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Êxodo 9:10

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 9 min de leitura·👁 20 acessos
Eles tomaram a fuligem da fornalha e se apresentaram diante de Faraó. Moisés a lançou para o céu, e ela causou feridas que rebentavam em bolhas nos homens e nos animais.
Moisés, de pé diante do trono de Faraó, com o braço erguido depois de lançar um punhado de pó escuro que se abre no ar; Arão ao lado, com as mãos ainda sujas de fuligem.

Estudo


Eles tomaram a fuligem da fornalha e se apresentaram diante de Faraó. Moisés a lançou para o céu, e ela causou feridas que rebentavam em bolhas nos homens e nos animais.

1. Introdução

A ordem é cumprida sem atraso e sem resistência: os dois pegam a fuligem, vão até o rei, Moisés lança, e as feridas aparecem.

O versículo repete quase palavra por palavra a ordem dos versículos 8 e 9. O interesse está nas pequenas diferenças: um artigo que aparece, um verbo de postura que entra, duas palavras que trocam de lugar e uma etapa inteira que some — a poeira espalhada por "toda a terra do Egito".

2. Contexto Histórico e Cultural

Ordem e cumprimento contados duas vezes

Contar uma ordem e depois contar o cumprimento dela com as mesmas palavras era técnica comum da narrativa antiga. O leitor de hoje sente a repetição como excesso; o ouvinte antigo a sentia como garantia de que tudo foi feito como mandado.

O exemplo mais claro vem de Ugarite (cidade da costa da Síria, destruída por volta de 1180 antes da era comum), no poema de Kirta, já apresentado no estudo de Gênesis 20:3. O deus El aparece em sonho ao rei e lhe dá uma série de instruções: lavar-se, subir ao alto da torre, oferecer sacrifício, reunir o exército, marchar sete dias. Quando Kirta acorda, o poema repete a lista inteira, agora como ações cumpridas, verso por verso, quase sem mudar uma palavra.

O Êxodo faz o mesmo, mas não com a mesma rigidez. Justamente por isso as pequenas diferenças entre ordem e execução ganham peso: num gênero que costuma repetir tudo, o que muda chama a atenção.

3. Análise Teológica do Versículo

"Eles tomaram a fuligem da fornalha"

Na ordem, era "fuligem de fornalha", sem artigo: qualquer fornalha. Agora é "a fuligem da fornalha": uma fornalha determinada, a de onde eles de fato tiraram o material. A ordem descrevia o tipo; a execução descreve o que foi feito.

O verbo continua no plural. Os dois pegam a fuligem, como tinham sido mandados.

"e se apresentaram diante de Faraó"

Esta frase não estava na ordem. Deus disse apenas que o gesto seria "diante dos olhos de Faraó"; o cumprimento acrescenta que os dois se puseram de pé diante do rei.

O acréscimo não é enfeite. Ele mostra que houve uma audiência — que os dois estavam na posição de quem comparece à presença do soberano. E prepara o versículo seguinte, onde outros homens da corte não vão conseguir ficar nessa mesma posição.

"Moisés a lançou para o céu"

Singular, como na ordem. Só Moisés lança. Arão, que pegou a fuligem, não faz o gesto.

"e ela causou feridas que rebentavam em bolhas nos homens e nos animais"

O efeito vem na mesma frase do gesto, sem nenhum intervalo. Não há "no dia seguinte", como na peste do gado. O punhado sobe e as feridas aparecem.

A execução pula a etapa intermediária. O versículo 9 anunciava que a fuligem se tornaria pó fino "sobre toda a terra do Egito". O cumprimento não fala de pó nem de país. Vai direto do gesto ao corpo: homens e animais. A extensão da praga ficará dita no versículo 11, com "todos os egípcios".

Há ainda uma troca de ordem entre as duas palavras da doença: na ordem, "feridas que rebentam em bolhas"; na execução, "feridas, bolhas que rebentam". A diferença é mínima e pode ser só variação de estilo. O que se pode dizer é que o texto não copia a si mesmo mecanicamente.

O que não está no versículo

Nenhuma reação do rei. Nenhuma palavra de Moisés. Nenhum comentário sobre o que Faraó viu. O relato é só gesto e efeito.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés e Arão

Agem juntos até o momento do gesto: pegam a fuligem e se apresentam ao rei. O lançamento é só de Moisés.

Faraó

Está presente e é o destinatário da cena, mas não faz nem diz nada neste versículo.

Os homens e os animais

Recebem as feridas. O versículo não diz quem, nem onde; a menção de "todos os egípcios" virá no versículo seguinte.

O lugar

A presença do rei, sem outra indicação. Não se diz se foi no palácio, num pátio ou ao ar livre — embora um punhado lançado "para o céu" pareça pedir céu aberto.

O evento

A execução da sexta praga, que começa e termina neste versículo: não houve anúncio antes, e não haverá negociação depois.

5. Pontos de Ensino

Obediência sem acréscimo

Os dois fazem o que foi mandado, na ordem em que foi mandado. O único acréscimo — pôr-se diante do rei — é o que a ordem já pressupunha.

O efeito imediato

Desta vez não há prazo. O gesto e as feridas estão na mesma frase.

A repetição tem diferenças

Um relato que repete a ordem na execução não é cópia. Comparar as duas versões mostra o que o texto quis dizer de novo.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo mostra a distância mínima entre ordem e ato: nada se interpõe, nem dúvida, nem pergunta, nem demora. Essa coincidência entre o que foi dito e o que foi feito é o que a tradição chamou de fidelidade. Mas o texto também registra que a execução não é cópia: ela pula uma etapa e acrescenta um gesto. Cumprir uma ordem, no relato, não é repetir suas palavras; é fazer a coisa acontecer.

7. Aplicações Práticas

Fazer o que foi combinado

Moisés e Arão fazem exatamente o que lhes foi pedido, sem ajustes nem desculpas. A relação real com o dia a dia é simples: quando alguém recebe uma tarefa clara, cumpri-la como foi pedida já é a parte mais importante. O versículo não vai além disso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a execução não fala do pó sobre toda a terra?

O texto não explica. Pode ser economia de narrativa — o efeito importa mais que o trajeto. Pode ser que o alcance fique para o versículo 11. Não é possível decidir.

Arão lançou alguma coisa?

Não. Ele pega a fuligem, se apresenta ao rei, e é Moisés quem lança. O que Arão fez com o seu punhado o texto não diz.

Os magos tentaram repetir o gesto?

Desta vez o texto não registra nenhuma tentativa. Nas três primeiras pragas houve imitação ou tentativa de imitação; nas duas seguintes, os magos nem aparecem; nesta, o próximo dado sobre os magos é que eles não conseguem nem comparecer. O que isso significa é assunto do versículo 11.

Quanto tempo as feridas levaram para aparecer?

O versículo não mede. A construção põe o efeito logo depois do gesto, sem intervalo, o que sugere rapidez, mas não diz se foi questão de minutos ou de horas.

9. Conexão com Outros Textos

A ordem que este versículo cumpre

Êxodo 9:8 — "Então o SENHOR disse a Moisés e a Arão: 'Encham as mãos de fuligem da fornalha, e Moisés a lance para o céu diante dos olhos de Faraó.'"

Êxodo 9:9 — "Ela se tornará um pó fino sobre toda a terra do Egito, e causará nos homens e nos animais feridas que rebentam em bolhas, em toda a terra do Egito."

Leia as duas ao lado deste versículo. Tudo o que é gesto se cumpre; o trajeto do pó sobre o país não é repetido.

Outra execução que segue a ordem ao pé da letra

Êxodo 7:20 — "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR havia ordenado: ele levantou o cajado e feriu as águas do Nilo, diante de Faraó e dos seus servos, e todas as águas do Nilo viraram sangue."

Mesmo esquema: os dois obedecem, um só faz o gesto, e tudo acontece diante do rei. Lá o texto registra também os servos; aqui não há plateia além de Faraó.

O gesto que Arão fez sozinho

Êxodo 8:17 — "Assim fizeram: Arão estendeu a mão com o seu cajado e feriu o pó da terra, e houve piolhos nos homens e nos animais; todo o pó da terra virou piolhos em toda a terra do Egito."

A praga anterior sem aviso também terminava "nos homens e nos animais". Lá o executor era Arão, e o alcance "em toda a terra do Egito" estava na execução; aqui o executor é Moisés, e o alcance fica fora.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Eles tomaram a fuligem da fornalha e se apresentaram diante de Faraó. Moisés a lançou para o céu, e ela causou feridas que rebentavam em bolhas nos homens e nos animais.

Texto hebraico

וַיִּקְחוּ אֶת־פִּיחַ הַכִּבְשָׁן וַיַּעַמְדוּ לִפְנֵי פַרְעֹה וַיִּזְרֹק אֹתוֹ מֹשֶׁה הַשָּׁמָיְמָה וַיְהִי שְׁחִין אֲבַעְבֻּעֹת פֹּרֵחַ בָּאָדָם וּבַבְּהֵמָה׃

Transliteração

wa-yiqchu et-piach ha-kivshan wa-ya'amdu lifnei Far'oh, wa-yizroq oto Mosheh ha-shamaymah, wa-yehi shechin ava'bu'ot poreach ba-adam u-va-behemah.

Análise palavra por palavra

וַיִּקְחוּ אֶת־פִּיחַ הַכִּבְשָׁן — wa-yiqchu et-piach ha-kivshan, "e tomaram a fuligem da fornalha".

O verbo laqach, tomar, no plural, na forma que encadeia a narrativa. A novidade é o artigo em ha-kivshan, "a fornalha", ausente na ordem do versículo 8. Com o artigo vem também a partícula et, que marca objeto direto determinado.

וַיַּעַמְדוּ לִפְנֵי פַרְעֹה — wa-ya'amdu lifnei Far'oh, "e ficaram de pé diante de Faraó".

Verbo amad, ficar de pé, pôr-se, no plural. "Ficar de pé diante de" alguém é a expressão hebraica para comparecer perante um superior e estar a serviço dele. É assim que Gênesis 41:46 descreve José diante de Faraó.

O verbo reaparece no versículo seguinte, negado — os magos "não conseguiram ficar de pé" —, e volta no versículo 16 na boca de Deus. As duas ocorrências são estudadas nesses versículos.

וַיִּזְרֹק אֹתוֹ מֹשֶׁה הַשָּׁמָיְמָה — wa-yizroq oto Mosheh ha-shamaymah, "e Moisés o lançou para o céu".

O verbo zaraq, o do arremesso e da aspersão, agora no singular. O objeto vem como pronome separado, oto, "o", referido à fuligem, que é masculina em hebraico. Ha-shamaymah leva a terminação de direção, "para o céu".

וַיְהִי שְׁחִין — wa-yehi shechin, "e houve inflamação".

Na ordem era we-hayah … li-shechin, "e se tornará em inflamação". Aqui é o simples "e houve". O anúncio de transformação vira constatação de resultado.

אֲבַעְבֻּעֹת פֹּרֵחַ — ava'bu'ot poreach, "bolhas, rebentando".

As duas palavras do versículo 9 em ordem invertida. Lá: shechin poreach ava'bu'ot, "inflamação que rebenta em bolhas". Aqui: shechin ava'bu'ot poreach. O particípio poreach, masculino singular, concorda com shechin e não com as bolhas, que são femininas plurais. A troca muda o ritmo, não o sentido.

בָּאָדָם וּבַבְּהֵמָה — ba-adam u-va-behemah, "no homem e no animal".

A preposição agora é be-, "em", e não mais al, "sobre". A doença não está sobre os corpos, como a poeira anunciada; está neles. E falta, no fim, o "em toda a terra do Egito" com que a ordem terminava.

11. Conclusão

A execução confirma que nada ficou entre a palavra e o fato. Os dois fizeram o que foi mandado, e o efeito veio na mesma frase do gesto.

Mas o texto não se limita a copiar a ordem. Acrescenta a audiência — os dois de pé diante do rei — e retira o trajeto do pó sobre o país. O que o relato mostra de novo é a cena na corte e o resultado no corpo, e não a paisagem.

Com isso, o versículo prepara o seguinte: dois homens conseguem ficar de pé diante de Faraó; os especialistas do rei, feridos, não conseguirão ficar de pé diante de Moisés.

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