📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 9:4

›
✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 10 min de leitura·👁 21 acessos
E o SENHOR fará separação entre os rebanhos de Israel e os rebanhos do Egito, e não morrerá nada de tudo o que pertence aos filhos de Israel.’”
Dois rebanhos lado a lado num pasto egípcio, separados só por uma trilha: de um lado bois deitados e imóveis, do outro ovelhas e cabras pastando tranquilas junto a pastores hebreus.

Estudo


E o SENHOR fará separação entre os rebanhos de Israel e os rebanhos do Egito, e não morrerá nada de tudo o que pertence aos filhos de Israel.’”

1. Introdução

Na praga dos enxames, Deus separou uma região: Gósen ficou sem insetos. Aqui a separação desce aos animais: os rebanhos de Israel de um lado, os do Egito do outro.

A promessa é total — "não morrerá nada" do que é dos israelitas. E, desta vez, o versículo não fala de lugar nenhum: a linha passa entre donos, não entre regiões.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como se sabia de quem era um boi

Separar "os rebanhos de Israel" dos "rebanhos do Egito" pressupõe uma coisa que o Egito sabia fazer bem: dizer de quem era cada animal.

O gado egípcio era marcado a fogo. Pinturas de túmulos do Império Novo, em Tebas, mostram a cena: o boi derrubado e amarrado, um homem segurando a cabeça, outro encostando na anca do animal um ferro aquecido num braseiro ao lado. Ferros de marcar de bronze, com um sinal em relevo na ponta, sobreviveram e estão em coleções de museu. A marca identificava o dono — um particular, um domínio, um templo —, e era ela que permitia contar, cobrar imposto e resolver disputa.

Ou seja: no Egito, "este rebanho é de fulano" era uma informação gravada no couro, conferida pelos escribas na contagem do gado.

E os israelitas tinham rebanho próprio

O Gênesis apresenta a família de Jacó chegando ao Egito como criadores de gado, com as suas ovelhas, o seu gado e tudo o que tinham (Gênesis 46:32). O Êxodo pressupõe que isso continuou: sob a escravidão dos tijolos, os israelitas ainda possuem rebanhos, e o capítulo 12 falará dos cordeiros de cada casa.

O versículo não diz como Deus distinguiria um animal do outro, e seria forçar ligar a promessa à marca a fogo. O que o dado mostra é que a distinção proposta era inteligível para quem ouvia: num país em que cada boi tinha dono registrado, "os de Israel" e "os do Egito" eram duas listas reais.

3. Análise Teológica do Versículo

"E o SENHOR fará separação"

O verbo é o mesmo de Êxodo 8:22, onde Deus "pôs à parte" a terra de Gósen. Ali, a separação protegia um território: onde o povo estava, não haveria enxames. Aqui ela protege uma categoria de bens.

A diferença é visível no que o versículo não diz. Gósen não é mencionada. A frase não fala de região, de fronteira, de "onde o meu povo está". Fala de dois conjuntos de animais — os de Israel e os do Egito — e deixa de lado onde cada um estava pastando.

Isso muda o tipo de proteção. Uma praga que para numa fronteira pode, em tese, ser explicada pela distância. Uma praga que escolhe entre animais pelo dono não tem essa saída: o boi de um israelita e o de um egípcio podiam estar no mesmo pasto. O texto não diz que estavam. Mas, do jeito como a promessa é feita, a linha passa pela propriedade, não pelo mapa.

"entre os rebanhos de Israel e os rebanhos do Egito"

A frase põe os dois lados em paralelo exato: rebanhos de um, rebanhos do outro. E usa "Israel" de um lado e "Egito" do outro, dois nomes de povo — não "o meu povo" e "o seu povo", como em Êxodo 8:23.

"e não morrerá nada de tudo o que pertence aos filhos de Israel"

A promessa é dita de três modos ao mesmo tempo: "nada", "de tudo", "o que pertence". Não é "os rebanhos de Israel não serão muito atingidos". É: nenhuma cabeça.

E Israel não precisa fazer nada. Não há ordem de recolher os animais, de marcá-los, de levá-los para longe. Na última praga será diferente: cada casa terá de pôr sangue na porta para ser poupada (Êxodo 12:13). Aqui a proteção vem sem nenhum gesto dos protegidos.

E a promessa se volta para o futuro verificável. Uma peste que poupasse a maior parte dos animais de Israel seria sorte. Uma que não matasse nenhum é outra coisa — e é justamente isso que o rei vai mandar conferir no versículo 7.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR

Sujeito da separação. Quem separa é ele, sem gesto de ninguém.

Os filhos de Israel

Aparecem como donos. O versículo os chama duas vezes pelo nome do povo — "Israel", "filhos de Israel" — e só como proprietários de rebanhos. É a primeira vez, no relato das pragas, que o texto fala dos bens deles.

O Egito

O outro lado da linha. "Os rebanhos do Egito" retomam "os seus rebanhos" do versículo 3: o que era do rei agora é do país.

O lugar

Nenhum. Diferente de Êxodo 8:22, que nomeia Gósen, e de Êxodo 9:26, que volta a nomeá-la no granizo, este versículo não diz onde está nada.

O evento

É a segunda separação das pragas. A primeira, nos enxames, poupou uma região; esta poupa os animais de um povo. Uma terceira virá no granizo, e a da última praga será anunciada em Êxodo 11:7.

5. Pontos de Ensino

A separação muda de critério

Nos enxames, o critério foi o lugar. Na peste, é o dono. O texto não põe fronteira no mapa.

A promessa é de zero perdas

"Não morrerá nada." A frase exclui até a exceção.

A promessa é conferível

Quem ouve pode verificar. E, no versículo 7, alguém verifica.

Os israelitas aparecem como donos

Escravizados no trabalho, eles têm bens. O versículo trata desses bens com o mesmo cuidado que tem com os do Egito.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo mostra um critério de proteção que passa pela pertença: o animal é poupado ou atingido conforme o dono. Isso levanta a pergunta sobre o que torna justa uma distinção. O texto não diz que os rebanhos de Israel mereciam e os do Egito não; diz só de quem eram. A separação, aqui, não é prêmio por mérito — é a marca de um lado numa disputa entre Deus e o rei. Quem ler o versículo como regra de que Deus poupa os bens dos seus está indo além do que ele afirma.

7. Aplicações Práticas

A promessa sobre coisas concretas

O versículo trata de bois e ovelhas, não de sentimentos. Para os israelitas, a promessa dizia respeito ao que eles tinham de mais material: o sustento da casa.

A aplicação é modesta. O texto registra um caso em que Deus se ocupa dos bens de um povo oprimido, e não só da alma dele. Isso não autoriza esperar que nenhum bem se perca — o versículo é uma promessa feita naquele momento, para aquela praga. Mas desautoriza a ideia de que as coisas materiais sejam indiferentes para o Deus do Êxodo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Os rebanhos "de Israel" incluíam os que eles cuidavam para o rei?

Não se sabe. Em Gênesis 47:6, Faraó pediu que os homens capazes da família de Jacó fossem postos como chefes do gado real. Se, gerações depois, havia israelitas pastoreando rebanhos da coroa, esses animais eram "de Israel" ou "do Egito"? O versículo diz "o que pertence aos filhos de Israel", o que indica a propriedade, e não a guarda. O texto não trata do caso.

Onde estavam os rebanhos de Israel?

O versículo não diz. O leitor supõe Gósen, por causa de Êxodo 8:22 e 9:26, mas aqui a região não é nomeada.

9. Conexão com Outros Textos

A primeira separação

Êxodo 8:22-23 — "Naquele dia porei à parte a terra de Gósen, onde o meu povo está, para que ali não haja enxames — para que você saiba que eu sou o SENHOR no meio da terra. E porei um resgate entre o meu povo e o seu povo. Amanhã acontecerá este sinal."

Ali a separação é de terra e de povo. Aqui é de rebanho.

A separação que volta a ter lugar

Êxodo 9:26 — "Somente na terra de Gósen, onde estavam os filhos de Israel, não houve granizo."

No granizo, o critério volta a ser o mapa.

A última, que inclui homem e animal

Êxodo 11:7 — "Porém contra nenhum dos filhos de Israel um cão moverá a língua, desde o homem até o animal, para que se saiba que o SENHOR faz distinção entre os egípcios e Israel."

O mesmo verbo de separar, e de novo os animais dentro da proteção.

Os israelitas como criadores

Gênesis 46:32 — "Esses homens são pastores de ovelhas, pois são criadores de gado; e trouxeram as suas ovelhas, o seu gado e tudo o que têm."

A família chegou ao Egito com rebanho. É esse rebanho, gerações depois, que o versículo protege.

A separação que Moisés vai pedir

Êxodo 33:16 — "Pois como se saberá que achamos graça aos seus olhos, eu e o seu povo? Não é por andar você conosco, de modo que sejamos distinguidos, eu e o seu povo, de todos os povos que há sobre a face da terra?"

O verbo é o mesmo. No Egito, a separação é feita por Deus sobre bois e ovelhas. No deserto, depois do bezerro de ouro, é Moisés quem a pede — e o que distingue o povo já não é o rebanho poupado, é a presença de Deus no caminho.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E o SENHOR fará separação entre os rebanhos de Israel e os rebanhos do Egito, e não morrerá nada de tudo o que pertence aos filhos de Israel.’”

Texto hebraico

וְהִפְלָה יְהוָה בֵּין מִקְנֵה יִשְׂרָאֵל וּבֵין מִקְנֵה מִצְרָיִם וְלֹא יָמוּת מִכָּל־לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל דָּבָר׃

Transliteração

we-hiflah YHWH bein miqneh Yisra'el u-vein miqneh Mitsrayim, we-lo yamut mi-kol-li-vnei Yisra'el davar.

Análise palavra por palavra

וְהִפְלָה יְהוָה — we-hiflah YHWH, "e o SENHOR fará separação".

Verbo palah na forma causativa (o Hifil), num tempo que aqui aponta para o futuro: "e separará". É o verbo de Êxodo 8:22, onde está na primeira pessoa; a discussão sobre a raiz — se é "separar" ou "fazer maravilha" — está no estudo daquele versículo. Aqui o sujeito vem expresso, "o SENHOR": dentro do recado, Deus fala de si mesmo em terceira pessoa.

בֵּין… וּבֵין — bein… u-vein, "entre… e entre".

O hebraico repete a preposição antes de cada lado, como em Gênesis 1:4, onde Deus separa "entre a luz e entre as trevas". A construção põe os dois lados em posição igual na frase.

מִקְנֵה יִשְׂרָאֵל… מִקְנֵה מִצְרָיִם — miqneh Yisra'el… miqneh Mitsrayim, "os rebanhos de Israel… os rebanhos do Egito".

Miqneh na forma presa: "rebanho de". A palavra, como se viu no versículo 3, significa na origem "o que se possui". Os dois nomes de povo ficam em paralelo exato.

וְלֹא יָמוּת — we-lo yamut, "e não morrerá".

Verbo mut, morrer, no imperfeito de terceira pessoa do singular. É a primeira vez no bloco que aparece a raiz da morte; ela vai dominar os versículos 6 e 7, onde se repete quatro vezes.

מִכָּל־לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל — mi-kol-li-vnei Yisra'el, "de tudo o que é dos filhos de Israel".

Três partículas encadeadas: mi- (de, dentre), kol (tudo) e li- (de, pertencente a). A preposição le é a de posse em hebraico, que não tem verbo "ter": "o que é para os filhos de Israel" quer dizer "o que eles têm".

דָּבָר — davar, "nada".

A palavra comum para "coisa" ou "palavra", aqui na última posição, com a negação do verbo: "não morrerá… coisa". O hebraico fecha a frase justamente nela, o que lhe dá ênfase.

Tem as mesmas consoantes de dever, a peste do versículo 3. Dita a peste, a frase seguinte termina garantindo que não morrerá davar. Se é jogo de palavras, é discutido; o som está lá.

11. Conclusão

O versículo muda o critério da proteção. Nos enxames a linha passava pelo território; na peste, passa pela propriedade. E a promessa é de nenhuma perda.

Com base nisso, conclui-se que a separação anunciada não depende da geografia e não se reduz a uma questão de distância: ela é apresentada como escolha animal por animal. E, por ser total, ela se expõe à verificação — o que prepara o único momento da série em que o rei manda conferir.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 9:4

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%