E Miriã lhes respondia: “Cantem ao SENHOR, porque se elevou em majestade; o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar.”
1. Introdução
Miriã canta, e o que ela canta é a primeira linha do cântico de Moisés, com um verbo trocado: em vez de "cantarei", "cantem".
O texto diz que ela "lhes respondia", com um pronome masculino, e deixa aberto a quem respondia e como.
No século XX, a linha virou o centro de uma disputa sobre quem cantou primeiro no mar, Moisés ou Miriã, e um manuscrito de Qumran mostrou que um copista antigo já tinha sentido falta de um cântico mais longo para ela.
Com este versículo termina a poesia do capítulo, e o povo parte para o deserto.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem cantou primeiro: a tese de 1955
Em 1955, Frank Moore Cross e David Noel Freedman (estudiosos norte-americanos da Bíblia hebraica e das línguas semíticas antigas) publicaram no Journal of Near Eastern Studies ("Revista de Estudos do Oriente Próximo") um artigo chamado simplesmente "The Song of Miriam" — "O Cântico de Miriã". O título já era a tese. Para eles, o poema inteiro de Êxodo 15:1-18 devia ser chamado pelo nome dela.
O argumento, em resumo, tinha dois passos. O primeiro: no mundo antigo, um hino era conhecido e citado pela sua primeira linha, como ainda hoje se chama uma canção pelo começo da letra. Êxodo 15:21 não seria um cântico curto de Miriã; seria o título, a linha de abertura pela qual o hino inteiro era lembrado, atribuída a ela. O segundo passo é de lógica da transmissão: uma canção atribuída a uma figura menor tende a passar, com o tempo, para a figura maior; o caminho inverso é difícil de explicar. Se havia duas tradições — uma que dava o cântico a Miriã e outra que o dava a Moisés —, a mais antiga seria a de Miriã. Ninguém tiraria um cântico de Moisés para dá-lo à irmã.
A tese teve grande influência. Phyllis Trible (estudiosa norte-americana do Antigo Testamento), num artigo de 1989 intitulado "Trazendo Miriã para fora das sombras", leu toda a figura de Miriã na Bíblia como restos de uma tradição maior que foi reduzida. J. Gerald Janzen, em 1992, perguntou no título do seu artigo "quem está fazendo coro a quem?" e propôs ler os versículos 20 e 21 como um recuo no tempo: o texto contaria primeiro o cântico de Moisés e só depois voltaria ao que, na ordem dos fatos, aconteceu antes — Miriã e as mulheres começando, e os homens respondendo.
As objeções
A leitura contrária também tem argumentos. O texto, tal como está, põe Moisés primeiro e diz que Miriã "respondia", verbo que supõe alguém a quem responder. A tradição judaica antiga leu assim sem hesitar: a Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo, com material dos séculos II e III) diz que "assim como Moisés entoou o cântico para os homens, Miriã o entoou para as mulheres". E a regra de que o mais fraco vira mais forte é uma tendência, não uma lei: não prova, sozinha, qual atribuição veio antes. A tese de Cross e Freedman é uma hipótese sobre a história do texto, e não há como demonstrá-la.
O cântico que um copista acrescentou: 4Q365
Entre os manuscritos achados nas cavernas de Qumran, junto ao mar Morto, há um que mudou os termos da discussão. É o fragmento catalogado como 4Q365, copiado por volta de 75 antes de Cristo, parte de um conjunto que os editores chamaram de "Pentateuco Reelaborado": textos da Torá copiados com acréscimos e rearranjos. Foi publicado em 1994 por Sidnie White Crawford e Emanuel Tov.
No trecho de Êxodo, o manuscrito segue o texto conhecido até a cena de Miriã. Depois dela, antes de Êxodo 15:22, traz pelo menos sete linhas que não existem em nenhuma Bíblia. Os editores as identificaram como um cântico de Miriã. Restam umas vinte palavras, em linhas quebradas, e a leitura de algumas é disputada. O que se lê com segurança inclui frases como "és grande, salvador", "a esperança do inimigo pereceu", "pereceram nas águas poderosas" e "o que fez coisas majestosas".
O achado diz duas coisas. A primeira: no século I antes de Cristo, pelo menos um copista sentiu que faltava algo. O texto diz que Miriã "respondia" e lhe dá uma linha só; ele lhe deu um cântico. George Brooke (estudioso britânico dos manuscritos do mar Morto) popularizou o fragmento num artigo de 1994 com um título que resume a leitura: "Poder aos sem poder: um cântico de Miriã há muito perdido".
A segunda coisa corrige a primeira. Uma releitura posterior dos fragmentos, feita por Ariel Feldman, mostrou que as linhas acrescentadas dependem do vocabulário do cântico de Moisés: "águas poderosas" é a expressão de Êxodo 15:10, "majestade" vem da raiz de Êxodo 15:1 e 15:7. O cântico de Qumran não é uma composição antiga e independente que a Bíblia teria perdido. É uma composição posterior, feita com as palavras do cântico de Moisés, para preencher o vazio que o texto deixava.
O fragmento, portanto, não decide quem cantou primeiro. Mostra apenas que a pergunta é antiga: já no tempo de Qumran havia quem achasse que Miriã merecia mais do que uma linha.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Miriã lhes respondia"
O verbo é o de responder, e responder supõe alguém que falou antes. Mas a quem Miriã respondia, e de que modo? A frase deixa as duas perguntas abertas, e cada tradução antiga fechou uma delas.
Primeira leitura: ela respondia ao coro dos homens. Moisés e os filhos de Israel cantavam o poema, e Miriã, com as mulheres, devolvia a primeira linha como refrão. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) lê assim: Miriã cantou para as mulheres o primeiro verso do cântico, para que elas o dissessem depois de Moisés e de Israel. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) imagina o refrão das mulheres no fim de cada estrofe. É a leitura que dá ao verbo o seu sentido mais próprio.
Segunda leitura: ela puxava o canto, e as mulheres repetiam. A Mekhilta e Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) leem a cena como espelho da de Moisés: ele cantava para os homens, e eles repetiam; ela cantava para as mulheres, e elas repetiam. Aqui "responder" é quase "entoar". Chizkuni (compilação de comentário judaico do século XIII) vai além: as mulheres cantaram o cântico inteiro, palavra por palavra, e o texto só cita o começo porque o resto já estava escrito.
Terceira leitura: ela regia. A Septuaginta (tradução judaica da Bíblia para o grego, feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) não traduz por "responder": usa o verbo grego de quem dá início a um canto coral e o conduz, o mesmo que o grego usava para o líder do coro nas festas. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) segue com praecinebat, "cantava à frente". Nas duas, Miriã deixa de ser a que responde e passa a ser a que conduz.
A Bíblia tem um caso em que o verbo descreve claramente um canto de resposta entre mulheres. Em 1 Samuel 18:7, depois da vitória sobre Golias, "as mulheres que dançavam respondiam, dizendo: 'Saul feriu os seus milhares, e Davi, os seus dez milhares'". É o mesmo verbo, numa cena de mulheres, tamborins e danças. Lá, o refrão curto é o que todos guardaram: os filisteus o repetem em 1 Samuel 21:11, e de novo em 1 Samuel 29:5. Uma linha cantada em resposta era a forma feita para ser lembrada.
"lhes" — um pronome masculino
O hebraico escreve "respondia a eles", no masculino plural. Se Miriã cantava para as mulheres, o esperado seria o feminino. Três explicações são possíveis.
Primeira: é gramática normal. O hebraico bíblico usa com frequência o masculino plural para grupos de mulheres. Em Rute 1:8, Noemi fala às duas noras e diz "como vocês fizeram", com a forma masculina. Nessa leitura, "lhes" são as mulheres, e o pronome não diz nada.
Segunda: o pronome aponta para os homens. Miriã responderia ao coro masculino de Moisés, como na primeira leitura do verbo. Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas britânicos do século XIX) tiram daí que Moisés conduzia os homens e Miriã as mulheres, e que os dois coros se respondiam.
Terceira: o pronome inclui todos. Miriã teria cantado para o povo inteiro, homens e mulheres, e o masculino é o plural de grupo misto.
O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica que se tornou a oficial na sinagoga) resolveu a questão à sua maneira: trocou o pronome pelo feminino, "respondia a elas". O tradutor achou que o masculino era um problema e o corrigiu. O hebraico, porém, manteve o masculino, e com ele a possibilidade de que a voz de Miriã se dirigisse também aos homens.
"Cantem ao SENHOR"
A linha de Miriã é a primeira linha do cântico de Moisés com uma única troca: "Cantarei ao SENHOR" virou "Cantem ao SENHOR". A primeira pessoa do singular, a da decisão íntima, virou ordem dirigida aos outros. Moisés diz o que vai fazer; Miriã diz o que todos devem fazer. E o imperativo também está no masculino plural, como o pronome, o que reforça a abertura da pergunta anterior.
A troca muda o gênero do texto. "Cantarei" abre um canto de agradecimento pessoal; "Cantem" abre o que os estudiosos chamam de hino: um chamado ao louvor seguido de "porque" e da razão. Frank Crüsemann (biblista alemão), num estudo de 1969 sobre as formas do hino e do canto de agradecimento em Israel, tomou justamente Êxodo 15:21 como o exemplo mais antigo e mais puro dessa forma — o "hino imperativo", em que tudo cabe em duas partes: o convite e o motivo. Os salmos repetem o molde: "Cantem ao SENHOR um cântico novo, porque ele fez maravilhas" (Salmo 98:1).
Há uma consequência que o texto não comenta. No cântico de Moisés, Deus é tratado por "tu" a partir de Êxodo 15:6. Na linha de Miriã, ninguém fala com Deus: ela fala de Deus, em terceira pessoa, às pessoas à sua volta. O canto dela não é oração; é convocação.
"porque se elevou em majestade; o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar"
A razão é copiada sem nenhuma mudança de Êxodo 15:1, e a palavra rara de "se elevou em majestade" está analisada no estudo daquele versículo.
O que é próprio daqui é o que falta. O cântico de Miriã, tal como o texto o guarda, não tem Faraó, não tem Egito, não tem Israel, não tem Moisés. Tem Deus, um cavalo, um cavaleiro e o mar. É a vitória reduzida ao mínimo que ainda a torna reconhecível. E é com esta linha, e não com "o SENHOR reinará para todo o sempre", que termina a poesia do capítulo: o último verso cantado no mar é o primeiro, na boca de uma mulher.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Miriã
A profetisa do versículo anterior, agora com voz. É a única fala dela com nome no Êxodo — a menina de Êxodo 2:7, identificada com ela, falou sem nome. A outra fala que a Torá lhe atribui, em Números 12:2, é dita junto com Arão e é uma queixa contra Moisés.
"Eles"
Os destinatários do canto, indicados só pelo pronome masculino. Podem ser as mulheres que saíram atrás dela, o coro dos homens que cantou com Moisés, ou o povo inteiro (item 3).
O SENHOR
Destinatário do louvor, mencionado em terceira pessoa. É o sujeito dos dois verbos da razão: "se elevou" e "lançou".
O cavalo e o seu cavaleiro
A força de carros do Egito, reduzida a uma figura no singular, como em Êxodo 15:1.
Moisés
Não é nomeado, mas está pressuposto: a linha de Miriã só é reconhecível como resposta porque o leitor ouviu, dezenove versículos antes, Moisés cantar a mesma frase.
O momento
Ainda na beira do mar, no mesmo dia. O versículo seguinte começa com Moisés fazendo o povo partir dali, e a cena das mulheres é a última antes do deserto.
5. Pontos de Ensino
1. Uma mudança de pessoa muda o tipo de canto. De "cantarei" para "cantem", o louvor deixa de ser decisão individual e vira chamado à comunidade. Os dois são legítimos, e o capítulo guarda os dois.
2. O essencial cabe numa linha. O cântico de Miriã não tem nada de supérfluo: quem é louvado, por que e o que fez. Repetido por muitos, ele dura mais do que o poema longo.
3. A palavra de uma mulher fecha a poesia do mar. O capítulo não termina no "reinará para todo o sempre", mas na voz de Miriã, que retoma e devolve o começo.
4. A pergunta "quem cantou primeiro?" não se resolve pelo texto. Ele põe Moisés antes, e diz que Miriã respondia; hipóteses sobre a história do cântico podem inverter a ordem, mas não podem ser provadas. Ensinar o versículo honestamente é dizer as duas coisas.
5. A tradição sentiu falta da voz dela. O copista de Qumran que acrescentou um cântico de Miriã mostra que a brevidade do versículo incomodou leitores antigos. O texto que temos, porém, é o curto.
6. Aspectos Filosóficos
Por que a versão curta?
O Êxodo guarda o cântico do mar duas vezes: dezoito versos longos na boca de Moisés e uma linha na boca de Miriã. Um leitor moderno tende a achar que a versão longa é a principal e a curta, um resumo. Mas para um povo que não lia, qual das duas era mais útil? Qual delas se guarda na memória de uma multidão?
Walter Ong e a palavra que só existe enquanto soa
Walter Ong (1912-2003), padre jesuíta e estudioso norte-americano da linguagem, tratou dessa pergunta em Oralidade e cultura escrita (1982). O ponto de partida dele é simples: numa cultura sem escrita, você só sabe aquilo de que consegue se lembrar. Não há onde consultar. O conhecimento que não é repetido se perde.
Daí, segundo Ong, a forma do pensamento oral. Ele precisa ser memorável: ritmado, com fórmulas fixas, repetições, pares equilibrados, frases que se encaixam umas nas outras. A redundância, que na escrita é defeito, na fala é necessidade — o ouvinte não pode voltar uma página. E as expressões tendem a ser agregadas em blocos prontos, que se usam inteiros: não "o soldado", mas "o soldado valente", sempre do mesmo modo.
Ong insiste também numa diferença entre ver e ouvir. "A visão isola, o som incorpora", escreve ele. Quem lê está sozinho diante da página; quem ouve, ouve com os outros, no mesmo instante. A palavra falada, e sobretudo cantada, junta as pessoas num grupo que participa daquilo que diz. Por isso as culturas orais são, nas palavras dele, "participativas" mais do que "distanciadas". E a palavra falada não é coisa, é acontecimento: só existe enquanto soa. Ong lembra que a palavra hebraica para "palavra", davar, significa também "acontecimento" — e o canto da beira do mar é as duas coisas ao mesmo tempo.
O versículo lido com Ong
A linha de Miriã é quase uma ilustração de manual. É curta, ritmada, com uma razão e uma imagem. Repete uma fórmula já ouvida. Dá uma ordem que inclui quem ouve — "cantem" — e, cantada em resposta, transforma ouvintes em cantores. É o tipo de frase que um povo inteiro, sem escrita nenhuma, guarda depois de ouvir uma vez.
Ong ajuda também a ver o que os dois cânticos fazem juntos. O poema de Moisés é longo, cheio de imagens e de variações. A linha de Miriã é o pedaço desse poema que se transforma em fórmula de grupo. A memória oral funciona assim: o longo é cantado por quem sabe; o curto, repetido por todos. A tese de Cross e Freedman sobre a primeira linha como título do hino (item 2) tem fundo parecido: numa cultura oral, o começo de um canto é o seu nome.
Onde a leitura de Ong deixa de servir
O primeiro limite é que o texto que lemos é escrito, e foi escrito por copistas com regras muito próprias — o mesmo cântico que nasceu na voz ganhou, no rolo, um desenho fixo de tijolos. O que temos é a oralidade vista através da escrita. Ong sabia disso, e chamava de "resíduo oral" o que os textos escritos conservam da fala; mas não se pode tratar Êxodo 15 como gravação de uma performance.
O segundo limite foi apontado por críticos do próprio Ong, como a antropóloga Ruth Finnegan: a separação nítida entre culturas orais e culturas escritas é exagerada. O Israel antigo conhecia a escrita e a fala ao mesmo tempo, e os dois modos conviviam. A linha de Miriã não prova que o povo era analfabeto; prova apenas que, mesmo onde se escrevia, o que se guardava em comum era o que se cantava.
7. Aplicações Práticas
Convidar, e não só agradecer. Moisés disse "cantarei"; Miriã disse "cantem". A gratidão pessoal é necessária, mas o versículo mostra o passo seguinte: chamar os outros para dentro do louvor. Numa comunidade, alguém precisa fazer a voz que diz aos demais o que fazer com a alegria que todos sentem.
Dizer o essencial em pouco. A linha de Miriã é o cântico inteiro em duas frases. Quem precisa explicar a fé a alguém — um filho, um amigo, um grupo — pode aprender com a economia dela: quem é Deus, o que ele fez, e por isso o louvor.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Miriã cantou só esta linha?
O texto cita só esta. Chizkuni supõe que as mulheres cantaram o cântico inteiro e que o texto abreviou; Nachmânides e os comentaristas que pensam num refrão supõem que a linha foi repetida muitas vezes, entre as estrofes. As duas hipóteses são possíveis. O que não se pode fazer é tratar o cântico acrescentado em Qumran como se fosse o que Miriã cantou: ele foi composto séculos depois, com as palavras do cântico de Moisés.
Os homens ouviram uma mulher conduzindo o canto?
Se o pronome masculino aponta para eles, sim. A tradição rabínica preferiu imaginar dois coros separados, e o Targum trocou o pronome; o hebraico deixa a possibilidade aberta. O texto não registra nenhuma objeção à voz de Miriã, nem aqui nem em Números 12, onde a objeção de Deus é à fala dela contra Moisés, e não ao fato de ela falar.
A linha de Miriã é mais antiga que o cântico longo?
É uma das hipóteses mais repetidas da pesquisa do século XX. Martin Noth (estudioso alemão do Antigo Testamento), no seu comentário ao Êxodo, considerou os dois versos de Miriã um dos elementos mais antigos de toda a tradição do Pentateuco, e o poema de Êxodo 15:1-18 uma ampliação posterior construída a partir dele. Cross e Freedman, ao contrário, datavam também o poema longo de época muito antiga (item 2). O argumento de Noth é de forma: o que é curto e fixo costuma vir antes do que o desenvolve. É plausível, mas a regra não é segura, porque também se fazem resumos curtos de textos longos — e a linha de Miriã, na forma em que está, depende da de Moisés para ser entendida como resposta.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo verbo, num canto de mulheres depois de uma vitória
1 Samuel 18:6-7 — "Quando voltavam, ao regressar Davi de ferir o filisteu, as mulheres de todas as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando, com tamborins, com alegria e com instrumentos. E as mulheres que dançavam respondiam, dizendo: 'Saul feriu os seus milhares, e Davi, os seus dez milhares.'"
1 Samuel 21:11 — "Os servos de Aquis lhe disseram: 'Não é este Davi, o rei da terra? Não é deste que cantavam nas danças, dizendo: Saul feriu os seus milhares, e Davi, os seus dez milhares?'"
Uma linha cantada em resposta, que até os inimigos sabem de cor. É o caso mais claro do que a forma curta de Miriã podia fazer.
Outra vez uma mulher à frente do canto
Juízes 5:1 — "Naquele dia, Débora e Baraque, filho de Abinoão, cantaram, dizendo."
Em hebraico, o verbo está no feminino singular, concordando com Débora, que vem primeiro — a mesma construção de Êxodo 15:1, em que o verbo singular concorda com Moisés. Lá o homem puxa e o povo acompanha; aqui a mulher puxa e o homem acompanha.
O canto em resposta no culto
Esdras 3:11 — "E cantavam em resposta, louvando e dando graças ao SENHOR: 'Porque ele é bom, porque a sua misericórdia sobre Israel dura para sempre.'"
Salmo 147:7 — "Cantem ao SENHOR em ação de graças; toquem harpa ao nosso Deus."
Em Esdras, na fundação do segundo templo, o verbo de Miriã descreve dois grupos que se respondem. No salmo, o imperativo do mesmo verbo abre o louvor. A forma da beira do mar virou forma do culto.
O outro cântico do deserto em resposta
Números 21:17 — "Então Israel cantou este cântico: 'Brote, ó poço! Cantem para ele.'"
"Cantem para ele" é, em hebraico, o imperativo do verbo de Êxodo 15:21: o povo é convidado a responder ao poço.
O hino que começa com "Cantem"
Salmo 98:1 — "Cantem ao SENHOR um cântico novo, porque ele fez maravilhas; a sua direita e o seu santo braço lhe deram a vitória."
Jeremias 20:13 — "Cantem ao SENHOR, louvem o SENHOR, porque ele livrou a vida do necessitado da mão dos malfeitores."
O molde de Miriã — "cantem", "porque", e o que Deus fez —, com a direita de Deus de Êxodo 15:6 no salmo e, em Jeremias, aplicado ao livramento de um homem só.
O cântico novo que retoma o antigo
Isaías 42:10 — "Cantem ao SENHOR um cântico novo, o seu louvor desde a extremidade da terra, vocês que descem ao mar, e tudo o que nele há."
O profeta chama ao canto justamente os que descem ao mar.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Miriã lhes respondia: “Cantem ao SENHOR, porque se elevou em majestade; o cavalo e o seu cavaleiro ele lançou ao mar.”
Texto hebraico
וַתַּעַן לָהֶם מִרְיָם שִׁירוּ לַיהוָה כִּי־גָאֹה גָּאָה סוּס וְרֹכְבוֹ רָמָה בַיָּם׃
Transliteração
va-ta'an lahem Miryam: shiru la-YHWH ki-ga'oh ga'ah, sus ve-rokhevo ramah va-yam.
Análise palavra por palavra
וַתַּעַן — va-ta'an, "e respondia".
Raiz '-n-h, na forma verbal que encadeia a narrativa, terceira pessoa feminina do singular. As mesmas três consoantes formam, no hebraico, verbos diferentes — "responder", "afligir", "ocupar-se" e "cantar" —, e os léxicos discutem se o uso deste versículo pertence a "responder" ou a um verbo próprio de "cantar".
O que se pode acrescentar é o campo de uso do sentido musical. Ele aparece sempre em contexto de canto coletivo: as mulheres de 1 Samuel 18:7, os grupos que se respondem em Esdras 3:11, o "cantem para ele" do poço em Números 21:17, o "cantem ao SENHOR" do Salmo 147:7, a vinha do cântico de Isaías 27:2.
E há uma ocorrência que fecha o arco do Êxodo. Em Êxodo 32:18, Moisés desce do monte e ouve barulho no acampamento. Josué pensa que é guerra. Moisés responde com três frases construídas sobre esta raiz: "não é som de quem canta vitória, nem som de quem canta derrota; é som de canto que eu ouço". A palavra que descreveu o canto de Miriã na beira do mar volta, quase no mesmo livro, para descrever o canto em volta do bezerro de ouro.
לָהֶם — lahem, "lhes".
Preposição le, "a, para", com o sufixo de terceira pessoa masculina do plural. A forma feminina seria lahen, e é a que o Targum de Ônquelos põe na sua tradução aramaica (item 3).
מִרְיָם — Miryam, "Miriã".
O sujeito vem depois do verbo e do pronome, na ordem normal da prosa hebraica.
שִׁירוּ — shiru, "cantem".
Raiz shir, cantar, no imperativo, segunda pessoa masculina do plural. É a única diferença em relação à primeira linha do cântico de Moisés, que tem ashirah, "cantarei", primeira pessoa do singular com a terminação de decisão. As consoantes da raiz são as mesmas; mudam o prefixo, o sufixo e, com eles, quem canta.
O imperativo masculino plural é o mesmo dos salmos que convocam ao louvor: shiru la-YHWH abre o Salmo 96, o Salmo 98 e Isaías 42:10, e está em Jeremias 20:13. A expressão exata de Miriã tornou-se o começo padrão do hino.
לַיהוָה — la-YHWH, "ao SENHOR".
Preposição le com o nome divino, como em Êxodo 15:1.
כִּי־גָאֹה גָּאָה — ki-ga'oh ga'ah, "porque se elevou em majestade".
Igual, letra por letra, a Êxodo 15:1. A raiz, o infinitivo de reforço e o vínculo com a "majestade" de Êxodo 15:7 estão analisados no estudo daquele versículo.
סוּס וְרֹכְבוֹ — sus ve-rokhevo, "o cavalo e o seu cavaleiro".
Também igual a Êxodo 15:1: sus no singular coletivo e o particípio de "montar, ir sobre", com o sufixo "dele".
רָמָה בַיָּם — ramah va-yam, "ele lançou ao mar".
O verbo de arremesso de Êxodo 15:1, no perfeito, com "ao mar". As duas metades da linha de Miriã reproduzem sem variação a primeira linha do cântico; das nove palavras do canto, só a primeira, shiru, é diferente.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a ordem do texto e a ordem dos fatos não precisam coincidir, e o versículo não permite decidir qual veio antes, o canto de Moisés ou o de Miriã. O texto apresenta Moisés primeiro e Miriã respondendo; a hipótese de que a tradição mais antiga atribuía o cântico a ela é séria e não demonstrável. O fragmento de Qumran não resolve a questão: mostra que leitores antigos sentiram falta da voz de Miriã, e que a supriram com as palavras de Moisés.
A segunda é que a linha de Miriã não é um resumo empobrecido do cântico, mas outra forma dele. Ao trocar "cantarei" por "cantem", ela transformou um agradecimento pessoal em chamado à comunidade, e criou o molde do hino que os salmos repetiriam. A forma curta é a que podia ser cantada por todos.
A terceira é que o texto deixa aberto o alcance da voz de Miriã. O pronome masculino, mantido pelo hebraico e corrigido pelo Targum, permite que ela tenha falado também aos homens. Os tradutores antigos fecharam essa porta; o versículo, não.













