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Gênesis 19:11

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 32 min de leitura·👁 2 acessos
E feriram de cegueira os homens que estavam à porta da casa, do menor ao maior, de modo que se cansaram tentando achar a porta.
Homens tateando a parede de pedra de uma casa à noite, com as mãos estendidas, sem encontrar a entrada.

Estudo


E feriram de cegueira os homens que estavam à porta da casa, do menor ao maior, de modo que se cansaram tentando achar a porta.

1. Introdução

A multidão é ferida, e o texto usa para isso uma palavra que só aparece mais uma vez em toda a Bíblia hebraica.

Não é a cegueira comum. É outra coisa — perda de referência, não perda de luz.

E o versículo termina com o detalhe que torna a cena difícil de esquecer: eles não vão embora. Continuam procurando, até se esgotarem, a entrada diante da qual estão parados.

2. Contexto Histórico e Cultural

A entrada de uma casa antiga

O vão de acesso, muitas vezes recuado e estreito, com a folha de madeira encaixada. Achá-lo às escuras exigia conhecer a parede.

Cegueira no mundo antigo

Perder a vista era condenação social: sem trabalho, sem posição, dependente de terceiros. A ameaça aparece em maldições de tratados e de textos legais.

Duas palavras diferentes

O hebraico tem o termo comum para cego. Aqui usa outro, raro, que aparece só neste versículo e num episódio do profeta Eliseu.

O exército arameu em Dotã

Em 2 Reis 6, uma tropa inteira é ferida com a mesma palavra — e ainda assim caminha, ouve e segue um guia por horas.

"Do menor ao maior"

Fórmula hebraica de totalidade, como "do jovem ao velho" do versículo 4. Serve para dizer que ninguém ficou de fora.

O que vem depois

Os homens da cidade não reaparecem. O relato os deixa ali, ainda procurando.

3. Análise Teológica do Versículo

"E feriram de cegueira os homens que estavam à porta da casa"

O verbo é nakah na forma causativa: ferir, golpear, abater. É palavra de violência física, usada para o golpe de espada, para a queda de um exército, para as pragas do Egito.

Quem fere são os mesmos que, no versículo anterior, estenderam a mão para puxar Ló. Dois versículos, dois atos, e ambos descritos com verbos de corpo: estender, trazer, fechar, ferir.

Vale reter que o narrador continua chamando os autores de "homens", e que não interrompe a narração para explicar o que acaba de acontecer.

Agora a palavra que importa.

"de cegueira" — a palavra rara

O hebraico diz ba-sanverim, e este é um dos termos mais raros do Antigo Testamento.

Ele aparece em dois lugares. Aqui, e no capítulo 6 do segundo livro de Reis, onde ocorre duas vezes dentro do mesmo versículo. São três ocorrências no cânon hebraico inteiro.

Convém explicar por que isso importa.

O hebraico dispõe de vocabulário corrente para cegueira. O adjetivo iwwer designa o cego, e é a palavra usada em toda a legislação e em toda a profecia: não pôr tropeço diante do cego, abrir os olhos dos cegos, o cego e o coxo. O substantivo ivvaron designa a cegueira como condição, e aparece, por exemplo, na lista de maldições do Deuteronômio, ao lado da loucura e da confusão do coração.

O narrador tinha essas palavras à disposição e não usou nenhuma delas.

Sobre a origem de sanverim não há consenso. A hipótese mais repetida é que se trate de empréstimo de uma língua vizinha, tomado de um termo mesopotâmico para um tipo específico de perturbação da vista. É proposta razoável e não é demonstrável com o material disponível; registro como hipótese.

A forma da palavra é plural, o que em hebraico costuma indicar abstração ou intensidade — algo como "confusões de vista", e não "uma cegueira".

A versão grega antiga traduziu por um termo que significa, ao pé da letra, ausência de visão.

Nada disso, porém, resolve o sentido. Com um corpus de três ocorrências, a etimologia decide pouco. Quem quiser saber o que a palavra descreve precisa ir ao outro texto em que ela aparece — e esse texto é generoso.

O que o episódio de Eliseu mostra

A cena está no segundo livro de Reis, capítulo 6, e vale contá-la, porque ela funciona como definição narrativa do termo.

O rei da Síria manda cercar a cidade de Dotã para capturar o profeta Eliseu. O servo do profeta acorda, vê a tropa em volta e se desespera. Eliseu ora para que os olhos do rapaz sejam abertos, e ele passa a ver o monte cheio de cavalos e carros de fogo.

Quando os sírios descem, Eliseu ora de novo — desta vez pedindo que sejam feridos. E o texto usa, duas vezes na mesma frase, a palavra deste versículo.

O que acontece a seguir é o dado decisivo.

Eliseu se dirige à tropa e diz: não é este o caminho, nem é esta a cidade; sigam-me, que eu os levarei ao homem que procuram. E os conduz a Samaria.

Repare no que esses homens continuam capazes de fazer.

Ouvem uma voz e entendem o que ela diz. Reconhecem que estão diante de alguém. Caminham em formação. Percorrem a distância de Dotã a Samaria, que não é curta. Chegam.

E há o que eles não conseguem fazer. Não reconhecem que quem fala é exatamente o homem que vieram prender. Não percebem que a estrada tomada não é a que deveriam tomar. Não identificam a cidade em que estão entrando.

Ao chegar, Eliseu pede que o SENHOR lhes abra os olhos, e o texto diz que olharam e se acharam no meio de Samaria.

Não se trata, portanto, de escuridão. Trata-se de desorientação — os olhos funcionam e a identificação falha. A pessoa vê e não sabe o que está vendo.

É preciso registrar o limite da conclusão. Duas passagens são base estreita, e tudo o que se afirma sobre o sentido do termo repousa sobre um único relato desenvolvido. Não é possível excluir que em Gênesis o efeito seja mais radical do que em Reis.

Mas o que o próprio versículo 11 descreve confirma a leitura, e é isso que se examina a seguir.

"do menor ao maior"

A expressão é uma fórmula hebraica de totalidade: mencionam-se os dois extremos para dizer que tudo entre eles está incluído.

O versículo 4 já havia usado uma fórmula do mesmo tipo, com outro par de palavras: desde o mais jovem até o mais velho, todo o povo, sem exceção.

Vale notar a diferença entre as duas, sem inventar precisão que o hebraico não tem. O par do versículo 4 é claramente de idade. O par deste versículo, qaton e gadol, pequeno e grande, tanto pode indicar idade quanto posição social — do mais insignificante ao mais importante.

Nos dois casos, o efeito é o mesmo: a totalidade.

E aqui há uma simetria que o capítulo constrói e não comenta. A cidade inteira cercou a casa; a cidade inteira foi ferida. O grupo que se apresentou como completo é atingido como completo.

Convém acrescentar uma observação e marcá-la como leitura, porque ela liga este versículo ao capítulo anterior.

Em Gênesis 18, Abraão negociou com o SENHOR o número de justos que salvaria a cidade, e a conversa parou em dez. O narrador não voltou ao assunto.

Os versículos 4 e 11 deste capítulo são, na prática, a resposta. Se todo o povo estava na porta, do mais jovem ao mais velho, e se todos, do menor ao maior, foram feridos, então a pergunta de Abraão foi respondida por descrição, e não por declaração.

Registro que o narrador não faz essa ligação. Ele não escreve "e assim se viu que não havia dez". A conexão está na composição do capítulo, e é assim que a apresento.

"de modo que se cansaram tentando achar a porta"

Aqui está o detalhe mais implacável do versículo, e é preciso ler devagar para vê-lo.

O verbo é la'ah: cansar-se, esgotar-se, chegar ao fim das próprias forças tentando alguma coisa. Construído com infinitivo, significa exaurir-se em fazer aquilo — não apenas ficar cansado, mas gastar-se na tentativa.

O que eles tentam é achar a entrada.

E agora o dado que fecha a cena. O versículo começou dizendo quem eram esses homens: "os que estavam à entrada da casa".

Eles estão na entrada. E se esgotam procurando a entrada.

O hebraico usa a mesma palavra nas duas pontas do versículo, petaḥ, e não há como o leitor do original deixar de notar. Estão parados exatamente diante daquilo que buscam.

Vale distinguir as duas palavras que o capítulo emprega para essa região da casa, porque a distinção é mantida com rigor.

Delet é a folha de madeira: o que Ló fechou atrás de si, o que a multidão avançou para despedaçar, o que os hóspedes fecharam de novo.

Petaḥ é a abertura, o vão, o lugar por onde se entra.

No versículo 9, eles queriam quebrar a folha. Aqui, não conseguem localizar o vão.

A escalada é precisa. Antes, faltava-lhes a porta aberta. Agora falta-lhes a parede inteira como referência.

E há o que o versículo diz sobre o comportamento deles, que é o ponto teologicamente mais interessante.

Eles não desistem.

Não se dispersam, não gritam, não fogem, não pedem socorro, não voltam para casa. Continuam. O verbo do cansaço só faz sentido se houve esforço prolongado — eles procuraram até não poderem mais.

Convém dizer isso com todas as letras: a intervenção não os detém. Apenas torna inútil o que eles continuam fazendo.

É uma cena que o Novo Testamento repete numa escala menor, quando um homem é ferido diante de Paulo e passa a andar em volta procurando alguém que o guie pela mão. Também ali o que se descreve não é imobilidade: é movimento sem direção.

O que a intervenção não faz

Vale listar, porque a lista é reveladora.

Não mata ninguém. O castigo da cidade virá, e virá de outro modo, no versículo 24.

Não produz arrependimento. Nenhum homem daquela multidão diz coisa alguma. O texto não registra uma palavra deles depois do versículo 9.

Não dispersa o cerco. Eles permanecem no mesmo lugar.

Não abre a porta nem retira ninguém dali. Ló já está dentro; os de fora continuam fora.

O que ela faz é uma coisa só: compra tempo. A casa deixa de estar em perigo imediato, e a partir do versículo 12 os enviados podem falar com Ló sobre a saída da cidade.

Essa é a função narrativa do versículo, e convém não inflá-la.

Em particular, convém resistir à tentação de transformar a cena em doutrina sobre Deus cegar pecadores. Existem textos difíceis nessa direção na Bíblia — o Deuteronômio, na lista de maldições, ameaça ferir com loucura e cegueira, e diz que o ferido apalpará ao meio-dia como o cego apalpa na escuridão; Isaías recebe a ordem de fechar os olhos do povo para que não vejam nem se convertam; Sofonias diz que andarão como cegos porque pecaram.

Esses textos existem, são duros, e cada um precisa ser tratado no seu lugar.

Mas nenhum deles está sendo citado aqui. Este versículo não fala em endurecimento, não menciona conversão, não apresenta a cegueira como sentença. Descreve uma defesa executada numa porta. Importar para dentro dele uma teologia construída em outros livros é acrescentar ao texto.

O último quadro da cidade

Vale observar onde o narrador deixa aqueles homens, porque ele nunca mais volta a eles.

A partir do versículo 12, o relato passa inteiramente para dentro da casa: os enviados falam com Ló, mandam reunir a família, apressam a saída. Depois vem a fuga, a demora, o pedido pela cidade pequena, o fogo, a mulher que olha para trás, Abraão contemplando a fumaça de longe.

Os homens de Sodoma não reaparecem em nenhum desses quadros.

A última imagem que o texto dá deles é esta: uma cidade inteira, do menor ao maior, tateando uma parede, gastando as forças atrás de uma abertura que está diante deles.

É a última coisa que o Gênesis conta sobre os habitantes daquele lugar antes de contar a destruição.

Registro isso como observação de composição, e registro que o narrador não a comenta. Ele simplesmente muda de assunto e os deixa procurando.

Os limites

Pode-se afirmar que a palavra usada aqui não é o termo comum para cegueira, e que ela ocorre em apenas dois lugares do Antigo Testamento.

Pode-se afirmar que o outro lugar descreve homens que continuam ouvindo, andando e seguindo um guia, e que erram apenas na identificação do que têm diante de si.

Pode-se afirmar que este versículo confirma esse quadro, porque descreve homens que continuam procurando — comportamento de quem não perdeu a capacidade de agir, e sim a de localizar.

Pode-se afirmar que a palavra da entrada aparece duas vezes no versículo, e que eles estão exatamente onde procuram estar.

Não se pode afirmar se o efeito foi permanente. O texto não diz, e a cidade será destruída poucas horas depois.

Não se pode afirmar qual foi o mecanismo. O narrador não descreve nada além do golpe e do resultado.

Não se pode afirmar que este versículo ensine algo sobre Deus retirar a percepção de quem peca. Essa discussão existe na Bíblia, e o lugar dela é outro.

O que fica é uma imagem, e ela dispensa comentário: homens que queriam arrombar uma porta, esgotando-se para encontrá-la.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os dois visitantes — pela segunda vez agem em silêncio; primeiro a mão que puxa, agora o golpe que confunde.

Os homens de Sodoma — atingidos do menor ao maior; continuam procurando até se esgotarem, e não reaparecem no capítulo.

— já dentro da casa, ausente da frase; nada faz neste versículo.

A entrada da casa — o vão que eles ocupam e que não conseguem localizar; a palavra aparece duas vezes no versículo.

Sanverim — o termo raro usado aqui, presente só mais uma vez na Bíblia hebraica.

O exército arameu em Dotã — em 2 Reis 6, ferido com a mesma palavra, caminha horas atrás de um guia sem reconhecê-lo.

Eliseu — o profeta que, naquele episódio, pede a cegueira e depois pede que os olhos sejam abertos.

5. Pontos de Ensino

O verbo é de golpe físico. A mesma raiz das pragas e da derrota em batalha.

A palavra não é a comum para cegueira. O hebraico tem iwwer e ivvaron, e o narrador não usa nenhum dos dois.

Sanverim ocorre em dois lugares na Bíblia. Aqui e no episódio de Eliseu, em 2 Reis 6.

A origem da palavra é discutida. A hipótese mais repetida é a de empréstimo de uma língua vizinha; não é demonstrável.

Em 2 Reis os feridos andam e ouvem. Seguem um guia por horas sem reconhecer quem é.

Logo, não é escuridão: é desorientação. Os olhos funcionam e a identificação falha.

"Do menor ao maior" é fórmula de totalidade. A cidade inteira que cercou é a cidade inteira que é ferida.

O verbo final indica esgotamento. Não é ficar cansado: é gastar-se tentando.

Eles estão na entrada que procuram. A mesma palavra abre e fecha o versículo.

A cegueira não os detém. Só torna inútil o que continuam fazendo.

Ninguém se arrepende, ninguém fala. O texto não registra mais uma palavra deles.

É a última imagem da cidade. Depois disto o relato entra na casa e não volta.

6. Aspectos Filosóficos

Ver não é reconhecer

Convém começar pela distinção que a palavra rara deste versículo obriga a fazer.

Há duas maneiras de alguém não enxergar. Uma é a falta de luz ou a perda do órgão: não chega imagem. A outra é mais estranha — a imagem chega, os olhos funcionam, e mesmo assim a pessoa não identifica o que está diante dela.

O episódio do profeta em Dotã descreve a segunda com precisão. Uma tropa inteira conversa, caminha, obedece a instruções e faz uma viagem completa sem perceber que o guia é o inimigo que veio prender e que a cidade de destino é a errada.

O que falta ali não é a vista. É a correspondência entre o que se vê e o que aquilo é.

Vale reconhecer que essa segunda forma é a mais difícil de detectar de dentro. Quem está no escuro sabe que está. Quem vê errado tem, o tempo todo, a sensação de estar vendo — e nada na experiência avisa que a leitura da cena está trocada.

A tenacidade que não é virtude

O que mais impressiona neste versículo não é o golpe, e sim o que vem depois dele.

Aqueles homens continuam. Passam a noite tateando a parede, gastando as forças, até o esgotamento. Ninguém desiste, ninguém pergunta se deveria estar ali, ninguém vai para casa.

A insistência costuma ser tratada como qualidade, e em muitos contextos é. Aqui ela aparece com outro sinal, e vale nomear a diferença.

Persistir é bom quando o alvo é bom e o caminho existe. Quando o alvo é ruim, a persistência apenas multiplica o dano — e quando o caminho desapareceu, ela só produz desgaste.

Esses homens reúnem as duas condições ao mesmo tempo. E é isso que faz da cena um retrato tão exato: o que a intervenção revela não é a fraqueza deles, é o que eles fazem quando os meios acabam. Continuam com o que já não têm.

Ser impedido sem ser convencido

Há aqui uma distinção que atravessa toda a discussão sobre juízo e conversão, e o versículo a exibe sem discutir.

A multidão é impedida. Não é persuadida, não é corrigida, não muda de intenção. Sai da cena com exatamente o mesmo propósito com que entrou nela, apenas sem meios de executá-lo.

Isso é digno de nota porque a imaginação religiosa costuma esperar que a manifestação do sobrenatural produza mudança de coração. Aqui não produz nada disso. Ninguém cai de joelhos, ninguém grita, ninguém sequer comenta o que aconteceu.

O texto não explica esse silêncio, e a explicação não deve ser fabricada. O que se pode observar é que a Bíblia registra, mais de uma vez, intervenções que resolvem uma situação sem alterar as pessoas envolvidas — e que tratar todo impedimento como oportunidade de conversão é uma expectativa nossa, não uma promessa do texto.

Estar diante do que se procura

A construção do versículo é quase cruel na sua economia. Ele identifica aqueles homens como os que estavam na entrada da casa, e termina dizendo que se esgotaram procurando a entrada.

A palavra é a mesma nas duas pontas.

Há uma figura da experiência humana nisso, e não é preciso forçá-la: a busca que fracassa não por distância, mas por incapacidade de reconhecer o que está ali. Não faltou proximidade. Faltou identificação.

Convém registrar que o narrador não faz nenhuma aplicação desse tipo. Ele descreve homens tateando uma parede. A leitura mais ampla é de quem lê, e assim deve ser apresentada — o valor dela está em ser reconhecível, não em estar autorizada pelo texto.

O capítulo inteiro é sobre olhar

Vale terminar reunindo o que o capítulo faz com a percepção, porque a insistência é notável.

Tudo começa com uma decisão de ver: no capítulo anterior, o SENHOR diz que descerá e verá se o que se faz na cidade corresponde ao clamor que subiu. A investigação é o motivo declarado da visita.

Depois, Ló propõe à multidão que faça com as filhas o que for bom aos olhos dela. Aqui, os olhos daquela multidão deixam de servir. Adiante, a mulher de Ló olhará para trás e ficará no caminho. E no fim, Abraão subirá de manhã ao lugar onde estivera e contemplará de longe a fumaça subindo da planície.

São usos diferentes do mesmo campo, e o narrador não os alinha nem os comenta.

O que se pode dizer sem exagero é que a percepção — quem vê, o que vê, o que faz com o que viu — atravessa o capítulo do começo ao fim, e que este versículo é o ponto em que ela falha por completo. Registro a observação como leitura da composição, sem lhe atribuir intenção que o texto não declara.

7. Aplicações Práticas

Distinguir o que se enxerga do que se reconhece

A palavra rara deste versículo descreve olhos que funcionam e não identificam. É o que acontece com a tropa do episódio de Eliseu: eles caminham, ouvem, obedecem, e não percebem que estão seguindo o próprio homem que vieram prender.

O detalhe importante é que, de dentro, isso não parece cegueira nenhuma.

Vale como advertência prática. Quem está errando de leitura sobre uma situação não sente falta de informação: sente que está vendo. Por isso a correção quase nunca vem da própria observação, e quase sempre vem de alguém de fora dizendo que aquela não é a estrada nem aquela é a cidade.

Perguntar se o esforço ainda tem para onde ir

Aqueles homens gastam a noite inteira e as próprias forças procurando uma entrada que não vão achar. O verbo hebraico não descreve cansaço: descreve esgotamento no ato de tentar.

Nenhum deles para para perguntar se aquilo ainda faz sentido.

A pergunta vale ser feita periodicamente sobre qualquer empenho prolongado. Não é a pergunta sobre desistir — é a pergunta sobre se o caminho que se está usando ainda existe. Persistência aplicada a um caminho que sumiu não é virtude, é desgaste, e costuma ser confundida com determinação por quem está no meio dela.

Ser impedido não é o mesmo que mudar

A multidão sai desta cena com o mesmo propósito com que entrou. Não há arrependimento, não há susto registrado, não há uma palavra. Apenas deixaram de conseguir.

O texto não transforma o episódio em conversão de ninguém.

Serve para calibrar uma expectativa comum: a de que um obstáculo forte o bastante corrige as pessoas. Em geral não corrige — apenas as impede. Quem lida com outros seres humanos faz melhor se souber a diferença entre alguém que parou de fazer e alguém que parou de querer fazer.

Proteção não é o mesmo que castigo

Este versículo não é a punição de Sodoma. A punição vem depois, de outro modo, e o texto a narra em separado. O que acontece aqui resolve uma noite e ganha tempo para que a família saia.

Confundir as duas coisas produz leituras ruins do capítulo inteiro.

A distinção é útil fora do texto também. Nem toda dificuldade que aparece no caminho de alguém é sentença sobre a vida dele, e nem toda barreira é mensagem. Algumas coisas apenas impedem que algo aconteça naquela hora, e ler nelas um veredito é acrescentar o que não foi dito.

Reparar em quem o relato deixa de lado

Depois deste versículo os homens da cidade não voltam a aparecer. O relato entra na casa e segue com Ló, com a fuga, com o fogo, com Abraão olhando de longe. A última imagem daquela gente é a de uma multidão tateando uma parede.

O narrador não os despede, não os julga, não os menciona mais.

Ler prestando atenção a quem some de uma narrativa ensina quase tanto quanto acompanhar quem fica. O desaparecimento é uma escolha de quem conta, e costuma dizer sobre o texto coisas que nenhuma frase explícita diz.

Verificar a palavra antes de construir sobre ela

Praticamente tudo o que se pode dizer sobre este versículo depende de notar que o hebraico não usou o termo comum para cegueira, e sim outro, presente em apenas dois lugares da Bíblia.

Quem lê só a tradução não tem como saber disso, e acaba lendo uma cena de escuridão que não é a cena escrita.

A prática que se recomenda não é aprender hebraico. É desconfiar quando um detalhe parece estranho — homens cegos que continuam procurando, por exemplo — e ir atrás de um comentário que trate da palavra. O estranhamento costuma ser o melhor indicador de que há alguma coisa embaixo.

Não importar teologia de outros livros para dentro de uma cena

Existem passagens duras na Bíblia sobre Deus retirar a percepção de um povo: a lista de maldições do Deuteronômio, a ordem que Isaías recebe, a ameaça de Sofonias. São textos reais e precisam ser enfrentados.

Nenhum deles está em jogo aqui. Este versículo não menciona endurecimento nem conversão: narra uma defesa executada numa porta.

A disciplina vale para toda leitura. Trazer para dentro de uma passagem a doutrina construída em outra é o modo mais comum de fazer um texto dizer o que ele não diz — e é tanto mais tentador quanto mais familiar for a doutrina.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Que tipo de cegueira é essa?

Não é a cegueira comum. O hebraico tem palavras correntes para cego e para cegueira, e o narrador não usa nenhuma delas. Usa sanverim, termo que aparece só mais uma vez em toda a Bíblia hebraica, no episódio de Eliseu em 2 Reis 6. Pelo que aquele relato mostra, trata-se de desorientação — os olhos funcionam e a identificação falha.

Como se sabe que não é escuridão?

Por dois indícios. Em 2 Reis 6, os feridos ouvem, respondem, caminham em formação e fazem uma viagem inteira atrás de um guia — sem reconhecer que o guia é o homem que vieram prender nem que a cidade de destino é outra. E aqui, no próprio versículo, os homens continuam procurando a entrada, comportamento de quem não perdeu a capacidade de agir, e sim a de localizar.

De onde vem a palavra sanverim?

Não há consenso. A hipótese mais repetida é a de empréstimo de uma língua vizinha, tomado de um termo mesopotâmico para um tipo específico de perturbação da vista. É proposta razoável e não demonstrável com o material disponível. Com apenas três ocorrências no cânon hebraico, a etimologia decide pouco: o sentido vem do uso.

Por que o versículo diz "do menor ao maior"?

É fórmula hebraica de totalidade — mencionam-se os extremos para incluir tudo entre eles. O versículo 4 usara uma fórmula do mesmo tipo com outro par de palavras, do mais jovem ao mais velho. O par daqui pode indicar idade ou posição social. Em ambos os casos, o efeito é dizer que ninguém ficou de fora.

Isso tem relação com a negociação de Abraão no capítulo 18?

Tem, e vale marcar como leitura. Abraão negociara até dez justos, e o narrador não voltou ao assunto. Os versículos 4 e 11 respondem por descrição: a cidade inteira cercou a casa, e a cidade inteira foi ferida. O texto não escreve "não havia dez"; a conexão está na composição.

O que significa "se cansaram tentando achar a porta"?

O verbo hebraico não descreve estar cansado, e sim esgotar-se no ato de tentar. Eles procuraram até o fim das forças. E o versículo começa dizendo quem eram: "os que estavam à entrada da casa". Estão parados exatamente diante do que buscam, e a mesma palavra hebraica aparece nas duas pontas da frase.

Por que a cegueira não os fez ir embora?

O texto não explica, e é o dado mais duro do versículo: a intervenção não os detém, apenas torna inútil o que continuam fazendo. Ninguém se dispersa, ninguém grita, ninguém pede socorro. E o narrador não registra mais nenhuma palavra deles.

Eles se arrependeram?

Nada no texto indica isso. Saem da cena com o mesmo propósito com que entraram, apenas sem meios de executá-lo. A imaginação religiosa costuma esperar que uma manifestação assim produza mudança de coração; aqui não produz, e o narrador não comenta o silêncio.

Este versículo é o castigo de Sodoma?

Não. O castigo vem no versículo 24, e de outro modo. O que acontece aqui tem função defensiva: interrompe o perigo imediato e abre espaço para que, a partir do versículo 12, os enviados tratem com Ló da saída da cidade.

A passagem ensina que Deus cega os pecadores?

Não é o que ela diz. Existem textos difíceis nessa direção — o Deuteronômio, na lista de maldições, ameaça ferir com loucura, cegueira e confusão de coração; Isaías recebe a ordem de fechar os olhos do povo; Sofonias diz que andarão como cegos. Cada um precisa ser tratado no seu lugar. Este versículo não menciona endurecimento nem conversão: descreve uma defesa executada numa porta.

A cegueira foi permanente?

O texto não diz. No episódio de Eliseu, o efeito é revertido por oração ao chegarem a Samaria. Aqui não há informação, e a cidade será destruída poucas horas depois.

Há alguma cena parecida no Novo Testamento?

Há uma próxima, em Atos, quando um homem que se opunha a Paulo é ferido e passa a andar em volta procurando alguém que o guie pela mão. Também ali o que se descreve não é imobilidade, e sim movimento sem direção. As palavras são outras, e o paralelo é de imagem, não de vocabulário.

O que acontece com os homens de Sodoma depois disto?

Nada, no relato. Eles não reaparecem. A partir do versículo 12 a narrativa entra na casa e segue com Ló, com a fuga, com o fogo e com Abraão olhando de longe. A última imagem daquela gente é a de uma multidão tateando uma parede.

9. Conexão com Outros Textos

2 Reis 6:18E logo que os sírios desceram a ele, orou Eliseu ao SENHOR, e disse: Rogo-te que firas a esta gente com cegueira. E feriu-os com cegueira, conforme ao dito de Eliseu.

O único outro lugar da Bíblia hebraica em que a palavra deste versículo aparece.

2 Reis 6:19Depois lhes disse Eliseu: Não é este o caminho, nem é esta a cidade; segui-me, que eu vos guiarei ao homem que buscais. E guiou-os a Samaria.

Os feridos ouvem, entendem e caminham — não estão no escuro, estão desorientados.

2 Reis 6:20E assim que chegaram a Samaria, disse Eliseu: SENHOR, abre os olhos destes, para que vejam. E o SENHOR abriu seus olhos, e olharam, e acharam-se em meio de Samaria.

O efeito é revertido, e eles descobrem onde estavam.

2 Reis 6:17E orou Eliseu, e disse: Rogo-te, ó SENHOR, que abras seus olhos para que veja.

No mesmo capítulo, a visão é dada a um e retirada a outros.

Gênesis 19:4E antes que se deitassem, cercaram a casa os homens da cidade, os homens de Sodoma, todo o povo junto, desde o mais jovem até o mais velho.

A mesma totalidade que cercou é a que é ferida.

Gênesis 19:9E se aproximaram para romper as portas.

Queriam quebrar a folha; agora não acham nem o vão.

Gênesis 19:10Então os homens estenderam a mão, e meteram a Ló em casa com eles, e fecharam as portas.

O gesto imediatamente anterior, feito pelos mesmos.

Deuteronômio 28:28O SENHOR te ferirá com loucura, e com cegueira, e com confusão de coração.

A cegueira como maldição — com outra palavra hebraica.

Deuteronômio 28:29E apalparás ao meio-dia, como apalpa o cego na escuridão, e não serás próspero em teus caminhos.

A imagem do tatear, muito próxima da cena.

Sofonias 1:17E angustiarei as pessoas, que andarão como cegas, porque pecaram contra o SENHOR.

A mesma figura na profecia.

Isaías 6:10Faze o coração deste povo se encher de gordura, e os ouvidos deles ficarem pesados, para que não vejam com seus olhos.

Um dos textos difíceis sobre percepção retirada — que não é o que este versículo trata.

Atos 13:11E no mesmo instante caiu sobre ele um embaçamento, e trevas; e ele, andando ao redor, procurava alguém que o guiasse pela mão.

O mesmo quadro de movimento sem direção, em outro vocabulário.

Gênesis 18:21Descerei agora, e verei se consumaram sua obra segundo o clamor que veio até mim.

O capítulo começou com uma decisão de ver.

Gênesis 19:26Então a mulher de Ló olhou atrás, às costas dele, e se tornou estátua de sal.

Outro uso do olhar, adiante no mesmo capítulo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E feriram de cegueira os homens que estavam à porta da casa, do menor ao maior, de modo que se cansaram tentando achar a porta.

Texto hebraico

וְאֶת־הָאֲנָשִׁים אֲשֶׁר־פֶּתַח הַבַּיִת הִכּוּ בַּסַּנְוֵרִים מִקָּטֹן וְעַד־גָּדוֹל וַיִּלְאוּ לִמְצֹא הַפָּתַח

Transliteração

we-et-ha-anashim asher-petaḥ ha-bayit hikku ba-sanverim mi-qaton we-ad-gadol wayyil'u limtso ha-pataḥ

Palavra por palavra

אֲשֶׁר־פֶּתַח הַבַּיִת (asher-petaḥ ha-bayit) — "os que estavam à entrada da casa"

Petaḥ é a abertura, o vão de entrada. Vem da raiz pataḥ, abrir.

Distingue-se de delet, a folha de madeira, que é a palavra dos versículos 6, 9 e 10. O capítulo mantém a distinção.

Guarde a palavra: ela reaparece na última sílaba do versículo.

הִכּוּ (hikku) — "feriram"

Forma causativa de nakah: golpear, ferir, abater.

É verbo de violência física. Aparece no golpe de espada, na derrota de exércitos, nas pragas do Egito.

O sujeito são os dois visitantes, chamados de "homens" no versículo anterior.

בַּסַּנְוֵרִים (ba-sanverim) — "com sanverim"

Aqui está o centro do versículo.

O termo aparece três vezes na Bíblia hebraica: uma aqui e duas no mesmo versículo de 2 Reis 6.

Não é a palavra comum. Para cego, o hebraico usa iwwer; para cegueira como condição, ivvaron — o termo da lista de maldições do Deuteronômio. O narrador tinha os dois à disposição.

A forma é plural, o que em hebraico costuma indicar abstração ou intensidade: algo como "confusões de vista".

Sobre a origem não há consenso; a hipótese mais repetida fala em empréstimo de uma língua vizinha. A versão grega antiga traduziu por um termo que significa literalmente ausência de visão.

O sentido, com um corpus tão pequeno, vem do uso — e o uso está em 2 Reis 6, onde os feridos ouvem, respondem, caminham e seguem um guia sem reconhecê-lo.

מִקָּטֹן וְעַד־גָּדוֹל (mi-qaton we-ad-gadol) — "do pequeno até o grande"

Fórmula de totalidade: os dois extremos incluem tudo o que está no meio.

Qaton e gadol tanto podem indicar idade quanto posição social.

O versículo 4 usara outra fórmula do mesmo tipo, com na'ar e zaqen — jovem e ancião —, ali claramente de idade.

וַיִּלְאוּ (wayyil'u) — "e se esgotaram"

Do verbo la'ah: cansar-se, esgotar-se, chegar ao fim das forças.

Construído com infinitivo, indica exaurir-se tentando fazer aquilo — não apenas ficar cansado, mas gastar-se na tentativa.

A mesma construção aparece no anúncio da primeira praga do Egito, onde as traduções portuguesas costumam preferir outro sentido do verbo.

לִמְצֹא הַפָּתַח (limtso ha-pataḥ) — "achar a entrada"

Matsa é encontrar, achar.

Ha-pataḥ é a mesma palavra do começo do versículo, agora com a vogal alongada por estar no fim da frase.

Nota — a palavra que abre e fecha o versículo

Vale fechar com o desenho da frase, porque ele carrega tudo.

O versículo começa identificando os homens: asher petaḥ ha-bayit, os que estavam à entrada da casa.

O versículo termina dizendo o que eles não conseguem: limtso ha-pataḥ, achar a entrada.

A mesma palavra nas duas pontas. Entre elas, o golpe.

Eles são definidos pelo lugar em que estão e são incapazes de localizar esse mesmo lugar. Não é distância que os separa do que procuram — estão encostados nele.

Convém acrescentar a escalada, que também está no vocabulário. No versículo 9 eles avançaram para despedaçar a delet, a folha de madeira. Aqui não alcançam sequer o petaḥ, o vão.

Perderam primeiro a porta aberta e depois a parede inteira como referência.

O narrador não comenta nada disso. A construção está na escolha das palavras, e quem lê o versículo no original a encontra sem precisar de interpretação.

11. Conclusão

Um golpe, e a cidade que sitiava a casa deixa de encontrar aquilo que sitiava. O relato gasta uma única frase com isso, mas escolhe para ela um substantivo que o restante da Bíblia hebraica praticamente desconhece — sanverim —, presente apenas aqui e num episódio do profeta Eliseu, onde surge duas vezes na mesma linha. Havia à disposição do escritor o vocabulário ordinário da falta de visão, aquele que a legislação e os profetas empregam sem cessar; ele não o utilizou. A escolha, sozinha, já obriga a suspeitar de que a cena descrita não é a que a palavra portuguesa "cegueira" faz imaginar.

Quem quiser saber o que o termo significa depende quase inteiramente do outro relato, porque três ocorrências não permitem que a etimologia decida nada — e a origem, aliás, é discutida, com hipótese frequente de empréstimo de idioma vizinho. Em Dotã, o exército sírio recebe o mesmo golpe e sai andando: escuta uma voz, entende a instrução, marcha em ordem, cumpre o percurso até Samaria. O que lhe escapa não é a luz, e sim a correspondência entre a imagem e a coisa — não identifica no guia o homem que veio capturar, não percebe que a estrada tomada é outra, não reconhece a cidade em que entra. Só ao chegar, quando os olhos lhe são abertos por oração, descobre onde está. Vale ressalvar que uma base de dois textos é estreita, e que nada garante que o efeito em Sodoma tenha sido idêntico ao de Dotã.

O comportamento descrito aqui, porém, aponta na mesma direção, e de modo até mais eloquente. Aqueles homens não se sentam no chão, não gritam, não se dispersam pelas ruas, não voltam para as próprias casas: ficam procurando. O verbo final da frase não fala em ficar cansado — fala em consumir as próprias forças tentando, esgotar-se no ato. Passaram, portanto, o resto daquela noite raspando a parede atrás de uma abertura, e a última coisa que o Gênesis registra a respeito dos habitantes daquele lugar, antes de narrar o fogo, é justamente essa: gente de toda condição, do menos importante ao mais importante, gastando-se numa busca inútil. Depois deste versículo eles somem do relato, sem despedida e sem comentário.

Some-se a ironia que o hebraico monta e o português não consegue reproduzir. A frase se abre identificando aquela gente pela posição que ocupava — os que estavam no vão da entrada — e se encerra dizendo que não conseguiam achar o vão da entrada. Palavra idêntica nas duas pontas, o golpe no meio. E há uma escalada que o capítulo vinha preparando: pouco antes queriam arrebentar a folha de madeira, agora não localizam nem a abertura em que ela se encaixa. Primeiro lhes faltou a porta aberta; depois, a parede como referência.

Duas cautelas encerram a leitura. A primeira é que este acontecimento não constitui a punição da cidade — essa virá adiante, sob outra forma, e num versículo próprio; o que se dá aqui interrompe um perigo imediato e libera espaço para que os enviados, a partir da frase seguinte, tratem com Ló da retirada. A segunda é que a passagem nada afirma sobre Deus retirar percepção de quem peca. Textos assim existem e são ásperos, do Deuteronômio a Isaías e Sofonias, e cada um exige tratamento no seu próprio lugar; nenhum está em causa nesta frase, que não menciona endurecimento nem conversão. Sobra, sem necessidade de acréscimo, uma imagem que dispensa comentário: quem viera derrubar uma porta acabou a noite sem conseguir sequer encontrá-la.

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