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Êxodo 16:1

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 41 acessos
Partiram de Elim, e toda a congregação dos filhos de Israel chegou ao deserto de Sim, que fica entre Elim e o Sinai, no décimo quinto dia do segundo mês depois que saíram da terra do Egito.
Multidão de israelitas com tendas enroladas, jumentos e rebanhos chegando a uma planície larga de cascalho entre o mar e montanhas escuras, ao fim da tarde, com um oásis de palmeiras ficando para trás.

Estudo


Partiram de Elim, e toda a congregação dos filhos de Israel chegou ao deserto de Sim, que fica entre Elim e o Sinai, no décimo quinto dia do segundo mês depois que saíram da terra do Egito.

1. Introdução

Um mês depois de sair do Egito, o povo deixa o oásis de Elim e entra num deserto que tem nome, mas não tem endereço certo: o deserto de Sim.

O versículo é de itinerário — partida, chegada, data — e por isso parece não dizer nada; mas traz a primeira data registrada desde a noite da saída, e os leitores antigos se perguntaram por que ela está aqui.

É também a primeira vez que o nome Sinai aparece na Bíblia, como ponto de referência de um lugar que ainda não foi alcançado.

A lista de etapas do livro de Números conta essa mesma marcha com paradas que o Êxodo não menciona, e a diferença diz alguma coisa sobre como o texto escolhe o que narrar.

E é aqui, no dia seguinte a esta data, que começa a história do maná.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde fica um deserto definido por dois outros lugares

O versículo não descreve o deserto de Sim. Diz apenas que ele fica "entre Elim e o Sinai". É uma localização relativa: só funciona para quem já sabe onde ficam os dois pontos. E nenhum dos dois tem endereço seguro.

O nome aparece só quatro vezes na Bíblia (aqui, em Êxodo 17:1 e em Números 33:11-12), e nenhum nome árabe moderno o conservou. Toda identificação é dedução a partir do caminho.

As duas planícies candidatas

Quem aceita a rota tradicional — o povo descendo pela costa oeste da península até as montanhas do sul — tem dois candidatos, e os comentaristas do século XIX se dividiram entre eles.

O primeiro é a planície de El-Markha, uma faixa larga e plana de cascalho ao longo da margem oriental do golfo de Suez, ao sul do ponto em que se costuma pôr Elim. Edward Robinson (geógrafo bíblico norte-americano que percorreu o Sinai em 1838) já a preferia. A expedição britânica de levantamento topográfico do Sinai, de 1868-69, chefiada pelos capitães Charles Wilson e Henry Spencer Palmer e acompanhada pelo orientalista Edward Henry Palmer, chegou à mesma conclusão: depois de Elim, a marcha voltaria à costa — o acampamento "junto ao mar dos Juncos" que Números 33:10 registra — e seguiria pela planície costeira até o vale de Feiran, que sobe para as montanhas.

O segundo é a Debbet er-Ramleh ("a planície da areia", em árabe), um cinturão arenoso no interior, entre o planalto de calcário do centro da península e o maciço de granito do sul. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) e Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) preferiam essa rota alta, que não volta ao mar.

O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) registra o problema que sobra nas duas: nenhuma das planícies fica, com naturalidade, "entre" Elim e o Sinai. As duas ficam no caminho, não no meio.

O que a arqueologia achou na costa

A planície de El-Markha ganhou nas últimas décadas um dado que os viajantes do século XIX não tinham, e ele muda a imagem do lugar.

Do outro lado do golfo, no litoral africano, a equipe de Pierre Tallet (egiptólogo francês da Sorbonne) escava desde 2011, em Wadi el-Jarf, um dos portos mais antigos que se conhecem: um molhe de pedra, galerias de armazenagem para barcos desmontados, alojamentos de trabalhadores e um lote de papiros administrativos do reinado de Quéops, por volta de 2600 antes de Cristo. Ali o mar Vermelho tem no máximo cinquenta quilômetros de largura, e o porto fica exatamente em frente às praias de El-Markha. Tallet e Grégory Marouard publicaram em 2016 o argumento de que os dois lados formavam um sistema só.

Na margem do Sinai, Gregory Mumford (arqueólogo da Universidade do Alabama em Birmingham) escavou em Tell Ras Budran, na beira da planície, uma fortificação circular do fim do Império Antigo, e identificou mais ao sul, em Tell Markha, outra instalação egípcia, do Império Novo. As expedições do faraó atravessavam o golfo de barco, desembarcavam nessas praias e subiam pelos vales até as minas de cobre e de turquesa do sudoeste da península.

Se o deserto de Sim é El-Markha, ele não era um vazio desconhecido. Era a porta de entrada do Estado egípcio no Sinai, um litoral por onde, durante séculos, passaram homens abastecidos por barco a partir do Egito. A fome do capítulo 16 aconteceria, então, numa faixa de terra em que o pão sempre tinha chegado de fora. Os dados arqueológicos são de épocas anteriores à cena do Êxodo, e a identificação de Sim com El-Markha continua sendo hipótese; o que eles mostram é o tipo de lugar que essa costa era.

As outras rotas levam o deserto junto

Quem põe o monte no norte da península, ou fora dela, no noroeste da Arábia, desloca também o deserto de Sim, porque ele está amarrado ao monte pelo próprio versículo. As propostas de localização do Sinai, e por que nenhuma fecha, estão no estudo de Êxodo 3:1.

3. Análise Teológica do Versículo

"Partiram de Elim"

O verbo é o de arrancar as estacas da tenda, e é a palavra técnica de todo itinerário do deserto. A lista de Números 33 a repete dezenas de vezes, sempre no mesmo molde: partiram de tal lugar e acamparam em tal outro.

O Êxodo, aqui, quebra o molde. Não diz "acamparam no deserto de Sim"; diz "chegaram". E não diz que, entre Elim e Sim, houve outra parada. Números 33:10-11 diz: de Elim o povo foi acampar junto ao mar dos Juncos, e só depois entrou no deserto de Sim. E Números 33:12-14 acrescenta mais duas paradas depois de Sim, Dofca e Alus, antes de Refidim — o lugar onde Êxodo 17:1 põe o povo logo em seguida.

Por que o Êxodo encurta o caminho? Há três respostas.

Primeira leitura: nada aconteceu nas paradas omitidas. É a de Keil e Delitzsch e de Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do século XVIII). Funciona para o mar dos Juncos; funciona menos para Dofca e Alus, porque o Êxodo dá a entender que o povo foi direto de Sim a Refidim.

Segunda leitura: o deserto de Sim era grande, e as paradas ficam dentro dele. É a de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII). Para ele, o deserto se estendia de Elim até o Sinai; o acampamento junto ao mar já estava na borda dele, e Dofca e Alus eram etapas no meio dele. Daí ele tira uma consequência para o versículo seguinte: o povo não murmurou ao chegar, mas depois de acampar duas e três vezes sem conseguir sair daquela vastidão. Ele se apoia no Shemot Rabá (coletânea medieval de comentário rabínico ao Êxodo), segundo o qual o maná começou a cair em Alus.

Terceira leitura: as duas listas vêm de documentos diferentes. É a da crítica moderna: Números 33 conserva um itinerário independente, de estilo administrativo, e o Êxodo uma narrativa que escolheu outras paradas. A hipótese explica as diferenças sem forçar nenhum dos textos, e não tem como ser verificada.

O que se pode afirmar é o que está nos dois livros: o Êxodo conta a marcha pelos episódios, Números a conta pelos acampamentos, e a soma das duas listas não fecha sem que alguém a arrume.

"e toda a congregação dos filhos de Israel chegou"

A palavra "congregação" não aparecia desde a noite da Páscoa (Êxodo 12:3 e 12:6). Era a palavra do rito, do povo reunido para imolar o cordeiro. Ela volta agora, no deserto, para designar o povo que chega com fome.

O Haamek Davar (comentário do rabino Naftali Tsvi Yehuda Berlin, Lituânia, século XIX) lê na frase um movimento. Até ali, diz ele, o povo caminhava espalhado, sem a ordem de acampamento por bandeiras que só viria depois; muita gente se afastava do núcleo do grupo e andava por perto. Quando a comida acabou, todos se juntaram num só lugar para cobrar de Moisés e Arão o que precisavam. "Toda a congregação chegou" seria, nessa leitura, a descrição de uma convergência: a fome reuniu quem a marcha tinha dispersado.

A leitura é do comentarista; o texto só diz que chegaram todos.

"ao deserto de Sim, que fica entre Elim e o Sinai"

A explicação geográfica parece inútil — a quem ela serve, se nenhum dos três lugares tinha endereço para o leitor? Nachmânides responde: ela serve para distinguir. Existe outro deserto de nome parecido, o deserto de Zim, onde o povo chegará no quadragésimo ano e onde Miriã morrerá (Números 20:1). Por isso, diz ele, quando Números menciona Zim, acrescenta "isto é, Cades" (Números 33:36), e quando o Êxodo menciona Sim, acrescenta "entre Elim e o Sinai". Os dois nomes diferem só por uma letra (item 10).

A frase faz ainda outra coisa: define o lugar só pela posição no caminho, sem nada que ele próprio tenha — nem fonte, nem árvore.

E o ponto à frente é nomeado aqui pela primeira vez na Bíblia. O monte que o capítulo 3 chamou de Horebe entra no texto com o nome que terá no resto do Êxodo, antes de o povo chegar a ele. O leitor fica sabendo para onde se vai no versículo em que o povo começa a querer voltar.

"no décimo quinto dia do segundo mês"

O povo saiu no dia quinze do primeiro mês (Números 33:3). Chega a Sim no dia quinze do segundo. Passou exatamente um mês. Desde a noite da saída, é a primeira data do relato.

Por que o texto data este acampamento e não os outros? Os intérpretes deram respostas de quatro tipos.

Primeira: a data marca o fim da comida trazida do Egito. É a de Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII), em uma linha: foi o dia em que acabou o pão sem fermento levado nos ombros. Rashi (Salomão ben Isaac, França, século XI), seguindo a Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III), faz a conta: a massa durou trinta e um dias e rendeu sessenta e uma refeições, e o maná caiu no dia seguinte, dezesseis do mês. A base material dessa conta — a saída sem provisão — é desenvolvida no estudo de Êxodo 12:39.

Segunda: a data serve ao calendário da semana. A Mekhilta pergunta por que o versículo diz "dia" e responde que aquele dia era sábado — o sábado que vinha se repetindo desde a criação, sem nome, até ser dado a Israel. Saadia Gaon (rabino e filósofo do Egito e da Babilônia, século X) usa a data para provar que a saída aconteceu numa quinta-feira; Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) aceita a conclusão por ser tradição e recusa o raciocínio, porque nada garante que o maná caiu na manhã seguinte à chegada.

Terceira: a data serve para contar até o Sinai. A mesma Mekhilta junta este versículo a Êxodo 19:1 ("no terceiro mês") e calcula o dia da revelação no monte. A data de Sim vira um marco na contagem que leva à lei.

Quarta: a data mede o desânimo. É a de Nachmânides: o povo esperava achar cidades em poucos dias, e um mês sem lugar habitado o convenceu de que morreria naquela vastidão (é a situação do Salmo 107:4-5: "andaram errantes pelo deserto… e não acharam cidade onde morar"). A data marca a paciência esgotada, não a despensa vazia. Ibn Ezra junta as duas coisas: em trinta dias o povo tinha comido o pão e boa parte do gado.

O versículo dá a data e não diz por quê, e nenhuma das razões é demonstrável. O que a data faz de modo indiscutível é pôr um relógio na crise: a queixa seguinte não acontece no susto da travessia, nem no terceiro dia, como em Mara. Acontece no trigésimo.

"depois que saíram da terra do Egito"

A contagem do tempo começa na saída. É assim que o Êxodo e Números vão datar daqui em diante — "no terceiro mês" (Êxodo 19:1), "no segundo ano da saída" (Números 1:1). A libertação vira o marco zero do calendário.

Um mês depois, o Egito continua sendo o ponto de referência — e no versículo 3 o povo também vai medir tudo a partir dele, olhando para trás.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A congregação dos filhos de Israel — o povo inteiro, designado pela palavra que o capítulo 12 usou para a assembleia da Páscoa. Neste versículo ela é sujeito de uma chegada; no seguinte, de uma queixa.

Elim — o oásis de doze fontes e setenta palmeiras de onde o povo parte (Êxodo 15:27). A tradição identifica o lugar com o Wadi Gharandel, no oeste da península.

O deserto de Sim — região sem identificação segura, nomeada só quatro vezes na Bíblia. As candidatas são a planície costeira de El-Markha e a planície arenosa de Debbet er-Ramleh, no interior (item 2).

O Sinai — o monte da lei, nomeado aqui pela primeira vez. Antes, só o nome Horebe (Êxodo 3:1). O povo só chegará a ele no terceiro mês (Êxodo 19:1).

As paradas que o Êxodo não registra — o acampamento junto ao mar dos Juncos, entre Elim e Sim (Números 33:10); Dofca e Alus, entre Sim e Refidim (Números 33:12-14). Nenhuma das duas últimas tem identificação aceita. Dofca já foi aproximada, pelo som, do nome egípcio da região das minas de turquesa; é hipótese sem confirmação.

O outro Sim — Ezequiel 30:15-16 fala de uma cidade chamada Sim, "a fortaleza do Egito", que a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) traduz por Pelúsio, a praça-forte da fronteira nordeste do delta. O nome é escrito com as mesmas letras, e o lugar não tem relação nenhuma com este deserto.

O acontecimento — a chegada a Sim no dia quinze do segundo mês, um mês exato depois da saída. Segundo a tradição rabínica, o dia em que acabou o pão trazido do Egito. No dia seguinte, segundo a mesma tradição, cai o primeiro maná.

5. Pontos de Ensino

A crise tem data

O texto não apresenta a fome como coisa do primeiro dia. Ela aparece um mês depois da saída, e o versículo marca o dia. O tempo faz parte do problema: o que se aguenta numa semana não se aguenta num mês, e o relato registra o ponto em que o fôlego acaba.

A comunidade que se junta

"Toda a congregação" chega. A palavra que o capítulo 12 usou para a assembleia reunida em torno do cordeiro descreve agora uma multidão reunida em torno da falta. O mesmo grupo, com o mesmo nome, em duas situações opostas — e o texto não muda a palavra.

O texto não comenta a chegada

Não há queixa neste versículo, nem elogio, nem milagre. Há partida, chegada e data. A tentação de ler a murmuração já aqui é grande, porque o leitor sabe o que vem. O versículo não a autoriza: ele termina com o povo chegando.

6. Aspectos Filosóficos

O deserto como lugar de passagem

O versículo define um lugar por dois outros: o deserto de Sim fica "entre Elim e o Sinai". Não tem nada próprio que mereça descrição. É o espaço que se atravessa entre o que ficou para trás e o que ainda não se alcançou. A pergunta que isso levanta é antiga: o que é estar num lugar que só existe como intervalo? E o que acontece com quem não sabe quanto tempo vai durar a travessia?

Ninguém no século XX pensou o deserto com tanta insistência quanto Edmond Jabès (poeta e pensador de língua francesa, nascido no Cairo em 1912 e morto em Paris em 1991). E a biografia dele toca o Êxodo de um jeito quase literal: judeu nascido no Egito, foi obrigado a deixar o país em 1957, depois da crise de Suez, quando a comunidade judaica egípcia foi empurrada para fora. Saiu do Egito sem escolher a hora, e passou o resto da vida escrevendo sobre o deserto.

O deserto de Jabès

A obra central dele é Le Livre des Questions ("O Livro das Perguntas"), sete volumes publicados entre 1963 e 1973: fragmentos, diálogos de rabinos imaginários, aforismos, uma história de amor destruída pela deportação. O deserto aparece ali como paisagem e como método.

Nas conversas com Marcel Cohen publicadas em 1980 com o título Du désert au livre ("Do deserto ao livro"), Jabès conta que, no Cairo, saía sozinho para o deserto e ficava lá dias inteiros, e diz, em substância, que ninguém vai ao deserto para encontrar a própria identidade, mas para perdê-la — para tornar-se anônimo, esvaziado, disponível. O deserto, para ele, é o lugar em que as palavras perdem o ornamento e sobra só a pergunta.

Daí a aproximação que atravessa a obra inteira: o deserto, o livro e a condição judaica são, para Jabès, três formas da mesma experiência. O escritor habita a página como o nômade habita a areia, sem casa fixa; o judeu do exílio habita um texto em vez de uma terra. E nenhum dos três chega ao fim: o deserto de Jabès não leva a lugar nenhum. A errância é a condição, não a etapa.

O deserto do Êxodo é outro

Posto ao lado deste versículo, o pensamento de Jabès mostra pelo contraste o que o texto faz.

O deserto de Sim tem data. Tem uma partida nomeada e um destino nomeado. Tem uma lista de etapas em outro livro, que conta cada acampamento. O Êxodo não deixa o deserto sem medida: põe nele calendário, itinerário e um monte no horizonte. Onde Jabès vê a errância sem fim como verdade da condição humana, o versículo vê um intervalo com começo e fim — "entre Elim e o Sinai".

E, no entanto, a experiência que Jabès descreve aparece no versículo seguinte. Um mês de caminho sem cidade, e o povo perde o que o mantinha de pé. O deserto, mesmo datado, faz o que Jabès diz que ele faz: tira de quem o atravessa as referências de antes. O que o povo vai pedir no versículo 3 é justamente a identidade perdida — a mesa, a panela, o lugar conhecido.

O limite da aproximação

Jabès escreve depois da Shoá e de um exílio pessoal, e o deserto dele é sobretudo uma figura da escrita e da perda. Ele não comenta este versículo, e transferir para o Êxodo a ideia de uma errância sem destino seria contradizer o próprio texto, que dá ao deserto um "entre" e um calendário. A aproximação é leitura possível: serve para ver que o versículo, ao datar e localizar, recusa a imagem do deserto como vazio sem medida — e para notar que, mesmo assim, o vazio vai cobrar o seu preço na frase seguinte.

7. Aplicações Práticas

Dar data à crise

O texto marca o dia em que a comida acabou. Em situação de aperto, saber há quanto tempo se está nela muda a leitura do que se sente: o cansaço do trigésimo dia não é fraqueza de caráter, é o trigésimo dia. Quem acompanha alguém numa travessia longa — doença, desemprego, mudança de país — ganha em contar o tempo, e não só o tamanho da dificuldade.

A história resumida e a lista completa

O Êxodo conta o caminho pelos acontecimentos; Números o conta pelos acampamentos. Quem relata a própria trajetória costuma fazer como o Êxodo — e esquece as paradas em que nada aconteceu. Elas também fizeram parte do caminho.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A data é precisa demais para ser real?

Ela é coerente com as outras datas do relato: saída no dia quinze do primeiro mês, chegada a Sim no dia quinze do segundo, chegada ao Sinai no terceiro mês. Esse esqueleto de datas pertence a uma camada do Pentateuco que gosta de calendário, e os estudiosos discutem se ele conserva memória ou organiza a narrativa depois. Não é possível decidir. O que se pode dizer é que a data não serve a nenhum efeito dramático: ela simplesmente marca um mês.

Quanto tempo o povo ficou no deserto de Sim?

O capítulo 16 inteiro se passa ali, com pelo menos uma semana completa, porque inclui o primeiro sábado. Êxodo 17:1 diz que o povo saiu de Sim "por suas etapas", e Números 33 põe duas paradas entre Sim e Refidim. Somando, a estada na região vai de uma a duas semanas, se as paradas de Números estiverem dentro do mesmo deserto, como quer Nachmânides. É conta de intérprete, não dado do texto.

O nome Sim tem relação com o deus-lua mesopotâmico chamado Sin?

A semelhança é de som, e foi proposta muitas vezes, junto com a ligação entre Sim e Sinai. Não há texto antigo que ligue o deserto a um culto lunar, e o nome pode ter outra origem que não conhecemos. É hipótese sem apoio além da semelhança.

9. Conexão com Outros Textos

A lista de etapas

Números 33:10-14 — "Partiram de Elim e acamparam junto ao mar dos Juncos. Partiram do mar dos Juncos e acamparam no deserto de Sim. Partiram do deserto de Sim e acamparam em Dofca. Partiram de Dofca e acamparam em Alus. Partiram de Alus e acamparam em Refidim; ali não havia água para o povo beber."

É a versão completa do caminho que o Êxodo resume em uma linha. Três paradas que o Êxodo não nomeia, uma antes de Sim e duas depois.

A saída do deserto de Sim

Êxodo 17:1 — "Toda a congregação dos filhos de Israel partiu do deserto de Sim, por etapas, segundo a ordem do SENHOR, e acampou em Refidim; e não havia água para o povo beber."

"Por suas etapas" é o único sinal, no Êxodo, de que houve mais paradas do que as narradas. E o sujeito é de novo "toda a congregação".

As datas que fazem o calendário da saída

Êxodo 19:1 — "No terceiro mês depois que os filhos de Israel saíram da terra do Egito, neste dia, chegaram ao deserto do Sinai."

A mesma fórmula de Êxodo 16:1 — o tempo contado "da saída" — na data seguinte do caminho. A Mekhilta usa justamente este par, Êxodo 16:1 e 19:1, para calcular o dia da revelação.

O outro deserto, com outra letra

Números 20:1 — "Os filhos de Israel, toda a congregação, chegaram ao deserto de Zim no primeiro mês, e o povo ficou em Cades. Ali morreu Miriã e ali foi sepultada."

É o deserto que Nachmânides quer distinguir deste. A frase de abertura é quase igual à de Êxodo 16:1 — "toda a congregação… chegaram ao deserto" —, quarenta anos depois.

A releitura que transforma o deserto em fidelidade

Jeremias 2:2 — "Lembro-me de ti, da afeição da tua mocidade e do amor do teu noivado, quando andavas após mim no deserto, numa terra não semeada."

Sforno (Obadias Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI) cita este texto ao comentar Êxodo 16:1: a entrada no deserto de Sim seria o seguimento que Deus lembra com carinho. O uso desse versículo para elogiar a saída sem provisão está no estudo de Êxodo 12:39; aqui ele é aplicado à própria marcha. É a leitura do profeta, séculos depois; o Êxodo, no versículo seguinte, mostra o mesmo povo reclamando.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Partiram de Elim, e toda a congregação dos filhos de Israel chegou ao deserto de Sim, que fica entre Elim e o Sinai, no décimo quinto dia do segundo mês depois que saíram da terra do Egito.

Texto hebraico

וַיִּסְעוּ מֵאֵילִם וַיָּבֹאוּ כָּל־עֲדַת בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל אֶל־מִדְבַּר־סִין אֲשֶׁר בֵּין־אֵילִם וּבֵין סִינָי בַּחֲמִשָּׁה עָשָׂר יוֹם לַחֹדֶשׁ הַשֵּׁנִי לְצֵאתָם מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם׃

Transliteração

va-yis'u me-Elim va-yavo'u kol-adat benei-Yisra'el el-midbar-Sin asher bein-Elim u-vein Sinai ba-chamishah asar yom la-chodesh ha-sheni le-tse'tam me-erets Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַיִּסְעוּ — va-yis'u, "e partiram". Raiz nasa', no Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), terceira pessoa do plural, na forma verbal que encadeia a narrativa. O sentido de base é arrancar — arrancar as estacas da tenda —, e daí "levantar acampamento", "pôr-se em marcha". É o verbo de todo o itinerário de Números 33, onde abre quase todas as frases.

מֵאֵילִם — me-Elim, "de Elim". A preposição min ("de", ponto de partida), encurtada e colada ao nome.

וַיָּבֹאוּ — va-yavo'u, "e chegaram". Raiz bo', "vir", "entrar", "chegar", no Qal, terceira pessoa do plural. O itinerário de Números usaria aqui "acamparam"; o Êxodo usa o verbo da chegada.

O sujeito é singular e feminino ("toda a congregação"), e o verbo está no plural masculino: concorda com as pessoas, não com a palavra.

כָּל־עֲדַת בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל — kol-adat benei-Yisra'el, "toda a congregação dos filhos de Israel".

Edah é a comunidade convocada, o grupo que se reúne num lugar marcado. A palavra é ligada pela maioria dos dicionários à raiz ya'ad, "marcar encontro", "designar" — a mesma de mo'ed, o tempo marcado e a tenda do encontro. Na Torá a palavra estreia em Êxodo 12:3, na ordem da Páscoa. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) traduz por synagōgē, "reunião", de onde vem "sinagoga".

אֶל־מִדְבַּר־סִין — el-midbar-Sin, "ao deserto de Sim".

El é a preposição de direção. Midbar está na forma de ligação, presa ao nome próprio: "deserto de". Sin se escreve com a letra samekh, um "s" simples. O deserto de Zim, onde Miriã morre (Números 20:1), escreve-se com tsade, um "ts". É essa letra que Nachmânides invoca. O mesmo Sin, com samekh, nomeia a fortaleza egípcia de Ezequiel 30:15-16.

אֲשֶׁר בֵּין־אֵילִם וּבֵין סִינָי — asher bein-Elim u-vein Sinai, "que [está] entre Elim e entre o Sinai".

Asher é o relativo, "que". A frase não tem verbo; o hebraico dispensa o "estar" em frases desse tipo. Bein… u-vein é a construção hebraica de "entre A e B": repete-se a preposição antes de cada termo, "entre A e entre B".

Sinai aparece aqui pela primeira vez na Bíblia.

בַּחֲמִשָּׁה עָשָׂר יוֹם — ba-chamishah asar yom, "no décimo quinto dia", literalmente "no cinco-dez dia". O hebraico não tem ordinais acima de dez: diz o cardinal, "quinze", e acrescenta "dia". É essa palavra yom que a Mekhilta interroga (item 3).

לַחֹדֶשׁ הַשֵּׁנִי — la-chodesh ha-sheni, "do segundo mês". Chodesh é o mês e é também a lua nova, porque o mês começa com ela. O segundo mês é o que a tradição judaica chama de Iar, nome de origem babilônica; 1 Reis 6:1 o chama de Ziv.

לְצֵאתָם — le-tse'tam, "da saída deles", literalmente "do sair deles". Infinitivo da raiz yatsa', "sair", com a preposição le- e o sufixo de terceira pessoa do plural. É a fórmula de datar a partir da saída, que se repete em Êxodo 19:1, Números 1:1, 9:1 e 33:38. Aqui o verbo está na forma simples, com o povo por sujeito: eles saíram. Não é a forma causativa, "fazer sair", que o Êxodo reserva para Deus.

מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם — me-erets Mitsrayim, "da terra do Egito". A preposição de origem, min, e o nome do país na forma de ligação com erets, "terra".

11. Conclusão

Do que se examinou, o versículo leva a três conclusões.

A crise do deserto tem relógio. O texto data a chegada a Sim um mês exato depois da saída, e a tradição leu nessa data o fim do pão trazido do Egito, a paciência esgotada de quem não achou cidade, o calendário até o Sinai. Seja qual for a razão, a queixa que vem a seguir não nasce do susto: nasce de trinta dias. Quem a julgar deve julgar com esse número.

O caminho é contado de duas maneiras, e a Bíblia guarda as duas. O Êxodo nomeia os lugares onde algo aconteceu; Números enumera os acampamentos. A narrativa é seletiva, e o próprio cânon fornece o material para ver o que ela deixou de fora. A soma das duas listas exige arranjo, e os intérpretes, de Nachmânides à crítica moderna, arranjaram de modos diferentes.

O deserto de Sim existe no texto como intervalo. Sem descrição e sem identificação segura, ele vale pela posição entre o oásis e o monte. Antes de dar a lei, o texto dá a direção — e é nesse espaço entre dois lugares que o povo vai pedir para voltar.

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Êxodo 16:1

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