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Êxodo 9:27

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 18 min de leitura·👁 21 acessos
Então Faraó mandou chamar Moisés e Arão e lhes disse: “Desta vez pequei. O SENHOR é o justo, e eu e o meu povo somos os culpados.
Rei egípcio de pé num salão escurecido pela tempestade, com granizo batendo nas janelas altas, falando a dois homens hebreus idosos diante dele.

Estudo


Então Faraó mandou chamar Moisés e Arão e lhes disse: “Desta vez pequei. O SENHOR é o justo, e eu e o meu povo somos os culpados.

1. Introdução

Pela primeira vez, o rei do Egito diz que errou.

Com o granizo ainda caindo, Faraó chama Moisés e Arão e fala em três frases de tribunal: "pequei", "o SENHOR é o justo", "eu e o meu povo somos os culpados". O homem que em Êxodo 5:2 perguntava "quem é o SENHOR?" agora o chama pelo nome e lhe dá razão. O texto registra as palavras e não diz se eram sinceras. O que o versículo põe diante do leitor é o valor de uma confissão feita debaixo da tempestade.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Pequei", dito a quem é mais forte

No mundo antigo, admitir culpa diante de um poder maior tinha uma função prática: fazer parar a punição.

O caso mais bem documentado está na própria Bíblia. Em 701 a.C., o exército assírio de Senaqueribe tomava as cidades fortificadas de Judá uma a uma. O rei Ezequias mandou uma mensagem ao rei da Assíria, que estava acampado diante de Laquis: "Pequei; retire-se de mim; o que você me impuser eu suportarei" (2 Reis 18:14). O verbo hebraico é o mesmo que Faraó usa aqui.

A frase de Ezequias não é arrependimento religioso. É a fórmula do vassalo que rompeu o compromisso com o seu senhor, reconhece a falta e aceita pagar para que o ataque termine. E ele pagou: o texto fala de trezentos talentos de prata e trinta de ouro.

O outro lado registrou o mesmo episódio. Os anais de Senaqueribe, gravados em prismas de argila de seis faces (um está no Museu Britânico, outro em Chicago, outro em Jerusalém), contam que o rei assírio trancou Ezequias em Jerusalém "como um pássaro na gaiola" e listam o tributo que chegou depois a Nínive: trinta talentos de ouro e oitocentos de prata, além de marfim, móveis e as filhas do rei. O ouro coincide com 2 Reis; a prata não. É discutido se a diferença vem de padrões diferentes de talento ou de exagero da propaganda assíria.

O verbo também tem parente na diplomacia. Nas cartas em acádio, a língua internacional daquele tempo, o verbo da mesma raiz (ḫaṭû, "falhar, ofender") aparece para a falta de um vassalo contra o rei a quem jurou lealdade. "Pecar", nesse uso, é quebrar uma obrigação com um superior — e confessá-lo é o primeiro passo de uma negociação.

O que isso esclarece na fala de Faraó

As falas dos v.27 e 28 têm exatamente essa sequência: reconhecer a falta ("pequei"), pedir que a pressão pare ("já basta") e oferecer uma contrapartida ("eu deixarei vocês irem"). É a estrutura da mensagem de Ezequias.

O paralelo não prova que Faraó mentia. Ezequias também não mentia: ele tinha de fato rompido com a Assíria. O paralelo mostra que essas palavras tinham um uso corrente fora da religião, e que um rei antigo sabia usá-las como instrumento.

O par "justo" e "culpado" vem do mesmo mundo: são os dois veredictos de uma causa, a parte que tem razão e a que não tem, como em Deuteronômio 25:1. O sentido de tribunal dessas palavras foi exposto no estudo de Êxodo 2:13, onde Moisés chama um hebreu de "culpado".

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Faraó mandou chamar Moisés e Arão"

O chamado acontece com a tempestade ainda em curso. A fala do versículo seguinte pede o fim dos trovões e do granizo, e a oração de Moisés só vem depois. A confissão, portanto, não é feita depois do alívio, como uma reflexão; é feita no meio da destruição.

Arão volta à cena. Nas conversas do fim do capítulo anterior só Moisés falava, e nas pragas deste capítulo Arão só aparece no gesto da fuligem (Êxodo 9:8-10). Faraó chama os dois, como fizera nas negociações de Êxodo 8:8 e 8:25.

"Desta vez pequei"

É a primeira confissão de culpa do rei em toda a série. Até aqui ele pediu, prometeu, negociou e voltou atrás. Nunca tinha dito que estava errado.

O "desta vez" responde a outro "desta vez". Em Êxodo 9:14 Deus tinha mandado dizer: "desta vez vou enviar todas as minhas pragas ao seu coração". Agora é o rei quem usa a expressão. O anúncio e a confissão ficam amarrados pela mesma palavra.

O que o rei quis dizer com "desta vez" é discutido. Há três leituras:

Admissão tardia. "Agora eu reconheço": o "desta vez" marca o momento em que o rei finalmente admite o que vinha negando.

Admissão limitada. "Desta vez eu errei": só neste episódio. Antes do granizo, o rei recebeu o aviso de pôr os rebanhos a salvo (Êxodo 9:19), e o texto não diz o que ele fez. A confissão pode referir-se a esse ponto, e não à série inteira de recusas.

Admissão que desmente o passado. Se agora ele pecou, as vezes anteriores ficam, por implicação, como vezes em que não pecou. A frase absolveria o rei de tudo o que veio antes.

O hebraico admite as três. Não é possível decidir.

Falta um detalhe que as outras confissões da Bíblia costumam ter: contra quem. Faraó diz "pequei" e não diz "contra o SENHOR" nem "contra vocês". O objeto da falta fica implícito, e só a frase seguinte o sugere.

"O SENHOR é o justo"

Em Êxodo 5:2, o rei perguntava: "Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz?" Ele já tinha usado o nome depois disso, nos pedidos de súplica de Êxodo 8:8 e 8:28. Mas esta é a primeira vez que diz alguma coisa sobre o SENHOR.

E o que ele diz não é um elogio ao caráter de Deus. "O justo", com artigo, é a parte que tem razão numa disputa. A frase é uma sentença: nesta causa, entre o SENHOR e o Egito, quem estava certo era o SENHOR.

Isso muda o que a confissão admite. Faraó não diz que o SENHOR é bom, nem que é o único Deus, nem que merece culto. Diz que ganhou a disputa. É o reconhecimento de um resultado.

Um segundo ponto, menos visível. Numa causa comum, quem declara o justo e o culpado é o juiz. Aqui é a própria parte vencida que pronuncia a sentença contra si. O rei ocupa, ao mesmo tempo, o lugar do réu e o do juiz — e o texto não diz quem ele entende como juiz de verdade. A leitura mais simples é que o granizo fez o papel de veredicto.

"e eu e o meu povo somos os culpados"

O rei inclui o povo na culpa. Há duas maneiras de ler.

Numa, é a fala normal de um rei antigo, que responde pela nação inteira: o que o rei faz, o país sofre, e a culpa é tratada como coletiva.

Na outra, a frase dilui a responsabilidade: se todos são culpados, ninguém é mais culpado que os outros. Quem recusou os pedidos de Moisés foi o rei, não os camponeses cujas plantações acabavam de ser destruídas.

Há um dado dentro do próprio capítulo que pesa contra a precisão da frase. Em Êxodo 9:20, parte dos servos do rei temeu a palavra do SENHOR e recolheu os rebanhos. A confissão põe todos no mesmo grupo, inclusive os que tinham obedecido. É uma fórmula, não um inventário.

O limite do que se pode dizer

O texto registra as palavras do rei. Não descreve o que ele sentia nem o que pretendia. A única avaliação da confissão vem de Moisés, em Êxodo 9:30, e ela é de descrença. Não há base no texto para chamar a frase de conversão, e também não há para chamá-la de teatro. Ela é o que está escrito: a primeira vez que o rei do Egito diz que errou.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Rei do Egito, sem nome no Êxodo. É a terceira vez que ele chama Moisés por iniciativa própria — antes, nas rãs (Êxodo 8:8) e nos enxames (Êxodo 8:25). Das vezes anteriores ele pediu e prometeu; desta vez começa confessando.

Moisés e Arão

Chamados juntos. Quem responde, no versículo seguinte, é só Moisés; Arão está presente e não fala.

O povo do Egito

Aparece como parte da culpa ("eu e o meu povo"). É o mesmo povo que acabou de perder plantações, animais e, segundo Êxodo 9:25, pessoas que estavam no campo.

O SENHOR

Chamado pelo nome e declarado "o justo" pela boca do rei estrangeiro. No resto do capítulo, quem fala do SENHOR são Moisés e o próprio SENHOR.

O momento

A tempestade da sétima praga ainda está caindo. O versículo seguinte fala dos trovões e do granizo no presente, e o fim da tempestade só vem em Êxodo 9:33, depois da oração de Moisés.

5. Pontos de Ensino

Dizer "errei" não é o mesmo que mudar

O versículo registra a confissão mais completa da série, com as palavras certas: falta, justiça, culpa. As palavras certas, sozinhas, não dizem o que vem depois delas. O texto só permite avaliá-las pelos versículos seguintes.

Dar razão ao outro é reconhecer que houve uma disputa

"O SENHOR é o justo" é frase de quem perdeu uma causa. Ela reconhece um resultado, não uma relação. A confissão de Faraó fica inteira dentro da lógica do conflito.

A culpa coletiva pode esconder a culpa pessoal

"Eu e o meu povo" soa generoso e é impreciso. Quem distribui a culpa entre todos, inclusive entre os que agiram certo, acaba diminuindo a própria.

O texto não julga o coração do rei, e o leitor não precisa julgar

O Êxodo registra a fala e a descrença de Moisés, e para aí. Isso é método: afirmar só o que o texto dá.

6. Aspectos Filosóficos

Como distinguir a confissão que muda a pessoa da que só pede o fim da dor?

A pergunta foi tratada com rigor por Jonathan Edwards (1703-1758), pastor em Northampton, na Nova Inglaterra, e um dos maiores teólogos da América colonial. Ele tinha visto de perto os reavivamentos do chamado Grande Despertamento: multidões chorando, confessando pecados, prometendo vida nova — e, meses depois, muitas delas de volta ao que eram. Em 1746 publicou o Tratado sobre as Afeições Religiosas para responder a uma pergunta prática: que sinais permitem distinguir uma emoção religiosa verdadeira de uma passageira?

A primeira parte do livro é uma lista de coisas que não provam nada, nem para um lado nem para o outro. Emoção intensa não prova. Falar muito de Deus não prova. Louvar a Deus com a boca não prova. Ter passado pelo medo e depois pelo consolo, numa certa ordem, não prova. Todas essas coisas podem vir junto com uma mudança real, e todas podem existir sem ela.

Depois Edwards propõe uma distinção que se aplica diretamente ao versículo. Ele chama de humilhação legal o estado de quem reconhece que errou porque sente o peso da punição — a consciência convencida pelo medo. E chama de humilhação evangélica o estado de quem reconhece o erro porque passou a ver o próprio erro como feio, e não só como perigoso. A primeira pode ser fortíssima e produzir confissões completas. Para Edwards, ela não muda a disposição de fundo: quando o perigo passa, a disposição continua a mesma.

O critério final do tratado é a prática. Uma mudança verdadeira, diz Edwards, altera a natureza da pessoa e aparece em conduta duradoura. A confissão que muda alguém se mede pelo que a pessoa faz quando já não há pressão sobre ela.

Aplicado a Faraó, o esquema de Edwards dá uma pergunta, não uma resposta. As palavras do v.27 são as de uma humilhação completa. O que não se sabe, no momento em que são ditas, é de que tipo ela é — e o critério de Edwards só pode ser aplicado depois que a tempestade parar.

E há uma ressalva do próprio Edwards que protege contra o uso apressado do livro. Ele escreveu que os sinais servem principalmente para a pessoa examinar a si mesma, e que nunca foi dado a ninguém um critério para saber com certeza quem, entre os outros, mudou de verdade. O Êxodo faz algo parecido: registra a fala e deixa a avaliação para os fatos seguintes.

7. Aplicações Práticas

Confira a sua confissão depois que a pressão passar

Todo mundo já disse "errei" no pior momento de uma crise: com a conta atrasada, com o casamento por um fio, com o chefe na porta. A frase pode ser verdadeira e pode ser só o preço de uma trégua. Quem a diz nem sempre sabe qual das duas é.

O teste prático é o de Edwards, e ele é simples: o que você faz na semana em que o problema já foi resolvido? Se o comportamento volta ao que era, a confissão foi um instrumento. Vale anotar o que se prometeu no meio da crise e reler depois.

Não use "todos nós erramos" para diminuir a sua parte

Em conflitos de família e de trabalho, a frase "a culpa é de todos" costuma vir de quem teve a maior parte dela. É mais honesto dizer o que você fez, em primeira pessoa, e deixar que os outros digam o deles.

Não decrete que a confissão do outro é falsa

Diante de alguém que pede desculpas no aperto, a tentação é dizer "você só está falando isso porque está com medo". Pode ser verdade. Mas o texto não autoriza esse veredicto antecipado nem sobre um rei do Egito. O que se pode fazer é o que Moisés fará: atender ao pedido e dizer claramente o que se pensa.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Faraó passou a crer no SENHOR?

O texto não diz. "O SENHOR é o justo" reconhece que o SENHOR tinha razão nesta disputa; não diz que o rei deixou os deuses do Egito, nem que pretendia cultuar o Deus de Israel. A frase cabe na boca de quem continua politeísta.

Por que o rei inclui o povo e não os servos?

Não se sabe. Em Êxodo 9:14 o anúncio de Deus falava do rei, dos servos e do povo, nessa ordem. A confissão nomeia só o rei e o povo. Pode ser só abreviação, e seria arriscado tirar dela uma intenção.

Moisés e Arão deviam ter exigido mais antes de atender?

O texto não levanta a questão. Moisés atende o pedido e, ao mesmo tempo, diz que não acredita. As duas coisas vêm juntas, e o Êxodo não as trata como contraditórias.

Um egípcio entenderia "pecar" como um israelita?

Provavelmente não da mesma forma. A palavra está em hebraico, na língua do texto, e não se sabe em que língua a conversa teria acontecido. O que o texto põe na boca do rei é o vocabulário hebraico da falta e do tribunal. Até onde isso reproduz um conceito egípcio, não há como verificar.

9. Conexão com Outros Textos

A pergunta que esta confissão responde

Êxodo 5:2 — "Mas Faraó respondeu: 'Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.'"

Da primeira fala à confissão, o rei vai de "quem é?" a "é o justo". Continua sem dizer que o conhece.

O "desta vez" de Deus

Êxodo 9:14 — "Porque desta vez vou enviar todas as minhas pragas ao seu coração, sobre os seus servos e sobre o seu povo, para que você saiba que não há ninguém como eu em toda a terra."

O anúncio e a confissão usam a mesma expressão de tempo, com treze versículos de distância.

Outro rei que disse "pequei" para fazer parar um ataque

2 Reis 18:14 — "Ezequias, rei de Judá, enviou ao rei da Assíria, a Laquis, mensageiros que lhe dissessem: Estou em culpa; retira-te de mim; suportarei tudo o que me impuseres. O rei da Assíria, então, impôs a Ezequias, rei de Judá, trezentos talentos de prata e trinta talentos de ouro."

É a confissão como negociação, e o verbo hebraico é o mesmo.

Confissões que vêm com um pedido

1 Samuel 15:30 — "Saul disse: Pequei. Contudo, honra-me, agora, diante dos anciãos do meu povo e diante de Israel e volta comigo, para que eu adore ao SENHOR, teu Deus."

Números 22:34 — "Respondeu Balaão ao Anjo do SENHOR: Pequei, porque não sabia que tu paravas no caminho para te opores a mim; agora, se não for do teu agrado, voltarei."

Saul confessa e pede que a sua honra seja preservada; Balaão confessa e se oferece para voltar. Nos dois casos, a frase "pequei" é seguida imediatamente do que a pessoa quer. É a mesma estrutura das falas de Faraó nos v.27 e 28.

Uma confissão que vem com os detalhes

Josué 7:20 — "Respondeu Acã a Josué: Na verdade, eu pequei contra o SENHOR, Deus de Israel, e fiz assim e assim:"

Acã diz contra quem pecou e passa a contar o que fez. Faraó não faz nem uma coisa nem outra.

A parte que declara a outra justa

Gênesis 38:26 — "Judá os reconheceu e disse: 'Ela é mais justa do que eu, pois não a dei a Selá, meu filho.' E nunca mais se deitou com ela."

Judá também pronuncia a sentença contra si mesmo, com a mesma palavra de tribunal. A diferença está no que ele acrescenta: o motivo da culpa e uma mudança de conduta registrada.

O par de sentença no seu lugar próprio

Deuteronômio 25:1 — "Se houver contenda entre alguns, e vierem a juízo, e os juízes os julgarem, justificarão o inocente e condenarão o culpado."

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Faraó mandou chamar Moisés e Arão e lhes disse: “Desta vez pequei. O SENHOR é o justo, e eu e o meu povo somos os culpados.

Texto hebraico

וַיִּשְׁלַח פַּרְעֹה וַיִּקְרָא לְמֹשֶׁה וּלְאַהֲרֹן וַיֹּאמֶר אֲלֵהֶם חָטָאתִי הַפָּעַם יְהוָה הַצַּדִּיק וַאֲנִי וְעַמִּי הָרְשָׁעִים׃

Transliteração

wa-yishlach Par'oh wa-yiqra le-Mosheh u-le-Aharon wa-yomer alehem: chatati ha-pa'am; YHWH ha-tsaddiq, wa-ani we-ammi ha-resha'im.

Análise palavra por palavra

וַיִּשְׁלַח פַּרְעֹה וַיִּקְרָא — wa-yishlach Par'oh wa-yiqra, "Faraó enviou e chamou".

Dois verbos encadeados: shalach, enviar, e qara, chamar. O português resume em "mandou chamar". O rei manda mensageiros e convoca.

O verbo shalach está aqui na forma simples, a do Qal, e significa "enviar". É a mesma raiz da exigência de todo o livro — "deixe o meu povo ir" —, mas ali ela está na forma intensiva, a do Piel, que significa soltar, deixar partir. A coincidência de raiz existe; o sentido é outro, e seria excessivo ver trocadilho nela.

חָטָאתִי — chatati, "pequei".

Verbo chata no perfeito, primeira pessoa do singular. O perfeito apresenta a ação como fato acabado: "eu pequei", "estou em falta".

É o verbo corrente para falta e pecado, e o sentido de origem — errar o alvo — está desenvolvido nos estudos de Gênesis 20:9 e 39:9.

A mesma palavra, sozinha, sem complemento, é a que diz Ezequias em 2 Reis 18:14, Saul em 1 Samuel 15:24 e 15:30, e Balaão em Números 22:34. Em outras confissões o verbo vem com a preposição que indica o ofendido, como em Josué 7:20, "pequei contra o SENHOR". Aqui não há preposição nem ofendido.

הַפָּעַם — ha-pa'am, "desta vez".

Substantivo pa'am, "vez", com o artigo, que em expressões de tempo faz o papel de "este": "a vez" = "esta vez". É uma forma mais curta do que a de Êxodo 9:14, ba-pa'am ha-zot, "nesta vez", mas o sentido é o mesmo.

A posição conta. O advérbio vem logo depois do verbo, e por isso pode ser lido tanto como "pequei desta vez" quanto como "desta vez [reconheço que] pequei". Nada na frase hebraica resolve a questão.

יְהוָה הַצַּדִּיק — YHWH ha-tsaddiq, "o SENHOR é o justo".

Frase sem verbo: sujeito e predicado lado a lado, como o hebraico faz para afirmar um estado. O predicado leva artigo — "o justo", e não "justo". Com o artigo, a frase não descreve uma qualidade; identifica uma parte: o justo desta causa é o SENHOR.

Tsaddiq é adjetivo da raiz tsadaq, estar certo, ter razão. No uso de tribunal, é a parte que ganha a causa.

וַאֲנִי וְעַמִּי הָרְשָׁעִים — wa-ani we-ammi ha-resha'im, "e eu e o meu povo somos os culpados".

Outra frase sem verbo, com a mesma construção da anterior. Os dois sujeitos — "eu" e "o meu povo" — vêm antes, e o predicado, com artigo, fecha a frase: "os culpados".

Resha'im é o plural de rasha', o contrário exato de tsaddiq: a parte que perde a causa. As duas palavras, uma em cada metade do versículo, formam o par completo da sentença.

A simetria é exata. De um lado, "o SENHOR" e "o justo", no singular. Do outro, "eu e o meu povo" e "os culpados", no plural. O rei reparte a condenação entre muitos e deixa o acerto com um só.

11. Conclusão

Com base no que o versículo diz e no que ele deixa de dizer, três conclusões se sustentam.

A confissão reconhece um resultado, não uma relação. As palavras do rei são de tribunal: alguém ganhou, alguém perdeu. Ele admite que o SENHOR tinha razão nesta disputa. Não diz que o conhece, que o teme ou que o servirá. Quem lê o versículo como conversão está acrescentando o que a frase não tem.

A confissão tem a forma de uma negociação. Admitir a falta diante do mais forte, pedir que a pressão pare e oferecer algo em troca era um procedimento conhecido entre reis. Isso não prova má-fé. Prova que a sinceridade das palavras não pode ser deduzida das próprias palavras.

O valor da confissão fica em suspenso. O versículo não oferece meio de avaliá-la. O leitor sabe o que o rei disse com a tempestade caindo, e só vai saber o que isso valia pelo que acontecer depois que ela parar. É a posição honesta diante de qualquer confissão feita sob pressão: registrar, atender, esperar os fatos.

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