📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 8:21

›
✍️ Por Alberto Adriano·16 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 37 acessos
Porque, se você não deixar o meu povo ir, eis que enviarei enxames sobre você, sobre os seus servos, sobre o seu povo e nas suas casas; e as casas dos egípcios se encherão de enxames, e também o chão em que eles estiverem.
Interior de uma casa egípcia com a porta aberta para o pátio, o ar denso de pontos escuros em movimento, e o chão de terra batida coberto por eles.

Estudo


Porque, se você não deixar o meu povo ir, eis que enviarei enxames sobre você, sobre os seus servos, sobre o seu povo e nas suas casas; e as casas dos egípcios se encherão de enxames, e também o chão em que eles estiverem.

1. Introdução

Este é o versículo da quarta praga, e ele tem um problema logo na primeira leitura: não se sabe do que são os enxames.

A palavra hebraica não nomeia inseto nenhum. Ela vem da raiz de misturar, e o que diz é alguma coisa como "a mistura", "a mistura toda". Quem pôs "moscas" na frase foram as traduções antigas, cada uma à sua maneira — e desde então quase toda Bíblia em português traz "moscas" ou "mosca-do-cão", palavras que o texto hebraico não contém. A nossa versão conserva a indefinição e escreve apenas "enxames"; o item 10 expõe a disputa inteira.

O versículo tem ainda três coisas próprias.

A primeira é o modo da ameaça. Não há cajado, não há Arão, não há gesto e não há instrumento. O verbo é enviar, e quem envia fala na primeira pessoa. Das três pragas anteriores, todas passaram por uma mão humana; esta não passa.

A segunda é o alvo. A lista começa pelo rei e termina nas casas: você, os seus servos, o seu povo, as suas casas — e depois as casas dos egípcios em geral. É a primeira vez no capítulo que o texto nomeia os egípcios como povo.

A terceira é a última frase, que é a mais estranha do versículo: "e também o chão em que eles estiverem". Não se sabe ao certo quem são "eles", e o item 3 examina as possibilidades.

Repare, por fim, que a ameaça continua condicional. "Se você não deixar o meu povo ir" — a porta ainda está aberta, e será a última vez no capítulo em que ela é aberta antes de uma praga.

2. Contexto Histórico e Cultural

No Egito, a mosca era uma condecoração

Este é o dado de fundo que mais muda a leitura do versículo, e ele é pouco conhecido.

O Egito tinha um sistema de recompensas militares. Um soldado que se distinguisse recebia do rei objetos de ouro — colares, braceletes, pingentes —, e o conjunto dessas honrarias tinha nome: o ouro do valor. A cerimônia de entrega, com o rei aparecendo numa varanda do palácio, está tratada no estudo de Gênesis 41:42, e não se refaz aqui.

O que interessa é a forma de uma dessas peças. Era uma mosca.

O exemplar mais famoso vem do enterro da rainha Ahhotep, escavado em Tebas, no começo da décima oitava dinastia: três grandes moscas de ouro maciço, penduradas numa corrente de ouro, hoje no museu do Cairo. É o mesmo enterro de que o estudo de Gênesis 45:19 tirou o carro de rodas com raios mais antigo que se conhece — e a coincidência de fonte é casual: aquele item tratava de transporte, e este trata de honraria militar.

Há outros exemplares, menores, em ouro e em outros materiais, recolhidos em túmulos de soldados e de oficiais. A peça era, portanto, uma insígnia real, entregue a quem tinha feito por merecer.

Por que uma mosca?

Aqui é preciso ser honesto, porque a explicação bonita é moderna.

Nenhum texto egípcio conhecido explica a escolha. Não há decreto, inscrição nem comentário antigo que diga o que a mosca representava naquela condecoração. O que existe é uma interpretação que os egiptólogos propõem e repetem: a mosca seria o emblema da persistência — o bicho que não larga, que volta por mais que se enxote, que persegue sem cansar. Um soldado assim é o soldado que não solta o inimigo.

A leitura é plausível e é a corrente, mas continua discutida, e quem a apresentar como fato estará apresentando como fato uma inferência.

E a mosca comum, no dia a dia

Fora da honraria, o inseto estava em toda parte, e o Egito lidava com ele de dois modos.

Um era prático: espantar. O abanador de mão — que serve ao mesmo tempo para fazer vento e para afastar bicho — era objeto de corte, e "portador do leque à direita do rei" foi título honroso, exibido por altos funcionários nas próprias biografias de túmulo. Quem espantava moscas do rei ocupava um cargo de prestígio.

O outro era protetor: os egípcios usavam amuletos em forma de mosca, pequenos, em pedra semipreciosa, faiança ou metal, enfiados em colares junto com outras contas. Aparecem em enterros desde o Reino Médio, e com frequência em sepulturas de mulheres e de crianças. Para que exatamente serviam é discutido — supõe-se proteção, e a hipótese mais citada liga o amuleto ao mesmo traço que a condecoração celebrava, a tenacidade.

O que isso permite dizer, e o que não permite

Permite dizer que o inseto não era, para um egípcio, um detalhe desprezível de paisagem. Era imagem de insistência, e imagem de honra militar. Um país que premiava soldados com moscas de ouro sabia exatamente o que é ser perseguido por algo que não desiste.

Não permite dizer que o Êxodo esteja aludindo a isso. E aqui a ressalva é mais forte que de costume, por um motivo simples: o texto hebraico não diz "mosca". Não nomeia inseto nenhum. Quem monta a aproximação está trabalhando com uma palavra que as traduções puseram no versículo, e não com a que está nele.

O fundo serve, portanto, para uma coisa e não para outra. Serve para mostrar o que o inseto significava naquele mundo, caso fosse mosca. Não serve para decidir que era.

3. Análise Teológica do Versículo

“Porque, se você não deixar o meu povo ir”

A ameaça é condicional, e convém notar que ela ainda é.

A mesma estrutura abriu a praga das rãs, em Êxodo 8:2: "se você se recusar a deixá-lo ir, eis que ferirei…". Depois daquilo houve uma praga, uma negociação, uma promessa e uma recaída — e, ainda assim, a quarta praga é anunciada com um "se".

Isso significa uma coisa concreta: a praga não está decidida. O texto a apresenta como consequência de uma recusa que ainda não aconteceu, e não como castigo por recusas anteriores. É a última vez no capítulo em que uma praga é anunciada assim.

Repare, de passagem, no que a condição não faz. Não oferece nada novo, não reduz a exigência e não promete nada além de que a praga não virá. Não é proposta: é aviso.

“eis que enviarei enxames”

Aqui está a mudança de método, e ela é grande.

Nas três pragas anteriores havia sempre uma mão humana no meio do caminho. Arão devia estender o cajado sobre as águas, em Êxodo 7:19. Devia estendê-lo sobre os rios, em Êxodo 8:5. Devia ferir o pó, em Êxodo 8:16. Em todas, a praga passa por um gesto, um objeto e um homem.

Nesta, não. Não há ordem a Arão, não há cajado, não há gesto descrito e não há instrução sobre o que fazer. O verbo é "enviar", e quem envia fala em primeira pessoa: eu enviarei.

Some-se a isso que Moisés, neste ciclo, recebeu ordem de ir de mãos vazias — Êxodo 7:15 mandava levar o cajado, e Êxodo 8:20 não manda levar nada. A partir daqui o instrumento sai de cena no capítulo.

O Êxodo não comenta a mudança e não diz por que ela acontece justamente agora. Quem quiser ligá-la ao fracasso dos magos, no versículo 18, estará fazendo uma ligação que o texto não faz — ela é plausível, e não é afirmada.

“sobre você, sobre os seus servos, sobre o seu povo e nas suas casas”

Uma lista de quatro, e a ordem dela diz alguma coisa.

A escada de invasão das rãs, que subia do rio até a amassadeira de pão, é do estudo de Êxodo 8:3, e a que punha as rãs sobre os corpos é do de Êxodo 8:4. Nenhuma das duas se reabre.

O que é próprio desta lista é por onde ela começa e por onde termina. Começa no rei — "sobre você" — e só depois desce para os servos e para o povo. E termina nas casas, isto é, em coisas, depois de ter passado por pessoas.

É o percurso inverso do das rãs. Lá a praga vinha do rio, entrava na casa, subia na cama e chegava ao corpo do rei por último, de baixo para cima. Aqui ela é anunciada de cima para baixo, começando pela pessoa do rei.

O Êxodo não sublinha a inversão. Ela está na ordem das palavras.

“e as casas dos egípcios se encherão de enxames”

Duas coisas aqui, e as duas são novidades do capítulo.

A primeira: “os egípcios”. É a primeira vez que a palavra aparece em Êxodo 8. Até agora o texto dizia "a terra do Egito", "o seu povo", "o seu território" — o país e a gente do rei. Agora há um nome de povo, e ele volta a aparecer só em Êxodo 8:26, onde será o povo diante de quem não se pode sacrificar.

A mudança de vocabulário acompanha o que está sendo dito. Até aqui a praga era um problema do Egito como Estado; a partir daqui é um problema dos egípcios como pessoas que moram em casas.

A segunda: “se encherão”. O verbo é o de encher até a boca, e é ele que mede a praga. Não se diz quantos são, não se diz de que tamanho, não se diz quanto tempo ficam. Diz-se que as casas ficam cheias — e uma casa cheia de bicho é uma casa em que não se pode estar.

Vale medir a diferença em relação às rãs. Elas entraram na casa, subiram na cama, chegaram ao forno: o texto descreveu trajeto. Aqui não há trajeto. Há um estado final, e ele é dado de uma vez.

“e também o chão em que eles estiverem”

Esta é a frase difícil do versículo, e ela é difícil por dois motivos.

Primeiro: quem são “eles”?

O hebraico traz um pronome no plural sem antecedente claro, e há duas leituras.

Pode ser os egípcios: o chão em que eles pisam, isto é, o terreno que ocupam. A frase seria, então, um acréscimo de alcance — não bastam as casas, a praga alcança também o lado de fora.

Pode ser os enxames: o chão em que eles estão, ou seja, o solo já coberto por eles. A frase seria uma descrição de densidade — os bichos não estão só no ar, estão no chão também.

A maior parte das traduções segue a primeira, e ela é a mais natural em português. Não é possível decidir pelo hebraico, e as duas dizem coisas compatíveis.

Segundo: por que mencionar o chão?

Porque é o que fecha a fuga. Uma casa cheia de bicho se abandona; o quintal, o campo e a rua, não.

E há um detalhe que só aparece lendo o capítulo em sequência. A praga anterior saiu do chão — o pó foi ferido e virou piolho, em Êxodo 8:16-17. Esta cobre o chão. Uma veio de baixo, a outra pousa em cima; e o Êxodo, que usa três palavras diferentes para o solo ao longo do capítulo, usa aqui a do terreno cultivado, aquele de onde sai alimento. O item 10 trata da distinção.

O texto não comenta a simetria. Ela está lá para quem a vir.

E o que o versículo não diz

Falta o principal, e é honesto pôr no fim: não se diz do que são os enxames.

A palavra hebraica não é nome de bicho. Não significa mosca, não significa besouro, não significa mosquito. Vem da raiz de misturar, e a tradução literal mais próxima seria alguma coisa como "a mistura".

Isso cria uma situação incômoda e vale enfrentá-la de frente. Toda tradução que escreve "moscas" neste versículo decidiu por conta própria uma questão que o hebraico deixou aberta — e quase todas escrevem. A nossa não escreve, e é por isso que o versículo, em português, soa mais vago do que o leitor está acostumado: ele é mais vago no original.

O que se ganha com isso é a possibilidade de ler o resto do episódio sem a imagem pronta. O que se perde é o conforto. As propostas antigas e modernas, e o que cada uma tem a favor, estão no item 10.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Destinatário direto da ameaça, e o primeiro nome da lista: "sobre você". Nas pragas anteriores ele vinha depois do país ou junto com o povo; aqui abre a enumeração.

Continua sem falar. Desde Êxodo 8:15 ele não abre a boca, e só voltará a falar em Êxodo 8:25.

Os servos de Faraó

A corte e a administração: os funcionários que cercam o rei, e não empregados domésticos. São o segundo degrau da lista, entre o rei e o povo, e aparecem nessa mesma posição em quase todas as pragas.

“O seu povo” e “os egípcios”

São a mesma gente, nomeada de dois jeitos na mesma frase — primeiro pela relação com o rei, depois pelo nome do povo.

A segunda designação é nova em Êxodo 8: é aqui que a palavra "egípcios" entra no capítulo. Ela voltará uma vez, em Êxodo 8:26, e ali serão eles os ofendidos por um sacrifício.

“O meu povo”

Mencionado na condicional, e é a peça que o texto vai opor a "o seu povo" em Êxodo 8:23. Aqui as duas expressões ainda estão separadas por três versículos.

Os enxames

O agente da praga, e a única praga do livro cujo agente não tem nome de espécie. O que se sabe e o que se discute sobre a palavra está no item 10.

Não são enviados por gesto humano: quem os envia fala em primeira pessoa.

As casas

Aparecem duas vezes na mesma frase — as do rei e as dos egípcios — e é nelas que a praga se instala. É a segunda praga do capítulo a entrar em casa; a primeira foram as rãs, em Êxodo 8:3.

O chão

A terceira palavra que o capítulo usa para o solo, e a que designa terreno cultivado. Fecha a lista de lugares atingidos e elimina a possibilidade de sair de casa para escapar.

O acontecimento

O anúncio da quarta praga, e a primeira do segundo grupo de três. Vem logo depois da ordem de Êxodo 8:20, na mesma fala, à margem da água.

5. Pontos de Ensino

A ameaça ainda é condicional

Depois de três pragas e de uma promessa quebrada, o anúncio ainda começa com "se". O Êxodo não apresenta a quarta praga como acerto de contas pelas anteriores: apresenta-a como consequência de uma recusa que ainda não houve.

O texto não nomeia o inseto, e a tradução costuma nomear

É o ponto de método mais útil deste versículo. A palavra hebraica não contém nome de bicho nenhum, e quase toda Bíblia em português traz "moscas". Quem lê traduções lê decisões — e é bom saber quais foram tomadas em nome de quem lê.

Some o instrumento

Não há cajado, não há gesto, não há Arão. Quem lê versículo a versículo não percebe; quem acompanha o capítulo vê que as três primeiras pragas passaram por uma mão humana e esta não passa. O Êxodo não explica a mudança.

A praga que enche a casa

O verbo é o de encher até a boca. Não há descrição de trajeto, de quantidade nem de duração: há um estado final. Uma casa cheia de bicho é uma casa em que não se pode estar — e o versículo acrescenta o chão de fora justamente para fechar a saída.

Os egípcios ganham nome

Até aqui o capítulo falava do país e do povo do rei. Agora fala dos egípcios. A praga deixa de ser assunto de Estado e passa a ser assunto de quem mora numa casa.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta um problema que parece técnico e não é: o que acontece com uma descrição quando falta a palavra central dela?

O texto anuncia uma praga e não diz de que ela é feita. Não é omissão de detalhe secundário — é o nome da coisa que está sendo anunciada. E, no entanto, a frase funciona: qualquer leitor entende que algo em quantidade vai invadir casas e cobrir o chão.

Isso mostra que descrever não é o mesmo que nomear. Uma coisa pode ser identificada pelo que faz, pela quantidade em que vem e pelo lugar que ocupa, sem que se diga o que ela é. É assim que se fala de quase tudo o que assusta: pelo efeito, antes da espécie.

Daí sai o segundo problema, e ele é de quem traduz. Diante de uma palavra que não nomeia, o tradutor tem duas saídas, e as duas custam. Se conserva a indefinição, entrega ao leitor uma frase menos nítida do que ele espera. Se escolhe um bicho, entrega uma frase nítida que diz mais do que o original.

Não há terceira saída, e é bom que quem lê saiba disso. Toda tradução decide, e a decisão mais honesta não é necessariamente a mais confortável.

Convém o limite: o texto não levanta nenhuma dessas questões. Ele anuncia a praga e segue. Quem repara na palavra que falta é quem lê o hebraico, ou quem lê um comentário que a aponte.

7. Aplicações Práticas

É um versículo de anúncio, e o que ele oferece para a vida prática é pouco. Duas coisas, e nenhuma delas é lição moral.

Um aviso que ainda é aviso

A ameaça vem com "se", depois de três recusas. Quem quer que tenha lidado com prazo vencido, contrato descumprido ou promessa quebrada conhece o ponto em que se para de avisar e se passa a agir. Este versículo não chegou lá.

Não há aqui um conselho sobre paciência — o Êxodo não a elogia e não a recomenda. Há um dado sobre o procedimento: enquanto o "se" estiver no enunciado, o outro lado ainda tem o que fazer, e saber distinguir um aviso de uma sentença é parte de saber ler qualquer notificação.

Ler a palavra que está escrita, e não a que se espera

Esta é a aplicação real do versículo, e vale muito além da Bíblia.

O texto diz "enxames" e quase toda tradução diz "moscas". Não há má-fé: há tradutores resolvendo uma dificuldade e entregando ao leitor um resultado mais claro do que o original. O leitor, porém, recebe a decisão sem o aviso de que houve decisão.

O mesmo acontece fora dos livros antigos — num laudo, num contrato, numa manchete, num resumo de reunião. Entre o que foi dito e o que chega até você costuma haver alguém que preencheu uma lacuna para facilitar. A pergunta útil, diante de qualquer texto que importe, é simples: isto estava escrito, ou alguém completou?

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Afinal, o que eram os enxames?

Não se sabe. A palavra hebraica não nomeia bicho: vem da raiz de misturar. As versões antigas se dividiram entre uma mosca que morde e uma mistura de criaturas, e os comentaristas modernos continuam divididos. Não é possível decidir, e o item 10 expõe cada proposta com o que ela tem a favor.

Por que não há cajado desta vez?

O Êxodo não diz. Registra que a praga será enviada, em primeira pessoa, sem gesto e sem instrumento — e, de fato, nada mais será feito com o cajado neste capítulo.

A explicação mais repetida liga a mudança ao fracasso dos magos, em Êxodo 8:18: sem ninguém para imitar o gesto, o gesto deixaria de ser necessário. É plausível e é elegante, e o texto não a enuncia.

“O chão em que eles estiverem” — eles quem?

Ou os egípcios, ou os próprios enxames. As duas leituras cabem no hebraico, e o item 3 as examina. A maioria das traduções segue a primeira.

Se a praga enche as casas, para onde as pessoas vão?

É exatamente o que a última frase responde, e é por isso que ela existe. Enche a casa, e cobre também o chão de fora. Não há para onde ir, e o versículo faz questão de fechar essa porta antes que o leitor a abra.

Por que os israelitas não são mencionados aqui?

Porque a exceção só será anunciada no versículo seguinte. Este versículo descreve o alcance da praga sem ressalva nenhuma — "as casas dos egípcios" e o chão — e é justamente contra esse pano que Êxodo 8:22 vai recortar Gósen.

Vale notar a ordem: primeiro o alcance total, depois a exceção. Se fosse o contrário, a exceção não teria de que se destacar.

Por que a condicional, se as três anteriores não adiantaram?

O Êxodo não responde, e não apresenta a repetição como estratégia nem como esperança. O que se pode observar é o dado: quatro entregas da mesma exigência, e esta ainda vem com um "se". A partir daqui, e até o fim do capítulo, não haverá mais nenhuma.

9. Conexão com Outros Textos

A ameaça gêmea, na praga das rãs

Êxodo 8:2 — "Se você se recusar a deixá-lo ir, eis que ferirei todo o seu território com rãs."

Mesma estrutura condicional, mesmo "eis que". Mudam duas coisas: lá o verbo é ferir e o alvo é o território; aqui o verbo é enviar e o alvo é uma lista de pessoas e de casas.

A escada da praga anterior, para comparação

Êxodo 8:4 — "As rãs subirão em você, no seu povo e em todos os seus servos."

Três nomes, e os mesmos três. A ordem, porém, é outra — ali o povo vem antes dos servos, aqui os servos vêm antes do povo —, e ali não há casas. A escada das rãs, que sobe do rio até o pão, é do estudo de Êxodo 8:3.

A praga que este versículo anuncia, executada

Êxodo 8:24 — "E o SENHOR fez assim: entraram enxames pesados na casa de Faraó e nas casas dos seus servos; e em toda a terra do Egito a terra foi arruinada por causa dos enxames."

O cumprimento é mais curto que o anúncio e acrescenta duas coisas que não estavam aqui: o peso dos enxames e a ruína da terra.

As duas vezes em que um salmo recontou esta praga

Salmo 78:45 — "Enviou entre eles variedades de moscas, que os consumiu; e rãs, que os destruíram."

Salmo 105:31 — "Ele falou, e vieram vários bichos e piolhos em todos os seus limites."

São as duas únicas ocorrências da palavra fora de Êxodo 8, e as duas em recontagens poéticas das pragas. Repare em como as traduções hesitam — "variedades de moscas", "vários bichos" —, e repare no verbo do Salmo 78: os enxames consomem. É o argumento mais forte de quem sustenta que se trata de bicho que morde, e está examinado no item 10.

Note-se ainda que nos dois salmos, como neste versículo, quem envia é Deus — sem cajado, sem gesto e sem intermediário.

O outro sentido da mesma raiz

Êxodo 12:38 — "Subiu com eles uma grande mistura de gente; também rebanhos e gados, muitíssimas cabeças."

A palavra traduzida ali por "mistura" vem da mesma raiz de "enxames". No mesmo livro, portanto, a raiz descreve uma praga que enche as casas do Egito e um ajuntamento de gente que sai dele — e o Êxodo não faz nenhum gancho entre as duas.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Porque, se você não deixar o meu povo ir, eis que enviarei enxames sobre você, sobre os seus servos, sobre o seu povo e nas suas casas; e as casas dos egípcios se encherão de enxames, e também o chão em que eles estiverem.

Texto hebraico

כִּי אִם־אֵינְךָ מְשַׁלֵּחַ אֶת־עַמִּי הִנְנִי מַשְׁלִיחַ בְּךָ וּבַעֲבָדֶיךָ וּבְעַמְּךָ וּבְבָתֶּיךָ אֶת־הֶעָרֹב וּמָלְאוּ בָּתֵּי מִצְרַיִם אֶת־הֶעָרֹב וְגַם הָאֲדָמָה אֲשֶׁר־הֵם עָלֶיהָ׃

Transliteração

ki im-eynekha meshalleach et-ammi, hineni mashliach bekha u-va-avadeikha u-ve-ammekha u-ve-vateikha et-he-arob; u-male'u battei Mitsrayim et-he-arob, we-gam ha-adamah asher-hem aleha.

Análise palavra por palavra

כִּי אִם־אֵינְךָ מְשַׁלֵּחַ — ki im-eynekha meshalleach, "porque, se você não está deixando ir".

Eyn com sufixo é a negação do hebraico aplicada a um estado: "você não é", "você não está". Seguida do particípio meshalleach, produz uma negativa de ação em curso — não "se você não deixar", no futuro, mas "se você não está deixando", agora, enquanto a frase é dita.

O particípio é de shalach, na forma intensiva do hebraico (o Piel), que com esta raiz significa soltar, liberar, mandar embora. O alcance jurídico da palavra — ela é o termo de dar alforria — está no estudo de Êxodo 4:23.

הִנְנִי מַשְׁלִיחַ — hineni mashliach, "eis que eu estou enviando".

E aqui está o achado do versículo, que nenhuma tradução consegue mostrar.

Mashliach é a mesma raiz de meshalleach, quatro palavras antes. A diferença está na forma: uma está na intensiva (o Piel), a outra na causativa (o Hiphil). E o sentido de cada uma puxa para um lado oposto.

Meshalleach: soltar alguém que está preso — mandar embora, liberar.
Mashliach: soltar alguma coisa contra alguém — desencadear, largar em cima.

Ao pé da letra, portanto, a frase diz: "se você não solta o meu povo, eu solto sobre você os enxames". É o mesmo verbo nos dois lados da condição, e o português precisa de duas palavras diferentes — "deixar ir" e "enviar" — para dizer o que o hebraico diz com uma.

Some-se hineni, "eis-me", que com o particípio marca ação iminente: não é promessa para depois, é o que já está a caminho.

בְּךָ וּבַעֲבָדֶיךָ וּבְעַמְּךָ וּבְבָתֶּיךָ — bekha u-va-avadeikha u-ve-ammekha u-ve-vateikha, "em você, nos seus servos, no seu povo e nas suas casas".

Quatro termos, cada um com a preposição repetida e cada um com o sufixo de segunda pessoa. Em hebraico a repetição da preposição é enfática: não é uma lista corrida, é um por um.

E os quatro são "seus". A praga é anunciada como invasão do que pertence ao rei — a pessoa dele, a corte dele, o povo dele, as casas dele.

אֶת־הֶעָרֹב — et-he-arob, "os enxames".

Esta é a palavra do versículo, e ela precisa ser tratada com calma.

Primeiro, a forma. É um substantivo singular, com artigo: "o arob". O português traduz por plural porque em português não há como dizer "a bicharada" sem soar estranho, mas o hebraico trata a coisa como massa única — do mesmo modo como Êxodo 8:17 tratou os piolhos.

E vem com artigo já na primeira menção, como se fosse coisa conhecida. O hebraico faz isso com nomes de fenômenos: "a chuva", "a peste".

Segundo, a raiz. É arav, e o campo dela é o da mistura: misturar, entrelaçar, confundir. Da mesma raiz vem a palavra que Êxodo 12:38 usa para a "mistura de gente" que sai do Egito junto com Israel.

Registre-se, para evitar confusão, que há em hebraico outras palavras escritas com as mesmas consoantes e com sentidos diferentes — entre elas a do penhor, tratada no estudo de Gênesis 38:17, e a da tarde. Não se deve somar os sentidos. O que a raiz deste versículo aporta é a ideia de mistura, e só.

Terceiro, e é o ponto: a palavra não nomeia bicho nenhum.

Não há nela mosca, besouro, mosquito nem fera. Ao pé da letra, he-arob é "a mistura", "a massa misturada". É tudo o que o hebraico diz.

As ocorrências, e o que as versões antigas fizeram

A palavra aparece em sete versículos da Bíblia hebraica: cinco neste capítulo — Êxodo 8:21, 22, 24, 29 e 31 — e dois em salmos que recontam as pragas, o Salmo 78:45 e o Salmo 105:31. Fora disso, não existe.

As versões antigas se dividiram em duas famílias, e a divisão continua até hoje.

Família da mosca. A tradução grega da Torá escolheu kynomyia — literalmente "mosca-de-cão", nome de um inseto que morde e que os autores gregos descrevem como praga do gado e dos cães. A Vulgata latina de Jerônimo foi por perto, mas generalizou: omne genus muscarum ("toda espécie de moscas"). Daí vem a tradição que quase toda Bíblia europeia seguiu.

Família da mistura. Símaco, tradutor grego posterior, verteu por uma palavra que significa "todo-misturado" — atendo-se à raiz. E boa parte da tradição judaica foi mais longe: as traduções aramaicas e comentaristas medievais entenderam uma mistura de animais ferozes, leões, lobos, ursos e serpentes soltos sobre o país.

Os argumentos, e o que cada um vale

A favor do inseto que morde: o Salmo 78:45 diz que o arob os consumiu — verbo de comer, que combina com bicho que pica e não com bicho que só incomoda. É o argumento mais forte do lado da mosca, e é um argumento tirado da Bíblia, não do ambiente.

A favor da mistura de feras: a raiz, e apenas ela. É leitura antiga e respeitável, mas encontra uma dificuldade prática que os próprios comentaristas notaram: o versículo diz que as casas se encherão, e casa não se enche de leão.

A favor de deixar em aberto: o hebraico não nomeia, e não há nenhum dado interno que obrigue a escolher. As duas famílias de leitura nasceram da mesma dificuldade, e nenhuma delas dispõe de informação que a outra não tenha.

A escolha da nossa versão

A ABC traduz por "enxames", sem dizer de quê — e a razão é declarada: o hebraico também não diz. "Enxame" conserva as duas informações que a palavra carrega, a de quantidade e a de massa indistinta, e não acrescenta a que ela não tem, que é a espécie.

O custo dessa escolha é o leitor estranhar uma frase que, na Bíblia que ele conhece, trazia moscas. Não é possível decidir o que eram, e parece melhor que a estranheza fique no português do que a decisão fique escondida nele.

וּמָלְאוּ בָּתֵּי מִצְרַיִם — u-male'u battei Mitsrayim, "e se encherão as casas do Egito".

Verbo male, encher, encher-se, estar cheio. É o verbo de um recipiente que chega à borda.

Battei Mitsrayim, "as casas do Egito", contrasta com vateikha, "as suas casas", da frase anterior: primeiro as do rei, depois as do país.

וְגַם הָאֲדָמָה אֲשֶׁר־הֵם עָלֶיהָ — we-gam ha-adamah asher-hem aleha, "e também o solo sobre o qual eles estão".

Duas notas, e as duas importam.

A palavra do solo. É adamah — o solo que se cultiva, a terra de onde sai alimento, a mesma de que o homem foi tirado em Gênesis 2:7. Não é afar, o pó solto de Êxodo 8:16, nem erets, o país. O capítulo usa as três palavras, e esta é a que designa chão de trabalho.

O pronome. Hem é masculino plural, "eles", e não tem antecedente marcado. Pode retomar os egípcios e pode retomar os enxames — arob é masculino, e o plural caberia como coletivo. O hebraico não resolve, e o item 3 examina as duas saídas.

11. Conclusão

Do que foi examinado, três conclusões.

A primeira: a praga não tem nome. O hebraico usa uma palavra que significa "mistura" e não nomeia inseto, fera nem espécie; as versões antigas se dividiram entre a mosca que morde e o ajuntamento de bichos, e as duas leituras nasceram da mesma falta de informação. Conclui-se que não é possível decidir, e que toda Bíblia que escreve "moscas" neste versículo tomou por quem lê uma decisão que o texto não tomou. A nossa versão não a toma, e o preço é uma frase mais vaga em português — exatamente tão vaga quanto no original.

A segunda: a ameaça é dita com um só verbo, usado nos dois sentidos. "Se você não solta o meu povo, eu solto sobre você a praga." O hebraico monta a frase com a mesma raiz de um lado e do outro da condição, e o português precisa de duas palavras para dizê-lo. Conclui-se que a frase não é uma ameaça acrescentada ao pedido: é o pedido virado do avesso, e o que o rei recusa soltar volta contra ele na forma do que será solto.

A terceira: o modo de agir mudou. Não há cajado, não há gesto e não há mão humana — quem envia fala em primeira pessoa, e a partir daqui o instrumento desaparece do capítulo. Conclui-se que o Êxodo registra a mudança sem explicá-la; ligá-la ao fracasso dos magos, dois versículos atrás, é leitura plausível de quem acompanha o capítulo, e não afirmação do texto.

Resta o desenho do alcance, que é o que prepara o versículo seguinte. A ameaça sobe do rei até as casas do país e termina no chão de fora — sem exceção, sem ressalva e sem nenhuma menção a Israel. É contra esse fundo sem brechas que Gósen será recortada em Êxodo 8:22.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 8:21

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%