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Êxodo 8:24

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✍️ Por Alberto Adriano·16 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 25 acessos
E o SENHOR fez assim: entraram enxames pesados na casa de Faraó e nas casas dos seus servos; e em toda a terra do Egito a terra foi arruinada por causa dos enxames.
Salão de palácio egípcio ao entardecer, com uma nuvem escura de insetos entrando pelas aberturas altas e pousando sobre mesas e colunas pintadas.

Estudo


E o SENHOR fez assim: entraram enxames pesados na casa de Faraó e nas casas dos seus servos; e em toda a terra do Egito a terra foi arruinada por causa dos enxames.

1. Introdução

A terceira praga do capítulo é executada em uma frase, e a frase não tem nenhum homem dentro dela.

Nas duas anteriores havia gesto humano: Arão estendeu a mão sobre as águas em Êxodo 8:6 e feriu o pó da terra em Êxodo 8:17. Aqui não há cajado, não há mão estendida, não há ordem repetida a ninguém. O versículo abre com "e o SENHOR fez assim" e passa direto ao efeito.

O efeito vem descrito com duas informações, e as duas merecem atenção.

A primeira é a palavra que qualifica os enxames: pesados. É o adjetivo do peso, e é a mesma raiz que o capítulo usará duas vezes para o coração do rei, em Êxodo 8:15 e 8:32. O item 10 mostra o alcance disso.

A segunda é o lugar por onde a praga começa. Não é o rio, não é o campo, não é a casa do povo: é a casa de Faraó. Depois, as casas dos servos. Só então o país inteiro. O sentido do percurso é o inverso do que as rãs fizeram em Êxodo 8:3.

E o versículo termina com uma afirmação de tamanho incomum: a terra foi arruinada. Não é o rei que sofre, não são as casas: é o território. O verbo escolhido é forte, e o item 3 mostra onde mais ele aparece com esse mesmo sujeito.

Este é também o versículo em que este comentário trata, uma vez só, das propostas que explicam a série das pragas por causas naturais. O item 2 as apresenta com nome e data, e diz por que elas não decidem nada — nem a favor nem contra.

2. Contexto Histórico e Cultural

A proposta de explicar a série inteira por causas naturais

Chegou o momento de tratar disso, e este comentário trata uma vez só, aqui, por uma razão de método: a proposta mais conhecida não fala de uma praga isolada — fala de uma cadeia, e os insetos são um elo dela. É neste versículo que o elo aparece.

A formulação é de Greta Hort, estudiosa dinamarquesa que publicou em 1957 e 1958, numa revista alemã de estudos do Antigo Testamento, dois artigos intitulados "As pragas do Egito". O trabalho dela já foi apresentado no estudo de Êxodo 7:17, a propósito da água do Nilo, e não se refaz aqui: o que interessa agora é o trecho da cadeia que chega a este versículo.

A sequência proposta é esta. Uma cheia excepcionalmente alta traria do alto curso do rio uma carga fora do comum de terra e de microrganismos; a água ficaria imprópria e os peixes morreriam. As rãs, que vivem na margem, fugiriam da água contaminada para a terra firme e morreriam fora dela. Com as rãs mortas, sumiria o predador que mantém baixa a população de insetos — e os insetos se multiplicariam sem freio, em duas ondas sucessivas, primeiro os menores e depois os maiores.

É preciso reconhecer o mérito da construção: cada elo puxa o seguinte, e a ordem que ela exige é a ordem em que o Êxodo conta. E ela não foi feita para desacreditar o relato — Hort procurava mostrar que a série era coerente com o que se sabe do Egito.

As três ressalvas, e elas são grandes

Primeira: o Êxodo não menciona nada disso. Não fala de cheia, não fala de estação do ano, não fala de peixe podre como causa de coisa nenhuma, não diz que as rãs saíram da água porque a água estava ruim. A cadeia é reconstrução moderna, montada de fora. Quem a apresenta como "o que realmente aconteceu" está acrescentando ao texto.

Segunda: o primeiro elo não é verificável. Tudo depende de uma cheia excepcional numa data determinada, e não há registro dessa cheia — nem dela nem de nada, naquela altura, porque não existe documentação egípcia do episódio. Uma cadeia cujo primeiro elo é hipótese não passa de hipótese inteira, por mais bem encaixados que sejam os elos seguintes.

Terceira, e a mais decisiva: a explicação natural responde a outra pergunta. Ela pode dizer o que aconteceu; não diz por que aconteceu na hora anunciada. Este versículo abre com "o SENHOR fez assim" — isto é, cumpriu-se o que fora dito no dia anterior, em Êxodo 8:23, com data marcada. Um mecanismo conhecido não deixa de ser conhecido por acontecer na hora combinada, e uma hora combinada não deixa de ser uma hora combinada por haver mecanismo conhecido.

Registre-se, por fim, o que a discussão tem de razoável. A pergunta é legítima, e descartá-la com desdém seria fingir o contrário. Ela apenas não tem como ser respondida: não há sedimento datado, não há medição de cheia, não há amostra. Há um texto e propostas construídas a partir dele.

O silêncio egípcio: o que ele vale e o que não vale

É comum ouvir que nenhum documento egípcio menciona as pragas, e que isso decide a questão. O argumento costuma ser usado mal dos dois lados.

De um lado, é verdade que os monumentos oficiais do Egito não registravam derrota nem humilhação do rei — o assunto está tratado no estudo de Êxodo 3:19, e não se reabre.

Mas há um dado que essa regra não cobre: o Egito registrava, sim, anos ruins. Existem inscrições que falam de cheia insuficiente, de campos sem colheita e de fome, e elas foram examinadas nos estudos de Gênesis 41. A documentação egípcia não é cega para o desastre em geral; o que falta é o registro deste acontecimento.

E a ausência não prova nada em nenhuma direção, por uma razão prosaica: o que sobreviveu do Egito é uma fração mínima do que foi escrito, e essa fração é composta sobretudo de textos de templo, de túmulo e de administração — três gêneros que não tinham por função noticiar calamidade recente. Quem afirma que o silêncio refuta o relato, e quem afirma que ele nada significa, estão os dois indo além do que se pode sustentar. Não é possível decidir por aí.

3. Análise Teológica do Versículo

"E o SENHOR fez assim"

Quatro palavras para a execução de uma praga inteira. Vale reparar em quem está ausente delas.

Nas duas pragas anteriores deste capítulo houve ordem e houve gesto. Deus mandou Moisés falar a Arão, Arão estendeu a mão, e só então o efeito veio — assim nas rãs, em Êxodo 8:5-6, e assim nos piolhos, em Êxodo 8:16-17. Aqui não há nenhuma das três coisas. Não há instrução a Moisés, não há transmissão a Arão, não há mão estendida, não há cajado.

Esta é a primeira praga do livro que acontece sem intermediário humano. O anúncio foi feito em Êxodo 8:20-23; entre o anúncio e o cumprimento não se interpõe ninguém.

O que decorre disso é modesto. O Êxodo não comenta a mudança — não diz que Moisés ficou de fora, não explica por que desta vez não houve gesto, não tira conclusão nenhuma. Quem vir aí um sinal de que o prodígio dispensou o instrumento está fazendo leitura de comentarista, e a leitura é possível sem estar no texto. O que se verifica é o dado: das três pragas do capítulo, duas passam pela mão de Arão e esta não passa por mão nenhuma.

"entraram enxames pesados"

Duas coisas nesta frase, e a segunda costuma passar despercebida em português.

A primeira é o verbo. Os enxames entram — é verbo de quem vem de fora para dentro, o verbo de quem chega a um lugar. As rãs, em Êxodo 8:3, subiam: vinham de baixo, do rio para a terra. Estes vêm de fora, sem que se diga de onde.

A segunda é o adjetivo. "Pesados" traduz uma palavra hebraica que significa ter peso, ser maciço, ser grave — e é a mesma raiz que aparece no capítulo aplicada ao coração do rei, em Êxodo 8:15 e 8:32, onde as traduções costumam pôr "endureceu". O sistema dos verbos do coração é assunto do estudo de Êxodo 4:21, e não se reabre aqui.

O que pertence a este versículo é a coincidência e o seu limite. O Êxodo põe a palavra do peso sobre os enxames aqui e sobre o coração do rei oito versículos adiante, no mesmo capítulo: isso é verificável. Já afirmar que há aí um jogo intencional — que o peso do castigo responde ao peso do coração — é leitura, e enfraquecida por um fato simples: a palavra é das mais comuns da língua, aplica-se a fome, a trabalho, a gado e a exército, e nem toda repetição de raiz num texto antigo é trocadilho. Não é possível decidir.

"na casa de Faraó e nas casas dos seus servos"

Aqui está o detalhe mais interessante do versículo, e ele é de ordem.

Ponha a lista ao lado da lista das rãs. Em Êxodo 8:3, a praga percorria este caminho: o rio, depois a casa do rei, depois o quarto, depois a cama, depois a casa dos servos, depois o meio do povo, depois os fornos e as amassadeiras. Ia do público ao íntimo e do alto ao baixo, num percurso longo e minucioso.

Aqui são três degraus e nada mais: a casa do rei, as casas dos servos, a terra inteira. Começa no palácio e termina no país. É o inverso de uma escalada — é uma dispersão a partir do centro.

Repare no que isso faz com a ameaça que fora anunciada. Em Êxodo 8:21 a ordem anunciada era "sobre você, sobre os seus servos, sobre o seu povo e nas suas casas"; o cumprimento troca as pessoas por casas e acrescenta a terra. A promessa falava de gente atingida; o cumprimento fala de lugares tomados.

E há uma ausência que vale registrar, porque o versículo seguinte depende dela: não se diz aqui que houve enxames sobre o corpo de ninguém. Com as rãs, o texto fez questão de dizer que elas subiriam sobre o rei, sobre o povo e sobre os servos, em Êxodo 8:4. Aqui a praga ocupa casas e terra. O incômodo mudou de natureza.

"e em toda a terra do Egito a terra foi arruinada por causa dos enxames"

Esta é a frase pesada do versículo, e o peso está no verbo.

O verbo escolhido não é o de estragar, sujar ou danificar. É o verbo da ruína — o que se usa para aquilo que se perdeu, que apodreceu, que deixou de prestar e não volta ao que era. E o sujeito dele aqui é a terra, o país inteiro.

Essa combinação — esse verbo com esse sujeito — é rara na Bíblia hebraica, e os outros lugares em que ela aparece têm um peso que surpreende. É a frase do relato do dilúvio, em Gênesis 6:11-12, e é a mesma raiz do que os visitantes anunciam sobre Sodoma em Gênesis 19:13. O campo inteiro da palavra está desenvolvido nos estudos de Gênesis 6:11-13; aqui basta o essencial: quando esse verbo cai sobre "a terra", o que se diz é que um lugar ficou impróprio.

Vale marcar a diferença, e ela é grande. No Gênesis a terra está arruinada por causa do que os seus habitantes fizeram — é ruína moral, e é ela que justifica o dilúvio. Aqui a terra é arruinada por causa dos enxames, com a causa declarada na própria frase, e ela é material.

Não se deve, portanto, transformar a coincidência de vocabulário em teologia. O que se pode afirmar é que o Êxodo escolheu, para o efeito desta praga, a palavra mais grave de que dispunha para dizer que um território deixou de servir — e que essa palavra tem, no Gênesis, um passado que o leitor atento reconhece.

O que o versículo não diz

Três silêncios, e convém listá-los porque a pregação corrente costuma preenchê-los.

Não se diz que inseto é. A palavra hebraica não nomeia espécie nenhuma, e o problema de tradução que isso cria pertence ao estudo de Êxodo 8:21.

Não se diz que alguém morreu. A praga arruína a terra; não mata.

Não se diz o que aconteceu em Gósen. A separação fora anunciada em Êxodo 8:22, e o cumprimento dela não é relatado. O texto informa o que houve no Egito e cala sobre o que houve do outro lado. É discutido se o silêncio deve ser lido como cumprimento subentendido; o versículo não permite decidir.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem aparece

O SENHOR. É o único sujeito ativo do versículo. Faz, e o que fora anunciado acontece.

Faraó. Aparece apenas como dono de uma casa. Não fala, não age, não reage — a reação dele vem no versículo seguinte. É a primeira praga do capítulo em que o rei é atingido antes de qualquer outra pessoa.

Os servos de Faraó. A palavra designa aqui os funcionários da corte, não escravos: são os homens do governo, que têm casa própria e posição. Eles já haviam sido citados no anúncio, em Êxodo 8:21, e voltarão em Êxodo 8:29 e 8:31, sempre nessa mesma posição intermediária entre o rei e o povo.

Quem não aparece

A lista dos ausentes é curta e é o que há de mais notável neste versículo.

Moisés e Arão não estão aqui. Nem como executores nem como testemunhas. Haviam recebido a ordem em Êxodo 8:20 e reaparecem só em Êxodo 8:25, quando o rei os chama.

Os magos não estão aqui. Tinham repetido a praga das rãs em Êxodo 8:7 e falhado com os piolhos em Êxodo 8:18. Depois da frase deles em Êxodo 8:19 — "isto é o dedo de Deus" — eles somem do capítulo e não voltam mais. O Êxodo não explica a saída.

Israel não aparece. Gósen fora nomeada no anúncio, em Êxodo 8:22; no cumprimento, não há uma palavra sobre ela.

Os lugares

A casa de Faraó. Não é a residência particular do homem: é o palácio, e no Egito o palácio era também sede de governo, com escritórios, depósitos, oficinas e alojamentos. Dizer que os enxames entraram ali é dizer que entraram no centro administrativo do país.

As casas dos servos. A elite egípcia morava em casas amplas, muitas vezes muradas, com jardim e espelho d'água. O interior da casa egípcia está descrito no estudo de Êxodo 8:4.

Toda a terra do Egito. A expressão percorre o capítulo — Êxodo 8:5, 8:6, 8:16, 8:17 — e é a fórmula da extensão total. Aqui, e só aqui, ela vem acompanhada do verbo da ruína.

O evento

É o cumprimento do que fora anunciado no dia anterior, com data marcada em Êxodo 8:23 — "amanhã acontecerá este sinal". O versículo registra que a data foi cumprida, sem dizer que hora era nem quanto tempo durou.

5. Pontos de Ensino

Anúncio e cumprimento são medidos um pelo outro

O que torna este versículo uma prova, dentro do relato, não é o tamanho da praga: é a data. Fora dito "amanhã", em Êxodo 8:23, e o "amanhã" chegou. Quem lê procurando o espetáculo perde o argumento; ele está no calendário, não no efeito.

O instrumento pode faltar sem que falte o resultado

Arão estendeu a mão duas vezes neste capítulo. Aqui não estendeu, e a praga veio igual. O texto não comenta a diferença, e é bom que não comente: qualquer conclusão sobre a dispensabilidade do mensageiro seria acrescentada.

O que se aprende é mais sóbrio — o gesto do enviado, quando existe, não é a causa do que acontece. Em Êxodo 8:19 quem percebeu isso, e disse em voz alta, foram os técnicos do outro lado.

A praga começa no topo

Um governante costuma ser o último a sentir o que atinge o país. Aqui ele é o primeiro, e a ordem da frase registra isso sem comentar: a casa dele, depois a dos funcionários, depois a terra. É dado de composição, não lição moral — o Êxodo não diz que assim devia ser; diz que assim foi.

Um país pode ser arruinado sem que ninguém morra

Não há mortos neste versículo, e mesmo assim o texto usa a palavra da ruína. Convém não confundir gravidade com violência: o que o versículo descreve é um território que deixou de servir, e isso basta para a palavra mais forte que o hebraico tinha à mão.

A explicação natural e a explicação pelo sinal não se excluem

É ponto de método, e ele vale além deste capítulo. Descobrir o mecanismo de um acontecimento não responde à pergunta de por que ele se deu na hora anunciada; e a hora anunciada não elimina o mecanismo. Quem trata as duas afirmações como rivais escolheu um problema que o texto não propõe.

Vale conferir o que o texto silencia

Três coisas que este versículo não diz e que costumam ser ditas por ele: que inseto era, que houve mortes, e que Gósen ficou intacta. O leitor que separa o que está escrito do que foi acrescentado depois lê melhor o capítulo inteiro.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe um problema antigo, e o põe sem querer: o que conta como prova de que um acontecimento foi causado por alguém?

O relato oferece dois elementos, e só dois. Houve um anúncio com data, e houve o acontecimento na data. Nada mais é apresentado — nenhum gesto, nenhuma palavra de poder, nenhum sinal que acompanhe.

Repare que esse é exatamente o tipo de evidência que a discussão moderna considera fraca. Coincidência entre previsão e fato não estabelece causa; um acerto isolado pode ser sorte, e há sempre a possibilidade de que a previsão tenha sido escrita depois. As duas objeções são razoáveis e não têm como ser afastadas aqui.

Mas há uma pergunta simétrica, e ela costuma ser esquecida: que evidência seria aceitável? Se o mecanismo natural estiver disponível, diz-se que a causa é natural; se não estiver, diz-se que ainda não foi encontrada. Um critério que recusa de antemão qualquer resultado não é rigor — é a decisão tomada antes do exame.

O Êxodo não entra nessa discussão e não a conhece. Ele registra o anúncio, registra o cumprimento e segue. A questão de saber o que bastaria para convencer alguém é do leitor, e é honesto dizer que ela não se resolve com este versículo nem com nenhum outro do capítulo.

Vale acrescentar um ponto que o próprio relato fornece. No capítulo, quem viu tudo de perto foram os técnicos do rei — e eles mudaram de opinião em Êxodo 8:19, enquanto o rei, que viu o mesmo, não mudou. Isso sugere que o problema, ali, não era de evidência. Mas é leitura, e o texto não a formula.

7. Aplicações Práticas

Prazo dito é prazo cobrável

A única coisa que este versículo prova, dentro do relato, é que o que fora marcado para o dia seguinte aconteceu no dia seguinte. É pouco e é tudo.

A aplicação é direta e não precisa de rodeio: quem anuncia data assume o risco de ser conferido. Quem não anuncia nunca erra e nunca acerta — e é por isso que a promessa sem prazo não vale nada, em qualquer relação. Vale reparar que, no capítulo, é sempre do lado de Moisés que a data aparece: em Êxodo 8:10 ele aceita o prazo dado pelo rei e o cumpre; aqui a data anunciada em Êxodo 8:23 se cumpre de novo.

O dano que não mata é dano

A praga deste versículo não fere ninguém e arruína um país. Há uma categoria inteira de perda que funciona assim — a que não produz vítima identificável, e que por isso demora a ser levada a sério: o terreno que se degrada, o serviço que se deteriora, a convivência que azeda.

Quem só reage ao dano visível chega tarde nesse tipo de caso. O versículo não ensina isso; ele apenas descreve um estrago sem morto e usa, para descrevê-lo, a palavra mais forte que tinha.

Um limite honesto

Convém dizer o que este versículo não oferece. Ele não traz conselho sobre conduta, não descreve escolha humana nenhuma e não tem personagem que decida coisa alguma. É um versículo de execução, e versículo de execução aplica-se mal à vida prática.

Quem procurar aqui uma lição sobre paciência, sobre provação ou sobre o que fazer diante da dificuldade estará trazendo de fora o que o texto não pôs. O material para isso está nos versículos da negociação, de Êxodo 8:25 em diante, e é lá que este comentário o desenvolve.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que desta vez não houve gesto de Arão?

O Êxodo não diz. Registra a ordem em Êxodo 8:20 — que é de falar ao rei, não de estender coisa nenhuma —, e depois registra o cumprimento. Entre um e outro não há instrução a Arão.

Repare que a própria ordem já era diferente: nas duas pragas anteriores Deus mandou Moisés dizer a Arão o que fazer; no anúncio desta, mandou Moisés falar a Faraó e mais nada. A ausência do gesto, portanto, não é um esquecimento do relato — está prevista na ordem. O que fica sem explicação é o motivo da mudança.

O que aconteceu em Gósen?

O versículo não informa, e é o único ponto em que o cumprimento fica devendo ao anúncio. Êxodo 8:22 prometera que ali não haveria enxames; este versículo fala do Egito e cala sobre Gósen.

Há duas saídas, e nenhuma se impõe. A primeira: "em toda a terra do Egito" já exclui Gósen, e repetir seria redundante. A segunda: o Êxodo simplesmente não relata o cumprimento dessa parte, como não relata tantas outras. Não é possível decidir.

Se a terra foi arruinada, do que os egípcios viveram depois?

A pergunta é boa e o texto não a enfrenta. O verbo da ruína é forte, mas o relato segue adiante com o país funcionando: há corte, há servos, há povo, e nas pragas seguintes haverá gado e haverá colheita.

Duas leituras são defensáveis. Ou a expressão é de intensidade, e descreve um estrago grande sem pretender inventário — o hebraico usa fórmulas totais com frequência, e o próprio capítulo o faz em Êxodo 8:17, "todo o pó da terra". Ou o dano é real e o relato não se interessa pela recuperação. O versículo não permite escolher.

Se há explicação natural, o relato perde alguma coisa?

Depende inteiramente do que se espera dele. Se o que estiver em jogo for a impossibilidade física do acontecimento, sim: uma explicação disponível desmonta o argumento. Se o que estiver em jogo for a coincidência entre a palavra dita e o fato na data, não: o mecanismo não toca nisso.

O próprio Antigo Testamento não tem o pudor que os seus defensores costumam ter. Em Êxodo 14:21 o mar se abre por um vento forte que sopra a noite inteira, e o texto nomeia o vento sem constrangimento.

9. Conexão com Outros Textos

O anúncio que este versículo cumpre

Êxodo 8:21 — "Porque, se você não deixar o meu povo ir, eis que enviarei enxames sobre você, sobre os seus servos, sobre o seu povo e nas suas casas; e as casas dos egípcios se encherão de enxames, e também o chão em que eles estiverem."

Ponha os dois lado a lado e confira a troca. O anúncio nomeia pessoas — você, os servos, o povo — e acrescenta as casas no fim. O cumprimento começa pelas casas e não menciona corpo nenhum. E o "chão em que eles estiverem", do anúncio, vira aqui "a terra foi arruinada".

A data marcada

Êxodo 8:23 — "E porei um resgate entre o meu povo e o seu povo. Amanhã acontecerá este sinal."

É a frase que dá a este versículo o seu estatuto de prova dentro do relato. O problema de tradução da primeira metade — resgate ou distinção — pertence ao estudo daquele versículo.

As duas execuções anteriores, para comparar

Êxodo 8:6 — "Arão estendeu a mão sobre as águas do Egito, e as rãs subiram e cobriram a terra do Egito."

Êxodo 8:17 — "Assim fizeram: Arão estendeu a mão com o seu cajado e feriu o pó da terra, e houve piolhos nos homens e nos animais; todo o pó da terra virou piolhos em toda a terra do Egito."

As três execuções do capítulo, na ordem. Nas duas primeiras há um homem, uma mão e um alvo material — a água, o pó. Na terceira não há nenhuma das três coisas.

O percurso invertido

Êxodo 8:3 — "O Nilo fervilhará de rãs, e elas subirão e entrarão na sua casa, no seu quarto de dormir e na sua cama, na casa dos seus servos e no meio do seu povo, nos seus fornos e nas suas amassadeiras."

Sete degraus contra três. Ali a praga entra pelo rio e avança até a cama e o pão; aqui parte do palácio e se espalha pelo país.

Onde mais a terra é "arruinada"

Gênesis 6:11 — "Mas a terra estava corrompida diante de Deus, e a terra se encheu de violência."

Gênesis 19:13 — "porque vamos destruir este lugar; pois o clamor contra ele se tornou grande diante do SENHOR, e o SENHOR nos enviou para destruí-lo."

É a mesma raiz nos três textos, e a diferença de causa é o que importa. No Gênesis o que arruína a terra é a conduta de quem a habita; aqui, a causa está declarada no fim da frase e é material — os enxames.

O outro desastre que consome a terra do Egito

Gênesis 41:30 — "Depois deles se seguirão sete anos de fome, e toda a fartura será esquecida na terra do Egito; a fome consumirá a terra."

Vale a comparação porque o sujeito é o mesmo país e o verbo é outro. Lá a terra é consumida pela fome, e o relato acompanha a consequência durante um capítulo inteiro. Aqui a terra é arruinada pelos insetos, e o assunto se encerra na mesma frase: o versículo seguinte já está na sala do palácio, com o rei chamando Moisés.

Quem havia saído de cena

Êxodo 8:19 — "Então os magos disseram a Faraó: 'Isto é o dedo de Deus.' Mas o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."

É a última aparição dos magos no capítulo. Depois dela não voltam — nem aqui, nem na negociação que começa no versículo seguinte.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E o SENHOR fez assim: entraram enxames pesados na casa de Faraó e nas casas dos seus servos; e em toda a terra do Egito a terra foi arruinada por causa dos enxames.

Texto hebraico

וַיַּעַשׂ יְהוָה כֵּן וַיָּבֹא עָרֹב כָּבֵד בֵּיתָה פַרְעֹה וּבֵית עֲבָדָיו וּבְכָל־אֶרֶץ מִצְרַיִם תִּשָּׁחֵת הָאָרֶץ מִפְּנֵי הֶעָרֹב׃

Transliteração

wa-ya'as YHWH ken; wa-yavo arov kaved beitah Far'oh u-veit avadav, u-ve-khol-erets Mitsrayim tishachet ha-arets mi-penei he-arov.

Análise palavra por palavra

וַיַּעַשׂ יְהוָה כֵּן — wa-ya'as YHWH ken, "e o SENHOR fez assim".

Verbo asah, fazer, na forma que encadeia a narrativa, terceira pessoa masculina do singular, com o sujeito expresso logo depois. Ken é o advérbio "assim", "desse modo", e aponta para trás: refere-se ao que foi anunciado.

É fórmula de cumprimento, e ela tem um par exato no capítulo. Em Êxodo 8:13 lê-se wa-ya'as YHWH ki-dvar Mosheh, "e o SENHOR fez conforme a palavra de Moisés", e a mesma fórmula voltará em Êxodo 8:31. Nos dois casos o cumprimento é de um pedido humano. Aqui, e só aqui, o cumprimento é de uma palavra do próprio Deus: não há conforme a palavra de, há apenas assim.

וַיָּבֹא — wa-yavo, "e entrou, e veio".

Verbo bo, cujo sentido básico é vir, entrar, chegar. É o verbo de quem vem de fora para dentro, e o oposto exato de yatsa, sair — o par que estrutura a linguagem do Êxodo inteiro, inclusive na saída do Egito.

Repare que ele está no singular, embora o português precise pôr "entraram". O hebraico trata o enxame como uma coisa só, e é assim que a palavra seguinte funciona.

Vale o contraste com as duas pragas anteriores. As rãs subiram (alah), verbo de movimento de baixo para cima, do rio para a terra; os piolhos simplesmente houve, com o verbo de existência. Aqui a praga chega — e o texto não diz de onde.

עָרֹב — arov, "enxame".

Substantivo masculino singular, usado como nome de conjunto, do mesmo modo que se diz "gado" ou "cardume". A palavra ocorre nove vezes na Bíblia hebraica: seis neste capítulo, em Êxodo 8:21, 8:22, 8:24 duas vezes, 8:29 e 8:31, e mais três nos salmos que recontam as pragas, nos Salmos 78:45 e 105:31.

Ela não nomeia inseto nenhum. A raiz é a de "misturar", e quase toda tradução moderna acrescenta "de moscas", palavra que não está no hebraico. O problema — quem acrescentou, quando e por quê — pertence ao estudo de Êxodo 8:21, e aqui basta registrar que a ABC não acrescenta.

Note-se um detalhe de artigo que as traduções apagam: nesta primeira ocorrência do versículo a palavra vem sem artigo — um enxame, algo que aparece —, e na segunda, no fim da frase, vem com artigo: he-arov, "o enxame", aquele que acabou de ser mencionado. É o funcionamento normal do hebraico, e mostra que a frase apresenta primeiro e retoma depois.

כָּבֵד — kaved, "pesado".

Adjetivo masculino singular, concordando com arov. A raiz significa ter peso, ser maciço, ser grave, e dela vem tanto o substantivo que designa o fígado — o órgão pesado do corpo — quanto a palavra que se traduz por "glória", que é literalmente o peso de alguém.

O uso com o sentido de "numeroso, intenso" é corrente: aplica-se à fome em Gênesis 12:10 e 41:31, ao trabalho em Êxodo 5:9, ao exército e ao rebanho. Não é palavra rara nem escolha exótica.

E é a mesma raiz que o capítulo aplica ao coração do rei em Êxodo 8:15 e 8:32, na forma causativa: hikhbid, "tornou pesado". O sistema dos três verbos que o português achata em "endurecer" está tratado no estudo de Êxodo 4:21, e não se refaz aqui. Que a raiz é a mesma, é verificável; que haja trocadilho, é hipótese — e uma hipótese enfraquecida pelo fato de a palavra ser das mais comuns da língua.

בֵּיתָה פַרְעֹה וּבֵית עֲבָדָיו — beitah Far'oh u-veit avadav, "casa adentro de Faraó, e a casa dos seus servos".

Há aqui uma miudeza que vale conhecer. Na primeira ocorrência, a palavra bayit, casa, traz a terminação -ah, que em hebraico marca direção — a mesma de Mitsraymah, "para o Egito", em Êxodo 4:21. O hebraico não diz que houve enxames na casa do rei: diz que o enxame entrou casa adentro, e o movimento está na própria palavra.

Na segunda ocorrência ela vem no singular, ligada ao termo seguinte: literalmente "a casa dos servos dele". O português precisa do plural; o hebraico usa o singular com valor coletivo. E avadav, "os seus servos", é a palavra que no Êxodo designa tanto os funcionários do rei — como aqui — quanto os israelitas escravizados; o contexto é que decide.

וּבְכָל־אֶרֶץ מִצְרַיִם — u-ve-khol-erets Mitsrayim, "e em toda a terra do Egito". Fórmula fixa do capítulo, repetida em Êxodo 8:5, 8:6, 8:16 e 8:17. Erets é terra no sentido de território, país.

תִּשָּׁחֵת הָאָרֶץ — tishachet ha-arets, "a terra foi arruinada".

Esta é a palavra decisiva do versículo.

Verbo shachat na forma Nifal — a forma passiva ou reflexiva do hebraico —, imperfeito, terceira pessoa feminina do singular, concordando com erets, que é feminina. A forma pode ser lida como passiva ("foi arruinada") ou como reflexiva ("arruinou-se"), e as traduções antigas divergem entre as duas.

O campo da raiz é o da destruição e da deterioração: estragar, corromper, perder-se, apodrecer. Ela cobre desde o cinto que apodrece na terra, em Jeremias 13:7, até a destruição de cidades. Não é o verbo de sujar nem o de danificar levemente.

A construção exata — esta raiz, nesta forma, com "a terra" por sujeito — é a do relato do dilúvio, em Gênesis 6:11-12, onde a mesma forma verbal aparece duas vezes. O campo semântico inteiro foi desenvolvido nos estudos daqueles versículos, com as ocorrências e as leituras.

מִפְּנֵי הֶעָרֹב — mi-penei he-arov, "por causa do enxame".

Preposição composta, de min, "a partir de", com o estado ligado de panim, "face". Ao pé da letra: "de diante do enxame". Em hebraico ela indica tanto causa quanto afastamento diante de alguma coisa, e os dois usos cabem aqui.

Vale pôr esta expressão ao lado da do Gênesis, porque as duas usam a mesma palavra. No dilúvio a terra está arruinada lifnei ha-Elohim, "diante de Deus": a ruína é medida por um olhar. Aqui ela é arruinada "de diante do enxame": a causa é material e vem declarada. E a mesma expressão volta em Êxodo 8:29 e 8:31, ali para dizer que o enxame se afastou. É discutido se há intenção nesses ecos; o texto não permite decidir.

11. Conclusão

Do que foi examinado decorrem quatro conclusões, e nenhuma delas precisa de mais do que o versículo fornece.

A praga que chega sem mão humana mostra que o gesto do enviado nunca foi a causa. Duas vezes neste capítulo Arão estendeu a mão; na terceira não houve gesto, e o resultado foi o mesmo. O Êxodo não comenta, e é por isso que a conclusão tem de ficar onde ficou: o que o relato apresenta como causa é a palavra dita antes, não o instrumento.

O que faz deste versículo uma prova, dentro do relato, é a data. Não o tamanho do estrago, não a novidade do fenômeno. Foi anunciado para o dia seguinte e veio no dia seguinte — e é só sobre isso que a discussão das causas naturais não tem o que dizer. Quem monta a defesa do texto sobre a impossibilidade física escolheu o terreno errado; quem monta o ataque sobre a disponibilidade de um mecanismo escolheu o mesmo terreno errado, do outro lado.

A ordem de entrada inverte a ordem habitual do poder. O palácio primeiro, os funcionários depois, o país por último. Não há lição moral no texto sobre isso, e não se deve fabricar uma: há uma frase que registra, sem comentário, que desta vez o rei foi o primeiro a saber.

E há uma quarta conclusão, de leitura. Ao escolher, para o efeito desta praga, a palavra com que o Gênesis descreveu a terra às vésperas do dilúvio, o Êxodo diz o que nenhuma tradução transmite: não se trata de incômodo, trata-se de um território que deixou de servir. A diferença de causa — lá a conduta dos habitantes, aqui os insetos — impede transformar a coincidência em doutrina.

O capítulo, a partir daqui, muda de assunto. Das três pragas, esta é a última, e o que vem a seguir não é mais praga nenhuma — é negociação.

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Êxodo 8:24

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