E porei um resgate entre o meu povo e o seu povo. Amanhã acontecerá este sinal.’”
1. Introdução
Duas frases curtas, e a primeira delas é o problema de tradução do capítulo.
"E porei um resgate entre o meu povo e o seu povo." O hebraico traz, de fato, a palavra de resgate — a mesma que os salmos usam para dizer que Deus livrou o seu povo, a mesma do vocabulário de pagar para tirar alguém de onde ele está.
Só que ela não encaixa. Um resgate se paga por alguém, a alguém, por um preço. Aqui não há quem pague, não há quem receba e não há preço — e a coisa é posta entre dois povos, que não é o que se faz com um resgate.
As versões antigas sentiram a dificuldade e a resolveram. A tradução grega da Torá e a Vulgata latina escreveram "distinção", "separação" — e é dessa leitura que vêm as traduções portuguesas que trazem "diferença" ou "distinção" neste versículo. A nossa conserva o hebraico e escreve "resgate". O item 3 expõe a discussão com calma, e o item 10 mostra a palavra por dentro.
A segunda frase é curta e tem dois achados próprios.
"Amanhã" — e é a segunda vez no capítulo. Na primeira, em Êxodo 8:10, quem escolheu o dia foi Faraó, e Moisés aceitou. Aqui quem marca é o SENHOR, e ninguém é consultado.
"Este sinal" — e convém reparar no que está sendo chamado assim. Não é a praga. É a separação: o fato de que num lugar não haverá enxames. É a primeira vez no capítulo que alguma coisa é chamada de sinal.
2. Contexto Histórico e Cultural
Pagar para tirar alguém de onde ele está
A palavra que este versículo usa vem do mundo das transações, e é preciso saber como esse mundo funcionava para medir o estranhamento que a frase produz.
No Antigo Oriente Próximo, gente presa em guerra não era necessariamente gente perdida. Havia um procedimento, e ele estava escrito.
O Código de Hamurabi — a coleção de leis do rei da Babilônia, gravada em pedra por volta do século XVIII antes de Cristo — trata do caso num parágrafo notável pela ordem que estabelece. Se um soldado é levado cativo numa campanha do rei e um mercador o resgata e o traz de volta à cidade dele, a conta é paga em degraus: primeiro pelos bens da casa do próprio soldado; se a casa não tiver com que pagar, pelo templo da cidade; e, se o templo não tiver, pelo palácio. E a lei acrescenta a cláusula que fecha o sistema: o campo, o pomar e a casa do homem não podem ser tomados para esse pagamento.
Três coisas ficam claras nesse texto, e as três importam aqui.
Um resgate tem preço. É uma quantia, e alguém a desembolsa.
Um resgate tem partes. Há quem pague, há quem receba e há quem seja solto. São três posições distintas, e nenhuma se confunde com as outras.
Um resgate produz um movimento. Quem estava de um lado passa para o outro. Não é um arranjo que se instale entre duas partes: é uma passagem.
O mesmo vocabulário dentro da lei de Israel
A instituição aparece na Torá em mais de um lugar, e sempre com essa lógica de pagamento.
O primeiro filho de cada família e as primeiras crias dos animais pertencem a Deus — e o que não pode ser oferecido é trocado por um preço: um cordeiro pelo primeiro filhote de jumenta, prata pelo primeiro filho de uma casa, conforme Êxodo 13:13. E há o caso em que uma vida devida pode ser coberta por uma quantia, quando a lei o permite, em Êxodo 21:30.
Há ainda o outro verbo hebraico da libertação — o do parente que tem o dever de resgatar o seu, comprando de volta a terra ou a pessoa da família caída em dívida. Essa instituição é outra, tem alcance próprio e está desenvolvida no estudo de Gênesis 48:16, que aponta para Êxodo 6:6. Não é a palavra deste versículo, e os dois campos não devem ser misturados.
E o lado egípcio da conta
Convém dizer o que a documentação do Egito mostra, porque ela anda na direção contrária.
O que os textos e os relevos egípcios registram em abundância é a entrada de gente: prisioneiros trazidos de campanha, contados às centenas e aos milhares, distribuídos entre templos, propriedades da coroa e obras. Listas de cativos são um gênero corrente das inscrições reais.
O que não se documenta é a operação inversa. Não há, no registro egípcio conhecido, instituição de pagar para tirar do Egito gente que trabalhava para o Egito. O que entrava, ficava.
Isso não é prova de nada sobre o episódio bíblico — ausência de registro não é registro de ausência, e o assunto da propaganda oficial egípcia está tratado no estudo de Êxodo 3:19. Mas dá a medida do que a palavra deste versículo propõe: um resgate feito num lugar onde resgate não era procedimento previsto.
Por que nada disso resolve o versículo
Posto o fundo, a dificuldade fica maior e não menor — e é honesto terminar assim.
Um resgate tem preço, partes e movimento. A frase deste versículo não tem nenhum dos três. Ninguém paga, ninguém recebe, nada é dito sobre valor, e o que se promete não é uma passagem: é alguma coisa que será posta entre dois povos.
É por isso que os tradutores antigos hesitaram, e é por isso que a discussão continua aberta. Ela está no item 3, e a palavra, por dentro, no item 10.
3. Análise Teológica do Versículo
“E porei um resgate entre o meu povo e o seu povo”
Esta frase é o problema de tradução do capítulo, e ela merece ser exposta devagar, do jeito que se expõe uma dificuldade real: pondo o dado, depois as saídas, depois o que cada saída custa.
O dado
A palavra hebraica que está no texto significa resgate, redenção, libertação por pagamento. Não há dúvida sobre isso nas outras vezes em que ela aparece.
São poucas: fora daqui, ela ocorre três vezes em toda a Bíblia hebraica, e nas três o sentido é o mesmo. Num salmo se diz que Deus enviou ao seu povo a redenção. Noutro, que com ele há copiosa redenção. E em Isaías 50:2 a palavra aparece na pergunta de alguém que quer saber se a mão que resgata encolheu.
É esse o campo da palavra: tirar alguém de onde ele está, pagando. O item 2 mostra como a operação funcionava naquele mundo.
A dificuldade
Agora leia a frase de novo, com isso em mente.
Um resgate tem três posições: quem paga, quem recebe e quem sai. E tem uma direção: de um lado para o outro. A frase deste versículo não tem nenhuma das duas coisas.
Ninguém paga. Ninguém recebe. Nenhum preço é mencionado. E o resgate não é pago por alguém — é posto entre dois povos, com a preposição que a língua usa para marcar fronteira, a mesma de "entre o dia e a noite".
Um resgate não se põe entre partes. Um muro se põe entre partes. E é justamente isso que a frase parece descrever, com a palavra errada.
O que as versões antigas fizeram
Elas não hesitaram: traduziram pelo que o contexto pedia.
A tradução grega da Torá escreveu "distinção", "separação". A Vulgata latina de Jerônimo foi pelo mesmo caminho e escreveu "divisão". Daí vêm as Bíblias em português que trazem "farei distinção", "porei diferença", "estabelecerei separação" — e são a maioria.
Repare que essa leitura resolve tudo de uma vez. Com "separação", a frase fica perfeitamente lisa: no versículo anterior Deus põe Gósen à parte; neste, põe uma divisão entre os dois povos; no seguinte vem a praga. Não sobra nada.
E é exatamente por ficar lisa demais que convém desconfiar. Há uma regra antiga de quem compara manuscritos e traduções: quando duas leituras concorrem, a mais difícil costuma ser a original, porque copistas e tradutores tendem a facilitar, e ninguém troca uma palavra fácil por uma difícil sem motivo.
As saídas propostas, e o que cada uma custa
Primeira: houve erro no texto hebraico. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) sugere que a palavra original seria outra, muito parecida, significando "separação", e que a que temos seria uma troca de letra na cópia.
Custo: a proposta explica tudo e não tem apoio. Nenhum manuscrito hebraico traz a palavra conjeturada, e as duas letras envolvidas não se parecem na escrita hebraica, de modo que a troca não é do tipo que acontece por descuido de olho. É uma reconstrução feita para resolver o problema, e não um dado.
Segunda: as versões antigas não leram outra coisa — interpretaram. Esta é, provavelmente, a explicação mais econômica, e há um indício forte a favor dela: a mesma tradução grega usa exatamente a mesma palavra para traduzir o verbo de separar em Êxodo 9:4 e em Êxodo 11:7, onde o hebraico traz outra raiz. Ou seja, os tradutores estavam uniformizando o assunto da distinção entre Israel e o Egito, e trataram este versículo como mais um caso dele.
Custo: nenhum, quanto à coerência — mas implica reconhecer que a leitura mais difundida na tradição cristã ocidental é decisão de tradutor, e não o que está no hebraico.
Terceira: o hebraico está certo e significa resgate. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) defendem o texto como está: ficar de fora daquela praga era, para Israel, uma libertação, e a palavra estaria sendo usada nesse sentido. Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) propõe uma ponte: o resgate estaria sendo nomeado pelo efeito dele, e o efeito é uma parede que separa.
Custo: as três leituras forçam a palavra. Nenhuma das outras ocorrências dela funciona assim, e a preposição "entre" continua sem explicação.
Quarta: a palavra é rara demais para se saber. Com quatro ocorrências em toda a Bíblia hebraica, não há material suficiente para afirmar que ela não podia ter, aqui, um uso que as outras três não mostram.
Custo: é a saída mais honesta e a menos satisfatória, porque não decide nada. Mas é a que descreve melhor o estado da questão.
O que se pode concluir
Não é possível decidir, e é bom que o leitor saiba o que está em jogo quando abrir duas Bíblias e encontrar "resgate" numa e "distinção" noutra. Não são versões do mesmo sentido: são duas soluções para uma frase que não fecha.
A nossa versão conserva "resgate" por uma razão de método: é o que o hebraico traz, é a leitura mais difícil, e trocá-la por "distinção" seria repetir em português a decisão que os tradutores gregos tomaram — decisão legítima, mas que apaga o problema em vez de mostrá-lo.
“entre o meu povo e o seu povo”
Feita a discussão da palavra, sobra a segunda metade da frase — e ela é clara, e é importante.
Duas vezes a mesma palavra hebraica, povo, com dois donos diferentes. Israel é "o meu povo". O Egito é "o seu povo". A frase põe as duas expressões lado a lado, separadas apenas pela preposição de fronteira.
É a primeira vez no capítulo que isso acontece. As duas expressões já tinham aparecido, várias vezes — "deixe o meu povo ir", "sobre o seu povo" —, mas sempre isoladas, em frases diferentes. Aqui elas se encontram.
E o encontro diz uma coisa que atravessa o livro inteiro: o que está em disputa é um pronome possessivo. Faraó tem um povo. O SENHOR tem um povo. A exigência repetida quatro vezes — "deixe o meu povo ir" — é, no fundo, a afirmação de que os israelitas não pertencem a quem os emprega.
Note-se, por fim, o que o versículo não faz. Não diz que um povo é melhor, não compara os dois, não atribui mérito a nenhum e não menciona conduta. Diz só de quem é cada um, e põe uma linha no meio.
“Amanhã acontecerá este sinal”
Duas coisas, e as duas são pequenas e boas.
Primeira: “amanhã”, pela segunda vez no capítulo.
A primeira foi em Êxodo 8:10, e o modo como aquela palavra funcionava ali — o adiamento, o que significa marcar para o dia seguinte — é do estudo daquele versículo, e não se refaz.
O que importa aqui é quem escolheu. Lá, Moisés devolveu a data ao rei — "para quando devo suplicar?" —, e o rei respondeu "amanhã". A hora foi dele.
Aqui não há pergunta. A data é anunciada dentro da mesma fala que anuncia a praga, e ninguém é consultado. O mesmo prazo, e a posição invertida: quem marcava agora é marcado.
Há ainda o efeito prático do prazo, e ele é o mesmo das duas vezes: um dia de intervalo é um dia de verificação. O que foi anunciado pode ser conferido, e a coisa não acontece no momento da fala, que é quando seria mais fácil atribuí-la ao acaso.
Segunda: o que é chamado de “sinal”.
Esta é a observação mais fácil de perder, e é a melhor do fecho.
A palavra hebraica de sinal designa aquilo que aponta para fora de si: uma marca que garante uma afirmação, que prova alguma coisa. O campo dela, e a diferença em relação à palavra de prodígio, estão desenvolvidos no estudo de Êxodo 4:21.
Agora repare no que recebe esse nome. Não é a praga. Os enxames não são chamados de sinal em nenhum lugar deste capítulo. O que é chamado de sinal é o conteúdo dos dois versículos anteriores: a região posta à parte, a ausência dos insetos num lugar, a linha entre os dois povos.
Ou seja: o que prova alguma coisa não é o que acontece no Egito — é o que não acontece em Gósen. A praga, sozinha, seria uma desgraça; desgraça se explica de muitas maneiras. A desgraça que para numa linha é que exige explicação.
E o que ela deve provar já foi dito, no fim do versículo anterior: que o SENHOR está no meio da terra. O sinal aponta para aquela frase, e é para isso que ele serve.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
“O meu povo”
Os israelitas. A expressão atravessa o capítulo desde Êxodo 8:1, sempre na boca de Deus e sempre na mesma exigência.
Aqui ela aparece pela última vez em Êxodo 8 — e aparece ao lado do par dela.
“O seu povo”
Os egípcios, designados pela relação com o rei. Já tinham sido nomeados assim várias vezes no capítulo, sempre como alvo de praga: em Êxodo 8:3, 8:4, 8:11 e 8:21.
O que muda neste versículo é a posição. Pela primeira vez as duas expressões estão na mesma frase, com a mesma palavra hebraica e dois donos diferentes.
Faraó
Presente no possessivo — "o seu povo" — e ausente como personagem. Não fala, não age e não é descrito. É o destinatário da frase, que continua sendo dita a ele em segunda pessoa.
O SENHOR
Fala em primeira pessoa: "porei". É o único agente do versículo, e o que ele põe não é a praga: é a linha.
“Este sinal”
O que os dois versículos anteriores descreveram — a região posta à parte, a ausência de enxames, a divisão entre os povos. É a primeira coisa chamada de sinal em Êxodo 8.
Não é a praga. A praga será narrada no versículo seguinte e não recebe esse nome em lugar nenhum do capítulo.
“Amanhã”
O prazo, e o segundo do capítulo. O primeiro foi escolhido por Faraó, em Êxodo 8:10; este é anunciado sem consulta.
O acontecimento
O fecho da fala que começou em Êxodo 8:20, à beira da água, e que ocupa quatro versículos: a exigência, a ameaça, a exceção e a data.
É a última coisa que Moisés diz ao rei antes da quarta praga. A execução vem no versículo seguinte, e a próxima fala será do próprio Faraó, em Êxodo 8:25.
5. Pontos de Ensino
Duas Bíblias, duas palavras diferentes — e o leitor merece saber
Onde a nossa versão traz "resgate", a maioria traz "distinção" ou "diferença". Não é variação de estilo: é uma frase que não fecha no hebraico, resolvida de dois modos. Quem lê tradução lê decisões, e o item 3 mostra qual foi tomada de cada lado.
A leitura mais fácil é a que deve ser examinada primeiro
Quando duas leituras concorrem, a que resolve tudo com elegância é a suspeita, e não a favorita — porque tradutores e copistas facilitam, e ninguém troca o fácil pelo difícil sem razão. É uma régua de método que vale para qualquer texto antigo.
O que está em disputa é de quem o povo é
"O meu povo" e "o seu povo", a mesma palavra hebraica com dois donos, na mesma frase. O livro inteiro está nessa oposição — e repare que o versículo não diz que um povo é melhor, não compara e não fala de mérito. Diz de quem é cada um.
O sinal não é a praga
O que o texto chama de sinal é a exceção: o lugar onde a praga não chega. Uma desgraça se explica de muitas maneiras; uma desgraça que para numa linha, não. É bom guardar isso ao ler as pragas seguintes.
O prazo é o que torna a coisa verificável
Anunciar para amanhã é permitir conferência. Duas vezes o capítulo faz isso — uma com o dia escolhido pelo rei, outra com o dia marcado sem consulta.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta um problema que é, ao mesmo tempo, de leitura e de conhecimento: o que fazer com um texto que não fecha?
A situação é precisa. Há uma palavra cujo sentido se conhece bem em outros lugares, e ela está numa construção que esse sentido não comporta. Não é ignorância do leitor moderno: os tradutores da Antiguidade, que tinham o hebraico como língua viva ao alcance, também não conseguiram encaixá-la — e trocaram.
Diante disso há três atitudes, e elas correspondem a três maneiras de se relacionar com o que não se sabe.
Emendar. Supor que o texto se corrompeu e reconstruir o que ele deveria dizer. É a saída que produz resultado limpo, e é a que mais depende de quem a executa: quem emenda escreve, em alguma medida, o que esperava encontrar.
Forçar. Manter a palavra e alargar o sentido dela até que caiba. É a saída que preserva o texto e sacrifica a precisão — e tem o defeito de ser sempre possível, o que a torna pouco informativa.
Deixar aberto. Registrar o que está escrito, registrar que não encaixa, e não decidir. É a saída que não entrega nada pronto, e é a única que não acrescenta.
Repare que as três são honestas e que nenhuma é neutra. Não existe a opção de simplesmente ler, porque ler em português já obriga a escolher uma palavra. A pergunta não é se haverá decisão; é se ela será visível.
Daí sai o critério que este comentário adota, e vale enunciá-lo: quando a decisão é inevitável, o mínimo é que ela fique à vista de quem lê. Uma tradução que apaga o problema não está errada — está resolvendo por conta do leitor uma questão que ele tinha o direito de conhecer.
Convém o limite: o texto não levanta nada disso. Ele traz uma palavra numa frase, e a frase é difícil. Quem discute o que fazer com a dificuldade é quem lê e quem traduz.
7. Aplicações Práticas
É um versículo de anúncio, e o que ele oferece para a vida prática vem quase todo do modo como está escrito, e não do que diz. Duas coisas.
Mostrar a decisão em vez de escondê-la
A frase deste versículo não fecha, e quem a traduz precisa escolher. A escolha mais confortável — trocar a palavra difícil por uma que encaixe — entrega ao leitor um texto liso e lhe sonega a informação de que houve escolha.
O mesmo movimento acontece o tempo todo, longe de qualquer Bíblia. Num relatório que precisa de uma estimativa e entrega um número redondo sem dizer como chegou nele. Num resumo de reunião que decide o que ficou combinado. Num laudo que arredonda uma incerteza para não assustar.
Nenhum desses casos é desonesto por si. O que separa o trabalho honesto do outro é dizer onde estava a dúvida — e quem recebe o texto pronto raramente tem como descobrir sozinho.
O prazo que permite conferir
"Amanhã acontecerá este sinal." Anunciar antes, com data, é aceitar ser verificado. Se a praga viesse no instante da fala, ela poderia ser lida como coincidência; com um dia de intervalo e um lugar nomeado, não pode.
É um procedimento, e é bom. Quem afirma alguma coisa verificável e marca a data está oferecendo à outra parte o meio de o desmentir — e isso, em qualquer assunto, vale mais do que a afirmação.
Um limite honesto: o Êxodo não apresenta o prazo como método nem o elogia. A observação é de quem lê o procedimento; o texto apenas o executa.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Afinal, é “resgate” ou é “distinção”?
O hebraico traz a palavra de resgate. A tradução grega da Torá e a Vulgata trazem "distinção", e é daí que vêm as Bíblias em português que assim traduzem.
O item 3 expõe as quatro saídas propostas e o custo de cada uma. Não é possível decidir — e o leitor que encontrar as duas palavras em duas Bíblias está diante de duas soluções para uma frase que não fecha, e não de duas maneiras de dizer a mesma coisa.
Se é resgate, quem paga e a quem?
O texto não diz, e é justamente essa a dificuldade. Não há preço, não há pagador, não há recebedor — e a coisa é posta entre dois povos, o que não é o que se faz com um resgate. O item 2 mostra como a operação funcionava naquele mundo, e por que a frase não se encaixa nela.
Por que a nossa versão não seguiu a maioria?
Por método, e o motivo é declarado no item 3: "resgate" é o que o hebraico traz e é a leitura mais difícil. Há uma régua antiga de quem compara textos — a de que, entre duas leituras, a mais difícil costuma ser a original, porque se facilita um texto e não se complica.
Traduzir por "distinção" seria repetir em português a decisão dos tradutores gregos. Decisão legítima, e que apaga o problema em vez de mostrá-lo.
Os israelitas foram resgatados nesta praga?
Não, e é bom não confundir. Seja qual for a tradução, o que acontece "amanhã" é que uma região não terá enxames. O povo continua no Egito, continua escravo e continuará depois do fim do capítulo.
O verbo do resgate de Israel — outro, e de outra raiz — aparece em Êxodo 6:6, numa promessa que este versículo não cumpre.
Por que “amanhã”, e não agora?
O texto não explica. O que se observa é o efeito: um dia de intervalo torna a coisa verificável. E há o contraste com Êxodo 8:10, onde o mesmo prazo foi escolhido pelo rei — aqui ninguém é consultado.
Por que a separação é chamada de “sinal”, e a praga não?
O Êxodo não comenta, e a observação é de quem lê: em todo o capítulo, nenhuma praga recebe esse nome, e a exceção recebe.
A leitura plausível é que uma praga, sozinha, admite muitas explicações, e uma praga que para numa linha não admite. Mas isso é inferência — o texto apenas aplica a palavra e segue.
9. Conexão com Outros Textos
A palavra deste versículo, nas outras três vezes em que aparece
Salmo 111:9 — "Enviou ao seu povo a redenção; ordenou para sempre a sua aliança. Santo e tremendo é o seu nome."
Salmo 130:7 — "Espera, ó Israel, no SENHOR, pois com o SENHOR está a benignidade, e com ele está copiosa redenção."
Isaías 50:2 — "…Acaso, tanto se encolheu a minha mão que não possa remir? Ou não tenho eu poder de livrar? Eis que, pela minha repreensão, faço secar o mar e torno os rios em deserto; por não haver água, apodrecem os seus peixes e morrem de sede."
São as três únicas ocorrências fora deste versículo, e nas três o sentido é o mesmo: libertação, resgate, o poder de tirar alguém de onde ele está. Nenhuma delas funciona como "distinção", e nenhuma delas é posta entre duas partes.
Repare, de passagem, na imagem que fecha o texto de Isaías: o mar secado, os rios virados deserto, os peixes apodrecendo. É a linguagem das pragas, num profeta.
A promessa de resgate que o livro já tinha feito — com outro verbo
Êxodo 6:6 — "Portanto, diga aos filhos de Israel: 'Eu sou o SENHOR. Eu os tirarei de debaixo das cargas do Egito, os livrarei da escravidão deles e os resgatarei com braço estendido e com grandes juízos.'"
Ali o verbo é outro — o do parente que tem o dever de resgatar o seu —, e a instituição inteira está tratada no estudo de Gênesis 48:16. Vale a comparação pelo que ela mostra: o livro tem dois vocabulários de libertação, e este versículo usa o da transação, não o do parentesco.
O resgate como pagamento, na lei
Êxodo 13:13 — "Todo primogênito de uma jumenta será resgatado com um cordeiro; se não quiser resgatá-lo, quebrará o pescoço dele; e todo primogênito do homem, entre os seus filhos, você resgatará."
É a mesma raiz deste versículo, e aqui ela está no seu uso próprio: troca-se uma coisa por outra, e quem estava devido é liberado. Preço, partes e movimento — os três elementos que faltam em Êxodo 8:23.
A mesma ideia, dita depois com o verbo de separar
Êxodo 9:4 — "E o SENHOR fará separação entre os rebanhos de Israel e os rebanhos do Egito, e não morrerá nada de tudo o que pertence aos filhos de Israel.’’"
Aqui está o argumento mais forte de quem entende "distinção" neste versículo: uma praga adiante, o Êxodo diz quase a mesma coisa com a construção "entre… e entre…" — e ali o verbo é, sem dúvida nenhuma, o de separar.
O dado é real e precisa ser registrado dos dois lados: ele mostra que a ideia de distinção pertence à série; e mostra que, quando o Êxodo quer dizer isso, ele tem uma palavra própria — que não é a deste versículo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E porei um resgate entre o meu povo e o seu povo. Amanhã acontecerá este sinal.’”
Texto hebraico
וְשַׂמְתִּי פְדֻת בֵּין עַמִּי וּבֵין עַמֶּךָ לְמָחָר יִהְיֶה הָאֹת הַזֶּה׃
Transliteração
we-samti feduth bein ammi u-vein ammekha; le-machar yihyeh ha-ot ha-zeh.
Análise palavra por palavra
וְשַׂמְתִּי — we-samti, "e porei".
Verbo sim, pôr, colocar, estabelecer, na primeira pessoa. É o verbo de quem instala alguma coisa num lugar — e é, por isso, a primeira peça da dificuldade: põe-se um marco, um limite, uma pedra. Não se "põe" um resgate.
פְדֻת — peduth, "resgate".
Esta é a palavra do versículo, e convém apresentá-la com todos os dados antes de discutir.
A raiz. É padah: resgatar mediante pagamento, comprar de volta, livrar dando algo em troca. O campo é transacional, e o verbo aparece na lei de Israel no resgate do primeiro filho e das primeiras crias, em Êxodo 13:13 e em Números 18.
Convém distinguir esse verbo de outro que o português também traduz por "resgatar": ga'al, o do parente que tem o dever de recuperar o que é da família. As duas raízes cobrem coisas diferentes — uma é o preço, a outra é a obrigação de parentesco — e a segunda está desenvolvida no estudo de Gênesis 48:16. Não misturar.
A forma. Peduth é o substantivo abstrato formado dessa raiz: o ato de resgatar, a redenção. Está aqui sem artigo e sem nada que a qualifique — "um resgate", e não "o resgate".
As ocorrências. Quatro em toda a Bíblia hebraica: esta, o Salmo 111:9, o Salmo 130:7 e Isaías 50:2. Nas três outras o sentido é firme e é sempre o mesmo: libertação, resgate. O item 9 traz os textos.
Quatro ocorrências é pouquíssimo. Significa que não há material para dizer com segurança que a palavra não podia ter, aqui, um uso que as outras três não mostram — e essa é uma das saídas que o item 3 examina.
בֵּין עַמִּי וּבֵין עַמֶּךָ — bein ammi u-vein ammekha, "entre o meu povo e entre o seu povo".
Construção padrão do hebraico para marcar dois lados: a preposição bein repetida antes de cada termo. É a mesma de Gênesis 1:4, que separa a luz das trevas, e a de Gênesis 1:6, entre águas e águas.
E é aqui que a dificuldade fica no ponto mais agudo. Essa construção é a da fronteira. O que se põe entre dois lados é uma divisão, um véu, um muro, um sinal de limite. Um resgate não tem lugar nessa gramática: ele se paga por alguém, não se instala entre partes.
Quanto às duas palavras separadas pela preposição: são a mesma, am, povo, com sufixos diferentes — "meu" e "seu". O hebraico monta um espelho perfeito, e o item 3 trata do que isso diz.
As versões antigas, e o que elas escreveram
A tradução grega da Torá não escreveu "resgate". Escreveu uma palavra que significa distinção, separação, o ato de pôr à parte. A Vulgata latina de Jerônimo escreveu "divisão", no mesmo sentido.
Há um dado que ajuda a entender o que aconteceu ali, e ele é forte. A mesma tradução grega usa exatamente essa palavra para verter, em Êxodo 9:4 e em Êxodo 11:7, o verbo hebraico de separar — que é outro, e que não tem nada a ver com esta raiz. Ou seja: os tradutores estavam uniformizando o assunto da distinção entre Israel e o Egito ao longo das pragas, e trataram este versículo como mais um caso dele.
Isso torna plausível que não tivessem diante dos olhos um texto hebraico diferente do nosso — e que a divergência seja de interpretação, e não de manuscrito.
A conjetura de emenda
A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) propõe que o texto original trouxesse uma palavra parecida, da raiz de separar, e que a nossa seja um erro de cópia.
Duas observações sobre isso. Nenhum manuscrito hebraico traz a palavra conjeturada — a proposta é reconstrução, e não leitura documentada. E as duas letras que precisariam ter sido trocadas não se confundem na escrita hebraica, de modo que o deslize não é do tipo que a paleografia costuma explicar.
לְמָחָר — le-machar, "para amanhã".
A preposição le com o substantivo de "amanhã". É a segunda vez que a palavra aparece no capítulo: a primeira foi em Êxodo 8:10, na resposta de Faraó, e o que ela significa naquele lugar é do estudo daquele versículo.
יִהְיֶה הָאֹת הַזֶּה — yihyeh ha-ot ha-zeh, "acontecerá este sinal".
Yihyeh é o verbo hayah, ser, no futuro — literalmente "será este sinal".
Ot é a palavra de sinal: a marca que aponta para fora de si, que garante uma afirmação. É a palavra do arco nas nuvens em Gênesis 9 e a da circuncisão em Gênesis 17. A diferença entre ela e a palavra de prodígio, que designa o que espanta, está desenvolvida no estudo de Êxodo 4:21.
O demonstrativo ha-zeh, "este", aponta para o que acabou de ser dito — isto é, para o conteúdo dos dois versículos anteriores. Gramaticalmente, o sinal é a separação, e não a praga. O item 3 trata da consequência disso.
11. Conclusão
Do que foi examinado, três conclusões.
A primeira: a frase não fecha, e isso é um dado, não um defeito do leitor. O hebraico traz a palavra de resgate — pagar para tirar alguém de onde está — numa construção que pede um marco de fronteira. Não há preço, não há quem pague, não há quem receba, e a coisa é posta entre dois povos. Conclui-se que as versões antigas não hesitaram por descuido: elas enfrentaram a mesma dificuldade que se enfrenta hoje, e a resolveram trocando a palavra. Não é possível decidir qual leitura é a certa.
A segunda: a leitura mais lisa é a que exige mais exame. Com "distinção", a frase encaixa perfeitamente entre a separação de Gósen e a praga do dia seguinte — e é exatamente por encaixar que convém desconfiar, porque textos se facilitam ao ser copiados e traduzidos, e não o contrário. Conclui-se que conservar "resgate" é conservar o problema à vista, e que trocá-lo por "distinção" é tomar por quem lê uma decisão que ele tinha o direito de conhecer.
A terceira: o que o texto chama de sinal não é a praga. O demonstrativo aponta para o que acabou de ser dito — a região posta à parte, a ausência de insetos num lugar, a linha entre os dois povos. Conclui-se que o que deve provar alguma coisa, no raciocínio do versículo, não é o que acontece no Egito, e sim o que não acontece em Gósen; e que o prazo de um dia serve para que isso possa ser conferido, com a diferença, em relação a Êxodo 8:10, de que agora a data não é escolhida pelo rei.
Fica de pé a oposição que o versículo monta e não comenta: a mesma palavra, povo, com dois donos. É por causa dela que a exigência foi feita quatro vezes, e é ela que continuará sem solução até muito depois do fim deste capítulo.













