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Gênesis 19:28

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 49 min de leitura·👁 9 acessos
Olhou para os lados de Sodoma e Gomorra, e para toda a terra da planície, e viu que da terra subia fumaça como a fumaça de uma fornalha.
Vista do alto de uma colina árida ao amanhecer, com uma coluna densa de fumaça escura subindo de um vale distante.

Estudo


Olhou para os lados de Sodoma e Gomorra, e para toda a terra da planície, e viu que da terra subia fumaça como a fumaça de uma fornalha.

1. Introdução

Este é o versículo do olhar. E é, também, um dos silêncios mais salientes do Gênesis.

Abraão está no alto. Olha para a extremidade sul da planície, onde ficavam as duas cidades, e depois estende a vista para o conjunto. O que sobe do chão é fumaça — comparada, pelo texto, à de uma fornalha.

E acabou. O versículo termina ali. Não há fala, não há gesto, não há oração, não há choro, não há comentário do narrador sobre o estado de quem olha.

Este item de estudo vai tratar de três coisas: o verbo que descreve esse olhar e de onde ele costuma ser usado; a comparação com a fornalha, que reaparece num lugar do Êxodo capaz de embaralhar a leitura fácil; e o silêncio, que é dado do texto e não pode ser preenchido em nome dele.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que se vê do alto de Hebrom

Convém situar a geografia, porque o versículo depende dela.

Abraão estava acampado junto aos carvalhos de Manre, na região de Hebrom, no alto da cordilheira central de Judá — cerca de novecentos metros acima do nível do mar.

A depressão do mar Morto fica a leste e muito abaixo: a superfície do lago está a mais de quatrocentos metros abaixo do nível do mar, e é o ponto de terra firme mais baixo do planeta.

A diferença de altura entre os dois pontos passa, portanto, de mil e trezentos metros, e a distância em linha reta é da ordem de trinta a quarenta quilômetros. Em dia limpo, das colinas a leste de Hebrom avista-se de fato a bacia do mar Morto.

Nada disso prova que o episódio aconteceu. Serve apenas para mostrar que o texto foi escrito por quem conhecia o terreno: a cena pressupõe um observador em posição elevada, olhando para baixo, e é exatamente essa a situação real de quem está em Hebrom.

A planície, e o que ela era

A expressão traduzida por "terra da planície" traz uma palavra hebraica específica, kikkar, que significa literalmente algo redondo — um disco, um círculo, e daí uma região circunscrita, um distrito.

Ela aparece pela primeira vez no livro em Gênesis 13:10, num versículo que é preciso ter em mente para ler este.

Ali, Ló levanta os olhos e vê "toda a planície do Jordão, que toda ela era bem regada — antes que o SENHOR destruísse Sodoma e Gomorra — como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito".

Repare no que o narrador fez naquele versículo: ele já antecipou a destruição, entre travessões, no meio da descrição da fertilidade. O leitor sabia desde o capítulo 13 o que ia acontecer com aquele lugar.

E repare no que está acontecendo agora: a mesma região, a mesma palavra, o mesmo gesto de levantar os olhos e olhar — só que o sujeito é o outro homem, e o que se vê não é verdura, é fumo.

As cidades da planície

O texto nomeia duas — Sodoma e Gomorra —, mas o relato bíblico conhece cinco cidades na região.

Gênesis 14:2 lista Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Bela, e informa que Bela é Zoar. Deuteronômio 29:23 volta a mencionar Admá e Zeboim ao lado das duas primeiras, e Oseias 11:8 usará os nomes de Admá e Zeboim como símbolo de catástrofe.

Zoar foi poupada, a pedido de Ló, no versículo 21 deste mesmo capítulo. O que aconteceu com Admá e Zeboim, o capítulo 19 não diz; o versículo 25 fala em "as cidades" e "toda aquela planície", sem contar.

A dupla "Sodoma e Gomorra" acabou virando fórmula fixa no resto da Bíblia, e é assim que ela reaparece em Deuteronômio, em Isaías, em Jeremias, em Amós, em Sofonias e no Novo Testamento.

Fornos e fornalhas no mundo antigo

A comparação do versículo exige que se saiba o que era o objeto comparado.

A palavra hebraica kivshan designa um forno de grande porte — o de cozer cerâmica, o de queimar calcário para produzir cal, o de fundir metal. Não é o forno doméstico de assar pão, que em hebraico tem outro nome, tannur.

Esses fornos eram estruturas fixas, alimentadas por dias, com tiragem forte. A fumaça que sai deles não é a fumaça branca e leve de uma fogueira: é densa, escura, contínua, e sobe em coluna.

Quem morava numa cidade antiga conhecia essa imagem de vista. Era o forno da olaria, o forno da caieira — a coluna que se via de longe e que não se apagava enquanto durasse a queima.

Ou seja: a comparação do versículo é doméstica, e não cósmica. O autor não recorre a uma imagem de fim do mundo. Recorre à indústria que qualquer leitor conhecia.

O terreno e o que ele contém

Vale registrar um dado material, com a cautela devida.

A região do mar Morto é geologicamente peculiar. Fica sobre uma falha tectônica ativa, o que a torna sujeita a terremotos; tem depósitos de betume, que aflora e já foi objeto de comércio na Antiguidade; e apresenta enxofre e sal em abundância, inclusive em formações que se erguem do solo.

Isso não demonstra nada sobre o episódio narrado. Não há como converter a existência de betume e enxofre numa confirmação do relato, e quem tenta está fazendo apologética, não geologia.

O que se pode dizer, com segurança e sem ganho para nenhum lado, é que o autor descreve uma catástrofe usando os materiais que aquela paisagem exibe. Isso é o que se espera de um texto escrito por quem conhece o lugar, seja ele relato de acontecimento, memória deformada de acontecimento ou construção literária sobre uma paisagem impressionante.

Onde este versículo está

Ele é o segundo de um par. O versículo 27 põe Abraão no lugar; o 28 informa o que ele viu de lá.

Os dois juntos formam o epílogo da conversa do capítulo 18 e a última aparição de Abraão como personagem ativo neste episódio. No versículo 29, ele será mencionado na terceira pessoa, como razão de um resgate; e depois o livro segue para o capítulo 20, com ele já em outra região.

O reencontro com Ló nunca acontece no Gênesis. Convém saber disso ao ler o que este versículo mostra e o que não mostra.

3. Análise Teológica do Versículo

"Olhou para os lados de Sodoma e Gomorra"

Comecemos pelo verbo, porque ele é a palavra mais interessante do versículo e quase nunca é comentada.

O hebraico traz vayyashqef, da raiz shaqaf, numa forma causativa. O sentido não é o de olhar em geral — para isso o hebraico tem outros verbos, mais comuns, como ra'ah (ver) e nabat (fitar).

Shaqaf significa especificamente olhar de cima para baixo, debruçar-se sobre alguma coisa a partir de um ponto elevado. A raiz tem parentesco com a palavra que designa a janela, o vão por onde se olha para fora e para baixo.

Vale percorrer as ocorrências, porque elas desenham um retrato preciso do verbo.

Em Juízes 5:28, a mãe de Sísera olha pela janela e pergunta por que o carro do filho tarda — sem saber que ele está morto.

Em 2 Samuel 6:16, Mical olha da janela e vê Davi dançando diante da arca, e o despreza no coração.

Em 2 Reis 9:30, Jezabel pinta os olhos e se põe à janela, à espera de Jeú, momentos antes de ser lançada dali.

Em Êxodo 14:24, o SENHOR olha, da coluna de fogo e de nuvem, para o acampamento dos egípcios — e o perturba.

Em Salmos 14:2, "o SENHOR olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia alguém prudente".

Em Salmos 102:19, ele olha desde o alto do seu santuário, desde os céus, para a terra.

Em Deuteronômio 26:15, pede-se que ele olhe desde a morada da sua santidade e abençoe o povo.

Em Lamentações 3:50, espera-se que ele olhe desde os céus e veja.

Recolhamos o que essa lista mostra. O verbo aparece em dois grupos de situações: alguém a uma janela, e Deus dos céus. Em ambos, há altura, há distância e há uma assimetria — quem olha não está dentro do que vê.

E há mais um traço, que vale registrar como observação e não como regra: nas ocorrências humanas, o que se olha da janela costuma terminar mal para quem olha ou para quem é olhado. A mãe de Sísera espera um filho morto; Mical será estéril; Jezabel será atirada janela abaixo.

Não sustento que o autor do Gênesis tivesse essa lista na cabeça — vários desses textos são posteriores. Sustento apenas que o verbo carrega, no hebraico bíblico, a cena de quem observa de cima algo que não pode alcançar.

Uma ocorrência que muda a leitura desta

Há uma outra ocorrência, e é a decisiva, porque está no mesmo bloco narrativo.

Gênesis 18:16: "e os homens se levantaram dali, e olharam até Sodoma; e Abraão ia com eles, acompanhando-os".

É o mesmo verbo. E é o gesto que abre a inspeção — o momento em que os visitantes se voltam para a cidade antes de descer até ela.

Ou seja: o bloco começa com esse verbo, aplicado aos mensageiros diante de uma cidade ainda de pé, e termina com esse verbo, aplicado a Abraão diante da mesma cidade em fumaça.

Naquele momento, Abraão os acompanhava. Agora está sozinho.

Registro a simetria como observável no texto. Se ela é deliberada, não é possível decidir — mas o verbo é raro o bastante para que a coincidência mereça ser notada, e ele aparece duas vezes num mesmo episódio, nas duas pontas dele.

A palavra "face", três vezes em dois versículos

Agora um detalhe que se perde inteiramente na tradução e que vale trazer à superfície.

O versículo 27 termina dizendo que Abraão estivera et-penei YHWH — literalmente, "junto à face do SENHOR".

O versículo 28 começa dizendo que ele olhou al-penei Sedom va-Amorah — literalmente, "sobre a face de Sodoma e Gomorra" — e prossegue: ve-al-kol-penei erets hakkikkar, "e sobre toda a face da terra da planície".

É a mesma palavra, panim, três vezes em duas linhas.

Convém ser rigoroso antes de tirar conclusão. Em hebraico, "a face de" é preposição corrente para "a superfície de", e ninguém que escrevesse "sobre a face da terra" estaria pensando num rosto. A expressão é banal.

Mas o encadeamento existe, e é do texto: ontem ele esteve diante de uma face; hoje olha para a face de duas cidades e para a face inteira do distrito.

Apresento isso como observação sobre o vocabulário, não como intenção demonstrável do autor. Quem quiser ver aí um jogo deliberado pode; quem não quiser tem a gramática do seu lado. O que não se pode é fingir que a repetição não está lá.

"e para toda a terra da planície"

Repare no movimento do olhar, porque o versículo o descreve em duas etapas.

Primeiro, as duas cidades. Depois, o conjunto: "toda a terra da planície". A palavra "toda" está no hebraico, e não é enfeite do tradutor.

O efeito é de ampliação. Ele procura um ponto e encontra uma extensão. Olha para onde as cidades estavam e depois corre a vista pelo resto — e o resto está igual.

É aqui que se mede a diferença em relação ao capítulo 13. Naquele versículo, Ló levantou os olhos e viu toda a planície do Jordão, bem regada em toda a sua extensão, comparável ao jardim do SENHOR e à terra do Egito. A palavra "toda" também estava lá.

A mesma totalidade, portanto, nos dois versículos. Numa, verdura de ponta a ponta; noutra, fumo de ponta a ponta.

E há um detalhe que fecha o quadro: quem levantou os olhos e olhou a planície, no capítulo 13, foi Ló, e foi por causa daquele olhar que ele escolheu ir para lá. Quem olha agora é o tio, e o sobrinho está numa cidadezinha da borda, vivo, sem que ninguém o informe.

"e viu que da terra subia fumaça"

O hebraico traz aqui uma partícula que a maior parte das traduções portuguesas absorve no verbo, e que vale expor.

Depois de "e viu", o texto põe vehinneh — "e eis que". É a partícula que a narrativa hebraica usa para transferir o ponto de vista para dentro da personagem.

Quando ela aparece depois de um verbo de percepção, o que vem em seguida é o que a personagem está vendo, no instante em que vê. Deixa de ser relato do narrador e passa a ser a cena tal como bate nos olhos de quem olha.

Isso é uma informação técnica com consequência forte: o resto do versículo é o campo de visão de Abraão. Não é a descrição objetiva do que aconteceu com as cidades — para isso o texto já tinha os versículos 24 e 25. É o que se enxerga de trinta quilômetros de distância e mil metros de altura.

E o que se enxerga é fumaça. Não fogo, não ruínas, não corpos, não gente correndo. A distância só devolve a coluna.

Vale acrescentar que a palavra usada para a fumaça não é a comum. O hebraico corrente para fumo é ashan, palavra frequente. Aqui está qitor, que ocorre pouquíssimas vezes em toda a Bíblia hebraica — duas delas neste mesmo versículo.

Fora daqui, ela aparece no Salmo 148:8, numa lista de fenômenos naturais que cumprem a palavra de Deus, e no Salmo 119:83, na imagem de um odre exposto ao fumo.

O sentido parece ser o de vapor denso, exalação espessa que sobe. Registro que a raridade da palavra impede precisão maior: com tão poucas ocorrências, não há como delimitar o campo semântico com segurança, e quem afirma saber exatamente a diferença entre qitor e ashan está afirmando mais do que os dados sustentam.

"como a fumaça de uma fornalha"

Chegamos à comparação, e é aqui que o versículo guarda o seu material mais desconcertante.

A palavra é kivshan. Ela designa o forno grande — de olaria, de cal, de fundição —, e não o forno de pão.

Ocorre quatro vezes em toda a Bíblia hebraica. Vale examinar as três outras, uma a uma.

Êxodo 9:8 e 9:10. Moisés e Arão devem tomar punhados de cinza de uma fornalha e lançá-los ao céu diante do faraó; da cinza vem a praga das úlceras. A fornalha aqui é instrumento de juízo sobre o Egito.

Êxodo 19:18. E este é o que importa. O texto descreve a descida de Deus sobre o Sinai: "e todo o monte Sinai fumegava, porque o SENHOR havia descido sobre ele em fogo; e a fumaça dele subia como a fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente".

Ponha os dois versículos lado a lado.

Gênesis 19:28: subia a fumaça da terra como a fumaça da fornalha.

Êxodo 19:18: subia a fumaça dele como a fumaça da fornalha.

A construção é a mesma: verbo de subir, mais a palavra da fumaça, mais a comparação com a fornalha. A diferença de vocabulário é uma só — o Gênesis usa qitor e o Êxodo usa ashan —, e a estrutura da frase é idêntica.

Aqui é preciso pensar em como formular a observação sem exagerá-la, porque ela é forte.

O que se pode afirmar: a mesma imagem descreve a destruição das cidades da planície e a manifestação de Deus no monte da aliança. Isso está nos dois textos e é verificável em qualquer tradução que respeite o hebraico.

O que não se pode afirmar: que o autor de um estivesse citando o outro, ou que a coincidência seja mensagem. Não há como estabelecer a direção de dependência entre os dois textos, e a datação relativa das camadas do Pentateuco é assunto discutido entre os próprios especialistas, sem consenso.

Há ainda uma explicação sóbria e provavelmente suficiente: a fornalha era o objeto mais fumegante que aquela cultura conhecia. Quem quisesse dizer "muita fumaça, densa, subindo em coluna" tinha essa comparação à mão, e usava-a. Duas ocorrências independentes da mesma comparação óbvia não provam relação entre os textos.

Dito isso, o efeito sobre quem lê a Bíblia inteira permanece, e não convém varrê-lo para debaixo do tapete: a coluna que sinaliza a presença de Deus e a coluna que sinaliza a destruição de uma cidade são descritas com a mesma figura.

E há um terceiro texto que aumenta o desconforto, este dentro do próprio ciclo de Abraão.

Em Gênesis 15:17, quando a aliança é selada, o que passa entre os animais partidos é "um forno fumegante e uma tocha de fogo". A palavra do forno ali é outra — tannur, o forno pequeno —, e por isso não se trata do mesmo termo. Mas a cena é a mesma: fogo e fumaça funcionando como sinal da presença que faz a promessa.

Ou seja, dentro do mesmo ciclo narrativo, fogo com fumaça aparece duas vezes: uma sela a aliança com Abraão, outra encerra as cidades pelas quais ele pediu.

Registro a observação e o seu limite: as palavras dos fornos são diferentes, e a leitura que junta as duas cenas é minha, não do texto.

O que ele não vê

Vale inventariar o campo de visão pelo que falta nele, porque a lista é reveladora.

Ele não vê Zoar. A cidadezinha foi poupada, está intacta, e Ló chegou lá ao nascer do sol, como o versículo 23 informou. O texto não diz que Abraão a distinguiu, e a rigor não diria: uma povoação pequena, na borda da planície, sob uma coluna de fumaça que cobre o distrito inteiro.

Ele não vê Ló. Não vê as duas filhas. Não vê a coluna de sal em que a mulher se tornou.

Ele não vê fogo — só o que resta dele.

Ele não vê pessoa alguma. A distância que permite abarcar o distrito inteiro é a mesma que apaga qualquer indivíduo dentro dele.

E aqui está o contraste que organiza o episódio todo, e que vale enunciar devagar.

No capítulo 18, esse mesmo homem discutiu unidades. Cinquenta. Quarenta e cinco. Quarenta. Trinta. Vinte. Dez. Pessoas contáveis, uma a uma, e a conversa inteira girou em torno de quantas seriam suficientes.

Aqui, ele olha e vê uma massa indistinta subindo do chão. Nada é contável numa coluna de fumaça.

A observação é minha e apresento-a como tal. O texto não a faz; apenas fornece os dois quadros.

O silêncio, que é o assunto do versículo

Agora o principal, e é preciso enfrentá-lo sem contornar.

O versículo termina na fumaça. Não há mais nada.

Abraão não diz uma palavra. Não levanta as mãos, não se prostra, não constrói altar, não invoca o nome do SENHOR — coisas que o Gênesis registra dele em 12:7-8, em 13:18, em 21:33. O autor sabia escrever esses gestos e escreveu-os em outros lugares; aqui, não escreveu.

Não há verbo de choro. Não há a fórmula de luto que o livro usa em outras ocasiões — rasgar as vestes, pôr saco sobre os lombos, chorar por alguém —, e que aparecerá, por exemplo, no capítulo 37, quando Jacó julga José morto.

Não há comentário do narrador. Nenhum "e Abraão se entristeceu", nenhum "e temeu", nenhum "e se lembrou de Ló".

E não há resposta divina. Ninguém desce, ninguém fala, ninguém explica quantos justos foram encontrados.

Convém agora ser muito preciso sobre o que fazer com isso, porque este é exatamente o ponto em que a leitura devocional costuma preencher e apresentar o preenchimento como texto.

Primeiro: a narrativa hebraica é econômica por método. Ela raramente informa estados interiores, e a ausência de descrição psicológica não é, por si só, prova de ausência de emoção na personagem. Quem lê "o texto não diz que ele sofreu" e conclui "logo, ele não sofreu" está lendo mal.

Segundo, e simetricamente: quem afirma que ele chorou, que orou de novo, que se sentiu culpado ou que aceitou o juízo divino com serenidade está acrescentando. Pode ser leitura legítima; não é o que está escrito.

Terceiro, e é o que se pode afirmar com alguma segurança: a escolha de terminar o versículo na fumaça produz um efeito, e o efeito é de suspensão. O leitor fica sem saber o que aquele homem pensou. Fica com a imagem, e nada mais.

Quarto: há um contraste interno ao próprio episódio que ninguém pode negar. O capítulo 18 deu a Abraão nove falas seguidas — ele argumenta, insiste, se desculpa, volta a pedir. Ele é, ali, a personagem mais falante do capítulo. Aqui, diante do resultado, ele não abre a boca.

Esse contraste é do texto. O que ele significa, o texto não diz.

Olhar e não morrer

Uma última observação, sobre um paralelo interno que costuma ser mencionado depressa demais.

Dois versículos antes, a mulher de Ló olhou para trás e se tornou estátua de sal. Aqui, Abraão olha e nada lhe acontece.

A aproximação é tentadora, e é preciso desarmá-la em parte.

Os verbos são diferentes. No versículo 26, o verbo é nabat, olhar para, voltar-se para ver — o mesmo que estava na proibição do versículo 17, "não olhes para trás". Aqui é shaqaf, olhar de cima.

As situações também são diferentes. Ela estava fugindo, sob ordem expressa de não olhar; ele nunca recebeu ordem nenhuma, e não estava em fuga.

Portanto, quem monta a lição "há um olhar que mata e um olhar que não mata" está construindo sobre um paralelo que o hebraico não sustenta. O texto não põe as duas cenas em relação, e as palavras não coincidem.

O que subsiste, depois de retirada a parte frágil, é apenas isto — e já é bastante: nos dois casos alguém olha para a mesma catástrofe, e o texto trata os dois olhares de maneiras completamente diferentes, sem explicar por quê.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Abraão — o único sujeito ativo do versículo. Todos os verbos são dele: olhou e viu. Ele não fala e não age além disso, e o texto não informa o que sentiu.

Sodoma — a principal das cidades da planície, onde Ló morava desde Gênesis 13:12 e onde foi encontrado sentado à porta em 19:1. Já foi destruída quando este versículo começa.

Gomorra — a cidade citada sempre em par com Sodoma. O relato do capítulo 19 não narra nada que se passe dentro dela; ela aparece nas fórmulas de acusação (18:20) e de destruição (19:24-25), e a partir daqui as duas viram uma expressão só no vocabulário bíblico.

A terra da planície — em hebraico kikkar, literalmente "o disco", "o círculo": a depressão do vale do Jordão na sua extremidade sul, junto ao mar Morto. É a mesma região que Ló viu e escolheu em Gênesis 13:10-11, então descrita como bem regada em toda a extensão.

A fumaça — em hebraico qitor, palavra rara, que ocorre duas vezes neste versículo e apenas mais duas vezes em toda a Bíblia hebraica, nos Salmos. É a única coisa que Abraão efetivamente enxerga.

A fornalhakivshan, o forno grande de olaria, de cal ou de fundição, distinto do forno doméstico de pão. Termo raro: ocorre quatro vezes na Bíblia hebraica, e uma delas descreve o monte Sinai no dia da descida de Deus (Êxodo 19:18).

Zoar — ausente do versículo, e a ausência importa. A cidadezinha foi poupada a pedido de Ló e está intacta a poucos quilômetros do que Abraão está olhando. O texto não diz que ele a viu.

Ló e as filhas — igualmente ausentes. Estão vivos naquele momento, e nada no campo de visão descrito permitiria a Abraão sabê-lo.

A destruição — o evento ocorrido durante a noite, narrado nos versículos 24 e 25. Aqui ele não é narrado outra vez: aparece apenas pelo que dele restou visível à distância.

5. Pontos de Ensino

O verbo não é "olhar" em geral — é "olhar de cima". O hebraico shaqaf descreve quem se debruça de um ponto alto ou de uma janela. Aparece na mãe de Sísera, em Mical, em Jezabel — e, com Deus como sujeito, em Êxodo 14:24 e no Salmo 14:2.

O mesmo verbo abriu a inspeção. Em Gênesis 18:16, os visitantes "olharam" para Sodoma antes de descer. O bloco começa e termina com a mesma palavra rara, diante da mesma cidade — de pé numa ponta, em fumaça na outra.

A partícula "e eis que" transfere a cena para os olhos dele. O que vem depois de "e viu" não é a descrição objetiva da catástrofe: é o campo de visão de quem está a trinta quilômetros e mil metros de altura. E o que cabe ali é fumaça, mais nada.

A mesma comparação descreve o Sinai. Êxodo 19:18 diz que a fumaça do monte subia "como a fumaça de uma fornalha", com a mesma estrutura de frase. A imagem da presença divina e a imagem da cidade destruída coincidem — e o texto não comenta a coincidência.

Ele vê o distrito inteiro e não vê ninguém. No capítulo 18, contava justos de dez em dez. Aqui, a distância que permite abarcar tudo apaga qualquer pessoa.

O contraste com Gênesis 13:10 é do próprio livro. Ló levantou os olhos e viu "toda" a planície bem regada; Abraão olha "toda" a terra da planície em fumo. Mesma região, mesma totalidade, resultado invertido.

O versículo termina sem reação. Sem fala, sem gesto, sem altar, sem choro, sem comentário do narrador, sem resposta divina. Registrar esse silêncio é diferente de preenchê-lo — e diferente, também, de concluir dele que nada se passou.

6. Aspectos Filosóficos

A posição de quem olha de cima

O versículo põe um homem numa posição específica, e vale examinar o que essa posição faz.

De cima, vê-se o conjunto. Vê-se a forma da coisa, a extensão dela, o desenho geral. É por isso que se sobe: para abarcar.

E, de cima, não se vê ninguém. A mesma altura que entrega o conjunto suprime o detalhe. A pessoa, o rosto, o gesto — nada disso sobrevive à distância.

Há aí um paradoxo que não é só deste versículo. Toda visão de conjunto é comprada com a perda do particular, e toda atenção ao particular é comprada com a perda do conjunto. Não existe posição que dê as duas coisas.

O episódio de Sodoma põe as duas em sequência, e é isso que o torna instrutivo. No capítulo 18, Abraão está no nível dos números pequenos: cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, dez. Ele desce a escada da contagem até chegar a um número que ainda cabe numa sala.

No capítulo 19, ele está no alto, e o que vê não tem número.

O texto não faz esse comentário. Faço-o eu, e assinalo que é meu.

O olhar que não pode agir

Vale pensar em como caracterizar essa espécie de olhar, porque ela tem um nome na experiência comum.

Existe o olhar de quem pode intervir: o médico que examina, o vizinho que vê o incêndio e corre. E existe o olhar de quem só pode registrar.

Este é do segundo tipo. Abraão não vai fazer nada, e não porque seja indiferente — porque não há nada a fazer. As cidades já não existem. A distância é grande. O acontecimento terminou durante a noite.

A literatura bíblica conhece bem essa posição. A mãe de Sísera à janela é exatamente isso: alguém olhando na direção de um acontecimento que já se decidiu sem ela.

E é uma posição moralmente estranha, porque não é culpada e também não é inocente. Quem olha de longe não fez o mal que vê; mas participa dele de um modo tênue, pelo simples fato de estar do lado de fora, vivo, olhando.

Convém não moralizar isso, e por isso registro logo: o texto não acusa Abraão de nada, e não há nesta cena nenhuma insinuação de reprovação. A reflexão é sobre a posição, não sobre a personagem.

A ambiguidade da mesma imagem

Este é o ponto filosoficamente mais denso do versículo, e o mais desconfortável.

A coluna de fumaça que sobe de um monte é, no Êxodo, o sinal de que Deus desceu. A coluna de fumaça que sobe da planície é, no Gênesis, o sinal de que uma cidade acabou.

A figura é a mesma. O que muda é o que está debaixo dela.

Disso decorre uma consequência que vale enunciar com clareza, porque ela vale muito além destes dois textos: o sinal não interpreta a si mesmo.

Uma coluna de fumo no horizonte não diz se é forno de oleiro, aliança sendo selada ou cidade queimando. Quem lê o sinal precisa de mais alguma coisa — precisa saber o que houve, e essa informação não vem no sinal.

Abraão, no alto, tem a imagem e não tem a chave. Ele sabe que houve uma conversa na véspera; sabe que uma condição foi posta; não sabe se a condição foi cumprida. A fumaça, sozinha, não responde.

Isso desmonta, de passagem, uma prática religiosa muito difundida: a leitura de acontecimentos como mensagens. O acontecimento é opaco. Ele admite mais de uma leitura, e a leitura escolhida diz mais sobre quem lê do que sobre o que se vê.

Registro que essa é conclusão minha, extraída da comparação entre dois textos. O Gênesis não a formula.

O que se pode saber pelos olhos

Vale insistir num ponto que o versículo estabelece quase sem querer.

A partícula "e eis que" faz do resto da frase o campo de visão de Abraão. Ou seja: o texto está dizendo o que ele viu, e não o que aconteceu.

O que aconteceu, o leitor já sabe: os versículos 24 e 25 narraram enxofre e fogo, e a destruição das cidades, da planície, dos moradores e da vegetação.

O que Abraão vê é fumaça.

Há aí uma distinção epistemológica limpa, e é raro encontrá-la tão bem armada numa narrativa antiga: o acontecimento e a evidência do acontecimento não são a mesma coisa, e quem tem só a evidência tem menos do que quem tem o relato.

O leitor da Bíblia está na posição privilegiada — tem o relato. A personagem está na posição comum — tem a evidência.

E convém dizer qual das duas posições é a nossa, na maior parte da vida. É a de Abraão.

Sobre não reagir

O versículo termina sem reação, e é preciso pensar em como tratar isso sem inventar.

A primeira coisa a dizer é que o silêncio narrativo tem explicação de método: este livro quase não descreve interioridade. Não é um silêncio construído especialmente aqui.

A segunda é que, mesmo assim, o contraste com o capítulo anterior salta aos olhos. Ali, Abraão fala nove vezes. Argumenta, insiste, se desculpa por insistir, volta a insistir. É a personagem mais falante do capítulo.

Aqui, diante do desfecho, nada.

A terceira, e é a que interessa: há situações em que a ausência de reação não é frieza nem é resignação. É simplesmente o que resta quando já não há nada a dizer e ninguém a quem dizer.

O interlocutor da véspera se foi no versículo 18:33. A cidade não existe. O sobrinho está fora do campo de visão e fora do alcance.

Não afirmo que seja isso que o texto quer dizer — o texto não diz nada. Afirmo que essa é uma situação humana reconhecível, e que o versículo a monta com precisão, quer o autor tenha querido, quer não.

A memória de uma paisagem

Um último aspecto, e é sobre o modo como este episódio funcionou depois.

Sodoma e Gomorra tornaram-se, no resto da Bíblia, a fórmula fixa da destruição. Deuteronômio 29:23, Isaías 13:19, Jeremias 49:18, Amós 4:11, Sofonias 2:9, e depois o Novo Testamento — todos usam os dois nomes como medida de catástrofe.

E, no Apocalipse, a imagem deste versículo reaparece quase palavra por palavra: "subiu fumaça do poço, como a fumaça de uma grande fornalha".

Vale observar o que aconteceu no caminho. Uma coluna de fumo vista de uma colina, num relato patriarcal, virou o vocabulário padrão do juízo em toda uma literatura.

Convém ainda registrar um dado que costuma ser esquecido nessa cadeia. Quando os profetas voltam a Sodoma, nem sempre é para falar do que a leitura popular associa à cidade. Ezequiel 16:49 define assim a maldade de Sodoma: soberba, fartura de pão, abundância de conforto — e nenhuma ajuda ao pobre e ao necessitado.

Ou seja: a própria Bíblia, ao voltar ao caso, discorda em parte da leitura que se tornou corrente. Registro o dado; a discussão completa sobre a acusação contra a cidade pertence aos versículos anteriores deste capítulo, e não a este.

7. Aplicações Práticas

Saiba de que altura você está olhando

O verbo deste versículo é o de quem olha de cima. Do alto se vê o conjunto e não se vê pessoa alguma.

Essa é, hoje, a posição normal de quase todo mundo diante de quase tudo. Vemos números, mapas, gráficos, cidades inteiras resumidas numa manchete. Vemos a fumaça.

Não há como escapar disso — não se pode conhecer o mundo a partir de dentro de cada casa. O que se pode é lembrar de que altura se está olhando, e não confundir a vista do alto com conhecimento do que há embaixo.

A prática concreta é a de sempre, e é simples de enunciar: quando estiver falando de muita gente ao mesmo tempo, procure saber o nome de alguns.

Não leia acontecimentos como mensagens

A mesma imagem — fumaça subindo como de uma fornalha — descreve, no Gênesis, uma cidade destruída, e no Êxodo, Deus descendo sobre o Sinai.

Isso deveria bastar para desarmar o hábito de interpretar desgraças como recado divino. O sinal não vem com etiqueta. Ele admite leituras opostas, e a leitura que se escolhe costuma ser a que já se trazia de casa.

Não estou dizendo que Deus não fale por acontecimentos — não tenho como saber, e o texto não resolve isso. Estou dizendo que a fumaça, sozinha, não informa qual dos dois casos é.

Quem se lembra disso fica menos exposto a duas coisas ruins: à crueldade de explicar a tragédia alheia, e ao desespero de explicar a própria.

Aceite que às vezes só existe a evidência

O texto marca com precisão a diferença entre o que aconteceu e o que Abraão viu. O leitor tem o relato completo; ele tem uma coluna de fumo.

Vale reconhecer que a nossa posição habitual é a dele. Sabemos que algo terminou; não sabemos como, nem por quê, nem o que sobrou.

A tentação é preencher — inventar a explicação que falta, porque uma explicação ruim incomoda menos do que nenhuma.

O que este versículo oferece, ao terminar na fumaça e não dizer mais nada, é a possibilidade de ficar com a evidência sem completá-la. Não é confortável, e é honesto.

Nem todo silêncio é indiferença

Abraão não diz nada aqui. Nada.

Isso, no mesmo homem que na véspera falou nove vezes seguidas, discutindo número por número.

Convém tirar disso uma cautela dupla, e nos dois sentidos.

Contra quem interpreta o silêncio alheio como frieza: não há como sabê-lo. O texto não informa, e as pessoas caladas nem sempre estão vazias.

Contra quem transforma o próprio silêncio em virtude: também não há como sabê-lo. Calar pode ser aceitação e pode ser incapacidade de falar; o Gênesis não distingue os dois casos aqui, e nós tampouco distinguimos com facilidade em nós mesmos.

Volte e olhe — mesmo sem poder fazer nada

Abraão subiu sabendo que não havia o que fazer. As cidades tinham acabado durante a noite; ele estava a trinta quilômetros; não tinha nem meios nem missão.

E foi ver assim mesmo.

Há uma decência nesse gesto que vale nomear. Voltar-se para aquilo por que se pediu, mesmo sem poder intervir, é diferente de virar o rosto. Não muda o resultado; muda quem olha.

Digo isso sem transformar em dever. O texto não elogia o gesto de Abraão nem o comenta — apenas o registra. A avaliação é minha.

Cuidado com o que a distância faz com a compaixão

Este é o desconforto que o versículo produz, e é honesto encará-lo.

Aquele homem havia negociado seis vezes por uma cidade. Nenhuma daquelas falas foi possível sem que ele imaginasse pessoas — justos, contáveis, dentro de casas.

Agora, o mesmo homem olha o resultado, e o texto não registra sofrimento nenhum.

Não afirmo que ele não tenha sofrido; já disse por que não se pode afirmar isso. Registro apenas o que a sequência de versículos monta: enquanto contava, ele agia; quando passou a ver de longe, calou.

A aplicação é sobre nós, e não sobre ele. A compaixão trabalha com unidades. Quando o assunto vira paisagem, ela desliga — e não avisa que desligou.

A oração que não vem seguida de explicação

Este homem pediu, obteve concessões, e não recebeu depois nenhuma prestação de contas. Ninguém lhe disse quantos justos havia, nem por que não bastaram.

É útil ter esse caso à mão, porque a religião popular costuma ensinar que a resposta sempre chega, de um jeito ou de outro, e que basta saber ler.

Aqui não chegou. O que chegou foi uma paisagem.

Guardo, para não distorcer: o versículo 29 dirá ao leitor que o pedido teve consequência. Só que essa informação é dada ao leitor, e não a ele — e o Gênesis nunca registra que Abraão tenha vindo a sabê-la.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto não diz o que Abraão sentiu?

Porque a narrativa hebraica quase nunca diz o que alguém sente. É um traço do gênero: conta-se o que se faz e o que se fala, e o interior fica de fora.

Isso tem duas consequências, e as duas precisam ser ditas juntas. A primeira: não se pode concluir do silêncio que ele foi indiferente. A segunda: também não se pode afirmar que ele sofreu, chorou ou se sentiu culpado — isso é acréscimo do leitor.

O que se pode afirmar é que o autor escolheu terminar o versículo na fumaça, e que essa escolha deixa quem lê sem informação.

Ele viu Ló? Viu Zoar?

O texto não diz que viu, e a rigor não teria como. Zoar era uma povoação pequena na borda da planície; Ló chegara lá ao amanhecer, como informa o versículo 23; e o campo de visão descrito é de uma coluna de fumaça cobrindo o distrito inteiro, a dezenas de quilômetros.

O relato é cuidadoso nesse ponto: lista o que ele olhou — as duas cidades, toda a terra da planície — e o que ele viu — a fumaça. Zoar e Ló não estão em nenhuma das duas listas.

É por isso que o versículo seguinte é dirigido ao leitor, e não à personagem.

Por que a comparação é com uma fornalha, e não com um incêndio?

Porque a fornalha era o objeto mais fumegante que aquela cultura conhecia, e porque o tipo de fumaça é diferente.

Um incêndio produz fumo irregular, que muda de direção e se dissipa. O forno de olaria ou de cal produz uma coluna densa, escura e contínua, que sobe enquanto durar a queima.

A comparação, portanto, informa mais do que quantidade: informa constância. O que Abraão vê não é um clarão passageiro — é algo que está subindo e continua a subir.

A mesma expressão descreve o Sinai. Isso é proposital?

Não é possível decidir, e convém dizê-lo antes de qualquer coisa.

O dado é real: Êxodo 19:18 diz que a fumaça do monte subia "como a fumaça de uma fornalha", com a mesma estrutura de frase deste versículo. A palavra da fornalha é a mesma, e ela é rara — ocorre quatro vezes em toda a Bíblia hebraica.

Contra a intenção deliberada pesa uma explicação simples: a fornalha era a comparação óbvia para muita fumaça, e dois autores podem tê-la usado sem relação um com o outro.

A favor pesa a raridade do termo e a identidade da construção. E permanece, independentemente da intenção, o efeito para quem lê a Bíblia inteira: a coluna que marca a presença de Deus e a coluna que marca uma cidade destruída são descritas com a mesma figura.

Este versículo prova que Sodoma existiu?

Não. E é importante responder isso com clareza, porque o assunto atrai afirmações fortes dos dois lados.

Há sítios arqueológicos na região do mar Morto propostos como candidatos às cidades da planície — Bab edh-Dhra e Numeira ao sudeste, Tall el-Hammam ao norte. Todos têm camadas de destruição; nenhum tem inscrição que confirme o nome bíblico. As identificações são discutidas entre os próprios escavadores, sem consenso.

A honestidade obriga a dizer as duas metades: a arqueologia não confirmou o relato, e também não o refutou. O que existe é uma região sismicamente ativa, com betume, enxofre e sal aflorando, e um texto antigo que fala de fogo do céu sobre cidades daquela área.

Qual a diferença entre este olhar e o da mulher de Ló?

Os verbos são diferentes, e isso costuma passar despercebido.

No versículo 26, o verbo é nabat — o mesmo da proibição do versículo 17, "não olhes para trás". Aqui é shaqaf, olhar de cima, debruçar-se.

As situações também diferem: ela estava em fuga, sob ordem expressa; ele não recebeu ordem alguma e não estava fugindo.

Por isso, montar a lição "existe o olhar que mata e o olhar que salva" é construir sobre um paralelo que o hebraico não sustenta. O que resta, e não é pouco, é a constatação de que duas pessoas olham para a mesma catástrofe e o texto trata os dois olhares de modos inteiramente diferentes, sem explicar.

O que significa a palavra "planície" aqui?

O hebraico kikkar significa literalmente algo redondo — um disco, um círculo — e, por extensão, um distrito de contorno definido. Refere-se à depressão do vale do Jordão na sua parte sul, junto ao mar Morto.

A palavra importa porque é a mesma de Gênesis 13:10, onde Ló levantou os olhos e viu "toda a planície do Jordão, que toda ela era bem regada".

Naquele versículo, o narrador já acrescentara, entre parênteses, "antes que o SENHOR destruísse Sodoma e Gomorra". O leitor foi avisado seis capítulos antes do que veria agora.

Por que Abraão não faz nada depois de olhar?

O texto não explica, e há mais de uma possibilidade razoável.

Uma: não havia o que fazer. O acontecimento terminou durante a noite, as cidades já não existiam, e ele estava a dezenas de quilômetros.

Outra: o autor simplesmente não quis narrar mais nada, porque o episódio, do ponto de vista dele, tinha acabado.

Uma terceira, que também cabe: a economia é o modo normal do livro, e não há aqui nenhuma escolha especial a explicar.

O que se pode registrar como fato é o contraste: no capítulo 18, esse homem falou nove vezes; aqui, nenhuma.

A fumaça continuava subindo, ou era o fim?

A forma verbal hebraica descreve a ação em curso: a fumaça subia. E a comparação com a fornalha reforça a ideia de continuidade, porque o forno queima por dias.

O texto não informa quanto tempo aquilo durou. Não há aqui nenhuma indicação de permanência definitiva.

Vale notar, porém, que a literatura posterior tomou esse rumo. Isaías 34:10, falando de Edom, dirá que a fumaça subirá para sempre, e o Apocalipse repetirá a figura. A imagem deste versículo teve descendência longa — mas o Gênesis, aqui, apenas descreve o que se via naquela manhã.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 13:10E levantou Ló seus olhos, e viu toda a planície do Jordão, que toda ela era bem regada, antes que destruísse o SENHOR a Sodoma e a Gomorra, como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito entrando em Zoar.

O contraponto exato. A mesma palavra para a planície, a mesma totalidade — e o narrador já avisara ali, entre travessões, o que este versículo mostra.

Gênesis 18:16E os homens se levantaram dali, e olharam até Sodoma: e Abraão ia com eles acompanhando-os.

O mesmo verbo raro, "olhar de cima", na abertura do bloco. Ali a cidade estava de pé e Abraão acompanhava os visitantes; aqui está em fumaça e ele está sozinho.

Gênesis 19:24Então choveu o SENHOR sobre Sodoma e sobre Gomorra enxofre e fogo da parte do SENHOR desde os céus;

O que aconteceu, narrado pelo narrador. O versículo 28 traz outra coisa: o que se via disso à distância.

Gênesis 19:25E destruiu as cidades, e toda aquela planície, com todos os moradores daquelas cidades, e o fruto da terra.

A extensão do estrago, informada ao leitor. Abraão vê a extensão da fumaça, e não a lista do que ficou debaixo dela.

Gênesis 15:17E sucedeu que, depois de posto o sol, e já estando escuro, apareceu um fogo fumegando, e uma tocha de fogo que passou por entre os animais divididos.

Fogo e fumaça no mesmo ciclo, como sinal da presença que sela a aliança com este mesmo homem. A palavra do forno é outra, e a aproximação é leitura, não identidade de vocabulário.

Êxodo 19:18E todo o monte de Sinai fumegava, porque o SENHOR havia descido sobre ele em fogo: e a fumaça dele subia como a fumaça de um forno, e todo o monte se estremeceu em grande maneira.

A mesma comparação, com a mesma palavra rara para a fornalha e a mesma estrutura de frase — aplicada à descida de Deus sobre o monte da aliança.

Êxodo 9:8E o SENHOR disse a Moisés e a Arão: Tomai punhados de cinza de um forno, e espalha-a Moisés até o céu diante de Faraó:

A terceira das quatro ocorrências da palavra "fornalha" na Bíblia hebraica, aqui como instrumento de praga sobre o Egito.

Êxodo 14:24E aconteceu à vigília da manhã, que o SENHOR olhou ao campo dos egípcios desde a coluna de fogo e nuvem, e perturbou o acampamento dos egípcios.

O mesmo verbo deste versículo, com Deus por sujeito, olhando de cima para um exército — e de madrugada, como aqui.

Salmos 14:2O SENHOR olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia alguém prudente, que buscasse a Deus.

Outra vez o verbo de olhar do alto, e num contexto que ecoa a busca por justos do capítulo 18: procurar, de cima, se há alguém.

Juízes 5:28A mãe de Sísera olha à janela, E por entre as grades a vozes disse: Por que se detém seu carro, que não vem? Por que as rodas de seus carros se tardam?

O uso humano do verbo: alguém à janela, olhando na direção de um desfecho que já se decidiu longe dali, e sem saber qual foi.

Ezequiel 16:49Eis que esta foi a maldade de tua irmã Sodoma: ela e suas filhas tiveram soberba, fartura de pão, e abundância de conforto; porém nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado.

Quando a própria Bíblia volta ao caso, a acusação que formula não é a que a leitura popular repete. Vale registrar, porque a fumaça deste versículo virou símbolo de uma coisa só.

Apocalipse 9:2E o poço do abismo foi aberto; e subiu fumaça do poço, como a fumaça de uma grande fornalha; e o sol e o ar se escureceram por causa da fumaça do poço.

A imagem deste versículo reaparecendo, quase palavra por palavra, no último livro da Bíblia. A descendência literária da coluna de fumo é longa.

Lucas 17:32Lembrai-vos da mulher de Ló.

A única personagem deste capítulo que o Novo Testamento manda lembrar. Não é Abraão no alto, e não é o olhar dele.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Olhou para os lados de Sodoma e Gomorra, e para toda a terra da planície, e viu que da terra subia fumaça como a fumaça de uma fornalha.

Texto hebraico

וַיַּשְׁקֵף עַל־פְּנֵי סְדֹם וַעֲמֹרָה וְעַל־כָּל־פְּנֵי אֶרֶץ הַכִּכָּר וַיַּרְא וְהִנֵּה עָלָה קִיטֹר הָאָרֶץ כְּקִיטֹר הַכִּבְשָׁן

Transliteração

vayyashqef al-penei Sedom va-Amorah ve-al-kol-penei erets hakkikkar vayyar vehinneh alah qitor ha'arets keqitor hakkivshan

Palavra por palavra

וַיַּשְׁקֵף (vayyashqef) — "e olhou de cima"

Raiz shaqaf, na forma causativa hifil.

Não é o verbo comum de ver, que seria ra'ah, nem o de fitar, que seria nabat. Este significa especificamente debruçar-se de um ponto alto, olhar para baixo.

A raiz tem parentesco com o substantivo que designa a janela — o vão por onde se olha para fora e para baixo. É essa a cena que o verbo carrega.

Ocorre pouco, e as ocorrências se dividem em dois grupos. Humanas: a mãe de Sísera à janela em Juízes 5:28, Mical em 2 Samuel 6:16, Jezabel em 2 Reis 9:30. Divinas: Êxodo 14:24, Salmos 14:2, Salmos 102:19, Deuteronômio 26:15, Lamentações 3:50 — sempre Deus olhando dos céus para a terra.

E há uma ocorrência dentro deste mesmo episódio: Gênesis 18:16, onde os visitantes "olharam" para Sodoma antes de descer. O bloco abre e fecha com o mesmo verbo diante da mesma cidade.

עַל־פְּנֵי (al-penei) — "sobre a face de"

Preposição mais panim, "face", em estado construto. Literalmente: "sobre a face de".

Em hebraico, esta é a maneira normal de dizer "sobre a superfície de", e ninguém que a usasse estaria pensando num rosto. É expressão banal, e convém dizê-lo antes de qualquer coisa.

Dito isso, vale registrar o encadeamento, que é do texto: o versículo 27 termina com et-penei YHWH, "junto à face do SENHOR", e o 28 traz duas vezes a mesma palavra — a face das cidades e a face da terra da planície.

Três ocorrências de panim em duas linhas. Se há jogo deliberado, não é possível decidir; que a repetição está lá, é verificável.

סְדֹם וַעֲמֹרָה (Sedom va-Amorah) — "Sodoma e Gomorra"

Os dois nomes que a Bíblia passará a usar como par fixo.

A etimologia de ambos é discutida e não há explicação segura. Propostas ligam Sodoma a raízes que sugerem queimar ou fortificar, e Gomorra a uma raiz que sugere submergir ou amontoar — mas nenhuma dessas derivações é demonstrável, e convém tratá-las como conjecturas.

O texto, aqui, não faz jogo etimológico com esses nomes. Fará, e de modo explícito, com os nomes de Moabe e Ben-Ami, nos versículos 37 e 38.

אֶרֶץ הַכִּכָּר (erets hakkikkar) — "a terra do disco"

Erets é terra, país, região. Kikkar vem de uma raiz que significa ser redondo, e a palavra designa coisas circulares: um disco de pão, um talento de metal em forma de disco, e — em sentido geográfico — um distrito de contorno definido.

Aplicada ao vale do Jordão, descreve a bacia que se alarga na extremidade sul, junto ao mar Morto.

A palavra é a mesma de Gênesis 13:10-12, onde Ló olhou a planície e a escolheu. O vocabulário amarra as duas cenas sem que o texto precise dizer nada.

Note-se o "todo" — kol — antes da expressão. Ele está no hebraico. O olhar não se detém nas duas cidades: percorre o distrito inteiro.

וַיַּרְא וְהִנֵּה (vayyar vehinneh) — "e viu, e eis que"

Agora o verbo comum de ver, e depois a partícula hinneh, "eis".

Esta combinação é um recurso técnico da narrativa hebraica, e é preciso explicá-lo porque muda a leitura do resto do versículo.

Quando hinneh vem depois de um verbo de percepção, o ponto de vista se transfere para dentro da personagem. O que se segue não é mais o relato do narrador: é o que a personagem está vendo, no momento em que vê.

Ou seja: tudo o que vem depois desta partícula é o campo de visão de Abraão, e não a descrição objetiva do acontecimento. Para o acontecimento, o texto já tinha os versículos 24 e 25.

עָלָה (alah) — "subia"

Raiz alah, subir, ascender. É verbo comum e carregado: dele vem a palavra do holocausto, o sacrifício que "sobe" inteiro em fumaça, e dele vem a linguagem de subir a Jerusalém.

A forma aqui descreve a ação em curso — está subindo, e continua a subir.

Vale registrar a coincidência de imagem sem forçá-la: o mesmo verbo descreve o que sobe do altar e o que sobe da planície. A associação é minha, e o texto não a faz.

קִיטֹר (qitor) — "fumaça densa"

Palavra rara. Ocorre duas vezes neste versículo e apenas mais duas em toda a Bíblia hebraica: no Salmo 148:8, numa lista de fenômenos naturais, e no Salmo 119:83, na imagem do odre exposto ao fumo.

O hebraico comum para fumaça é outro, ashan, palavra frequente. Aqui o autor usou este termo raro.

O sentido parece ser o de vapor espesso, exalação densa que sobe. E é preciso marcar o limite: com quatro ocorrências no cânon inteiro, não há base para delimitar o campo semântico com precisão. Quem afirma saber exatamente em que qitor difere de ashan está afirmando mais do que os dados sustentam.

A raiz aparenta ter relação com a que designa o incenso queimado no culto — a fumaça que sobe do sacrifício. Registro o parentesco como plausível e não como estabelecido.

הַכִּבְשָׁן (hakkivshan) — "a fornalha"

Aqui está a palavra decisiva do versículo.

Kivshan designa o forno grande — o de cozer cerâmica, o de queimar calcário para produzir cal, o de fundir metal. Não é o forno doméstico de assar pão, que em hebraico é tannur, palavra diferente.

Essa distinção importa. O forno de pão é pequeno, aceso e apagado no mesmo dia. A fornalha é estrutura fixa, alimentada por dias, com tiragem forte e coluna de fumo contínua, visível de longe.

A comparação, portanto, não informa apenas quantidade de fumaça. Informa densidade e, sobretudo, constância.

A palavra ocorre quatro vezes na Bíblia hebraica: duas em Êxodo 9 (a cinza da fornalha lançada ao céu diante do faraó), uma em Êxodo 19:18 e esta.

Nota — Êxodo 19:18, e o que se pode e não se pode dizer

Convém isolar esta observação, porque é a mais forte do versículo e a mais fácil de exagerar.

O texto de Êxodo 19:18 diz que o monte Sinai fumegava porque o SENHOR descera sobre ele em fogo, "e subia a fumaça dele como a fumaça da fornalha".

A estrutura é a mesma deste versículo: verbo de subir, mais o substantivo da fumaça, mais a preposição de comparação, mais a palavra da fornalha com artigo. A única diferença de vocabulário é o termo da fumaça — qitor aqui, ashan lá.

O que se pode afirmar: a mesma figura descreve a destruição das cidades da planície e a manifestação de Deus no monte da aliança. Isso é verificável.

O que não se pode afirmar: que haja dependência literária entre os dois textos, ou que a coincidência seja mensagem. Não há como estabelecer a direção da dependência, e a datação relativa das camadas do Pentateuco continua discutida entre os especialistas.

E há a explicação sóbria, que talvez baste: a fornalha era o objeto mais fumegante daquele mundo, e a comparação era a óbvia. Dois autores podem tê-la escolhido sem se conhecerem.

O efeito para quem lê a Bíblia inteira, porém, permanece — e não convém escondê-lo em nome da prudência. A coluna que sinaliza que Deus desceu e a coluna que sinaliza que uma cidade acabou são a mesma imagem.

Nota — o que a frase hebraica não contém

O inventário das ausências, que neste versículo é o material principal.

Não há verbo de falar, de clamar, de orar, de chorar. Não há altar, sacrifício, invocação do nome.

Não há a fórmula de luto que o Gênesis usa em outros lugares — rasgar as vestes, pôr saco sobre os lombos.

Não há adjetivo de estado: nem "aflito", nem "espantado", nem "temeroso".

Não há menção a Ló, nem a Zoar, nem à noite passada, nem à conversa da véspera — a conversa está só na oração relativa do versículo anterior.

Não há sujeito divino. YHWH não aparece neste versículo: nem age, nem fala, nem é olhado.

A economia é o modo normal deste livro, e por isso nada disso prova intenção. O que se pode dizer é que o versículo termina numa imagem, e que quem lê fica com a imagem e sem explicação — que é, provavelmente, a mesma situação em que a personagem ficou.

11. Conclusão

Um homem no alto, uma coluna de fumo no fundo do vale, e o ponto final.

É esse o conteúdo inteiro. O autor teve à disposição todo o vocabulário do espanto, do luto e da adoração — e não usou nenhum. Fechou a frase na imagem e passou adiante.

Três coisas se recolhem daqui, e convém mantê-las separadas umas das outras.

A primeira é técnica, e sustenta as outras duas. A partícula que vem depois de "e viu" transfere a câmera para dentro dos olhos do patriarca. O que se lê a seguir não é o que aconteceu com as cidades — isso já fora contado quatro versículos antes, com enxofre, fogo, moradores e vegetação. É o que cabe num campo de visão a trinta quilômetros de distância e mil metros de altura. E o que cabe ali é fumaça.

A segunda é de vocabulário, e desconcerta. O termo escolhido para o forno aparece quatro vezes na Bíblia hebraica, e uma delas descreve o monte Sinai no dia em que Deus desceu sobre ele. A mesma comparação, com a mesma estrutura de frase. Não se pode demonstrar dependência entre os dois textos, e a explicação simples — era a comparação óbvia para muita fumaça — talvez baste. Mas quem lê o cânon inteiro fica com a coincidência na mão: a coluna da presença e a coluna da ruína têm a mesma descrição, e a figura não avisa qual das duas é.

A terceira é de perspectiva. Este homem passou o capítulo anterior contando gente de dez em dez, até chegar a um número que caberia numa casa. Agora está numa altura de onde nenhuma pessoa é visível. A distância que lhe entrega o distrito inteiro é a mesma que apaga cada um dos que estavam nele.

O relato não comenta nada disso. Não elogia o gesto de subir, não repreende o silêncio, não informa se houve dor.

Convém resistir à pressa de completar. O que o versículo entrega é uma paisagem sem legenda — e o versículo seguinte, quando vier, vai explicar alguma coisa a nós, e não a ele.

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Gênesis 19:28

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