Recolhiam-no manhã após manhã, cada um conforme o que comia; e, quando o sol esquentava, derretia.
1. Introdução
Depois da primeira coleta, da regra e da desobediência, o capítulo passa do acontecimento para o costume: o povo recolhe o maná todas as manhãs, cada um conforme o que come, e o que fica no chão derrete quando o sol esquenta. O versículo acrescenta ao maná a última das suas propriedades, a de não resistir ao calor do dia. Somada às outras — apodrecer em uma noite, durar duas no sábado, servir para assar e cozinhar —, ela compõe um comportamento que nenhuma substância conhecida tem. Os comentaristas antigos e modernos tentaram explicar essa física, e o texto não ajuda nenhum deles. E a expressão "manhã após manhã" liga o pão do deserto ao ritmo diário do culto.
2. Contexto Histórico e Cultural
A física do maná na Sabedoria de Salomão
O primeiro texto conhecido que tentou explicar por que o maná se comportava como se comportava foi escrito em grego, em Alexandria, provavelmente no século I antes de Cristo. É a Sabedoria de Salomão, livro de um judeu de língua grega que pôs as suas reflexões na boca do rei sábio. O livro faz parte da Bíblia das igrejas católica e ortodoxa; as igrejas protestantes o contam entre os apócrifos. Os seus últimos capítulos (11 a 19) releem o Êxodo comparando, ponto por ponto, o que as pragas fizeram ao Egito e o que o deserto fez a Israel.
O autor conhecia o problema do versículo. Ele tinha diante de si um alimento que o sol derretia e o fogo não destruía, porque o maná era assado e cozido. E o põe em palavras: "o que o fogo não destruía derretia-se simplesmente aquecido por um breve raio de sol" (Sabedoria 16:27). Pouco antes ele usa a imagem do gelo: "a neve e o gelo suportavam o fogo e não se derretiam" (Sabedoria 16:22). A contradição não o incomoda; é ela que lhe interessa.
A explicação que ele dá vem da física grega do seu tempo. Para os filósofos desde Empédocles, no século V antes de Cristo, o mundo era feito de quatro elementos — terra, água, ar e fogo —, cada um com propriedades fixas. Os estoicos, que dominavam o pensamento de Alexandria, falavam de uma tensão que mantinha esses elementos em ordem. O autor da Sabedoria aceita o quadro e acrescenta Deus como quem afina o conjunto. "Os elementos se trocavam entre si", escreve, "como numa harpa as notas mudam o ritmo e continuam sendo os mesmos sons" (Sabedoria 19:18). Por isso, no deserto, as chamas não derretiam "o alimento celeste, cristalino, fácil de derreter" (Sabedoria 19:21): Deus tinha mudado, para aquele alimento, a regra do fogo.
A solução tem uma vantagem e um preço. A vantagem: não nega nenhum dos dados do texto, nem o derreter ao sol nem o resistir ao forno; explica os dois pela mesma causa. O preço: deixa de ser explicação natural. Dizer que Deus reafinou os elementos é dizer que, para o maná, a física comum não valia.
A lição que a Sabedoria tirou do sol
O autor não para na física. Logo depois do raio de sol que derrete o maná, ele acrescenta a razão: "para que se soubesse que é preciso antecipar-se ao sol para te dar graças, e encontrar-te ao nascer da luz" (Sabedoria 16:28). E fecha com uma comparação dura: "a esperança do ingrato derrete como a geada do inverno e escorre como água inútil" (Sabedoria 16:29).
É a primeira leitura moral do versículo. O derreter do maná vira horário de oração: quem espera o sol esquentar perde o pão, e quem se levanta antes dele encontra o pão e a ocasião de agradecer. A imagem da geada que derrete devolve ao ingrato a comparação que o Êxodo tinha feito para o maná, "miúda como a geada sobre a terra" (Êxodo 16:14). O que o sol desfaz no chão do deserto, ele desfaz também na esperança de quem não agradece.
Essa leitura é de Alexandria, não do Êxodo. O texto hebraico não diz por que o maná derrete e não liga o fenômeno à oração. Mas a Sabedoria mostra como um leitor judeu da Antiguidade, formado na ciência grega, viu o versículo: como um dado de física impossível que só fazia sentido como lição.
3. Análise Teológica do Versículo
"Recolhiam-no"
O capítulo muda de tempo. Até aqui, cada versículo contava um acontecimento único: a primeira manhã, a primeira medida, a primeira regra, a primeira desobediência. Agora a coleta vira rotina. O que era cena passa a ser costume, e o leitor entende que o que acabou de ler vai se repetir todos os dias por muito tempo.
"manhã após manhã"
A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo), no tratado Vayassa, explica a expressão de modo simples: "na hora da manhã". E logo registra a opinião de um grupo que ela chama de "os intérpretes de figuras", rabinos que liam o texto como imagem: daqui se aprende, dizem eles, que a sentença de Gênesis 3:19, "com o suor do seu rosto você comerá o pão", valeu também para o maná. Recolher do chão, todas as manhãs, antes de o sol esquentar, era trabalho. O pão do céu não dispensou ninguém do esforço de se levantar cedo.
O Netsiv (Naftali Tsvi Yehudá Berlin, chefe da academia de Volozhin no século XIX), no Haamek Davar, lê a expressão de um jeito mais estreito, por causa do lugar em que ela está. Logo depois da ira de Moisés contra os que guardaram, "manhã após manhã" seria o castigo deles: quem não tinha mais nenhuma reserva precisava estar no campo antes da luz, para recolher o seu ômer inteiro antes de o maná derreter. É leitura de aproximação, não do sentido simples; mas mostra que o versículo, posto onde está, pode ser lido como consequência do anterior.
Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI) aproxima a expressão de outras com a mesma forma repetida, que querem dizer "todos os dias": "dia após dia" em Gênesis 39:10, e "manhã após manhã" em Êxodo 30:7, quando Arão queima o incenso ao preparar as lâmpadas do santuário. A expressão do maná é a do culto diário, e o item 9 mostra onde ela reaparece.
"cada um conforme o que comia"
É a terceira vez que a fórmula aparece no capítulo. Na primeira (Êxodo 16:16) era ordem; na segunda (Êxodo 16:18), resultado da medida; aqui é hábito. Já não há medição, nem surpresa: cada um sabe quanto precisa e recolhe isso. A regra se tornou costume a ponto de não precisar mais ser conferida.
"e, quando o sol esquentava"
Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu nascido na Espanha, século XII) corrige a frase com uma observação de física: o sol não esquenta, ele é sempre quente; o que esquenta é o dia. A frase quer dizer "quando o dia ficava quente". É o comentarista medieval separando a linguagem do olhar da linguagem do fenômeno.
A Mekhilta quer saber a hora. Responde que era a quarta hora do dia — no sistema antigo, que dividia o período de luz em doze partes, o meio da manhã. E argumenta: não pode ser a sexta hora, o meio-dia, porque o texto diz "quando o sol esquentava", e isso supõe um momento em que o sol esquenta e a sombra ainda está fresca. Ao meio-dia, tudo está quente. A quarta hora é o ponto em que se nota a diferença entre o lugar ao sol e o lugar à sombra.
"derretia"
O que derretia? Não o maná das tendas, que já tinha sido recolhido, mas o que ficava no campo. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) acrescenta isso por extenso: "e o que restava dele sobre a face do campo, quando o sol o esquentava, se desfazia". O versículo, então, não fala da comida da família, mas do excesso que ninguém recolheu. Nos dias comuns, a natureza apagava todo dia o que sobrava, sem que ninguém precisasse jogar fora.
A Mekhilta, e Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido, França, século XI) depois dela, contam o que acontecia com esse excesso. O maná derretido formava regatos que corriam até o Grande Mar, o Mediterrâneo. Cervos e gazelas bebiam deles; os povos vizinhos caçavam esses animais, provavam na carne deles o gosto do maná e entendiam quão grande era Israel. É uma lenda, e lenda tardia, mas faz uma coisa curiosa com o versículo: o que Israel não recolheu não se perdeu, chegou às outras nações por um caminho indireto. A sobra que não podia ser guardada em casa podia alimentar outros.
A física impossível do maná
Com este versículo, o capítulo completa a lista de propriedades do maná, e postas lado a lado elas não combinam.
O maná derrete quando o sol esquenta (aqui). Mas pode ser assado e cozido (Êxodo 16:23), moído em moinho e socado em pilão (Números 11:8) — suporta o fogo que o sol, mais fraco, desfaz. O maná apodrece numa noite (Êxodo 16:20). Mas o recolhido no sexto dia dura até o fim do sábado sem cheiro nem larva (Êxodo 16:24). E o ômer posto no jarro diante do SENHOR dura por gerações (Êxodo 16:33). Frágil ao sol e resistente ao forno; perecível em uma noite, durável em duas, conservado por séculos. Nenhuma substância conhecida faz tudo isso.
A explicação natural — os grãos de açúcar que os insetos da tamargueira deixam nos galhos do Sinai — dá conta de parte do quadro e não do resto; as suas forças e fraquezas estão no estudo de Êxodo 16:14. Há porém um ponto em que a contradição do capítulo é menor do que parece. Uma crosta de açúcar não "derrete" ao sol como gelo; ela amolece e se dissolve com a umidade do orvalho e o calor da manhã, e ainda assim pode ser cozida em água ou misturada em massa e levada ao forno. Derreter no campo e ir à panela em casa não é impossível. O que nenhuma substância natural faz é o resto: apodrecer em um dia comum e não apodrecer no sábado, e durar para sempre num jarro.
Diante disso, as leituras se dividem.
Primeira leitura: o comportamento do maná é milagre, e milagre regulado. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e Ellicott (Charles Ellicott, bispo inglês do mesmo século) insistem em que nenhum maná conhecido se decompõe tão depressa; Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas britânicos do século XIX) lembram que a goma da tamargueira não pode ser assada nem cozida. O maná do texto, para eles, não seguia a natureza, e sim uma ordem. É a mesma solução da Sabedoria de Salomão, sem a física grega.
Segunda leitura: as propriedades do maná são as regras do maná escritas na matéria. Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) e Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XVIII) observam que o derreter impedia o desperdício e a acumulação, obrigando à coleta diária. O Chizkuni (Ezequias ben Manoá, França, século XIII) e Sforno dizem que o povo era diligente de manhã justamente porque depois o maná derretia. Nessa leitura, cada propriedade corresponde a um mandamento: o derreter obriga a levantar cedo; o apodrecer impede de guardar; o durar no sábado permite descansar; o durar no jarro permite lembrar. A física do maná é a lei feita substância.
Terceira leitura: as propriedades vêm de camadas diferentes do texto. Comentaristas críticos modernos, entre eles Brevard Childs no comentário ao Êxodo de 1974, leem o capítulo como composição de tradições de origens diversas, reunidas e reorganizadas em torno do sábado. Nessa leitura, o maná que derrete e o maná que se cozinha não precisavam conviver na mesma substância antes de serem postos no mesmo capítulo. A hipótese explica por que as propriedades não combinam; não explica o que o capítulo, tal como está, quer dizer com elas.
Quarta leitura: um fenômeno real ampliado na memória. É a sugestão dos que partem do maná das tamargueiras e veem no relato a lembrança de um alimento verdadeiro, multiplicado e regrado ao ser contado de geração em geração.
Nenhuma das quatro é exigida pelo texto, e o texto não as discute. Mas há uma coisa que todas as propriedades têm em comum, seja qual for a leitura: nenhuma delas é decidida pelo ser humano. Quanto tempo o maná dura — uma manhã no campo, uma noite na tenda, duas no sábado, gerações no jarro — depende sempre de quem o dá, nunca de quem o recolhe. O povo pode recolher o maná; não pode decidir quanto tempo ele vai durar.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os recolhedores. O sujeito é o povo inteiro, sem distinção. Depois da desobediência de alguns no versículo anterior, todos aparecem de novo fazendo a mesma coisa, "cada um".
O sol. Primeira vez no capítulo em que ele aparece. Até aqui, a luz só estava presente como "manhã"; agora o sol entra como agente, o que desfaz o que ficou no chão.
O campo. O maná estava "sobre a face do deserto" (Êxodo 16:14), fora do acampamento. É lá que ele derrete; o que estava nas tendas já tinha sido recolhido.
A rotina. O evento do versículo não é um acontecimento, mas uma repetição: a coleta diária que, segundo o capítulo, durou até a chegada à terra habitada.
Os animais e as nações, na lenda. Na Mekhilta, cervos e gazelas bebem o maná derretido, e os povos que os caçam provam o seu gosto. São os únicos personagens de fora de Israel que a tradição associa a este versículo.
5. Pontos de Ensino
O maná vira rotina. O capítulo passa da narrativa de estreia para a descrição de um costume diário.
A coleta tem hora. O alimento só podia ser recolhido no começo da manhã; depois, o sol o desfazia.
O excesso some sozinho. O que ninguém recolheu não fica no campo para ser guardado depois. O derreter completa a regra de não deixar resto.
O pão do céu exige trabalho. Para os intérpretes da Mekhilta, a sentença do suor do rosto valeu também no deserto: era preciso levantar cedo e ir ao campo.
As propriedades do maná não combinam entre si. Derrete ao sol, resiste ao forno, apodrece numa noite e dura no sábado. O texto não as reúne nem as explica.
A duração do maná nunca depende de quem o recolhe. Em todos os casos, quanto ele dura é decidido pela regra, não pela vontade de quem o guarda.
6. Aspectos Filosóficos
O maná do versículo pode ser alcançado, mas não pode ser possuído. Está ao alcance da mão todas as manhãs, e some quando o sol esquenta; não se guarda, não se produz, não se adianta. Essa combinação é o centro da obra recente do sociólogo e filósofo alemão Hartmut Rosa (nascido em 1965).
A neve. Rosa abre o livro Unverfügbarkeit (2018, "Indisponibilidade" — o caráter do que não está à nossa disposição) com uma cena de inverno: a primeira neve. Ela fascina, diz ele, justamente porque não podemos fabricá-la nem decidir quando vem. É, nas palavras dele, a forma pura do indisponível. E observa o que a sociedade moderna faz com isso: se não neva, liga-se o canhão de neve artificial, e a pista de esqui funciona mesmo com quinze graus acima de zero. O que era encontro vira serviço.
A comparação com o versículo é quase literal. O Êxodo tinha descrito o maná como "miúdo como a geada sobre a terra" (Êxodo 16:14), e aqui ele derrete ao sol como a geada derrete. É um alimento com as propriedades da neve de Rosa: aparece sem ser fabricado, cobre o chão de manhã, desaparece com o calor, e ninguém consegue guardá-lo nem antecipá-lo.
O programa moderno. Para Rosa, a modernidade se define por um projeto: tornar o mundo disponível em quatro sentidos — visível, alcançável, controlável e utilizável. Conhecer tudo, chegar a tudo, dominar tudo, usar tudo. O estoque é a forma elementar desse projeto: ter à mão, quando se quiser, o que antes dependia da estação. E o paradoxo que ele aponta é que, quanto mais o mundo se torna disponível, mais ele "emudece": as coisas que estão inteiramente sob controle deixam de nos dizer alguma coisa.
A ressonância. Em Resonanz (2016, "Ressonância"), Rosa tinha proposto o conceito que dá sentido a isso. Uma relação de ressonância é aquela em que algo nos toca e nós respondemos, sem que nenhum dos lados controle o outro. Ela exige uma coisa difícil: o que nos toca precisa ser alcançável, mas não pode ser dominável. O que está totalmente fora de alcance não toca; o que está totalmente sob controle não responde. A ressonância mora no meio.
O maná está exatamente nesse meio. É alcançável — basta sair e recolher, cada um conforme o que come. Mas não é controlável: não se guarda, não se acumula, não se antecipa, não se adia. A regra do deserto proíbe justamente o gesto moderno por excelência, o de transformar o que é dado em estoque disponível. O que fica é uma relação que tem de ser refeita todas as manhãs.
O ritmo e a aceleração. O primeiro livro importante de Rosa, Beschleunigung (2005, "Aceleração"), descrevia a sociedade moderna como uma máquina que precisa ir cada vez mais rápido só para ficar no mesmo lugar. Contra isso ele não propunha a lentidão em si, mas tempos próprios, ritmos que não se deixam comprimir. "Manhã após manhã" é um ritmo desse tipo. A coleta não pode ser adiantada nem dobrada nem feita de uma vez para a semana; tem a sua hora, que é o começo do dia, e o seu limite, que é o sol esquentar.
Onde a comparação falha. A indisponibilidade de Rosa inclui a incerteza: a neve pode não vir. O maná do texto vem sempre, todos os dias, por quarenta anos; é indisponível no detalhe e totalmente garantido no conjunto. Para Rosa, a garantia total já seria uma forma de disponibilidade. Há também a diferença de assunto: Rosa escreve sobre a modernidade, e o texto sobre a confiança em Deus. Ele próprio inclui a religião entre as formas de ressonância — a que chama de "eixo vertical", a relação com o que nos excede —, mas como sociólogo, sem tomar partido sobre o que está do outro lado.
Mesmo com esses limites, a comparação ajuda a ver o que o versículo faz. Ele não descreve um alimento escasso; descreve um alimento que não se deixa transformar em posse. A abundância está garantida, mas só na forma de encontro diário. O que derrete ao sol é precisamente aquilo que, em qualquer outro lugar, teria virado estoque.
7. Aplicações Práticas
O versículo descreve uma janela de tempo. O que precisava ser feito tinha de ser feito no começo do dia, antes do calor; depois, não havia como. A aplicação mais direta é essa: há coisas que só existem numa hora, e esperar o momento conveniente é perdê-las. O texto não transforma isso em regra para tudo; mostra apenas que, no deserto, o alimento do dia tinha hora.
Há também a rotina. O capítulo, que até aqui contava novidades, passa a descrever um costume, e o costume é o que sustenta o povo por quarenta anos. Não é a primeira manhã do maná que alimenta; são todas as outras, iguais. Quem espera da vida religiosa só a experiência da primeira vez encontra aqui um texto que dá mais peso ao que se repete.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O que acontecia com quem dormia demais?
O texto não diz. A Mekhilta fixa o limite na quarta hora, o meio da manhã, o que dava algumas horas de margem depois do nascer do sol. E como cada um recolhia "para os que estão na sua tenda" (Êxodo 16:16), é provável que um membro da família cobrisse o outro. Mas o versículo não prevê exceção nenhuma, e quem chegasse tarde ao campo não encontraria nada.
2. E nos dias nublados?
A pergunta não aparece no texto, e no deserto do Sinai, na primavera, dias encobertos são raros. Ela surge para quem junta este versículo com a tradição judaica das "nuvens de glória" que cobririam o acampamento, apoiada em versos como o Salmo 105:39 ("estendeu uma nuvem por coberta"). Se a nuvem fazia sombra, como o sol derretia o maná? A resposta mais simples está no próprio capítulo: o maná ficava "ao redor do acampamento" (Êxodo 16:13), no campo aberto, e não debaixo das tendas.
3. Os animais comiam o maná?
O Êxodo não fala de animais no maná. Os rebanhos que saíram do Egito (Êxodo 12:38) precisavam de pasto, e o texto nunca diz que o maná os alimentava. A lenda da Mekhilta, com cervos e gazelas bebendo o maná derretido, é a única que põe bichos na cena, e só depois do sol.
4. O maná caía também nos dias de marcha?
O versículo descreve a rotina de um acampamento, e o Êxodo não diz o que acontecia nos dias em que o povo levantava as tendas. O Livro dos Números mostra que o acampamento se movia muitas vezes, e Ibn Ezra, entre as objeções contra a identificação natural do maná, conta justamente que o maná do texto acompanhava o povo aonde ele fosse. Como isso se combinava com a coleta da manhã num dia de partida, o texto não explica.
9. Conexão com Outros Textos
"Manhã após manhã" no culto
Êxodo 30:7 — "Arão queimará sobre ele incenso aromático; manhã após manhã, quando preparar as lâmpadas, o queimará."
Levítico 6:12 — "O fogo sobre o altar ficará aceso, não se apagará; o sacerdote acenderá lenha nele manhã após manhã, disporá sobre ele o holocausto e queimará sobre ele a gordura das ofertas de paz."
A mesma expressão hebraica. O maná é recolhido no mesmo ritmo em que, mais tarde, o santuário será servido: o povo recebe todas as manhãs, e o sacerdote oferece todas as manhãs.
Ezequiel 46:13 — "Todos os dias você oferecerá ao SENHOR em holocausto um cordeiro de um ano, sem defeito; manhã após manhã o oferecerá."
No templo imaginado por Ezequiel, a fórmula continua a marcar o que não pode falhar nem um dia.
O povo que trazia todas as manhãs
Êxodo 36:3 — "Receberam de Moisés toda a oferta que os filhos de Israel tinham trazido para a obra do serviço do santuário; e eles continuavam a trazer-lhe ofertas voluntárias, manhã após manhã."
O mesmo povo, a mesma expressão, a direção invertida. No deserto de Sim, o povo saía todas as manhãs para receber; diante do santuário, chegava todas as manhãs para dar. E a oferta foi tanta que, quatro versículos depois, Moisés teve de mandar parar.
O ouvido despertado todas as manhãs
Isaías 50:4 — "O Senhor DEUS me deu uma língua de discípulo, para que eu saiba sustentar com uma palavra o cansado; ele desperta, manhã após manhã, desperta o meu ouvido para que eu ouça como os discípulos."
A mesma expressão, agora aplicada à palavra e não ao pão. O que o maná fazia com o corpo, o servo de Isaías recebe no ouvido: uma porção que vem cada manhã e não se acumula.
O mesmo verbo de derreter
Salmo 97:5 — "Os montes derretem como cera diante do SENHOR, diante do Senhor de toda a terra."
Miqueias 1:4 — "Os montes se derretem debaixo dele, e os vales se fendem, como a cera diante do fogo, como as águas despejadas num declive."
O verbo do maná que derrete ao sol é, nos profetas e nos salmos, o verbo dos montes que se desfazem diante de Deus. No deserto, o mesmo verbo descreve não o poder que destrói, mas o limite do que foi dado.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Recolhiam-no manhã após manhã, cada um conforme o que comia; e, quando o sol esquentava, derretia.
Texto hebraico
וַיִּלְקְטוּ אֹתוֹ בַּבֹּקֶר בַּבֹּקֶר אִישׁ כְּפִי אָכְלוֹ וְחַם הַשֶּׁמֶשׁ וְנָמָס׃
Transliteração
vayyilqetu oto babboqer babboqer, ish kefi okhlo; ve-cham ha-shemesh ve-namas.
Análise palavra por palavra
וַיִּלְקְטוּ — vayyilqetu, "e recolheram".
O verbo de apanhar do chão coisas miúdas, laqat, no Qal (a forma simples do verbo hebraico), na forma narrativa, terceira pessoa do plural. É a forma que normalmente conta um fato único. O sentido de repetição — "recolhiam", como traduz a ABC — não vem do verbo, mas do complemento de tempo que o segue.
אֹתוֹ — oto, "o", "a ele".
A partícula que marca o objeto direto, com o sufixo da terceira pessoa do masculino singular. O maná continua sem nome; é "ele".
בַּבֹּקֶר בַּבֹּקֶר — babboqer babboqer, "manhã após manhã".
A preposição be, "em", com o artigo e o substantivo boqer, "manhã", repetidos. O hebraico forma o sentido de "cada" dobrando a palavra: "dia dia" é "todo dia" (Gênesis 39:10), "manhã manhã" é "toda manhã". A expressão exata aparece poucas vezes, e quase sempre no culto: o incenso de Arão (Êxodo 30:7), a oferta voluntária para o santuário (Êxodo 36:3), a lenha do altar (Levítico 6:5 no hebraico, 6:12 nas traduções), o holocausto do templo de Ezequiel (Ezequiel 46:13-15). Fora do culto, aparece no ouvido despertado do servo (Isaías 50:4), no flagelo que passa toda manhã (Isaías 28:19) e no príncipe Amnom, que definha "manhã após manhã" (2 Samuel 13:4).
A Mekhilta lê a expressão como hora — "no tempo da manhã"; o Netsiv a lê como antecipação, apoiado num uso do Talmude (Yoma 33a) em que a repetição de "manhã" indica fazer cedo.
אִישׁ כְּפִי אָכְלוֹ — ish kefi okhlo, "cada um conforme o seu comer".
A fórmula de Êxodo 16:16 e 16:18, aqui com a preposição ke-, "como", no lugar de le-, "segundo". A diferença está registrada no estudo de Êxodo 16:16. Okhlo é o infinitivo do verbo comer com o sufixo "dele": "o comer dele", a medida da necessidade de cada um.
וְחַם הַשֶּׁמֶשׁ — ve-cham ha-shemesh, "e esquentava o sol".
O verbo chamam, "estar quente, aquecer-se", no perfeito do Qal, terceira pessoa do masculino singular, precedido da conjunção ve, "e". Aqui está a chave gramatical do versículo. O perfeito com "e", depois de uma forma narrativa, é a construção que o hebraico usa para ações que se repetem: "e cada vez que o sol esquentava". O versículo começa com um fato e termina com um hábito.
Shemesh é o sol, com artigo. A palavra é masculina aqui, e feminina em outros lugares da Bíblia. Ibn Ezra observa que, a rigor, quem esquenta é o dia, não o sol.
וְנָמָס — ve-namas, "e derretia".
O verbo masas, "derreter, desfazer-se", no Nifal (a forma passiva ou reflexiva do hebraico), perfeito, também com ve e também com valor de repetição. Ibn Ezra o classifica entre os verbos de raiz com letra dobrada, em que as duas últimas consoantes são iguais.
O verbo é raro para coisas e frequente para pessoas. Quase sempre é o coração que "derrete" de medo: o dos espias (Deuteronômio 1:28), o dos soldados covardes (Deuteronômio 20:8), o dos cananeus diante de Israel (Josué 2:11; 5:1), o do próprio Israel depois da derrota de Ai (Josué 7:5). Quando é coisa, é cera: os montes que derretem como cera diante de Deus (Salmo 97:5; Miqueias 1:4), o coração do salmista "como cera, derretido dentro de mim" (Salmo 22:14). E há um uso singular em 1 Samuel 15:9, onde o particípio da mesma raiz descreve o despojo "desprezível e sem valor" que Saul destruiu. O maná é o único alimento da Bíblia de que se diz que derrete.
O Targum de Ônquelos não traduz por "derreter", mas por pashar, "amornar, ficar morno". Rashi explica a escolha com a palavra do hebraico rabínico para "água morna" e a traduz para o francês antigo do seu tempo por destemprer, "desfazer-se". O aramaico imagina o maná não se liquefazendo como gelo, mas perdendo a forma no calor.
A Septuaginta
O grego diz kai synelexan auto prōi prōi, hekastos to kathēkon autō; hēnika de diethermainen ho hēlios, etēketo. "Manhã manhã" é mantido com a repetição. "Conforme o seu comer" vira to kathēkon autō, "o que lhe cabia": o tradutor pensa na porção devida, não no apetite. "Esquentava" é diethermainen, "aquecia de ponta a ponta", no imperfeito, e "derretia" é etēketo, do verbo tēkō, o mesmo que a Septuaginta usa para a cera que derrete diante do fogo nos salmos. Os dois verbos no imperfeito confirmam, em grego, o valor de repetição que o hebraico deu com o perfeito.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva primeiro a esta conclusão: o maná deixou de ser acontecimento e se tornou costume. O capítulo passa da primeira manhã para todas as manhãs, e é a repetição, e não a estreia, que sustenta o povo.
Leva também a concluir que o excesso não sobrevivia ao dia. O que não se recolhia derretia no campo; o que se recolhia além da conta apodrecia na tenda. Entre o sol e o verme, não havia lugar para estoque.
E leva à conclusão que dá sentido às propriedades contraditórias do maná. Explicadas como milagre, como lei feita substância, como camadas de tradição ou como memória ampliada, elas têm um traço comum que nenhuma leitura apaga: a duração do maná nunca foi decidida por quem o recolhia. O povo tinha acesso diário ao alimento, mas nunca o domínio sobre ele.













