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Êxodo 16:20

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 13 acessos
Mas não ouviram Moisés; alguns deixaram resto dele até a manhã, e criou vermes e fedeu; e Moisés se indignou contra eles.
Tigela de barro com restos de maná branco tomados por larvas, no chão de uma tenda à luz do amanhecer; à entrada, um homem de túnica olha a tigela com o rosto contraído, enquanto outro, mais velho, o encara de pé.

Estudo


Mas não ouviram Moisés; alguns deixaram resto dele até a manhã, e criou vermes e fedeu; e Moisés se indignou contra eles.

1. Introdução

Na primeira manhã depois da regra, alguns guardaram o maná, e o que guardaram amanheceu com vermes e fedendo. O versículo conta a desobediência com as palavras da própria ordem, registra o castigo sem nenhuma intervenção de Deus e termina com a primeira vez que Moisés se ira contra o seu povo. Os comentaristas discutiram quem guardou e por quê, e se o maná fedeu antes ou depois dos vermes. O verbo do fedor é o mesmo do Nilo transformado em sangue, agora aplicado ao pão de Israel.

2. Contexto Histórico e Cultural

De onde vinham os vermes

Para um leitor antigo, a frase "criou vermes" não descrevia uma invasão vinda de fora. Descrevia um nascimento. Até o século XVII, a explicação aceita na Europa e no Oriente Próximo era que certos bichos pequenos nasciam por si mesmos da matéria em decomposição: as larvas da carne podre, os vermes da madeira úmida, as pulgas da poeira. Aristóteles tinha dado a essa ideia a forma de doutrina na História dos Animais, ao distinguir os animais que nascem de pais da mesma espécie dos que nascem da lama, do esterco ou do que apodrece. A ideia ficou conhecida, muito depois, como geração espontânea.

Os rabinos partilhavam a mesma física. O Talmude (Shabbat 107b) discute se é permitido matar um piolho no sábado e conclui que sim, porque o piolho "não se reproduz": não nasce de macho e fêmea, e por isso matá-lo não é tirar uma vida no sentido pleno. A regra de sábado se apoia numa observação de natureza que todos tinham por certa.

É dentro dessa física que se entende o comentário de Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido, França, século XI) a este versículo. Ele diz que a frase está "invertida": primeiro a coisa fede, depois cria vermes, "como é o caminho de tudo o que bicha". A ordem do mundo era a da podridão que gera o verme, e o texto, que põe o verme antes do fedor, parecia contrariá-la.

O experimento de Redi

A ordem que Rashi tinha por natural foi desmontada em 1668. O médico e naturalista italiano Francesco Redi, da corte dos Médici em Florença, publicou as Esperienze intorno alla generazione degl'insetti ("Experiências sobre a geração dos insetos"). Ele pôs pedaços de carne em frascos: uns abertos, outros fechados, outros cobertos com uma gaze fina que deixava passar o ar mas não as moscas. A carne apodreceu em todos. Larvas só apareceram nos frascos abertos; nos cobertos com gaze, as moscas pousavam por fora e deixavam os ovos sobre o pano.

O verme não nasce do podre; nasce do ovo de uma mosca que pousou sobre o podre. A podridão e o verme andam juntos, mas um não gera o outro. Redi não encerrou de uma vez o debate sobre a geração espontânea — ele ainda admitia exceções, e a discussão sobre os micróbios só se fechou com Pasteur, dois séculos depois —, mas resolveu o caso das larvas.

A descoberta muda o peso da discussão entre os comentaristas. Para Rashi, a ordem "vermes e fedeu" é anormal e pede correção. Para Ramban (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), que leu o maná como milagre, a ordem anormal é justamente o sinal de que algo fora da natureza aconteceu. Depois de Redi, nem uma coisa nem outra se sustenta como argumento de física: vermes podem aparecer antes do cheiro forte, e o cheiro pode vir sem vermes. O debate do texto, que é sobre a ordem das palavras, continua; o apoio que ele buscava na natureza desapareceu.

Os bichos da despensa egípcia

O povo que guardou o maná conhecia, do Egito, o que acontece com a comida guardada. A arqueologia dos insetos encontrou essa memória no chão. Em 2001 a arqueóloga Eva Panagiotakopulu publicou no Journal of Archaeological Science (“Revista de Ciência Arqueológica”, periódico acadêmico britânico) os insetos achados nas escavações de Amarna, a capital de Aquenáton, do século XIV antes de Cristo. Na vila dos operários apareceram pulgas e percevejos em grande quantidade, sinal de casas infestadas; e, nos depósitos, besouros que vivem do grão guardado, entre eles o registro mais antigo conhecido de uma espécie que até hoje ataca silos e moinhos.

O dado tem um limite óbvio: o maná não é grão, e os bichos de Amarna atacavam reservas de meses, não de uma noite. O que ele mostra é que, no mundo de onde Israel tinha saído, toda despensa tinha os seus bichos, e guardar comida era também conviver com a sua deterioração. A diferença do deserto está no prazo. Ninguém no Egito esperava que o pão guardado à noite amanhecesse com vermes; no acampamento, foi o que aconteceu.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas não ouviram Moisés"

A frase é a mesma, palavra por palavra no hebraico, de Êxodo 6:9, quando o povo no Egito "não ouviu Moisés" por falta de fôlego e por causa da dura escravidão. Lá o texto deu a razão; aqui não dá nenhuma. A recusa de ouvir, que no Egito era efeito do cansaço, no deserto não tem desculpa escrita.

E o destinatário da recusa é Moisés, não Deus. Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) liga esse detalhe à ausência da fórmula divina no versículo anterior: o povo teria tratado a regra como opinião de Moisés. O Netsiv (Naftali Tsvi Yehudá Berlin, século XIX), no Haamek Davar, vai na mesma direção por outro caminho: havia quem só respeitasse Moisés quando a voz de Deus falava pela boca dele, e tratasse como palavra de homem tudo o que ele dizia de outro modo.

Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII) faz uma correção de leitura que muda o tamanho do episódio. Para ele, "não deram ouvidos" não se refere a todos, mas aos "homens" que vêm logo depois: alguns não ouviram, e eram poucos. O povo inteiro obedeceu; um grupo não.

"alguns deixaram resto dele até a manhã"

A desobediência é narrada com as palavras exatas da ordem. Moisés tinha dito "ninguém deixe resto dele até a manhã"; o texto diz "deixaram resto dele até a manhã". Nenhuma palavra nova. O efeito é de espelho: a falta é a regra lida ao contrário.

Quem eram? O hebraico diz só "homens", sem artigo, e a ABC traduz por "alguns". A tradição deu-lhes nomes e motivos, e as respostas formam três leituras.

Primeira leitura: foram os de sempre. Rashi, seguindo o Midrash Shemot Rabá, diz que eram Datã e Abirão, os dois homens que a tradição judaica põe em quase todas as cenas de rebeldia contra Moisés, desde a briga de Êxodo 2:13 até a revolta de Números 16. É uma identificação de escola, sem apoio no texto; ela transforma um grupo anônimo em dois personagens conhecidos.

Segunda leitura: foram os que não confiavam. A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo), no tratado Vayassa, os chama de "os pequenos na fé" e brinca com a palavra "homens": os homens bons não deixaram resto; os que deixaram eram homens que não eram bons. Joseph Benson (pregador metodista inglês do século XVIII) dá a versão protestante da mesma leitura: guardaram por desconfiar de que Deus mandaria mais.

Terceira leitura: foram os curiosos. O próprio Benson admite essa possibilidade, e Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI) a desenvolve: o maná não sobrou porque recolheram demais; eles o deixaram de propósito, "para testar" — para ver se o aviso de Moisés se cumpriria. Nessa leitura, os desobedientes agiram como experimentadores. Não guardaram por medo da fome, mas para verificar a regra.

A terceira leitura é a mais incômoda, porque o experimento deu resultado. Eles queriam saber o que aconteceria com o maná guardado, e souberam. O texto não lhes dá razão, mas registra que a resposta à pergunta deles veio do próprio alimento.

"e criou vermes e fedeu"

Ninguém castiga ninguém. Não há fogo do céu, nem praga, nem palavra de Deus. O castigo está inteiro no objeto guardado: o pão do dia anterior amanhece estragado. A desobediência se pune sozinha, e a punição é exatamente a perda do que se quis proteger.

A ordem das duas palavras foi o centro de uma discussão. Rashi e a Mekhilta acham a frase invertida: primeiro a coisa apodrece, depois cria vermes, e é nessa ordem que o próprio capítulo fala do maná do sábado, que "não fedeu, nem houve larva nele" (Êxodo 16:24). Ramban recusa a correção. Como o maná estragou por milagre, diz ele, nada impede que os vermes viessem antes. E propõe uma razão para isso, tirada do Midrash: se o maná tivesse fedido durante a noite, os donos o teriam jogado fora antes de amanhecer, e ninguém saberia. Os vermes vieram em silêncio, durante a noite; o fedor veio de manhã, e então todo o acampamento soube. A ordem das palavras seria a ordem da exposição pública.

Or ha-Chayim dá uma terceira explicação, de cozinha. Coisas doces, observa ele, costumam bichar sem cheirar mal; e o maná tinha gosto de mel. Que criasse vermes era de se esperar; que fedesse, não. O texto diria primeiro o esperado e depois o espantoso.

O verbo de "feder" tem história no livro. Em Êxodo 5:21, os capatazes hebreus acusam Moisés de tê-los feito "feder" aos olhos de Faraó — sentido figurado, Israel no lugar de quem fede. Em Êxodo 7:18-21, é o Nilo que fede, em sentido literal, e quem sofre é o Egito. Aqui, o verbo volta pela terceira vez, literal outra vez, e o que fede é o pão de Israel. A palavra que no Egito tinha passado do oprimido para o opressor volta para dentro do acampamento. É leitura possível, não demonstrável; o texto não aponta a ligação. Mas a sequência existe, e o estudo de Êxodo 7:18 mostra a primeira metade dela.

"e Moisés se indignou contra eles"

Moisés já tinha se irado uma vez no livro, ao sair da última audiência com Faraó "ardendo de ira" (Êxodo 11:8). Esta é a primeira vez que a ira dele se volta contra Israel. E a ocasião surpreende. O povo já o tinha acusado três vezes: no mar, dizendo que ele os trouxera para morrer no deserto (Êxodo 14:11); em Mara, murmurando contra ele (Êxodo 15:24); e no deserto de Sim, desejando ter morrido no Egito (Êxodo 16:2-3). Em nenhuma dessas vezes o texto diz que Moisés se irou. Ele clamou a Deus, respondeu, perguntou "que somos nós?". A primeira ira de Moisés contra o povo não vem de uma ofensa a ele. Vem de um pote de maná guardado contra a ordem.

A Mekhilta descreve a cena com uma pergunta: Moisés mostrou a sua ira e lhes disse "por que fizeram isso?". E Deus, por contraste, não diz nada. A primeira reação divina às falhas do maná só virá em Êxodo 16:28, e será sobre o sábado.

Os rabinos deixaram uma observação sobre a ira de Moisés que este capítulo ilumina sem querer. No Talmude (Pesachim 66b), Rabi Shimon ben Lakish ensina que quem se ira, se é sábio, perde a sabedoria; e tira a prova de Moisés, que se irou com os oficiais em Números 31:14 e logo depois esqueceu uma lei, que teve de ser ensinada por Eleazar. A mesma sequência aparece no nosso capítulo, embora nenhum texto antigo a aponte: dois versículos depois desta ira, Rashi (seguindo o Midrash) diz que Moisés tinha esquecido de transmitir ao povo a regra do sexto dia (Êxodo 16:22). Se a ligação é verdadeira, é hipótese; o Êxodo não comenta nem a ira nem o esquecimento.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os "alguns". Anônimos no texto. A tradição que os chama de Datã e Abirão, os chefes rubenitas da revolta de Números 16, é a mesma que já os tinha posto na briga dos dois hebreus de Êxodo 2:13, como registra o estudo daquele versículo. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) a repete no seu comentário.

Moisés. Dá a ordem, é desobedecido e se ira. O nome dele abre e fecha o versículo: a desobediência é "a Moisés", e a ira é "de Moisés". Deus não aparece.

Os vermes. Larvas, chamadas pela palavra comum do verme. São o único agente do castigo.

A primeira manhã depois da regra. O episódio acontece, segundo a sequência do capítulo, na manhã seguinte à primeira coleta. Ninguém ainda tinha visto o maná cair duas vezes. Os que guardaram não tinham prova de que ele voltaria, e os que obedeceram também não.

O acampamento. O cheiro de comida podre não fica dentro de uma tenda. O lugar da falta é privado; o lugar do castigo é o acampamento inteiro.

5. Pontos de Ensino

A desobediência é contada com as palavras da ordem. Nada é acrescentado: o texto deixa o leitor comparar as duas frases.

O castigo vem do objeto, não de uma sentença. Não há intervenção de Deus. O que foi guardado contra a ordem se estraga, e é isso.

Foram poucos, segundo Ibn Ezra. O versículo não descreve uma rebelião do povo, mas a falta de um grupo.

Os motivos são deduzidos. Desconfiança, curiosidade, teste: o texto não diz qual. Cada comentarista preencheu o silêncio com uma razão diferente.

A primeira ira de Moisés contra o povo vem por uma regra, não por uma ofensa. Ele suportou acusações pessoais sem se irar; irou-se diante de uma desobediência pequena e concreta.

O fedor torna pública uma falta privada. O que estava escondido na tenda passa a ser sabido no acampamento inteiro.

6. Aspectos Filosóficos

Guardar uma reserva contra a incerteza é, para quase toda a sabedoria prática, a coisa sensata a fazer. O versículo pune exatamente isso. A tensão fica mais nítida diante do pensador contemporâneo que mais defendeu a reserva como forma de sobreviver ao imprevisível: o ensaísta e matemático libanês-americano Nassim Nicholas Taleb (nascido em 1960).

A defesa da redundância. Em Antifrágil (2012), Taleb argumenta que os sistemas que duram são os que mantêm folga: estoques, camadas de proteção, peças em duplicidade. A natureza, diz ele, gosta de se segurar demais: temos dois rins, dois pulmões, mais capacidade do que o uso normal exige. A redundância parece desperdício enquanto nada de anormal acontece; mas algo anormal sempre acaba acontecendo. O sistema enxuto, otimizado para o dia comum, quebra no primeiro dia incomum.

O peru de Taleb. Em A lógica do cisne negro (2007), ele conta a história do peru alimentado todos os dias por mil dias. A cada dia, a confiança do peru no homem que o alimenta aumenta; os dados confirmam, manhã após manhã, que o alimento virá. No dia antes da festa de Ação de Graças, o peru tem a maior confiança da vida dele, e é então que é morto. A lição de Taleb é que uma série de dias bons não prova nada sobre o dia seguinte, e que quem depende de uma única fonte está exposto ao que não viu.

Pelo critério de Taleb, quem guardou o maná na primeira noite agiu bem. Tinha visto o alimento cair uma única vez. Não tinha série nenhuma, nem mesmo a do peru. Depender inteiramente de uma fonte desconhecida, sem reserva, era o tipo de exposição que ele chama de fragilidade.

Onde a tensão se resolve, e onde não se resolve. Três observações deslocam o conflito, sem apagá-lo.

A primeira: a redundância de Taleb é uma proteção contra a falha da fonte. Ela pressupõe que a fonte pode falhar. O texto afirma o contrário, e é isso que está em jogo no capítulo inteiro. Guardar não é um gesto neutro de prudência; é uma aposta contra a promessa. A reserva, aqui, não protege contra o acaso: declara uma dúvida.

A segunda: no regime do maná, a reserva não é inútil, é nociva. Taleb tem uma palavra para isso, tirada da medicina: iatrogenia, o dano causado pelo próprio remédio. O pote guardado para proteger a família amanhece com vermes e fedendo; o gesto de proteção produz o estrago. É uma iatrogenia perfeita, e o próprio Taleb reconheceria que, onde o estoque apodrece, estocar é aumentar a fragilidade.

A terceira: o capítulo não condena a reserva em si. No sexto dia, a ordem será guardar o dobro para o sábado, e o guardado não vai estragar. A diferença entre as duas noites não está no gesto de guardar, mas em quem decide quando guardar. A tensão com Taleb, então, não é entre reserva e confiança; é entre a reserva decidida por cada um e a reserva dada junto com o alimento.

O que permanece sem solução é o problema do primeiro dia. Taleb tem razão em que ninguém, naquela noite, tinha motivo empírico para confiar. O texto não discute isso. Ele pede uma confiança que antecede os dados, e mostra o custo de quem preferiu os dados. Para Taleb, essa é exatamente a confiança que leva o peru à mesa. Para o Êxodo, é a única que o maná admite. As duas posições não se conciliam, e o versículo não tenta conciliá-las.

Os limites da comparação. Taleb escreve sobre mercados, riscos financeiros e sistemas complexos; ele nunca tratou do maná, e o seu peru é uma ave criada para o abate, não um povo sustentado por promessa. Usá-lo aqui não é dizer que o texto responde a ele, mas que a pergunta dele — quanto confiar numa fonte única — é a pergunta que a primeira noite do maná impôs a cada família.

7. Aplicações Práticas

O versículo mostra uma liderança que não se ira com a ofensa pessoal e se ira com a regra quebrada. Moisés aguentou três acusações sem perder a calma; perdeu-a diante de um pote de maná. Para quem exerce autoridade, a ordem dos fatos é uma pergunta real: o que me tira do sério — o que dizem de mim, ou o que fazem com o que foi combinado?

Mostra também como uma falta escondida se torna pública sem que ninguém a denuncie. O fedor saiu da tenda sozinho. Não há aqui um princípio geral de que toda falta aparece; há o registro de que esta apareceu, e pelo próprio objeto.

E há o caso dos curiosos de Sforno. Quem testa uma regra para ver se ela "funciona" às vezes aprende a lição pelo pior caminho. O texto não proíbe perguntar; registra que alguns preferiram descobrir sozinhos, e o preço foi a comida de um dia.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O que os desobedientes comeram naquela manhã?

O texto não diz. Se o maná da véspera estava estragado, eles dependiam do maná novo, como todos. A reserva não só falhou; deixou-os exatamente na mesma situação dos que obedeceram, com uma tigela podre a mais para jogar fora.

2. Houve outra punição além do estrago?

Não há registro. Ninguém é afastado, nenhuma família perde a porção do dia. A ira de Moisés é a única reação humana, e Deus não fala. O contraste com Números 11, em que o desejo de carne termina em praga, é grande.

3. Os mesmos homens voltaram a guardar?

O texto não volta a falar deles. O versículo seguinte descreve a coleta "manhã após manhã" como rotina, o que sugere que o episódio não se repetiu. Mas o capítulo registra, poucos versículos adiante, uma segunda desobediência de outro tipo: alguns saem para recolher no sábado (Êxodo 16:27).

4. A ira de Moisés foi justa?

O Êxodo não julga. A Mekhilta descreve a ira com uma pergunta, não com castigo. A tradição rabínica posterior foi severa com as iras de Moisés — Pesachim 66b, o episódio das águas de Meribá em Números 20 —, mas nenhum comentário antigo critica esta. Das três iras de Moisés ditas com este verbo, esta é a de menor consequência: termina numa pergunta.

5. Por que o maná guardado no sábado não estragou, e este sim?

A pergunta é do capítulo inteiro, e o comportamento contraditório do maná — derreter, apodrecer, durar — é examinado no estudo de Êxodo 16:21. Aqui basta registrar que o texto não oferece explicação natural: o maná estraga quando é guardado contra a ordem.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma recusa, no Egito

Êxodo 6:9 — "Assim falou Moisés aos filhos de Israel; mas eles não ouviram Moisés, por falta de fôlego e por causa da dura escravidão."

A mesma frase hebraica que abre este versículo. Lá a recusa tem causa declarada; no deserto, não.

As outras iras de Moisés com o mesmo verbo

Levítico 10:16 — "Moisés procurou com insistência o bode da oferta pelo pecado, e eis que já tinha sido queimado. Então se indignou contra Eleazar e Itamar, os filhos que restaram a Arão."

O mesmo verbo de ira, e de novo por causa de uma regra sobre comida consagrada — só que ao contrário: lá Moisés se indigna porque queimaram o que deveria ter sido comido. E a palavra "que restaram" é da mesma raiz de "deixaram resto". No fim do episódio, Arão explica a decisão e Moisés aceita (Levítico 10:20).

Números 31:14 — "Moisés se indignou contra os comandantes do exército, os chefes de milhares e os chefes de centenas, que voltavam da batalha."

A terceira e última vez. É desta que o Talmude tira a lição de que a ira faz o sábio esquecer.

O mesmo verbo de deixar resto, desta vez segundo a palavra de Deus

2 Reis 4:43-44 — "O seu servo disse: 'Como vou pôr isto diante de cem homens?' Ele respondeu: 'Dê ao povo para que comam, porque assim diz o SENHOR: Comerão e deixarão resto.' Então pôs diante deles; comeram e deixaram resto, conforme a palavra do SENHOR."

A mesma forma verbal deste versículo — "e deixaram resto" —, agora como cumprimento de uma promessa. No deserto, o resto era desobediência; no milagre de Eliseu, é sinal de fartura.

O verme que come o que se guardou

Deuteronômio 28:39 — "Você plantará vinhas e as cultivará, mas não beberá do vinho nem o armazenará, porque o verme as comerá."

Entre as maldições da aliança, a mesma combinação: o que seria guardado é devorado pelo verme. O que no maná foi episódio vira ameaça.

Jonas 4:7 — "Mas Deus enviou um verme ao raiar da alva do dia seguinte, o qual feriu a planta, e ela secou."

O verme que chega de madrugada e destrói, por ordem de Deus, o que tinha sido dado na véspera. Também lá, a lição vem pelo estrago de um presente.

A reserva que o sábio mantém

Provérbios 21:20 — "Tesouro precioso e azeite há na casa do sábio, mas o homem insensato os devora."

A sabedoria comum, a que dá razão aos que guardaram. O livro dos Provérbios fala da vida na terra, com colheita e casa; o deserto do maná suspendeu essa regra por um tempo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Mas não ouviram Moisés; alguns deixaram resto dele até a manhã, e criou vermes e fedeu; e Moisés se indignou contra eles.

Texto hebraico

וְלֹא־שָׁמְעוּ אֶל־מֹשֶׁה וַיּוֹתִרוּ אֲנָשִׁים מִמֶּנּוּ עַד־בֹּקֶר וַיָּרֻם תּוֹלָעִים וַיִּבְאַשׁ וַיִּקְצֹף עֲלֵהֶם מֹשֶׁה׃

Transliteração

ve-lo-sham'u el-Mosheh, vayyotiru anashim mimmennu ad-boqer, vayyarum tola'im vayyiv'ash, vayyiqtsof alehem Mosheh.

Análise palavra por palavra

וְלֹא־שָׁמְעוּ אֶל־מֹשֶׁה — ve-lo-sham'u el-Mosheh, "e não ouviram a Moisés".

O verbo shama, "ouvir", no perfeito do Qal (a forma simples do verbo hebraico), terceira pessoa do plural, com a negação lo. Construído com a preposição el, "a, para", o verbo não quer dizer só perceber o som: quer dizer acatar. A sequência é idêntica à de Êxodo 6:9. O hebraico é o mesmo, e a ABC traduz os dois do mesmo modo: "não ouviram Moisés".

A frase começa com a negação e o perfeito, e não com a forma narrativa que encadeia os fatos. Isso a põe um pouco à parte da sequência: é um resumo antes do relato. Ibn Ezra a lê junto com a palavra seguinte, "homens", e entende que só esses não ouviram.

וַיּוֹתִרוּ — vayyotiru, "e deixaram resto".

O verbo yatar no Hifil (a forma causativa: "fazer ficar"), na forma narrativa, terceira pessoa do plural. É o mesmo verbo da proibição do versículo anterior, agora no plural e no passado. A forma exata, letra por letra, volta em 2 Reis 4:44, no milagre de Eliseu, onde "deixaram resto" é cumprimento da palavra do SENHOR.

אֲנָשִׁים — anashim, "homens".

Plural de ish, sem artigo: não "os homens", mas "uns homens", "alguns". A ABC traduz pelo sentido. A Mekhilta lê a palavra com valor de qualidade, como em "homens de verdade": os bons não deixaram resto, e os que deixaram eram homens que não eram bons.

מִמֶּנּוּ עַד־בֹּקֶר — mimmennu ad-boqer, "dele até a manhã".

As mesmas duas expressões da ordem de Moisés, repetidas sem alteração.

וַיָּרֻם תּוֹלָעִים — vayyarum tola'im, "e criou vermes".

O verbo é a palavra mais discutida do versículo. Na forma, é o Qal narrativo de rum, "elevar-se, subir, ser alto", terceira pessoa do masculino singular, com o maná por sujeito. Ao pé da letra seria "e levantou vermes", ou "ergueu-se em vermes", como traduzem Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX). A imagem seria a de uma massa que cresce e se mexe.

Mas a forma também pode vir de outra palavra. Rashi e Ibn Ezra — este citando Rabi Marinus, nome com que se conhecia o gramático Jonas ibn Janah, de Córdova, século XI — ligam o verbo a rimmah, "larva", e o leem como um verbo tirado do substantivo: "bichou", "ficou cheio de larvas". Nessa leitura não há "subir"; há só o verbo do bicho. É a palavra que reaparece em Êxodo 16:24, quando o maná do sábado não tem "larva".

O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) traduz por urechesh rechasha, "e fervilhou de bichos que rastejam", com o verbo aramaico do enxame.

Tola'im é o plural de tola'at, o verme, palavra cujo duplo sentido — o verme comum e a cochonilha de que se fazia a tinta escarlate do santuário — está no estudo de Gênesis 46:13. O que é deste versículo é o plural e o uso: em quase todas as outras ocorrências o verme vem no singular, como figura (o "verme" que devora a vinha em Deuteronômio 28:39, o que mata a planta de Jonas em Jonas 4:7, o que "não morre" em Isaías 66:24). Aqui são vermes concretos, muitos, numa tigela de comida.

וַיִּבְאַשׁ — vayyiv'ash, "e fedeu".

O verbo ba'ash, "feder", no Qal narrativo, terceira pessoa do masculino singular. É a forma simples, a do Nilo em Êxodo 7:18 e 7:21: um estado, sem agente. Em Êxodo 16:24 o mesmo verbo volta negado, mas no Hifil, "não fez feder" — a forma causativa —, e a mudança de forma fica para aquele versículo.

A sequência "vermes, depois fedor" é a que Rashi chama de "versículo invertido". Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) dá à figura o seu nome grego de retórica, hysteron proteron ("o posterior primeiro"): dizer antes o que aconteceu depois.

וַיִּקְצֹף עֲלֵהֶם מֹשֶׁה — vayyiqtsof alehem Mosheh, "e indignou-se contra eles Moisés".

O verbo qatsaf, "irar-se", no Qal narrativo, com a preposição al, "contra", e o sufixo da terceira pessoa do plural. É o verbo da ira grave, a de quem pode executar, o mesmo da fúria de Faraó contra o copeiro e o padeiro (Gênesis 40:2). Na Bíblia hebraica ele tem Deus por sujeito em cerca de dois terços das ocorrências. Moisés é sujeito três vezes, todas na Torá: aqui, em Levítico 10:16 e em Números 31:14. Em Êxodo 11:8 a ira dele contra Faraó tinha sido dita com outra expressão, "ardendo de ira".

O nome de Moisés vem por último, depois do verbo e do complemento. O versículo, que começou com "não ouviram a Moisés", termina com "Moisés": o nome dele fecha a moldura em que a desobediência aconteceu.

A Septuaginta

A tradução grega diz kai exezesen skōlēkas kai epōzesen; kai epikranthē ep' autois Mōusēs. Três escolhas chamam a atenção. Para "criou vermes" ela usa exezesen, de ekzeō, "ferver para fora", "borbulhar": o maná "ferveu em vermes", imagem próxima do enxame do Targum. O fedor é epōzesen, do verbo comum de cheirar mal. E a ira de Moisés vira epikranthē, "amargou-se", do verbo pikrainō — a raiz do pikron, "amargo", com que a mesma Septuaginta tinha descrito as águas de Mara em Êxodo 15:23. Em grego, o líder que adoçou as águas amargas é agora quem fica amargo.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva primeiro a esta conclusão: a desobediência à regra do maná se pune pelo próprio maná. Não há sentença de Deus nem castigo humano; o que foi guardado contra a ordem perde o valor e expõe quem o guardou.

Leva também a concluir que a primeira ira de Moisés contra o povo nasce de uma questão de obediência, e não de honra. O homem que suportou três acusações calado reage a um pote de comida guardada.

E leva a uma conclusão que o versículo deixa em aberto. Os que guardaram talvez agissem por medo, talvez por curiosidade, talvez por um cálculo que, em qualquer outro lugar, seria prudente. O texto não distingue os motivos; trata a reserva como resposta errada a uma promessa, seja qual for a razão. O que nele se condena não é a prudência em si, mas a prudência contra a palavra recebida.

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