Não é isto o que lhe dissemos no Egito: ‘Deixe-nos, para que sirvamos aos egípcios’? Pois melhor nos seria servir aos egípcios do que morrermos no deserto.”
1. Introdução
A frase que o povo diz a Moisés começa citando uma conversa anterior — e a conversa não está no livro. Nenhum versículo do Êxodo registra Israel pedindo "deixe-nos servir aos egípcios", e é isso que faz deste um dos versículos mais discutidos do capítulo: a acusação repousa numa fala que o leitor nunca leu. Depois da citação vem um cálculo, e o cálculo é bom: entre servir e morrer de sede, servir é melhor. O que o povo pede ao homem que o tirou da casa da servidão é que o devolva a ela, e o pedido vem em forma de argumento, não de birra. Este estudo trata da fala que falta, do verbo com que se pede para ser deixado em paz e da comparação que o texto não refuta.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que "servir aos egípcios" nomeava
O egípcio não tinha uma palavra que corresponda ao nosso "escravo". Os dois termos mais usados — bak, com o feminino baket, e hem — cobrem uma faixa larga: servem para o homem que carrega barro num domínio de templo e servem também para o alto funcionário que, na inscrição do próprio túmulo, se chama servo do rei com orgulho.
Isso importa para a frase do versículo. Ela não pede um estatuto jurídico determinado: pede a faixa. "Servir aos egípcios" nomeia um conjunto de condições que ia do trabalho forçado mais duro até a dependência com alguma folga — e o povo não especifica qual.
A pior parte dessa faixa era o trabalho compulsório, cuja forma institucional está tratada no estudo de Gênesis 47:18. A parte que pesava numa decisão tomada na borda do deserto era outra: o trabalho recrutado era abastecido. O Estado que tomava a mão de obra entregava pão, cerveja e óleo, em ração medida e registrada. É por isso que a comparação do versículo é aritmética e não apenas covardia: de um lado um regime que alimenta, do outro uma região sem água.
Gente que escolheu a servidão, por escrito e com preço
Que alguém prefira entrar em dependência para sobreviver não é hipótese psicológica: no Egito está documentado em contratos, com nome e com valor.
Entre 305 e 30 antes da era comum, no Faium e na região de Tebas, homens e mulheres livres assinaram o que os egiptólogos chamam de textos de autodedicação. A pessoa declara-se serva de um deus e do templo dele, compromete-se a pagar uma taxa mensal e recebe em troca a proteção daquele templo — contra espíritos, contra doença e contra outros homens.
A fórmula de um desses documentos, lavrado em Tebtunis, no Faium, diz: "Sou teu servo de hoje em diante, e pagarei duas peças e meia de cobre por mês como a minha taxa de servo, diante de Soknebtunis, o grande deus." O detalhe que mais diz da situação dessas pessoas é outro: cerca de nove em cada dez signatários não sabiam nomear o próprio pai. Eram gente sem família a quem recorrer, comprando a condição de servo porque a condição de livre não lhes dava proteção nenhuma.
O que esses documentos provam e o que não provam
Eles são cerca de mil anos posteriores a qualquer data proposta para o êxodo e tratam de templos, não do trabalho recrutado do Delta: não documentam nada sobre Israel. O que mostram é a lógica, e é ela que interessa. Naquele mundo, entrar em servidão era uma opção conhecida para quem não tinha o que comer nem quem o defendesse, e houve gente que pagou por ela. A frase do versículo não é uma esquisitice de um povo assustado. É um movimento com precedente no próprio país de onde eles acabaram de sair.
E há um pressuposto material na frase que costuma escapar: havia a quem voltar. O Egito não foi destruído na narrativa das pragas. O Estado, os domínios, as obras e as rações continuam de pé — o capítulo anterior acabou de mostrar o exército inteiro em condições de marchar. Pedir para servir aos egípcios era, naquele momento, um plano executável.
3. Análise Teológica do Versículo
"Não é isto o que lhe dissemos no Egito"
Procure essa fala nos treze capítulos anteriores e você não a encontra. Em nenhum lugar do Êxodo Israel diz a Moisés "deixe-nos servir aos egípcios". O povo cita uma conversa que o livro não registrou.
O problema é antigo e foi enunciado sem rodeio. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) escreve quatro palavras sobre o versículo: isto não está dito. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) repete a constatação oito séculos depois, com a mesma secura. Circulam seis saídas, e cada uma paga um preço.
Primeira leitura: a fala é Êxodo 5:21. É a resposta do Mekhilta de Rabi Ismael (a mais antiga coleção rabínica de comentário ao Êxodo), e Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) a adota sem discutir: onde disseram isso? Em Êxodo 5:19-21, quando os supervisores saíram do palácio e disseram "que o SENHOR olhe para vocês e julgue". Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) seguem pelo mesmo caminho. O preço é grande e precisa ser dito: Êxodo 5:21 não contém nada parecido com o pedido citado. Ali o povo não pede para ser deixado servindo; pede que Deus julgue Moisés. E quem fala são os supervisores, não o povo. O que se aproveita da identificação é o momento e o teor geral, não as palavras.
Segunda leitura: a fala aconteceu e não foi narrada. É a primeira resposta de Ibn Ezra: sabemos que foi dito, porque ninguém afirmaria na cara de Moisés uma coisa que não tivesse dito. O argumento é de verossimilhança e tem força, mas não pode ser testado por nada: qualquer citação sem antecedente ficaria autorizada pela mesma regra.
Terceira leitura: está dentro de Êxodo 6:9. É a segunda resposta de Ibn Ezra: aquele versículo diz que o povo não ouviu Moisés por causa da dura escravidão, e a recusa de ouvir conteria, implícita, a fala citada aqui. O preço é que "não ouviram" não é "disseram".
Quarta leitura: houve uma queixa anterior sobre a rota. Nachmânides (Moisés ben Nachman, comentarista catalão do século XIII) propõe que o povo já havia objetado quando Moisés não os levou pela estrada da costa, dizendo que qualquer caminho pelo deserto era o maior dos riscos — o que situaria a fala perto de Êxodo 13:17-18. O preço é o mesmo da segunda leitura, com um agravante: é reconstrução baseada numa objeção que o texto também não registra.
Quinta leitura: é memória refeita pelo medo. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) chama a afirmação de exagero grosseiro, embora não sem aparência de verdade; o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) é mais direto: não era verdade que eles tivessem mantido sempre a mesma linguagem. Aqui o povo não cita — reescreve. Diz agora o que gostaria de ter dito, e passa a acreditar que disse. O preço é atribuir-lhe um estado mental que o versículo não descreve; o ganho é explicar a frase sem inventar nenhuma cena.
Sexta leitura: é convenção retórica. "Não foi isto que lhe dissemos?" pode não ser citação nenhuma, e sim o modo corrente de afirmar uma posição antiga — como quem diz "eu sempre falei". Nesse caso a frase não reivindica palavras, reivindica coerência, e o preço é esvaziar o versículo.
E há o escriba que resolveu o problema. O Pentateuco Samaritano — forma do texto hebraico conservada à parte pela comunidade samaritana — traz a fala por extenso lá atrás, no capítulo 6, exatamente onde o Êxodo massorético não a tem. Alguém notou que a citação não tinha antecedente e forneceu o antecedente — é o tipo de acréscimo que os estudiosos do texto chamam de harmonização. O dado não decide nada sobre a forma original: prova que o problema foi sentido muito antes de Ibn Ezra, e que ao menos uma tradição de escribas achou que precisava de conserto.
Não é possível decidir entre as seis. O que se pode afirmar é o seguinte, e é mais interessante do que qualquer das saídas: o Êxodo deixa um personagem citar, como prova, uma fala que não pôs no texto — e não comenta a lacuna.
"Deixe-nos, para que sirvamos aos egípcios"
O verbo com que o pedido começa é o verbo de parar: cessar, desistir, largar mão, na forma imperativa. Ele tem história neste livro, e a história é do outro lado — é o verbo com que Faraó pede que os trovões cessem, em Êxodo 9:28-29. O que Faraó pedia da praga, Israel pede de Moisés.
E o conteúdo do pedido é a parte difícil. Não pedem comida, não pedem água, não pedem armas, não pedem rota. Pedem para ser deixados em paz na condição de onde foram tirados. A única coisa que o povo pede ao libertador é que ele pare de libertar.
E há um eco dentro do capítulo. Em Êxodo 14:5, Faraó e os seus servos lamentam ter deixado "Israel de nos servir", e o verbo é a mesma raiz hebraica que aparece duas vezes nesta frase do povo. Sete versículos depois do arrependimento do rei por ter perdido aquele serviço, os que o prestavam oferecem-se para retomá-lo. Não é possível decidir se a repetição é deliberada; o vocabulário é o mesmo.
"Pois melhor nos seria servir aos egípcios do que morrermos no deserto"
Esta é a única parte do versículo que não depende de memória nenhuma, e é a mais forte.
É um argumento comparativo em forma completa: dois males, um deles medido como menor. E está correto com as informações disponíveis — eles não têm água garantida, não têm passagem, não têm exército, e do outro lado há um regime que os fazia trabalhar e os alimentava. O Êxodo não refuta a conta. O que acontece em seguida é que as opções mudam, o que é outra coisa.
Repare no que a frase concede e no que não concede. Ela não elogia o Egito. Não fala de carne, de pão, de casa, de nada bom: chama a coisa pelo nome, servir, e diz apenas que morrer é pior. É escolha entre dois males, feita sem ilusão sobre o primeiro: a idealização do Egito vai aparecer no livro, e rápido, mas não está aqui.
E repare no que falta: nenhuma palavra sobre a terra prometida, sobre o juramento aos pais, sobre a aliança, sobre o SENHOR. O conteúdo religioso da saída do Egito está inteiramente ausente da frase que decide contra ela — provavelmente porque promessa nenhuma mata a sede.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
"Os egípcios", como objeto de um verbo
É a única vez em todo o livro em que "os egípcios" aparecem como aquilo que Israel se oferece para servir. Em todos os outros lugares eles são sujeito — fazem servir, oprimem, perseguem — ou objeto de juízo. Aqui o povo os põe na posição de senhores desejados, e o faz com o nome coletivo do país, não com o nome de Faraó. Não é ao rei que eles se oferecem: é à população que os empregava.
O Egito de que se fala
O país mencionado na frase não é uma lembrança distante. Estão a poucos dias de marcha dele, provavelmente entre um e dois, e o exército que vem atrás saiu de lá na véspera. Voltar não era metáfora: era uma estrada.
A conversa que o versículo alega
A fala citada teria acontecido "no Egito", e o Êxodo dá três oportunidades em que ela caberia, na ordem em que aconteceram.
A primeira é logo depois do agravamento do trabalho, em Êxodo 5:19-21, quando os supervisores saem do palácio e culpam Moisés pelo que lhes sobreveio. A segunda é Êxodo 6:9, o momento em que o povo simplesmente deixa de ouvir. A terceira é a escolha da rota, em Êxodo 13:17-18, quando Moisés recusa a estrada da costa e leva o povo para o lado do deserto.
Nenhuma das três traz as palavras citadas. Qual delas, se alguma, é a conversa referida — e o que se ganha e se perde ao escolher cada uma — é assunto do item 3.
5. Pontos de Ensino
Um pedido de servidão pode vir em forma de bom argumento
A frase não é um desabafo. É uma comparação entre duas alternativas, com o termo pior identificado e a conclusão extraída. Quem espera que a recusa da liberdade se apresente como fraqueza confessada não a reconhece quando ela chega assim — arrumada, calma e correta nas premissas.
O texto não desmonta o cálculo
Não há no Êxodo nenhuma frase dizendo que o povo errou a conta. Servir e continuar vivo era, de fato, melhor que morrer de sede, e nada no capítulo contesta isso. O que muda é o número de opções: a comparação de dois termos deixa de valer quando aparece um terceiro que ninguém tinha. A objeção ao raciocínio do povo não é lógica — é que ele contava só com o que estava vendo.
Ninguém menciona a promessa
A terra, o juramento aos pais e o nome do SENHOR não entram na balança. Um povo que tinha acabado de ver dez sinais decide entre dois modos de sobreviver sem citar uma única vez aquilo que fora dito a respeito do seu futuro. O Êxodo registra isso sem comentar, e o dado é mais desconcertante do que qualquer adjetivo que se pudesse pôr no lugar.
A casa de onde saíram é a casa que pedem de volta
A fórmula que resume a libertação no capítulo anterior diz que o SENHOR os tirou "da casa da servidão". A palavra que nomeia a casa e a palavra com que eles se oferecem para voltar vêm da mesma raiz. O livro põe as duas frases a um capítulo de distância e não sublinha a coincidência.
6. Aspectos Filosóficos
Por que alguém pede para voltar a ser escravo?
A resposta fácil é medo, e não explica a frase. Medo faz correr, faz gritar, faz procurar armas. O que o versículo mostra é outra coisa: um pedido formulado, com justificativa, para ser reconduzido a uma condição da qual se acabou de ser retirado. Há um ganho sendo buscado ali, e a pergunta é qual.
Fromm: a liberdade tem um peso, e há como devolvê-lo
Erich Fromm (1900-1980, psicanalista e pensador social alemão que fugiu da Alemanha em 1934) publicou em 1941 o livro que lhe deu nome: Escape from Freedom ("Fuga da liberdade"), editado em português como O medo à liberdade. Escreveu-o tentando entender por que populações inteiras da Europa tinham entregado voluntariamente liberdades recém-conquistadas a regimes que as suprimiam.
A tese central é uma distinção. Existe a liberdade de — a que se ganha quando se rompem os laços que prendiam alguém a um lugar, a uma função, a um senhor. E existe a liberdade para — a capacidade de fazer alguma coisa com a vida assim liberada. Fromm sustenta que as duas não vêm juntas, e que o intervalo entre elas é perigoso.
Quem rompeu os laços antigos ganha individualidade e ganha, no mesmo ato, três coisas que não pediu: isolamento, impotência diante de um mundo grande demais e uma ansiedade sem objeto definido. Nos laços antigos havia opressão, e havia também certeza, pertencimento e a dispensa de decidir. Perder tudo isso de uma vez é uma carga real.
Daí o que dá título ao livro. Quando não há com que sustentar a liberdade recém-adquirida, a pessoa procura tirá-la de cima de si, e o primeiro dos mecanismos que Fromm descreve é a submissão a um poder maior — não por engano sobre o que ela custa, mas porque devolve o que o vínculo dava. O sujeito abandona o próprio eu separado e, com ele, o peso de ser um eu separado.
Onde isso ilumina o versículo
A situação do povo no mar é, em termos de Fromm, liberdade de sem nenhuma liberdade para. Eles estão fora do Egito — isso já aconteceu. Não têm terra, não têm lei, não têm rota, não têm água e não têm exército. O Sinai ainda não existe; a aliança, a legislação e a organização do acampamento vêm todas depois. O que eles possuem, naquele exato momento, é exclusivamente a ausência do que os prendia.
E o pedido que fazem tem a forma que Fromm descreve: devolva o vínculo. Não negam que a servidão era servidão — chamam a coisa pelo nome. O que dizem é que ela era suportável, e o que era intolerável é a condição em que agora se encontram. A frase é a formulação mais clara que a Bíblia oferece de que a libertação não é automaticamente desejada por quem foi libertado.
Isso separa a leitura de Fromm de uma leitura vizinha e já feita no acervo: no estudo de Êxodo 12:32, o Discurso da servidão voluntária pergunta de onde o tirano tira a força que os súditos lhe emprestam. A pergunta de Fromm é a outra metade — não por que o poder funciona, mas por que o submetido quer que funcione.
Onde a comparação para, e ela para cedo
Dois limites, e os dois são grandes. O primeiro é de categoria. Fromm escreve sobre o indivíduo moderno, produzido pela Reforma e pela economia que veio depois dela, e sobre a Alemanha dos anos trinta. A "solidão do eu separado" pressupõe alguém que já se tornou um eu separado. O sujeito do versículo é um "nós": não há indivíduo nenhum na frase, e a categoria com que Fromm trabalha não está disponível no texto.
O segundo é do próprio Êxodo. O livro não psicologiza. Não diz que o povo temia a liberdade, não descreve estado interior nenhum, não explica a frase. Registra o que foi dito e passa adiante. Fromm ajuda a ver por que a frase não é absurda; não autoriza atribuir ao texto um diagnóstico que ele não formula.
7. Aplicações Práticas
Quem foi tirado de um lugar ruim pode querer voltar, e isso não é ingratidão
A pessoa que sai de um emprego que a adoecia, de uma casa onde era maltratada, de uma relação que a diminuía, costuma passar por um período em que a saída parece pior do que o lugar de onde saiu. O motivo é o que o versículo deixa ver: o lugar ruim oferecia coisas reais — rotina, previsibilidade, teto, a dispensa de decidir — e essas coisas somem junto com o resto.
Isso tem consequência prática para quem acompanha alguém nessa travessia. Argumentar que o lugar antigo era ruim não funciona, porque a pessoa sabe. O que falta não é informação sobre o passado: é chão no presente.
Um argumento certo pode levar à decisão errada
A comparação do povo está correta dentro do que eles enxergam, e a conclusão é a pior possível. Isso acontece sempre que a lista de opções está incompleta: o raciocínio funciona bem e chega a um lugar ruim, porque foi alimentado com dois termos quando havia três. Diante de uma escolha em que as duas saídas visíveis são péssimas, a pergunta útil não é qual delas é menos ruim — é o que está faltando na lista.
Um limite honesto
O episódio não ensina a ter coragem, e transformá-lo nisso é forçar o texto. O que resolve a situação do capítulo não é uma mudança de atitude do povo: é o mar. A aplicação legítima está em reconhecer o mecanismo — a servidão conhecida competindo com o risco desconhecido, e vencendo pelo argumento —, não em extrair dele uma exortação.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Onde está a fala que o povo cita?
Não está no Êxodo. Nenhum versículo anterior registra Israel pedindo para ser deixado servindo aos egípcios, e Ibn Ezra foi quem disse isso com menos rodeio: não está dito. Existem seis saídas para o problema, e elas estão expostas no item 3 — nenhuma delas é demonstrável, e é honesto dizer que a mais repetida, a que identifica a fala com Êxodo 5:21, não bate com as palavras daquele versículo.
Então o povo está mentindo?
O texto não diz isso, e há mais de uma alternativa à mentira. Pode ter havido uma conversa que o livro não narrou. Pode ser reescrita involuntária de memória, feita sob medo — que é diferente de mentir. Pode ser convenção de linguagem, o nosso "eu sempre falei", que não pretende citar palavra nenhuma. O que se pode afirmar é que o Êxodo não qualifica a alegação e não a corrige.
Por que ninguém no texto contesta a citação?
Essa é a parte mais estranha. Moisés tinha em mãos a resposta mais simples possível — vocês nunca me disseram isso — e não a usa. A resposta dele, no versículo seguinte, ignora a citação inteira. Uma leitura possível é que a fala tinha acontecido e ele sabia; outra é que discutir a memória não interessava naquele momento. O texto não permite decidir.
O cálculo do povo estava errado?
Dentro do que eles sabiam, não. Um regime que os fazia trabalhar e os alimentava é melhor que uma região sem água, e o Êxodo não escreve uma linha contestando a comparação. O problema do raciocínio não está nas premissas: está na lista de opções, que tinha dois itens quando havia três.
Eles estavam com saudade do Egito?
Aqui, não. A frase não atribui nenhuma qualidade boa ao Egito: chama a condição pelo nome, servir, e apenas diz que morrer é pior. A idealização — panelas de carne, pão à vontade — aparece dois capítulos depois, em Êxodo 16:3. Confundir os dois textos faz este versículo dizer o que ele não diz.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo pedido, feito pelos egípcios
Gênesis 47:19 — "Por que havemos de morrer diante dos seus olhos, tanto nós como as nossas terras? Compre a nós e as nossas terras em troca de pão, e nós, com as nossas terras, seremos escravos de Faraó; e dê-nos semente, para que vivamos e não morramos, e a terra não fique deserta."
Gênesis 47:25 — "E eles responderam: 'Você nos salvou a vida! Achemos favor aos olhos do nosso senhor, e seremos escravos de Faraó.'"
É o paralelo mais exato que os dois livros oferecem, e ele inverte os papéis. Em Gênesis 47 são egípcios que pedem para se tornar escravos, com a mesma estrutura de argumento: a alternativa é morrer, logo a servidão é preferível. Aqui são hebreus pedindo para servir aos egípcios, pelo mesmo motivo. Nenhum dos dois textos menciona o outro, e a aproximação é do leitor.
A fala anterior mais provável — e o que ela não diz
Êxodo 5:21 — "e lhes disseram: 'Que o SENHOR olhe para vocês e julgue! Porque vocês nos fizeram feder aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos, pondo na mão deles uma espada para nos matar.'"
É o versículo que o Mekhilta e Rashi apontam como a conversa citada. Ele é do momento certo e do teor geral certo, e não contém o pedido: ali ninguém pede para ser deixado servindo, ninguém compara servir com morrer no deserto, e quem fala são os supervisores.
O outro candidato
Êxodo 6:9 — "Assim falou Moisés aos filhos de Israel; mas eles não ouviram Moisés, por falta de fôlego e por causa da dura escravidão."
Ibn Ezra sugere que a fala citada estaria contida nesta recusa de ouvir. E é exatamente neste ponto que o Pentateuco Samaritano insere a fala por extenso — um escriba leu o versículo do mesmo modo e completou o que faltava.
A casa de onde foram tirados
Êxodo 13:3 — "Moisés disse ao povo: 'Lembrem-se deste dia, em que vocês saíram do Egito, da casa da servidão, porque com mão forte o SENHOR os tirou daqui; e não se coma pão levedado.'"
A palavra que nomeia a casa e a palavra com que o povo se oferece para voltar a ela são da mesma raiz hebraica, e a fórmula tinha sido dita poucos dias antes.
A proposta de eleger outro chefe e voltar
Números 14:3 — "E por que o SENHOR nos traz a esta terra para cairmos à espada, e para que as nossas mulheres e os nossos filhos sejam presa? Não nos seria melhor voltar ao Egito?"
Quarenta anos depois, a mesma comparação, com duas diferenças. Ali o "melhor" é aplicado ao retorno em si, e não à servidão; e ali a queixa aponta para Deus como autor do plano, não para Moisés. O que este versículo apenas pede, Números 14:4 transforma em proposta organizada, com a escolha de um novo chefe.
A lei que proibiria exatamente isto
Deuteronômio 17:16 — "E que não multiplique para si cavalos, nem faça o povo voltar ao Egito para multiplicar cavalos; porque o SENHOR lhes disse: Não voltarão mais por este caminho."
Deuteronômio 28:68 — "E o SENHOR o fará voltar ao Egito em navios, pelo caminho de que lhe disse: Nunca mais o verá; e ali vocês se oferecerão à venda aos seus inimigos como escravos e escravas, e não haverá quem os compre."
O Deuteronômio faz do retorno ao Egito uma proibição expressa, dirigida ao rei, e faz da venda de si mesmo como escravo no Egito a última das maldições da aliança — com um detalhe que a torna pior: ninguém compra. O que o povo pede neste versículo é, nos dois textos, o fundo da escala. As leis são muito posteriores e não tratam deste episódio; o vocabulário é o mesmo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Não é isto o que lhe dissemos no Egito: ‘Deixe-nos, para que sirvamos aos egípcios’? Pois melhor nos seria servir aos egípcios do que morrermos no deserto.”
Texto hebraico
הֲלֹא־זֶה הַדָּבָר אֲשֶׁר דִּבַּרְנוּ אֵלֶיךָ בְמִצְרַיִם לֵאמֹר חֲדַל מִמֶּנּוּ וְנַעַבְדָה אֶת־מִצְרָיִם כִּי טוֹב לָנוּ עֲבֹד אֶת־מִצְרַיִם מִמֻּתֵנוּ בַּמִּדְבָּר
Transliteração
ha-lo zeh ha-davar asher dibbarnu eleikha ve-Mitsrayim lemor: chadal mimmennu ve-na'avdah et-Mitsrayim; ki tov lanu avod et-Mitsrayim mi-mutenu ba-midbar.
Análise palavra por palavra
O nome do Egito aparece três vezes em vinte e uma palavras. O nome do SENHOR, nenhuma.
הֲלֹא — ha-lo, "não é…?". O prefixo de pergunta somado à negação simples.
É a pergunta que não busca informação: busca concordância. Quem a faz já tem a resposta e quer que o outro a confirme. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica da Torá, de uso litúrgico nas sinagogas) desfez a construção e traduziu por afirmação — em aramaico, o povo não pergunta se avisou, declara que avisou.
זֶה הַדָּבָר אֲשֶׁר דִּבַּרְנוּ אֵלֶיךָ — zeh ha-davar asher dibbarnu eleikha, "esta é a palavra que falamos a você".
Davar é substantivo de sentido duplo: significa "palavra" e significa "coisa", "assunto", "caso". O verbo dibber — aqui no Piel, primeira pessoa do plural — vem da mesma raiz, de modo que a frase soa como "esta é a palavra que palavramos". A construção é comum na língua e dá peso ao que se alega: não uma conversa qualquer, mas a palavra, aquela. E a preposição é el, "a você", não al, "contra você".
לֵאמֹר — lemor, "dizendo". Infinitivo de amar com a preposição le.
Esta palavra faz um trabalho preciso e é a razão pela qual o problema do versículo é um problema. O hebraico bíblico não tem dois-pontos, e lemor ocupa esse lugar: ela anuncia que o que vem a seguir é a citação literal. O texto não apresenta o que se segue como resumo do que o povo pensava — apresenta como o que o povo disse, nestas palavras. É uma citação formal de uma fala que o livro não registrou.
חֲדַל מִמֶּנּוּ — chadal mimmennu, literalmente "cesse de nós". Raiz chadal, no Qal, imperativo masculino singular, com a preposição min e o sufixo de primeira pessoa do plural.
A raiz significa parar, desistir, largar mão, chegar ao fim; Gesenius (hebraísta alemão do século XIX, autor do léxico de hebraico de referência) liga o sentido primeiro a um afrouxamento, a algo que perde a força e para. No Êxodo o verbo aparece em Êxodo 9:29, 9:33 e 9:34 — sempre com os trovões como sujeito, cessando a pedido de Faraó — e em Êxodo 23:5. Este é o único lugar do livro em que ele é imperativo dirigido a uma pessoa. A forma com que o rei do Egito pedia o fim de uma praga é a forma com que Israel pede o fim da libertação.
וְנַעַבְדָה אֶת־מִצְרָיִם — ve-na'avdah et-Mitsrayim, "e sirvamos ao Egito". Raiz avad, no Qal, primeira pessoa do plural, com a terminação que transforma a forma em ordem branda — um "vamos servir". Et é a partícula que marca o objeto direto: o Egito é o que se serve.
Esta raiz é a raiz do livro inteiro: dela saem avodah, o trabalho forçado do capítulo 1, eved, o servo, e a expressão "casa da servidão", com que Êxodo 13:3 e Êxodo 13:14 nomeiam o Egito. E dela sai a frase que o SENHOR manda repetir a Faraó desde o começo. Em Êxodo 4:23, Êxodo 7:16 e Êxodo 8:1 a exigência é sempre a mesma: deixe o meu povo ir, para que me sirva — mesmo verbo, mesma construção, com Deus no lugar do objeto. Aqui o povo conjuga o verbo da sua vocação e troca o objeto. A frase que o livro vinha construindo era "que sirvam a mim"; a que o povo diz é "que sirvamos ao Egito". Não há no hebraico nenhuma marca que distinga os dois usos: é a mesma palavra, e só muda o que vem depois dela.
כִּי טוֹב לָנוּ — ki tov lanu, "pois é bom para nós". Ki é a conjunção causal; tov, o adjetivo "bom", o mesmo de Gênesis 1.
O hebraico não tem grau comparativo: não existe palavra para "melhor". Diz-se "bom" e põe-se a preposição min ("de", "do que") antes do termo rejeitado, e a frase, ao pé da letra, é "bom para nós servir ao Egito do nosso morrer no deserto". É por isso que a construção soa, em português, mais categórica do que é: o hebraico não diz que servir é ótimo, diz que é bom em relação à outra coisa.
מִמֻּתֵנוּ — mi-mutenu, "do que morrermos". A preposição min com o infinitivo de mut (morrer) e o sufixo de primeira pessoa do plural.
Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) para nesta palavra por causa de uma vogal. Vocalizada como está, ela é infinitivo com sufixo e significa "do que morrermos", o ato; se a vogal fosse outra, seria substantivo e significaria "do que a nossa morte". Ele reúne os paralelos — a mesma forma em Êxodo 16:3 e em 2 Samuel 19:1, na história de Absalão. É diferença mínima de sinal e faz diferença de sentido: o povo não compara a servidão com o fato da morte, compara com o processo de morrer.
11. Conclusão
Do que se examinou aqui decorrem quatro conclusões.
A primeira: a Torá admite que um personagem cite como prova uma fala que ela não escreveu. O problema não tem solução demonstrável, e o mais importante não é escolher entre as seis propostas — é reconhecer que o livro não se incomoda com a lacuna e não a comenta. Quem lê a Bíblia esperando um registro completo das conversas encontra aqui a prova de que ela não trabalha assim; e a prova de que isso sempre incomodou alguém é que uma tradição de escribas foi lá atrás e escreveu a fala que faltava.
A segunda: o pedido é razoável, e é por isso que ele é grave. O povo não delira. Compara dois males, identifica o pior e conclui. O Êxodo não contesta a conta em nenhum lugar, e não há um versículo dizendo que eles se enganaram. O que desmancha o raciocínio não é um argumento melhor: é a aparição de um terceiro termo que não estava na lista. Quem transforma a frase em exemplo de estupidez perde exatamente o que ela tem de desconfortável.
A terceira: o verbo é o mesmo, o objeto é que muda. Durante treze capítulos a exigência feita a Faraó foi "deixe o meu povo ir, para que me sirva". Aqui o povo usa a mesma palavra e põe o Egito onde estava Deus. Não é abandono da fé nem negação do que aconteceu — a fala não nega nada. É a troca do destinatário de um serviço, feita por gente que preferiu o senhor que conhecia. E o livro registra isso com o vocabulário da sua própria vocação, sem uma linha de reparo.
A quarta: a libertação não é automaticamente desejada por quem foi libertado. É a afirmação que o versículo sustenta sozinho, e ela vale qualquer que seja a leitura preferida da fala citada. Poucos dias depois de sair, sem nenhuma ilusão sobre o que era servir, um povo inteiro pediu para voltar — e apresentou o pedido como o mais sensato dos planos disponíveis.













