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Êxodo 10:17

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 20 acessos
Agora, perdoe o meu pecado somente desta vez, e supliquem ao SENHOR, o seu Deus, que tire de mim somente esta morte.”
Faraó pede a Moisés e Arão que intercedam pelo Egito depois da praga dos gafanhotos, com os campos arrasados ao fundo.

Estudo


Agora, perdoe o meu pecado somente desta vez, e supliquem ao SENHOR, o seu Deus, que tire de mim somente esta morte.”

1. Introdução

Confessada a falta, o rei faz o pedido — e o pedido é medido palavra por palavra.

Ele quer perdão somente desta vez, e quer que Deus tire somente esta morte. Duas restrições numa frase só.

Chama a praga de "morte", e é a primeira vez em toda a série que uma praga recebe esse nome. E pede que a tirem de mim: o povo do Egito, que ele havia incluído nos pedidos anteriores, sai da frase.

Há ainda um detalhe que o hebraico guarda e as traduções desfazem: o "perdoe" está no singular e o "supliquem", no plural.

2. Contexto Histórico e Cultural

Chamar o desastre de "morte"

O rei não diz "tire estes gafanhotos". Diz "tire esta morte", e a escolha não é invenção dele: era assim que se falava naquele mundo.

Na Mesopotâmia, a palavra corrente para epidemia era mūtānu — formada sobre mūtu, "morte", numa forma que se pode verter por "as mortes" ou "a coisa mortífera". Ninguém descrevia a doença; nomeava-se o resultado dela. É o mesmo movimento que Faraó faz aqui: a praga é chamada pelo que ela vai produzir.

Os arquivos de Mari, no Eufrates, do século XVIII a.C., mostram como isso funcionava na prática. Numa carta, o rei Zimri-Lim escreve à rainha Shibtu a respeito de uma mulher doente no palácio que não se recolhia aos seus aposentos, e dá ordem expressa: ninguém beba do copo que ela usa, ninguém se sente no assento que ela ocupa, ninguém se deite na cama dela, para que as muitas mulheres que estão com ela não sejam atingidas. Noutra, um enviado avisa que o distrito do norte foi ferido e pede que o rei proíba os moradores das cidades atingidas de entrar nas que não foram.

Repare no que essas cartas têm em comum com a fala deste versículo: em nenhuma delas se descreve a coisa; em todas se fala do que ela faz. É o vocabulário de quem mede um desastre pelo número de mortos.

O mesmo hábito está no hebraico. Em Jeremias 15:2 as pessoas são repartidas entre "os que são para a morte, para a morte; os que são para a espada, para a espada; os que são para a fome, para a fome" — e "morte", ali, é um dos itens ao lado da espada e da fome, o que só faz sentido se a palavra designar a peste.

O que vinha depois de um enxame

A palavra do rei tem, além disso, uma base material.

Um enxame de gafanhotos não mata ninguém no dia em que chega. Ele come e vai embora — e é no ano seguinte que o estrago aparece. Perde-se a colheita em pé, perde-se o pasto do gado e perde-se, em parte, o que estava reservado para semear. Entre a destruição e a fome há um intervalo de meses, e é esse intervalo que separa a praga da morte que ela produz.

No Egito, o intervalo tinha um agravante próprio. O calendário agrícola do país era rígido: a cheia, a semeadura e a colheita aconteciam em janelas fixas, e uma safra perdida não podia ser refeita fora da sua janela. Quem perdia a colheita do ano não plantava de novo em três semanas — esperava a cheia seguinte.

Some-se a isso o que o capítulo anterior já tinha tirado. O granizo destruiu o linho e a cevada (Êxodo 9:31); os gafanhotos comeram o que restava, inclusive o fruto das árvores (Êxodo 10:15). A reserva do Estado atenderia a capital e os templos; o resto do país dependia do que tinha no campo.

Então a palavra do rei não é figura de linguagem. Ele nomeia o que estava por vir, e nomeia com o termo que a diplomacia e a administração do Antigo Oriente usavam para isso.

Há um limite, porque a tentação de explicar a praga por aí é grande. Nada disso diz o que aconteceu no Egito: não há documento egípcio do episódio, e a discussão sobre as causas naturais da série está no estudo de Êxodo 8:24. O que o fundo histórico esclarece é outra coisa — por que a palavra escolhida é "morte", e por que ela não soaria exagerada a quem ouvia.

3. Análise Teológica do Versículo

"Agora"

A palavra marca a virada. Até aqui o rei falava do que tinha feito; a partir dela, fala do que quer.

Em hebraico essa ligação tem função reconhecível: depois de expor uma situação, "e agora" introduz o pedido que decorre dela. A confissão do versículo anterior não ficou solta — ela é o argumento, e este versículo é a petição. Quem confessa e para deixa a confissão valendo por si; quem confessa e emenda um "agora" transformou a confissão em base de um requerimento.

"perdoe o meu pecado somente desta vez"

Três coisas estão apertadas nesta frase curta, e é preciso separá-las.

A primeira: o perdão é pedido a um homem. Quem deve perdoar, aqui, não é Deus. O verbo está dirigido a quem está na frente do rei — e é a Deus que se pede, na frase seguinte, apenas que retire a praga. As duas coisas estão separadas: o perdão de um lado, a retirada do outro.

Há duas maneiras de entender isso. Numa, o rei está sendo coerente com o que disse no versículo 16: pecou contra os dois homens, e é a eles que cabe perdoar essa parte. Noutra, ele está apenas usando uma fórmula de cortesia, do tipo "desculpe", sem carga religiosa nenhuma. O hebraico admite as duas, e não é possível decidir.

A segunda: "somente desta vez". A restrição é dele, não do interlocutor: ninguém ofereceu um perdão limitado, foi o rei que veio pedindo um. E a limitação admite, sem querer, que existiram outras vezes — das quais ele não está tratando. Em Êxodo 9:27 ele já dissera "desta vez pequei"; nas duas ocasiões a expressão isola um episódio do resto.

A terceira: não se diz qual pecado. "O meu pecado", no singular e com artigo, como se fosse um só e como se os dois lados soubessem qual. É coerente com o versículo anterior, que nomeou os ofendidos sem dizer o que fez contra eles.

"e supliquem ao SENHOR, o seu Deus"

Pela terceira vez no livro o rei pede oração a Moisés. Pediu em Êxodo 8:8, por causa das rãs; pediu em Êxodo 8:28, e ali com uma frase seca — "supliquem por mim"; pediu em Êxodo 9:28, por causa do granizo. Agora pede de novo.

O padrão é estável e diz alguma coisa sobre a posição dele: o rei do Egito, que era a ponte entre o país e os deuses, não se dirige ao SENHOR em nenhum momento do livro. Ele sempre pede que outros o façam. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) leu nisso o sinal de que Faraó queria o alívio e não queria o Deus que o daria — leitura possível, mas que atribui ao rei uma intenção que o texto não registra. O dado seguro é o comportamento: quatro pedidos de intercessão, nenhuma oração própria.

"O seu Deus" volta aqui, de vocês, pela segunda vez em dois versículos.

"que tire de mim"

Esta é a mudança mais concreta do versículo, e ela passa despercebida em português.

Em Êxodo 8:8 o rei pediu que as rãs fossem tiradas "de mim e do meu povo". Aqui ele pede que a morte seja tirada de mim, e para. O Egito não aparece.

Junte-se isso ao versículo anterior. Em Êxodo 9:27 ele tinha dito "eu e o meu povo somos os culpados"; em Êxodo 10:16, "pequei", sozinho. Agora, "tire de mim", sozinho outra vez. O povo saiu da culpa e saiu do alívio.

Primeira leitura: é a fala normal de um rei antigo. O soberano fala pelo país, e "de mim" já incluiria o Egito inteiro. Segunda leitura: é encolhimento. O rei que repartia culpa e alívio com o povo agora fala só de si — e isso no mesmo capítulo em que os servos dele disseram que o Egito estava perdido (Êxodo 10:7). A primeira é a mais econômica e provavelmente a certa; a segunda tem a seu favor que o rei tinha o hábito de mencionar o povo e deixou de mencioná-lo. Não é possível decidir.

"somente esta morte"

É a segunda restrição do versículo. A primeira limitou o perdão a uma vez; esta limita o pedido a uma praga.

A frase é modesta a ponto de ser estranha: o rei não pede que as pragas acabem, não pede paz, não pede reconciliação. Pede que esta seja retirada. Em Êxodo 9:28 ele tinha ido um pouco além — "já basta de trovões de Deus e de granizo".

Quanto à palavra "morte", ela é nova na série. Nenhuma praga anterior recebeu esse nome, nem as rãs, nem os insetos, nem a peste do gado, nem o granizo — embora o granizo tenha matado gente, conforme Êxodo 9:25. Chamar de morte justamente a praga que não matou ninguém pede explicação, e ela é simples: os gafanhotos não mataram, mas comeram tudo o que havia para comer.

Os comentaristas convergem nesse ponto, e é raro que convirjam. Ellicott vê a ameaça de morte para os pobres; Poole (Matthew Poole, comentarista inglês do século XVII) fala da praga mortal que destrói plantas, animais e homens pela fome; Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) dizem que o rei chamou os gafanhotos de "morte" por trazerem ruína ao país. Todos leem a mesma coisa: a palavra aponta para a fome que vem depois.

O que continua faltando

Pela segunda vez, o rei não promete nada.

Em Êxodo 8:8 ele prometeu deixar o povo ir. Em Êxodo 8:28, de novo. Em Êxodo 9:28, de novo, e com ênfase. Neste episódio, a negociação chega ao fim sem que uma única promessa seja feita — e Moisés atende assim mesmo, no versículo seguinte.

O Pulpit Commentary notou o ponto do lado de Moisés: ele cedeu embora Faraó, desta vez, não tivesse feito promessa nenhuma de soltar o povo. A observação é exata, e a consequência é que este episódio quebra o padrão dos anteriores em dois lugares — não há promessa, e não há resposta de Moisés.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem pede e a quem se pede

Faraó fala com dois homens e trata os dois de modo diferente dentro da mesma frase. O perdão é pedido no singular; a oração, no plural. Quem quer que seja o destinatário do "perdoe", o pedido de intercessão é dirigido aos dois juntos.

O padrão do livro ajuda a entender o arranjo. Quando há fala, é Moisés quem fala (Êxodo 9:29-30; 10:9; 10:25-26). Quando há oração, é Moisés quem ora (Êxodo 8:12; 8:30; 9:33). Arão é convocado, tratado e incluído — e não age.

O Egito que não é mencionado

O país inteiro está no cenário desta cena e fora da fala do rei.

Os servos de Faraó já tinham dito, em Êxodo 10:7, que o Egito estava perdido. O texto registrou, em Êxodo 10:15, que não ficou nada verde em toda a terra. E o pedido do rei é que a morte seja tirada dele.

Vale não forçar a leitura: no vocabulário político antigo, o rei fala pelo reino, e "de mim" pode valer por "de nós". O que se pode registrar com segurança é a diferença em relação a Êxodo 8:8, onde o mesmo rei disse "de mim e do meu povo".

O que o rei chama de "esta morte"

São os gafanhotos do versículo 13, trazidos pelo vento oriental, e o estado em que deixaram o país: nada verde nas árvores nem na erva do campo, em toda a terra do Egito.

Nenhuma morte humana é relatada no episódio. A palavra do rei aponta para a frente, não para trás.

A série de pedidos de intercessão

Este é o quarto. Nas rãs (Êxodo 8:8), o rei pediu oração, incluiu o povo no alívio e prometeu soltar Israel. Nos insetos (Êxodo 8:28), prometeu com uma condição e pediu em duas palavras. No granizo (Êxodo 9:28), pediu e reforçou a promessa: "vocês não ficarão mais aqui".

Aqui: perdão, pedido de oração, uma praga, nenhuma promessa. Os quatro são parecidos na forma; o que muda é o que o rei oferece — e neste ele não oferece nada.

5. Pontos de Ensino

Um pedido de perdão pode vir com cláusulas

"Somente desta vez" e "somente esta morte" são limites que o próprio requerente estabelece. Ele não pede perdão: pede um perdão de escopo definido, e o define antes que alguém pergunte.

Quem faz isso está protegendo alguma coisa. O que Faraó protege é o que não entrou na frase — todas as outras vezes, e todo o resto da disputa.

Pedir que outro reze não é rezar

O rei do Egito pede oração quatro vezes e nunca ora. É um dado do texto, não uma acusação. E o que sai daqui é uma distinção, não uma regra: pedir intercessão é uma coisa, dirigir-se a Deus é outra, e no caso deste rei o texto só mostra a primeira.

Nomear o desastre pelo que ele vai causar

Chamar os gafanhotos de "morte" é enxergar meses adiante: ninguém morreu, e o rei já sabe o que vem. É a parte mais lúcida da fala dele.

E é um aviso ao leitor apressado, que costuma medir um estrago pelo que se vê no dia. O que estava na plantação do Egito naquela tarde era folha comida; o que estava marcado para o ano seguinte era fome.

Reconhecer a causa não é o mesmo que mudar de rumo

Faraó identifica corretamente três coisas: contra quem pecou, quem pode fazer a praga cessar e o que a praga vai produzir. Nenhuma delas o leva a soltar o povo.

O capítulo mostra, sem dizer, que diagnóstico e decisão são coisas separadas. É possível ver com clareza e continuar exatamente onde se estava.

Atender sem receber garantia

Moisés sai e ora depois de um pedido que não veio acompanhado de promessa nenhuma. Ele não negocia, não exige e não faz condições.

Não é ingenuidade: ele já ouvira, e desmentira, promessas anteriores, e disse em Êxodo 9:30 que não acreditava no rei. Atender aqui é uma escolha feita com os olhos abertos — o que é diferente de atender por não enxergar.

6. Aspectos Filosóficos

Quem pode perdoar uma ofensa?

O rei pede perdão a um homem e pede a Deus outra coisa: que a praga saia. A frase separa dois atos que a linguagem religiosa costuma juntar, e essa separação levanta um problema antigo.

Se alguém me prejudica, quem tem autoridade para perdoar? A resposta que parece óbvia é: eu, o prejudicado. Mas ela desmonta depressa quando se olha de perto.

O caso simples: o dano atingiu uma pessoa só, e ela está viva. Perdoar é ela desistir de cobrar, e ninguém mais tem o que dizer.

O caso difícil: o dano atingiu muita gente, e nem todos estão presentes. Moisés e Arão podem perdoar o que lhes foi feito; não podem perdoar em nome dos que carregaram tijolo. A ofensa deste rei tem mais vítimas do que as duas que estão na sala, e nenhuma das outras foi chamada.

O caso impossível: o dano atingiu quem já morreu. Aí não existe quem perdoe.

O pedido do versículo fica entre o primeiro caso e o segundo, e o Êxodo não o resolve: ninguém responde "está perdoado".

O perdão condicionado por quem o pede

O rei não pede perdão; pede perdão desta vez. Quem estabelece a cláusula é o devedor, não o credor — e isso inverte a estrutura normal da coisa. Num pedido de perdão, quem define os termos é quem foi lesado: ele pode perdoar tudo, parte, ou nada. Quando o requerente chega com o escopo já recortado, está propondo um acordo, em que se reconhece uma parte da dívida para que o restante não seja discutido.

Não há nada de escandaloso nisso; é como se negocia. O que há é uma diferença de natureza que a palavra "perdão" encobre, e que vale manter à vista: perdoar é renunciar a uma cobrança; acordar é definir o tamanho dela.

O pedido de alívio e o pedido de mudança

Resta a pergunta que este versículo formula melhor do que qualquer outro do capítulo: o que exatamente se está pedindo quando se pede que uma dor pare?

Quem sofre um golpe quer duas coisas que não são a mesma: que o golpe cesse, o que é um pedido sobre o presente; e que a relação que produziu o golpe mude, o que é um pedido sobre o futuro. Faraó pede a primeira com todas as letras e não pede a segunda em nenhuma — a frase dele é esta vez, esta morte, de mim.

Há quem trate isso como defeito moral. Convém resistir a essa pressa, porque quase todo pedido humano feito sob dor tem essa forma: quem está debaixo do peso pede que o peso saia, e pensar em como reorganizar a vida depois é atividade de quem já respira. O que o capítulo mostra não é que o rei pediu errado — é que, uma vez aliviado, ele não passou ao segundo pedido.

7. Aplicações Práticas

Quando o pedido vem com o tamanho já marcado

"Somente desta vez" e "somente esta morte" são as duas cláusulas do rei, e quem já recebeu um pedido assim reconhece a forma: a pessoa admite uma parte e delimita a admissão antes que alguém pergunte pelo resto.

A aplicação prática não é desconfiar de quem faz isso. É notar o que ficou de fora, porque é lá que a conversa vai voltar. O rei do Egito deixou fora todas as outras vezes — e o capítulo seguinte mostra que era exatamente ali que estava o problema.

Pedir que alguém faça por você o que você não faz

Este é o quarto pedido de oração do rei, e ele nunca reza.

A aplicação é mais desconfortável do que parece: buscar a intervenção de quem tem acesso e não querer o acesso é comportamento comum, e não é necessariamente hipócrita — muita gente pede oração porque acredita que a de outro vale mais. O que o texto permite dizer é só isto: o Êxodo registra os pedidos e não registra nenhuma oração do rei.

Medir o estrago pelo que vem depois

A parte mais aproveitável da fala de Faraó é o diagnóstico. Ele olha para uma plantação comida e enxerga fome; ninguém tinha morrido, e ele chama a coisa de morte.

Isso se aplica a qualquer perda que não se sente no dia em que acontece: uma conta que só vai vencer, uma ruptura cujo efeito aparece meses depois. Medir um problema pelo tamanho do susto de hoje é o erro que o rei, ao menos aqui, não comete.

Ajudar quem não deu nenhuma garantia

Moisés recebe um pedido sem promessa e atende. Não é modelo de conduta para toda situação: é uma escolha feita dentro de uma disputa específica, por alguém que já declarara não confiar no interlocutor (Êxodo 9:30) e que, mesmo assim, não usou o pedido como moeda.

A lição aproveitável é limitada e vale a pena: atender não obriga a acreditar. São duas decisões separadas, e confundi-las leva a dois erros contrários — recusar ajuda a quem não merece confiança, ou confiar em quem se resolveu ajudar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A quem o rei diz "perdoe"?

O verbo está no singular, e o hebraico não diz o nome. Duas saídas são defendidas.

Numa, ele se dirige a Moisés, que é quem fala e quem age em todo o episódio. Nessa leitura o versículo distingue os papéis: o perdão é assunto com Moisés, a oração é tarefa dos dois.

Noutra, o singular é apenas um jeito solto de falar com um grupo — coisa que acontece em hebraico e em português. Nessa leitura não há distinção nenhuma, e a troca de número não significa nada.

Não é possível decidir. O que se pode dizer com segurança é que o texto hebraico troca de número dentro da mesma frase, e que quase nenhuma tradução mostra isso.

Por que Moisés não responde?

Nas negociações anteriores ele respondia. Em Êxodo 8:9 perguntou ao rei quando deveria orar. Em Êxodo 8:26 explicou por que não daria para sacrificar no Egito. Em Êxodo 9:29-30 disse o que faria e acrescentou que não acreditava no rei.

Aqui não há uma palavra dele. O versículo seguinte o mostra saindo e orando, e é tudo.

O Êxodo não explica o silêncio. Ele apenas o registra, e o registro é mais notável porque o padrão anterior criava a expectativa da resposta.

Por que "morte", se ninguém morreu?

Porque a palavra aponta para a frente. Um enxame não mata no dia em que chega; ele destrói o alimento do ano.

Há também a possibilidade de a palavra estar sendo usada com força de exagero — "isto é a morte" no sentido em que hoje se diria "isto é o fim". O hebraico admite esse uso, e não é possível separar as duas coisas com certeza. O que pesa a favor da leitura literal é que o termo tinha, naquele mundo, emprego técnico para calamidade.

O pedido deste versículo é menor que o de Êxodo 9:28?

Em extensão, sim. Lá o rei disse "já basta de trovões de Deus e de granizo" e prometeu soltar o povo. Aqui ele pede uma praga e não promete nada.

Em precisão, não. Este é o único pedido da série em que o rei nomeia a falta, nomeia os ofendidos e nomeia o que a praga vai produzir. É mais curto e mais exato ao mesmo tempo.

9. Conexão com Outros Textos

O primeiro pedido de intercessão do mesmo rei

Êxodo 8:8 — "Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: 'Supliquem ao SENHOR que tire as rãs de mim e do meu povo, e eu deixarei o povo ir, para que ofereça sacrifícios ao SENHOR.'"

Ponha os dois lado a lado e a diferença aparece em duas peças: lá o alívio é pedido "de mim e do meu povo"; aqui, só "de mim". E lá há a promessa que aqui não existe.

O pedido que veio com uma condição

Êxodo 8:28 — "Faraó disse: 'Eu deixarei vocês irem, para que ofereçam sacrifícios ao SENHOR, o seu Deus, no deserto; somente não vão longe demais. Supliquem por mim.'"

Aquele "somente" é irmão dos dois deste versículo. O rei tem o hábito de conceder e recortar a concessão na mesma frase.

O pedido do granizo

Êxodo 9:28 — "Supliquem ao SENHOR: já basta de trovões de Deus e de granizo. Eu deixarei vocês irem, e vocês não ficarão mais aqui."

É o pedido mais largo da série, e o único em que o rei diz que o povo não ficará mais. O deste versículo é o mais estreito.

Quem pede oração e já sabe o que quer ouvir

Jeremias 42:2 — "e disseram ao profeta Jeremias: Seja aceita, pedimos-te, a nossa súplica diante de ti, e roga ao SENHOR teu Deus, por nós, por todo este resto; porque de muitos temos ficado só uns poucos, assim como nos vêm os teus olhos."

A fórmula é a mesma — "roga ao SENHOR teu Deus" —, e o desfecho também: o pedido é atendido, a resposta chega, e quem pediu faz o contrário do que ouviu.

Outro rei que pede oração a um profeta que acabara de enfrentar

1 Reis 13:6 — "Então, respondeu o rei ao homem de Deus: Consegue o favor do SENHOR, teu Deus, e ora por mim, para que se me restitua a minha mão. Conseguiu o homem de Deus o favor do SENHOR, e a mão do rei se lhe restituiu e tornou-se como dantes era."

O paralelo é quase completo: "o SENHOR, teu Deus", o pedido de oração, o alívio concedido. Jeroboão também não muda de rumo depois de atendido.

Alguém que pede oração para escapar da consequência

Atos 8:24 — "Disse Simão: Rogai vós ao Senhor por mim, para que nada do que haveis dito venha sobre mim."

O pedido é pelo efeito, não pela causa. É a mesma armação da frase de Faraó, com o verbo no plural e dirigido a quem tinha acabado de repreendê-lo.

A intercessão que é dever, e não favor

1 Samuel 12:23 — "Quanto a mim, longe de mim o pecar eu contra o SENHOR, deixando de orar por vós. Eu vos instruirei no caminho bom e direito."

Samuel trata a intercessão como obrigação de quem ocupa a função — o que ajuda a explicar por que Moisés atende sem negociar coisa nenhuma, e sem que o pedido do rei traga contrapartida.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Agora, perdoe o meu pecado somente desta vez, e supliquem ao SENHOR, o seu Deus, que tire de mim somente esta morte.”

Texto hebraico

וְעַתָּה שָׂא נָא חַטָּאתִי אַךְ הַפַּעַם וְהַעְתִּירוּ לַיהוָה אֱלֹהֵיכֶם וְיָסֵר מֵעָלַי רַק אֶת־הַמָּוֶת הַזֶּה׃

Transliteração

we-atah sa na chatati akh ha-pa'am, we-ha'tiru la-YHWH Eloheikhem we-yaser me-alai raq et-ha-mawet ha-zeh.

Análise palavra por palavra

וְעַתָּה — we-atah, "e agora".

Conjunção mais advérbio de tempo. Em hebraico, esta ligação tem função fixa nos discursos: encerra a exposição e abre o pedido. Depois dela vem o que o falante quer.

שָׂא נָא — sa na, "levante, por favor".

Duas surpresas aqui, e as duas ficam invisíveis em português.

A primeira é o verbo. Nasa significa levantar, erguer, carregar — é o mesmo verbo de levantar os olhos, de erguer a cabeça e de carregar um fardo. Quando o objeto é uma falta, a imagem é a de retirar um peso de cima de alguém e levá-lo embora. Perdoar, em hebraico, é tirar dos ombros do outro e pôr nos seus.

É desse uso que sai a fórmula do perdão divino de Êxodo 34:7, examinada no estudo de Gênesis 50:17.

A segunda surpresa é o número. O imperativo está no singular — sa, dirigido a uma pessoa —, e o verbo seguinte, "supliquem", está no plural. Faraó fala com dois homens e troca de destinatário no meio da frase.

Na é a partícula de cortesia do hebraico, algo entre "por favor" e "peço", e costuma acompanhar pedidos feitos a quem não se tem direito de mandar.

חַטָּאתִי — chatati, "o meu pecado".

Cuidado com a semelhança, porque ela é total: as consoantes são exatamente as mesmas do verbo do versículo anterior — חטאתי nos dois casos. Só as vogais separam "eu pequei" de "a minha falta", e as vogais não eram escritas no texto antigo. Aqui é o substantivo chatta't com o sufixo de primeira pessoa.

O substantivo vem da mesma raiz de errar o alvo, e no resto da Bíblia cobre três coisas ao mesmo tempo: o ato falho, a culpa que dele resulta e o sacrifício que a resolve. Aqui é o primeiro sentido, no singular e definido — uma falta só, e sabida.

אַךְ הַפַּעַם — akh ha-pa'am, "somente desta vez".

Akh é uma das partículas restritivas do hebraico: "só", "apenas". Pa'am é palavra concreta antes de ser abstrata: significa passo, pisada, e daí "vez" — cada vez é uma pisada. É a expressão que o rei usou em Êxodo 9:27 e que Deus usara em Êxodo 9:14; aqui ela volta com a restrição colada na frente.

וְהַעְתִּירוּ — we-ha'tiru, "e supliquem".

Verbo atar na forma causativa do hebraico (o Hifil), imperativo, masculino plural. É o verbo que o Êxodo reserva para os pedidos de Faraó e para as orações de Moisés no ciclo das pragas: aparece em Êxodo 8:8, 8:9, 8:28, 8:29, 8:30, 9:28, e volta no versículo 18.

A raiz é discutida: em hebraico ela só ocorre no sentido de rogar e ser atendido, e há quem a aproxime de uma raiz semítica ligada a oferecer sacrifício ou queimar incenso — aproximação que outros consideram insegura. Não há consenso, e o sentido bíblico não depende disso.

A forma causativa tem efeito. Não é simplesmente "orem": é algo como "apresentem a súplica" — o verbo trata a oração como ato executado em nome de alguém, que é exatamente a situação.

לַיהוָה אֱלֹהֵיכֶם — la-YHWH Eloheikhem, "ao SENHOR, o Deus de vocês".

A mesma fórmula do versículo 16, com o sufixo de posse na segunda pessoa do masculino plural. Duas vezes em dois versículos, e nenhuma vez "o meu Deus".

וְיָסֵר מֵעָלַי — we-yaser me-alai, "e que tire de sobre mim".

Verbo sur, afastar-se, na forma causativa: fazer afastar, remover. O sujeito é o SENHOR.

A preposição composta me-al significa, ao pé da letra, "de cima de". A praga é tratada como algo que está pousado sobre alguém e precisa ser levantado dali — o que casa com a imagem do verbo nasa, no começo do versículo. As duas metades da frase usam a mesma figura: tirar um peso de cima.

E o sufixo é de primeira pessoa do singular: de cima de mim. Em Êxodo 8:8 o rei tinha dito mimmenni u-me-ammi, "de mim e do meu povo".

רַק אֶת־הַמָּוֶת הַזֶּה — raq et-ha-mawet ha-zeh, "somente esta morte".

Raq é a segunda partícula restritiva do versículo, sinônima de akh. Ter as duas na mesma frase é incomum, e o efeito é de insistência: o rei recorta o pedido duas vezes.

Mawet é a palavra hebraica comum para morte, e vem com artigo e demonstrativo: a morte, esta. Não é "uma morte" nem "morte" em geral — é aquela que está acontecendo.

Nenhuma outra praga do ciclo é chamada assim. As rãs são "as rãs" (Êxodo 8:8), o granizo é "granizo e trovões" (Êxodo 9:28); só os gafanhotos recebem nome de consequência.

A tradução grega antiga

A Septuaginta fez duas escolhas. Para "perdoe o meu pecado" ela pôs prosdexasthe mou ten hamartian — "acolham o meu pecado", com o verbo de receber, e no plural: o tradutor grego desfez a troca de número do hebraico e dirigiu tudo aos dois homens. E, em vez de "somente desta vez", escreveu eti nyn, "ainda agora" — o que muda o sentido de "só esta vez" para "mais esta vez".

São mudanças pequenas e nenhuma é erro grosseiro; mas as duas suavizam. O grego apaga a distinção entre os dois destinatários e apaga o recorte que o rei impôs ao perdão.

11. Conclusão

O pedido do rei é exato em tudo o que afirma e estreito em tudo o que abrange. Ele acerta a falta, acerta o destinatário e acerta o que a praga vai produzir — e recorta o pedido duas vezes, com "somente desta vez" e "somente esta morte".

Conclui-se disso que a estreiteza não é ignorância. O rei não pede pouco porque entende pouco; pede pouco porque decidiu quanto pedir. Quem estabelece o tamanho do perdão que quer receber está negociando, e negociar é outra coisa que pedir perdão.

Conclui-se também que a palavra "morte", nova na série, é o ponto mais lúcido da fala. Ninguém tinha morrido. O rei olha para folhas comidas e enxerga o ano seguinte, com o termo que o Antigo Oriente reservava para calamidade — e nenhuma praga anterior recebeu esse nome.

Há ainda uma conclusão que vem do que sumiu. O povo do Egito, que estava na culpa de Êxodo 9:27 e no alívio de Êxodo 8:8, não aparece nem numa coisa nem noutra. A fala do rei encolheu até caber nele.

E há o que o versículo não traz. Esta é a única negociação da série sem promessa de soltar o povo — e Moisés atende do mesmo jeito, sem responder uma palavra.

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Êxodo 10:17

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