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Êxodo 14:31

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✍️ Por Alberto Adriano·27 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 26 acessos
E Israel viu a grande mão com que o SENHOR agiu contra os egípcios; e o povo temeu ao SENHOR, e creram no SENHOR e em Moisés, seu servo.
O povo de Israel reunido na margem ao amanhecer, com Moisés um pouco à frente, todos voltados para o mar recém-fechado.

Estudo


E Israel viu a grande mão com que o SENHOR agiu contra os egípcios; e o povo temeu ao SENHOR, e creram no SENHOR e em Moisés, seu servo.

1. Introdução

O capítulo termina com três verbos em fila: o povo vê, teme e crê.

O verbo do medo é o mesmo com que o episódio começou, em Êxodo 14:10 — mudou apenas de objeto, e a mudança é tudo.

E a última frase tem uma construção que não se repete em nenhum outro lugar do Pentateuco: a fé aparece com dois objetos ligados por "e".

Um deles é um homem, que aqui recebe, pela primeira vez, o título que o acompanhará até a morte.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Servo" era cargo, não humilhação

A palavra que fecha o versículo tinha, no mundo em que foi escrita, dois usos muito distantes um do outro — e os dois estavam ativos ao mesmo tempo.

O primeiro é o que o português entende de imediato: quem pertence a outro, quem trabalha sem liberdade de sair. É esse o sentido que o Êxodo vem usando desde o capítulo 1, e a expressão "casa de servos", com que o livro nomeia o Egito, é assunto do estudo de Êxodo 13:3.

O segundo é título de ofício, e é o mais bem documentado pela arqueologia. Conhecem-se dezenas de selos e impressões de selo em Israel e em Judá com a fórmula "servo do rei" gravada ao lado de um nome próprio. Quem carregava esse selo não era escravo: era funcionário do palácio, alguém com autorização para lacrar documento em nome do soberano. A mesma lógica aparece em textos administrativos por todo o Oriente antigo — e no Egito, onde os títulos de serviço pessoal ao rei eram dos mais cobiçados da corte, porque proximidade era poder.

A diferença entre os dois usos não está na palavra, está em de quem se é servo. Servo de um homem qualquer é posição baixa; servo do rei é posição alta. E daí decorre o que este versículo faz ao chamar Moisés de servo do SENHOR: não o rebaixa, e não o eleva por elogio. Coloca-o num cargo, e diz de quem é o cargo.

O temor como efeito planejado

A sequência do versículo — viram, temeram, creram — segue uma lógica que os documentos oficiais antigos declaram sem rodeio.

Quando um rei da Mesopotâmia ou do Egito descrevia uma campanha, ele costumava informar o resultado nos povos vizinhos com uma fórmula fixa: eles viram, e o pavor do meu poder caiu sobre eles. Não é confissão de crueldade nem observação de passagem — é o objetivo declarado da demonstração. Fazia parte da arte de governar produzir, nos que assistiam, um temor que tornasse desnecessário repetir a demonstração.

Havia um vocabulário técnico para isso, com palavras que designavam o brilho terrível do soberano e o pavor que emanava dele, e que caía sobre exércitos inteiros antes de qualquer combate. Inscrições reais usam esses termos com regularidade, ao lado dos números de cativos.

Este versículo trabalha dentro dessa gramática e a desloca em dois pontos. O primeiro: quem vê e teme não é o inimigo, é o próprio povo beneficiado. O segundo: o temor não fica sozinho. Nas inscrições reais ele é o resultado final — o vizinho teme e se submete. Aqui ele é seguido por outra coisa, e essa outra coisa é o assunto do resto do versículo.

3. Análise Teológica do Versículo

"E Israel viu a grande mão com que o SENHOR agiu contra os egípcios"

O versículo começa com as mesmas três palavras do anterior — "e Israel viu" —, e troca o objeto. Lá o objeto eram corpos; aqui é uma mão.

O hebraico diz, ao pé da letra, "a grande mão": não "o grande poder", não "a grande obra". A maioria das traduções portuguesas prefere uma dessas duas saídas, e a nossa também abrandou, porque "a grande mão" soa estranho. A discussão sobre por que o texto diz mão, e não dedo, está no estudo de Êxodo 8:19.

O que pertence a este versículo é a história de como a expressão foi entendida — e ela é uma boa amostra de como se lia um texto difícil na Idade Média.

Primeira leitura: mão significa poder. É a de Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido), e ele formula uma regra geral ao passar: a palavra "mão" tem muitos empregos, todos derivados da mão de verdade, e quem explica deve ajustar o sentido ao assunto de que se trata.

Segunda leitura: mão significa golpe. É a de Ibn Ezra (rabino espanhol do século XII), apoiada em dois lugares onde "mão" designa desastre concreto: Êxodo 9:3, onde a mão do SENHOR vem sobre o gado e o que se segue é uma peste, e 1 Samuel 5:11, onde a mão de Deus pesa sobre uma cidade filisteia. Lida assim, o que Israel viu não foi um atributo — foi um estrago.

Terceira leitura: mão é a própria mão. Ramban (rabino catalão do século XIII, também chamado Nachmânides) observa que a tradução aramaica antiga de Ônquelos não substituiu "mão" por "poder": escreveu "a força da grande mão", conservando as duas coisas. E acrescenta uma leitura mística, em que a mão grande é o atributo de justiça, ligando o versículo a Isaías 51:9-10, onde o braço do SENHOR é lembrado como o que secou o mar.

Repare no que aconteceu entre este versículo e o anterior. Em Êxodo 14:30 Israel foi salvo "da mão dos egípcios"; aqui Israel vê "a grande mão". Duas mãos em dois versículos consecutivos, e o povo sai de uma para ver a outra. A palavra é a mesma nas duas frases, e o capítulo fecha com esse par.

"e o povo temeu ao SENHOR"

Este verbo já apareceu neste capítulo, e num lugar que muda tudo.

Êxodo 14:10: quando os egípcios apareceram atrás deles, "tiveram muito medo". É o mesmo verbo. A cena que começou com o povo com medo dos egípcios termina com o povo temendo o SENHOR, e a palavra hebraica não mudou.

O que mudou foi a construção, e o hebraico distingue as duas com clareza. Temer de alguém, com a preposição correspondente, é o pavor de quem pode ser atingido — foi essa a sintaxe em Êxodo 14:10. Temer alguém com a partícula de objeto direto, como aqui, é a construção da reverência: não indica expectativa de dano, e é a que a Bíblia hebraica usa quando fala do temor devido a Deus. O emprego dessa expressão como fórmula fixa está tratado no estudo de Gênesis 42:18.

O Mekhilta, comentário rabínico antigo ao Êxodo, marca a mudança de um modo abrupto: antes disto eles não temiam o SENHOR; aqui, sim. É afirmação forte, e o próprio Êxodo não a confirma nem a desmente — mas ela repara em algo verificável, que é a estreia da construção no livro aplicada ao povo.

Ibn Ezra oferece o paralelo mais útil, e é de fora do Pentateuco: 2 Samuel 6:9, onde Davi teme o SENHOR naquele dia, depois que Uzá morre ao tocar a arca. Nos dois casos o temor vem depois de uma morte que o poder de Deus produziu, e nos dois o texto usa a mesma construção. É o contexto mais próximo que existe desta frase, e ele não é confortável: o que produz temor reverente, nos dois lugares, é um cadáver.

"e creram no SENHOR e em Moisés, seu servo"

Aqui está a construção que não se repete.

O verbo de crer, no hebraico, liga-se ao seu objeto por meio de uma preposição — crer em. Neste versículo ela aparece duas vezes, e liga a mesma fé a dois objetos: o SENHOR e um homem. É a única vez no Pentateuco em que isso acontece.

São os casos próximos que sustentam a afirmação. Em Gênesis 15:6 Abraão crê no SENHOR, e o objeto é um só. Em Êxodo 4:31 o povo crê, e o texto não dá objeto nenhum — assunto do estudo daquele versículo. Em Êxodo 19:9 o SENHOR diz que falará de modo que o povo creia em Moisés para sempre, e ali o objeto é um só, e é o homem. Em Números 14:11 e em Deuteronômio 1:32 a queixa é de não crer, com Deus por objeto. Nenhum desses lugares junta os dois.

O Mekhilta viu o problema e o formulou como pergunta de lógica: se eles creram em Moisés, tanto mais em Deus — então por que era preciso escrever as duas coisas? A resposta é de princípio: quem crê no pastor fiel crê em quem falou e fez o mundo.

Os medievais dividiram-se, e as duas leituras extremas são instrutivas. Leitura máxima: Ibn Ezra entende que eles passaram a crer que o SENHOR é verdade e que Moisés é servo dele, e só faz o que lhe é mandado — a fé tem conteúdo, é adesão a duas proposições. Leitura mínima: Rashbam (rabino francês do século XII, neto de Rashi) reduz tudo a uma frase seca — creram que também não morreriam de fome no deserto. Nada de doutrina: apenas a expectativa de que o socorro continuaria. A leitura tem a seu favor o que vem a seguir no livro, que é justamente a reclamação por comida.

E há o que o texto não diz, e que convém pôr no lugar. Não diz que a fé durou. O Êxodo registrará, a poucos capítulos daqui, o mesmo povo murmurando; Salmos 106:12-13 põe as duas coisas em versículos consecutivos e faz o juízo que o Êxodo não faz. Aqui não há avaliação nenhuma — só o registro de que, naquele dia, creram.

"seu servo"

A última palavra do capítulo é um título, e é a primeira vez que Moisés o recebe.

No Pentateuco a expressão é raríssima aplicada a ele: Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) aponta apenas Números 12:7-8, onde Deus o chama de "meu servo Moisés", e Deuteronômio 34:5, onde ele morre como "servo do SENHOR". Depois do Pentateuco o título se fixa e vira epíteto: Josué 1:1 abre o livro seguinte chamando-o assim, e 1 Reis 8:53, Malaquias 4:4 e Salmos 105:26 o repetem.

O que torna a palavra afiada é o que ela vinha significando neste livro. Treze capítulos usaram a mesma raiz para dizer o que Israel era no Egito, e o povo acabou de sair dessa condição. A última palavra do capítulo da libertação é a palavra da escravidão, aplicada ao libertador, com outro dono. O Êxodo não comenta, e a observação é de quem lê — mas o vocabulário é verificável em qualquer interlinear.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Israel, e depois "o povo"

O versículo usa as duas designações, e nessa ordem: "Israel viu", "o povo temeu". É a última troca de nome de uma série que atravessa o capítulo — "os filhos de Israel" em quinze lugares, "Israel" nos dois últimos versículos, "o povo" na frase final.

E os verbos não concordam do mesmo modo: "viu" está no singular, tratando Israel como um corpo; "temeram" e "creram" estão no plural. O texto passa de uma coisa só a muita gente na mesma frase.

O SENHOR

Nomeado três vezes em um versículo, o que não acontece em nenhum outro lugar do capítulo: como autor do que foi feito, como objeto do temor e como objeto da fé.

Moisés

Reaparece depois de quatro versículos de ausência. A última vez que agiu foi em Êxodo 14:27, estendendo a mão; aqui ele não faz nada — é objeto, e recebe um título.

Repare na diferença de posição. No começo do capítulo o povo o acusa: "Que foi isso que você fez conosco, tirando-nos do Egito?", em Êxodo 14:11. No fim, crê nele. O texto não descreve nada entre uma coisa e outra que explique a passagem, além do que aconteceu no mar.

Os egípcios

Aparecem por última vez no capítulo, e como objeto de uma preposição: é contra eles que a grande mão agiu. Não há mais nada sobre eles no livro em prosa.

A grande mão

O que Israel vê. É o único elemento do versículo que não é pessoa, e o único que não existe fisicamente — e o texto o põe como objeto direto do verbo ver, do mesmo modo como pôs os corpos no versículo anterior.

5. Pontos de Ensino

O medo não mudou de nome, mudou de direção

O verbo com que o povo teme o SENHOR no fim do capítulo é o verbo com que teve medo dos egípcios no começo. Um episódio inteiro cabe nessa diferença de objeto, e o hebraico a marca com uma partícula. É o tipo de dado que não sobrevive à tradução e que reorganiza a leitura de um capítulo.

Temer vem antes de crer, e o texto não explica por quê

A ordem é essa e não é negociável: vê, teme, crê. Nenhuma palavra de causa liga os três. Quem monta uma explicação psicológica para a sequência está escrevendo por cima do versículo — que, aliás, teria ficado mais arrumado sem o temor no meio.

Uma fé com dois objetos é um problema, não uma fórmula devota

Crer em Deus e num homem, na mesma frase e com a mesma preposição, incomodou os leitores antigos o suficiente para o Mekhilta perguntar por que estava escrito assim. Quem repete a frase como se fosse natural está perdendo o que ela tem de excepcional — e é excepcional em sentido literal: não há outra igual no Pentateuco.

O elogio a Moisés vem na palavra da escravidão

"Servo" é a palavra que o livro vinha usando para a condição de Israel no Egito. O capítulo que narra a saída dessa condição termina aplicando-a a Moisés. No mundo do texto isso é título de cargo, não rebaixamento — mas a coincidência de vocabulário existe, e é verificável.

O texto não promete que a fé durou

Ele diz que creram naquele dia. O que aconteceu depois está nos capítulos seguintes, e não é uma continuação disto. Um salmo tardio põe as duas coisas em versículos consecutivos e julga; o Êxodo não julga, e a diferença entre um texto que avalia e um que registra é uma das coisas mais úteis que se aprende lendo a Bíblia hebraica.

6. Aspectos Filosóficos

No começo do capítulo existe uma multidão que reclama. No fim existe um povo que tem uma posição em comum. Entre as duas coisas não houve instrução, aliança nem lei — houve uma noite.

Patočka: uma comunidade nasce de um abalo, não de um acordo

Jan Patočka (1907-1977) foi um filósofo tcheco, aluno de Husserl, proibido de ensinar durante quase toda a vida adulta. Em 1977 assinou a Carta 77, documento de defesa de direitos civis na Tchecoslováquia, e morreu semanas depois, após longos interrogatórios policiais. A obra que interessa aqui são os Ensaios heréticos sobre a filosofia da história, escritos em circulação clandestina.

A tese central é sobre origem. Para Patočka, um grupo humano pode viver muito tempo sem história: trabalha, se reproduz, repete o que os pais faziam, e o sentido de tudo isso está dado de antemão, nunca posto em questão. A história começa em outro ponto — no momento em que o sentido aceito é abalado e o grupo se vê obrigado a perguntar de que vale a sua própria vida.

Daí vem o mais conhecido dos conceitos dele: a solidariedade dos abalados. O que liga as pessoas, nessa comunidade que nasce do abalo, não é interesse comum, nem sangue, nem doutrina compartilhada. É terem passado pela mesma perda de chão. Os abalados não ganham certeza — Patočka é insistente nisso —, ganham exposição comum, e reconhecem-se por não poderem mais viver como antes.

O que o versículo mostra

Este é o primeiro lugar do Êxodo em que o povo é descrito por uma atitude que tem, e não por uma condição que sofre.

Percorra o livro até aqui: o povo é multiplicado, oprimido, contado, mandado, avisado; grita, reclama, tem medo, exige voltar. Em todas essas cenas ele é sujeito de verbos de reação ou objeto de verbos de outro. Aqui, pela primeira vez, três verbos com ele por sujeito descrevem uma posição diante do mundo: viu, temeu, creu.

E a posição não vem de argumento. Ninguém pregou, ninguém explicou, ninguém apresentou credenciais. Moisés falou no meio do capítulo, em Êxodo 14:13-14, e a resposta imediata do povo àquele discurso o texto não registra. O que registra é o efeito de uma travessia. Na descrição de Patočka isso tem nome: o abalo. E o chão que sumiu não é metáfora bem-vinda — doze horas antes, esse grupo estava convencido de que era melhor servir no Egito do que morrer no deserto, como diz Êxodo 14:12. A convicção não foi refutada por ninguém: foi atravessada.

Onde o versículo não cabe na teoria

O abalado de Patočka fica sem apoio — é isso que caracteriza a condição, e é dela que nasce uma solidariedade sem garantias. O povo deste versículo faz o oposto: adquire apoio, e em dois lugares ao mesmo tempo. A frase final não descreve perda de certeza, descreve confiança nova.

Isso delimita a comparação em vez de invalidá-la. O que a leitura de Patočka ilumina é a origem da comunidade — ela se forma por experiência comum, e não por adesão a um conteúdo. O que não ilumina é o resultado, porque este povo não permanece na exposição: ele se agarra.

E há um segundo desencontro, mais interessante. Patočka pensava num vínculo sem intermediário: os abalados se reconhecem diretamente. Este versículo tem intermediário, e o nomeia — a fé tem dois objetos, e um deles é um homem. É a diferença entre uma comunidade fundada em algo que aconteceu a todos e uma comunidade fundada nisso e em alguém. A segunda é mais frágil, porque depende de uma pessoa que morre, e o resto da Torá vai lidar com essa fragilidade.

O limite

Patočka escrevia sobre a Grécia antiga e sobre a Europa do século XX, e não sobre Israel; a aproximação é movimento de quem lê. E o próprio conceito de abalo é discutido, inclusive entre quem o admira, por ser mais uma descrição do que um critério: fica difícil dizer o que não contaria como abalo. O que dele se aproveita com segurança é a inversão de ordem que ele propõe — primeiro a experiência, depois a comunidade, e não o contrário. É exatamente a ordem deste versículo.

7. Aplicações Práticas

Há uma aplicação aqui, e ela vem da ordem dos três verbos — não do conteúdo da fé.

Convicção não costuma vir de argumento

O povo deste versículo tinha ouvido, pouco antes, um discurso bem construído: não tenham medo, fiquem firmes, vejam a salvação. Não mudou nada. O que mudou a posição dele foi ter passado por algo. Quem tenta convencer alguém de coisa grande costuma insistir no argumento porque é o que está à mão, e este versículo lembra que não é ali que a coisa se decide. Daí não sai técnica, e menos ainda a ideia de que se devam produzir abalos nas pessoas para convertê-las: o texto descreve o que aconteceu uma vez, e não prescreve método.

Confiar numa pessoa e confiar em Deus são coisas distintas, e o versículo as junta

É a parte mais delicada, e a mais aplicável. A frase põe as duas confianças na mesma linha, e a história religiosa está cheia do estrago que isso produz quando a pessoa falha. O próprio texto dá a medida: Moisés é chamado de servo, e servo é quem cumpre ordem de outro. A confiança nele, na formulação de Ibn Ezra, é a confiança de que ele não fará nada por conta própria — e quem pede confiança por conta própria não está na posição de Moisés.

Registrar não é o mesmo que garantir

O versículo diz que creram naquele dia e não promete mais nada. É o oposto do testemunho que encerra a história no ponto alto: dizer o que houve, dizer quando, e não anunciar o que ainda não aconteceu.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o povo temeu, por que o capítulo não conta o que ele fez?

Porque o que ele fez está no capítulo seguinte: cantou. O cântico de Êxodo 15 é a continuação direta desta frase, e o Mekhilta faz exatamente essa ligação, tratando a fé deste versículo como o motivo do canto. A divisão em capítulos é medieval e corta a cena no meio.

Temor e fé são a mesma coisa dita duas vezes?

Não. São dois verbos diferentes, com objetos formulados de modo diferente, e um vem antes do outro. Se fossem equivalentes, o versículo seria redundante — e a estranheza de haver os dois é justamente o que o Mekhilta aproveita. O que não é possível é dizer que relação o texto estabelece entre eles, porque ele não estabelece nenhuma.

Crer em Moisés não é idolatria?

A pergunta é antiga e é séria, e a resposta do próprio versículo está na última palavra: ele é chamado de servo. A construção não põe os dois no mesmo nível — põe os dois na mesma frase, e qualifica o segundo. Ainda assim, a formulação é única no Pentateuco, e o fato de ela não se repetir sugere que também não era confortável para quem escreveu depois.

Por que a grande mão é objeto do verbo "ver", se não se pode ver uma mão de Deus?

Porque em hebraico o verbo ver cobre também perceber e experimentar, e porque "mão" funciona como palavra para poder. A frase é idiomática nas duas pontas. Traduzi-la por "o grande poder" é legítimo e é o que a maioria das versões faz; o preço é apagar a mão, e com ela o par que se forma com a mão dos egípcios no versículo anterior.

Esta fé é a mesma de Abraão em Gênesis 15:6?

É o mesmo verbo e a mesma construção, e o Mekhilta aproxima os dois de propósito. As diferenças são duas e não são pequenas: em Gênesis o sujeito é um homem sozinho e o objeto é um só; aqui o sujeito é um povo e os objetos são dois.

O texto diz que o povo se converteu?

Não usa nenhuma palavra desse campo. Diz que viu, temeu e creu, naquele dia — e não fala de mudança de vida, de compromisso nem de promessa feita. Chamar isto de conversão é acrescentar uma categoria que o versículo não tem.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo verbo de temer, no começo deste capítulo

Êxodo 14:10 — "Quando Faraó se aproximou, os filhos de Israel levantaram os olhos, e eis que os egípcios marchavam atrás deles; e tiveram muito medo, e os filhos de Israel clamaram ao SENHOR."

"Tiveram muito medo" e "temeu ao SENHOR" traduzem o mesmo verbo hebraico. Vinte e um versículos separam um do outro.

A acusação que o mesmo povo fizera a Moisés

Êxodo 14:11 — "E disseram a Moisés: 'Foi por não haver sepulturas no Egito que você nos tirou de lá para morrermos no deserto?'"

É o mesmo homem em quem agora creem, e nada entre as duas falas explica a passagem, além do mar.

Os lugares em que o mesmo verbo de crer tem um objeto só

Gênesis 15:6 — "E creu no SENHOR, e isso lhe foi imputado como justiça."

Abraão, um sujeito e um objeto. É o texto que o Mekhilta põe ao lado deste.

Êxodo 4:31 — "E o povo creu. Quando ouviram que o SENHOR havia visitado os filhos de Israel e que vira a sua aflição, inclinaram-se e adoraram."

Ali o verbo aparece sem objeto nenhum. Aqui vem com dois.

Êxodo 19:9 — "O SENHOR disse a Moisés: ‘Eis que eu virei a você na espessura da nuvem, para que o povo ouça quando eu falar com você, e creia também em você para sempre.’"

O caso mais próximo, e ainda assim diferente: o objeto é um só, e é o homem.

Números 14:11 — "E o SENHOR disse a Moisés: 'Até quando este povo me desprezará? E até quando não crerá em mim, com todos os sinais que fiz no meio dele?'"

A mesma construção, negada, com Deus por objeto — e com os sinais mencionados como o que deveria ter bastado.

O título de servo, aplicado a Moisés

Números 12:7 — "Não assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa."

Deuteronômio 34:5 — "Assim morreu ali Moisés, o servo do SENHOR, na terra de Moabe, conforme a palavra do SENHOR."

Os dois únicos outros lugares do Pentateuco com o título. Ele estreia aqui e volta na morte dele.

O temor que vem depois de uma morte

2 Samuel 6:9 — "E Davi teve medo do SENHOR naquele dia, e disse: 'Como virá a mim a arca do SENHOR?'"

O paralelo de Ibn Ezra. Mesma construção, e o que a produz é o corpo de Uzá.

A sequência inteira, resumida e julgada por um salmo

Salmos 106:12-13 — "Então creram nas suas palavras e cantaram o seu louvor. Bem depressa se esqueceram das suas obras e não esperaram o seu conselho."

Dois versículos consecutivos, e o segundo faz o juízo que o Êxodo não faz.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E Israel viu a grande mão com que o SENHOR agiu contra os egípcios; e o povo temeu ao SENHOR, e creram no SENHOR e em Moisés, seu servo.

Texto hebraico

וַיַּרְא יִשְׂרָאֵל אֶת־הַיָּד הַגְּדֹלָה אֲשֶׁר עָשָׂה יְהוָה בְּמִצְרַיִם וַיִּירְאוּ הָעָם אֶת־יְהוָה וַיַּאֲמִינוּ בַּיהוָה וּבְמֹשֶׁה עַבְדּוֹ׃

Transliteração

wa-yar Yisra'el et-ha-yad ha-gedolah asher asah YHWH be-Mitsrayim; wa-yir'u ha-am et-YHWH, wa-ya'aminu ba-YHWH u-ve-Mosheh avdo.

Análise palavra por palavra

וַיַּרְא יִשְׂרָאֵל — wa-yar Yisra'el, "e Israel viu".

Raiz ra'ah, ver, na forma simples do verbo hebraico (o Qal) e na forma que encadeia a narrativa, terceira pessoa masculina do singular. São as mesmas três palavras que abrem a segunda metade de Êxodo 14:30. O capítulo termina com duas frases gêmeas e objetos opostos: primeiro corpos, depois uma mão.

אֶת־הַיָּד הַגְּדֹלָה — et-ha-yad ha-gedolah, "a grande mão".

Com a partícula de objeto direto, artigo em cada palavra e o adjetivo depois do substantivo, como o hebraico exige. Yad é a mão do corpo, feminina; gedolah é o feminino de "grande". Não há aqui nenhuma palavra que signifique poder, obra ou feito: a tradução tradicional em português — "o grande poder", "a grande obra" — é interpretação, e vem de longe.

Repare que o capítulo usa yad duas vezes em dois versículos, e em funções opostas. Em Êxodo 14:30 é mi-yad Mitsrayim, "da mão do Egito", num sentido idiomático de domínio; aqui é ha-yad ha-gedolah, com artigo e adjetivo, como coisa vista. A mesma palavra faz o percurso de onde o povo sai até o que o povo olha.

אֲשֶׁר עָשָׂה יְהוָה בְּמִצְרַיִם — asher asah YHWH be-Mitsrayim, "que o SENHOR fez no Egito".

Asher é o pronome relativo, invariável; asah, o verbo mais genérico do hebraico para fazer, no perfeito. A preposição be, diante do nome do país, admite duas leituras: "em, dentro de" — o que o SENHOR fez no território — ou "contra", sentido que ela tem em contextos hostis. Pusemos "contra os egípcios", e a escolha é razoável, porque o que está em vista acabou de acontecer no mar e não no país; ainda assim, fecha uma alternativa que o hebraico deixa aberta.

וַיִּירְאוּ הָעָם אֶת־יְהוָה — wa-yir'u ha-am et-YHWH, "e o povo temeu o SENHOR".

Raiz yare, temer, no Qal e na forma narrativa, terceira pessoa masculina do plural. Ha-am, o povo, com artigo — substantivo singular com verbo no plural, concordância que o hebraico faz com frequência em nomes coletivos.

Duas observações de forma. A primeira é a semelhança com o verbo anterior: as raízes ra'ah, ver, e yare, temer, são diferentes, mas as suas formas nesta parte do sistema verbal ficam muito próximas, e escrito sem os sinais de vogal — como o texto foi escrito por séculos — wa-yir'u pode ser lido como "e viram" ou como "e temeram". Quem fixou a leitura foi a vocalização massorética, e a ambiguidade é curiosa num versículo cuja frase anterior começa por "e viu".

A segunda é a construção. O verbo vem com et, a partícula de objeto direto. Em Êxodo 14:10, onde o mesmo verbo descreve o medo dos egípcios, não há et: ali o pavor é absoluto, reforçado por me'od, "muito". O hebraico distingue com regularidade temer de alguém, com a preposição min ou sem complemento, do temer alguém com partícula de objeto, que é a construção da reverência devida. Essa segunda construção como fórmula fixa está tratada no estudo de Gênesis 42:18.

וַיַּאֲמִינוּ בַּיהוָה — wa-ya'aminu ba-YHWH, "e creram no SENHOR".

Raiz aman, na forma causativa do verbo hebraico (o Hifil), terceira pessoa masculina do plural, forma narrativa.

A raiz é a da firmeza. No tronco simples ela descreve o que é firme, sustentado, digno de apoio — é dela que vêm emunah, fidelidade, emet, verdade, e amém, a palavra com que se confirma o que outro disse. A forma causativa, que é a deste versículo, tem o sentido de considerar firme, apoiar-se em, dar crédito a. Crer, em hebraico, é tratar alguma coisa como chão. O objeto vem com a preposição be, "em", construção usual para crer em alguém, presente em Gênesis 15:6 e negada em Números 14:11.

וּבְמֹשֶׁה עַבְדּוֹ — u-ve-Mosheh avdo, "e em Moisés, seu servo".

Conjunção u, "e", seguida da mesma preposição repetida diante do segundo objeto: be-Mosheh. É esse detalhe que produz a construção única. O hebraico não diz "creram no SENHOR, e também em Moisés" com alguma partícula que subordine o segundo ao primeiro; diz be nos dois, em paralelo perfeito.

Avdo é eved, servo, escravo, com o sufixo de terceira pessoa masculina do singular. A raiz é avad, trabalhar, servir, cultivar — a mesma de avodah, trabalho e serviço, e de avadim, servos, palavra com que o livro nomeia a condição de Israel no Egito.

Com Moisés por referente, a palavra aparece no Pentateuco aqui, em Números 12:7-8 e em Deuteronômio 34:5. Fora dele o título se fixa como epíteto — Josué 1:1 abre com ele. E avdo é a última palavra do capítulo: o relato que começou com uma ordem para acampar num lugar sem saída termina num título de ofício.

11. Conclusão

Quatro conclusões saem deste versículo.

O capítulo se fecha em torno de um verbo e de um objeto trocado. O povo temeu os egípcios em Êxodo 14:10 e teme o SENHOR aqui, com a mesma palavra hebraica e com construção diferente. A distância entre o começo e o fim do episódio está medida nessa partícula, e nenhuma tradução portuguesa consegue mostrá-la.

A fé deste versículo tem dois objetos, e isso não se repete. A mesma preposição liga a mesma fé a Deus e a um homem, em paralelo, uma única vez no Pentateuco. O Mekhilta perguntou por que estava escrito assim, os medievais leram de modos opostos, e a construção não voltou. Tratá-la como fórmula comum é perder o que ela tem.

O título que Moisés recebe vem da palavra da escravidão. No mundo do texto "servo" nomeia cargo e proximidade, e não rebaixamento — mas é a mesma raiz que o livro usou por treze capítulos para dizer o que Israel era no Egito. A última palavra do capítulo da libertação é essa, com outro dono.

O texto registra o que houve e não garante o que virá. Diz que naquele dia viram, temeram e creram, e para. Não descreve compromisso, não avalia, não promete duração — e os capítulos seguintes mostram o mesmo povo reclamando. Quem lê aqui uma conversão definitiva está pondo no versículo uma palavra que ele não usa.

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Êxodo 14:31

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