que o versículo descreve ainda não ocorreu, e é dito na cara de quem pode evitá-lo. Não há surpresa preparada, não há armadilha, não há castigo aplicado antes do aviso.

É pouco, e é mais do que o comum. Em conflitos entre pessoas, o aviso claro do que vai acontecer — o prazo que será cobrado, a decisão que será tomada, a conversa que será levada adiante — costuma ser substituído por indiretas e, depois, pelo fato consumado. Avisar não garante entendimento. Garante que ninguém possa dizer que não sabia.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a praga começa pelos peixes?

O texto não explica. O que se pode observar é a ordem do anúncio: primeiro o que morre, depois o cheiro, depois a sede. A mudança da água já tinha sido dita no versículo anterior; este descreve o que ela deixa. O que a ordem das três consequências significa é assunto do estudo de Êxodo 7:21, onde elas são registradas como fato.

Os egípcios comuns tinham alguma culpa na recusa do rei?

O Êxodo não diz que sim e não diz que não. Não há aqui nenhuma frase que atribua responsabilidade ao povo, e também nenhuma que o isente. O livro anuncia o efeito e segue. Convém não preencher esse silêncio, nem para justificar a praga nem para acusá-la.

"Não conseguirão beber" quer dizer que a água era impossível, ou que eles desistiram de tentar?

As duas leituras cabem no verbo hebraico, e não é possível decidir. O item 3 expõe a diferença. Vale notar que a segunda combina com o que acontece em Êxodo 7:24, quando os egípcios cavam em volta do rio procurando água — mas combinar não é provar.

A palavra "feder" aqui é a mesma de Êxodo 5:21 por acaso?

É a mesma raiz, e é rara. Que a repetição seja intencional é leitura possível e não demonstrável: o Êxodo não aponta a ligação e não comenta a inversão de quem ocupa a posição. O dado é verificável; a intenção, não.

Faraó respondeu ao anúncio?

O texto não registra resposta. A fala de Moisés termina neste versículo, e o versículo seguinte já é o SENHOR falando de novo com ele. O rei ouviu três frases e o livro não lhe atribui nenhuma reação.

O que aconteceu com os peixes mortos?

O Êxodo não diz. Não menciona remoção, enterro, queima nem qualquer providência. Diz que morrerão e que o rio federá — e é justamente a ausência de providência que sustenta a segunda frase.

9. Conexão com Outros Textos

A palavra, quando era acusação contra Moisés

Êxodo 5:21 — "e lhes disseram: 'Que o SENHOR olhe para vocês e julgue! Porque vocês nos fizeram feder aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos, pondo na mão deles uma espada para nos matar.'"

A mesma raiz, dois capítulos antes, com Israel no lugar de quem fede. Aqui quem fede é o rio do Egito.

A raiz, no Gênesis

Gênesis 34:30 — "Então Jacó disse a Simeão e a Levi: 'Vocês me puseram em apuros, tornando-me odioso aos habitantes desta terra, os cananeus e os ferezeus. Somos poucos; se eles se juntarem contra mim e me atacarem, serei destruído, eu e a minha casa.'"

O estudo daquele versículo é o dono da palavra e do seu campo de uso.

O peixe do Egito, lembrado no deserto

Números 11:5 — "Lembramo-nos do peixe que comíamos no Egito de graça, dos pepinos, dos melões, dos alhos-porós, das cebolas e dos alhos."

A melhor testemunha de que o peixe do Nilo era comida corrente de gente pobre — e ela está na boca de quem tinha acabado de sair de lá.

O anúncio cumprido, três versículos adiante

Êxodo 7:21 — "Os peixes do Nilo morreram, o rio fedeu, e os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo; e houve sangue em toda a terra do Egito."

As mesmas três consequências, na mesma ordem, agora no passado. O que muda é a última linha, que não estava no anúncio.

O mesmo verbo, no maná guardado

Êxodo 16:20 — "Mas não ouviram Moisés; alguns deixaram resto dele até a manhã, e criou vermes e fedeu; e Moisés se indignou contra eles."

O outro uso literal da raiz no livro, aplicado à comida que se estraga — e, também ali, precedido de gente que "não ouviu".

O Nilo em ruína, num profeta posterior

Isaías 19:8 — "Os pescadores se lamentarão, e todos os que lançam anzol no rio estarão de luto, e os que estendem rede sobre as águas desfalecerão."

Séculos depois, um desastre no Nilo é descrito pelo mesmo caminho: quem vive do peixe é quem aparece primeiro.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

Os peixes que há no Nilo morrerão, o rio federá, e os egípcios não conseguirão beber a água do Nilo.’”

Texto hebraico

וְהַדָּגָה אֲשֶׁר־בַּיְאֹר תָּמוּת וּבָאַשׁ הַיְאֹר וְנִלְאוּ מִצְרַיִם לִשְׁתּוֹת מַיִם מִן־הַיְאֹר׃

Transliteração

we-ha-dagah asher-ba-ye'or tamut, u-va'ash ha-ye'or, we-nil'u Mitsrayim lishtot mayim min-ha-ye'or.

Análise palavra por palavra

וְהַדָּגָה אֲשֶׁר־בַּיְאֹר — we-ha-dagah asher-ba-ye'or, "e o peixe que está no Nilo".

Dagah é a forma coletiva: não "os peixes", contados um a um, mas o peixe como conjunto, como quem diz "o gado" ou "a caça". O hebraico tem também dag, no masculino, para o animal individual — é a palavra do peixe que engole Jonas, em Jonas 1:17.

A forma coletiva importa para o sentido: o que vai morrer não é um número de bichos, é a população inteira do rio, tratada como uma coisa só.

A oração relativa — "que está no Nilo" — repete a limitação do versículo anterior, que falava das "águas que estão no Nilo". Duas vezes seguidas, o texto restringe o alvo ao que está dentro do leito.

תָּמוּת — tamut, "morrerá".

Verbo mut, morrer, no imperfeito da terceira pessoa do feminino singular — concordando com o coletivo, que é feminino. Em português a concordância obriga ao plural; no hebraico é singular, e a frase soa como "o peixe morrerá".

É o verbo comum da morte, sem nenhuma marca especial. Não é "perecerá", não é "será destruído": é morrer, a mesma palavra usada de pessoas.

וּבָאַשׁ הַיְאֹר — u-va'ash ha-ye'or, "e federá o rio".

Verbo ba'ash, feder, cheirar mal. A raiz e o seu percurso — inclusive a distância entre "feder" e o "odioso" com que as traduções costumam amenizá-la — estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 34:30.

O que é próprio deste versículo é a forma do verbo, e ela muda o sentido da frase.

Nos dois usos anteriores da raiz na Bíblia que interessam aqui, ela aparece na forma causativa do hebraico (o Hiphil): "fazer com que alguém cheire mal". É assim em Gênesis 34:30, onde Jacó acusa Simeão e Levi de o terem tornado detestável, e é assim em Êxodo 5:21, onde os supervisores israelitas acusam Moisés e Arão do mesmo. Nos dois casos há um agente e há uma vítima.

Aqui a forma é simples (o Qal): o rio fede. Não há quem o faça feder, não há culpado nomeado dentro da frase, e não há vítima gramatical. É um estado, não um ato.

Vale reter a diferença, porque ela organiza os três usos: nos dois primeiros, alguém tornou alguém fedorento, e o sentido era figurado — reputação, e não cheiro. Aqui ninguém torna nada: o rio simplesmente fede, e o sentido é literal.

O outro uso literal da raiz no livro está em Êxodo 16:20, sobre o maná guardado além do dia, que cria bichos e cheira mal. Também ali a forma é simples, e também ali a frase vem depois de gente que "não ouviu".

וְנִלְאוּ מִצְרַיִם — we-nil'u Mitsrayim, "e o Egito se cansará / não conseguirá".

Aqui está a palavra ambígua do versículo.

Nil'u é do verbo la'ah, na forma passiva-reflexiva do hebraico (o Niphal). A raiz tem dois sentidos vizinhos e não idênticos, e os dois estão bem documentados:

Cansar-se, esgotar-se numa tentativa. É o sentido de Gênesis 19:11, quando os homens cegados diante da casa de Ló "se cansaram" de procurar a porta — tentaram, e não acharam. E é o de Jeremias 20:9, onde o profeta se cansa de conter a palavra.

Ser incapaz, não ter como. É o sentido mais próximo de "não poder", em que o esforço nem chega a acontecer.

A diferença entre os dois muda a cena, e não o resultado. No primeiro, há gente à margem tentando beber, experimentando outro ponto, desistindo. No segundo, a água simplesmente não serve. Não é possível decidir, e as traduções portuguesas se dividem entre "não poderão", "terão nojo de" e "cansarão de procurar" — três decisões diferentes sobre a mesma palavra.

Mitsrayim é o nome do Egito, e em hebraico ele designa ao mesmo tempo o país e o seu povo: a frase diz, ao pé da letra, "e o Egito se cansará de beber". Não há palavra separada para "os egípcios". A forma da palavra, que tem terminação de dual, é assunto do estudo de Gênesis 46:8.

Note ainda a concordância: o verbo está no plural, e o nome do país é gramaticalmente singular. O hebraico trata o Egito como muitos quando se trata de beber — a sede é de cada um.

לִשְׁתּוֹת מַיִם מִן־הַיְאֹר — lishtot mayim min-ha-ye'or, "beber água do Nilo".

Infinitivo de shatah, beber, com a preposição. Mayim, água, sem artigo: não "a água", mas água — qualquer quantidade dela.

E a preposição min, "de", "a partir de", que marca a procedência. O nome do rio aparece pela terceira vez em dois versículos: as águas que estão nele, o peixe que está nele, a água tirada dele. A repetição é do hebraico, e nenhuma tradução a esconde — mas convém notá-la, porque é ela que dá à frase o seu peso. O versículo martela o nome do lugar de onde vinha tudo.

11. Conclusão

Do que foi examinado, seguem quatro conclusões.

A primeira: o anúncio é feito em consequências, e não em prodígio. Nada aqui sobre a cor da água, o espanto de quem vê ou a grandeza do gesto. Peixe morto, cheiro, sede. O que o versículo põe diante do rei é a vida do país depois do golpe — e é assim que descreve um desastre quem o sofre, não quem o assiste.

A segunda: a palavra "feder" volta, e trocou de lado. Ela foi acusação de israelitas contra Moisés em Êxodo 5:21, com agente e com vítima; aqui não tem agente nenhum, e o sujeito é o rio do Egito. O livro não aponta a inversão e não a comenta. Que seja deliberada é leitura possível e não demonstrável; que os dois usos existam é verificável.

A terceira: o que morre primeiro não é gente, e o que sofre não é quem decidiu. Morrem peixes; fica sem beber o país inteiro. O Êxodo não atribui responsabilidade ao povo egípcio e não a exclui — anuncia o efeito e segue. Preencher esse silêncio, em qualquer direção, é acrescentar ao texto.

A quarta: o dano anunciado é do tipo que afasta. Um rio que fede não mata nem derruba: torna impossível chegar perto do que se precisa. E a repulsa que ele provoca não se discute com ninguém — não tem autor a quem responder, e funciona igual dentro e fora do palácio. É por aí que a praga alcança quem havia recusado ouvir um argumento.

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