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Êxodo 15:10

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 17 acessos
Sopraste com o teu vento, e o mar os cobriu; afundaram como chumbo nas águas magníficas.
Ondas escuras desabando sobre carros de guerra egípcios ao amanhecer, com um vento forte levantando espuma e homens desaparecendo sob a água pesada.

Estudo


Sopraste com o teu vento, e o mar os cobriu; afundaram como chumbo nas águas magníficas.

1. Introdução

O inimigo acabou de falar em seis verbos, e a resposta é um verbo só: "sopraste". Este é o terceiro vento do episódio — depois do vento oriental da prosa e do vento das narinas de Êxodo 15:8 — e o único que fecha o mar em vez de abri-lo. A comparação com o chumbo traz o metal que, no mundo antigo, era sinônimo de afundar, e com ela uma pergunta que os comentaristas levaram a sério: por que ninguém nadou? E a última palavra, "magníficas", deixa em aberto de quem é a grandeza — das águas, dos que afundaram ou de quem soprou.

2. Contexto Histórico e Cultural

O metal que afunda

Para quem cantou este verso, "como chumbo" não era imagem gasta. Era informação. O chumbo pesa mais de onze vezes o mesmo volume de água — bem mais que o ferro e o cobre —, e entre os metais de uso comum nenhum descia mais depressa. O ouro é mais pesado, mas ninguém o atirava na água. E o chumbo derrete num fogo de lenha, a pouco mais de trezentos graus, de modo que qualquer ferreiro o fundia em forma de peso, de tampa ou de selo. Era o metal barato que servia para puxar as coisas para baixo.

Um subproduto da prata

Quase ninguém buscava o chumbo por ele mesmo. O minério de onde ele sai traz prata misturada, e a prata se separava assim: funde-se tudo, sopra-se ar com o fole, o chumbo se queima e escorre como escória, e a prata fica. O método aparece em Jeremias 6:29-30: "O fole sopra com força, o chumbo se consome no fogo; em vão o fundidor refina, porque os maus não se separam. Prata rejeitada, é como os chamarão." E em Ezequiel 22:18-20 o povo inteiro vira resto de fornalha — "bronze, estanho, ferro e chumbo" —, o que sobra depois que o bom metal saiu.

Na Bíblia, portanto, o chumbo mora na fornalha e na lista de despojos. Números 31:22 enumera os metais que os soldados trouxeram de Midiã — ouro, prata, bronze, ferro, estanho e chumbo —, e o chumbo vem por último. Ezequiel 27:12 conta que ele chegava a Tiro por mar, vindo de Társis, no extremo oeste, junto com a prata, o ferro e o estanho.

No Egito havia minério de chumbo na costa do mar Vermelho, em Gebel el-Zeit, explorado por expedições do Médio Império (as de Amenemés III estão registradas). O uso principal era a pintura dos olhos; o chumbo em metal aparece em escala modesta, em pesos e chumbadas de pesca (o tipo de rede que levava chumbo na borda está descrito no estudo de Mateus 13:47).

O peso que tampa, o peso que mede, o peso que fixa

Três usos do metal na Bíblia mostram o que a palavra evocava.

Tampar. Em Zacarias 5:7-8 o profeta vê um cesto de medida com uma mulher dentro, chamada "a Maldade", e uma tampa de chumbo — literalmente "um talento de chumbo", a mesma palavra da unidade de peso. O anjo a empurra para dentro do cesto e joga "a pedra de chumbo" sobre a boca. O chumbo é o que impede o mal de sair.

Medir a profundidade. Em Atos 27:28, na tempestade que leva Paulo a Malta, os marinheiros "lançaram o prumo e acharam vinte braças"; o verbo grego vem do nome da sonda de chumbo que se atirava amarrada a uma corda. Chumbo era o que se mandava ao fundo para saber onde o fundo estava.

Fixar para sempre. Jó 19:24 deseja que as suas palavras fossem "com estilete de ferro e com chumbo, para sempre gravadas na rocha". Não há consenso sobre a técnica: pode ser chumbo derretido nas letras escavadas, para que não se apagassem, ou uma lâmina de chumbo escrita a ponta de ferro. Nos dois casos o metal é o que fica.

O imaginário do metal que desce

Um dado de outra cultura, mais tardio, ajuda a medir o peso simbólico. Os gregos, a partir do século V antes de Cristo, escreviam maldições em finas folhas de chumbo, enrolavam-nas, atravessavam-nas com um prego e as jogavam em poços, fontes e sepulturas — os arqueólogos já contam mais de mil e quinhentas. O chumbo era barato e fácil de riscar, e provavelmente era também o metal certo para o que se queria mandar para baixo, para a água escura e para os mortos.

Nada disso está no Êxodo, mas é o horizonte da comparação.

3. Análise Teológica do Versículo

"Sopraste com o teu vento"

Na prosa, o mar se fecha sem vento nenhum. Êxodo 14:26-27 narra a volta das águas assim: "Moisés estendeu a mão sobre o mar, e ao amanhecer o mar voltou ao seu leito". O único vento do capítulo 14 é o que abre (Êxodo 14:21). O cântico tem dois: um que amontoa as águas, em Êxodo 15:8, e este, que as derruba sobre o exército. O poema acrescenta um sopro que a narrativa não conhecia.

Os comentaristas judeus medievais viram a diferença e tentaram costurá-la, cada um por um caminho.

Primeira leitura: o segundo vento é o mesmo primeiro, virado. É a de Sforno (Ovadia Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI): com o próprio vento que tinha secado o fundo para os resgatados passarem, Deus soprou para cobrir os perseguidores.

Segunda leitura: a prosa já falava desse vento, só que de modo indireto. É a de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII): quando Êxodo 14:27 diz que o mar "voltou ao seu leito" — ao pé da letra, "à sua força" —, quer dizer que Deus fez soprar sobre ele o vento com que governa o mar em dia comum, quando as ondas se levantam.

Terceira leitura: o verbo traz a hora. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) liga a palavra hebraica de "soprar" à do crepúsculo, que tem as mesmas consoantes: Deus trouxe um vento no lusco-fusco. Nachmânides acolhe a ligação e precisa: é o lusco-fusco antes do sol nascer, o mesmo "amanhecer" de Êxodo 14:27. Mas prefere a leitura de Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI), que fica com "soprar" e cita o único paralelo — Isaías 40:24, onde Deus "sopra" sobre os poderosos da terra e eles secam. Não é possível decidir; o próprio Nachmânides diz que Rashi "explicou bem" e mesmo assim guarda a hora.

Três ventos, uma palavra

O episódio do mar usa a mesma palavra hebraica de vento três vezes, e a tradução desta obra a mantém nas três de propósito, para que o leitor as veja como uma cadeia. Postos lado a lado, os três dizem coisas diferentes.

Em Êxodo 14:21 o vento tem direção, força e duração: "um forte vento oriental toda aquela noite". É linguagem de quem descreve o tempo que fez. O vento sopra do leste, sopra forte, sopra horas.

Em Êxodo 15:8 ele perde a direção e ganha um corpo: "o vento das tuas narinas". E no hebraico a palavra do nariz é a mesma da ira — o vento sai de um rosto irado, como o bufo de um animal antes do ataque.

Aqui ele perde também o corpo e fica só com o dono: "o teu vento". Sem leste, sem noite, sem narinas. A única informação que resta é de quem ele é.

A sequência vai do boletim do tempo ao possessivo. O poema não desmente a prosa — não diz que não houve vento leste. Faz outra coisa: assina o vento. O que o capítulo 14 contou como fenômeno com hora e direção, o cântico canta como fôlego de alguém a quem se fala de "tu". É a diferença entre relatar e agradecer.

E repare em quem falta. Na prosa, as duas vezes, quem estende a mão sobre o mar é Moisés. Aqui não há mão de ninguém. Quem canta é Moisés, e no próprio canto Moisés não faz nada.

Os tradutores antigos e o Deus que sopra

Soprar é gesto de gente: de quem atiça um fogo ou esfria a comida. As versões antigas trataram o verbo cada uma a seu modo, e as três saídas são diferentes.

A Septuaginta (a tradução grega da Torá, feita em Alexandria no século III antes de Cristo) troca o gesto por um envio: "enviaste o teu sopro". A Vulgata (a versão latina de Jerônimo, do fim do século IV) põe o vento como sujeito: "soprou o teu espírito". E o Targum de Ônquelos (a tradução judaica antiga da Torá para o aramaico) troca o sopro pela fala: "disseste com a tua palavra, e o mar os cobriu". Só o hebraico deixa Deus soprando como um homem sopra.

O verbo é raríssimo. Fora daqui, só Isaías 40:24 o usa, e numa imagem que ilumina esta: os príncipes e os juízes da terra mal criaram raiz, Deus "sopra sobre eles, e secam, e o redemoinho os leva como palha". O poder humano, nos dois textos, é dissolvido por um hálito.

A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) lê este versículo como resposta direta ao anterior. Faraó se gabou em cinco frases — "perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo…" —, e o Espírito Santo responde zombando dele com o que veio a seguir: "sopraste com o teu vento, e o mar os cobriu". E cita o Salmo 2:4: "Aquele que habita nos céus ri".

"e o mar os cobriu"

O mar é sujeito, e o objeto é um pronome. Não há "egípcios" nem "Faraó" na frase — só "os". Quem eles são, o leitor sabe pelo versículo anterior, que os chamou de "o inimigo".

O vento é de Deus; o mar não tem dono no verso. Deus sopra, e quem executa é o mar.

"afundaram como chumbo"

A comparação diz duas coisas: que desceram depressa e que desceram sem luta. É esta segunda que fez os comentaristas pararem.

Nachmânides faz a conta de quem entende de água. Havia entre os egípcios muitos homens que sabiam nadar; estavam perto da terra seca; os cavalos nadam bem; e quem carrega escudo tem uma prancha nas mãos. Mesmo assim ninguém escapou. Por isso, diz ele, o cântico insiste na imagem: o afundar sem resistência também veio "da mão de Deus". Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) observa o mesmo por outro lado: afundaram depressa como chumbo, embora a água agitada costume retardar até o que é pesado. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) propõe a explicação simples: o peso das armas e das couraças.

Há uma segunda leitura do verbo, e ela muda a cena. Ibn Ezra liga a palavra de "afundar" a outra, de mesmas consoantes, que em Habacuque 3:16 descreve os lábios que tremem; a mesma forma faz zunir os ouvidos em 1 Samuel 3:11. Um supercomentário de Ibn Ezra, o de Krinsky, tirou daí a consequência provável: eles "ressoaram" ao afundar, como chumbo que vibra — não morreram em silêncio. O Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) registra a mesma possibilidade — afundaram assobiando, com um ruído de água engolida. Ficam duas cenas: a descida muda de Nachmânides e de Rashbam, e a descida com som. O hebraico admite as duas, e não é possível decidir.

O cântico já comparou os mesmos homens à pedra e ao restolho; como a tradição leu as três imagens juntas, como graus de culpa, está desenvolvido no estudo de Êxodo 15:5.

"nas águas magníficas"

Aqui a pergunta é de quem é o adjetivo. O hebraico permite três respostas.

Primeira: das águas. É a leitura mais direta, e a da maioria — Rashbam a apoia no Salmo 93:4, onde as ondas do mar são chamadas pela mesma palavra. Para Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII), eram honradas por servirem de instrumento a uma obra gloriosa.

Segunda: dos homens. Sforno lê o adjetivo como substantivo e o separa das águas — leitura que a acentuação hebraica tolera, porque marca uma pausa logo depois de "na água": "afundaram como chumbo na água — os magníficos". Seriam os nobres e os chefes, os oficiais escolhidos de Êxodo 14:7. A frase ganharia ironia: os grandes do Egito descendo como o metal mais vulgar.

Terceira: de todos. A Mekhilta enumera quatro coisas que a Bíblia chama por esse nome — Deus (Salmo 93:4), Israel (Salmo 16:3), o Egito (Ezequiel 32:18) e as águas, neste versículo. Lido assim, o verso é um encontro de grandezas, e uma delas desce como chumbo.

A Septuaginta e a Vulgata escolheram a força ("água violenta", "águas veementes"). A tradução desta obra fica com "magníficas" para que o leitor reconheça a palavra quando ela voltar no versículo seguinte, aplicada a Deus. O efeito é de contraste: as águas são magníficas, e quem as move é mais.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem fala e com quem

Quem canta são Moisés e os filhos de Israel, na praia, depois da travessia (Êxodo 15:1). Mas o verso não fala deles: fala com Deus, na segunda pessoa — "sopraste", "o teu vento". O canto, que começou anunciando ("cantarei ao SENHOR"), aqui já fala com ele.

Os que afundaram

O verso não os nomeia. São o exército de Faraó que entrou atrás de Israel — "todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros" (Êxodo 14:23) —, chamados no versículo anterior de "o inimigo". Se o adjetivo final se refere a eles, como quer Sforno, os "magníficos" são a oficialidade: os homens dos seiscentos carros escolhidos de Êxodo 14:7.

O mar

É o mar dos Juncos da prosa, aqui só "mar", sem nome e sem artigo. No verso ele não tem iniciativa: cobre porque foi soprado.

O acontecimento e a hora

O que o verso canta é a volta das águas, narrada em Êxodo 14:27-28: ao amanhecer, os egípcios fugindo "ao encontro" do mar, e o mar voltando ao seu leito. Se Ibn Ezra e Nachmânides têm razão quanto ao verbo, o próprio cântico guarda a hora: o lusco-fusco antes do sol.

5. Pontos de Ensino

1. O cântico não é a prosa rimada. A memória cantada do mar traz um vento que o relato não traz. Os comentaristas medievais preferiram harmonizar as duas versões a escolher entre elas, e o livro guardou as duas.

2. Fenômeno e ato podem ser o mesmo fato. O vento de Êxodo 14:21 tem direção e duração; o deste verso tem dono. Uma forma de dizer não anula a outra.

3. A desproporção é parte do que se canta. Seis verbos de planejamento no versículo anterior; um sopro neste.

4. "Como chumbo" diz como, não só o quê. A imagem registra a descida sem luta, e a tradição leu nisso a mão de Deus tanto quanto no mar.

6. Aspectos Filosóficos

O mais leve contra o mais pesado

O verso põe frente a frente as duas pontas de uma escala. De um lado, o vento — a coisa mais leve que há, tão leve que não se vê. Do outro, o chumbo — a coisa mais pesada que um ouvinte antigo conhecia de perto. E vence o leve. Um exército de carros, cavalos e couraças é derrubado por um sopro.

Esse par, leveza e peso, é o tema da primeira das conferências que Italo Calvino (escritor italiano, 1923-1985) preparou para a Universidade Harvard e não chegou a proferir: Seis propostas para o próximo milênio, publicadas depois da sua morte, em 1988. A primeira proposta é "Leveza".

O que Calvino entende por leveza

Calvino começa confessando um método: o trabalho dele, diz, tem sido quase sempre o de "subtrair peso" — às figuras, aos corpos celestes, às cidades, à própria linguagem. E explica por quê. Houve um momento em que o mundo lhe pareceu estar virando pedra, uma "petrificação" lenta de tudo, e ele procurou um modo de não ser apanhado por ela.

A imagem que escolhe para isso é o mito de Perseu e da Medusa. A Medusa transforma em pedra quem a olha. Perseu só consegue vencê-la apoiando-se no que há de mais leve — as sandálias aladas, os ventos e as nuvens — e olhando para ela de modo indireto, pelo reflexo no escudo. A força que vence o peso do mundo, nessa leitura, não é outra força pesada: é uma recusa a ficar no mesmo plano do peso.

Calvino faz questão de separar a leveza que defende da leveza vaga. Cita Paul Valéry (poeta francês do século XX): é preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma. A pluma é leve porque é levada; o pássaro é leve porque decide para onde vai.

O que o conceito ilumina neste verso

Lido com Calvino, o pesado tem no verso todas as vantagens aparentes — número, metal, velocidade, plano de batalha em seis verbos — e perde. E a leveza do verso é a do pássaro, não a da pluma. O vento não é solto: é "o teu vento". Tem dono e direção, ainda que o poema não diga qual. É leveza com precisão, que é exatamente o que Calvino pede.

Há também o lado da linguagem, que Calvino chama de primeira forma de leveza: o despojamento das palavras. O verso inteiro tem oito palavras no hebraico. Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do século XIX) já tinha notado a economia da passagem e a comparado aos escritores que esgotam o assunto em descrições pomposas. A morte de um exército cabe em duas linhas, sem um grito, sem um nome, sem um cadáver descrito.

Onde a aproximação falha

Calvino pensa a leveza como virtude do escritor diante de um mundo pesado. A leveza dele é uma ética de quem não tem poder: Perseu é um herói pequeno diante de um monstro.

No verso, a leveza é atributo de quem tem todo o poder. O vento não escapa do peso do mundo; ele o derruba. O sopro que salva uns é o mesmo que afoga outros, e Calvino não tem nada a dizer sobre isso — a leveza dele nunca mata ninguém.

E há o chumbo, que no ensaio de Calvino seria só o pesado a ser evitado. No verso ele é a imagem do destino de homens. O conceito ajuda a ver a forma da cena; não ajuda a pesar o que ela custa. Esse peso, o cântico deixa para quem lê.

7. Aplicações Práticas

Contar e cantar a mesma coisa

O capítulo 14 conta a noite do mar com vento oriental, horas e gestos de Moisés. O capítulo 15 canta a mesma noite e diz "o teu vento". As duas versões ficaram lado a lado no livro, sem que uma corrigisse a outra.

Isso tem uma aplicação concreta para quem guarda a memória de um livramento — uma doença superada, um acidente evitado, uma dívida que se resolveu. Há o relato: as datas, o médico, o vento que soprou do leste. E há o agradecimento, que diz de quem foi. O texto não obriga a escolher. O relato não desmente o agradecimento, e o agradecimento não precisa apagar o relato. Quem só tem o primeiro perde o sentido do que viveu; quem só tem o segundo costuma perder os fatos.

O peso dos planos

O verso vem logo depois de uma fala cheia de "eu farei": perseguirei, alcançarei, repartirei, desembainharei. A resposta é um sopro. A aplicação que tem relação real com o texto é modesta e precisa: planos feitos em série, na primeira pessoa e contando o despojo antes da batalha, são do tipo que o cântico põe para afundar. O verso não promete que todo arrogante vai se afogar — o livro inteiro mostra que muitos não se afogam. Mostra que o peso acumulado não garante nada.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

De que lado soprou o segundo vento?

O cântico não diz, e a prosa nem menciona um segundo vento. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) e Ellicott imaginam uma virada do vento para noroeste ou norte, que empurraria a água de volta para o sul; Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) fala de uma mudança súbita de direção que faria as massas de água amontoadas desabarem. É reconstrução de comentarista. O verso tira justamente a direção e deixa só o dono.

Por que chumbo e não ferro?

Porque o ferro, no imaginário bíblico, é o metal da dureza e da força — o "estilete de ferro", a "fornalha de ferro", o jugo de ferro. O chumbo é o metal do peso puro, sem nenhuma outra qualidade admirável. Comparar os carros de guerra ao chumbo, e não ao ferro de que eram feitos em parte, é tirar deles até a dignidade do material.

Quem é "o teu vento" — vento ou espírito?

A palavra hebraica serve para as duas coisas, e para fôlego também. Em Gênesis 1:2 a tradução desta obra a verte por "Espírito de Deus"; aqui, por "vento". A escolha é de contexto: um sopro que levanta e derruba água pede "vento". Mas o leitor do hebraico ouve as duas coisas ao mesmo tempo, e a Vulgata, ao escrever "soprou o teu espírito", deixou a segunda à mostra.

9. Conexão com Outros Textos

O fecho do mar na prosa, sem vento

Êxodo 14:27 — "Moisés estendeu a mão sobre o mar, e ao amanhecer o mar voltou ao seu leito; e os egípcios fugiam ao encontro dele, e o SENHOR sacudiu os egípcios para o meio do mar."

A mesma cena deste verso, contada com a mão de Moisés e sem sopro nenhum. É a comparação entre as duas que mostra o vento acrescentado pelo poema.

Os outros dois ventos da cadeia

Êxodo 14:21 — "Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o SENHOR fez o mar retirar-se por um forte vento oriental toda aquela noite; e tornou o mar em terra seca, e as águas se dividiram."

Êxodo 15:8 — "Com o vento das tuas narinas as águas se amontoaram; as correntes ficaram de pé como um dique; os abismos coalharam no coração do mar."

O primeiro tem direção e duração; o segundo, um rosto; o deste verso, só o possessivo.

A fala a que este verso responde

Êxodo 15:9 — "O inimigo disse: 'Perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo; a minha alma se fartará deles; desembainharei a minha espada, a minha mão os desapossará.'"

A Mekhilta lê os dois versos como pergunta e resposta: o inimigo fala em série, e Deus responde com um sopro.

O único outro lugar do verbo

Isaías 40:24 — "Mal foram plantados, mal foram semeados, mal o seu tronco criou raiz na terra, ele sopra sobre eles, e secam, e o redemoinho os leva como palha."

Os príncipes da terra, no versículo anterior de Isaías, são o alvo. O verbo raro de soprar e a palha juntos — as duas imagens que o cântico usa para o exército, em Êxodo 15:7 e aqui.

O sopro que cria e o sopro que derruba

Salmo 104:29-30 — "Se você esconde o seu rosto, eles se perturbam; se lhes tira o fôlego, morrem e voltam ao pó. Você envia o seu sopro, e são criados, e renova a face da terra."

A mesma palavra hebraica de vento, agora como fôlego da vida. E um detalhe que só aparece no grego: a Septuaginta diz aqui "enviará o seu sopro", com quase as mesmas palavras gregas que usou para traduzir este versículo do Êxodo (o verbo de enviar, só com um prefixo a mais). No salmo, o sopro enviado cria; no cântico, afoga.

As águas chamadas magníficas

Salmo 93:4 — "Mais que o estrondo das muitas águas, mais magnífico que as ondas do mar, magnífico nas alturas é o SENHOR."

O mesmo adjetivo duas vezes no mesmo verso: para as ondas e para Deus. É a leitura de Rashbam para "águas magníficas", e é também o movimento deste verso para o seguinte.

Neemias 9:11 — "Você dividiu o mar diante deles, e passaram pelo meio do mar em terra seca; e lançou nas profundezas os que os perseguiam, como pedra em águas impetuosas."

A oração dos levitas junta duas linhas do cântico numa só: a pedra de Êxodo 15:5 e o fim deste verso, "nas águas", trocando "magníficas" por "impetuosas".

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Sopraste com o teu vento, e o mar os cobriu; afundaram como chumbo nas águas magníficas.

Texto hebraico

נָשַׁפְתָּ בְרוּחֲךָ כִּסָּמוֹ יָם צָלְלוּ כַּעוֹפֶרֶת בְּמַיִם אַדִּירִים׃

Transliteração

nashafta ve-ruchakha, kissamo yam; tsalelu ka-oferet be-mayim addirim.

Análise palavra por palavra

נָשַׁפְתָּ — nashafta, "sopraste".

Raiz nashaf, no Qal (a forma simples do verbo hebraico), perfeito, segunda pessoa do masculino singular. Como verbo, só aparece aqui e em Isaías 40:24. É o sopro de boca, curto e dirigido — o de quem assopra uma brasa —, não o vento que corre por conta própria.

Das mesmas consoantes vem o substantivo neshef, o crepúsculo, a hora de luz baixa da tarde e do fim da madrugada (Jó 24:15; Salmo 119:147). A ligação é antiga e discutida: há quem explique o crepúsculo como "a hora da brisa", quando o ar refresca. Ibn Ezra tirou dela a leitura de que o verbo indica a hora do segundo vento; Rashi ficou com o sentido de soprar. Nachmânides propõe ainda que nashaf e nashav — o verbo comum de soprar, de Isaías 40:7 e do Salmo 147:18 — sejam a mesma palavra, porque o hebraico troca às vezes as letras f e v, e dá uma lista de casos da troca.

בְרוּחֲךָ — ve-ruchakha, "com o teu vento".

A preposição be, aqui de instrumento ("por meio de"), o substantivo ruach e o sufixo de segunda pessoa do masculino singular, "teu". Ruach é vento, fôlego e espírito, e é palavra feminina. É a terceira ocorrência no episódio do mar, depois de Êxodo 14:21 (ruach qadim, "vento oriental") e de Êxodo 15:8 (ruach appekha, "vento das tuas narinas"). Das três, é a única só com o possessivo.

כִּסָּמוֹ — kissamo, "cobriu-os".

Raiz kasah, cobrir, no Piel (a forma intensiva do verbo), perfeito, terceira pessoa do masculino singular, com o sufixo -mo, "os". É a forma poética do pronome, descrita no estudo de Êxodo 15:7. A prosa diria kissam. A mesma raiz, com a forma comum, está em Êxodo 14:28, "cobriram os carros".

יָם — yam, "mar".

Sem artigo. A prosa do capítulo 14 diz quase sempre ha-yam, "o mar"; a poesia hebraica dispensa o artigo com frequência, e o efeito em português é o de um nome comum usado como próprio: Mar cobriu-os.

צָלְלוּ — tsalelu, "afundaram".

Raiz tsalal, no Qal, perfeito, terceira pessoa comum do plural. Com o sentido de afundar, a palavra só aparece aqui. O sentido se fixa pelo parentesco com metsolot, "as profundezas" de Êxodo 15:5 e de Jonas 2:3 — é a ligação que Rashi faz.

Com as mesmas consoantes há ainda tsalal "zunir, vibrar" (de onde vêm os címbalos, metsiltayim) e tsel, sombra. Os léxicos modernos tratam as três como raízes diferentes que coincidiram na forma.

כַּעוֹפֶרֶת — ka-oferet, "como chumbo".

A preposição ke, "como", com o artigo absorvido, e o substantivo oferet, chumbo, feminino. A palavra aparece nove vezes na Bíblia hebraica: aqui; Números 31:22; Jeremias 6:29; Ezequiel 22:18 e 22:20; Ezequiel 27:12; Zacarias 5:7 e 5:8; e Jó 19:24. Fora deste verso, quase sempre em lista de metais ou na fornalha.

Ibn Ezra liga oferet a afar, pó, talvez pela cor cinzenta, e acrescenta uma observação de ciência medieval: dos metais enterrados, todos perdem alguma coisa com os anos, menos o chumbo, que "sempre aumenta". A etimologia não é segura, e nenhuma outra proposta se impôs.

בְּמַיִם אַדִּירִים — be-mayim addirim, "nas águas magníficas".

Be, "em"; mayim, águas, palavra que só existe no plural; addirim, adjetivo masculino plural, "magníficos, poderosos". A raiz e as suas três aparições no cântico — a direita de Deus, as águas, o próprio Deus — estão desenvolvidas no estudo de Êxodo 15:6.

Gramaticalmente, addirim concorda com mayim, que é masculino plural, e essa é a leitura natural. Mas, como os afogados também são masculinos plurais, a concordância não impede a leitura de Sforno, em que "os magníficos" são os homens. Rashbam aproxima a expressão de Salmo 93:4, addirim mishberei yam, "magníficas as ondas do mar".

Observação sobre o conjunto

Oito palavras em duas metades. A primeira tem Deus por sujeito e termina no mar; a segunda tem os afogados por sujeito e termina nas águas.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o cântico não é uma cópia rimada da prosa. Ele acrescenta um vento que o capítulo 14 não tem, tira a direção e a duração do vento que o capítulo 14 tinha, e entrega os dois a um dono. Quem lê os dois capítulos juntos tem duas memórias da mesma noite, e o livro não pediu que se escolhesse uma.

A segunda é que a imagem do chumbo carrega um juízo além da física. Diz que os homens desceram sem resistência, e a tradição judaica entendeu isso como parte do que Deus fez — ninguém nadou, nem quem sabia. Se desceram calados ou ressoando, o hebraico deixa em aberto.

A terceira é que o verso prepara o seguinte. Ao chamar de "magníficas" as águas — ou os homens que afundaram nelas —, ele põe sobre a mesa a grandeza das coisas criadas, para que o versículo 11 pergunte quem é magnífico de verdade.

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