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Êxodo 9:8

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 15 min de leitura·👁 23 acessos
Então o SENHOR disse a Moisés e a Arão: “Encham as mãos de fuligem da fornalha, e Moisés a lance para o céu diante dos olhos de Faraó.
Dois homens diante de um rei egípcio sentado; um deles lança para o alto um punhado de pó preto que se espalha no ar, enquanto o outro segura as mãos em concha cheias de fuligem.

Estudo


Então o SENHOR disse a Moisés e a Arão: “Encham as mãos de fuligem da fornalha, e Moisés a lance para o céu diante dos olhos de Faraó.

1. Introdução

Dois homens diante do rei, com as mãos cheias de fuligem. Um deles joga o punhado para o alto, e disso sai uma doença que vai cobrir o país inteiro.

É a sexta praga, e ela começa por um material que ninguém quer: o resíduo preto que fica no fundo de uma fornalha.

Na ordem há três novidades: quem lança é Moisés, não Arão; o punhado vai para o céu, e não para o chão; e Faraó, sem ser avisado de nada, tem de ver tudo acontecer diante dos próprios olhos.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que era uma fornalha no Egito

A palavra do versículo não designa o forno de pão da cozinha. Designa o forno grande de oficina, de fogo contínuo. No Egito do Império Novo havia três tipos principais.

O forno do oleiro. Era uma torre de barro de tiragem vertical: o fogo embaixo, as peças numa grelha no meio, a fumaça saindo por cima. Fornos assim foram escavados em muitos sítios do vale do Nilo, e a cerâmica era a indústria mais comum do país.

O forno de cal. Queimava calcário para fazer cal, usada em argamassa e reboco. Era o forno de fumaça mais pesada e mais constante.

O forno de faiança e de vidro. Em Amarna, a capital de Akhenaton, arqueólogos escavaram fornos de vidro e de faiança (a cerâmica vitrificada azul-esverdeada dos amuletos) em atividade no século XIV antes da era comum. Eram oficinas do palácio e dos templos.

Em todos eles sobrava a mesma coisa: fuligem e cinza fina, que a tiragem levantava e depositava nas paredes e no chão da oficina.

A fornalha e os tijolos

Muitos leitores ligam esta fornalha à escravidão de Israel, como se a fuligem viesse dos fornos onde os hebreus cozinhavam tijolos. A imagem é forte, mas tem um problema de fato: o tijolo egípcio comum não ia ao forno. Era de barro e palha, secado ao sol. O tijolo cozido só se torna comum no Egito muito mais tarde, na época romana. A ligação com o trabalho forçado é leitura simbólica; o texto não a faz, e a arqueologia não a sustenta.

A fuligem no dia a dia egípcio

A fuligem não era só sujeira. A tinta preta dos escribas egípcios era feita de fuligem — carvão finíssimo, recolhido de lamparinas e fornos, misturado com goma e água e seco em pastilhas. É com esse material que foram escritos quase todos os papiros que conhecemos. No país dos escribas, o pó preto da fornalha era a matéria da escrita oficial.

O Êxodo não faz nenhuma ligação entre a praga e a tinta. O dado serve só para lembrar que o material do versículo era familiar a qualquer egípcio, e que um punhado dele não assustaria ninguém.

Uma leitura antiga do gesto

A tradição rabínica reparou num detalhe prático. A ordem é dada aos dois — "encham as mãos" —, mas só Moisés lança. Um comentário antigo sobre o Êxodo, o Midrash Tanhuma (coletânea judaica de sermões sobre a Torá, reunida entre os séculos V e IX), conclui que Moisés segurou numa só mão os quatro punhados, os dele e os de Arão, e viu nisso um primeiro prodígio. Rashi (comentarista judeu francês do século XI) repete a leitura. É explicação de quem quer dar conta do plural e do singular; o texto não diz como a fuligem passou de uma mão para outra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então o SENHOR disse a Moisés e a Arão"

A fala tem dois destinatários. Nas pragas dos enxames e da peste no gado, as ordens de Deus foram dadas só a Moisés. Aqui Arão volta a ser chamado, e é chamado para uma ordem cujo gesto não será dele.

"Encham as mãos de fuligem da fornalha"

A medida é o punhado: as duas mãos juntas, em concha. É pouco, e o texto faz questão de que seja pouco. Nenhum saco, nenhum carregamento — o que cabe em quatro mãos.

O material é o mais pobre possível. Nas pragas anteriores Deus usou a água do rio que sustentava o país e o pó do chão. Agora usa o que sobra depois que o fogo terminou o trabalho: o resíduo. Uma coisa morta, queimada, que não serve para nada, vai produzir doença em corpos vivos.

A palavra da fornalha tem história própria na Bíblia, e o estudo de Gênesis 19:28 a desenvolve.

"e Moisés a lance"

Até aqui, quem executava o gesto das pragas era Arão. Foi ele quem estendeu a mão sobre as águas para as rãs e quem feriu com o cajado o pó da terra. Em Êxodo 7:20 a frase deixa o sujeito ambíguo; nas outras, o executor é Arão, sem dúvida.

Aqui a ordem nomeia Moisés. É a primeira vez que o gesto de uma praga é mandado a ele pelo nome. Arão enche as mãos e fica ao lado.

O Êxodo não explica a troca. Pode ser que o papel de Moisés esteja crescendo diante do rei; pode ser que o gesto de lançar, e não o de estender o cajado, pedisse outra pessoa. Não é possível decidir.

"para o céu"

A direção é nova. Na praga dos piolhos, Arão feriu o chão, e o pó do chão virou bicho. Aqui a fuligem sobe. O gesto vai contra a gravidade, e a nuvem que se forma lá em cima desce depois sobre o país inteiro, como diz o versículo seguinte.

O céu não é lugar neutro no hebraico: é de lá que vêm a chuva, o fogo de Sodoma, o maná. Lançar alguma coisa para o céu é entregá-la ao alto para que volte de outro jeito. O texto não comenta, mas o contraste entre um punhado atirado para cima e uma doença que cai sobre "toda a terra do Egito" está na própria sequência das frases.

"diante dos olhos de Faraó"

Esta praga não é anunciada ao rei. Não há "vá a Faraó", não há "assim diz o SENHOR", não há "se você se recusar". Mas há uma diferença grande em relação aos piolhos, que também vieram sem aviso: lá o rei não estava presente; aqui a ordem exige que ele veja.

Sem palavra, mas com testemunha. Faraó não é informado do que vai acontecer; é colocado diante do gesto. Quando as feridas aparecerem, ele saberá de onde vieram, porque viu a mão que lançou o pó.

O versículo pressupõe, sem dizer, que os dois homens tinham acesso ao rei com um punhado de fuligem nas mãos. Onde foi, em que sala ou em que pátio, o texto não diz.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR

É quem dá a ordem inteira: o material, a quantidade, quem lança, a direção e o público. Nada fica à escolha dos executores.

Moisés

Recebe a ordem junto com Arão, mas é o único nomeado para o gesto. É a primeira praga em que o lançamento cabe a ele por nome.

Arão

Volta a receber ordem de Deus, o que não acontecia desde a praga dos piolhos. Enche as mãos, mas não lança. O texto não lhe dá fala nem ação própria além de estar ali.

Faraó

Não é destinatário de mensagem nenhuma. É o espectador exigido pela ordem: o gesto tem de ser feito "diante dos olhos" dele.

A fornalha

Não é pessoa, mas é o único "lugar" do versículo. Não se diz de qual fornalha é a fuligem — se de oleiro, de cal ou de metal —, nem onde ficava. O leitor deve supor que era de fácil acesso, perto de onde o rei estava.

O evento

É a ordem da sexta praga. O versículo contém só a ordem; a execução está em Êxodo 9:10. Entre uma e outra, o versículo 9 descreve o efeito anunciado.

5. Pontos de Ensino

O material não mede o efeito

Quatro punhados de fuligem para um país inteiro. O texto põe a desproporção à vista e não tenta reduzi-la. O que acontece não vem do tamanho do que foi lançado.

O resíduo também serve

Depois da água do rio e do pó do chão, a praga sai do que sobra de um trabalho terminado. Nada no Egito é neutro nesta série: até a sujeira da oficina entra no relato.

Ver sem ser avisado

Faraó não recebe explicação, mas recebe a cena. A ordem garante que ele não possa dizer depois que não sabia de onde veio a doença.

A troca de executor não vem explicada

Moisés passa a fazer o gesto que era de Arão, e o texto não dá motivo. O leitor registra a mudança sem inventar a razão dela.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe lado a lado um gesto mínimo e um efeito enorme, e não os liga por nenhum mecanismo. A fuligem não "contém" a doença; o texto não diz que ela é contagiosa, venenosa ou mágica. O gesto funciona como sinal: marca o momento e a origem, para que o espectador saiba a quem atribuir o que vem depois. É a velha distinção entre causa e sinal — o sino não produz a hora, apenas a anuncia. Se o punhado for lido como causa, o episódio vira física estranha; se for lido como sinal, vira testemunho diante de quem precisava ver.

7. Aplicações Práticas

Quando alguém precisa saber de onde veio

A ordem exige que Faraó veja o gesto, embora não ouça explicação. Em situações de conflito, fazer às claras o que se vai fazer — sem esconder a mão — é o que impede depois a dúvida sobre a autoria. O versículo não trata disso como virtude; apenas mostra que a ordem cuidou de haver testemunha.

Coadjuvante não é descartado

Arão enche as mãos e não lança. Ainda assim foi chamado, e está ali. Há funções que consistem em estar presente e sustentar o que outro vai fazer, e o texto as registra sem diminuí-las.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que fuligem de fornalha, e não outro material?

O texto não diz. Há quem veja na fornalha uma lembrança do trabalho escravo, mas os tijolos egípcios eram secos ao sol, como mostra o item 2. Há quem veja uma imagem do calor da inflamação que as feridas trarão. As duas são leituras; nenhuma está no versículo.

Se os dois enchem as mãos, por que só Moisés lança?

Não se sabe. A tradição rabínica resolveu o problema com um prodígio — Moisés teria segurado os quatro punhados numa mão só —, mas isso é acréscimo. O texto dá o plural na ordem de encher e o singular na ordem de lançar, e para aí.

Onde estava a fornalha?

O versículo não informa. Como a cena tem de acontecer diante do rei, a fuligem foi recolhida antes e levada até ele. O Êxodo não descreve o trajeto.

O rei sabia o que o gesto ia produzir?

Nada indica que sim. Ele não recebeu anúncio. Viu dois homens jogando pó para o alto, e só depois viu as feridas.

9. Conexão com Outros Textos

O pó que foi ferido no chão

Êxodo 8:16 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Diga a Arão: Estenda o seu cajado e fira o pó da terra, e ele virará piolhos em toda a terra do Egito.'"

A praga anterior sem aviso também partia de um pó. Lá Arão golpeia o chão com o cajado; aqui Moisés lança com a mão para o alto. Mesmo tipo de material, direção oposta, executor trocado.

As outras fornalhas da Bíblia

Gênesis 19:28 — "Olhou para os lados de Sodoma e Gomorra, e para toda a terra da planície, e viu que da terra subia fumaça como a fumaça de uma fornalha."

Êxodo 19:18 — "Todo o monte Sinai fumegava, porque o SENHOR tinha descido sobre ele em fogo; a sua fumaça subia como a fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia muito."

A palavra aparece quatro vezes: nesses dois versículos e duas vezes neste episódio. Nas outras duas, a fornalha é só comparação para fumaça; aqui ela fornece o material da praga.

Mãos cheias lançadas sobre uma cidade

Ezequiel 10:2 — "E falou ao homem vestido de linho, dizendo: Entre no meio das rodas, debaixo dos querubins, encha as mãos de brasas de fogo dentre os querubins e espalhe-as sobre a cidade. E ele entrou diante dos meus olhos."

É o paralelo mais próximo do gesto: a mesma medida — as mãos em concha —, um material ligado ao fogo, espalhado para atingir um lugar inteiro, e uma testemunha que vê. Em Ezequiel o alvo é Jerusalém.

Pó jogado para o céu

Jó 2:12 — "Quando, de longe, levantaram os olhos e não o reconheceram, choraram em alta voz; cada um rasgou o seu manto, e lançaram pó para o céu sobre a cabeça."

O verbo e a direção são os deste versículo. Em Jó, jogar pó para o céu é gesto de luto dos amigos diante de um homem coberto de feridas. Aqui, o mesmo gesto produz as feridas.

O punhado no culto

Levítico 16:12 — "Tomará também o incensário cheio de brasas de fogo do altar, de diante do SENHOR, e as mãos cheias de incenso aromático moído, e o levará para dentro do véu."

"As mãos cheias" é a mesma expressão hebraica do versículo, a medida que o sumo sacerdote leva no Dia da Expiação. É a outra face do punhado na Torá: lá ele entra no santuário; aqui sai para o céu diante de um rei.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então o SENHOR disse a Moisés e a Arão: “Encham as mãos de fuligem da fornalha, e Moisés a lance para o céu diante dos olhos de Faraó.

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה וְאֶל־אַהֲרֹן קְחוּ לָכֶם מְלֹא חָפְנֵיכֶם פִּיחַ כִּבְשָׁן וּזְרָקוֹ מֹשֶׁה הַשָּׁמַיְמָה לְעֵינֵי פַרְעֹה׃

Transliteração

wa-yomer YHWH el-Mosheh we-el-Aharon: qechu lakhem melo chofneikhem piach kivshan, u-zeraqo Mosheh ha-shamaymah le-einei Far'oh.

Análise palavra por palavra

אֶל־מֹשֶׁה וְאֶל־אַהֲרֹן — el-Mosheh we-el-Aharon, "a Moisés e a Arão".

A preposição se repete antes de cada nome. Os dois são destinatários plenos da ordem, e é por isso que os verbos seguintes vêm no plural.

קְחוּ לָכֶם — qechu lakhem, "tomem para vocês".

Imperativo plural de laqach, tomar, com lakhem, "para vocês". A nossa versão condensou os dois verbos em "encham as mãos", que é o sentido da frase inteira. O "para vocês" é construção comum do hebraico com verbos de tomar e não indica posse.

מְלֹא חָפְנֵיכֶם — melo chofneikhem, "o cheio dos seus punhados".

Melo é "a plenitude, o conteúdo" — o que enche. Chofen é a mão em concha, e aqui está no dual: as duas mãos juntas. É uma medida pequena e precisa. A palavra é rara e aparece em Levítico 16:12 (o incenso do Dia da Expiação), em Ezequiel 10:2 (as brasas espalhadas sobre Jerusalém), em Provérbios 30:4 ("quem juntou o vento nos punhos?") e em Eclesiastes 4:6 ("melhor é um punhado com descanso").

פִּיחַ — piach, "fuligem".

A palavra só existe neste episódio, aqui e em Êxodo 9:10. O sentido vem do contexto e da raiz provável, puach, "soprar": é o que o vento leva, o pó levíssimo que sai da brasa apagada. Rashi explica assim — "o que se desprende dos carvões apagados, que o vento sopra e espalha". A tradução grega antiga pôs "fuligem de fornalha"; outras versões preferem "cinza". "Fuligem" dá melhor a ideia de pó preto e fino que a raiz sugere.

כִּבְשָׁן — kivshan, "fornalha".

O forno grande de oficina, distinto do forno doméstico. A palavra, as suas quatro ocorrências e a comparação com o Sinai estão no estudo de Gênesis 19:28. Aqui vem sem artigo, "fuligem de fornalha" — qualquer fornalha; no versículo 10, com artigo.

וּזְרָקוֹ מֹשֶׁה — u-zeraqo Mosheh, "e Moisés o lançará".

Verbo zaraq, lançar, espalhar com um movimento de arremesso, com o sufixo "o" (a fuligem). O sujeito, agora no singular, é Moisés.

Zaraq é, antes de tudo, um verbo do culto. É o termo técnico para o sacerdote aspergir o sangue do sacrifício contra o altar (Êxodo 24:6; Levítico 1:5, 1:11) e para a água da purificação lançada sobre alguém (Números 19:13, 20). Fora do culto, é o verbo de Jó 2:12, o pó lançado sobre a cabeça. O gesto de Moisés tem, portanto, o vocabulário de um ato sacerdotal — o que não autoriza chamar a cena de rito, mas mostra que a palavra não é a do simples "jogar".

הַשָּׁמַיְמָה — ha-shamaymah, "para o céu".

Shamayim, céu, com a terminação de direção. É a mesma forma de Jó 2:12 e de Gênesis 15:5, "olhe para o céu".

לְעֵינֵי פַרְעֹה — le-einei Far'oh, "aos olhos de Faraó".

A expressão indica presença e testemunho: fazer algo "aos olhos de" alguém é fazê-lo à vista dele, de modo que ele não possa negar o que viu. É a fórmula dos atos públicos e dos contratos feitos diante de testemunhas.

11. Conclusão

A praga começa sem anúncio, mas não às escondidas. O rei não ouve nada, e é obrigado a ver tudo. O versículo separa as duas coisas — ser avisado e ser testemunha — e escolhe a segunda.

O efeito não depende do material. Quatro punhados do resíduo mais banal de uma oficina vão cobrir um país. Com isso, o texto afasta qualquer ideia de que a força esteja na fuligem: ela marca o momento, não produz a doença.

Moisés assume um gesto que era de Arão, e o texto não justifica a mudança. Quem lê deve anotar a troca e não completá-la com um motivo que o Êxodo não deu.

E o verbo do lançamento pertence ao vocabulário do altar. Sem transformar a cena em rito, isso basta para mostrar que o gesto, por pequeno que seja, foi descrito com palavra de peso.

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