Então os homens disseram a Ló: “Quem mais você tem aqui? Genros, filhos, filhas, e todos os que você tem na cidade, tire-os deste lugar,
1. Introdução
Os mensageiros abrem a boca pela segunda vez no capítulo, e o que dizem é uma lista.
Genros, filhos, filhas. Mais todos os que Ló tiver na cidade.
O problema aparece assim que se continua lendo. Dois versículos adiante, Ló procura genros. No versículo seguinte a esse, os mensageiros mandam levar a mulher e duas filhas. Filhos, em Gênesis 19, não existem: nenhum aparece, nenhum fala, nenhum morre, ninguém explica onde estão.
Uma lista mais larga do que a família que a narrativa mostra é um dado incômodo, e há mil e oitocentos anos de tentativas de fechá-lo. Nenhuma fecha inteiramente.
Há um segundo dado, e é maior. O critério que os mensageiros anunciam para tirar gente da cidade não é a conduta de ninguém. É o parentesco com Ló.
Vale medir o que isso faz com o capítulo anterior. Abraão negociara com o SENHOR a sorte da cidade, e o objeto da negociação era o número de justos — cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, dez. A palavra que ele usou foi justo, dez vezes.
O que chega a Sodoma não conta justos. Conta parentes.
E há um terceiro fio, mais discreto e talvez o mais duro. A ordem é dada a Ló no imperativo: tire-os. Ele é o agente. Quatro versículos depois, o mesmo verbo aparece com ele no lugar do objeto: são os mensageiros que o tiram, pela mão, porque ele demorava.
Este comentário vai percorrer os três fios sem costurá-los à força. Nenhum deles se resolve dentro do versículo, e dizer o contrário seria fabricar conforto.
2. Contexto Histórico e Cultural
O ponto exato da noite em que a frase é dita
Convém fixar a posição da cena, porque tudo neste versículo depende do que acabou de acontecer.
Dois mensageiros chegaram a Sodoma ao entardecer e encontraram Ló sentado à porta da cidade. Ele insistiu na hospedagem, e eles cederam depois de recusar. Houve refeição, houve pão sem fermento.
Antes que se deitassem, os homens da cidade cercaram a casa — o texto faz questão de dizer que eram todos, do mais jovem ao mais velho — e exigiram os hóspedes. Ló saiu, fechou a porta atrás de si, chamou-os de irmãos e ofereceu as duas filhas em lugar dos visitantes.
A multidão recusou, e a recusa veio com uma acusação: ele é um forasteiro que se arvora em juiz. Empurraram-no e avançaram para arrombar a porta.
Foi então que os hóspedes agiram pela primeira vez. Puxaram Ló para dentro, fecharam a porta e feriram de cegueira os homens que estavam do lado de fora.
É nesse ponto, com a porta fechada e a rua cheia de gente tateando, que eles falam.
Guarde-se a sequência, porque ela é o argumento: até aqui, os hóspedes tinham sido protegidos por Ló; agora são eles que protegem, e a primeira coisa que dizem depois de agir é a ordem de esvaziar a casa.
"Os homens" — o narrador troca a palavra três vezes
Um detalhe de vocabulário que o leitor apressado atropela.
O versículo 1 diz que chegaram a Sodoma dois anjos. O termo hebraico é malakhim, que significa mensageiros, enviados — e é a palavra comum para o emissário humano de um rei tanto quanto para o ser celeste.
O versículo 5 põe na boca dos moradores a palavra homens. O versículo 10 diz "aqueles homens". Este versículo diz "os homens".
Ou seja: o narrador usa "anjos" uma única vez, na abertura, e depois disso trata os visitantes pelo mesmo substantivo que a cidade usa.
Isso não decide nada sobre a natureza deles, e é justamente esse o ponto. Eles comem, andam, seguram, empurram e falam. O relato não descreve asas, luz, nem qualquer traço que os distinga fisicamente de dois viajantes.
Vale registrar que o problema vem do capítulo anterior. Lá eram três; aqui são dois; e no capítulo 18 o interlocutor de Abraão é chamado de SENHOR. Não há explicação no texto para a aritmética, e as soluções propostas serão discutidas adiante.
Ló, o homem que morava sem pertencer
A situação jurídica de Ló é a chave social do versículo, e o próprio capítulo a enuncia.
Quando a multidão o rejeita, o argumento é este: ele veio morar como estrangeiro, e agora quer julgar. O termo hebraico por trás disso é ger — o residente de fora, aquele que mora numa cidade que não é a sua e não tem os direitos plenos de quem nasceu ali.
O ger do mundo antigo não era escravo nem inimigo. Era um morador tolerado, dependente da proteção de alguém, sem terra própria e sem voz nas decisões da cidade. A lei de Israel dedicaria a ele uma quantidade notável de artigos, quase sempre ao lado da viúva e do órfão — as três categorias de gente sem quem a defenda.
Isso explica muita coisa da cena. Explica por que a defesa dos hóspedes por Ló é fraca, por que ele apela ao parentesco fictício ("meus irmãos"), e por que a resposta da multidão é lembrá-lo de que ele não é dali.
Explica também a lista deste versículo. Um homem nessas condições constrói vínculos por casamento: dá as filhas a famílias locais e passa a ter, dentro da cidade, gente ligada a ele. É a via normal de integração de um forasteiro no Antigo Oriente Próximo, e é exatamente o que a lista pressupõe.
A porta da cidade, que é onde estava Ló
O versículo 1 diz que ele estava sentado à porta. Vale entender o que isso significa, porque não é um detalhe pitoresco.
A porta de uma cidade antiga não era uma abertura no muro: era um conjunto de câmaras entre torres, com bancos de pedra, e funcionava como a praça pública, o tribunal e a bolsa de negócios ao mesmo tempo.
Escavações de cidades da Idade do Ferro na região — Meguido, Gezer, Dã, Berseba — mostram esse arranjo de câmaras laterais com bancos. E a Bíblia hebraica confirma o uso: é à porta que se leva o filho rebelde, é à porta que Boaz senta para tratar do resgate diante de dez anciãos, é a justiça na porta que Amós acusa de estar à venda.
Estar sentado ali, portanto, é estar no lugar dos que decidem. E é aqui que o dado fica interessante, sem que o texto o comente: um estrangeiro residente sentado na porta ou está integrado além do que a sua condição permitiria, ou está apenas onde passa gente — e o versículo 9 sugere que a cidade não o considerava integrado coisa nenhuma.
Não é possível decidir. O texto põe o forasteiro no assento dos juízes e, oito versículos depois, mostra a cidade rindo da pretensão dele de julgar.
O noivado no mundo em que a cena se passa
Como a discussão do versículo gira em torno de genros, é preciso saber o que era um genro ali.
O casamento no Antigo Oriente Próximo tinha duas etapas separadas no tempo. Primeiro, o acordo entre as famílias, com o pagamento do mohar — a quantia que o noivo ou a família dele entregava ao pai da moça. A partir desse acordo, a mulher era juridicamente comprometida, embora continuasse morando com o pai.
Depois, às vezes meses ou anos depois, vinha a transferência para a casa do marido, com festa, e a vida em comum.
Entre uma etapa e outra, a moça era chamada de esposa e o homem era chamado de marido, e o vínculo tinha efeito legal pleno. A lei de Deuteronômio trata a violação de uma moça comprometida como adultério, com a mesma pena — o que só faz sentido se o compromisso já valia como casamento.
Os documentos mesopotâmicos confirmam o quadro. As leis de Hamurabi tratam do noivo que pagou e depois é preterido, e da restituição do valor entregue; os contratos de Nuzi registram a entrega, o preço e as cláusulas.
Daí decorre o problema deste versículo e do próximo: em hebraico, o mesmo substantivo cobre o genro casado e o comprometido, e não há como distinguir os dois pela palavra.
A casa, a família e o número
Um último elemento de fundo, e vale enunciá-lo sem enfeite.
A unidade social daquele mundo não era a pessoa: era a casa do pai — bet av, em hebraico. Ela reunia o chefe, as mulheres, os filhos casados com as suas famílias, os servos, os agregados e o gado.
Quando um texto antigo fala de salvar ou de destruir, ele costuma pensar nessa unidade, e não em indivíduos somados. Noé entra na arca com a casa. Raabe pede pelo pai, pela mãe, pelos irmãos e por tudo o que é deles. A congregação é mandada afastar-se das tendas dos homens condenados, e o texto especifica que saiam também as mulheres, os filhos e as crianças.
A lista deste versículo é dessa família de fórmulas. Ela não é um inventário exato da parentela de Ló: é a maneira normal de dizer a sua casa inteira.
Registro isso desde já porque muda o peso do problema — sem, contudo, dissolvê-lo. Uma fórmula genérica explica por que a lista é ampla; não explica por que ela nomeia filhos que o capítulo em momento nenhum mostra.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então os homens disseram a Ló"
Comece-se pelo mais simples, que é quem está falando e quando.
Esta é a segunda fala dos visitantes em todo o capítulo. A primeira foi de três palavras, no versículo 2, e era uma recusa: passariam a noite na praça.
Entre uma fala e outra, eles não disseram absolutamente nada. Comeram em silêncio. Ouviram, em silêncio, a multidão exigir que fossem entregues. Ouviram, em silêncio, o anfitrião oferecer duas filhas em troca deles.
E então agiram: estenderam a mão, puxaram Ló, fecharam a porta e feriram a rua de cegueira.
A ordem dos acontecimentos merece ser sublinhada porque ela é rara na narrativa hebraica, que costuma mover tudo por diálogo. Aqui, os personagens decisivos ficam mudos durante nove versículos e só falam depois de terem agido.
Repare no que isso produz. Quando eles finalmente abrem a boca, Ló já viu do que eles são capazes. A ordem que vem a seguir chega com a autoridade de quem acabou de demonstrar poder, e não com a de quem se apresenta.
Vale um segundo detalhe, que é de vocabulário e já foi anunciado no item anterior: o narrador os chama aqui de ha-anashim, "os homens" — a mesma palavra que o versículo 4 usa para a multidão de Sodoma que cercou a casa.
Ou seja: no mesmo capítulo, e com poucos versículos de distância, "os homens" são os agressores e "os homens" são os enviados. O hebraico não distingue.
Não construo nada sobre isso. Registro porque o efeito de leitura é real e porque a tradução em português, que às vezes escreve "os anjos" onde o hebraico escreve "os homens", apaga o dado.
E vale registrar o que a frase não traz. Não há fórmula de apresentação, não há "assim diz o SENHOR", não há sinal, não há credencial. Dois hóspedes que passaram a noite na casa começam a dar ordens.
"Quem mais você tem aqui?"
O hebraico é od mi-lecha foh — literalmente "ainda, quem para ti aqui?".
Três elementos, e o primeiro é o que carrega a frase. Od significa "ainda", "além disso", "mais". É a palavra de quem soma ao que já está contado.
A pergunta pressupõe, então, que uma parte já está sabida — a mulher e as filhas que estão dentro de casa — e busca o resto.
É assim que Rashi, o comentarista francês do século onze cujas glosas acompanham a página do texto hebraico até hoje, entende o sentido direto: quem mais você tem nesta cidade, além da mulher e das filhas que estão em casa com você?
Essa leitura tem a vantagem de explicar o "aqui" e o "ainda" de uma vez, e a de casar com o resto do capítulo. É a mais econômica das disponíveis.
Mas Rashi registra também uma segunda leitura, vinda do comentário rabínico, e ela é de outra ordem. Ele lê o od não como "mais gente", e sim como "ainda", no sentido temporal e retórico: depois de terem feito uma vilania dessas, você ainda tem boca para advogar por eles?
O raciocínio por trás disso é que Ló passara a noite defendendo os moradores — chamando-os de irmãos, tentando negociar, pedindo. A pergunta seria, nessa chave, uma censura à advocacia dele.
Convém dizer com clareza o estatuto dessa leitura: ela é engenhosa, é antiga, e não está no texto. O hebraico permite as duas, e a primeira é muito mais provável. Registro a segunda porque ela mostra o que os leitores antigos ouviam na cena, e porque é raro encontrá-la fora da literatura rabínica.
Há um terceiro ponto, e este é do próprio versículo, não de comentário nenhum.
A pergunta é uma pergunta de verdade. Os mensageiros não sabem quem Ló tem na cidade. Precisam perguntar.
Isso conversa diretamente com o capítulo anterior, em que o SENHOR anuncia que vai descer para ver se a situação corresponde ao clamor que chegou até ele. Ali, o texto atribui a Deus um procedimento de verificação; aqui, atribui aos enviados uma ignorância comum.
As leituras correntes desse traço são três, e nenhuma se impõe. Que se trata de linguagem antropomórfica, isto é, de descrever Deus e os seus com gestos humanos, sem afirmação metafísica alguma. Que os enviados sabem o que foram encarregados de saber, e nada além. Que a narrativa é antiga e não compartilha as preocupações posteriores sobre onisciência.
Não é possível decidir entre elas com os dados que o capítulo fornece. O que se pode afirmar é que o texto não tem constrangimento nenhum em mostrar mensageiros divinos perguntando.
"Genros, filhos, filhas"
Aqui está a dificuldade célebre do versículo, e ela precisa ser exposta devagar, porque quase toda apresentação corrente a encurta.
Comece-se pelo hebraico exato: chatan uvanêcha uvnotêcha.
O primeiro dado, que a maioria das traduções portuguesas apaga, é que chatan está no singular. Não é "genros": é "genro", uma palavra só, sem sufixo possessivo. Os dois termos seguintes, "os teus filhos" e "as tuas filhas", estão no plural e com o possessivo.
A frase é, portanto, mais desengonçada do que parece em português: "genro, e os teus filhos, e as tuas filhas".
Ibn Ezra, comentarista espanhol do século doze conhecido pela atenção à gramática, resolve isso lendo a frase como condicional: se você tem um genro aqui. Rashi faz o mesmo movimento: se você tem genro, ou filhos, ou filhas.
Ou seja: a lista não afirma que Ló tem essas pessoas. Ela pergunta por categorias.
Essa observação é boa e vale reter, porque alivia parte do problema — mas não o todo, como se verá.
Agora o campo semântico da palavra, que é mais largo do que "genro".
A raiz hebraica chatan designa o vínculo criado pelo casamento entre duas famílias. Dela saem o substantivo que traduzimos por genro, o que traduzimos por sogro, e o verbo que significa "aparentar-se por casamento".
As ocorrências mostram a amplitude. O livro dos Juízes chama de chatan o marido samsão em relação ao pai da moça, e o mesmo termo aparece para o levita em relação ao sogro. Nos Salmos, a palavra designa o noivo que sai do seu quarto nupcial. Em Isaías, o noivo que se enfeita. Em Neemias, o vínculo por casamento com uma família estrangeira, tratado como problema político.
E há um uso que mostra bem o quanto o termo pertence ao vocabulário do parentesco por aliança: em Êxodo, Zípora chama Moisés de "esposo de sangue" com uma forma dessa raiz, numa cena obscura de circuncisão que ninguém explicou satisfatoriamente até hoje.
Conclusão filológica: chatan não distingue o genro casado do genro prometido. A palavra cobre os dois, e a decisão fica com o contexto.
Só que o contexto, neste capítulo, é justamente o que está em disputa.
A gramática do versículo 14, que decide a tradução deste
Dois versículos adiante, Ló procura os genros, e o texto os qualifica: lôqechê benotav.
Traduzido ao pé da letra: "os tomadores das suas filhas". É um particípio ativo, construto, plural — a forma que o hebraico usa para dizer "aqueles que fazem tal coisa".
E o particípio hebraico não marca tempo. Ele indica alguém caracterizado por uma ação, e o momento dessa ação é dado pelo contexto — o que significa, aqui, que a frase pode ser lida de duas maneiras inteiramente diferentes.
Primeira: "os que tomaram as suas filhas". Genros já casados, que já levaram as moças para casa. Nesse caso, Ló tinha mais filhas do que as duas do versículo 15.
Segunda: "os que iam tomar as suas filhas". Noivos das duas moças que ainda estão em casa, comprometidos e ainda não casados. Nesse caso, as filhas são só duas.
Vale mostrar que a divisão não é moderna. Ela está nas versões antigas, e elas se dividem exatamente ao meio.
A tradução grega do Antigo Testamento, feita em Alexandria a partir do século terceiro antes da era comum, usa um particípio perfeito: tous eilēphotas, "os que haviam tomado". Passado. Genros casados.
A tradução aramaica de Onquelos, lida na sinagoga, diz "os que tomaram as suas filhas". Passado também. E o Targum Pseudo-Jônatas, mais tardio e mais fantasioso, acompanha.
A tradução latina de Jerônimo, do fim do século quarto, faz o contrário: qui accepturi erant filias eius — particípio futuro, "os que estavam para tomar as suas filhas". Noivos.
Entre os comentaristas medievais judeus a divisão se repete. Ibn Ezra lê "casados", e tira daí uma consequência forte: Ló tinha duas outras filhas, que morreram em Sodoma. A prova, para ele, está no versículo 15, que manda levar "as suas duas filhas que aqui estão" — expressão que só faz sentido se houvesse outras que não estavam ali.
Radak, provençal do século doze e treze, lê "já desposados", isto é, comprometidos. E acrescenta uma observação de método que vale a pena: o texto não registra Ló falando com as filhas, porque as mulheres seguiriam a decisão dos maridos.
O comentário rabínico antigo tentou ficar com as duas coisas. O Bereshit Rabbah, coletânea de exposição do Gênesis compilada por volta do século quinto na Palestina, diz na seção 50 que Ló tinha quatro filhas: duas comprometidas e duas casadas.
A nossa tradução opta pela segunda leitura — genros que iam se casar. Convém dizer por quê, e convém dizer o que se perde com a escolha.
A favor: o versículo 8 diz que Ló tem duas filhas que não conheceram homem, e o versículo 15 manda levar duas filhas. Se as duas do versículo 8 são as duas do versículo 15, a aritmética do capítulo fecha com duas filhas apenas, e os homens do versículo 14 só podem ser noivos.
Contra: essa leitura obriga a explicar por que o versículo 15 diz "que aqui estão", e a explicação — que é apenas uma maneira de dizer "estas aqui" — é possível e não é obrigatória.
Registro que a escolha é escolha. O hebraico permite as duas, as versões antigas se dividem, e não é possível decidir com segurança.
O problema dos filhos, que ninguém resolveu
Agora o ponto duro, e vou expô-lo sem atenuante.
O versículo manda tirar da cidade os filhos de Ló. Substantivo masculino plural, com possessivo: banêcha.
Em Gênesis 19 não há um único filho de Ló. Não aparece, não fala, não é procurado, não é contado entre os que saem, não é contado entre os que morrem. O capítulo termina com Ló, duas filhas e uma caverna, e ninguém pergunta pelos filhos.
Isso é um dado, e é do texto. Vejamos o que se fez com ele.
Primeira saída: os "filhos" são netos.
Rashi diz que banêcha significa aqui os filhos das filhas casadas de Ló. Radak segue por caminho parecido e acrescenta um argumento de bom senso: se Ló tivesse filhos, eles estariam na casa dele; filhas casadas, não estariam.
A favor: em hebraico, ben designa descendente em geral, e não apenas o filho imediato. "Filhos de Israel" quer dizer descendentes de Jacó a muitas gerações de distância.
Contra: a leitura só funciona se Ló tiver filhas casadas — o que reintroduz a discussão do versículo 14 e obriga a admitir filhas que a narrativa também não mostra. A saída troca um problema por outro.
Segunda saída: os "filhos" são os genros.
É a proposta de Ibn Ezra: genros que valem como filhos, filhas que valem como filhas.
A favor: é econômica e usa a mesma elasticidade do vocabulário de parentesco.
Contra: a frase já nomeou o genro separadamente, três palavras antes. Ler o segundo termo como repetição do primeiro deixa a lista redundante.
Terceira saída: Ló tinha filhos, e eles não saíram.
É a proposta de Ramban, comentarista catalão do século treze. Ele sustenta que Ló provavelmente tinha filhos adultos e casados; que falou primeiro aos genros, supondo que os filhos o atenderiam; e que, quando os genros o trataram com escárnio, o amanhecer chegou e os mensageiros só permitiram a saída de quem estava presente.
A favor: leva o versículo a sério em vez de reinterpretá-lo, e produz uma cena coerente.
Contra: tudo isso é reconstrução. O texto não diz que Ló tinha filhos, não os mostra, não conta o que lhes aconteceu. A hipótese preenche o silêncio com uma história plausível — e uma história plausível não é um dado.
Quarta saída: é fórmula, não inventário.
Esta é a leitura que a exegese moderna costuma preferir, e ela merece ser apresentada com cuidado, porque é a mais forte e a menos citada em púlpito.
Listas de parentesco desse tipo são fórmulas fixas na literatura do Antigo Oriente Próximo e na Bíblia. Elas servem para dizer "todo mundo que é seu", e não para descrever a composição exata de uma família.
O próprio Gênesis fornece os paralelos. Noé recebe a ordem de entrar na arca com os filhos, a mulher e as mulheres dos filhos — e depois, em outra formulação, com "toda a tua casa". José manda chamar o pai com os filhos, os filhos dos filhos, o gado e tudo o que tem. Raabe pede pelo pai, pela mãe, pelos irmãos, pelas irmãs e por tudo o que é deles.
Repare que a nossa frase segue exatamente esse molde, inclusive no fecho: depois de nomear as categorias, ela acrescenta "e todos os que você tem na cidade" — que é a cláusula de encerramento típica dessas fórmulas.
A favor: explica a lista sem precisar inventar parentes, e apoia-se em um padrão verificável em muitos textos.
Contra: explica a forma da lista e não apaga o conteúdo dela. A fórmula, ainda que genérica, nomeia filhos; e o capítulo, que teve espaço para narrar a oferta das filhas à multidão e o escárnio dos genros, não teve uma linha para eles.
O que se pode afirmar
Que a lista é mais ampla do que a família mostrada, e que isso é do texto, não da tradução.
Que as quatro explicações são possíveis e nenhuma é exigida pelos dados.
Que a mais econômica é a da fórmula, e que ela deixa resíduo.
E que a tradição interpretativa, judaica e cristã, gastou muita engenhosidade aqui — sinal de que o incômodo é antigo, e não invenção da crítica moderna.
"e todos os que você tem na cidade"
O hebraico é vechol asher-lecha ba'ir: "e tudo o que é teu na cidade".
A primeira observação é gramatical e importa. A expressão kol asher lecha não é restrita a pessoas. Ela cobre indistintamente gente, gado e bens, e é a fórmula corrente para dizer "tudo o que pertence a alguém".
Quando o capítulo 14 conta que Abrão recuperou Ló, o texto diz que trouxe de volta "a fazenda dele, e também as mulheres e o povo". Quando Josué manda tirar Raabe, manda tirar também "tudo o que era dela" e "toda a parentela". A fórmula é sempre a mesma, e sempre englobante.
A segunda observação é sobre a extensão, e ela é notável.
Não há número. Não há limite. Não há condição de conduta. A ordem cobre quem quer que esteja ligado a Ló naquela cidade.
Ponha-se isso ao lado do capítulo anterior e a diferença salta.
Abraão negociou por número: cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, dez. E negociou por qualidade: justos. A pergunta que ele fez foi se o juiz de toda a terra faria morrer o justo com o ímpio.
Aqui não se pergunta se alguém é justo. Pergunta-se de quem a pessoa é parente.
Vale marcar o que o texto faz e o que não faz com essa diferença. Ele não a comenta. Não diz que a barganha falhou, não diz que foi atendida por outra via, não diz nada. O leitor recebe os dois critérios em dois capítulos consecutivos e fica com eles nas mãos.
Há uma resposta possível, e ela vem no fim do capítulo. O versículo 29 informa que, ao destruir as cidades, Deus se lembrou de Abraão e por isso tirou Ló do meio da destruição.
Se essa frase for a chave, então a intercessão do capítulo 18 não salvou a cidade, mas salvou um homem — e o mecanismo dessa salvação foi o vínculo de Ló com o intercessor, não o mérito de Ló.
É leitura, e é boa leitura, porque se apoia numa frase explícita do próprio capítulo. Mas convém registrar duas coisas contra a pressa.
Primeira: o versículo 29 é uma nota do narrador, colocada depois de tudo, com vocabulário diferente do resto do capítulo — muitos estudiosos a atribuem a outra camada de composição. Isso não a torna falsa; torna arriscado usá-la como chave do que veio antes.
Segunda: mesmo que ela seja a chave, ela não resolve a barganha. Abraão pediu pela cidade. A resposta que ele obteve foi um número. O que aconteceu não corresponde ao pedido nem à resposta.
"tire-os deste lugar"
O verbo é hotse, imperativo, forma causativa da raiz que significa "sair". Traduz-se literalmente por "faze sair".
É um verbo carregado no Antigo Testamento. Ele é o verbo do êxodo: a fórmula que abre os dez mandamentos diz que o SENHOR é aquele que fez sair Israel da terra do Egito, da casa da servidão. A mesma forma aparece dezenas de vezes com esse sentido.
Aqui, a forma causativa está na boca dos mensageiros e no imperativo, e o encarregado de fazer sair é Ló.
Vale medir o que isso lhe atribui. Não lhe pedem opinião, nem adesão, nem fé. Pedem uma operação: retirar gente de um perímetro.
E aqui está o fio mais fino do versículo, que só aparece a quem lê quatro versículos adiante.
No versículo 16, com o dia raiando e Ló demorando, o texto diz que os homens pegaram pela mão dele, da mulher e das duas filhas, e — o verbo é o mesmo, na mesma forma causativa — o fizeram sair, e o puseram fora da cidade.
Ou seja: a tarefa que lhe foi dada no versículo 12 é executada sobre ele no versículo 16. Ele deveria tirar; acaba tirado.
Registro a observação como observação. O texto não a sublinha, não faz comentário, não emite juízo. Mas a repetição do verbo é do hebraico, é verificável, e não me parece que seja acaso — ainda que não seja possível provar intenção.
Falta a última palavra: ha-maqom, "o lugar".
É palavra comum, e por isso passa despercebida. Mas repare na frequência com que ela volta nesta cena: aparece aqui, aparece duas vezes no versículo seguinte, aparece de novo no versículo 14 na boca de Ló.
Quatro ocorrências em três versículos, sempre com o mesmo referente: a cidade que vai acabar.
E há um detalhe que vale registrar com cuidado, porque é fácil exagerá-lo. No Gênesis, maqom é também a palavra do lugar sagrado. É o "lugar" que Abraão avista de longe quando vai sacrificar o filho; é o "lugar" onde Jacó dorme e acorda dizendo que ali está Deus e que ele não sabia, e que aquele lugar é temível.
Aqui, o "lugar" é aquele de onde é preciso arrancar as pessoas antes que ele seja arruinado.
Não faço disso um trocadilho teológico. A palavra é comum demais e o contraste pode ser puro acaso da língua. Registro como observação sobre o vocabulário, disponível a quem lê o livro inteiro, e não como afirmação sobre a intenção do autor.
A salvação por pertencimento, no resto do cânon
Convém abrir este bloco porque o versículo instala um padrão que atravessa a Bíblia hebraica, e porque o padrão tem duas faces.
A face confortável é conhecida. Noé recebe a ordem de entrar na arca com a casa; o texto diz expressamente que foi ele quem Deus viu justo naquela geração, e a casa entra pela porta que o mérito dele abriu. Raabe negocia com os espias e obtém a vida do pai, da mãe, dos irmãos e de todos os que forem deles. A congregação é mandada afastar-se das tendas dos homens condenados. Nos Atos dos Apóstolos, a promessa feita ao carcereiro é "tu e a tua casa".
Em todos esses casos, a unidade de salvação é a casa, e não a pessoa. Uma pessoa é avaliada; a casa dela é arrastada junto para o lado bom.
A face incômoda é a mesma lógica virada ao contrário, e o cânon a registra com franqueza.
No livro de Josué, um homem toma o que estava interditado, e a execução alcança os filhos, as filhas, o gado e a tenda. Em Números, a terra se abre e engole as casas dos revoltosos, com mulheres e crianças.
É o pensamento corporativo, e ele é coerente: se o vínculo salva sem que se pergunte pelo mérito, ele também condena sem que se pergunte pelo mérito.
Convém não alisar isso. A ideia de que cada um responde pelo que fez é conquista tardia dentro da própria Bíblia — Deuteronômio a formula para os tribunais humanos, Jeremias e Ezequiel a formulam contra o provérbio dos pais que comeram uvas verdes e dos filhos que ficaram com os dentes embotados.
Que os profetas tenham precisado combater o provérbio mostra o quanto ele era corrente.
E vale marcar o limite do que digo. Não afirmo que Gênesis 19 defenda o castigo coletivo, nem que o condene. O capítulo narra e não avalia. O que se pode afirmar é que ele funciona dentro dessa lógica e não a discute em lugar nenhum — e que o único personagem do bloco que a discute é Abraão, no capítulo anterior, com uma pergunta que ficou sem resposta direta.
A palavra que não aparece
Fecho o item com uma ausência, porque ela organiza tudo o que veio antes.
A palavra hebraica tsaddiq, justo, é o eixo do capítulo 18. Abraão a repete, o SENHOR a repete, a barganha inteira gira em torno dela.
Em Gênesis 19, ela não aparece uma única vez. Não é aplicada a Ló, não é aplicada a ninguém, não é discutida.
Ló é chamado de justo em outro lugar — numa carta do Novo Testamento, escrita mais de mil e quinhentos anos depois, que fala do justo Ló atormentado com a conduta dos maus. Essa carta é um documento de leitura, e uma leitura de época helenística e cristã, não uma informação do Gênesis.
Registro os dois dados sem os misturar. O Gênesis não diz que Ló era justo. Um texto muito posterior diz. As duas coisas são verdadeiras, e são coisas diferentes.
E o que fica no meio, sem solução, é a pergunta que o leitor faz sozinho: por que este homem sai, se o texto não lhe atribui mérito nenhum?
O próprio capítulo dá duas respostas parciais e nenhuma completa. O versículo 16 diz que foi por compaixão do SENHOR para com ele. O versículo 29 diz que foi porque Deus se lembrou de Abraão.
Nenhuma das duas fala de conduta. O que a narrativa oferece como razão é misericórdia e parentesco — e é exatamente isso que este versículo 12 já anuncia ao pedir a lista da família em vez da lista dos justos.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os homens — ha-anashim, os dois visitantes. O narrador os chamou de mensageiros uma única vez, no versículo 1, e desde então usa a mesma palavra que emprega para a multidão de Sodoma. O texto não descreve nada que os distinga fisicamente de dois viajantes.
Ló — sobrinho de Abraão, morador de Sodoma. É um ger, residente estrangeiro: mora na cidade sem ser dela, e o versículo 9 mostra que a cidade não o esquecera disso. Recebe aqui uma ordem no imperativo e, quatro versículos adiante, será ele o objeto do mesmo verbo.
Od ("ainda", "mais") — a partícula que abre a pergunta. Pressupõe uma parte já contada e busca o restante. O comentário rabínico propôs também a leitura temporal e retórica: depois do que fizeram, você ainda os defende?
Chatan ("genro", "noivo") — no versículo está no singular, sem possessivo. A raiz designa o vínculo criado pelo casamento e cobre genro, sogro e noivo; nos Salmos e em Isaías, aparece para o noivo em dia de festa. A palavra não distingue o casado do comprometido.
Banêcha ("os teus filhos") — o termo que cria a dificuldade do versículo. Em Gênesis 19 não aparece nenhum filho de Ló. Ben, em hebraico, pode designar descendente em geral, e não apenas o filho imediato.
Lôqechê benotêcha ("os tomadores das tuas filhas") — a expressão do versículo 14. Particípio ativo, que não marca tempo: "os que tomaram" (casados) ou "os que iam tomar" (noivos). A nossa tradução opta pela segunda.
Kol asher lecha ("tudo o que é teu") — a cláusula de encerramento das fórmulas de casa. Cobre indistintamente pessoas, servos, gado e bens; é a mesma expressão usada no resgate de Ló no capítulo 14 e no resgate de Raabe em Josué 6.
Hotse ("faze sair") — imperativo da forma causativa da raiz "sair". É o verbo do êxodo. No versículo 16, a mesma forma descreve o que os mensageiros fazem com o próprio Ló.
Ha-maqom ("o lugar") — palavra comum, repetida quatro vezes em três versículos, sempre designando a cidade condenada. No Gênesis, é também o termo do lugar sagrado, no monte do sacrifício e em Betel.
O ger (residente estrangeiro) — categoria social do mundo antigo: morador tolerado, sem terra e sem voz nas decisões da cidade, dependente de proteção. A lei de Israel o menciona quase sempre ao lado da viúva e do órfão.
O mohar e o noivado — o pagamento que selava o acordo entre as famílias. A partir dele a mulher era juridicamente comprometida, ainda morando com o pai. É esse intervalo entre o acordo e a mudança de casa que torna ambígua a palavra "genro".
A porta da cidade — conjunto de câmaras entre torres, com bancos de pedra, que servia de praça, tribunal e mercado. É onde Ló está sentado no versículo 1, e é onde Boaz trata do resgate diante dos anciãos.
Rashi — comentarista francês do século onze. Lê a pergunta no sentido direto ("quem mais além da mulher e das filhas que estão em casa") e explica "os teus filhos" como os filhos das filhas casadas, isto é, netos.
Ibn Ezra — comentarista espanhol do século doze, atento à gramática. Lê a lista como condicional ("se tens genro aqui"), entende "filhos" como os genros, e sustenta que Ló tinha duas outras filhas, mortas em Sodoma.
Radak — David Kimhi, comentarista provençal dos séculos doze e treze. Entende "filhos" como netos, com o argumento de que filhos morariam na casa do pai; e lê os homens do versículo 14 como já desposados.
Ramban — Nachmânides, catalão do século treze. Sustenta que Ló tinha filhos adultos casados que não chegaram a tempo, e observa que o resgate honra a hospitalidade do anfitrião, conforme o costume dos enviados.
Bereshit Rabbah 50 — coletânea de exposição do Gênesis compilada por volta do século quinto na Palestina. Registra a tradição de que Ló tinha quatro filhas, duas comprometidas e duas casadas.
A Septuaginta — tradução grega do Antigo Testamento feita em Alexandria a partir do século terceiro antes da era comum. Traz "genros" no plural, onde o hebraico tem o singular, e lê o versículo 14 no passado.
A Vulgata — tradução latina de Jerônimo, do fim do século quarto. Mantém o singular "genro" e lê o versículo 14 no futuro, com um particípio que significa "os que estavam para tomar".
5. Pontos de Ensino
A lista é mais larga do que a família que o capítulo mostra. Genros, filhos e filhas são pedidos; o relato apresenta genros, uma mulher e duas filhas, e nenhum filho.
"Genro" está no singular no hebraico. A maioria das traduções portuguesas escreve o plural, e o dado se perde.
Rashi e Ibn Ezra leem a lista como condicional. Não se afirma que Ló tem essas pessoas; pergunta-se por categorias.
A palavra "genro" não distingue o casado do noivo. A raiz hebraica cobre todo vínculo criado por casamento, e a decisão fica com o contexto.
As versões antigas se dividem sobre o versículo 14. A Septuaginta e o Targum leem "os que tomaram"; a Vulgata lê "os que iam tomar".
Nenhuma das quatro explicações para os filhos cobre todos os dados. Netos, genros, filhos que ficaram para trás e fórmula fixa — cada uma deixa resíduo.
A explicação mais econômica é a da fórmula de casa. Listas assim dizem "todos os teus" e não descrevem a composição exata de uma família.
O critério de saída é o parentesco, não a conduta. A ordem não pergunta se alguém é justo; pergunta de quem é parente.
A palavra "justo" não aparece em Gênesis 19. Ela domina o capítulo 18 e desaparece por completo no seguinte.
A cláusula final é ilimitada. "Todos os que você tem na cidade" não fixa número, condição nem prazo.
Os mensageiros perguntam porque não sabem. O texto não tem constrangimento em mostrar enviados divinos pedindo informação.
É a segunda vez que eles falam no capítulo. Ficaram calados durante o cerco, a oferta das filhas e a agressão, e só falaram depois de agir.
O verbo "tirar" volta contra quem o recebeu. Ló é mandado fazer sair e, no versículo 16, é ele quem os mensageiros fazem sair, pela mão.
O capítulo dá duas razões para o resgate, e nenhuma é mérito. Compaixão do SENHOR, no versículo 16; lembrança de Abraão, no versículo 29.
6. Aspectos Filosóficos
Ser salvo por pertencer
O versículo instala um critério e não o discute, e vale examinar o critério em si.
A pergunta feita a Ló não é sobre conduta. É sobre vínculo. Quem sai da cidade é quem está ligado a ele — por sangue, por casamento, por dependência doméstica.
Isso é estranho ao ouvido moderno, formado na ideia de que cada pessoa responde por si e é avaliada por si. E é preciso reconhecer que a ideia moderna tem força: sem ela, não há responsabilidade pessoal, e sem responsabilidade pessoal não há justiça possível.
Mas convém reconhecer também o que a lógica do vínculo enxerga e a nossa não enxerga bem. Ninguém existe solto. As pessoas são carregadas pelas decisões de quem está perto delas — para o desastre e para a salvação —, e isso não é uma tese moral, é uma descrição.
Um filho não escolhe a casa em que nasce nem o lugar para onde ela se muda. A mulher de Ló não escolheu Sodoma; o texto do capítulo 13 mostra que a escolha foi dele, e foi por causa da qualidade das pastagens.
O incômodo, então, não é o de um sistema arcaico contra um sistema esclarecido. É o de duas descrições verdadeiras que não se encaixam.
Observo, e registro como observação minha, que o texto não tenta encaixá-las. Ele opera dentro da primeira sem enunciá-la, e deixa a segunda para o capítulo anterior, na boca de Abraão, em forma de pergunta.
O dado que não fecha, e o que se faz com ele
Este versículo é um bom laboratório para uma questão de método que ultrapassa a Bíblia.
Há uma lista. A lista não corresponde ao que o relato mostra. O que fazer?
Existem quatro atitudes, e cada uma tem um custo.
A primeira é reinterpretar o dado até que ele caiba: "filhos" quer dizer netos, ou quer dizer genros. Custa pouco quando a língua permite, e custa muito quando não permite, porque nesse caso o intérprete começa a comandar a palavra em vez de ouvi-la.
A segunda é preencher o entorno com uma história que faça o dado caber: Ló tinha filhos, eles não chegaram a tempo. Isso produz uma narrativa coerente e informação nova que ninguém tem.
A terceira é declarar o dado um erro e passar adiante. É rápida, e desiste antes de ter tentado.
A quarta é manter o dado à vista, expor as saídas com o que cada uma custa, e não fechar. Custa desconforto e é a única que preserva o problema para quem vier depois.
Não afirmo que a quarta seja sempre a certa. Afirmo que ela é a que este comentário adota, e que a escolha é uma escolha, não uma descoberta.
Quem some do relato
Vale isolar o ponto que mais perturba, porque ele é anterior a qualquer teologia.
Se Ló tinha filhos, eles desaparecem sem uma linha. Não há despedida, não há busca, não há morte narrada, não há luto.
A narrativa hebraica é econômica por natureza. Ela não descreve rostos, não informa idades, não conta o que os personagens sentem a menos que isso mova a história. Sob essa régua, o silêncio sobre os filhos é normal.
Só que a economia narrativa é uma explicação sobre o estilo, e não uma consolação sobre o fato. As pessoas que não entram no relato são exatamente as que ninguém conta.
Há uma observação geral disponível aqui, e é minha, não do texto: o número de pessoas que aparecem numa história é sempre menor que o número de pessoas envolvidas nela. Quem lê recebe a versão em que couberam os que interessavam ao enredo.
Isso vale para este capítulo e vale para qualquer relato humano de catástrofe. É um dado sobre a forma dos relatos, e não uma acusação a ninguém.
Avisar sem poder provar
A ordem entregue a Ló cria uma situação que a filosofia conhece bem e que a vida repete sem parar.
Ele recebe informação que não pode demonstrar, sobre um evento que ainda não ocorreu, e é encarregado de convencer pessoas que não têm motivo para acreditar nele.
Repare no que ele tem em mãos. Nenhuma prova. Nenhum sinal visível — a cegueira aconteceu do lado de fora, mas os que a sofreram estão tateando, não testemunhando. Nenhuma credencial: dois hóspedes que chegaram na véspera.
E o que ele tem contra si é considerável: a cidade em pé, a rotina em curso, e a própria reputação de forasteiro que se mete a juiz.
A estrutura do problema é conhecida. Quem avisa antes é indistinguível, do lado de fora, de quem se alarma à toa. A diferença só aparece depois — e depois já não serve para decidir.
Vale acrescentar o outro lado, sem o qual isso vira desculpa. Quem duvida também não é desonesto: agir sobre um aviso sem prova tem custo real, e a maioria dos avisos sem prova é falsa.
O texto não resolve o dilema. Ele apenas mostra o resultado: no versículo 14, o aviso é recebido como gracejo.
O que significa alguém ser tirado
Há um problema escondido no verbo do versículo, e ele vale por si.
"Fazer sair" é um verbo de dois lugares: quem faz e quem é feito sair. O segundo não decide.
Ló recebe a incumbência de ser o primeiro. No versículo 16, ele é o segundo — pego pela mão, levado, posto fora.
Isso levanta a questão do resgate contra a vontade, ou pelo menos sem a vontade. Salvar alguém que hesita é bom para ele e passa por cima dele.
Convém não decidir depressa. Há situações em que ninguém hesitaria em puxar o outro pelo braço, e há situações em que puxar alguém pelo braço é violência. A diferença costuma estar na urgência, no dano evitado e na capacidade de quem é puxado de avaliar a própria situação — e as três coisas são difíceis de medir de fora.
Registro que o texto não trata disso como problema. Ele narra o gesto, dá o motivo — a compaixão do SENHOR — e segue. Quem levanta a questão é o leitor, e sou eu quem a levanta aqui.
Duas justiças que não se somam
Fecho com a tensão que o par de capítulos produz e não resolve.
No capítulo 18, o critério é a presença de justos, e a discussão é aritmética e moral ao mesmo tempo: quantos bastam para que a cidade seja poupada?
No capítulo 19, o critério é o vínculo, e a discussão desaparece: tire os seus.
São duas ideias de justiça diferentes. A primeira avalia pessoas e decide sobre um coletivo. A segunda ignora a avaliação e opera por laço.
Vale notar que a segunda não é a negação da primeira: ela é de outra ordem. Não se diz que os parentes de Ló mereciam sair. Diz-se que eles deviam sair.
Diante disso há duas leituras razoáveis, e apresento as duas.
Uma: o capítulo 19 responde ao 18 mostrando que não havia justos, e que o que restou foi o resgate de alguns por misericórdia e por parentesco. O versículo 29 apoia essa leitura.
Outra: os dois capítulos vêm de tradições diferentes, com preocupações diferentes, e a costura entre eles é do redator, não do enredo. A tensão seria efeito da composição.
Não é possível decidir. E convém dizer que a segunda leitura, que muitos consideram desconfortável, não elimina a primeira: um texto pode ter sido costurado e, ainda assim, dizer algo coerente na forma em que chegou até nós.
7. Aplicações Práticas
Conte quem realmente está na sua casa
A pergunta dos mensageiros é de uma banalidade brutal: quem mais você tem aqui? Ló precisa responder de cabeça, no meio da noite, com a rua cheia de gente ferida do lado de fora. E a resposta dele, a julgar pelo que o capítulo mostra, foi incompleta.
Não se trata de moral da história. Trata-se de um dado sobre como as pessoas funcionam: a lista mental de quem depende de nós raramente coincide com a lista real, e a diferença só aparece quando é tarde.
Vale fazer o exercício frio, uma vez, fora de qualquer emergência. Quem, hoje, seria afetado por uma decisão sua de grande porte — mudar de cidade, de emprego, de país, de estado de saúde? Escreva os nomes. Quase todo mundo esquece alguém, e o esquecido costuma ser justamente quem tem menos voz para lembrar que existe.
O aviso que você dá não convence sozinho
Ló recebe informação sem prova e é encarregado de convencer os outros. No versículo 14, os genros acham que ele está brincando. Nada indica que ele tenha feito algo errado; a estrutura da situação é que era impossível.
Quem avisa antes do desastre não tem como se distinguir, no momento do aviso, de quem se alarma à toa. A confirmação chega depois — e depois já não decide nada.
A consequência prática é chata e é útil. Se você precisa que alguém aja com base em um aviso seu, o aviso sozinho quase nunca basta: é preciso mostrar o que se sabe, dizer como se sabe, admitir o que não se sabe, e dar um primeiro passo pequeno o bastante para que a pessoa possa dá-lo sem apostar tudo. E ainda assim ela pode não ir. Isso não significa que você tenha falhado.
Quem tem menos voz é quem some primeiro
Se Ló tinha filhos, eles desaparecem do relato sem uma linha. Não é possível decidir se existiram. O que é possível constatar é o padrão: numa narrativa apertada, quem não é decisivo para o enredo não é contado.
Fora dos livros, o mesmo padrão aparece em toda decisão tomada às pressas. Numa mudança de empresa, quem some da conversa é o terceirizado; numa mudança de casa, é o idoso que dependia da vizinhança; numa separação, é quem não é parte e nem por isso deixa de ser atingido.
A aplicação concreta é a de perguntar, antes de fechar qualquer decisão coletiva: quem está sendo afetado e não está nesta sala? A pergunta leva trinta segundos e muda o desenho da decisão com uma frequência que surpreende.
Ser salvo não é o mesmo que ter merecido
O texto não chama Ló de justo. Não diz que ele fez por merecer. Dá duas razões para o resgate — compaixão e a lembrança de Abraão — e nenhuma delas está na conduta dele.
Isso corta os dois lados, e é aí que interessa. Corta a leitura que faz de Ló um herói de fé, e corta também a que faz dele um oportunista que se deu bem. As duas leituras acrescentam ao texto o que o texto não deu.
Aplique isso à sua própria história, que é onde dói. Boa parte do que deu certo na vida de qualquer pessoa veio de circunstância, de nascimento, de alguém que intercedeu, de um encontro casual. Reconhecer isso não diminui o esforço que houve; apenas põe o esforço no tamanho real. E quem consegue medir esse tamanho fica, ao mesmo tempo, menos arrogante com quem não conseguiu e menos amargurado consigo mesmo quando não conseguir.
Cuidado com a explicação que fecha bonito demais
Quatro grandes leitores do texto propuseram quatro soluções diferentes para os filhos que não aparecem. Netos. Genros. Filhos que ficaram para trás. Fórmula fixa. Cada uma resolve uma parte e deixa resto.
Se quatro leitores desse porte não fecharam a conta, uma solução que fecha a conta inteira e sem sobra deve ser olhada com desconfiança, e não com alívio.
Vale como hábito geral de leitura, e não só de leitura da Bíblia. Quando uma explicação encaixa tudo, pergunte o que ela precisou supor para encaixar. Quase sempre há uma suposição escondida fazendo o trabalho pesado — e quase sempre ela é justamente a parte que ninguém pode verificar.
A obediência que se pede primeiro costuma ser prática
Não pedem a Ló que acredite, que ore, que se arrependa ou que compreenda. Pedem que ele tire gente de um perímetro. É uma ordem operacional, com verbo de ação e objeto definido.
Isso desmonta uma ideia comum de que a resposta certa a uma situação grave começa por um estado interior. No texto, começa por uma tarefa.
Na prática, isso significa que a pergunta útil diante de uma crise não é "como eu deveria me sentir a respeito disto?", e sim "qual é a próxima coisa que precisa ser feita, e por quem?". O estado interior costuma vir depois, e costuma vir melhor, quando há uma tarefa em curso. Vale inclusive quando a pessoa não está convencida de nada: fazer a coisa certa sem certeza é uma opção disponível, e o texto mostra Ló tentando exatamente isso no versículo seguinte.
Existe hora de aceitar ser puxado pelo braço
Ló é mandado tirar os outros e acaba tirado. O versículo 16 diz que ele demorava, e que os mensageiros pegaram pela mão dele, da mulher e das duas filhas.
Há duas maneiras de ler isso, e as duas são verdadeiras. Uma é o constrangimento de ser resgatado à força. A outra é o alívio de que alguém tenha feito o que a pessoa não conseguia fazer.
Traduzindo para o concreto: existem situações — de saúde, de dívida, de dependência, de um casamento que virou perigo — em que a pessoa sabe o que precisa ser feito e não consegue. Nessas horas, deixar que alguém marque a consulta, faça a ligação, entre no carro junto, não é fraqueza nem infantilidade. E, do outro lado, oferecer-se para isso é mais útil do que repetir o conselho que a pessoa já ouviu. O conselho ela tem; o que falta é a mão.
Reconheça quando o critério mudou no meio do caminho
No capítulo 18 discute-se quantos justos bastam para poupar uma cidade. No capítulo 19 a pergunta é de quem a pessoa é parente. Ninguém anuncia a troca. Ela simplesmente acontece, e o texto segue como se nada tivesse mudado.
Trocas silenciosas de critério são um dos mecanismos mais eficientes de confusão que existem, e ocorrem o tempo todo fora dos livros: numa promoção que era por desempenho e passou a ser por proximidade, numa seleção que era por prova e passou a ser por entrevista, numa discussão que começou sobre o que é verdade e terminou sobre quem tem razão.
O hábito que ajuda é simples e um pouco antipático: quando uma conversa não avança, pare e pergunte, em voz alta, qual é o critério que está sendo usado agora. Se ninguém souber responder, o critério mudou no meio — e é isso, e não o assunto, que precisa ser resolvido primeiro.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que a lista fala em filhos, se Ló não tem filhos no capítulo?
Essa é a dificuldade central do versículo, e ela é real. Gênesis 19 não mostra nenhum filho de Ló: não aparece, não fala, não é procurado, não é contado entre os que saem nem entre os que morrem. As soluções propostas são quatro — netos, genros, filhos que ficaram para trás, e fórmula fixa de parentesco — e nenhuma cobre todos os dados sem deixar resto.
Qual das quatro explicações é a mais forte?
Provavelmente a da fórmula. Listas de parentesco desse tipo são padrão na Bíblia e na literatura vizinha, servem para dizer "todos os teus" e não descrevem a composição exata de uma família. O fecho do versículo — "e todos os que você tem na cidade" — é justamente a cláusula típica dessas fórmulas. Ainda assim, ela explica a forma da lista e não apaga o conteúdo: a fórmula nomeia filhos, e o capítulo não os menciona nem para dizer que morreram.
O que Rashi diz sobre esses filhos?
Que são os filhos das filhas casadas de Ló, isto é, netos. Ele lê a pergunta inicial no sentido direto: quem mais você tem nesta cidade além da mulher e das filhas que estão em casa com você? Radak segue caminho parecido e acrescenta um argumento prático — filhos morariam na casa do pai; filhas casadas, não.
E Ibn Ezra?
Lê a lista como condicional ("se tens genro aqui") e entende "os teus filhos" como os genros, que valeriam como filhos. Sustenta ainda que Ló tinha duas outras filhas, mortas em Sodoma, e apoia-se no versículo 15, que manda levar "as suas duas filhas que aqui estão" — expressão que, para ele, pressupõe outras que não estavam.
E Ramban?
Ele leva o versículo ao pé da letra: Ló provavelmente tinha filhos adultos e casados. Falou primeiro aos genros, supondo que os filhos o atenderiam; quando os genros o trataram com escárnio, amanheceu, e os mensageiros só permitiram a saída de quem estava presente. A reconstrução é coerente e é reconstrução: o texto não diz nada disso.
Ló tinha duas filhas ou quatro?
Não é possível decidir. O versículo 8 fala de duas filhas que não conheceram homem e o versículo 15 manda levar duas filhas — o que sugere duas. Mas o versículo 14 chama de genros os homens ligados às filhas, e se esses homens já fossem casados, haveria outras. O Bereshit Rabbah tentou conciliar dizendo que eram quatro: duas comprometidas e duas casadas.
"Genros" está no plural no hebraico?
Não. Neste versículo a palavra está no singular e sem possessivo: "genro". As traduções portuguesas costumam pluralizar, e o dado se perde. A Septuaginta também traz o plural; a Vulgata mantém o singular, como o hebraico.
Os genros do versículo 14 eram casados ou noivos?
A expressão hebraica é um particípio que não marca tempo: "os tomadores das suas filhas". Cabe "os que tomaram" e "os que iam tomar". A Septuaginta e o Targum de Onquelos leem no passado; a Vulgata lê no futuro. A nossa tradução opta pelo futuro, porque a aritmética do capítulo fecha melhor com duas filhas apenas — e registro que é escolha, não constatação.
Por que os mensageiros precisam perguntar quem Ló tem na cidade?
Porque, no texto, eles não sabem. É o mesmo procedimento do capítulo anterior, em que o SENHOR anuncia que vai descer para ver se a situação corresponde ao clamor. As leituras correntes são três: linguagem que descreve Deus e os seus com gestos humanos; enviados que sabem apenas o que foram encarregados de saber; ou uma narrativa antiga que não compartilha as preocupações posteriores sobre onisciência. Não é possível decidir entre elas.
Por que o critério de saída é o parentesco, e não a conduta?
O texto não explica. Apenas opera assim: pergunta-se de quem a pessoa é parente, e não se ela é justa. Vale registrar que a palavra "justo", que domina o capítulo 18, não aparece uma única vez em Gênesis 19.
Então a barganha de Abraão fracassou?
Depende do que se entenda por fracasso, e o texto não usa a palavra. Abraão pediu que a cidade fosse poupada por dez justos; a cidade não foi poupada. O que aconteceu foi outra coisa: alguns parentes foram retirados. O versículo 29 oferece uma ligação — Deus se lembrou de Abraão e tirou Ló — mas essa frase é uma nota do narrador, colocada depois de tudo e com vocabulário diferente, e muitos estudiosos a atribuem a outra camada de composição.
Ló era justo?
Gênesis não diz. Não usa a palavra para ele, não avalia a conduta dele, não lhe atribui mérito. As duas razões que o capítulo dá para o resgate são a compaixão do SENHOR, no versículo 16, e a lembrança de Abraão, no versículo 29. A chamada de "justo Ló" está numa carta do Novo Testamento, escrita mais de mil e quinhentos anos depois; é leitura posterior, e vale como leitura.
Por que o narrador chama os visitantes de "homens" e não de anjos?
Ele usa "mensageiros" uma única vez, no versículo 1, e depois disso emprega a mesma palavra que a cidade emprega. É a mesma palavra usada no versículo 4 para a multidão que cercou a casa. O texto não descreve nada que os distinga fisicamente de dois viajantes: eles comem, andam, seguram e falam.
Por que eles ficam calados durante todo o cerco?
O texto não diz. O dado é que, entre a recusa do versículo 2 e a ordem deste versículo, eles não pronunciam uma palavra — nem quando a multidão os exige, nem quando o anfitrião oferece as duas filhas em lugar deles. Agem primeiro, falam depois. É procedimento raro na narrativa hebraica, que move quase tudo por diálogo.
"Tire-os deste lugar" é uma ordem religiosa ou prática?
Prática. O verbo está no imperativo e significa "faze sair". Não se pede a Ló que creia, que ore ou que se arrependa: pede-se que retire pessoas de um perímetro.
Há alguma ironia no fato de Ló acabar sendo tirado?
O verbo é o mesmo, na mesma forma causativa, e a repetição é do hebraico. No versículo 12 ele deve fazer sair; no versículo 16, com o dia raiando e ele demorando, são os mensageiros que o fazem sair, pela mão. O texto não comenta a inversão, não emite juízo e segue adiante. A observação é verificável; não é possível provar que a repetição seja intencional.
A ordem cobre quantas pessoas?
Não há número. A cláusula final — "todos os que você tem na cidade" — não fixa limite, condição nem prazo, e em hebraico cobre indistintamente pessoas, servos e bens. É a mesma fórmula usada quando Abrão recupera Ló no capítulo 14 e quando Raabe é retirada em Josué 6.
Esse tipo de resgate por família aparece em outros lugares da Bíblia?
Muitos. Noé entra na arca com a casa; Raabe negocia a vida do pai, da mãe, dos irmãos e de tudo o que é deles; a congregação é mandada afastar-se das tendas dos homens condenados; nos Atos, a promessa ao carcereiro é "tu e a tua casa". A unidade de salvação, nesses textos, é a casa, e não a pessoa.
E a mesma lógica não condena junto?
Condena, e o cânon registra isso sem disfarce: em Josué, a execução de um homem alcança os filhos, as filhas e o gado; em Números, a terra engole as casas dos revoltosos com mulheres e crianças. É o pensamento corporativo, e ele é coerente — se o vínculo salva sem perguntar pelo mérito, também condena sem perguntar pelo mérito. Deuteronômio, Jeremias e Ezequiel combateriam depois essa lógica, o que mostra o quanto ela era corrente.
Qual é a conclusão honesta sobre este versículo?
Que a lista não confere com a família mostrada e que o texto não explica; que as quatro saídas propostas são plausíveis e nenhuma é exigida pelos dados; que o critério anunciado é o vínculo, e não a conduta; e que o capítulo dá duas razões para o resgate, misericórdia e lembrança de um intercessor, sem mencionar mérito nenhum. Quem fecha isso com uma síntese limpa está pondo no texto o que ele não pôs.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 19:14 — Então saiu Ló, e falou a seus genros, os que haviam de se casar com suas filhas, e lhes disse: Levantai-vos, saí deste lugar; porque o SENHOR vai destruir esta cidade. Mas pareceu a seus genros como que se ridicularizava.
A execução imediata da ordem, e a primeira parte da lista a ser testada. De toda a enumeração deste versículo, só os genros são efetivamente procurados — e a resposta deles é o riso.
Gênesis 19:15 — E ao raiar a alva, os anjos davam pressa a Ló, dizendo: Levanta-te, toma tua mulher, e teus dois filhas que se acham aqui, para que não pereças no castigo da cidade.
A lista encolhida ao amanhecer: uma mulher e duas filhas. A expressão "que se acham aqui" é o apoio de Ibn Ezra para sustentar que havia outras filhas em outro lugar.
Gênesis 19:16 — E demorando-se ele, os homens pegaram por sua mão, e pela mão de sua mulher, e pelas mãos de suas duas filhas segundo a misericórdia do SENHOR para com ele; e o tiraram, e o puseram fora da cidade.
O verbo deste versículo aplicado a quem o recebeu. Ló deveria fazer sair; é ele quem é feito sair. E a razão dada não é mérito, é compaixão.
Gênesis 19:9 — E eles responderam: Sai daí: e acrescentaram: Veio este aqui para habitar como um estrangeiro, e haverá de levantar-se como juiz? Agora te faremos mais mal que a eles. E faziam grande violência ao homem, a Ló, e se aproximaram para romper as portas.
A situação jurídica de Ló dita pela própria cidade. É a condição de residente estrangeiro que explica por que a família dele está espalhada em casas locais por casamento.
Gênesis 18:23 — E aproximou-se Abraão e disse: Destruirás também ao justo com o ímpio?
A pergunta que abre a barganha e fixa o critério do capítulo anterior. Compare a palavra que ela usa com a que este versículo usa: lá, "justo"; aqui, "genros, filhos, filhas".
Gênesis 18:32 — E voltou a dizer: Não se ire agora meu Senhor, se falar somente uma vez: talvez se achem ali dez. Não a destruirei, respondeu, por causa dos dez.
O último degrau da negociação. Dez justos poupariam a cidade inteira. O que se apresenta em Sodoma não é uma lista de justos, e o texto não explica a mudança de critério.
Gênesis 19:29 — Assim foi que, quando destruiu Deus as cidades da planície, lembrou-se Deus de Abraão, e enviou fora a Ló do meio da destruição, ao assolar as cidades onde Ló estava.
A única frase do capítulo que liga o resgate à intercessão. É nota do narrador, com vocabulário próprio, e muitos estudiosos a atribuem a outra camada de composição — o que não a torna falsa, e torna arriscado usá-la como chave de tudo.
Gênesis 7:1 — E o SENHOR disse a Noé: Entra tu e toda tua casa na arca porque a ti vi justo diante de mim nesta geração.
O paralelo mais próximo, e a diferença decisiva. Ali a casa entra pela porta que o mérito de um abriu, e o texto nomeia o mérito. Aqui, ninguém é chamado de justo.
Gênesis 6:18 — Mas estabelecerei meu pacto contigo, e entrarás na arca tu, e teus filhos e tua mulher, e as mulheres de teus filhos contigo.
A mesma forma de lista: as categorias de parentesco enumeradas para dizer "a casa inteira". É esse molde que sustenta a leitura de que a lista deste versículo é fórmula, e não inventário.
Josué 2:13 — E que salvareis a vida a meu pai e a minha mãe, e a meus irmãos e irmãs, e a todo o que for seu; e que livrareis nossas vidas da morte.
A negociação de Raabe, com a mesma estrutura: categorias de parentesco mais a cláusula englobante final. Note que quem enumera, ali, é a pessoa em risco, e não o mensageiro.
Josué 6:23 — E os rapazes espias entraram, e tiraram a Raabe, e a seu pai, e a sua mãe, e a seus irmãos, e todo o que era seu; e também tiraram a toda sua parentela, e puseram-nos fora do acampamento de Israel.
A execução do acordo, e o mesmo verbo de "fazer sair" aplicado a uma casa inteira antes da destruição de uma cidade. O paralelo estrutural com Gênesis 19 é notável.
Números 16:26 — E ele falou à congregação, dizendo: Apartai-vos agora das tendas destes ímpios homens, e não toqueis nenhuma coisa sua, porque não pereçais em todos os seus pecados.
A retirada preventiva antes de um juízo, com o mesmo raciocínio de perímetro: quem estiver perto é alcançado. O relato seguinte mostra que as casas foram engolidas com as famílias.
Gênesis 14:16 — E recuperou todos os bens, e também a Ló seu irmão e sua riqueza, e também as mulheres e gente.
Um resgate anterior do mesmo homem, também sem mérito nomeado, também por vínculo com Abraão. A fórmula "e tudo o que era dele" cobre ali, como aqui, pessoas e bens de uma vez.
Gênesis 12:1 — O SENHOR disse a Abrão: "Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, para terra que eu te mostrarei.
A ordem que abre o ciclo de Abraão, e o contraste exato deste versículo. Ali se manda deixar a parentela para trás; aqui, levá-la junto.
Gênesis 45:10 — E habitarás na terra de Gósen, e estarás perto de mim, tu e teus filhos, e os filhos de teus filhos, teus gados e tuas vacas, e tudo o que tens.
Mais um exemplo do molde, agora com os netos explicitados ao lado dos filhos. Mostra que a língua tinha como distinguir as gerações quando queria — o que enfraquece um pouco a leitura de "filhos" como netos.
Rute 4:1 — E Boaz subiu à porta da cidade e sentou-se ali: e eis que passava aquele parente do qual havia Boaz falado, e disse-lhe: Ei, fulano, vem aqui e senta-te. E ele veio, e sentou-se.
O que é a porta de uma cidade: o lugar onde se resolve o direito, diante de testemunhas. É ali que Ló está sentado no versículo 1 deste capítulo.
Deuteronômio 22:24 — Então os tirareis a ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis com pedras, e morrerão; a moça porque não gritou na cidade, e o homem porque humilhou à mulher de seu próximo: assim tirarás o mal do meio de ti.
A prova legal de que a moça comprometida era tratada como casada: o caso é julgado como adultério. É esse estatuto que torna ambígua a palavra "genro".
2 Pedro 2:7 — E livrou ao justo Ló, que estava cansado do corrupto modo de viver dos maus.
A única vez em que Ló é chamado de justo em toda a Bíblia. O texto é mais de mil e quinhentos anos posterior ao Gênesis e reflete uma tradição de leitura já formada; registrá-lo é honesto, e usá-lo para interpretar o Gênesis é outra coisa.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então os homens disseram a Ló: “Quem mais você tem aqui? Genros, filhos, filhas, e todos os que você tem na cidade, tire-os deste lugar,
Texto hebraico
וַיֹּאמְרוּ הָאֲנָשִׁים אֶל־לוֹט עֹד מִי־לְךָ פֹה חָתָן וּבָנֶיךָ וּבְנֹתֶיךָ וְכֹל אֲשֶׁר־לְךָ בָּעִיר הוֹצֵא מִן־הַמָּקוֹם
Transliteração
vayyomeru ha'anashim el-Lot od mi-lecha foh chatan uvanêcha uvnotêcha vechol asher-lecha ba'ir hotse min-hammaqom
Palavra por palavra
וַיֹּאמְרוּ (vayyomeru) — "e disseram"
Verbo amar, dizer, na forma narrativa que faz a história andar, terceira pessoa masculina do plural.
O plural é o primeiro dado do versículo. Quem fala são dois, e falam juntos. Isso importará no versículo seguinte, em que o "nós" reaparece com força.
Vale notar que esta é a segunda fala dos visitantes em todo o capítulo. A primeira, no versículo 2, foi uma recusa curta. Entre uma e outra houve o cerco, a oferta das filhas e a cegueira — e nenhuma palavra deles.
הָאֲנָשִׁים (ha-anashim) — "os homens"
Plural de ish, homem, com artigo definido.
O versículo 1 os chamara de malakhim, mensageiros — a palavra que traduzimos por anjos e que designa igualmente o emissário humano de um rei. Depois disso, o narrador não a usa mais neste capítulo.
Repare que é a mesma palavra que o versículo 4 aplica à multidão de Sodoma que cercou a casa. O hebraico não distingue os dois grupos pelo substantivo, e a tradução portuguesa que escreve "os anjos" aqui apaga o dado.
Não se deve concluir daí mais do que cabe. A palavra descreve o que se vê, e o que se via eram dois homens. O texto não descreve asas, luz nem qualquer traço sobrenatural.
אֶל־לוֹט (el-Lot) — "a Ló"
A preposição el marca direção: a fala vai para Ló, e só para ele.
Vale registrar quem não é interlocutor. A mulher está dentro de casa e não é dirigida. As filhas, tampouco. A ordem passa inteira pelo chefe da casa, e é ele quem deverá transmiti-la.
Radak observou algo nessa linha ao comentar o versículo 14: o texto não registra Ló falando com as filhas, porque se esperava que as mulheres seguissem a decisão dos maridos. É descrição do funcionamento social daquele mundo, e registrá-la não é aprová-la.
עֹד (od) — "ainda", "mais"
Advérbio de continuidade e de acréscimo. Soma ao que já está posto.
Aqui ele indica que uma parte da família já está contada — a que está dentro de casa — e que a pergunta busca o restante.
O comentário rabínico propôs uma segunda leitura, temporal: depois de terem cometido uma vilania dessas, você ainda tem boca para defendê-los? Rashi registra as duas. A primeira é muito mais provável; a segunda mostra o que os leitores antigos ouviam na cena.
מִי־לְךָ פֹה (mi-lecha foh) — "quem para ti aqui?"
O interrogativo mi, "quem"; a preposição de posse com sufixo de segunda pessoa; e o advérbio de lugar.
Não há verbo. O hebraico dispensa o verbo "ter" e o verbo "haver" nesse tipo de frase, construindo a posse com a preposição.
O "aqui" delimita o perímetro: nesta cidade. Não se pergunta pela parentela de Ló em geral — Abraão, afinal, é tio dele e está a alguma distância —, e sim por quem está dentro da área que vai ser destruída.
חָתָן (chatan) — "genro"
Substantivo masculino singular, sem sufixo possessivo. A maioria das traduções portuguesas escreve "genros"; o hebraico, não.
A raiz designa o vínculo criado pelo casamento entre duas famílias. Dela vêm o termo para genro, o termo para sogro e o verbo que significa aparentar-se por casamento.
O campo é largo: nos Salmos a palavra designa o noivo que sai do seu quarto nupcial; em Isaías, o noivo que se enfeita; nos Juízes, o marido em relação ao pai da moça. Em Êxodo, uma forma da mesma raiz aparece na frase enigmática de Zípora, "esposo de sangue".
Daí o problema: chatan não distingue o genro casado do genro apenas prometido. A palavra cobre os dois, e a decisão fica com o contexto — que é justamente o que está em disputa neste capítulo.
וּבָנֶיךָ (uvanêcha) — "e os teus filhos"
Substantivo ben no plural construto, com sufixo de segunda pessoa masculina.
É a palavra que cria a dificuldade do versículo, porque Gênesis 19 não mostra filho nenhum de Ló.
Convém dizer o que a língua permite. Ben designa descendente em geral, e não apenas o filho imediato: "filhos de Israel" quer dizer descendentes de Jacó a muitas gerações. Rashi e Radak aproveitam essa elasticidade e leem aqui "netos", filhos das filhas casadas.
Convém dizer também o que trabalha contra essa leitura. Quando o Gênesis quer distinguir gerações, ele sabe fazê-lo: José manda chamar o pai com "os teus filhos e os filhos dos teus filhos", explicitando os dois níveis. Aqui não há essa explicitação.
וּבְנֹתֶיךָ (uvnotêcha) — "e as tuas filhas"
O correspondente feminino, também no plural com possessivo.
Este termo é o único da lista que o capítulo confirma sem discussão: há duas filhas, mencionadas no versículo 8 e retiradas no versículo 15.
A discussão que sobra é apenas de número. Se os homens do versículo 14 já eram casados com filhas de Ló, então havia outras — e é isso que Ibn Ezra sustenta, apoiando-se na expressão "as tuas duas filhas que aqui estão".
וְכֹל אֲשֶׁר־לְךָ בָּעִיר (vechol asher-lecha ba'ir) — "e tudo o que é teu na cidade"
Kol, totalidade; o relativo asher; a preposição de posse; e "na cidade".
A expressão é a cláusula de encerramento típica das fórmulas de casa, e em hebraico ela cobre indistintamente pessoas, servos, agregados e bens. O capítulo 14 usa a mesma construção ao contar o resgate de Ló, e Josué 6 a usa ao contar o de Raabe.
Duas observações. A primeira: não há número nem condição — a ordem abrange quem quer que esteja ligado a Ló naquele perímetro. A segunda: não há qualquer menção a conduta. Não se pergunta se essas pessoas são justas.
הוֹצֵא (hotse) — "faze sair"
Imperativo masculino singular da forma causativa da raiz yatsa, sair. Literalmente: "causa a saída".
É um dos verbos mais carregados do Antigo Testamento. A fórmula que abre os dez mandamentos identifica o SENHOR como aquele que fez sair Israel do Egito, e a mesma forma se repete dezenas de vezes com esse sentido.
Aqui, quem recebe o imperativo é Ló. A tarefa que lhe cabe não é crer nem orar: é retirar pessoas de uma área.
E há a repetição que o capítulo produz quatro versículos adiante. No versículo 16, com o dia raiando e Ló demorando, o texto usa a mesma forma para dizer que os mensageiros o fizeram sair. Ele deveria tirar; acaba tirado. O texto não comenta a inversão.
מִן־הַמָּקוֹם (min-hammaqom) — "deste lugar"
A preposição de origem e o substantivo maqom, lugar, com artigo.
A palavra volta quatro vezes em três versículos, sempre com o mesmo referente: a cidade condenada. É a maneira do texto de nomear Sodoma sem dizer o nome dela nesta parte da cena.
Maqom é também, no Gênesis, a palavra do lugar sagrado: é o "lugar" que Abraão avista de longe no monte do sacrifício, e o "lugar" em que Jacó acorda dizendo que ali estava Deus e que ele não sabia. Registro o contraste como observação sobre o vocabulário, disponível a quem lê o livro inteiro, e não como afirmação sobre a intenção do autor: a palavra é comum demais para carregar peso sozinha.
Nota textual — o singular do hebraico e o plural das versões
O texto massorético, que é a forma padronizada do hebraico fixada por copistas entre os séculos sétimo e décimo, traz chatan no singular e sem possessivo.
A Septuaginta traduz por gambroi, no plural, e ainda amplia o fecho da frase: "ou se tens algum outro na cidade". A Vulgata latina mantém o singular — generum — e conserva a lista curta.
O Targum de Onquelos, a tradução aramaica lida na sinagoga, mantém o singular chatna. Já o Targum Pseudo-Jônatas, mais tardio e mais expansivo, abre a lista ainda mais, acrescentando "parente ou irmão".
Duas consequências, e vale enunciar as duas. A primeira: a divergência é de tradução, não de manuscrito hebraico — não há evidência de que o hebraico tenha circulado com o plural. A segunda: a tendência das versões antigas é ampliar a lista, e não reduzi-la. Elas achavam a enumeração curta demais, e não larga demais.
Isso é interessante porque contraria o que se esperaria. Se os tradutores antigos sentissem o desconforto que sentimos — uma lista maior do que a família mostrada —, o movimento natural seria encurtá-la. Fizeram o contrário. Registro o dado; não construo doutrina sobre ele.
Nota teológica — o que a lista substitui
Convém pôr lado a lado, sem comentário ornamental, o vocabulário dos dois capítulos.
No capítulo 18, a palavra que decide é tsaddiq, justo. Ela aparece repetidamente na boca de Abraão e na resposta que ele recebe, e a barganha inteira é sobre quantos justos bastam.
Em Gênesis 19, essa palavra não aparece uma única vez. Nem para Ló, nem para ninguém.
O que a substitui é o vocabulário do parentesco: genro, filhos, filhas, e tudo o que é teu.
Há três maneiras de tratar essa troca, e nenhuma é obrigatória.
A primeira: a cidade não tinha dez justos, o critério do capítulo 18 não pôde ser aplicado, e o que restou foi o resgate de alguns por outra via. É a leitura mais comum, e ela supõe uma resposta que o texto não dá.
A segunda: o resgate é efeito da intercessão de Abraão, como diz o versículo 29, e a via do efeito é o laço de Ló com o intercessor. É apoiada por uma frase explícita, e essa frase é uma nota tardia do narrador.
A terceira: os dois capítulos vêm de tradições distintas e a costura ficou aparente. Explica bem os dados brutos e paga o preço de negar a unidade da narrativa, além de depender de uma delimitação de camadas que é discutida entre os próprios especialistas.
Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o Gênesis não atribui mérito a Ló em lugar nenhum, e que as duas razões que o próprio capítulo oferece para o resgate — a compaixão do SENHOR e a lembrança de Abraão — são ambas externas à conduta dele.
11. Conclusão
Um homem é acordado no meio da noite e lhe pedem o nome dos seus. A frase que ele ouve enumera categorias — genro, filhos, filhas — e termina com uma cláusula que abre tudo: e todos os que você tem na cidade. Do lado de fora, a rua está cheia de gente cega tateando à procura da porta. Do lado de dentro, dois hóspedes que não haviam dito uma palavra durante o cerco começam a dar ordens, sem apresentar credencial nenhuma. É esse o tamanho da cena, e ela cabe em uma linha e meia de hebraico.
A dificuldade que o versículo entrega ao leitor não exige erudição para ser vista: basta continuar lendo. Dois versículos adiante, Ló procura genros. No seguinte, os mensageiros mandam levar a mulher e duas filhas. Filhos, em Gênesis 19, não existem — e não é que morram fora de cena, é que ninguém os menciona, ninguém os procura, ninguém pergunta por eles. Rashi e Radak leram ali netos. Ibn Ezra leu genros, e sustentou que havia duas outras filhas mortas na cidade. Ramban preferiu tomar a palavra ao pé da letra e reconstruir uma cena em que filhos adultos existiam e não chegaram a tempo. A exegese moderna prefere ver na enumeração uma fórmula fixa, dessas que dizem "toda a sua casa" sem descrever família nenhuma — e essa é provavelmente a explicação mais econômica, ainda que ela explique o formato da lista sem apagar o conteúdo dela. Quatro leitores de primeira ordem, quatro saídas, e resto em todas.
Há uma segunda coisa no versículo, e ela é maior que a primeira, embora chame menos atenção. Ninguém pergunta pela conduta de ninguém. O passaporte para fora de Sodoma é o vínculo com Ló, e nada além disso. Vale medir a distância que separa essa frase do capítulo que a precede: lá, Abraão e o SENHOR passaram trinta e poucos versículos negociando um número de justos, e a palavra foi repetida até ficar gasta. Aqui, ela some. Não reaparece em nenhum ponto do capítulo 19, nem aplicada a Ló, nem a mais ninguém. O que o texto oferece, no lugar dela, são duas razões que não têm nada a ver com mérito: a compaixão do SENHOR, no versículo 16, e a lembrança de Abraão, no versículo 29. Quem quiser chamar Ló de justo terá de ir buscar a palavra numa carta escrita mil e quinhentos anos depois — e terá de admitir que está importando vocabulário de fora.
Esse modo de operar não é exclusivo desta cena. Atravessa a Bíblia hebraica de ponta a ponta, e a unidade que ela reconhece não é a pessoa: é a casa. Noé embarca com a família inteira, e o texto tem o cuidado de nomear o mérito de um só. Raabe negocia a vida do pai, da mãe, dos irmãos e de tudo o que é deles. O carcereiro dos Atos recebe uma promessa que inclui a casa. Só que a mesma engrenagem gira nos dois sentidos, e o cânon não esconde isso: em Josué, o roubo de um homem leva à execução dos filhos e das filhas; em Números, a terra engole tendas inteiras. Se o laço salva sem examinar mérito, ele também condena sem examinar mérito. Que Deuteronômio, Jeremias e Ezequiel tenham precisado atacar o provérbio dos pais que comeram uvas verdes mostra o quanto essa maneira de pensar era corrente — e que o Gênesis a pratica sem discuti-la em nenhum momento é um dado sobre o texto, não sobre quem o lê hoje.
Fica ainda um terceiro fio, e é o mais discreto dos três. O verbo que os mensageiros põem na boca de Ló é o mesmo verbo que, quatro versículos adiante, descreve o que fazem com ele. No versículo 12, ele deve fazer sair; no versículo 16, com o dia nascendo e ele parado, são eles que o pegam pela mão e o fazem sair. A repetição está no hebraico e é verificável por qualquer pessoa com uma concordância nas mãos. O que não é verificável é a intenção: o texto não sublinha a inversão, não a comenta, não emite juízo sobre ela, e segue para o versículo seguinte como se nada tivesse acontecido. Quem quiser ler ali uma ironia deliberada tem material; quem quiser ler apenas o uso natural do verbo mais óbvio para a ação também tem. Não é possível decidir, e as duas leituras convivem sem se anular.
Resta dizer por que vale a pena manter tudo isso aberto em vez de escolher a solução mais confortável e ir embora. A leitura corrente deste capítulo tende a passar por cima do versículo 12 como se ele fosse apenas logística — os anjos avisam, Ló corre atrás da família, a história anda. Mas é exatamente aqui que o capítulo troca de régua sem avisar, é aqui que uma lista de parentes ocupa o lugar de uma contagem de justos, e é aqui que aparece, escrito, o nome de pessoas que a narrativa nunca mais mencionará. Nomear isso não é atacar o texto nem defendê-lo. É recusar-se a preencher com invenção o espaço que o próprio relato deixou vazio — e reconhecer que o vazio, neste caso, é a informação mais honesta que o versículo tem a dar.













