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Êxodo 15:22

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 19 acessos
Moisés fez Israel partir do mar dos Juncos, e eles saíram para o deserto de Sur; andaram três dias no deserto e não acharam água.
Multidão com gado e bagagem caminhando por uma planície pedregosa e seca ao amanhecer, com o mar ficando para trás e um homem à frente apontando para o deserto.

Estudo


Moisés fez Israel partir do mar dos Juncos, e eles saíram para o deserto de Sur; andaram três dias no deserto e não acharam água.

1. Introdução

O cântico acabou, e a primeira frase de prosa depois dele já põe o povo em marcha — e quem o põe é Moisés, não a nuvem. O verbo diz que ele "fez partir", e a tradição judaica entendeu que foi preciso arrancar o povo da praia, onde havia despojo para recolher e mortos para olhar. Três dias depois do mar, ninguém tinha achado água. Os rabinos leram essa falta também como falta de ensino, e dela tiraram um costume que dura até hoje: ler a Torá em público na segunda, na quinta e no sábado, para que nunca se passem três dias sem ela. E o versículo cumpre, sem comentar, os "três dias de caminho pelo deserto" que Moisés tinha pedido a Faraó.

2. Contexto Histórico e Cultural

As "fontes de Moisés"

Na margem oriental do golfo de Suez, a pouco mais de um quilômetro e meio do mar e uns doze quilômetros ao sul da cidade, há um grupo de nascentes que os árabes chamam de 'Uyun Musa ("as fontes de Moisés"). É o único ponto verde no norte daquela faixa de deserto, dizem Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX). Edward Robinson, o explorador norte-americano que passou por ali em 1838, contou sete fontes e uns vinte arbustos de palmeira, mirrados e sem poda; a água era escura, um tanto salobra, mas bebível.

O nome é tradição local, não prova. Ele só faz sentido se a travessia tiver acontecido perto de Suez, e o lugar da travessia é discutido. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) supõe que o cântico tenha sido entoado ali, junto às fontes; é suposição sem apoio além do terreno. E Samuel David Luzzatto (rabino e erudito italiano do século XIX, conhecido pela sigla Shadal) registra um dado contra a tentação de fazer dali a Mara do versículo seguinte: as fontes de Moisés são amargas, mas ficam a meia hora do mar, e o texto diz que o povo andou três dias antes de chegar a Mara.

Três dias com água contada

Das fontes de Moisés até a primeira água seguinte na rota do sul há, conforme a medição, entre cinquenta e setenta e cinco quilômetros, e Keil e Delitzsch afirmam que não há outra água no caminho. Uma multidão com crianças, gado e bagagem faria uns vinte quilômetros por dia, calcula Ellicott. A conta dá os três dias do versículo.

Três dias também é a margem que um corpo humano tem. Em calor de deserto, quem caminha perde vários litros de água por dia, e a regra prática de sobrevivência fala em cerca de três dias sem beber. O versículo para exatamente no limite. A Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III) supõe, numa das suas leituras, que o povo levava água recolhida durante a travessia e que ela acabou ali, "nem nas vasilhas acharam".

A sede no deserto contada por um romano

Existe uma versão pagã desta sede. Tácito (historiador romano do começo do século II), no livro V das Histórias, conta a saída dos judeus do Egito de modo hostil e cheio de erros — é o mesmo capítulo da fábula da expulsão por lepra, exposta no estudo de Êxodo 4:6. Mas no meio da história ele escreve que "nada os atormentava tanto quanto a falta de água" (Histórias 5.3). Já estavam caídos pelos campos, perto da morte, quando um bando de jumentos selvagens deixou o pasto e subiu para um rochedo coberto de mato. Moisés os seguiu, adivinhou pelo capim que havia água, e abriu "largos veios" de água.

O passo seguinte é o que Tácito mais queria dizer: em agradecimento, os judeus teriam consagrado no seu santuário a imagem do animal que os livrara da sede (Histórias 5.4). É uma das fontes da calúnia, corrente entre gregos e romanos, de que os judeus adoravam uma cabeça de jumento. Na boca de um adversário, sobrou da história a memória de que a primeira provação do deserto foi a sede.

A sede lida junto com o mar

A sinagoga nunca separou o cântico da sede que vem depois dele. A leitura da Torá no último dia da Páscoa, fixada no Talmude (Meguilá 31a), começa em Êxodo 13:17 e só termina em Êxodo 15:26: quem ouve a travessia e o cântico ouve também os três dias sem água, as águas amargas e a primeira queixa.

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés fez Israel partir do mar dos Juncos"

Nos relatos de marcha da Torá, o povo parte: "partiram de Sucote e acamparam em Etã" (Êxodo 13:20). O verbo vem na forma simples e o sujeito são os próprios israelitas. Aqui o verbo está na forma que faz outro agir, e o sujeito é Moisés. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) aponta a diferença e não tira dela mais nada. Os outros perguntaram: por que o povo precisou ser posto em marcha por alguém?

Primeira leitura: esta foi a única partida decidida por Moisés. É a de Rabi Josué na Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III): todas as outras etapas foram "pela boca do SENHOR", como diz Números 9:18, e só esta foi pela boca de Moisés. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) lhe dá uma razão prática: a coluna de nuvem e de fogo existia para que o povo pudesse marchar de dia e de noite enquanto fugia; afogado Faraó, ninguém precisava mais andar de noite, e quem conduz agora é Moisés.

Segunda leitura: o verbo elogia o povo. É a de Rabi Eliezer, na mesma Mekhilta. Também esta partida foi por ordem de Deus; o texto nomeia Moisés para mostrar que, quando ele disse "levantem-se e partam", ninguém perguntou como entrar no deserto sem comida. Creram e foram. A Mekhilta põe aqui Jeremias 2:2: "lembro-me de você, da sua afeição na juventude, de como me seguia no deserto, numa terra não semeada".

Terceira leitura: o povo não queria ir. É a mais famosa, e tem duas versões. Na da Mekhilta, o mesmo Rabi Eliezer diz que Moisés os fez partir "à força, com o cajado": ao verem na praia os corpos dos que os tinham escravizado, disseram que não restava ninguém no Egito, quiseram escolher um chefe e voltar, e a Mekhilta lê como prova Neemias 9:17, que fala de um chefe escolhido para voltar à escravidão. Na versão de Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI), o motivo é outro: os egípcios tinham enfeitado os cavalos com ouro, prata e pedras preciosas, e o mar devolvia tudo à praia. O povo estava ocupado recolhendo, e o despojo do mar, diz ele, foi maior do que o do Egito. Moisés teve de arrancá-los dali.

As três leituras disputam um único detalhe gramatical. O que o hebraico afirma é que houve uma iniciativa de Moisés; se ela foi necessária por desânimo, por cobiça, por saudade do Egito ou por nenhuma dessas razões, o texto não diz. A versão de Rashi tem a seu favor a cena que a prosa deixou em aberto — "Israel viu os egípcios mortos na praia do mar" (Êxodo 14:30) — e a de Rabi Eliezer, o resto do livro, em que a vontade de voltar ao Egito reaparece várias vezes. A do elogio tem contra si os dois versículos seguintes.

"e eles saíram para o deserto de Sur"

É a primeira vez que o livro põe o povo dentro de um deserto com nome. A Mekhilta o descreve com exagero de pregador — novecentas parasangas por novecentas, cheio de serpentes e escorpiões — e uma variante do texto, preservada no Tanchuma (coleção de comentários rabínicos posterior), o chama de deserto de Cazav, "da mentira": o da miragem que promete água e não entrega.

E o nome Sur tem uma memória no Gênesis. Foi "no caminho de Sur" que o anjo do SENHOR encontrou Agar fugindo, "junto a uma fonte de água no deserto" (Gênesis 16:7). Uma egípcia sozinha achou água na estrada de Sur; o povo inteiro que sai do Egito não acha.

"andaram três dias no deserto"

Quando os israelitas pediam a Faraó licença para sair, pediam "três dias de caminho pelo deserto". O pedido aparece três vezes (Êxodo 3:18; 5:3; 8:27), e os três dias acabaram acontecendo aqui — o que não resolve se o pedido era sincero ou pretexto, pergunta que tem o seu estudo em Êxodo 3:18. O que este versículo acrescenta é o conteúdo dos três dias: não houve sacrifício nem festa; houve sede.

A Mekhilta registra uma objeção de Rabi Eliezer: como podiam não achar água, se a terra está estendida sobre as águas, como diz o Salmo 136:6? Bastava cavar. A resposta é que não acharam porque Deus quis cansá-los. É uma leitura que transforma a falta em prova deliberada, e que antecipa o "ali o pôs à prova" de Êxodo 15:25.

E durante esses três dias ninguém reclamou. O Haamek Davar (comentário do rabino Naftali Tsvi Yehuda Berlin, o Netsiv, Lituânia, século XIX) explica que não chegaram a sofrer sede de verdade, por uma providência escondida; é leitura dele. O que está no texto é o silêncio: três dias sem água e nenhuma palavra registrada. A queixa só vem quando a água aparece e não serve.

"e não acharam água"

Esta frase recebeu a leitura que mais deixou marca na vida judaica. Os "intérpretes de figuras", como a Mekhilta os chama, disseram que água aqui é a Torá, porque Isaías 55:1 diz: "Venham, todos os que têm sede, venham às águas". O povo passou três dias sem ouvir palavras de ensino, e por isso se rebelou. Daí, diz a Mekhilta, os anciãos e os profetas determinaram que se lesse a Torá em público no sábado, na segunda e na quinta-feira: lê-se no sábado e para-se no domingo; lê-se na segunda e para-se na terça e na quarta; lê-se na quinta e para-se na sexta. Nunca três dias seguidos sem leitura.

O Talmude Babilônico usa a mesma tradição para corrigir uma história. No tratado Bava Kamma 82a, uma lista atribui a Esdras dez decretos, e o segundo deles é justamente ler a Torá toda segunda e quinta-feira. O Talmude objeta: isso não pode ser de Esdras, porque já fora instituído no deserto, por causa destes três dias sem água. E resolve as duas coisas: no deserto se fixaram os dias; Esdras fixou quantas pessoas leriam e quantos versículos. O Targum de Pseudo-Jônatas (tradução aramaica da Torá, cheia de acréscimos) chegou a pôr a leitura dentro da tradução: andaram três dias "vazios de mandamentos".

O limite precisa ser dito. Ninguém, entre esses intérpretes, negou que faltasse água de verdade; o Kli Yakar (Shlomo Efraim de Luntschitz, rabino polonês do fim do século XVI) lembra que, se a água fosse só figura, não haveria razão para lançar um lenho nas águas logo depois. A leitura figurada não substitui o fato; o seu fruto foi um calendário que, pela própria regra, impede a sinagoga de repetir os três dias do deserto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

Pela primeira vez desde a saída, é ele o sujeito de uma partida. Até aqui quem guiava era o SENHOR, na coluna de nuvem e de fogo (Êxodo 13:21). O cântico não lhe atribuiu gesto nenhum; a prosa lhe devolve a liderança — e com ela, três dias depois, a primeira queixa dirigida a ele pelo nome.

Israel

O versículo diz "Israel", e os verbos seguintes estão no plural. O mesmo grupo será chamado de "o povo" em Êxodo 15:24, quando murmurar.

O deserto de Sur

A faixa de deserto entre a fronteira oriental do Egito e o sul de Canaã. É o caminho de Agar (Gênesis 16:7), o limite do território dos ismaelitas (Gênesis 25:18), a região em que Saul derrotou os amalequitas "até Sur, que está defronte do Egito" (1 Samuel 15:7).

As traduções antigas puseram Sur no mapa do seu próprio tempo. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica da Torá lida nas sinagogas) nunca escreve "Sur": escreve Chagra, nome que os estudiosos ligam ora à região de Petra, ora à Hegra dos nabateus, no norte da Arábia. O Targum de Pseudo-Jônatas escreve "deserto de Chalutsa", provavelmente Elusa, cidade do Neguebe na época romana. Shadal anota que os árabes do seu tempo chamavam a região de Jifar, a faixa arenosa do norte do Sinai. Números 33:8 a chama de "deserto de Etã", e a identificação dos dois nomes, com o argumento de Ibn Ezra, está no estudo de Êxodo 13:20.

O tempo

Pela contagem tradicional, o povo deixou o mar no fim da semana da Páscoa, e o livro diz que chegou ao deserto do Sinai no terceiro mês (Êxodo 19:1). Ibn Ezra faz a conta: entre o mar e o Sinai há seis etapas na lista de Números 33, menos de quarenta dias. Era primavera, e ele acrescenta um dado de clima: nessa estação o ar do deserto não é úmido nem frio, e quem não tinha tenda podia dormir ao relento. O problema daqueles dias não era o tempo; era a água.

O evento

A primeira etapa depois do mar. Os três dias deste versículo, a chegada a Mara, a queixa, o lenho e a lei, e o descanso em Elim (Êxodo 15:23-27) formam um único episódio.

5. Pontos de Ensino

1. A celebração e a provação estão no mesmo capítulo. O texto não dá ao povo um intervalo entre o cântico e a sede. A primeira frase depois do poema já é estrada, e três dias depois falta água. O Êxodo não trata a vitória do mar como chegada; trata-a como começo de caminho.

2. Liderar é também tirar o povo do lugar onde ele quer ficar. Qualquer que seja o motivo — o despojo na praia, o medo do deserto, a saudade do Egito —, o verbo diz que a partida precisou de alguém que a impusesse. A primeira tarefa de Moisés fora do Egito é fazer andar.

3. O deserto não é castigo. Ninguém pecou antes deste versículo. A falta de água vem antes de qualquer queixa, e o texto não a apresenta como pena. É a condição do lugar para onde o povo foi levado.

4. Um texto pode gerar um costume. A leitura dos rabinos, que viu na água a Torá, não ficou no papel: virou calendário. O ritmo de segunda, quinta e sábado nas sinagogas tem a sua justificativa mais antiga neste versículo.

5. O texto registra o silêncio. Três dias sem água e nenhuma reclamação escrita. O versículo não elogia nem censura; anota o que faltou e deixa para o seguinte o que o povo disse.

6. Aspectos Filosóficos

O que acontece com um líder quando o inimigo desaparece

Enquanto Faraó perseguia, a liderança de Moisés tinha uma justificativa óbvia: havia um exército atrás. No dia seguinte ao mar, o exército está morto na praia. O povo está livre, sem lei, sem território, sem comida estocada, e o versículo mostra o que sobra para o líder fazer: pôr gente em movimento que talvez não queira se mover. A pergunta é antiga na filosofia política: que tipo de autoridade é possível quando não há instituição nenhuma, só um homem e uma multidão?

Aaron Wildavsky (cientista político norte-americano, 1930-1993, professor em Berkeley, conhecido sobretudo pelos estudos sobre orçamento público) dedicou um livro inteiro a essa pergunta, usando Moisés como caso: The Nursing Father: Moses as a Political Leader ("O pai que amamenta: Moisés como líder político", 1984).

Quatro regimes

A tese de Wildavsky é que Moisés não exerce um único tipo de liderança, porque o povo passa por regimes diferentes, e cada um pede outra coisa do líder. Ele os nomeia: escravidão, anarquia, equidade e hierarquia. O primeiro é o do Egito. O deserto antes do Sinai fica perto do que ele chama de anarquia — não no sentido de desordem violenta, mas de ausência de regra: ninguém sabe ainda o que é permitido, quem decide, a quem recorrer. A lei igual para todos e a hierarquia de juízes e chefes ainda não existem.

Este versículo é a porta de entrada no segundo regime. E o verbo que ele usa descreve exatamente o problema: sem regra, sem hábito, sem chefes intermediários, a única forma de mover o povo é a iniciativa pessoal do líder. Moisés "fez partir". Não há conselho, não há anciãos consultados, não há ordem divina registrada no versículo. Há um homem empurrando uma multidão para o deserto.

O pai que amamenta

O título do livro vem de uma queixa do próprio Moisés, em Números 11:12: "Fui eu que concebi todo este povo? Fui eu que o gerei, para que você me diga: 'Leve-o no colo, como a ama leva a criança de peito'?" A palavra hebraica para essa ama é masculina — um homem que carrega um bebê —, e as traduções inglesas antigas a verteram por "pai que amamenta".

Wildavsky fez da imagem o nome do livro porque ela guarda o dilema do líder num povo recém-libertado. Gente saída da escravidão não sabe ainda governar a si mesma, e no começo precisa ser carregada. Mas quem carrega para sempre produz dependência, e a dependência é a continuação da escravidão por outros meios. A imagem do colo contém as duas coisas: o cuidado necessário e o risco de nunca pôr a criança no chão.

O versículo mostra o ponto mais baixo dessa curva. A leitura de Rashi — Moisés arrancando o povo da praia enquanto ele recolhe ouro — é a imagem perfeita do pai que ainda precisa pegar a criança pelo braço.

Onde a aproximação para

Wildavsky lê Moisés como exemplo de liderança em geral, e por isso foi criticado: o seu Moisés é um administrador muito competente, e o que o texto apresenta como revelação vira, no livro, experiência pessoal. O versículo resiste a essa redução de um modo simples. A iniciativa de Moisés dura três dias. Quando a água falta e o povo murmura, Moisés não tem recurso próprio: clama ao SENHOR (Êxodo 15:25). O texto dá ao líder a força de pôr o povo em marcha, mas não a de mantê-lo vivo no caminho.

7. Aplicações Práticas

Sair do lugar da vitória

A leitura de Rashi descreve uma tentação reconhecível: ficar na praia da última conquista, recolhendo o que ela deixou. O ouro dos cavalos era real, e recolhê-lo não era pecado. Mas o caminho estava do outro lado, e o texto, assim lido, faz da partida uma decisão contra o próprio ganho. Quem acabou de vencer uma etapa difícil — um tratamento, uma prova, uma crise na empresa — conhece o impulso de ficar onde deu certo. O versículo põe o movimento seguinte uma linha depois do canto.

Não ler a primeira dificuldade como sinal de erro

Três dias depois do maior livramento do livro, falta água. Nada no texto sugere que o povo tenha errado o caminho ou que Deus o tenha abandonado. Quem toma uma decisão certa e encontra, logo em seguida, uma situação ruim tende a concluir que a decisão estava errada. O versículo separa as duas coisas: a direção era a certa, e a água não estava lá.

Dar ritmo ao que alimenta

A regra que os rabinos tiraram daqui é prática e pode ser aplicada fora da sinagoga: não deixar passar três dias sem aquilo que sustenta por dentro. O critério não é a quantidade, é o intervalo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A coluna de nuvem continuava guiando o povo?

Ibn Ezra acha que não: depois do mar, quem guiava era Moisés, e a coluna só voltou a conduzir quando o tabernáculo foi erguido. Shadal discorda e lembra Neemias 9:19, que diz que a coluna de nuvem não se afastou do povo de dia, nem a de fogo de noite, durante todo o tempo no deserto. O versículo não menciona a coluna, e não é possível decidir só com ele.

Por que não encheram os odres nas fontes perto do mar?

O texto não diz se havia fontes no ponto de saída, nem se o povo se abasteceu. A identificação do lugar com 'Uyun Musa é tradição tardia. Se a Mekhilta está certa ao dizer que a água recolhida durante a travessia acabou neste ponto, houve provisão, e ela não bastou. Para uma multidão com gado, três dias de água carregada a pé é um volume enorme, e é plausível que simplesmente não houvesse como levar.

A leitura da Torá às segundas e quintas vem mesmo do deserto?

É o que a Mekhilta e o Talmude afirmam, e não há como verificar. O que se pode dizer com segurança é que o costume é antigo — o Talmude o discute como coisa estabelecida — e que a justificação dele foi buscada neste versículo. A ligação é uma leitura figurada, e os próprios rabinos a atribuem aos "intérpretes de figuras", não ao sentido simples.

O povo foi castigado por ter recolhido o despojo?

Não há castigo no texto. A falta de água vem sem explicação. O Kli Yakar sugere que a sede foi medida por medida — quem se ocupou demais do despojo ficou sem água —, mas isso é leitura dele. O Êxodo não liga as duas coisas.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma etapa na lista do deserto

Números 33:8 — "Partiram de diante de Hairote, passaram pelo meio do mar para o deserto, andaram três dias de caminho no deserto de Etã e acamparam em Mara."

A lista das etapas conta o mesmo trecho em uma frase, com outro nome para o deserto e sem mencionar a falta de água.

Quem faz partir

Salmo 78:52 — "Fez o seu povo partir como ovelhas e os conduziu como rebanho pelo deserto."

O mesmo verbo, na mesma forma que faz outro agir. No salmo, o sujeito é Deus; aqui, é Moisés.

Salmo 80:9 — "Você arrancou do Egito uma videira; expulsou as nações e a plantou."

Ainda o mesmo verbo, com o sentido de arrancar uma planta pela raiz — o sentido que dá apoio à leitura de Rashi.

A água no caminho de Sur

Gênesis 16:7 — "O anjo do SENHOR a encontrou junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte que fica no caminho de Sur."

No mesmo deserto, uma fonte para Agar. Para Israel, nenhuma.

O deserto lembrado pelos profetas

Jeremias 2:2 — "Lembro-me de você, da sua afeição na juventude, do seu amor de noiva, de como me seguia no deserto, numa terra não semeada."

A leitura que a Mekhilta aplica a esta partida: o povo seguiu sem perguntar pelo pão.

Deuteronômio 8:15 — "Ele o conduziu pelo deserto grande e terrível, de serpentes venenosas e escorpiões, terra seca onde não havia água, e fez sair água para você da rocha dura."

O retrato que a Mekhilta usa para o deserto de Sur.

A água como palavra

Isaías 55:1 — "Venham, todos os que têm sede, venham às águas; e vocês que não têm dinheiro, venham, comprem e comam."

O apoio da leitura de que a água que faltou era a Torá.

Amós 8:11 — "Vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome à terra: não fome de pão nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR."

O profeta faz por conta própria a troca que a Mekhilta fez: a sede de água como imagem da falta da palavra.

O desejo de voltar

Neemias 9:17 — "Recusaram-se a ouvir e não se lembraram das maravilhas que você fez entre eles; endureceram a nuca e, na sua rebeldia, escolheram um chefe para voltar à sua escravidão."

A oração que a Mekhilta lê por trás da partida forçada.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés fez Israel partir do mar dos Juncos, e eles saíram para o deserto de Sur; andaram três dias no deserto e não acharam água.

Texto hebraico

וַיַּסַּע מֹשֶׁה אֶת־יִשְׂרָאֵל מִיַּם־סוּף וַיֵּצְאוּ אֶל־מִדְבַּר־שׁוּר וַיֵּלְכוּ שְׁלֹשֶׁת־יָמִים בַּמִּדְבָּר וְלֹא־מָצְאוּ מָיִם׃

Transliteração

vayyassa' Moshe et-Yisra'el miyyam-suf, vayyetse'u el-midbar-Shur, vayyelkhu sheloshet-yamim bammidbar, velo-matse'u mayim.

Análise palavra por palavra

וַיַּסַּע — vayyassa', "e fez partir".

Raiz nasa', cujo sentido de base é arrancar as estacas da tenda — daí "levantar acampamento", "partir". É o verbo técnico das etapas do deserto: Números 33 o usa em quase todas as linhas ("partiram de… e acamparam em…"). Nessas linhas ele vem no Qal (a forma simples do verbo hebraico), com o povo por sujeito.

Aqui está no Hifil (a forma causativa, que faz outro executar a ação), na forma narrativa que encadeia os fatos, terceira pessoa do masculino singular: "e ele fez partir".

O Hifil desse verbo tem um campo próprio, e ele sustenta as leituras do item 3. É o verbo de extrair pedra da pedreira (1 Reis 5:31 no hebraico, 5:17 em muitas Bíblias; Eclesiastes 10:9), de arrancar uma planta (Salmo 80:9; Jó 19:10) e de tirar o rebanho do lugar (Salmo 78:52). Pedra, raiz e rebanho: três coisas que não saem do lugar sozinhas.

As traduções antigas escolheram cada uma um lado desse campo. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) escreve exēren, "levantou", "fez sair", e acrescenta que Moisés "os conduziu". A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) escreve tulit, "levou", "tomou consigo".

מֹשֶׁה אֶת־יִשְׂרָאֵל — Moshe et-Yisra'el, "Moisés… Israel".

A partícula et marca o objeto direto. Israel vem como coletivo no singular; os verbos seguintes passam ao plural.

מִיַּם־סוּף — miyyam-suf, "do mar dos Juncos".

Preposição min, "de", com o nome composto. O sentido de suf e a discussão sobre qual mar é esse estão no estudo de Êxodo 10:19.

וַיֵּצְאוּ — vayyetse'u, "e saíram".

Raiz yatsa, "sair", Qal, forma narrativa, terceira pessoa do plural — o verbo da saída do Egito.

אֶל־מִדְבַּר־שׁוּר — el-midbar-Shur, "para o deserto de Sur".

Midbar é a terra não cultivada, para onde se levam os rebanhos. Shur é nome próprio, de grafia igual à da palavra para "muro".

וַיֵּלְכוּ שְׁלֹשֶׁת־יָמִים בַּמִּדְבָּר — vayyelkhu sheloshet-yamim bammidbar, "andaram três dias no deserto".

Verbo halakh, "andar", Qal, forma narrativa, plural. O número vem na forma ligada, "três de dias", com o substantivo no plural. A expressão é a mesma de Êxodo 3:18, 5:3 e 8:27, onde se lê "caminho de três dias".

וְלֹא־מָצְאוּ מָיִם — velo-matse'u mayim, "e não acharam água".

Negação lo com o perfeito de matsa, "achar", terceira pessoa do plural. Mayim, "água", é palavra que só existe no plural em hebraico. É a última palavra do versículo, e o leitor a encontra de novo, três vezes, no versículo seguinte.

As duas traduções antigas mudam o tempo do verbo. A Septuaginta e a Vulgata (non inveniebant) usam o imperfeito, "não iam achando", que transforma a frase num estado que dura os três dias, e a Septuaginta acrescenta duas palavras no fim: "não achavam água para beber". O hebraico registra o resultado; as traduções registram a procura.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a liberdade, no Êxodo, começa sem conforto e sem regra. O povo deixa a praia porque alguém o obriga a deixá-la, entra num deserto que nunca viu e passa três dias sem o que é mais básico. Nada disso é apresentado como castigo; é simplesmente o que vem depois de sair.

A segunda é que a liderança de Moisés, neste ponto, é feita de iniciativa pessoal. O verbo o põe no lugar que antes era da nuvem, e é por isso que a queixa, quando vier, terá o nome dele. O versículo concede a autoridade e, no mesmo movimento, a responsabilidade pelo que faltar.

A terceira é que uma frase de geografia virou, na leitura judaica, uma regra de vida comunitária. A tradição não se contentou em lamentar os três dias sem água; transformou a lembrança deles num calendário que impede que se repitam. O versículo fala de uma falta, e a sua história de leitura fala de uma providência humana contra a falta.

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