Quem é como tu entre os deuses, SENHOR? Quem é como tu, magnífico em santidade, temível em louvores, que faz maravilha?
1. Introdução
Depois de narrar o afogamento, o cântico para e faz uma pergunta — duas vezes. "Quem é como tu" virou a frase mais rezada do Êxodo: entrou na oração judaica da manhã e da noite, foi gritada num rolo de guerra de Qumran e acabou, por uma lenda medieval, dando nome aos Macabeus. Os tradutores antigos não ficaram à vontade com a primeira linha, porque ela compara Deus com "deuses", e cada um a resolveu de um jeito. As três qualificações seguintes — magnífico em santidade, temível em louvores, que faz maravilhas — dividiram os comentaristas, sobretudo a do meio: por que temer quem se louva?
2. Contexto Histórico e Cultural
Duas vezes por dia, depois do Shemá
Nenhum verso do cântico teve vida mais longa fora da Bíblia do que este. Ele é recitado, até hoje, duas vezes por dia na oração judaica — e o lugar exato em que entrou explica por quê.
O Shemá ("Ouve", a confissão de Deuteronômio 6:4, "Ouve, Israel, o SENHOR é o nosso Deus, o SENHOR é um") é rezado de manhã e de noite, cercado de bênçãos. A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) fixa o esquema em Berakhot 1:4: de manhã, duas bênçãos antes e uma depois; à noite, duas antes e duas depois. A bênção que vem logo depois do Shemá começa, de manhã, com "Verdadeiro e firme" e, à noite, com "Verdadeiro e fiel", e termina com a fórmula "Bendito és tu, SENHOR, que redimiste Israel". É a bênção da redenção.
O que essa bênção devia conter foi discutido cedo. A Tosefta (coleção de ensinos do mesmo período da Mishná), citada no Talmude de Jerusalém, Berakhot 1:6, registra três exigências: lembrar a saída do Egito; segundo Rabi Judá, o Príncipe, lembrar o reinado de Deus; segundo "outros", lembrar a abertura do mar dos Juncos e a morte dos primogênitos. As três foram atendidas com palavras do próprio cântico. No texto que se reza há séculos, a bênção cita este verso — "Quem é como tu entre os deuses, SENHOR? Quem é como tu, magnífico em santidade, temível em louvores, que faz maravilha?" — e logo depois Êxodo 15:18, "O SENHOR reinará para todo o sempre". À noite, entra ainda um pedaço de Êxodo 15:2: os filhos "viram o teu reinado" e disseram "Este é o meu Deus".
A posição tem consequência. A bênção da redenção é a última coisa dita antes da oração principal, recitada em pé, e os rabinos insistiram em que não houvesse intervalo entre as duas (Talmude Babilônico, Berakhot 9b). Na prática, quem reza passa direto do "quem é como tu" do mar para o pedido diante de Deus. O verso virou a porta de entrada da súplica.
A bênção em si é antiga. A Mishná Tamid 5:1 conta que os sacerdotes, no Templo, ainda antes de 70, recitavam o Shemá e depois "Verdadeiro e firme". Se o texto daquela época já trazia a citação deste verso, a Mishná não diz.
No Rolo da Guerra de Qumran
Entre os manuscritos achados em 1947 nas cavernas de Qumran, junto ao mar Morto, está o chamado Rolo da Guerra (abreviado 1QM: caverna 1, Milchamah, "guerra"), um roteiro para a batalha final entre os "filhos da luz" e os "filhos das trevas". A cópia é do fim do século I antes de Cristo ou do começo do século I. Uma parte dele são orações para o sacerdote dizer antes do combate, e nelas a pergunta do cântico volta duas vezes.
Na coluna 10: "Quem é como tu, Deus de Israel, nos céus e na terra, que possa fazer conforme as tuas grandes obras e a tua grande força?". Na coluna 13: "Quem é como tu em força, Deus de Israel? A tua mão poderosa está com os pobres". E, na coluna 11, o modelo da vitória pedida é explicitamente o do mar: Deus fará com os inimigos "como fizeste com Faraó e com os oficiais dos seus carros no mar dos Juncos".
O uso é o contrário do da sinagoga. Lá o verso agradece uma vitória passada; aqui ele é dito antes de uma batalha que ainda não aconteceu, como garantia de que vai se repetir.
A lenda dos Macabeus
Circula há séculos a explicação de que o apelido "Macabeu", dado a Judas, o líder da revolta judaica contra os reis selêucidas no século II antes de Cristo, seria uma sigla deste verso: as iniciais de Mi khamokha ba-elim YHWH ("quem é como tu entre os deuses, SENHOR") formariam M-K-B-Y, e a frase estaria escrita nas bandeiras dos rebeldes.
A explicação não tem base antiga. O Primeiro Livro dos Macabeus apresenta "Judas, chamado Macabeu" (1 Macabeus 2:4) como apelido de um homem só, sem dizer o que significa; nem os livros dos Macabeus, nem Josefo, nem o Talmude ligam o nome ao cântico. A sigla só aparece em autores medievais — entre os primeiros, o comentário às orações atribuído ao Rokeach (Eleazar de Worms, rabino alemão do século XIII) — e foi repetida depois por muitos. No século XVI, Azarias de' Rossi (erudito judeu italiano) já a rejeitava com um argumento simples: o título "Macabeus" era aplicado também a mártires anteriores à revolta, o que não combina com uma sigla de bandeira. A proposta que a maioria dos estudiosos prefere liga o nome ao aramaico maqqaba, "martelo" — escrito com outra letra que a de kamokha, o que a sigla teria de ignorar. É tardia, e é bonita.
3. Análise Teológica do Versículo
"Quem é como tu entre os deuses, SENHOR?"
Até aqui o cântico narrava: cavalo, cavaleiro, carros, abismos, vento, chumbo. Agora ele para de contar o que aconteceu e pergunta quem fez. A pergunta não espera resposta; é o jeito hebraico de afirmar com mais força do que a afirmação. E vem repetida, como a "direita" do versículo 6: a primeira linha deixa a frase no ar, a segunda a retoma e a completa.
A comparação com "deuses" — que supõe um campo de comparação, e que não é a mesma coisa que dizer que só existe um Deus — está examinada no estudo de Êxodo 8:10. O que é próprio deste versículo é o que os leitores fizeram com a palavra "deuses", e eles fizeram muito.
Quem são os "deuses"? Seis respostas
A palavra hebraica aqui é elim (plural de el, "deus"), forma menos comum que o habitual elohim. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) dá várias leituras em sequência, e os medievais acrescentaram outras.
Primeira: os deuses das nações, vencidos no mar. A Mekhilta diz que, quando Israel viu Faraó e o seu exército perdidos e "a idolatria castigada", todos abriram a boca e disseram "quem é como tu". E acrescenta que não foi só Israel: os povos que ouviram a notícia renegaram os seus ídolos e disseram o mesmo. O pano de fundo é Êxodo 12:12: "contra todos os deuses do Egito executarei juízos".
Segunda: os que se dizem deuses. Ainda a Mekhilta: Faraó, que dizia "meu é o Nilo, e eu o fiz" (Ezequiel 29:3); Senaqueribe; Nabucodonosor, que queria "ser semelhante ao Altíssimo"; o príncipe de Tiro, que disse "eu sou um deus". O verso compararia Deus com reis que se divinizaram — e o primeiro deles acabou de afundar.
Terceira: os anjos. É a leitura de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) e de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), que a apoiam no Salmo 89:6-8 — "quem nas nuvens se compara ao SENHOR, quem é como o SENHOR entre os filhos dos deuses? Deus temível no conselho dos santos". Os "deuses" seriam a corte celeste, e a pergunta mediria Deus contra os seres mais altos que existem.
Quarta: os poderosos em geral. É a de Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI): elim como "fortes", como em Ezequiel 17:13, onde a mesma palavra designa os "poderosos da terra" levados para a Babilônia. Nachmânides concorda que a palavra pode ter esse sentido, mas não aqui.
Quinta: os mudos. A palavra está escrita no texto hebraico sem a letra que marcaria a vogal longa, e com as mesmas consoantes se pode ler "mudos". A Mekhilta o faz: "quem é como tu entre os mudos" — tu que ouves a afronta aos teus filhos e te calas. E cita Isaías 42:14: "Por muito tempo me calei, fiquei quieto, me contive; agora gritarei como a que está de parto". O Talmude Babilônico, em Guitin 56b, aplica a mesma leitura à destruição do Templo pelos romanos: Tito profanou o santuário, e a escola de Rabi Ishmael leu o verso como "quem é como tu entre os mudos", porque Deus ouviu e ficou calado. O verso de louvor vira, com a troca de uma vogal, uma queixa.
Sexta: os ídolos que não falam. Também da Mekhilta: os que os outros chamam de deuses e "têm boca, mas não falam" (Salmo 115:5). E contrapõe: um homem não ouve dois que gritam juntos, e Deus ouve o mundo inteiro.
As seis convivem, e o texto não escolhe nenhuma.
Os tradutores antigos e a palavra "deuses"
Três versões, três atitudes. A Septuaginta (a tradução grega da Torá, feita em Alexandria no século III antes de Cristo) mantém "deuses" sem rodeio. A Vulgata (a versão latina de Jerônimo, do fim do século IV) escreve "entre os fortes", seguindo a leitura que depois seria a de Rashi. E o Targum de Ônquelos (a tradução judaica antiga da Torá para o aramaico) reescreve a linha inteira: "Não há fora de ti; tu és Deus, SENHOR; não há fora de ti". A pergunta comparativa vira declaração de exclusividade. O tradutor aramaico fez, dentro da própria tradução, a passagem da comparação para a exclusão — passagem que o hebraico deixou por fazer.
"magnífico em santidade"
A palavra "magnífico" é a mesma que o cântico usou para a direita de Deus (Êxodo 15:6) e para as águas (Êxodo 15:10). O mar era magnífico; o que se diz agora é onde está a magnificência de Deus: na santidade.
"Santidade" pode ser qualidade ou lugar, e a expressão hebraica admite os dois. Como qualidade: Deus se mostra grande no que tem de separado, de inacessível — o Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) insiste em que santidade, aqui, é antes altura e inacessibilidade do que bondade moral. Como lugar: "no santuário", isto é, no céu. É a leitura de Ibn Ezra, que pensa no trono da glória, e de Nachmânides: ninguém é magnífico como ele na morada santa. A Septuaginta pende para a segunda, com um plural — "glorificado entre os santos".
A Mekhilta brinca com a forma da palavra hebraica e lê nela duas: "belo" e "poderoso". Deus seria as duas coisas na santidade, ao contrário da medida humana, em que o poder raramente é bonito.
"temível em louvores"
Esta é a expressão difícil do versículo. Por que alguém seria temível justamente quando é louvado? Os comentaristas deram quatro respostas, e cada uma lê o "em" de um modo.
Primeira: temível de louvar. É a de Rashi: tem-se medo de enumerar os seus louvores, para não dizer menos do que ele merece — e cita o Salmo 65:1, "para ti o silêncio é louvor". O temor é o de quem fala e sabe que vai ficar aquém.
Segunda: temível, mas obrigatório. Ibn Ezra aceita o medo e acrescenta a outra metade: quem quer louvá-lo teme, porque ninguém consegue dizer todo o seu louvor, e ainda assim é obrigado a louvar, porque só ele faz maravilhas. O medo não dispensa da fala.
Terceira: temível pelas mesmas coisas por que é louvado. É a de Nachmânides, que discorda de Rashi. Os reis da terra são temidos pela opressão; Deus é temido pelos atos que lhe valem louvor — punir quem transgride e salvar quem o serve, como no mar. O temor e o louvor têm a mesma causa. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, século XII) vai na mesma linha, ligando a expressão a Êxodo 14:31, "o povo temeu ao SENHOR": os louvores que dizem a seu respeito são feitos de temor.
Quarta: temível mais para os de perto. A Mekhilta inverte a regra humana: o respeito que um homem inspira é maior em quem está longe do que em quem convive com ele; com Deus é o contrário, e ela cita Levítico 10:3, "nos que se aproximam de mim serei santificado" — dito logo depois da morte de Nadabe e Abiú, dois sacerdotes. Sforno (Ovadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) acrescenta que esse temor não é medo de castigo, mas o que nasce de conhecer a grandeza.
A Vulgata dividiu a expressão em duas qualidades — "terrível e digno de louvor" —, e a Septuaginta trocou o temor por admiração: "admirável em glórias". Nenhuma das duas guardou o atrito do hebraico, em que as duas palavras estão coladas.
"que faz maravilha"
No hebraico, "maravilha" está no singular, e a ABC o mantém: é um coletivo, que quase todas as traduções põem no plural. E o verbo é um particípio, forma que em hebraico descreve ação em curso, não concluída. A Mekhilta repara nisso: o texto não diz "que fez", e sim "que faz", e lê ali as maravilhas por vir, com Jeremias 16:14 (um dia não se jurará mais pelo Deus que tirou Israel do Egito, porque haverá libertação maior) e Miqueias 7:15 ("como nos dias em que você saiu do Egito, eu lhe mostrarei maravilhas"). Uma leitura alternativa da mesma Mekhilta: ele faz maravilhas "em cada geração".
A expressão fecha o verso numa nota diferente das anteriores. "Magnífico" e "temível" descrevem quem Deus é; "que faz" descreve o que ele está fazendo. E o que ele fez acabou de ser cantado nos versos 4 a 10.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem pergunta
Moisés e os filhos de Israel, na praia (Êxodo 15:1). A pergunta é feita em nome de todos, e a Mekhilta imagina que até os povos que souberam da notícia a repetiram.
A quem se pergunta
Ao SENHOR, chamado pelo nome e tratado de "tu". É a única vez no cântico em que o nome aparece no meio de uma pergunta dirigida a ele.
Os comparados
Os "deuses", que o verso não nomeia. Conforme a leitura: os deuses do Egito, contra os quais Êxodo 12:12 anunciava juízos; Faraó, rei tido por divino; os anjos da corte celeste; os poderosos da terra.
O lugar do verso no cântico
O verso fica no ponto de virada do poema. Os versos 1 a 10 contam o mar; este pergunta quem fez aquilo; o 12 fecha o episódio; e do 13 em diante o cântico olha para a frente — o caminho, os povos, o monte. Muitos leitores o tomaram por isso como o centro do cântico, o lugar em que a narração vira louvor puro.
5. Pontos de Ensino
1. O louvor começa por uma pergunta. O cântico não diz "tu és o maior"; pergunta "quem é como tu?" e deixa o silêncio responder.
2. A abertura do texto foi tratada como riqueza. A tradição guardou seis sentidos para "deuses" e não fixou nenhum.
3. Temer e louvar não se excluem. Quem louva sabe que não alcança, e louva mesmo assim.
4. "Que faz", não "que fez". O verso termina abrindo o que vem, não fechando o que passou.
5. Um verso pode mudar de função sem mudar de palavras. Agradecimento na sinagoga, oração de batalha em Qumran, sigla de bandeira na lenda: o mesmo texto serviu a usos opostos.
6. Aspectos Filosóficos
O que se faz quando se diz "quem é como tu"
Este verso foi recitado mais vezes do que quase qualquer outro da Bíblia hebraica — duas vezes por dia, por milhões de pessoas, durante séculos. Muitas delas o disseram distraídas, cansadas, em dúvida, sem sentir nada parecido com o temor que o próprio verso menciona. A pergunta filosófica é: elas louvaram?
Nicholas Wolterstorff (filósofo norte-americano, nascido em 1932, professor em Yale) dedicou um livro a essa pergunta: Acting Liturgically ("Agir liturgicamente", 2018), fruto de quase trinta anos de trabalho sobre o culto. Wolterstorff vem da filosofia da linguagem, da tradição que estuda o que as pessoas fazem ao falar — prometer, ordenar, agradecer —, e aplica essas ferramentas à liturgia.
A liturgia como roteiro e como ato
Para Wolterstorff, a liturgia é um roteiro: uma sequência de atos previstos — louvar, agradecer, confessar, pedir — com as palavras que servem para fazê-los. Participar é executar o roteiro. E executar um ato pela via de outro é coisa comum na vida: ao levantar a mão numa assembleia, você vota; ao assinar um papel, você se obriga. Os dois atos estão ligados por uma convenção, não por um sentimento.
Aplicado ao culto: ao dizer "quem é como tu entre os deuses, SENHOR?" no lugar previsto do roteiro, a pessoa louva a Deus. O louvor não é a expressão de uma emoção que a frase descreveria; é o ato que a frase realiza.
Daí a conclusão mais polêmica do livro. Quem diz as palavras da liturgia com dúvidas, ou sem sentir o que elas sugerem, ainda assim participa do ato — a menos que tenha a intenção de não o fazer. A falta de sentimento não anula o louvor; a recusa deliberada, sim. Wolterstorff tira daí uma consequência pastoral: o que tem a consciência inquieta, o que tem dúvidas de doutrina, o que tem pouca capacidade de entender o que diz, não precisam se excluir do culto por se acharem indignos.
O que isso ilumina no verso
A leitura de Wolterstorff encaixa de modo curioso com a discussão rabínica sobre "temível em louvores". Rashi diz que se teme louvar porque o louvor fica aquém. Ibn Ezra responde que, mesmo assim, há obrigação de louvar. É exatamente o problema que Wolterstorff enfrenta: se o louvor dependesse de estar à altura do louvado, ninguém o faria. Ele depende de fazer o ato que o roteiro prevê.
Onde a aproximação para
O cântico do mar não é roteiro. É, na apresentação do Êxodo, a primeira vez que essas palavras foram ditas, por gente que acabava de ver os carros afundar. Ali o louvor nasce do que se viu, não de uma prescrição. Wolterstorff analisa o que acontece com essas palavras quando viram liturgia; o verso, na sua origem, é o que a liturgia tenta repetir.
E a quinta leitura da Mekhilta — "quem é como tu entre os mudos" — põe uma pergunta que a teoria do ato não alcança. Se as mesmas palavras podem ser lidas como queixa, o que faz quem as recita no roteiro do louvor, mas pensando no silêncio de Deus? Wolterstorff diria que louva, a menos que pretenda não louvar. A tradição rabínica, ao guardar as duas leituras na mesma frase, sugere que talvez faça as duas coisas ao mesmo tempo.
7. Aplicações Práticas
Rezar uma frase que se repete
Este é um dos poucos versos da Bíblia que muita gente diz de cor, todos os dias, há séculos. A aplicação mais direta é sobre isso: o que fazer com uma frase de louvor que, de tanto repetida, já não se sente.
A discussão sobre "temível em louvores" dá um caminho concreto. Rashi diz que o louvor sempre fica aquém. Ibn Ezra diz que, mesmo assim, há obrigação de louvar. Juntas, as duas leituras desfazem uma armadilha comum: a de achar que só vale dizer o louvor quando se está à altura dele. Ninguém está. A frase é dita, e o que ela diz continua verdadeiro mesmo quando quem a diz está distraído.
A pergunta que não tem resposta
O verso louva perguntando. Na vida prática, isso tem um efeito que a afirmação não tem: obriga quem diz a procurar, por um instante, um termo de comparação — o dinheiro, o chefe, o medo, o próprio plano — e a constatar que não serve. É um exercício que o verso propõe sem anunciar.
A leitura dos mudos
Para quem atravessa um tempo em que Deus parece calado, a tradição deixou dentro deste mesmo verso a leitura "quem é como tu entre os mudos". Ela não manda calar a queixa; põe a queixa dentro do louvor, com as mesmas palavras. Quem reza o verso nessa situação não precisa escolher entre as duas.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se o verso supõe outros deuses, por que entrou na oração diária de um povo que confessa um Deus só?
Porque, na leitura que se impôs, os "deuses" deixaram de ser concorrentes. Para Ibn Ezra e Nachmânides são os anjos; para Rashi, os poderosos; para a Mekhilta, entre outras coisas, os ídolos que não falam. Lido assim, o verso cabe ao lado do Shemá sem atrito. O que ele dizia na boca dos primeiros que o cantaram é outra questão, e não há consenso sobre ela.
A leitura "entre os mudos" é só um trocadilho?
É mais que isso. A palavra está escrita sem a letra de vogal longa, e as mesmas consoantes formam, em hebraico, a palavra "mudo" — a de Êxodo 4:11, "quem faz o mudo?". A leitura usa uma possibilidade real do texto escrito. Que essa fosse a intenção do cântico, ninguém sustenta; que a leitura pertença à história do verso, Guitin 56b o mostra.
O verso era cantado em Qumran como no Templo?
Não há como saber. O Rolo da Guerra cita a fórmula numa oração de batalha, não numa bênção diária. O que se pode afirmar é que, no século I antes de Cristo, "quem é como tu" já funcionava como fórmula conhecida, a ponto de ser adaptada ("quem é como tu, Deus de Israel, nos céus e na terra").
Se a sigla dos Macabeus é lenda, por que ela pegou?
Provavelmente porque encaixa demais: uma revolta religiosa contra reis que exigiam culto a outros deuses, e um verso que pergunta quem é como o SENHOR entre os deuses. A lenda diz algo verdadeiro sobre o espírito da revolta, mesmo sem dizer nada verdadeiro sobre o nome.
9. Conexão com Outros Textos
A pergunta nos salmos
Salmo 86:8 — "Entre os deuses não há nenhum como você, Senhor, e não há obras como as suas."
A mesma comparação, já sem pergunta, e com as obras no lugar das maravilhas.
Salmo 89:6-8 — "Quem nas nuvens se compara ao SENHOR? Quem é como o SENHOR entre os filhos dos deuses? Deus temível no conselho dos santos, grande e terrível sobre todos os que o cercam. SENHOR, Deus dos Exércitos, quem é poderoso como você, SENHOR?"
O texto em que Ibn Ezra e Nachmânides apoiam a leitura dos anjos: a pergunta repetida, o "temível" e a corte celeste no mesmo trecho.
Salmo 77:13-15 — "Que deus é grande como Deus? Você é o Deus que faz maravilha; fez conhecida entre os povos a sua força. Com o seu braço resgatou o seu povo."
O par "quem é como" e "faz maravilha", com a mesma palavra no singular, e logo em seguida o mar (Salmo 77:16-19). O Cambridge Bible aponta esta construção como eco direto do cântico.
Salmo 35:10 — "Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem é como você, que livra o pobre do mais forte do que ele?"
A pergunta tirada do mar e aplicada à vida de um homem só — o mesmo deslocamento que o Rolo da Guerra fará ao dizer que a mão de Deus "está com os pobres".
O nome do profeta
Miqueias 7:18 — "Quem é Deus como você, que perdoa a culpa e passa por cima da transgressão do resto da sua herança?"
O nome Miqueias significa "Quem é como o SENHOR?", e o livro termina com a pergunta. Aqui o que é incomparável não é a força no mar, é o perdão.
O louvor e o silêncio
Salmo 65:1 — "Para você o silêncio é louvor, ó Deus, em Sião."
O verso que Rashi cita para "temível em louvores": o louvor mais adequado talvez seja calar.
Salmo 22:3 — "Mas você é santo, entronizado sobre os louvores de Israel."
Santidade e louvores, as duas palavras deste verso, juntas outra vez — num salmo que começa perguntando por que Deus abandonou.
Isaías 42:14 — "Por muito tempo me calei, fiquei quieto, me contive; agora gritarei como a que está de parto."
A resposta que a Mekhilta dá à leitura "quem é como tu entre os mudos".
O temor dos de perto
Levítico 10:3 — "Então Moisés disse a Arão: 'Isto é o que o SENHOR disse: Nos que se aproximam de mim serei santificado, e diante de todo o povo serei glorificado.' E Arão se calou."
O apoio da Mekhilta para dizer que Deus é mais temível para os próximos. Dito depois da morte de dois sacerdotes, e seguido, de novo, de um silêncio.
O temor antes do canto
Êxodo 14:31 — "E Israel viu a grande mão com que o SENHOR agiu contra os egípcios; e o povo temeu ao SENHOR, e creram no SENHOR e em Moisés, seu servo."
O temor que Rashbam lê dentro de "temível em louvores": o povo temeu antes de cantar.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Quem é como tu entre os deuses, SENHOR? Quem é como tu, magnífico em santidade, temível em louvores, que faz maravilha?
Texto hebraico
מִי־כָמֹכָה בָּאֵלִם יְהוָה מִי כָּמֹכָה נֶאְדָּר בַּקֹּדֶשׁ נוֹרָא תְהִלֹּת עֹשֵׂה פֶלֶא׃
Transliteração
mi-khamokhah ba-elim YHWH, mi kamokhah ne'dar ba-qodesh, nora tehillot, oseh fele.
Análise palavra por palavra
מִי־כָמֹכָה — mi-khamokhah, "quem é como tu".
Mi é o pronome interrogativo de pessoa, "quem". Kamokhah é a preposição ke, "como", na forma alongada kemo, com o sufixo de segunda pessoa do masculino singular escrito com um he final a mais — grafia antiga e poética. A forma comum seria kamokha. Não há verbo: o hebraico dispensa o "é" nesse tipo de frase.
בָּאֵלִם — ba-elim, "entre os deuses".
Preposição be, "em, entre", com o artigo, e elim, plural de el. A palavra está escrita sem o yod que costuma marcar a vogal longa do plural (o normal seria אֵלִים). Essa grafia curta é o que permite a leitura ba-illemim, "entre os mudos", da Mekhilta e do Talmude, porque illem, mudo, tem as mesmas consoantes — é a palavra de Êxodo 4:11, "quem faz o mudo?".
O plural elim é raro no sentido de "deuses": aparece em Salmo 29:1 e 89:6 na expressão benei elim, "filhos dos deuses", para os seres da corte celeste, e em Daniel 11:36, "o Deus dos deuses". Em Ezequiel 17:13 e 2 Reis 24:15, uma palavra de forma parecida designa os "poderosos" do país — é o apoio de Rashi.
יְהוָה — YHWH, "SENHOR".
O nome de quatro letras, no vocativo. Fica no meio da primeira linha, entre a pergunta e o campo da comparação.
נֶאְדָּר בַּקֹּדֶשׁ — ne'dar ba-qodesh, "magnífico em santidade".
Ne'dar é particípio Nifal (a forma passiva ou reflexiva do verbo hebraico) da raiz '-d-r: "que se mostra magnífico". A mesma raiz deu ne'dari para a direita em Êxodo 15:6 e addirim para as águas em Êxodo 15:10; o desenvolvimento dela está no estudo de Êxodo 15:6. A Mekhilta desmonta a palavra em na'eh, "belo", e adir, "poderoso" — jogo de leitura, não etimologia.
Ba-qodesh é a preposição be com artigo e qodesh, santidade, coisa santa, lugar santo. Com artigo, ha-qodesh pode designar o santuário (como no Salmo 63:2, em que o orante diz ter contemplado Deus "no santuário"), e é por isso que Ibn Ezra e Nachmânides o leem como lugar.
נוֹרָא תְהִלֹּת — nora tehillot, "temível em louvores".
Nora é particípio Nifal de yare, temer: "que é temido", "que inspira temor". É a mesma forma que Jacó usa para Betel em Gênesis 28:17, "que temível é este lugar".
Tehillot é o plural de tehillah, louvor, da raiz halal, a mesma de halelu-Yah. O plural pode significar os atos de louvor ou os feitos dignos de louvor — e as duas coisas dão leituras diferentes: "temível quando louvado" (Rashi, Ibn Ezra) ou "temível em feitos gloriosos" (Nachmânides, e muitas traduções portuguesas). O livro dos Salmos inteiro se chama, em hebraico, Tehillim, "Louvores", o masculino plural da mesma palavra.
A ligação entre os dois termos é a do estado construto, sem preposição: literalmente "temível de louvores". O hebraico não diz se o louvor é a causa, o lugar ou o objeto do temor.
עֹשֵׂה פֶלֶא — oseh fele, "que faz maravilha".
Oseh é particípio Qal de asah, fazer, em estado construto: "fazedor de". O particípio marca ação contínua; é dele que a Mekhilta tira as maravilhas por vir.
Pele é substantivo singular, "maravilha", o extraordinário que ultrapassa a capacidade de quem olha — a raiz da pergunta de Gênesis 18:14, "existe alguma coisa difícil demais para o SENHOR?". Aqui ela está no singular coletivo; o Salmo 77:14 repete a expressão exata, oseh fele.
Observação sobre o conjunto
Doze palavras em três segmentos. Os dois primeiros abrem com a mesma pergunta; o terceiro tem três qualificações sem verbo, cada uma de duas palavras. Não há um único verbo finito no verso inteiro: só particípios e uma pergunta. Depois de dez versos de ação, o cântico descreve quem agiu.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que o centro do cântico é uma pergunta, não uma tese. O verso não define Deus; desafia quem ouve a encontrar um semelhante. Os tradutores que a transformaram em afirmação — o Targum, com o seu "não há fora de ti" — disseram uma coisa que o hebraico prefere deixar por conta do ouvinte.
A segunda é que o louvor deste verso tem dentro dele um limite. Seja o medo de ficar aquém (Rashi), a obrigação de falar mesmo assim (Ibn Ezra), o temor pelos mesmos atos que se louvam (Nachmânides) ou o respeito maior dos que estão perto (Mekhilta), "temível em louvores" impede que o louvor vire intimidade sem distância.
A terceira é que o verso sobreviveu porque serve a muitos usos. Foi agradecimento no Templo e na sinagoga, oração de guerra em Qumran, lenda de bandeira na Idade Média e, com a troca de uma vogal, queixa contra o silêncio de Deus. Um texto que aguenta tudo isso sem mudar de palavras é um texto que foi lido de perto.













