Ela se tornará um pó fino sobre toda a terra do Egito, e causará nos homens e nos animais feridas que rebentam em bolhas, em toda a terra do Egito.”
1. Introdução
O punhado de fuligem vira uma poeira fina que desce sobre o país inteiro, e onde ela toca, a pele inflama e se enche de bolhas.
O versículo descreve a doença com duas palavras que quase não aparecem no resto da Bíblia, e uma delas ficou na memória de Israel com um nome próprio: "a úlcera do Egito".
Atinge homens e animais, sem distinção de posto. E faltam nele três coisas que as pragas vizinhas têm: não se fala em morte, não se diz que Israel ficou de fora e não se anuncia nenhum fim.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que os médicos egípcios escreveram sobre feridas
O Egito deixou os textos médicos mais antigos do mundo antigo que chegaram até nós, e vários deles tratam justamente do que este versículo descreve: inchaços, feridas que supuram, pele que se abre.
O mais extenso é o Papiro Ebers, já apresentado no estudo de Gênesis 48:10, que tem uma seção inteira sobre inchaços e tumores, com instruções para distinguir os que se operam dos que não se tocam.
O Papiro Hearst. Achado no começo do século XX em Deir el-Ballas, no Alto Egito, e entregue à expedição da Universidade da Califórnia que escavava na região, é do começo do Império Novo, por volta de 1500 antes da era comum. Reúne cerca de 260 receitas. Muitas repetem as do Ebers, o que mostra que os médicos copiavam um repertório comum. Há receitas para feridas, mordidas, doenças de pele e ossos.
O Papiro Médico de Berlim. Conhecido pelo número de inventário, Berlim 3038, vem de Saqqara e é do período ramessida, pouco depois de 1300 antes da era comum. Tem cerca de duzentas receitas e um tratado sobre os "vasos" do corpo — os canais que, para os egípcios, levavam o sangue, o ar, as lágrimas e também a doença.
Como eles entendiam o pus
Os estudiosos que leram esses papiros em conjunto identificaram uma ideia recorrente. Os egípcios falavam de uma matéria de corrupção, chamada ukhedu (algo como "o que apodrece"), que nasceria dos resíduos da digestão, correria pelos vasos e se instalaria em algum ponto do corpo, produzindo dor, inflamação e pus. A leitura é reconstrução moderna a partir de centenas de receitas, e os detalhes são discutidos, mas o princípio geral é aceito: a ferida era vista como sinal de uma podridão que vinha de dentro.
O tratamento combinava duas coisas que para nós estão separadas. Havia o emplastro — gordura, mel, resinas, farinhas, excrementos de animais — aplicado sobre a pele. E havia a fórmula recitada, que chamava a doença pelo nome e a mandava sair. O mesmo profissional fazia as duas coisas.
O país dos médicos e o país das doenças
O Egito tinha fama dupla no mundo antigo. Na Odisseia, canto IV, Homero diz que a terra do Egito produz mais drogas que qualquer outra, e que ali cada homem é um médico, mais sábio que todos os outros. Os egípcios eram os médicos que os reis estrangeiros pediam emprestado.
A Bíblia guarda a outra face. Em Deuteronômio o Egito é o lugar das doenças: "as más doenças do Egito, que você conhece" (Deuteronômio 7:15), "todas as doenças do Egito" (Deuteronômio 28:60) e "a úlcera do Egito" (Deuteronômio 28:27). O país famoso pela medicina aparece, para Israel, como a terra das feridas.
Feridas em corpos egípcios
A pele dos mortos confirma que doenças com bolhas e pústulas existiam no Egito. O caso mais citado é a múmia de Ramsés V, morto por volta de 1145 antes da era comum, que tem o rosto e o corpo cobertos de lesões em relevo. A hipótese mais difundida é de varíola. Ela nunca foi confirmada por exame de DNA, e há quem proponha outras doenças; é uma hipótese, não um diagnóstico. O dado serve só para mostrar que um rei do Egito podia morrer coberto de feridas — e não para identificar a praga.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ela se tornará um pó fino sobre toda a terra do Egito"
A fuligem muda de natureza no ar. O que saiu de quatro mãos desce como poeira sobre um país. O texto não descreve vento, nuvem ou trajeto. Diz apenas que ela "se tornará", e o verbo é o mesmo que o Êxodo usa quando a água vira sangue e o pó vira piolho.
A palavra escolhida para o pó não é a do chão, usada na praga dos piolhos. É a do pó fino, a poeira que o vento levanta e que as rodas dos carros erguem na estrada. É pó que paira e pousa em tudo.
"Toda a terra do Egito" aparece duas vezes no mesmo versículo, no começo e no fim. A frase fecha o país entre as duas menções. Nenhum canto fica de fora.
"e causará nos homens e nos animais"
Pela primeira vez uma praga adoece o corpo das pessoas. As águas viraram sangue, as rãs invadiram as casas, os piolhos andaram sobre a pele, os enxames encheram as casas, a peste matou os rebanhos. Agora a doença está dentro da pele humana.
Os animais também são atingidos. O leitor atento pergunta quais animais, se o versículo 6 disse que morreram todos os rebanhos do Egito. O problema existe e volta mais forte no anúncio do granizo; o estudo de Êxodo 9:19 expõe as saídas propostas.
"feridas que rebentam em bolhas"
São duas palavras hebraicas raras, e juntas descrevem uma evolução. Primeiro, a inflamação: a pele quente, vermelha, inchada. Depois, a erupção: as bolhas que brotam e se abrem.
A primeira palavra, shechin ("inflamação, úlcera"), aparece em poucos lugares da Bíblia, e cada um mostra uma face da doença.
Na lei de Levítico 13:18-23, é uma ferida comum que sara. O sacerdote só intervém se, no lugar dela, aparecer uma mancha suspeita. A shechin, em si, não torna ninguém impuro.
Em 2 Reis 20:7, é a doença que põe o rei Ezequias à beira da morte. O profeta Isaías manda aplicar sobre ela uma pasta de figos, e o rei sara. A mesma palavra cobre, portanto, desde o furúnculo até o abscesso que mata.
Em Jó 2:7, é a doença de Jó, "desde a planta do pé até o alto da cabeça". Em Deuteronômio 28:27 e 28:35, é maldição: "a úlcera do Egito", e "úlcera maligna nos joelhos e nas pernas". A expressão de Deuteronômio só faz sentido para quem conhece esta praga. A doença que caiu sobre o Egito vira ameaça contra Israel se Israel se comportar como o Egito.
A segunda palavra, "bolhas", só existe neste episódio. O item 10 trata dela.
O que o versículo não diz
Não há morte. A praga anterior matou os rebanhos. Esta dói, desfigura, impede de trabalhar, mas o texto não registra ninguém morrendo dela.
Não há separação. Na praga dos enxames e na peste do gado, o texto diz com clareza que a terra de Israel ficou de fora. Aqui não diz nada. O versículo 11 fala de "todos os egípcios", o que dá a entender que só eles foram atingidos, mas a frase de separação não aparece. O leitor não deve pôr no texto uma garantia que ele não deu.
Não há fim. Nenhuma súplica, nenhuma negociação, nenhuma frase dizendo que as feridas passaram. Os piolhos também ficaram sem fim registrado. O Êxodo deixa as feridas no corpo dos egípcios e passa à praga seguinte.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os homens do Egito
São atingidos sem distinção. O versículo não separa o rei, a corte, os sacerdotes ou os camponeses. Dois versículos adiante, o texto dirá que as feridas estavam nos magos e em todos os egípcios.
Os animais
Também atingidos. O texto não diz quais, nem de onde vieram depois da peste do versículo 6.
A terra do Egito
Nomeada duas vezes, abrindo e fechando a frase. É o alcance da praga: o país inteiro, sem exceção declarada.
Israel
Não aparece. Depois de duas pragas com separação expressa — os enxames e a peste do gado —, esta não menciona a terra de Gósen.
O evento
É o efeito anunciado do gesto do versículo 8, ainda dentro da fala de Deus a Moisés e Arão. O cumprimento vem, com as mesmas palavras, no versículo seguinte.
5. Pontos de Ensino
A praga chega ao corpo
Até aqui as pragas atingiram o que cercava as pessoas: a água, a casa, o gado. Esta atinge a própria pele. É uma escalada que o texto mostra sem comentar.
A doença não escolhe posto
Homens e animais, sem nenhuma separação por classe. Os que curavam também adoecem, como o versículo 11 vai mostrar.
O nome ficou
"A úlcera do Egito" virou expressão fixa em Deuteronômio. Uma praga contada sobre outro povo passa a servir de advertência para o próprio Israel.
O que o texto cala não se acrescenta
Não há menção de morte, de separação para Israel nem de fim da doença. Quem lê não deve suprir essas faltas com o que aconteceu nas outras pragas.
6. Aspectos Filosóficos
A doença de pele atinge o que a pessoa tem de mais visível e mais seu: a superfície com que se apresenta aos outros. Por isso ela humilha de um jeito que outras dores não humilham, e o texto seguinte mostra homens que não conseguem sequer comparecer. O versículo também mostra a dor como condição que iguala: a mesma poeira desce sobre o palácio e sobre o curral. Nenhuma posição social protege o corpo. É uma constatação antiga, que o texto registra sem transformar em lição.
7. Aplicações Práticas
A doença que expõe
Feridas na pele eram, e ainda são, motivo de vergonha e de afastamento. Levítico mostra que a ferida comum não tornava ninguém impuro, e que só o exame do sacerdote podia decidir. Tratar quem está ferido como se a ferida fosse culpa ou impureza é acrescentar ao doente um peso que nem a lei antiga lhe impunha.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Que doença era essa?
Não é possível identificar. Já se propuseram varíola, antraz na pele, furunculose, sarna infectada, sarampo. Nenhuma se sustenta só com o texto, que descreve duas etapas — inflamação e bolhas — e mais nada. A proposta do antraz faz parte de uma explicação natural de toda a série das pragas, exposta no estudo de Êxodo 8:24. O que o versículo oferece é a descrição de quem viu, não um diagnóstico.
Os israelitas também tiveram as feridas?
O texto não diz. Nas pragas vizinhas há frase expressa de separação; aqui não há. A menção de "todos os egípcios" no versículo 11 sugere que só eles foram atingidos, mas é inferência.
As feridas saram?
O Êxodo não informa. Não há pedido de alívio nem registro de cura. A doença some do relato sem ter sumido dos corpos.
Por que a pele, e não outra parte do corpo?
O texto não explica. É a parte do corpo que se vê, e a que mais diretamente exibe a doença a quem olha — o que casa com a ordem do versículo 8, feita "diante dos olhos de Faraó". A ligação é leitura possível, não afirmação do texto.
9. Conexão com Outros Textos
A úlcera do Egito como maldição contra Israel
Deuteronômio 28:27 — "O SENHOR ferirá você com a úlcera do Egito, com tumores, com sarna e com coceira, de que você não poderá ser curado."
Deuteronômio 28:35 — "O SENHOR ferirá você com úlcera maligna nos joelhos e nas pernas, de que você não poderá sarar, desde a planta do pé até o alto da cabeça."
É a mesma palavra do versículo, e a primeira passagem lhe dá o nome do país. A lista de maldições usa a memória da praga como ameaça: o que caiu sobre o Egito pode cair sobre Israel.
A doença de Jó
Jó 2:7 — "Então Satanás saiu da presença do SENHOR e feriu Jó com úlceras malignas, desde a planta do pé até o alto da cabeça."
A mesma palavra, e a mesma expressão de totalidade de Deuteronômio 28:35. Mas o sentido se inverte: em Jó a doença não é castigo, e o livro inteiro discute exatamente isso.
A ferida comum na lei
Levítico 13:18-19 — "Quando na pele de alguém houver uma úlcera, e ela sarar, e no lugar da úlcera aparecer um inchaço branco ou uma mancha branca avermelhada, ele será mostrado ao sacerdote."
Aqui a shechin é uma ferida que sara. A lei só se ocupa dela se deixar marca suspeita.
A úlcera de um rei
2 Reis 20:7 — "E Isaías disse: 'Tomem uma pasta de figos.' Tomaram-na e a puseram sobre a úlcera, e o rei sarou."
A mesma palavra designa a doença que levou Ezequias à beira da morte. É o único lugar da Bíblia em que se descreve um tratamento para ela.
A praga que volta no fim
Apocalipse 16:2 — "O primeiro foi e derramou a sua taça sobre a terra, e sobreveio uma úlcera maligna e dolorosa nos homens que tinham a marca da besta e que adoravam a sua imagem."
A palavra grega é a mesma que a tradução grega antiga usou para este versículo. As taças do Apocalipse retomam várias pragas do Egito, e esta é a primeira delas.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Ela se tornará um pó fino sobre toda a terra do Egito, e causará nos homens e nos animais feridas que rebentam em bolhas, em toda a terra do Egito.”
Texto hebraico
וְהָיָה לְאָבָק עַל כָּל־אֶרֶץ מִצְרָיִם וְהָיָה עַל־הָאָדָם וְעַל־הַבְּהֵמָה לִשְׁחִין פֹּרֵחַ אֲבַעְבֻּעֹת בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם׃
Transliteração
we-hayah le-avaq al kol-erets Mitsrayim, we-hayah al-ha-adam we-al-ha-behemah li-shechin poreach ava'bu'ot be-khol-erets Mitsrayim.
Análise palavra por palavra
וְהָיָה לְאָבָק — we-hayah le-avaq, "e se tornará pó fino".
O verbo hayah, ser, tornar-se, com a preposição le-, "para", indica transformação: "virar alguma coisa". É a construção de Êxodo 7:19 e 8:16, quando a água vira sangue e o pó vira piolho.
Avaq é o pó fino, a poeira que voa. Distingue-se de afar, o pó do chão, da terra solta, que é a palavra da praga dos piolhos. Avaq é a poeira levantada pelos cascos e pelas rodas em Ezequiel 26:10, a que o vento leva em Isaías 5:24, e a que cai do céu como chuva na maldição de Deuteronômio 28:24, "pó e poeira". É pó que está no ar.
עַל־הָאָדָם וְעַל־הַבְּהֵמָה — al-ha-adam we-al-ha-behemah, "sobre o homem e sobre o animal".
Os dois substantivos no singular coletivo, com artigo. O par "homem e animal" é fórmula de totalidade dos seres vivos da terra, a mesma de Êxodo 8:17.
לִשְׁחִין — li-shechin, "em inflamação, em úlcera".
Shechin vem de uma raiz que significa "estar quente". A raiz quase não aparece como verbo no hebraico bíblico, mas é conhecida das línguas vizinhas: no aramaico, "ser quente, inflamar-se"; no árabe, sakhuna, "estar quente". A palavra, portanto, nomeia a ferida pelo calor que ela produz: é a inflamação, o ponto quente e dolorido da pele.
Ocorre treze vezes na Bíblia hebraica, concentradas em Êxodo 9, Levítico 13, Deuteronômio 28, 2 Reis 20 (repetido em Isaías 38:21) e Jó 2:7. A tradução grega antiga usou helkos, "úlcera, chaga" — a palavra das feridas de Lázaro em Lucas 16:21 e da primeira taça em Apocalipse 16:2.
פֹּרֵחַ — poreach, "que brota, que rebenta".
Particípio do verbo parach, cujo sentido primeiro é o de planta: brotar, florescer. É o verbo do cajado de Arão que floresce em Números 17:8 e o das flores e videiras do Cântico. Aplicado à pele, descreve a erupção — a doença que "floresce" para fora. Levítico 13:12 usa o mesmo verbo para a mancha que se espalha pela pele.
A imagem é forte justamente porque é tirada da vida vegetal: o que numa planta é sinal de vigor, no corpo é sinal da doença avançando.
אֲבַעְבֻּעֹת — ava'bu'ot, "bolhas, pústulas".
Palavra que só existe aqui e no versículo 10. A forma repete as consoantes — ba'-bu' —, recurso do hebraico para coisas que se multiplicam ou borbulham. A raiz provável, ba'ah, aparece em Isaías 64:2 para a água que ferve no fogo. As bolhas da pele são, na imagem, o borbulhar de uma panela.
A tradução grega antiga entendeu assim e traduziu "úlceras, bolhas que fervem". A palavra continuou em uso no hebraico posterior para doenças de pústulas: no hebraico de hoje, a catapora e a varíola têm nomes formados com ela.
בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם — be-khol-erets Mitsrayim, "em toda a terra do Egito".
A expressão já abriu o versículo, com a preposição "sobre". Agora fecha, com a preposição "em". A repetição forma uma moldura: o pó cai sobre o país e a doença está em todo ele.
11. Conclusão
A praga chega ao corpo humano, e chega pela pele. Depois de atingir a água, a casa e o gado, o que o Egito tem de mais próximo é atingido: a superfície do próprio corpo, homens e animais sem distinção.
A doença é descrita, não diagnosticada. As duas palavras hebraicas nomeiam o calor da inflamação e o borbulhar da erupção. Com isso não se chega a uma doença moderna, e é mais honesto parar na descrição do que escolher um nome.
O versículo deixou na Bíblia um nome duradouro. "A úlcera do Egito" passa a figurar entre as maldições de Deuteronômio, e o que foi castigo de um povo estrangeiro vira advertência para Israel.
E o texto cala três coisas que as pragas vizinhas diziam: a morte, a separação de Israel e o fim da praga. Sem essas três informações, a sexta praga fica aberta, com a doença ainda nos corpos quando o relato segue adiante.













