Então chegaram a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras; e acamparam ali, junto às águas.
1. Introdução
Depois da água amarga, um oásis: doze fontes, setenta palmeiras, e o povo acampa junto às águas.
O versículo é só descrição — não tem fala, nem queixa, nem milagre — e justamente por isso os leitores se perguntaram por que ele existe e por que traz números tão exatos.
A tradição rabínica leu nas doze fontes as doze tribos e nas setenta palmeiras os setenta anciãos; outros comentaristas viram ali só um bom lugar, e houve quem calculasse quantos dias o povo ficou.
O lugar tem identificação provável num vale do oeste do Sinai, e o nome Elim, "árvores grandes", fala do que se via de longe.
E a passagem de Mara a Elim, do amargo ao abundante em poucas horas de caminhada, é a primeira alternância de falta e fartura que vai marcar o deserto inteiro.
2. Contexto Histórico e Cultural
Wadi Gharandel: o oásis que os viajantes chamaram de Elim
A maioria dos geógrafos bíblicos identifica Elim com o Wadi Gharandel, um vale seco que desce das montanhas para o golfo de Suez, no lado ocidental da península do Sinai. Fica a cerca de dez quilômetros ao sul da fonte salobra que costuma ser identificada com Mara — duas horas de caminhada, nas contas de Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX); seis a sete milhas inglesas, nas de Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) e do Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa).
O que torna o vale um bom candidato é a água. O Wadi Gharandel é um dos maiores leitos de enxurrada do oeste do Sinai e tem nascentes que correm o ano inteiro, além do riacho que se forma no inverno. Os viajantes do século XIX descreveram capim alto, acácias, tamargueiras e palmeiras — um oásis, depois de uma faixa longa de deserto sem nada.
Arthur Penrhyn Stanley (clérigo e historiador inglês, que percorreu o Sinai em 1853 e publicou Sinai and Palestine, "Sinai e Palestina", em 1856) deixou a descrição das palmeiras que os comentaristas ingleses passaram a citar: não eram como as do Egito ou as das gravuras, mas anãs, sem tronco, ou então de troncos peludos e selvagens, com as folhas desgrenhadas. A palmeira de oásis do Sinai, que ninguém poda nem rega, não tem a figura do coqueiral de cartão-postal.
A identificação não é certa, e os próprios defensores dizem isso. O Cambridge Bible avisa que ela "não deve ser tida como certa", e depende de onde se coloca a travessia do mar, assunto que tem dono no estudo do capítulo 14. Comentaristas antigos lembram que vales vizinhos, como o Wadi Useit e o Wadi Taiyibeh, também têm água e palmeiras, e Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) imagina que a multidão se espalhou por eles.
O que doze fontes e setenta palmeiras querem dizer num deserto
No deserto, "fonte" não quer dizer necessariamente um jorro. Muitas são afloramentos pequenos, poças que se formam onde a água subterrânea chega à superfície no leito do vale, e que os nômades aprofundam cavando. Doze delas num mesmo lugar é muita água para o Sinai.
A tamareira é a árvore do oásis porque precisa de muita água nas raízes e suporta calor extremo — o provérbio árabe diz que ela quer "os pés na água e a cabeça no fogo". Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) tirou daí um argumento: o texto menciona as palmeiras para mostrar que ali a água era doce, porque palmeira não cresce com água amarga. O argumento tem um limite: a tamareira está entre as árvores frutíferas que mais toleram água salobra. A presença dela mostra água abundante, não necessariamente água doce.
Ibn Ezra fez outra observação de quem conhece o calendário agrícola: no segundo mês da primavera, quando Israel esteve ali (Êxodo 16:1), as tâmaras não estão maduras — amadurecem no fim do verão. O texto não diz que o povo comeu tâmaras, e nem podia. As palmeiras davam sombra e sinalizavam água; não davam comida.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então chegaram a Elim"
Mara ganhou o nome pelo que aconteceu ali — a água era amarga, "por isso o lugar foi chamado Mara" (Êxodo 15:23). Elim não ganha explicação nenhuma: já tem nome quando o povo chega. E o nome descreve o que se via de longe. Elim é o plural de uma palavra para árvore grande — o terebinto, o carvalho, a árvore que marca um lugar —, e o Cambridge Bible traduz "Terebintos", ou talvez "Árvores sagradas". Num deserto, um lugar chamado "Árvores" é um lugar com água.
Os rolos da Torá separam este versículo do anterior com um espaço em branco. A cena de Mara termina na promessa de cura; Elim abre um trecho novo, que continua no capítulo 16 — "partiram de Elim" é o começo da história do maná (Êxodo 16:1). A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) também abre aqui uma nova seção. Na divisão antiga do texto, Elim não é o fecho feliz de Mara: é a parada de onde se sai para a próxima falta.
"onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras"
Por que o texto conta as fontes e as árvores? Nenhuma outra parada do deserto é descrita assim. A pergunta é de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), e as respostas se dividem em três.
Primeira leitura: os números descrevem um lugar bom, por contraste com Mara. É a de Ibn Ezra: a água era abundante e doce, e o povo ficou ali mais tempo do que nas outras paradas. Nachmânides objeta com dois argumentos. Setenta palmeiras não são grande coisa — nos vales baixos há mil num só lugar, e a Bíblia não as menciona. E a lista das etapas em Números repete a descrição de Elim inteira, com as fontes e as palmeiras, sem falar nada da água amarga de Mara (Números 33:8-9). Se o motivo fosse o contraste, ele estaria lá também.
Segunda leitura: os números medem um milagre de suficiência. A Mekhilta diz que doze fontes que davam para setenta palmeiras deram para seiscentos mil homens, e sobrou. Saadia Gaon (rabino e filósofo do Egito e da Babilônia, século X) propôs outra saída para a desproporção: setenta espécies de palmeira, não setenta árvores. Outros, citados por Ibn Ezra, falaram em setenta palmeiras por tribo, ou por pessoa. Ibn Ezra descarta tudo isso: as fontes e as palmeiras não foram criadas para Israel, já estavam ali, e não há por que inflar os números de um oásis que o povo usou como pouso.
Terceira leitura: os números são tribos e anciãos. Rabi Elazar de Modiin, na Mekhilta, diz que no dia em que Deus criou o mundo criou doze fontes, correspondentes às doze tribos de Jacó, e setenta palmeiras, correspondentes aos setenta anciãos. A tradução aramaica chamada Pseudo-Jônatas incorpora a leitura ao próprio texto: "doze fontes de água, uma fonte para cada tribo, e setenta palmeiras, correspondentes aos setenta anciãos de Israel". Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) a repete, e Nachmânides a desenvolve numa imagem: cada tribo acampou junto à sua fonte, e os anciãos sentaram à sombra das palmeiras, louvando a Deus por ter preparado aquele lugar numa terra seca. Ele cita ainda uma leitura mística do Bahir (um dos livros mais antigos da Cabala), que chama de "maravilhosa" sem expô-la.
Como medir a terceira leitura? Ela tem a seu favor a força dos dois números. Doze é o número das tribos em toda a Torá. Setenta é o número da casa de Jacó que desceu ao Egito (Êxodo 1:5) e será o dos anciãos que sobem o Sinai com Moisés (Êxodo 24:1, 9) e que recebem parte do espírito dele (Números 11:16). Um leitor antigo que ouvisse "doze" e "setenta" juntos dificilmente deixaria de pensar em Israel.
Contra ela pesam três coisas. O texto não faz a ligação — não diz "segundo o número das tribos", como faz com as doze colunas de Êxodo 24:4 ou com as doze pedras de Josué 4:8. Os setenta anciãos ainda não existem como grupo neste ponto da história; só aparecem no capítulo 24. E números redondos para descrever um lugar são comuns em qualquer tradição de viagem, sem significado escondido. O que se pode afirmar é que a leitura simbólica é antiga e coerente com o vocabulário da Torá, e que ela é do intérprete, não do versículo. O próprio recurso de Rabi Elazar — dizer que tudo foi preparado "desde a criação" — mostra que a ligação precisava ser construída.
"e acamparam ali, junto às águas"
A frase é redundante de propósito. "Ali" já dizia onde; "junto às águas" diz por quê. Depois de três dias sem água e de uma fonte amarga, o povo arma as tendas colado à água.
Quanto tempo ficaram? O texto não diz, mas permite a conta. Ibn Ezra a faz: o povo partiu de Elim no dia 15 do segundo mês (Êxodo 16:1); descontados os dias desde o mar, os três dias sem água e a parada em Mara, sobram cerca de vinte dias em Elim — a parada mais longa desde a travessia. Para a Mekhilta e para Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII), o tempo foi usado para estudar as leis recebidas em Mara.
Em Mara o povo murmurou; em Elim o texto não registra nem queixa nem agradecimento. A abundância não produz cântico. E a lista de Números acrescenta uma etapa que o Êxodo omite: de Elim o povo foi acampar outra vez junto ao mar dos Juncos, antes de entrar no deserto de Sim (Números 33:10-11). O oásis não foi o fim do caminho; foi um intervalo nele.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Elim — segunda parada nomeada depois do mar, a primeira com água boa. Aparece só aqui, em Êxodo 16:1 e na lista de Números 33:9-10. Identificação mais provável: o Wadi Gharandel, no oeste da península do Sinai, a cerca de dez quilômetros ao sul do lugar que se costuma identificar com Mara.
As doze fontes — afloramentos de água no leito do vale. Para a tradição rabínica, uma para cada tribo.
As setenta palmeiras — tamareiras de oásis. Para a tradição rabínica, uma para cada ancião. O sentido do nome hebraico da palmeira e o seu lugar na Bíblia estão no estudo de Gênesis 38:6.
O povo — agora no plural ("chegaram", "acamparam"), depois de ser tratado como um só em Êxodo 15:25-26. A lei e a promessa foram dirigidas a uma pessoa; o acampamento é de muitos.
Os intérpretes — Rabi Elazar de Modiin, que leu as tribos e os anciãos no versículo; Saadia Gaon, o primeiro grande sábio judeu a escrever em árabe, que propôs "setenta espécies"; Ibn Ezra e Nachmânides, que discutiram por que o texto conta as árvores.
O acontecimento — um acampamento de cerca de vinte dias, segundo o cálculo de Ibn Ezra, entre a água amarga de Mara e a fome do deserto de Sim. Nenhuma fala, nenhum milagre, nenhuma lei: o primeiro descanso depois da saída do Egito.
5. Pontos de Ensino
O versículo não tem milagre, e isso também é informação. Depois de Mara, o texto não diz que Deus criou o oásis. O povo encontrou água onde havia água. O livro registra o socorro extraordinário e o descanso comum com o mesmo cuidado.
Os números pedem leitura, mas o texto não os interpreta. Doze e setenta são números carregados na Torá, e a leitura de tribos e anciãos é antiga e coerente. Quem ensina deve apresentá-la como leitura da tradição e mostrar que o versículo não a faz.
Mara e Elim formam um par. A água amarga e as doze fontes estão a poucas horas uma da outra. O deserto do Êxodo é feito dessa alternância: falta, socorro, fartura, nova falta. O capítulo 16 começa saindo de Elim para a fome.
A fartura não gerou palavra. Em Mara houve queixa; em Elim, silêncio. O texto não critica, mas o contraste está ali para quem compara os dois versículos.
O lugar já tinha nome. Ao contrário de Mara, Elim não foi batizada pelo povo. Israel entra num território que já tem nomes, poços e árvores — o deserto não é um vazio a ser preenchido pela história de Israel.
6. Aspectos Filosóficos
Mara e Elim: a vida compensa?
Em Êxodo 15 o povo passa, numa mesma jornada, por três dias sem água, uma fonte amarga e um oásis de doze fontes. É difícil ler a sequência sem a impressão de um equilíbrio: depois do amargo, o abundante. A pergunta é antiga e não é só religiosa: existe uma lei que compensa o que se sofre? Ou a sequência Mara–Elim é só a geografia de um caminho?
Ralph Waldo Emerson (ensaísta e poeta norte-americano, 1803-1882, figura central do transcendentalismo da Nova Inglaterra) dedicou à pergunta um dos seus ensaios mais lidos, "Compensação", publicado na primeira série dos Ensaios, em 1841.
O sermão que Emerson recusou
O ensaio começa com uma lembrança. Emerson ouviu na igreja um pregador dizer que neste mundo os maus prosperam e os bons sofrem, e que a compensação viria na outra vida. Emerson achou a ideia ofensiva por dois motivos: ela concede que a injustiça é a regra aqui, e imagina o paraíso como o lugar onde os bons finalmente terão a parte dos maus.
A tese dele é outra: a compensação não é adiada; é imediata e está embutida nas coisas. "Todo excesso causa uma falta; toda falta, um excesso. Todo doce tem o seu amargo; todo mal, o seu bem." A natureza inteira, para Emerson, funciona por polaridade — ação e reação, maré e vazante, o dentro e o fora. O crime traz o castigo dentro de si; a virtude, a recompensa. "Os dados de Deus estão sempre viciados", escreve: nada se ganha sem que algo se pague, e nada se perde sem que algo se receba.
E o ensaio termina nas calamidades. A morte de um amigo, uma doença, uma decepção cruel parecem perda pura. "Mas os anos seguros revelam a força curativa profunda" que havia nelas: o fim de uma fase, a mudança forçada, o crescimento que não teria havido.
Lido ao lado do Êxodo
A frase de Emerson sobre o doce e o amargo parece escrita para este trecho. Mas o Êxodo não diz o que Emerson diz.
Em Mara, a água não é compensada por outra coisa: ela própria muda, e muda porque alguém clamou e alguém ensinou. Em Elim, o texto não apresenta o oásis como prêmio pela amargura nem como contrapeso dela. Nachmânides perguntou exatamente isso — se o texto quer o contraste — e a lista de Números, que descreve Elim sem mencionar a amargura de Mara, sugere que não. A alternância de falta e fartura no deserto não segue uma lei natural; segue o caminho, e depois de Elim vem a fome.
Êxodo 15:26, aliás, é o oposto da compensação automática de Emerson: a isenção das doenças depende de uma condição, "se você ouvir". Para a Bíblia o equilíbrio não está embutido nas coisas; passa por uma relação.
O próprio Emerson duvidou
Em janeiro de 1842, poucos meses depois de publicar "Compensação", Emerson perdeu o filho Waldo, de cinco anos, para a escarlatina. No ensaio "Experiência" (1844), escreveu a frase mais dura da sua obra: na morte do filho, parecia ter perdido "uma bela propriedade — nada mais", e não conseguia trazer a dor para mais perto de si. A lei da compensação, que ele tinha enunciado com tanta segurança, não lhe deu o consolo esperado; a única coisa que o luto lhe ensinou, escreveu, foi o quanto ele era raso.
O Êxodo fica mais perto desse segundo Emerson do que do primeiro. Ele não promete que todo amargo terá o seu doce. Registra que houve Mara e houve Elim, que um veio depois do outro, e que o povo, num caso, reclamou, e no outro não disse nada. A leitura de Mara e Elim como compensação é tentadora e tem raiz antiga na piedade; o texto a permite, mas não a ensina.
7. Aplicações Práticas
Descansar quando há onde descansar. O povo acampou junto às águas e ficou ali cerca de vinte dias. O texto não apressa a saída nem a critica. Depois de uma travessia, de três dias de sede e de uma crise, parar é parte do caminho. Quem lidera um grupo — família, equipe, comunidade — pode aprender com essa pausa sem culpa: o oásis não é desvio da missão.
A fartura também pede resposta. Em Mara o povo falou, para reclamar. Em Elim ninguém falou. A queixa vem fácil na falta; a gratidão não vem sozinha na abundância. O versículo não condena o silêncio, mas o contraste com o anterior é um bom espelho.
Elim não é o fim. O versículo seguinte começa com "partiram de Elim" e leva o povo à fome. Tratar um tempo bom como recompensa definitiva, ou um tempo ruim como sentença definitiva, é ler o caminho por uma etapa só.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se Elim tinha tanta água, por que o povo não ficou lá?
O texto não explica a partida; só a registra (Êxodo 16:1). O destino era o monte de Deus, anunciado desde a sarça (Êxodo 3:12), e um oásis de deserto não sustenta uma multidão com os seus rebanhos por muito tempo. Mas isso é dedução: o Êxodo não discute a decisão.
Doze fontes e setenta palmeiras bastariam para tanta gente?
Se o número de seiscentos mil homens for tomado ao pé da letra, não — e foi essa a dificuldade que levou a Mekhilta a falar em milagre e Saadia Gaon a falar em setenta espécies. Ibn Ezra respondeu que o texto não diz que o oásis sustentou o povo inteiro; diz que acamparam ali. A pergunta depende, em parte, de como se lê o tamanho do povo, discussão que tem dono no estudo de Êxodo 12:37.
Por que Números menciona Elim e não menciona o milagre de Mara?
A lista de Números 33 é um itinerário: registra etapas e quase nunca acontecimentos. Por isso mesmo chama a atenção que ela pare em Elim para contar fontes e palmeiras. Nachmânides usou essa exceção como argumento de que a descrição tem valor próprio, não só de contraste.
A identificação com o Wadi Gharandel é segura?
Não. É a mais aceita e combina com a distância e com a água, mas depende de onde se põe a travessia e de onde se põe Mara. Nenhuma inscrição ou achado arqueológico confirma a passagem de Israel por ali.
9. Conexão com Outros Textos
O itinerário de Números
Números 33:8-10 — "Partiram de diante de Pi-Hairote, passaram pelo meio do mar para o deserto e andaram três dias de caminho no deserto de Etã, e acamparam em Mara. Partiram de Mara e chegaram a Elim; em Elim havia doze fontes de água e setenta palmeiras, e acamparam ali. Partiram de Elim e acamparam junto ao mar dos Juncos."
A mesma descrição, quase palavra por palavra, numa lista que quase nunca descreve nada. E uma etapa a mais: de Elim, de volta à beira do mar.
A saída para a fome
Êxodo 16:1 — "Partiram de Elim, e toda a congregação dos filhos de Israel chegou ao deserto de Sim, que fica entre Elim e o Sinai, no décimo quinto dia do segundo mês depois que saíram da terra do Egito."
O versículo que fecha o trecho aberto em Elim e dá a data com que Ibn Ezra calculou a estadia.
Os setenta
Êxodo 1:5 — "Todos os que descenderam de Jacó eram setenta pessoas; e José já estava no Egito."
Êxodo 24:1 — "E disse a Moisés: 'Subam ao SENHOR, você e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel, e adorem de longe.'"
Números 11:16 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Reúna-me setenta homens dos anciãos de Israel, que você sabe que são anciãos do povo e seus oficiais.'"
Os textos que dão força à leitura rabínica das setenta palmeiras. Os anciãos com esse número só aparecem depois de Elim.
Doze, quando o texto diz por quê
Êxodo 24:4 — "Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR; levantou-se de manhã cedo, construiu um altar ao pé do monte e doze colunas, segundo as doze tribos de Israel."
Quando a Torá quer que doze signifique as tribos, diz. Em Elim não diz.
Águas no deserto como promessa
Isaías 41:17-18 — "Os pobres e necessitados buscam água, e não há; a língua deles se seca de sede. Eu, o SENHOR, os atenderei… Abrirei rios nos montes escalvados e fontes no meio dos vales; farei do deserto um lago e da terra seca, mananciais."
Salmo 107:35 — "Ele faz do deserto um lago, e da terra seca, mananciais."
O que em Elim é um dado de geografia vira, nos profetas e nos salmos, imagem do socorro de Deus. Em Isaías a sequência é a de Mara e Elim: sede, clamor, fontes.
A água tranquila
Salmo 23:2 — "Ele me faz repousar em pastos verdejantes; leva-me para junto das águas tranquilas."
Keil e Delitzsch citam este salmo a propósito de Elim: o lugar em que Israel aprendeu que Deus sabe fazer o seu povo descansar.
O justo como palmeira
Salmo 92:12 — "O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro no Líbano."
A palmeira como imagem de vida que se mantém onde há água escondida.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então chegaram a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras; e acamparam ali, junto às águas.
Texto hebraico
וַיָּבֹאוּ אֵילִמָה וְשָׁם שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה עֵינֹת מַיִם וְשִׁבְעִים תְּמָרִים וַיַּחֲנוּ־שָׁם עַל־הַמָּיִם׃
Transliteração
va-yavó'u Elímah, ve-shám shetéim esréh einót máyim ve-shiv'ím temarím; va-yachanú-shám al-ha-máyim.
Análise palavra por palavra
וַיָּבֹאוּ — va-yavó'u, "e chegaram".
Qal — a forma simples e ativa do verbo hebraico —, terceira pessoa do masculino plural, da raiz b-w-', vir, entrar, chegar, na forma que encadeia a narrativa. É o mesmo verbo de "chegaram a Mara" em Êxodo 15:23. O plural volta depois do singular de Êxodo 15:25-26.
אֵילִמָה — Elímah, "a Elim".
O nome Elim com o sufixo -ah, que indica direção: "para Elim". Elim é o plural de ayil ou de elah, nomes de árvores grandes — o terebinto, o carvalho. Isaías 1:29 usa a mesma forma plural para os "carvalhos" dos cultos que envergonhariam o povo. A grafia do nome lembra a de eilim, "carneiros" e, por extensão, "poderosos" — a palavra dos "poderosos de Moabe" em Êxodo 15:15. As letras são quase as mesmas, e não há indício de jogo de palavras intencional.
וְשָׁם — ve-shám, "e ali", "onde".
Conjunção e advérbio de lugar. A palavra "ali" aparece duas vezes: "e ali havia…", "e acamparam ali". O verso é construído em volta do lugar.
שְׁתֵּים עֶשְׂרֵה — shetéim esréh, "doze".
O numeral na forma feminina, porque concorda com einot, palavra feminina.
עֵינֹת מַיִם — einót máyim, "fontes de água".
Ayin é "olho" e é "fonte": a fonte é o olho da terra, por onde a água olha para fora. O plural aqui é o feminino einot, enquanto "olhos" usa o dual einayim — a língua separa os dois sentidos pela terminação. É a palavra da fonte junto à qual o anjo encontra Agar "no caminho de Sur" (Gênesis 16:7), o mesmo deserto de Êxodo 15:22. A Septuaginta traduziu por pēgaí, "nascentes".
וְשִׁבְעִים — ve-shiv'ím, "e setenta".
Plural de sheva, sete: "setenta" é, na forma, "setes". O número das pessoas da casa de Jacó (Êxodo 1:5) e dos anciãos (Êxodo 24:1).
תְּמָרִים — temarím, "palmeiras".
Plural de tamar, a tamareira. A Septuaginta escreveu stelékhē phoiníkōn, "troncos de palmeira": contou as árvores pelo tronco.
וַיַּחֲנוּ־שָׁם — va-yachanú-shám, "e acamparam ali".
Qal, terceira pessoa do masculino plural, da raiz ch-n-h, acampar, armar as tendas. É o verbo técnico dos itinerários: Números 33 o repete a cada etapa ("partiram de… e acamparam em…"). A palavra machaneh, "acampamento", vem da mesma raiz — e é a de Gênesis 32:2, onde Jacó chama o lugar de Maanaim, "dois acampamentos".
עַל־הַמָּיִם — al-ha-máyim, "junto às águas".
A preposição al quer dizer "sobre" e também "junto a", "à beira de". É a última palavra do versículo e, com a vogal longa da pausa final, fecha o capítulo na água: o capítulo começou cantando as águas do mar que afogaram o Egito e termina com o povo acampado ao lado de águas que matam a sede.
11. Conclusão
Do que se examinou, o versículo leva a três conclusões.
Elim é descanso, não prêmio. O texto descreve o oásis sem ligá-lo a mérito, a oração ou a milagre. Depois de uma crise resolvida por instrução divina, vem um lugar que já estava ali, com água que ninguém precisou adoçar. A leitura de Mara e Elim como lei de compensação é possível como piedade, mas o versículo não a formula, e o capítulo seguinte começa saindo de Elim para a fome.
Os números convidam ao símbolo, e o símbolo é da tradição. Doze e setenta carregam, na Torá, tribos e anciãos, e os rabinos tinham motivo para ouvi-los assim. O texto, porém, não faz a ligação que faz em outros lugares, e os anciãos ainda não existem como grupo. A leitura simbólica é legítima como leitura; o versículo, sozinho, registra um oásis contado.
O capítulo termina na água boa. Êxodo 15 começou com o mar que se fechou sobre os carros e termina com o povo acampado junto a fontes. A mesma matéria que foi ameaça e arma é agora repouso. O texto não comenta a simetria; ela está na ordem das palavras.













