porque vamos destruir este lugar; pois o clamor contra ele se tornou grande diante do SENHOR, e o SENHOR nos enviou para destruí-lo.”
1. Introdução
Os mensageiros explicam por que Ló deve tirar a família dali.
E dizem, na primeira pessoa do plural: nós vamos destruir este lugar.
Onze versículos adiante, o texto dirá que foi o SENHOR quem fez chover fogo. Os dois enunciados estão no mesmo capítulo, e nenhum é corrigido.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Nós vamos destruir"
Os enviados atribuem a si a destruição. O verbo está na primeira pessoa do plural.
"O clamor"
A mesma palavra de 18:20-21. O capítulo anterior disse que ele havia subido; aqui, que se tornou grande.
"Diante do SENHOR"
O clamor tem destinatário. Não é ruído: é queixa que chegou a alguém.
"O SENHOR nos enviou"
Aqui os mensageiros confirmam o que a palavra usada em 19:1 já indicava — são enviados.
A tensão
Eles dizem que destroem; 19:24 dirá que o SENHOR fez chover. O texto não resolve.
O que não está dito
Nenhum crime é especificado. O texto fala em clamor, e clamor é o grito de quem sofre.
3. Análise Teológica do Versículo
"porque vamos destruir este lugar"
Convém começar pelo sujeito da frase, porque ele é o dado mais denso do versículo e passa quase sempre despercebido.
O verbo está na primeira pessoa do plural. São os mensageiros que dizem: nós vamos destruir.
Compare-se com o que o mesmo capítulo dirá onze versículos adiante: "então o SENHOR fez chover sobre Sodoma e sobre Gomorra enxofre e fogo, da parte do SENHOR, desde os céus".
Ali o sujeito é o SENHOR. Aqui, os enviados.
Convém apresentar as leituras possíveis, porque o texto não escolhe entre elas.
A primeira, e a mais corrente: o enviado fala pelo mandante. Um emissário que anuncia "vamos executar a sentença" não está reivindicando autoria própria; está falando na qualidade em que veio. A frase seguinte do próprio versículo — "o SENHOR nos enviou" — sustenta essa leitura, porque situa a autoridade fora deles.
A segunda: o texto conserva, aqui, uma camada em que os agentes eram de fato os executores, e o versículo 24 pertence a outra formulação. A alternância entre "os homens", "os mensageiros" e "o SENHOR" ao longo dos capítulos 18 e 19 é bastante irregular, e essa irregularidade tem sido lida como marca de composição.
Não é possível decidir. E vale registrar que o próprio texto não parece incomodado: põe as duas formulações no mesmo capítulo e não harmoniza nenhuma delas.
Vale reter também a expressão "este lugar" — ha-maqom ha-zeh. Não se diz "esta cidade". O termo é mais amplo, e reaparecerá no versículo 14 e no 27.
"pois o clamor contra ele se tornou grande diante do SENHOR"
Aqui o versículo retoma, palavra por palavra, o que foi dito no capítulo anterior — e convém expor esse encadeamento, porque ele é a espinha dorsal da narrativa.
Em 18:20 o SENHOR disse: "o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito".
Em 18:21: "descerei agora e verei se com efeito têm praticado segundo o seu clamor".
E aqui, depois da noite: o clamor "se tornou grande".
Ou seja: o capítulo 18 anunciou uma verificação, e este versículo é o veredito dela. O que os enviados viram — a cidade inteira cercando a casa, do menor ao maior — confirmou o que o clamor dizia.
Convém agora explicar a palavra, porque ela carrega mais do que a tradução sugere.
O termo hebraico traduzido por clamor designa o grito de socorro de quem sofre injustiça. É a palavra do escravo espancado, da viúva lesada, do órfão despojado.
É a mesma palavra que o Êxodo usa para o gemido de Israel no Egito. É a palavra que aparece na lei sobre o estrangeiro, a viúva e o órfão: se os afligires e eles clamarem a mim, eu certamente ouvirei o seu clamor.
Vale reter o que isso implica, e é implicação forte.
O texto não diz que Deus se ofendeu com Sodoma. Diz que alguém gritou, e que o grito chegou até ele.
Há vítimas nesta história antes do versículo 4. O texto não as nomeia, não as descreve e não conta o que lhes aconteceu. Mas a palavra que escolhe pressupõe que existam.
Sobre o pecado que o texto especifica — e o que ele não especifica
Convém tratar isso de frente, porque a pregação corrente resolve a questão com uma rapidez que o texto não autoriza.
O que Gênesis 18 e 19 dizem é: houve clamor, os enviados vieram verificar, e a cidade inteira cercou a casa exigindo os hóspedes. É muito, e é grave.
O que Gênesis 18 e 19 não fazem é enunciar uma lista de crimes.
Quem faz isso é Ezequiel, e a lista dele merece ser citada inteira, porque quase nunca é: "eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado. E se ensoberbeceram, e fizeram abominação diante de mim; por isso as tirei dali, como vi isso".
Soberba. Fartura. Ociosidade despreocupada. E não fortalecer a mão do pobre.
Vale ser preciso sobre o que isso resolve e o que não resolve.
Não apaga o que Gênesis 19 narra. O capítulo narra o que narra, e o narrado é violento.
Mas mostra que a leitura interna da própria Bíblia sobre o pecado de Sodoma não se reduziu ao episódio da noite. E mostra por que a palavra escolhida aqui é clamor: uma cidade farta e tranquila que não fortalece a mão do pobre produz exatamente esse tipo de grito.
Registro os dois textos lado a lado, sem escolher entre eles e sem fundir um no outro. Ambos estão no cânon, e ambos falam da mesma cidade.
E vale notar o que a acusação de Ezequiel tem de incômodo: ela não descreve uma cidade monstruosa. Descreve uma cidade próspera.
"e o SENHOR nos enviou para destruí-lo"
Este é o ponto em que o versículo confirma a palavra usada na abertura do capítulo.
Em 19:1 o texto os chamou de malakhim — mensageiros, enviados. Aqui eles se descrevem exatamente assim: o SENHOR nos enviou.
O verbo empregado é o mesmo de que deriva o substantivo. Não há teologia acrescentada: a palavra que os designa é a palavra que descreve o que fazem.
Convém observar, porém, o que essa frase faz com a tensão do início do versículo.
Eles dizem "vamos destruir" e dizem "o SENHOR nos enviou para destruí-lo", nas duas metades da mesma sentença.
A segunda metade situa a autoridade fora deles. A primeira coloca a ação neles.
Uma frase, dois sujeitos, e o narrador segue sem comentar.
A pergunta que o capítulo anterior deixou pendente
Convém fechar apontando para trás, porque este versículo responde — sem citar — a negociação de 18:23-33.
Abraão perguntou se o Juiz de toda a terra varreria o justo com o ímpio. Desceu de cinquenta a dez. E parou em dez.
Aqui a resposta chega em forma de fato, e não de argumento: a destruição vai acontecer.
Vale ler o que isso implica sobre o que ficou implícito. Se a promessa de 18:32 foi "não a destruirei, por amor dos dez", e a cidade vai ser destruída, então não havia dez.
O texto não diz isso. Não faz a conta, não comenta a barganha, não menciona Abraão. A inferência é do leitor.
Mas o versículo 29 voltará a Abraão explicitamente, e dirá que Deus se lembrou dele. O fio não se rompeu; só ficou submerso por dezesseis versículos.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os dois mensageiros — anunciam a destruição na primeira pessoa e se declaram enviados.
Ló — o destinatário do aviso, encarregado de tirar os seus dali.
O SENHOR — quem enviou, e diante de quem o clamor se tornou grande.
"Este lugar" — ha-maqom, termo mais amplo que "cidade"; reaparece nos versículos 14 e 27.
O clamor — o grito de socorro de quem sofre injustiça, já mencionado em 18:20-21.
5. Pontos de Ensino
O verbo está na primeira pessoa do plural. São os enviados que dizem: nós vamos destruir.
Mas 19:24 dirá que o SENHOR fez chover fogo. Os dois enunciados convivem no mesmo capítulo.
O texto não harmoniza. E não parece incomodado com isso.
"Este lugar", não "esta cidade". O termo é mais amplo e volta duas vezes.
O clamor é o mesmo de 18:20-21. Este versículo é o veredito da verificação anunciada lá.
Clamor é grito de quem sofre injustiça. A mesma palavra do gemido de Israel no Egito.
Isso pressupõe vítimas. O texto não as nomeia, mas a palavra que escolhe as supõe.
Gênesis não lista os crimes. Quem lista é Ezequiel: soberba, fartura, ociosidade, e não fortalecer a mão do pobre.
A destruição vai acontecer. Logo não havia dez — mas essa conta o texto não faz.
6. Aspectos Filosóficos
Quem destrói
Convém abrir pelo sujeito da oração, porque nele está o peso do versículo e ele costuma escapar na leitura corrida.
A forma verbal é de primeira pessoa do plural: são os próprios mensageiros que anunciam a ruína como obra sua.
Onze versículos adiante, contudo, o relato dirá que foi o SENHOR quem fez chover enxofre e fogo desde os céus. Ali o agente é outro.
Duas explicações disputam o lugar, e o narrador não arbitra.
Pela primeira, um emissário fala na qualidade em que veio: quem anuncia a execução de uma sentença não reivindica autoria dela. A própria continuação da frase ampara essa leitura, ao pôr a autoridade fora dos que falam.
Pela segunda, o texto guarda aqui um estrato em que os agentes eram efetivamente os executores, e o versículo 24 provém de outra formulação. A oscilação entre "os homens", "os mensageiros" e "o SENHOR" ao longo dos dois capítulos é bastante irregular, e essa irregularidade tem sido lida como sinal de composição.
Não é possível decidir. E o mais notável é que o texto não demonstra desconforto: acomoda as duas formulações no mesmo capítulo sem alisar nenhuma.
Reter também a expressão empregada — não "esta cidade", mas "este lugar", termo mais largo, que retornará nos versículos 14 e 27.
O grito que subiu
A segunda metade da frase retoma, quase termo a termo, o que fora dito antes — e esse encadeamento é a espinha da narrativa.
Em 18:20 o SENHOR declarou que o clamor de Sodoma e Gomorra se havia multiplicado; em 18:21 anunciou que desceria para ver se de fato haviam procedido segundo esse clamor. Aqui, passada a noite, vem o resultado: tornou-se grande.
O capítulo anterior anunciou uma verificação; este registra o seu veredito. O que os enviados presenciaram — a cidade inteira em volta da casa, do menor ao maior — confirmou a denúncia.
Resta explicar a palavra, que carrega mais do que a tradução deixa ver. O termo hebraico nomeia o grito de socorro de quem padece injustiça: é a voz do escravo espancado, da viúva lesada, do órfão despojado. É o mesmo vocábulo do gemido de Israel sob o Egito, e o mesmo da lei que protege o estrangeiro, a viúva e o órfão — se os afligires e clamarem a mim, ouvirei o seu clamor.
A implicação é forte. Não se diz que Deus se ofendeu com aquela cidade; diz-se que alguém gritou, e que o grito chegou. Existem vítimas nesta história antes do versículo 4 — anônimas, não descritas, jamais contadas —, mas a palavra escolhida as pressupõe.
O crime que o Gênesis não enumera
Convém enfrentar isto, porque a pregação corrente encerra a questão com pressa que o texto não concede.
Os capítulos 18 e 19 afirmam que houve clamor, que enviados vieram apurar e que a população inteira cercou a casa exigindo os hóspedes. É muito, e é grave. O que eles não fazem é arrolar crimes.
Quem arrola é Ezequiel, e sua lista raramente é citada por inteiro: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade — e nunca fortaleceram a mão do pobre e do necessitado; ensoberbeceram-se e cometeram abominação, e por isso foram removidas.
Cabe precisar o alcance. Isso não anula o que o Gênesis narra, e o narrado é violento. Mostra, porém, que a própria Escritura, ao voltar ao assunto, não reduziu a culpa daquela cidade ao episódio da noite. E esclarece a escolha do vocábulo aqui: uma cidade farta e tranquila que não socorre o pobre produz precisamente esse tipo de grito.
Deixo os dois textos lado a lado, sem escolher entre eles e sem fundir um no outro — ambos pertencem ao cânon e falam da mesma cidade. E note-se o que a acusação profética tem de perturbador: não retrata uma cidade monstruosa, retrata uma cidade próspera.
Enviados, e eles mesmos o dizem
O fecho da sentença confirma a designação da abertura do capítulo. Em 19:1 o narrador os chamou pelo termo que significa mensageiro; aqui eles se descrevem com o verbo do qual esse termo deriva.
Nada de teologia acrescentada: a palavra que os nomeia é a que descreve o que fazem.
Resta observar o efeito sobre a tensão inicial. Numa só sentença, eles se dizem executores e se dizem enviados — a primeira metade põe a ação neles, a segunda põe a autoridade fora. Dois sujeitos, e nenhum comentário do narrador.
A conta que ficou por fazer
Cabe fechar olhando para trás, porque este versículo responde, sem citar, à negociação de 18:23-33.
Abraão perguntara se o Juiz de toda a terra varreria o justo junto com o ímpio, desceu de cinquenta a dez e ali se deteve. A resposta que chega agora não é argumento, é fato: a destruição ocorrerá.
Se a promessa fora poupar por amor de dez, e a cidade cai, então dez não havia. O relato, entretanto, não faz essa conta, não menciona a barganha nem o patriarca — a inferência corre por conta de quem lê.
Mas o versículo 29 tornará a Abraão de modo explícito, dizendo que Deus se lembrou dele. O fio não se rompeu; apenas mergulhou por dezesseis versículos.
7. Aplicações Práticas
Repare em quem é o sujeito da frase
Os mensageiros dizem "nós vamos destruir". Onze versículos adiante o texto dirá que foi o SENHOR quem fez chover fogo. Duas formulações, mesmo capítulo, nenhuma corrigida.
E na mesma sentença eles dizem também "o SENHOR nos enviou" — pondo a autoridade fora de si e a ação em si.
Vale como exercício de leitura em qualquer documento: pergunte sempre quem está sendo dito que fez. Instituições, relatórios e comunicados deslocam o sujeito o tempo todo, e onde o sujeito se desloca costuma haver alguma coisa em jogo.
"Clamor" é palavra de vítima, não de ofendido
O termo hebraico nomeia o grito de socorro de quem sofre injustiça — a voz do escravo espancado, da viúva lesada. É a mesma palavra do gemido de Israel no Egito e a mesma da lei que protege o estrangeiro, a viúva e o órfão.
O texto não diz que Deus se ofendeu; diz que alguém gritou, e que o grito chegou.
A diferença é enorme e vale ser guardada. Uma coisa é indignar-se com o que se acha errado; outra é ouvir quem está sendo esmagado. As duas raramente produzem a mesma conduta, e só a segunda tem alguém do outro lado.
Existem vítimas que o relato não nomeia
Se houve clamor, houve quem clamasse. Mas o texto não conta quem foram, não descreve o que sofreram e nunca mais volta a elas.
Elas existem apenas na palavra escolhida.
Isso descreve uma constante: as narrativas costumam guardar os nomes de quem decide e perder os de quem padece. Ao ler qualquer relato de conflito, vale perguntar de quem é a voz que ficou registrada — e quem só aparece como estatística, como "clamor", como ruído de fundo.
Ezequiel enumera o que o Gênesis não enumerou
Gênesis fala em clamor e narra o cerco à casa; não arrola crimes. Quem arrola é Ezequiel: soberba, fartura de pão, próspera tranquilidade — e nunca fortalecer a mão do pobre e do necessitado.
Isso não apaga o que o Gênesis narra, e o narrado é violento. Mas mostra que a própria Escritura, ao retomar o assunto, não reduziu a culpa daquela cidade a uma única noite.
E há algo desconfortável na lista: ela não descreve uma cidade monstruosa, descreve uma cidade próspera. Vale medir a distância entre o pecado que se costuma denunciar e o que o profeta de fato nomeou — e perguntar por que um é tão mais citado que o outro.
A conta que o texto se recusa a fazer
Abraão desceu de cinquenta a dez e parou. Se a promessa era poupar por amor de dez, e a destruição acontece, então dez não havia. Mas o relato não faz essa soma, não menciona a barganha e não cita o patriarca.
A inferência fica por conta de quem lê.
É um modo de narrar que exige o leitor como participante: certas conclusões não são entregues, são deixadas ao alcance. Quem lê depressa passa por cima delas sem perceber que havia algo a concluir.
Um fio pode sumir sem se romper
Abraão desaparece do relato durante dezesseis versículos. Some depois da negociação e só reaparece no versículo 29, quando o texto dirá que Deus se lembrou dele.
Durante todo o intervalo, nada indica que ele ainda importe.
Vale reter o procedimento, porque ele contraria a impaciência com que costumamos avaliar processos. Ausência de menção não é ausência de efeito, e há coisas que continuam operando fora do campo de visão — inclusive quando o silêncio dura tempo suficiente para parecer resposta.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Quem destrói a cidade: os mensageiros ou Deus?
O texto diz as duas coisas. Aqui o verbo está na primeira pessoa do plural — são os enviados que anunciam a ruína como obra sua. Em 19:24 o sujeito é o SENHOR, que faz chover enxofre e fogo desde os céus.
Como se resolve isso?
Duas leituras concorrem, e o narrador não arbitra. Pela primeira, um emissário fala na qualidade em que veio: anunciar a execução de uma sentença não é reivindicar sua autoria — e a própria continuação da frase, "o SENHOR nos enviou", põe a autoridade fora deles. Pela segunda, o texto guarda aqui um estrato em que os agentes eram os executores, e o versículo 24 vem de outra formulação; a oscilação entre "os homens", "os mensageiros" e "o SENHOR" nos dois capítulos é irregular o bastante para sugerir composição. Não é possível decidir — e o texto não demonstra desconforto com a convivência das duas.
Por que "este lugar" e não "esta cidade"?
Porque o termo hebraico é mais amplo. Ele reaparece nos versículos 14 e 27, atravessando a narrativa.
O que significa "clamor"?
Não é barulho nem indignação. O termo nomeia o grito de socorro de quem sofre injustiça — a voz do escravo espancado, da viúva lesada, do órfão despojado. É a mesma palavra do gemido de Israel no Egito e a mesma da lei que protege o estrangeiro, a viúva e o órfão.
Isso quer dizer que havia vítimas?
A palavra escolhida as pressupõe. O texto não as nomeia, não descreve o que sofreram e nunca mais volta a elas — mas não se diz que Deus se ofendeu, e sim que alguém gritou e o grito chegou.
Qual era, afinal, o pecado de Sodoma?
Gênesis 18 e 19 não arrolam crimes: falam em clamor e narram o cerco à casa. Quem arrola é Ezequiel — soberba, fartura de pão, próspera tranquilidade, e nunca fortalecer a mão do pobre e do necessitado. Isso não anula o que o Gênesis narra, que é violento; mostra que a própria Escritura, ao retomar o assunto, não reduziu a culpa àquela noite.
Este versículo responde à negociação de Abraão?
Em forma de fato, não de argumento. Se a promessa era poupar por amor de dez e a destruição acontece, então dez não havia. Mas o texto não faz essa conta, não menciona a barganha e não cita Abraão — a inferência é do leitor. O versículo 29 voltará a ele explicitamente.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 18:20 — Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito.
A denúncia que este versículo confirma.
Gênesis 18:21 — Descerei agora e verei se com efeito têm praticado segundo o seu clamor.
A verificação anunciada; aqui está o veredito dela.
Gênesis 19:24 — Então o SENHOR fez chover enxofre e fogo, do SENHOR desde os céus.
O outro sujeito da mesma destruição.
Êxodo 3:7 — Tenho visto a aflição do meu povo... e tenho ouvido o seu clamor.
A mesma palavra, com vítimas nomeadas.
Êxodo 22:22-23 — A nenhuma viúva nem órfão afligireis. Se de alguma maneira os afligires, e eles clamarem a mim, eu certamente ouvirei o seu clamor.
A lei que define o que é esse grito.
Ezequiel 16:49 — Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado.
A única enumeração bíblica do pecado daquela cidade.
Gênesis 18:32 — Não a destruirei, por amor dos dez.
A promessa cuja conta este versículo não faz.
Gênesis 19:29 — Lembrou-se Deus de Abraão, e tirou a Ló do meio da destruição.
O fio que reaparece dezesseis versículos adiante.
Gênesis 4:10 — A voz do sangue de teu irmão clama a mim desde a terra.
O primeiro grito que sobe, no mesmo livro.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
porque vamos destruir este lugar; pois o clamor contra ele se tornou grande diante do SENHOR, e o SENHOR nos enviou para destruí-lo.”
Texto hebraico
כִּי־מַשְׁחִתִים אֲנַחְנוּ אֶת־הַמָּקוֹם הַזֶּה כִּי־גָדְלָה צַעֲקָתָם אֶת־פְּנֵי יְהוָה וַיְשַׁלְּחֵנוּ יְהוָה לְשַׁחֲתָהּ
Transliteração
ki-mashḥitim anaḥnu et-hammaqom hazzeh ki-gadelah tsaaqatam et-penei YHWH wayeshalleḥenu YHWH leshaḥatah
Palavra por palavra
מַשְׁחִתִים אֲנַחְנוּ (mashḥitim anaḥnu) — "destruidores [somos] nós"
Aqui está o ponto do versículo.
A construção é particípio no plural masculino mais o pronome independente de primeira pessoa do plural — literalmente "destruidores nós", isto é, "nós estamos destruindo" ou "nós vamos destruir".
Note-se que o pronome está explícito. Em hebraico ele não seria necessário; sua presença o realça.
A raiz é shaḥat, arruinar, corromper, destruir.
הַמָּקוֹם הַזֶּה (hammaqom hazzeh) — "este lugar"
Maqom vem da raiz de "levantar-se, ficar de pé", e designa lugar, sítio, posição.
É termo mais amplo que "cidade", e reaparece nos versículos 14 e 27.
צַעֲקָתָם (tsaaqatam) — "o clamor deles"
A palavra decisiva.
Tsaaqah designa o grito de socorro de quem sofre — não o grito de raiva nem o barulho de uma multidão.
É o termo do gemido de Israel no Egito e o da lei sobre a viúva e o órfão.
O sufixo é de terceira pessoa do plural: o clamor deles. A ambiguidade merece registro — pode significar o clamor que eles provocam, ou o clamor contra eles, e a tradução precisa escolher.
אֶת־פְּנֵי יְהוָה (et-penei YHWH) — "diante da face do SENHOR"
Panim, face, rosto. A expressão situa o destinatário: o grito chegou até ele.
וַיְשַׁלְּחֵנוּ (wayeshalleḥenu) — "e ele nos enviou"
Do verbo shalaḥ, enviar, despachar.
É a raiz da qual deriva malakh, o termo usado em 19:1 para designá-los.
לְשַׁחֲתָהּ (leshaḥatah) — "para destruí-la"
Infinitivo da mesma raiz do início do versículo, com sufixo feminino singular — "destruí-la".
Nota — a raiz que abre e fecha a frase
Vale observar a arquitetura, porque ela é montada sobre uma repetição.
A sentença começa com mashḥitim e termina com leshaḥatah: mesma raiz, nas duas pontas.
No primeiro caso o sujeito é "nós". No segundo, o infinitivo depende de "o SENHOR nos enviou".
Ou seja: o hebraico coloca a mesma ação duas vezes, uma atribuída aos enviados e outra derivada do envio.
Convém não forçar a conclusão. A construção é natural, e a repetição de raiz é traço corrente da prosa hebraica.
Mas ela deixa a tensão à vista, em vez de escondê-la — e essa tensão é exatamente a que o versículo 24 tornará mais aguda, ao pôr o SENHOR como sujeito da chuva de fogo.
Note-se ainda o sufixo feminino do último termo. "Lugar" é masculino em hebraico; o feminino aponta para a cidade, subentendida. A frase começa falando de "este lugar" e termina falando "dela".
11. Conclusão
O peso desta sentença está logo no seu sujeito, e a leitura apressada o perde. A forma verbal é de primeira pessoa do plural, acompanhada do pronome explícito — recurso desnecessário em hebraico e, por isso mesmo, enfático: são os próprios emissários que reivindicam a ruína como obra sua. Onze versículos adiante, porém, o relato atribuirá a chuva de enxofre e fogo ao SENHOR. Duas formulações, mesmo capítulo, nenhuma retificada. Explicam-se de dois modos, e o narrador não decide entre eles: pode ser que um enviado fale na qualidade em que veio, sem reivindicar autoria — e o próprio remate da frase, ao dizer que foi enviado, situa a autoridade alhures; ou pode ser que sobreviva aqui um estrato em que os agentes de fato executavam, com o versículo 24 procedendo de outra formulação, hipótese que a oscilação irregular entre "os homens", "os mensageiros" e "o SENHOR" nos dois capítulos torna atraente. Note-se, ainda, que o hebraico dispõe a mesma raiz nas duas pontas da sentença — atribuída a eles no início, derivada do envio no fim —, deixando a tensão exposta em vez de dissimulá-la.
Segue-se a retomada do que fora anunciado antes. Em 18:20 declarara-se que o clamor daquelas cidades se multiplicara; em 18:21, que haveria descida e verificação. Aqui, passada a noite, vem o resultado: tornou-se grande. O capítulo precedente abriu um inquérito; este registra a sentença, e o que os enviados presenciaram — a população inteira em torno da casa, do menor ao maior — corroborou a denúncia. Quanto ao vocábulo traduzido por clamor, ele carrega mais do que a tradução deixa transparecer: nomeia o grito de socorro de quem padece injustiça, voz do escravo espancado e da viúva lesada, e é o mesmo termo do gemido israelita sob o Egito e o mesmo da legislação que ampara estrangeiro, viúva e órfão. Daí uma implicação forte: em nenhum momento se afirma que a divindade se ofendeu — afirma-se que alguém gritou e que o grito chegou. Há, portanto, vítimas anteriores ao versículo 4, jamais nomeadas nem descritas, existentes apenas na palavra escolhida. O sufixo, aliás, é ambíguo: o clamor pode ser o que aquela gente provoca ou o que se levanta contra ela, e toda tradução precisa optar.
Convém enfrentar de frente a questão que a pregação corrente encerra com pressa indevida. Os capítulos 18 e 19 registram que houve clamor, que emissários vieram apurar e que a cidade inteira cercou a casa exigindo os hóspedes — o que é muito, e é grave. O que eles não fazem é arrolar delitos. Quem arrola é o profeta Ezequiel, cuja lista raramente se cita por inteiro: soberba, fartura de pão, próspera tranquilidade — e nunca fortaleceram a mão do pobre e do necessitado. Isso não anula o narrado no Gênesis, que é violento; mostra, sim, que a própria Escritura, ao voltar ao assunto, recusou-se a reduzir a culpa daquela cidade ao episódio de uma noite, e esclarece por que o vocábulo aqui é justamente o do grito dos oprimidos — pois uma cidade farta e serena que não socorre o pobre produz exatamente esse tipo de grito. Deixo os dois testemunhos lado a lado, sem escolher e sem fundi-los; ambos pertencem ao cânon e falam da mesma cidade. E há algo perturbador na enumeração profética: ela não retrata uma cidade monstruosa, retrata uma cidade próspera.
Resta o eco daquilo que ficara pendente. O patriarca perguntara se o Juiz de toda a terra varreria o justo com o ímpio, desceu de cinquenta até dez e ali parou. A resposta que agora chega não é argumento, e sim fato consumado: a ruína ocorrerá. Se a promessa fora poupar por amor de dez e a cidade cai, dez não havia — soma que o relato, contudo, se abstém de fazer, sem mencionar a barganha nem o patriarca, deixando a conclusão ao alcance de quem lê. O nome de Abraão desaparecerá por dezesseis versículos e só ressurgirá quando o texto disser que Deus se lembrou dele. O fio não se partiu; apenas mergulhou.













