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Êxodo 12:32

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✍️ Por Alberto Adriano·25 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 30 acessos
Levem também os seus rebanhos e o seu gado, como vocês disseram; e vão, e abençoem a mim também.”
Faraó, de madrugada, diante de Moisés e Arão, libera os rebanhos de Israel e pede que o abençoem.

Estudo


Levem também os seus rebanhos e o seu gado, como vocês disseram; e vão, e abençoem a mim também.”

1. Introdução

Faraó entrega o que tinha retido até o fim — os animais — e, na mesma frase, pede uma coisa para si.

As quatro vezes anteriores em que ele pediu oração a Moisés vinham acompanhadas de um pedido de perdão ou de uma promessa; esta não vem com nenhum dos dois. O pedido é a última coisa que Faraó diz a Moisés no livro inteiro. Os comentaristas antigos divergem bastante sobre o que ele está pedindo: a distância vai de uma fórmula de despedida a um homem com medo de morrer naquela mesma noite. E o Êxodo não registra resposta nenhuma.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que estava sendo entregue

Os animais foram o último ponto da negociação, e foram o único em que Faraó havia conseguido segurar alguma coisa.

Em Êxodo 10:24 ele oferecera a saída de todo mundo, crianças inclusive, com uma condição só: “Somente os seus rebanhos e o seu gado ficarão.” A resposta de Moisés, em Êxodo 10:26, recusou até o resto: “não ficará nem um casco”. A conversa terminou em ameaça de morte, e o assunto ficou em aberto.

Entenda o que significava reter o rebanho de um povo de criadores. Não era confiscar comida. Para uma casa que vive de criação, o rebanho é o capital — a reserva que se reproduz, que dá leite, lã, couro e carne, e que anda sozinha. Quem sai sem os animais sai sem os meios de recomeçar em qualquer outro lugar, e por isso volta. Segurar os rebanhos era segurar a garantia do retorno.

Há ainda o outro lado da conta, que o próprio livro registrou. Os rebanhos egípcios tinham sido atingidos duas vezes: a mortandade do gado em Êxodo 9:6 e o granizo sobre o que estava no campo em Êxodo 9:25. O país que agora libera animais é um país que perdera grande parte dos seus.

O único gênero egípcio em que alguém pede palavras a um estranho

Um egípcio pedir a outra pessoa que fale por ele existia — mas num lugar muito específico, e esse lugar dá a medida do que Faraó faz aqui.

Milhares de túmulos, estelas e estátuas do Egito trazem um tipo de inscrição que os egiptólogos chamam de apelo aos vivos. O texto é dirigido, na segunda pessoa, a quem por ali passar. A fórmula varia pouco: “Ó vivos que estais sobre a terra, que amais a vida e odiais a morte, vós que passardes por este túmulo…” — e então vem o pedido, que é sempre de palavras: recitem a oferenda, digam o meu nome, pronunciem esta fórmula em meu favor.

Repare na posição em que esse gênero coloca quem fala. É a de alguém que já não pode agir por si e por isso precisa que outro fale no lugar dele. Era o discurso dos mortos, endereçado aos vivos, e nunca o discurso do rei.

Quanto à direção contrária — de onde, no Egito, se supunha que a bênção viesse, e por que ela descia do trono para baixo e não subia —, o assunto está desenvolvido no estudo de Gênesis 47:7, e não se reabre aqui.

Por que um rei quereria isso de um estrangeiro

Falta o pressuposto que torna o pedido racional dentro daquele mundo: a palavra dita era tida por eficaz.

Abençoar e amaldiçoar, nos textos do Antigo Oriente Próximo, não descrevem um desejo — descrevem um ato que produz efeito. É por isso que valia a pena contratar quem soubesse fazê-lo. A Bíblia guarda o exemplo mais claro dessa lógica na boca de outro rei: em Números 22:6, Balaque manda buscar Balaão longe de casa e diz, em tantas palavras, a razão — “eu sei que o que tu abençoares será bendito, e o que tu amaldiçoares será maldito”.

O limite honesto: os textos antigos mostram o que se dizia e o que se contratava; eles não permitem medir quanto disso as pessoas comuns acreditavam ao pé da letra, nem se Faraó, no Egito histórico, teria formulado um pedido assim. O que se pode afirmar é que o pedido, como o Êxodo o escreve, é coerente com a maneira como aquele mundo falava de bênção.

3. Análise Teológica do Versículo

“Levem também os seus rebanhos e o seu gado”

A frase desfaz a última condição que Faraó tinha imposto, e desfaz sem discutir.

E o texto usa o possessivo: os rebanhos são deles. Faraó não está doando — está parando de reter. A diferença importa para o que vem a seguir, porque o mesmo capítulo vai registrar, em Êxodo 12:35-36, uma entrega que é de fato de bens egípcios. São dois movimentos distintos, e este não é aquele.

“como vocês disseram”

A expressão aparece duas vezes em dois versículos — no fim de Êxodo 12:31 e de novo aqui — e as duas vezes apontam para trás, para falas anteriores de Moisés. A pergunta é para qual delas.

Primeira leitura: aponta para o pedido de que os animais fossem junto. É a leitura direta. Moisés dissera, em Êxodo 10:26, que nem um casco ficaria; Faraó agora concorda com aquilo. Nesse caso a frase é apenas uma capitulação, e não acrescenta nada ao versículo.

Segunda leitura: aponta para Êxodo 10:25, onde Moisés diz que o próprio Faraó porá nas mãos deles os sacrifícios. É a leitura de Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI), retomada por Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII), e ela muda o sentido da frase inteira: Faraó não estaria só liberando os animais de Israel, estaria fornecendo os animais do sacrifício, como lhe fora anunciado que faria. O pedido de bênção, logo em seguida, ganha então uma lógica de troca — eu forneço a vítima, vocês me incluem na oração.

Não é possível decidir entre as duas pelo hebraico, que só diz “conforme falaram”. O que se pode observar é que a segunda leitura explica melhor por que a frase está ali: se fosse apenas concordância, ela seria dispensável.

“e vão”

Duas sílabas, e é a palavra que Moisés vinha pedindo desde Êxodo 5:1.

Ela vem aqui no imperativo, dirigida a eles. Quem manda ir é o mesmo homem que, em Êxodo 5:2, tinha perguntado quem era o SENHOR para que ele obedecesse à voz dele. O Êxodo não comenta a distância entre as duas falas, e não precisa: elas estão no mesmo livro, na boca do mesmo homem, e a segunda faz exatamente o que a primeira recusava.

“e abençoem a mim também”

Aqui a frase muda de natureza. Tudo o que veio antes era administração: o que sai, quem sai, com o quê. Esta última parte não administra nada. É um pedido pessoal, no meio de uma ordem de Estado, e é a única coisa no versículo que Faraó pede para si.

Os comentaristas se dividem sobre o que exatamente está sendo pedido, e a divergência atravessa as tradições.

Primeira leitura: é um pedido para que o castigo pare. É a do Mekhilta (“medida”, em hebraico — o comentário rabínico antigo ao Êxodo, compilado por volta do século III), que glosa a frase assim: rezem para que esta calamidade se afaste de mim. Ramban (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) cita essa leitura e acrescenta a sua, muito próxima: que o abençoem a ele e ao reino dele, porque a bênção dirigida a um rei inclui a paz do reino inteiro.

Segunda leitura: é um homem com medo de morrer naquela noite. É a de Rashi, e ele dá o motivo em quatro palavras: “porque eu sou primogênito”. O Targum atribuído a Jônatas (a paráfrase aramaica do Pentateuco, conservada em manuscrito único) vai na mesma direção e é ainda mais direto — Faraó diz que não pede nada senão que rezem por ele para que não morra. Nessa leitura, o rei que acaba de enterrar o filho está no grupo seguinte da lista, e sabe disso.

Terceira leitura: é um pedido de recuperação do país. É a de Or HaChaim (Chayim ben Attar, rabino marroquino do século XVIII): não basta que a praga cesse; o que se pede é que a bênção reponha o Egito de pé.

Quarta leitura: é uma fórmula de despedida. É a de Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX). Abençoar, em hebraico, cobre também o cumprimento de partida, e nesse caso Faraó estaria pedindo que não saíssem em silêncio — que a separação fosse selada com palavra boa.

Entre os comentaristas ingleses, o ponto de convergência não é o conteúdo do pedido, e sim o que ele revela. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) escreve que nenhuma palavra poderia mostrar mais claramente a submissão completa, ainda que temporária, de Faraó. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) diz que o rei chegou ao fundo da humilhação: implora o favor de uma bênção àqueles que desprezara e ameaçara. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) traduz sem rodeios — “orem por mim” — e alinha o motivo com Rashi: medo pela própria vida.

A palavra que ele não diz

Em Êxodo 10:17, no meio da praga dos gafanhotos, Faraó havia dito: “perdoe o meu pecado somente desta vez”. Aqui não há nada disso. Não há reconhecimento de culpa, não há promessa, não há sequer a menção do nome do SENHOR na parte final da frase — em Êxodo 12:31 ele ainda diz “vão servir ao SENHOR”, e no pedido de bênção o destinatário fica implícito.

O silêncio que fecha a cena

Quatro vezes, antes desta, Faraó pediu que Moisés suplicasse por ele: em Êxodo 8:8, em Êxodo 8:28, em Êxodo 9:28 e em Êxodo 10:17. Nas quatro, o Êxodo registra o que aconteceu depois — Moisés responde, sai, suplica, e a praga cessa.

Na quinta vez, não há registro nenhum. O versículo seguinte muda de assunto e vai para os egípcios apressando o povo. Moisés não responde, não recusa, não promete. O leitor nunca fica sabendo se Faraó foi abençoado.

O que está escrito, e é bastante: o homem que se perguntava quem era o SENHOR terminou pedindo para ser incluído no que vem do SENHOR — e pedindo isso aos escravos que ele não deixava sair.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

O Êxodo não dá o nome dele em nenhum momento, e neste versículo ele está num ponto que nenhuma das cenas anteriores tinha alcançado: é pai de um morto, é rei de um país em luto e está falando de madrugada, fora de qualquer protocolo de audiência.

Moisés e Arão

Estão em silêncio no versículo. São os destinatários da ordem e do pedido, e não há uma palavra deles nesta cena nem na seguinte. A última fala registrada de Moisés diante de Faraó está em Êxodo 11:8, e foi dita com ira.

Os rebanhos e o gado

Duas palavras distintas no hebraico. A primeira cobre o gado miúdo — ovelhas e cabras; a segunda, o gado grande — bois e vacas. Juntas, as duas formam a expressão comum para “todo o rebanho de uma casa”.

O lugar e a hora

O versículo anterior diz “de noite”, e não diz mais nada. Onde a conversa aconteceu, o Êxodo não informa: se no palácio, se na rua, se em algum ponto entre um e outro. A tradição rabínica preencheu a lacuna com a imagem de Faraó percorrendo o Egito à procura dos dois, e é preenchimento, não dado do texto.

O evento

O que está acontecendo é o fim da negociação mais longa do livro. Ela começou em Êxodo 5:1 com um pedido de três dias no deserto, passou por oito ofertas parciais e termina aqui, com a liberação total e sem condição — mais um pedido pessoal que não estava previsto em nenhuma das rodadas anteriores.

5. Pontos de Ensino

A concessão completa veio depois da perda, não antes

Nove desastres não produziram esta frase. Faraó cedeu por partes enquanto a conta era pública — o país, a lavoura, o gado, o rio — e cedeu por inteiro quando a conta chegou à casa dele. O texto mostra isso sem comentar, e mostrar é o que ele faz: registra a sequência e deixa a sequência falar.

Cedeu tudo e não mudou de ideia

São duas coisas distintas, e a linguagem religiosa costuma confundi-las. Aqui há rendição — o homem para de resistir. Não há arrependimento: não há confissão, não há reparação, não há promessa. Dois capítulos adiante, em Êxodo 14:5, ele vai mandar o exército atrás deles. A rendição de quem apanhou não é a mesma coisa que uma decisão nova.

Pedir bênção não é o mesmo que reconhecer autoridade

Faraó quer o benefício sem a relação. Ele pede que o incluam no que aquele Deus dá, sem uma linha sobre servi-lo, sem devolver nada e sem admitir o que fez. É uma posição perfeitamente humana e o texto não a ridiculariza — apenas a registra, e a registra como a última palavra dele.

Quem está embaixo pode ter o que quem está em cima não tem

Dois homens sem cargo, sem tropa e sem propriedade no Egito são procurados de madrugada pelo rei, que lhes pede alguma coisa. O que eles têm não é força — é acesso. É o inverso exato da relação com que o livro começou, e o inverso aconteceu dentro de uma noite.

6. Aspectos Filosóficos

De onde vinha a força de um homem que agora pede favor?

A cena tem um problema que não é religioso. Um homem mandou num país inteiro por anos, decidiu sobre a vida e o trabalho de uma população inteira, e numa noite está pedindo alguma coisa a dois membros dessa população. Nada na força física dele mudou: ele continua tendo exército, palácio e administração. Mudou outra coisa — e a pergunta é o que era essa outra coisa.

O autor que formulou a pergunta assim

Étienne de La Boétie (1530-1563, magistrado e humanista francês, amigo de Montaigne) escreveu, provavelmente ainda muito jovem, um texto curto e insistente: o Discurso da servidão voluntária (Discours de la servitude volontaire, escrito por volta de 1548 e publicado depois da morte dele). Ele não discute se o poder de um só é legítimo. Discute uma coisa anterior e mais estranha: por que ele funciona.

O espanto dele é aritmético. O tirano é um homem: tem dois olhos, duas mãos, um corpo — e só tem, para mandar, as mãos que os próprios súditos lhe emprestam. Os olhos com que vigia são os deles; as armas com que fere saíram da casa deles.

Daí a tese que dá nome ao texto: a servidão não é arrancada, é entregue. Não se trata de dizer que os oprimidos merecem a opressão — La Boétie não faz esse movimento, e é importante não colocá-lo na boca dele. O que ele sustenta é que a máquina do poder de um só é feita de matéria alheia, e por isso é muito mais frágil do que parece de fora.

E ele extrai dessa análise uma consequência prática que é o centro do texto: não é preciso derrubar o tirano. Basta parar de sustentá-lo. “Resolvei não servir mais, e estareis livres” — não porque alguém o empurre, mas porque, sem a base emprestada, ele cai por si.

Onde isso ilumina o versículo

A leitura de La Boétie explica por que a frase de Faraó é possível sem que nada de material tenha mudado.

Durante o livro inteiro, o rei operou com o que lhe era emprestado: o trabalho de Israel, a obediência dos funcionários, a suposição geral de que o que ele decide acontece. O Êxodo já havia mostrado duas dessas camadas cedendo — os servos falando contra ele em Êxodo 10:7, e a estima crescente por Moisés dentro da própria corte, assunto tratado no estudo de Êxodo 11:3. No versículo de agora cede a última: o rei deixa de decidir e passa a pedir.

O pedido de bênção é a forma mais pura disso. É a demanda de uma coisa que não se pode tomar. Rebanho se confisca, trabalho se impõe, saída se proíbe — bênção, não. Ela tem de ser dada por quem a dá, e por isso o homem que podia tudo dentro do país está, nesta frase, inteiramente nas mãos de quem ele mandava.

A comparação tem um limite claro, e melhor marcá-lo do que forçar a analogia.

Onde a comparação para

No Discurso, a mudança vem de baixo: os súditos deixam de consentir e a estrutura desmorona. No Êxodo, os hebreus não fazem nada disso — no capítulo 5 tinham feito o contrário, culpando Moisés pelo agravamento do trabalho. O que quebra o arranjo vem de fora dos dois lados. La Boétie ajuda a ver em que consistia o poder que se perdeu; não explica por que se perdeu.

O guarda-corpo

La Boétie escrevia sobre a França do século XVI e sobre a tirania em geral; não conhecia este versículo como problema e não está comentando a Bíblia. O texto do Êxodo, por sua vez, não faz teoria política: não explica de onde vinha a autoridade de Faraó, não descreve a estrutura do Estado egípcio e não diz uma palavra sobre consentimento. A aproximação serve para ver melhor a frase que está escrita, e não autoriza atribuir ao Êxodo uma tese que ele não formula.

7. Aplicações Práticas

Quando alguém que o prejudicou pede alguma coisa

A situação do versículo acontece na vida com frequência: quem tinha poder sobre você perde esse poder e, em vez de reparar o que fez, pede um favor. Chefe que demitiu mal e depois quer uma indicação. Parente que sumiu na hora difícil e reaparece precisando. Sócio que quebrou a confiança e agora quer uma referência.

Ceder sob pressão não é mudar de posição

Há um uso prático imediato disso, e ele vale tanto para quem cede quanto para quem recebe a cessão.

Quando alguém concorda com tudo no auge de uma crise, o que você obteve foi o fim da resistência naquele momento — não um acordo novo. Faraó libera tudo nesta noite e manda o exército atrás em Êxodo 14:5. Em negociação, em conflito de família, em conversa de trabalho, a diferença prática é grande: o que se combina sob pressão máxima precisa ser reconfirmado depois, com a pressão fora da sala. Não por desconfiança sistemática — por realismo sobre como decisões sob choque costumam se comportar.

O que a cena mostra é outra coisa, e é sobre quem recebe o pedido: você pode estar na posição mais baixa da relação e ainda assim ser o único que tem o que o outro precisa. Reconhecer isso muda a maneira de responder — não para cobrar caro, mas para não responder a partir do lugar antigo, que já não é o lugar real.

Um limite deste item

A cena não ensina a perdoar nem a recusar, porque o texto não registra o que Moisés fez. Quem tirar daqui uma regra de conduta estará tirando de um silêncio. O que ela dá, e dá bem, é a leitura correta da situação — e boa parte dos erros práticos, nesse tipo de encontro, é de leitura, não de decisão.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Faraó era primogênito?

O Êxodo não diz. A afirmação vem de Rashi e do Targum de Jônatas, que fazem dela a explicação do pedido: rezem para que eu não morra, porque eu sou primogênito.

Há um dado do próprio texto que a tradição usa como apoio indireto: em Êxodo 12:29 morrem os primogênitos “desde o primogênito de Faraó, que se assentava no seu trono” — a lista começa no filho do rei, e não no rei. Quem lê assim conclui que o rei ficou de fora de uma lista em que, pela idade, poderia estar.

Mas a conclusão não é necessária. Nada garante que todo rei do Egito fosse o filho mais velho do antecessor, e o Êxodo não se interessa pela questão. A resposta honesta é que não há como decidir, e que a leitura de Rashi é uma explicação proposta, não um dado recuperado.

Por que ele pede a Moisés e Arão, e não a Deus?

Porque é o que ele vinha fazendo o tempo todo. Nas quatro vezes anteriores, Faraó não rezou: pediu que Moisés rezasse. A relação dele com o Deus de Israel sempre foi mediada, e continua mediada aqui.

Por que o Êxodo não conta se ele foi abençoado?

Essa é a pergunta que o versículo deixa realmente aberta, e não há resposta dentro do livro.

O que se pode dizer é o seguinte. O Êxodo registra, com cuidado, cada uma das intercessões anteriores — inclusive o momento em que Moisés sai da cidade para orar. Aqui ele interrompe a sequência. Se a interrupção é intencional ou se é apenas o texto acompanhando a pressa da noite, não é possível determinar. Quem afirma qualquer um dos dois está acrescentando.

Se Deus já havia decidido tirar Israel, por que a permissão de Faraó importa?

É uma pergunta legítima, e o próprio livro a torna aguda: se o desfecho estava anunciado desde Êxodo 3:20, a fala do rei é irrelevante?

Pelo que o texto mostra, não. Ele se dá ao trabalho de registrar cada rodada da negociação, cada oferta parcial e cada recusa. Uma narrativa que considerasse a vontade do rei irrelevante não teria gasto sete capítulos com ela. A tensão entre o resultado anunciado e a decisão humana atravessa o Êxodo inteiro e não se resolve neste versículo — ele apenas a exibe mais uma vez, e de modo especialmente cru, porque aqui o homem que decidiu não sair do lugar termina pedindo favor.

9. Conexão com Outros Textos

A outra vez em que um faraó é abençoado

Gênesis 47:7 — “Depois José trouxe Jacó, seu pai, e o apresentou diante de Faraó; e Jacó abençoou a Faraó.”

Um velho estrangeiro, recém-chegado do Delta por causa da fome, abençoa o rei do Egito sem que ninguém peça. Aqui, gerações depois, o rei do Egito pede. As duas cenas fecham um arco: no Gênesis a bênção é ofertada, no Êxodo é solicitada.

A pergunta que ele fez no começo

Êxodo 5:2 — “Mas Faraó respondeu: ‘Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.’”

Duas negativas numa frase só. É a primeira fala dele no livro; o pedido de bênção é a última dirigida a Moisés. Entre as duas não há nenhum registro de que ele tenha mudado de opinião sobre quem é o SENHOR — só o registro de que passou a pedir.

A condição que este versículo derruba

Êxodo 10:24 — “Faraó chamou Moisés e disse: ‘Vão, sirvam ao SENHOR. Somente os seus rebanhos e o seu gado ficarão; até as suas crianças podem ir com vocês.’”

A comparação palavra por palavra é instrutiva: as mesmas duas categorias de animais, na mesma ordem, com a decisão invertida.

O rei que contratou o contrário

Números 22:6 — “Vem pois agora, te rogo, amaldiçoa para mim este povo, porque é mais forte que eu: talvez poderei eu feri-lo, e lançá-lo da terra: que eu sei que o que tu abençoares, será bendito, e o que tu amaldiçoares, será maldito.”

Balaque quer a maldição de Israel e manda buscá-la longe; Faraó quer a bênção de Israel e a pede na porta. Os dois reis partem do mesmo pressuposto sobre a eficácia da palavra dita, e os dois erram o alvo pelo mesmo motivo: tratam a bênção como serviço contratável.

O homem que exigiu bênção e não soltou

Gênesis 32:26 — “Então o homem disse: ‘Deixe-me ir, pois o dia já rompe.’ Mas Jacó respondeu: ‘Não o deixarei ir, a não ser que você me abençoe.’”

Duas cenas de madrugada, duas partidas iminentes, e em ambas alguém condiciona a saída a uma bênção. A inversão salta à vista: no Gênesis, quem segura é o que está embaixo, e quer bênção antes de soltar; no Êxodo, quem solta é o que está em cima, e quer bênção ao soltar.

Outro povo, outra praga, o mesmo movimento

1 Samuel 5:11 — “E enviaram a juntar todos os príncipes dos filisteus, dizendo: Despachai a arca do Deus de Israel, e torne-se a seu lugar, e não mate a mim nem a meu povo: porque havia tormento de morte em toda a cidade, e a mão de Deus se havia ali agravado.”

Os filisteus, com a arca em mãos e uma mortandade na cidade, fazem duas coisas: devolvem e mandam junto uma oferta. Em 1 Samuel 6:6 os próprios sacerdotes deles invocam o Egito como precedente — “por que endureceis vosso coração, como os egípcios e Faraó endureceram seu coração?”. O episódio do Êxodo já era, ali, história citada.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Levem também os seus rebanhos e o seu gado, como vocês disseram; e vão, e abençoem a mim também.”

Texto hebraico

גַּם־צֹאנְכֶם גַּם־בְּקַרְכֶם קְחוּ כַּאֲשֶׁר דִּבַּרְתֶּם וָלֵכוּ וּבֵרַכְתֶּם גַּם־אֹתִי׃

Transliteração

gam-tsonkhem gam-beqarkhem qechu ka-asher dibbartem wa-lekhu; u-verakhtem gam-oti.

Análise palavra por palavra

גַּם — gam, “também”.

Partícula de adição. Ela aparece três vezes num versículo de nove palavras, e essa densidade é o traço mais visível da frase no original: também o rebanho, também o gado, também eu.

A partícula acrescenta a uma lista que já existe. Nas duas primeiras vezes, a lista é a das pessoas liberadas no versículo anterior; os animais entram depois delas. Na terceira, a lista é a dos beneficiários da bênção, e o que Faraó acrescenta a ela é ele mesmo. O hebraico, portanto, constrói a frase inteira como uma série de acréscimos — e o último acréscimo é o rei.

Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentarista francês do século XII) observa que a ordem das palavras no fim é incomum e equivale a “e também abençoem a mim”. A observação é de sintaxe, mas tem efeito de leitura: o “também” está grudado no pronome, e não no verbo.

צֹאנְכֶם — tsonkhem, “os seus rebanhos”.

Tson é um coletivo: designa o gado miúdo — ovelhas e cabras juntas, sem distinguir. Não existe plural dele; a palavra já é o conjunto. O sufixo é de segunda pessoa masculina plural.

בְּקַרְכֶם — beqarkhem, “o seu gado”.

Baqar é o gado grande: bois, vacas, novilhos. Também é coletivo. A raiz tem parentesco com a ideia de fender, rachar — provavelmente pelo trabalho do arado, que abre o solo —, e o mesmo grupo de consoantes dá o verbo de examinar, de esquadrinhar. A conexão etimológica é discutida e não deve ser usada para tirar sentido do versículo.

O par tson e baqar é a fórmula fixa do hebraico para “todo o gado de alguém”. Quem diz os dois não deixou nada de fora.

קְחוּ — qechu, “tomem”.

Imperativo masculino plural da raiz laqach, tomar, pegar, receber. É um dos verbos mais correntes do hebraico e cobre desde pegar um objeto até tomar uma mulher em casamento.

כַּאֲשֶׁר דִּבַּרְתֶּם — ka-asher dibbartem, “como vocês disseram”.

Preposição de comparação mais o pronome relativo, seguidos do verbo dabar na forma intensiva, no passado, segunda pessoa masculina plural.

A construção “conforme falaram” é, em hebraico, uma fórmula de conformidade: aparece em contratos, em ordens e em relatos de cumprimento. Em Êxodo 12:31 ela fecha a frase anterior, e a repetição imediata aqui é notável — duas vezes em dois versículos, sempre com Faraó devolvendo a Moisés as palavras de Moisés.

וָלֵכוּ — wa-lekhu, “e vão”.

Conjunção mais o imperativo masculino plural de halakh, ir, andar, caminhar.

O que importa é a palavra em si. Lekhu, “vão”, é o imperativo que Moisés vinha tentando ouvir desde Êxodo 5:1. Ele já aparecera na boca de Faraó em ofertas parciais — em Êxodo 10:24, por exemplo, com a condição dos animais colada logo depois. Aqui vem sozinho, sem nada atrás.

וּבֵרַכְתֶּם — u-verakhtem, “e abençoem”.

Conjunção mais a raiz barakh na forma intensiva, no passado, segunda pessoa masculina plural. O passado com a conjunção, nessa posição da frase, herda a força do imperativo anterior: funciona como ordem ou pedido, e não como relato. Or HaChaim marca exatamente isso — a forma é de passado, o sentido é de desejo.

O campo da raiz é largo e importa aqui. Barakh cobre três usos distintos:

Primeiro, o ato de conferir bem. É Deus abençoando a criação em Gênesis 1:22, ou o pai abençoando o filho em Gênesis 27. O que se transmite é prosperidade, fertilidade, permanência.

Segundo, o louvor dirigido a Deus. “Bendito seja o SENHOR” usa a mesma raiz, invertendo a direção: aqui quem abençoa é a pessoa, e o destinatário é Deus.

Terceiro, o cumprimento. A raiz serve para saudar ao chegar e para se despedir ao partir — e é desse uso que Keil e Delitzsch tiram a leitura da frase como fórmula de adeus. O hebraico não distingue por palavra o “abençoe-me” do “despeça-se de mim”; distingue pelo contexto, e este contexto admite os dois.

אֹתִי — oti, “a mim”.

Marcador de objeto direto com sufixo de primeira pessoa singular. O hebraico marca o objeto definido com uma partícula própria, sem tradução em português, e aqui ela carrega o pronome.

A palavra final do versículo é, portanto, o próprio Faraó. A frase que começou liberando rebanhos termina em “eu”. E é a última palavra que ele dirige a Moisés no livro.

As versões antigas

A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) traz eulogēsate de kame, “e abençoem também a mim”, e encurta o começo do versículo, deixando cair o “como vocês disseram”.

A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) traz abeuntes benedicite mihi, “ao irem, abençoem a mim”, prendendo o pedido ao momento da partida — o que aproxima Jerônimo da leitura de despedida.

Ônquelos (a tradução aramaica da Torá, lida na sinagoga ao lado do hebraico) traduz o verbo por “rezem por mim” — isto é, interpreta em vez de verter, e fixa a leitura de intercessão. Foi essa escolha que consolidou, entre os comentaristas judeus, o entendimento de que o pedido é de oração.

11. Conclusão

Do que foi examinado, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é sobre o que terminou aqui. A negociação que atravessa sete capítulos do Êxodo não acabou em acordo nem em convencimento: acabou com o lado que impunha condições desistindo de todas elas de uma vez, numa frase de nove palavras, depois de uma perda dentro de casa. E a desistência não veio com mudança de posição — o mesmo homem mandará o exército atrás. Rendição e conversão são coisas distintas, e o texto mostra a primeira sem sugerir a segunda.

A segunda é sobre a natureza do que ele pede. Tudo o que Faraó controlava no Egito podia ser tomado, imposto ou retido. A bênção não. Ao pedi-la, ele põe a única coisa que ainda queria fora do alcance do seu poder e dentro do alcance de dois homens sem nenhum poder ali. A inversão que o livro vinha construindo desde o começo se completa não quando Israel sai, mas quando o rei pede.

A terceira é sobre o que o versículo não entrega. As leituras do pedido são muitas e boas — parar o castigo, salvar a própria vida, recuperar o país, despedir-se, entrar na festa —, e nenhuma delas se impõe sobre as outras pelo hebraico. Some-se a isso o silêncio que vem depois: não se sabe o que Moisés respondeu, nem se respondeu. O Êxodo encerra a fala mais longa de Faraó deixando em aberto tanto o que ele queria quanto o que recebeu, e ler o versículo com honestidade é sustentar essas duas lacunas em vez de preenchê-las.

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📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%