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Gênesis 19:29

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 51 min de leitura·👁 8 acessos
Assim, quando Deus destruiu as cidades da planície, lembrou-se de Abraão e tirou Ló do meio da destruição, ao destruir as cidades em que Ló habitava.
Homem de vestes simples caminhando sozinho por uma trilha de pedras ao amanhecer, com fumaça densa cobrindo o vale ao fundo.

Estudo


Assim, quando Deus destruiu as cidades da planície, lembrou-se de Abraão e tirou Ló do meio da destruição, ao destruir as cidades em que Ló habitava.

1. Introdução

Este é o versículo mais importante do capítulo, e é o que menos se cita.

Ele explica, numa linha, por que Ló saiu vivo de Sodoma. E a explicação não é a que o leitor esperaria.

Não diz que Ló foi poupado por ser justo. Não diz que foi poupado por ter hospedado os mensageiros. Não diz que foi poupado por ter recusado a exigência da multidão à porta.

Diz que Deus se lembrou de Abraão.

O nome de Ló aparece duas vezes no versículo, e nas duas ele é objeto: é tirado, e é aquele que habitava nas cidades. O sujeito da lembrança é outro homem, que estava a dezenas de quilômetros dali e que nunca pediu por ele.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde este versículo se encaixa

Convém dizer logo o que este versículo é, do ponto de vista da composição: ele não faz a narrativa avançar. Não há aqui um acontecimento novo.

É um resumo. Recapitula o que os versículos 24 a 26 já haviam contado — a destruição das cidades e a retirada de Ló — e acrescenta uma explicação que a narrativa não dera.

Esse tipo de versículo tem nome na análise literária: é uma nota conclusiva, um fecho que interpreta o bloco anterior. E o efeito dele é retroativo: depois de lê-lo, o leitor volta mentalmente aos versículos 15 a 22 e os vê de outra maneira.

A intercessão que ficou pendente

Para medir o alcance deste versículo, é preciso ter o capítulo 18 fresco.

Abraão perguntara se Deus destruiria o justo com o ímpio. Depois começara a contar: cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, dez. Em cada degrau, a resposta foi a mesma — se houver esse número, não destruirei.

A conversa parou em dez. Ninguém disse quantos havia. O capítulo terminou com o SENHOR indo embora e Abraão voltando para casa.

E há um detalhe que é preciso registrar com clareza, porque muda tudo o que se possa dizer sobre este versículo: Abraão nunca mencionou Ló. Nem uma vez, nos onze versículos da negociação. Não pediu pelo sobrinho, não citou o nome dele, não fez exceção para a família dele.

Quem lê o capítulo 18 supondo que a intercessão era por Ló está lendo pelo capítulo 19.

Quem era Ló, segundo o próprio livro

Vale reunir o que o Gênesis informa sobre ele, sem enfeitar e sem carregar.

Ele é sobrinho de Abraão, filho de Harã, e saiu de Ur com a família. Em Gênesis 13, os rebanhos dos dois cresceram a ponto de os pastores brigarem, e Abraão ofereceu ao sobrinho a escolha da terra. Ló levantou os olhos, viu a planície do Jordão bem regada, e escolheu — e foi armando as tendas até Sodoma.

O narrador acrescenta, no versículo seguinte, que os homens de Sodoma eram maus e pecadores diante do SENHOR em grande maneira. A informação vem imediatamente depois da escolha.

Em Gênesis 14, ele é levado cativo por reis invasores, e o tio arma trezentos e dezoito homens e vai buscá-lo.

Em Gênesis 19, ele está sentado à porta de Sodoma — posição que, no mundo antigo, era o lugar dos assuntos públicos da cidade. Recebe os dois mensageiros com hospitalidade cuidadosa, insiste para que entrem, prepara comida.

E, quando a casa é cercada, oferece as duas filhas à multidão.

Depois é avisado, hesita, é puxado pela mão para fora, e negocia para não ir ao monte.

Esse é o retrato completo que o livro fornece. Ele não é simples, e a honestidade exige não simplificá-lo em nenhuma das duas direções.

Duas maneiras de escrever o nome de Deus

Este versículo usa Elohim — "Deus" — duas vezes. Todo o resto do capítulo 19 usa YHWH, o nome próprio, que as traduções grafam como SENHOR em maiúsculas.

Essa alternância entre os dois modos de nomear Deus é um dado antigo e muito estudado do Pentateuco, e é um dos pilares da discussão sobre a composição do livro. Voltaremos a ela no item 3, com o cuidado que o assunto exige.

Por ora, basta registrar o fato observável, que qualquer leitor pode conferir: neste capítulo, o nome divino muda exatamente neste versículo, e volta a ser o de sempre no versículo seguinte não, porque o versículo 30 não nomeia Deus.

O que a Bíblia fará com esta história depois

A destruição de Sodoma virou, no resto das Escrituras, a medida padrão da catástrofe.

Deuteronômio 29:23, Isaías 13:19, Jeremias 49:18, Amós 4:11, Sofonias 2:9 e vários outros textos usam os nomes das cidades como comparação de ruína total. A palavra que este versículo usa para a destruição — literalmente, "a virada" — tornou-se quase um termo técnico para o episódio.

Quanto a Ló, o Antigo Testamento praticamente o esquece. Ele reaparece como ancestral de Moabe e de Amom em Deuteronômio 2:9 e 2:19, e no Salmo 83:8; e é só.

É no Novo Testamento e na literatura judaica de língua grega que ele volta, e volta transformado. É desse ponto que trata a parte mais espinhosa deste estudo.

3. Análise Teológica do Versículo

"Assim, quando Deus destruiu as cidades da planície"

O versículo abre com uma fórmula de resumo, e convém notar isso antes de tudo.

O hebraico começa com vayehi — "e aconteceu" — seguido de uma oração temporal: "ao destruir Deus as cidades da planície". É construção de recapitulação, não de progressão. O que vem aqui já foi contado.

De fato: os versículos 24 e 25 narraram a chuva de enxofre e fogo e a destruição das cidades, da planície, dos moradores e da vegetação. Os versículos 15 a 22 narraram a retirada de Ló. Nada de novo acontece neste versículo.

O que ele traz de novo é uma causa. E é por isso que ele existe.

Repare também no plural: "as cidades da planície". A narrativa que acabamos de ler é sobre Sodoma — é lá que Ló mora, é lá que os mensageiros entram, é a casa dele que é cercada. Gomorra é nomeada nas fórmulas, mas nada se passa dentro dela.

Aqui, tudo é dito no plural e em bloco. É o modo de quem resume de fora, e não de quem narra de dentro.

Por que "Deus", e não "o SENHOR"

Agora um dado que precisa ser tratado com honestidade e com rigor, porque é dos que a leitura devocional costuma pular e a leitura sensacionalista costuma exagerar.

O capítulo 19 inteiro chama Deus pelo nome próprio, YHWH. Está no versículo 13, no 14, no 16, duas vezes no 24, e no 27.

Neste versículo, e só neste, o texto diz Elohim — "Deus", o termo comum, o mesmo que serve para designar divindade em geral. E diz duas vezes.

Isso é verificável em qualquer edição do hebraico, e nas traduções portuguesas que respeitam a distinção entre "SENHOR" e "Deus" o leitor pode conferir sem saber hebraico.

A alternância entre os dois nomes divinos no Pentateuco foi notada há muito tempo — o médico francês Jean Astruc já a discutia em meados do século dezoito — e está na origem da hipótese de que o livro reúne materiais de proveniências diferentes.

Segundo a formulação clássica dessa hipótese, este versículo pertenceria a uma camada distinta da narrativa que o rodeia: a camada chamada sacerdotal, que prefere Elohim até o episódio da sarça ardente e que escreve em estilo formular, resumido, com fórmulas de encerramento.

Convém agora expor os argumentos dos dois lados, e não escolher por conveniência.

A favor da atribuição a uma camada distinta, quatro observações concretas.

Primeira: o nome divino muda, e muda só aqui.

Segunda: o estilo muda. O versículo é sumário, repetitivo e formular — repete "as cidades" três vezes, repete a raiz da destruição três vezes, repete o nome de Ló duas vezes. A narrativa em volta é ágil e cheia de diálogo.

Terceira: o conteúdo não bate perfeitamente com o que a narrativa contou. Aqui é Deus quem "envia Ló para fora"; no versículo 16, quem o tira são os dois homens, e o tiram pela mão, porque ele se demorava. São duas descrições diferentes do mesmo fato.

Quarta, e é a mais interessante: existe um versículo quase gêmeo deste, em Gênesis 8:1 — "e lembrou-se Deus de Noé". Também com Elohim, também num resumo, também sobre o único sobrevivente de uma destruição. Os dois versículos são atribuídos à mesma camada pelos que trabalham com essa hipótese, e a semelhança de fórmula é evidente.

Contra, ou pelo menos como limite, três observações igualmente concretas.

Primeira: a alternância dos nomes divinos admite outras explicações. Há quem sustente que Elohim aparece em contextos de ação universal, de juízo geral ou de relação com quem está fora da aliança, e YHWH em contextos de relação pessoal — e este versículo, que fala do juízo sobre cidades inteiras, caberia nessa lógica sem precisar de outra fonte.

Segunda: a hipótese das fontes é hipótese. Ela é a moldura de trabalho dominante nos estudos acadêmicos há mais de um século, e continua sendo revista, contestada e reformulada. A delimitação exata das camadas é objeto de desacordo entre os próprios especialistas.

Terceira: reconhecer costura não obriga a desmontar o texto. Um leitor pode aceitar que o versículo tem outra origem e continuar lendo o capítulo como obra unificada — que é, aliás, como ele circulou por dois mil e tantos anos.

Não é possível decidir a questão aqui, e não pretendo decidi-la. Registro o dado porque ele é real e porque a premissa deste trabalho é não esconder o que a formação do texto tem de humano. E registro os limites com a mesma clareza, porque um dado sem os seus limites deixa de informar e passa a servir de arma.

Acrescento o que, para o leitor comum, é o mais importante: seja qual for a origem do versículo, ele está no texto que temos, e diz o que diz. A afirmação que ele faz sobre o motivo do resgate não muda conforme a resposta que se dê à questão das fontes.

"lembrou-se de Abraão"

Chegamos ao centro.

O verbo é zakar, lembrar-se. E é preciso desfazer, antes de qualquer coisa, o mal-entendido que a nossa palavra portuguesa produz.

Em português, lembrar-se é uma operação mental. É o contrário de esquecer: alguma coisa que estava fora da consciência volta a ela.

No hebraico bíblico, quando o sujeito é Deus, o verbo funciona de outro modo. Ele não descreve um estado da mente divina — descreve uma ação que começa.

Isso não é interpretação teológica: é o que se observa nas ocorrências. Percorramo-las.

Gênesis 8:1 — "e lembrou-se Deus de Noé, e de todos os animais que estavam com ele na arca; e fez passar Deus um vento sobre a terra, e diminuíram as águas". A lembrança é seguida imediatamente do vento e da baixa das águas.

Gênesis 30:22 — "e lembrou-se Deus de Raquel, e Deus a ouviu, e abriu a sua madre". A lembrança é seguida do fim da esterilidade.

Êxodo 2:24 — "e ouviu Deus o gemido deles, e lembrou-se do seu pacto com Abraão, Isaque e Jacó". A lembrança abre o êxodo.

1 Samuel 1:19 — "e o SENHOR se lembrou dela", e Ana concebe.

O padrão é constante: zakar com Deus por sujeito é sempre seguido de intervenção. Nunca é registro interior sem consequência.

Daí decorre uma consequência que vale enunciar com clareza, porque desarma uma leitura infantil muito difundida: o texto não está dizendo que Deus havia esquecido. Não há aqui nenhuma sugestão de lapso divino. A fórmula é de ação, não de memória.

Uma tradução mais próxima do efeito seria algo como "Deus agiu em consideração a Abraão" ou "Deus levou Abraão em conta". As nossas versões escrevem "lembrou-se" porque é a palavra mais próxima, e não porque haja esquecimento no texto.

De quem ele se lembrou

Agora o dado que dá nome a este estudo, e que é preciso dizer devagar, porque ele contraria a leitura corrente.

O objeto da lembrança é Abraão.

Não é Ló. Não é a justiça de Ló. Não é a hospitalidade de Ló. Não é a fidelidade de Ló.

Leia a frase de novo, e observe a sintaxe: Deus se lembrou de Abraão, e enviou Ló para fora. Abraão é o objeto do verbo da lembrança; Ló é o objeto do verbo da retirada.

Ló, neste versículo, é gramaticalmente passivo do princípio ao fim. Ele é tirado. Ele é aquele que habitava. Não faz nada.

E é preciso acrescentar, porque completa o quadro: Abraão também não pediu por ele. Em nenhum ponto do capítulo 18 o nome de Ló é pronunciado. A negociação foi sobre justos anônimos numa cidade.

De modo que o versículo monta uma cadeia estranha, e vale enunciá-la inteira: um homem intercedeu por uma cidade sem mencionar o sobrinho; a cidade caiu; e o sobrinho saiu vivo porque Deus levou em conta aquele homem.

Ninguém, dentro da história, sabe disso. Abraão não é informado. Ló não é informado. A informação é dada ao leitor, e só a ele.

O que isso faz com a intercessão do capítulo 18

Aqui é preciso ser especialmente cuidadoso, porque este é o ponto em que a pregação costuma resolver depressa demais.

A leitura mais difundida diz: a oração de Abraão foi respondida de outro modo. Ele pediu dez justos, não havia dez, mas Deus salvou o único que interessava.

Essa leitura tem apoio real no versículo, e seria desonesto negá-lo. O texto de fato liga a saída de Ló à consideração por Abraão, e essa ligação é a única explicação que o Gênesis oferece para o resgate.

Mas ela precisa ser dita com quatro ressalvas, e nenhuma delas é preciosismo.

Primeira: o pedido não foi atendido. Abraão pediu que a cidade fosse poupada. A cidade não foi poupada. O que houve foi outra coisa, e chamar isso de "resposta" já é interpretação.

Segunda: o pedido não era por Ló. Transformar a intercessão do capítulo 18 numa oração pelo sobrinho é ler o capítulo 18 pelo 19. O texto do capítulo 18 não permite.

Terceira: Abraão não sabe. O versículo é uma informação ao leitor. Dentro da narrativa, o patriarca sobe ao monte, vê fumaça e não recebe explicação nenhuma — como os versículos 27 e 28 deixaram claro.

Quarta: o versículo não diz que a oração causou o resgate. Diz que Deus se lembrou de Abraão. É diferente. A relação afirmada é entre Deus e uma pessoa, não entre um pedido e um resultado.

Feitas as ressalvas, fica o que se pode afirmar, e não é pouco: o Gênesis atribui a sobrevivência de Ló à relação de Deus com Abraão. Está escrito, e é a única causa que o livro dá.

"e tirou Ló do meio da destruição"

Duas palavras aqui merecem atenção.

A primeira é o verbo. O hebraico traz vayshallach, da raiz shalach, na forma intensiva. Significa enviar, despachar, mandar embora, deixar ir.

Note-se que não é um verbo de salvamento. O hebraico tem verbos para salvar, livrar, resgatar, arrancar do perigo — e nenhum deles está aqui.

É o mesmo verbo com que Abraão despede Agar em Gênesis 21:14. É o mesmo verbo com que Moisés exigirá do faraó que deixe o povo ir. É o verbo de quem manda alguém para fora.

Compare-se com o versículo 16, que narra o mesmo fato de outra maneira: ali, os homens "pegaram pela mão dele, e pela mão de sua mulher, e pelas mãos de suas duas filhas... e o tiraram, e o puseram fora da cidade". O verbo lá é o de fazer sair, e a cena é de força física, porque ele se demorava.

Aqui, o gesto é resumido num verbo distante e administrativo: Deus o despachou para fora.

Registro a diferença de tom como observável. Se ela é significativa ou apenas efeito do resumo, não é possível decidir.

A segunda palavra é a da destruição: hafekhah, literalmente "a virada", "o revolvimento". Vem da raiz hafakh, que significa virar, revirar, pôr de cabeça para baixo.

Essa palavra tornou-se quase um termo técnico para este episódio. Reaparece em Deuteronômio 29:23, em Isaías 13:19, em Jeremias 49:18 e 50:40, em Amós 4:11 — sempre como referência à catástrofe das cidades da planície.

E há uma ocorrência do verbo que vale muito registrar, porque produz um contraste que quase ninguém aponta.

Em Jonas 3:4, o profeta anuncia: "ainda quarenta dias, e Nínive será virada". É o mesmo verbo.

E Nínive não foi virada. A cidade se converteu, e o texto diz que Deus se arrependeu do mal que dissera fazer.

Ou seja: a mesma palavra descreve a cidade que acabou e a cidade que não acabou. Registro o dado; a comparação entre os dois episódios é minha, e nem o Gênesis nem Jonas a fazem.

"ao destruir as cidades em que Ló habitava"

O versículo fecha repetindo o que já dissera na abertura.

E aqui está a observação de composição mais bonita deste texto, e vale expô-la com calma.

Olhe a estrutura da frase inteira.

Ela começa com a destruição das cidades. Termina com a destruição das cidades. E, no meio — literalmente cercado pelas duas menções à catástrofe —, está o resgate: Deus se lembrou de Abraão e mandou Ló para fora.

A sintaxe faz o que a palavra "do meio" diz. Ló é tirado do meio da destruição, e a frase o coloca, também ela, no meio da destruição.

Isso não é sutileza inventada: a repetição está no hebraico, com a mesma raiz nas duas pontas, e a palavra tokh, "meio", "interior", está no centro.

Convém marcar o limite, como sempre: que o efeito exista é verificável; que o autor o tenha construído de propósito é provável, dada a técnica da narrativa hebraica, mas não é demonstrável.

Há ainda um detalhe menor e curioso no fecho: "as cidades em que Ló habitava", no plural.

Segundo o capítulo 13, ele armou as tendas até Sodoma; segundo o 14 e o 19, morava em Sodoma. Uma cidade, não várias.

O plural aqui é generalizante, próprio de quem resume de longe. Não é erro — é a linguagem de um sumário. Mas é mais um indício do caráter formular deste versículo.

O justo Ló: a tensão que não se pode dissolver

Agora o assunto mais espinhoso, e aquele em que a maioria dos comentários escolhe um lado e finge que o outro não existe.

Comecemos pelos dados, na ordem.

Dado um. O Gênesis nunca chama Ló de justo. A palavra hebraica tsaddiq aparece no episódio — está na boca de Abraão, no capítulo 18, sete vezes, sempre a respeito de justos anônimos. Nunca é aplicada a Ló.

Dado dois. O Gênesis registra, no versículo 8 deste capítulo, que Ló ofereceu as duas filhas à multidão que cercava a casa: "eis aqui, tenho duas filhas que não conheceram homem; eu as tirarei fora para vós, e fazei delas como bem vos parecer".

Dado três. A Segunda Carta de Pedro, no capítulo 2, versículos 7 e 8, chama Ló de justo — e o faz três vezes em duas linhas. O texto grego usa díkaios, o adjetivo comum para justo, e diz que ele estava oprimido pela conduta dissoluta dos maus e que, habitando entre eles, atormentava a sua alma justa dia após dia ao ver e ouvir as obras injustas deles.

Dado quatro. A Sabedoria de Salomão, livro judaico escrito em grego alguns séculos antes, no capítulo 10, versículo 6, também o defende, chamando-o de justo e dizendo que a sabedoria o livrou quando os ímpios pereciam.

Dado cinco. Josefo e Fílon, judeus do primeiro século que escreviam em grego para leitores gregos, também suavizam o retrato. Josefo, nas Antiguidades, elogia a hospitalidade de Ló; e ao narrar o episódio da caverna, mais adiante, elimina o vinho e a embriaguez por completo.

Dado seis. A tradição rabínica caminha em direção oposta, e com dureza. O midrash e o Talmude leem a escolha da planície, em Gênesis 13:10, como sinal de apetite desordenado, e discutem se Ló seria cúmplice do que aconteceu na caverna. Não há aí nenhuma tentativa de fazer dele um justo.

Postos os dados, a pergunta: como se lida com isso?

Exponho as saídas correntes, com o que cada uma tem de forte e de frágil. Não vou escolher.

Primeira saída: "justo" é termo relativo.

Ló seria justo em comparação com Sodoma — o menos pior de um lugar terrível.

A favor: é como o adjetivo funciona em muitos contextos bíblicos, e o próprio capítulo 18 discute justos dentro de uma cidade ímpia, não justos em absoluto.

Contra: a Segunda Carta de Pedro não usa o termo relativamente. Ela o repete três vezes e descreve um estado interior — alma atormentada, dia após dia — que não é linguagem de comparação.

Segunda saída: a hospitalidade é a justiça em questão.

No mundo antigo, receber e proteger o hóspede era dever sagrado. Ló arriscou-se por dois desconhecidos, e é isso que o texto grego estaria elogiando.

A favor: explica bem o contraste do capítulo 19, que opõe a casa de Ló à cidade inteira, e ecoa a hospitalidade de Abraão no capítulo 18.

Contra: não resolve nada quanto ao versículo 8. Ele protegeu os hóspedes oferecendo as filhas. Se a hospitalidade é a virtude, o preço dela está no mesmo versículo.

Terceira saída: a Segunda Carta de Pedro reflete uma tradição, não o Gênesis.

Esta é a leitura histórica, e é preciso apresentá-la sem rodeios.

Entre o Gênesis e a Segunda Carta de Pedro há séculos, e nesse intervalo se formou, no judaísmo de língua grega, uma tradição que reabilitou Ló. A Sabedoria de Salomão está nessa linha, Fílon e Josefo também. A carta escreve dentro dessa tradição e usa Ló como exemplo, num argumento sobre Deus saber livrar os piedosos.

A favor: é a explicação que dá conta dos dados sem forçar nenhum texto. Cada documento diz o que diz, dentro do seu tempo.

Contra: para quem sustenta uma doutrina forte da unidade das Escrituras, essa saída tem custo. Ela admite que dois livros do cânon avaliam a mesma pessoa de maneiras diferentes.

Quarta saída, e é a que menos se ouve: o próprio Gênesis já tinha respondido.

Esta é a mais interessante, e é este versículo que a fornece.

Repare: o Gênesis foi perguntado, por assim dizer, por que Ló saiu vivo. E respondeu — não pelo mérito dele, mas porque Deus se lembrou de Abraão.

Nessa leitura, o autor do Gênesis nunca pretendeu que Ló fosse justo. Ele explicou o resgate de outro modo, justamente para que ninguém precisasse explicá-lo pelo caráter do resgatado.

A favor: é exatamente o que o versículo diz, e explica por que ele existe. Sem ele, o leitor ficaria sem causa para a saída de Ló e concluiria por conta própria que houve mérito.

Contra: continua sem resolver a tensão com a Segunda Carta de Pedro, apenas a desloca — porque ali o mérito é afirmado.

Não é possível decidir entre as quatro. E convém dizer por que insisto em não decidir, já que a insistência custa conforto.

Esta é exatamente a espécie de passagem em que a leitura corrente alisa. Ou se transforma Ló num homem piedoso cercado de perversos, e some o versículo 8; ou se transforma Ló num hipócrita, e some a Segunda Carta de Pedro. As duas operações resolvem o incômodo apagando metade dos dados.

O trabalho honesto é o inverso: pôr as duas metades na mesa, mostrar de onde vem cada uma, e deixar a tensão de pé.

Um último detalhe, sobre o que o versículo não diz

Vale inventariar as ausências, porque em versículo tão explicativo elas pesam.

Ele não diz que Ló era justo, e não diz que não era.

Ele não diz que houve dez justos, nem quantos houve, nem que não houve nenhum.

Ele não diz que a oração de Abraão foi ouvida, nem que foi respondida, nem que produziu isto.

Ele não diz que Abraão soube.

Ele não menciona a mulher de Ló, que fora retirada com os outros e morreu no caminho — e cuja morte, se o resgate se deve à lembrança de Abraão, fica sem explicação alguma.

Este último ponto merece ser sublinhado, porque é o mais desconfortável e o menos citado. Quatro pessoas saíram da cidade. Três chegaram a Zoar. O versículo que explica o resgate fala de uma só, e a que morreu não entra na contabilidade.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Deus — o texto usa aqui Elohim, duas vezes, e é a única ocorrência desse termo em todo o capítulo 19; nos demais versículos, o nome é YHWH, o SENHOR. É ele o sujeito dos três verbos principais: destruir, lembrar-se e enviar para fora.

Abraão — o objeto da lembrança divina, e a causa declarada do resgate. Está a dezenas de quilômetros dali, no alto de Hebrom, e nunca mencionou Ló durante a intercessão do capítulo 18. Não é informado de nada disto.

— nomeado duas vezes no versículo, e nas duas como objeto: é enviado para fora, e é aquele que habitava nas cidades. Não pratica nenhuma ação. O texto não lhe atribui mérito nem culpa.

As cidades da planície — no plural, e mencionadas duas vezes, na abertura e no fecho da frase. A narrativa dos versículos anteriores concentrou-se em Sodoma; este resumo generaliza.

A destruição — em hebraico hafekhah, literalmente "a virada", "o revolvimento". A palavra virou termo quase técnico para este episódio, e reaparece assim em Deuteronômio 29:23, Isaías 13:19, Jeremias 49:18 e Amós 4:11.

A intercessão do capítulo 18 — o evento pressuposto, ainda que não citado. É a ele que a lembrança de Abraão remete, e é dele que vem a força deste versículo.

A mulher de Ló — ausente do versículo, e a ausência é significativa. Ela saiu da cidade com os outros três e morreu no caminho, no versículo 26. A explicação dada aqui para o resgate não a cobre.

As duas filhas — igualmente ausentes. Saíram com o pai, estão vivas, e serão as protagonistas dos versículos 30 a 38. Aqui não são nomeadas.

Zoar — não mencionada. É onde Ló está neste momento, poupada a pedido dele no versículo 21. O versículo 30 dirá que ele saiu de lá com medo.

5. Pontos de Ensino

A causa do resgate é Abraão, e não Ló. O verbo da lembrança tem Abraão por objeto. Ló é objeto do verbo de tirar. A sintaxe é clara e não admite outra leitura: o texto não atribui a sobrevivência ao mérito de quem sobreviveu.

Abraão nunca pediu por Ló. Nos onze versículos da intercessão, no capítulo 18, o nome do sobrinho não é pronunciado uma vez sequer. Quem lê aquele capítulo como oração por Ló está lendo pelo capítulo 19.

"Lembrar-se", em hebraico, não é operação da memória. Quando Deus é o sujeito, o verbo introduz sempre uma ação: Noé em 8:1, Raquel em 30:22, o pacto em Êxodo 2:24, Ana em 1 Samuel 1:19. O texto não sugere que Deus tivesse esquecido.

O nome divino muda exatamente aqui. Todo o capítulo diz "o SENHOR"; este versículo diz "Deus", duas vezes. É dado verificável em qualquer edição, e está no centro de uma discussão antiga sobre a composição do Pentateuco.

O verbo não é de salvamento. O hebraico diz que Deus "enviou para fora" — o mesmo verbo com que Abraão despede Agar em 21:14. Há verbos para salvar, livrar e arrancar do perigo, e nenhum deles foi usado.

A frase cerca o resgate com a destruição. Ela abre com as cidades sendo destruídas e fecha com as cidades sendo destruídas; no meio, e só no meio, está a saída de Ló. A sintaxe repete o que a palavra "do meio" diz.

O Gênesis nunca chama Ló de justo. A palavra aparece sete vezes no capítulo 18, sempre a respeito de justos anônimos. Quem o chama de justo é a Segunda Carta de Pedro, e antes dela a Sabedoria de Salomão — textos muito posteriores, escritos em grego.

A mulher de Ló fica de fora da explicação. Quatro pessoas saíram da cidade, três chegaram a Zoar. O versículo que explica o resgate fala de uma só, e não diz nada sobre a que morreu no caminho.

6. Aspectos Filosóficos

Ser salvo por conta de outro

Este é o assunto do versículo, e convém enfrentá-lo de frente.

O texto afirma que um homem sobreviveu porque Deus levou em conta outro homem. O sobrevivente não fez por merecer, não pediu, e não soube.

A ideia é estranha à sensibilidade moderna, que trabalha com mérito individual e responsabilidade pessoal. E é comum no mundo antigo, que pensava em unidades coletivas — a casa, o clã, o povo.

Vale reconhecer as duas coisas ao mesmo tempo, sem esconder nenhuma.

De um lado, há aí algo que a nossa cultura tem dificuldade de aceitar: o destino de alguém decidido por uma relação da qual ele não participa. Se a lógica se inverte — se alguém pode ser punido por conta de outro —, ela vira injustiça óbvia, e o próprio Antigo Testamento acabará contestando isso, em Ezequiel 18 e em Deuteronômio 24:16.

De outro, há aí algo que nenhuma teoria do mérito individual consegue eliminar: ninguém escolhe onde nasce, de quem descende, quem intercedeu por si antes de saber falar. A parte da vida que se deve a outros é maior do que a que se administra.

O versículo não resolve isso. Apenas afirma que, neste caso, foi assim.

O silêncio de Ló, e o de Abraão

Vale insistir num ponto do texto que é fácil de perder.

Nenhum dos dois homens sabe deste versículo.

Ló é tirado da cidade pela mão, no versículo 16, e o motivo que o narrador dá ali é outro — "segundo a misericórdia do SENHOR para com ele". Ele nunca ouve dizer que a razão foi o tio.

Abraão sobe ao monte, vê fumaça, e o Gênesis nunca registra que ele tenha sabido do desfecho.

A informação existe só neste versículo, e o destinatário dele é o leitor.

Isso põe uma questão que vale desenvolver: há coisas verdadeiras sobre a nossa vida que não estão disponíveis para nós. O texto encena isso com clareza rara — monta uma cadeia causal completa e deixa os dois envolvidos do lado de fora dela.

Não estou extraindo daqui nenhuma promessa. A promessa seria dizer "existe sempre alguém intercedendo por você", e o versículo não diz isso; narra um caso, e um caso não fornece regra.

O que ele fornece é a possibilidade — que já é considerável — de que a explicação de algo que nos aconteceu não esteja ao nosso alcance.

Sobre a palavra "lembrar"

Vale explorar o que o hebraico faz com essa palavra, porque tem consequência para a ideia que se faz de Deus.

Se "lembrar-se" fosse operação mental, o versículo diria que Deus voltou a pensar em alguém que estava fora da sua atenção. Isso é a imagem popular, e ela produz um Deus distraído.

Como não é, o versículo diz outra coisa: a partir de agora, e por causa de Abraão, Deus age.

A diferença é grande. No primeiro caso, a memória divina é um problema a ser resolvido. No segundo, "lembrar" é o nome de um começo de ação.

É essa a lógica que atravessa o Antigo Testamento inteiro. Quando o povo pede a Deus que se lembre, não está pedindo que ele recorde: está pedindo que faça alguma coisa. E quando pede que não se lembre dos seus pecados, também não está pedindo esquecimento: está pedindo que não haja consequência.

Registro isso como o funcionamento observável do verbo, e não como doutrina. O que Deus é ou deixa de ser em si mesmo, o texto não informa.

O problema da mulher que ficou pelo caminho

Este é o ponto que quase nenhum comentário enfrenta, e é preciso enfrentá-lo.

Se a saída de Ló se deve à consideração por Abraão, então a mesma consideração cobria a mulher e as filhas — os quatro foram tirados juntos, pela mão, no versículo 16.

Três chegaram. Uma não.

E este versículo, que existe justamente para explicar o resgate, não a menciona.

Diante disso, três posturas são possíveis.

A primeira é dizer que ela desobedeceu, e que a proteção não cobre a desobediência. É a leitura tradicional. Ela funciona, mas tem um custo: transforma um versículo sobre a gratuidade do resgate num versículo sobre condição de conduta, e o texto não faz essa articulação.

A segunda é dizer que o versículo é um resumo e que resumos são imprecisos — ele fala do essencial e omite o resto. Também funciona, e tem o custo de admitir que a explicação oferecida não cobre os fatos narrados.

A terceira é registrar a lacuna e deixá-la. É o que faço aqui.

Vale dizer por que prefiro a terceira: porque as duas primeiras produzem tranquilidade, e a tranquilidade, neste caso, é comprada com o apagamento de uma morte que o texto narrou três versículos antes.

O que este versículo faz com a doutrina do mérito

Um último aspecto, e é o de maior alcance.

A religião popular, em qualquer época, funciona por mérito. Comporte-se bem e será protegido; comporte-se mal e será punido. É a lógica mais intuitiva que existe, e é a que os amigos de Jó defendem por trinta capítulos.

Este versículo não funciona assim. Ele explica um resgate sem invocar o comportamento do resgatado — e o faz num capítulo em que o resgatado acabara de oferecer as próprias filhas a uma multidão.

Convém marcar o limite antes de tirar conclusões grandes. O Gênesis não está enunciando uma doutrina; está explicando um caso. E o mesmo livro, em outros lugares, liga bênção a conduta com toda a clareza.

Mas o caso está aqui, e é preciso lê-lo pelo que ele diz. Neste episódio, quem sai vivo sai por conta de uma relação que não é sua.

Se isso é consolador ou incômodo, depende de onde se está. Para quem depende do próprio mérito, é alívio. Para quem confia no próprio mérito, é outra coisa.

7. Aplicações Práticas

Verifique de quem o texto diz que Deus se lembrou

Esta é a aplicação mais simples e a mais útil, e não exige hebraico nenhum.

Leia o versículo devagar e pergunte: quem é o objeto do verbo "lembrar-se"? A resposta está escrita, e é Abraão.

Depois faça a mesma pergunta com o capítulo 18 aberto: em que ponto Abraão pede por Ló? Não pede em nenhum.

O exercício vale por si, e vale como método. Boa parte do que se ensina como sendo da Bíblia não sobrevive a uma leitura atenta do próprio versículo — e conferir custa dois minutos.

Desconfie de explicações que dependem do mérito de alguém

O leitor que chega ao capítulo 19 sem este versículo conclui naturalmente que Ló foi poupado por ser melhor que os vizinhos.

O texto corta essa conclusão, e corta de propósito.

Isso é útil como hábito mental muito além do episódio. Diante de qualquer sobrevivência — de uma doença, de uma crise, de uma demissão coletiva —, a explicação pelo mérito é a primeira que ocorre, e quase nunca é a verdadeira.

Ela tem, além disso, um efeito colateral cruel: se quem sobreviveu merecia, quem não sobreviveu também.

Reconheça a parte da sua vida que não é sua

Ló saiu vivo por causa de uma conversa da qual não participou, entre duas pessoas que não o mencionaram, num lugar onde ele não estava.

É uma imagem forte de algo verificável em qualquer biografia. O idioma que você fala, a família em que nasceu, a escola a que teve acesso, quem se preocupou com você antes de você saber que existia — nada disso é obra sua.

Isso não anula o esforço próprio, e não é isso que estou dizendo. Diz apenas que a conta é maior do que a parte que administramos.

Quem sabe disso é menos arrogante nas vitórias e menos esmagado nas derrotas.

Ore por quem não vai saber

A cadeia deste episódio funciona inteira sem que ninguém seja informado. Abraão pede e não sabe do resultado; Ló é retirado e não sabe por quê.

Há uma sobriedade nisso que vale imitar, sem transformar em regra.

Quem pede por outra pessoa quase sempre quer que ela saiba, e às vezes conta. O episódio descreve outra configuração: um pedido que produz efeito e não produz crédito.

Registro que o texto não formula nenhum princípio sobre discrição na oração. Narra um caso; a aplicação é minha.

Não use este versículo como garantia

É preciso dizer isto, porque a aplicação fácil está na esquina.

Ler aqui a promessa de que toda oração produz um efeito invisível é ir além do texto. O versículo narra um caso; um caso não estabelece regra.

E há um dado dentro do próprio episódio que impede a generalização: quatro pessoas foram retiradas da cidade, e uma morreu no caminho. Se a lembrança de Abraão fosse uma cobertura automática, ela teria coberto as quatro.

O que se pode dizer, e é honesto, é mais estreito: neste caso, houve efeito que os envolvidos não conheceram. Saber que essa configuração existe muda o modo de esperar — sem prometer nada.

Segure as duas metades quando o texto não fecha

A Segunda Carta de Pedro chama Ló de justo. O Gênesis narra que ele ofereceu as filhas à multidão. Os dois textos estão na mesma Bíblia.

A tentação é escolher: ou se apaga o versículo 8 para salvar o retrato piedoso, ou se apaga a Segunda Carta de Pedro para manter a crítica.

A disciplina de ficar com as duas metades é difícil e é o que separa estudo de propaganda.

Ela vale muito além da Bíblia, aliás. Quase toda pessoa real é assim: os dados sobre ela não fecham num retrato único, e quem insiste em fechá-los está inventando alguém.

Aceite não saber o que aconteceu com quem você não conseguiu ajudar

Abraão desce da colina sem notícia, e o livro nunca lhe dá uma. Ele e Ló não se falam mais no Gênesis. Não há reencontro, não há carta, não há recado.

Isso é mais parecido com a vida do que a maioria das histórias que contamos.

Pessoas somem. Casos ficam sem desfecho. A gente faz o que pode, e depois não fica sabendo.

O versículo oferece, ao leitor, a informação que faltava ao personagem — e ao fazê-lo mostra, de passagem, que o desfecho existia mesmo sem ele ter sido comunicado. É pouco, e é mais do que nada.

Cuidado com o que você faz com a palavra "justo"

Este episódio mostra a palavra sendo usada de duas maneiras muito diferentes por textos da mesma Bíblia, separados por séculos.

Vale extrair daí uma cautela prática: adjetivos morais aplicados a pessoas quase sempre dizem mais sobre quem os aplica do que sobre quem os recebe.

Chamar alguém de justo, de íntegro, de honesto — ou de corrupto, de falso, de perverso — é um ato de quem fala, feito de uma posição e num momento. O mesmo homem foi chamado de justo em Alexandria e tratado com dureza pelos mestres da Galileia.

Não estou dizendo que não se deva julgar. Estou dizendo que convém saber que se está julgando.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto diz que Deus se lembrou de Abraão, e não de Ló?

Porque é isso que está escrito, e a sintaxe não permite outra leitura: Abraão é o objeto do verbo "lembrar-se", e Ló é o objeto do verbo "enviar para fora".

O versículo existe justamente para dar essa explicação. Sem ele, o leitor do capítulo 19 concluiria por conta própria que Ló foi poupado por merecimento — e o autor cortou essa conclusão.

Vale acrescentar um dado que completa o quadro: Abraão, no capítulo 18, não pediu por Ló nem uma vez. A ligação afirmada aqui é entre Deus e uma pessoa, e não entre um pedido e um resultado.

Isso significa que Deus havia esquecido?

Não. Essa é a leitura mais comum e é um mal-entendido produzido pela nossa palavra portuguesa.

No hebraico bíblico, "lembrar-se" com Deus por sujeito não descreve um estado da mente divina: introduz uma ação. Em Gênesis 8:1, Deus se lembra de Noé e faz passar um vento sobre a terra; em Gênesis 30:22, lembra-se de Raquel e abre o ventre dela; em Êxodo 2:24, lembra-se do pacto e começa o êxodo; em 1 Samuel 1:19, lembra-se de Ana e ela concebe.

O padrão é constante: a lembrança é sempre seguida de intervenção. Uma tradução mais próxima do efeito seria "Deus levou Abraão em conta".

A oração de Abraão foi atendida, então?

Depende do que se entenda por atendida, e convém separar as duas coisas.

O pedido explícito era que a cidade fosse poupada se houvesse justos. A cidade não foi poupada. Nesse sentido, não foi atendido.

Mas o versículo liga a saída de Ló à consideração por Abraão, e essa é a única explicação que o Gênesis oferece para o resgate. Nesse sentido, a intercessão teve consequência.

Três ressalvas impedem transformar isso em fórmula de consolo: o pedido não era por Ló; Abraão não foi informado de nada; e o versículo não diz que a oração causou o resgate — diz que Deus se lembrou de uma pessoa.

Por que este versículo usa "Deus" e o resto do capítulo usa "o SENHOR"?

É um dado real e verificável em qualquer edição do hebraico, e em traduções portuguesas que distinguem os dois termos.

A explicação mais discutida vem da hipótese de que o Pentateuco reúne materiais de proveniências diferentes, e que este versículo pertence a uma camada distinta da narrativa em volta — a chamada camada sacerdotal, que prefere "Deus", escreve em estilo formular e produz resumos como este.

Há também explicações que dispensam a hipótese: alguns sustentam que "Deus" aparece em contextos de juízo universal e "o SENHOR" em contextos de relação pessoal, e este versículo caberia nisso.

Não é possível decidir. E convém dizer o que não muda com a resposta: seja qual for a origem do versículo, ele está no texto e afirma o que afirma.

Ló era justo ou não?

Esta é a pergunta mais difícil do capítulo, e ela não tem resposta limpa.

Do lado de quem afirma: a Segunda Carta de Pedro 2:7-8 o chama de justo três vezes em duas linhas e descreve uma alma atormentada dia após dia. A Sabedoria de Salomão 10:6, livro judaico anterior, o defende. Josefo e Fílon elogiam a hospitalidade dele.

Do lado de quem nega: o Gênesis nunca usa a palavra "justo" a respeito dele — ela aparece sete vezes no capítulo 18, sempre sobre justos anônimos. E o versículo 8 registra que ele ofereceu as duas filhas à multidão. A tradição rabínica é dura com ele.

Há quatro saídas correntes, expostas no item 3, e nenhuma cobre todos os dados. A honestidade obriga a deixar a tensão de pé, em vez de apagar metade dos textos para produzir um retrato coerente.

Por que o verbo é "enviou para fora" e não "salvou"?

Porque é isso que o hebraico diz. O verbo é o de mandar, despachar, deixar ir — o mesmo com que Abraão despede Agar em Gênesis 21:14 e o mesmo que Moisés usará para exigir do faraó que deixe o povo sair.

A língua tem verbos próprios para salvar, livrar e arrancar do perigo, e nenhum deles aparece aqui.

Compare-se com o versículo 16, que conta o mesmo fato de outro modo: ali os homens o pegam pela mão, e à mulher e às filhas, e o põem fora da cidade, porque ele se demorava. A cena é de força; este versículo é de despacho.

Se a diferença é significativa ou apenas efeito do resumo, não é possível decidir.

E a mulher de Ló? A lembrança de Abraão não valeu para ela?

Esta é a pergunta que quase nenhum comentário faz, e é a mais desconfortável.

Quatro pessoas foram retiradas da cidade, no versículo 16: Ló, a mulher e as duas filhas. Três chegaram a Zoar. Este versículo, que existe para explicar o resgate, menciona uma só.

A resposta tradicional é que ela desobedeceu à ordem de não olhar para trás, e que a proteção não cobre a desobediência. Funciona, e tem um custo: converte um versículo sobre resgate gratuito num versículo sobre condição de conduta, articulação que o texto não faz.

A outra resposta é que resumos são imprecisos, e que este fala do essencial. Também funciona, e admite que a explicação não cobre os fatos.

Prefiro registrar a lacuna. As duas saídas produzem tranquilidade, e a tranquilidade, aqui, sai ao preço de apagar uma morte narrada três versículos antes.

O que significa a palavra traduzida por "destruição"?

O hebraico é hafekhah, literalmente "a virada" ou "o revolvimento", da raiz que significa virar, revirar, pôr de cabeça para baixo.

A palavra tornou-se quase um termo técnico para este episódio, e reaparece assim em Deuteronômio 29:23, Isaías 13:19, Jeremias 49:18 e 50:40, e Amós 4:11.

Vale registrar um contraste que raramente se aponta: em Jonas 3:4 o mesmo verbo anuncia que Nínive será virada — e Nínive não foi. A mesma palavra descreve a cidade que acabou e a cidade que não acabou.

Este versículo é a resposta do Gênesis à pergunta sobre o mérito de Ló?

É uma leitura possível, e é a mais interessante das quatro que exponho no item 3.

O raciocínio é este: o autor sabia que o leitor perguntaria por que Ló saiu vivo, e respondeu antes que a pergunta fosse feita — não pelo caráter dele, mas pela consideração a Abraão.

A favor: explica por que o versículo existe, já que ele não acrescenta nenhum acontecimento novo.

Contra: não resolve a tensão com a Segunda Carta de Pedro, apenas a desloca — porque ali o mérito é afirmado, e afirmado com ênfase.

Registro como leitura, e não como conclusão demonstrada.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 8:1E lembrou-se Deus de Noé, e de todos os animais, selvagens e domésticos que estavam com ele na arca; e fez passar Deus um vento sobre a terra, e diminuíram as águas.

O versículo gêmeo. Mesmo verbo, mesmo nome divino, mesma posição — o resumo que explica por que o único sobrevivente de uma destruição saiu vivo. E, como aqui, a lembrança é seguida imediatamente de ação.

Gênesis 30:22E lembrou-se Deus de Raquel, e Deus a ouviu, e abriu sua madre.

Outra ocorrência do verbo com Deus por sujeito, e outra vez seguida de intervenção. O padrão mostra que "lembrar-se", aqui, não é operação da memória.

Êxodo 2:24E ouviu Deus o gemido deles, e lembrou-se de seu pacto com Abraão, Isaque e Jacó.

A mesma fórmula abrindo o livro do êxodo. O que se lembra é o pacto, e a lembrança inicia a libertação de um povo inteiro.

1 Samuel 1:19E levantando-se de manhã, adoraram diante do SENHOR, e voltaram, e vieram a sua casa em Ramá. E Elcana se deitou com sua mulher Ana, e o SENHOR se lembrou dela.

Mais uma vez o verbo seguido de resultado concreto. As quatro ocorrências, juntas, estabelecem o funcionamento da palavra.

Gênesis 18:23E aproximou-se Abraão e disse: Destruirás também ao justo com o ímpio?

A pergunta que abriu a intercessão. A palavra "justo" está aqui, e a partir daqui será repetida — sempre a respeito de gente anônima, nunca de Ló.

Gênesis 18:32E voltou a dizer: Não se ire agora meu Senhor, se falar somente uma vez: talvez se achem ali dez. Não a destruirei, respondeu, por causa dos dez.

O ponto em que a conversa parou. O número encontrado nunca foi comunicado, e este versículo, que explica o resgate, também não o informa.

Gênesis 19:16E demorando-se ele, os homens pegaram por sua mão, e pela mão de sua mulher, e pelas mãos de suas duas filhas segundo a misericórdia do SENHOR para com ele; e o tiraram, e o puseram fora da cidade.

O mesmo fato narrado de outro modo: quatro pessoas, puxadas pela mão, porque ele se demorava. Aqui é "Deus enviou Ló para fora" — e a mulher e as filhas não aparecem.

Gênesis 19:26Então a mulher de Ló olhou atrás, às costas dele, e se tornou estátua de sal.

A morte que a explicação deste versículo não cobre. Saíram quatro da cidade; três chegaram.

Gênesis 19:8Eis aqui agora eu tenho duas filhas que não conheceram homem; eu as tirarei fora para vós, e fazei delas como bem vos parecer: somente a estes homens não façais nada, pois que vieram à sombra de meu telhado.

O dado que qualquer retrato de Ló precisa encarar. Está no mesmo capítulo, onze versículos antes, e é do próprio Gênesis.

2 Pedro 2:7E livrou ao justo Ló, que estava cansado do corrupto modo de viver dos maus.

A outra metade da tensão. O adjetivo que o Gênesis nunca aplica a Ló aparece aqui, num texto escrito em grego séculos depois.

2 Pedro 2:8(Porque, enquanto aquele justo habitava entre eles, todo dia ele atormentava sua justa alma, ao ver e ouvir as suas injustas obras).

A ênfase é notável: "justo" duas vezes num versículo só, e a descrição de um estado interior que o Gênesis não registra em ponto algum.

Deuteronômio 29:23(Enxofre e sal, abrasada toda sua terra: não será semeada, nem produzirá, nem crescerá nela erva nenhuma, como na destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim, que o SENHOR destruiu em seu furor e em sua ira:)

A palavra deste versículo — "a virada" — reaparecendo como termo fixo, e com duas cidades a mais na lista.

Amós 4:11Transtornei a alguns dentre vós, como quando Deus transtornou a Sodoma e a Gomorra, e fostes como tição escapado do fogo; contudo não vos convertestes a mim, diz o SENHOR.

O mesmo verbo, séculos depois, aplicado a Israel. O episódio virou medida de comparação.

Deuteronômio 2:9E o SENHOR me disse: Não perturbeis a Moabe, nem te empenhes com eles em guerra, que não te darei possessão de sua terra; porque eu dei a Ar por herança aos filhos de Ló.

O que restou de Ló no Antigo Testamento: ele reaparece como ancestral, e a terra dos descendentes dele é protegida por ordem expressa.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Assim, quando Deus destruiu as cidades da planície, lembrou-se de Abraão e tirou Ló do meio da destruição, ao destruir as cidades em que Ló habitava.

Texto hebraico

וַיְהִי בְּשַׁחֵת אֱלֹהִים אֶת־עָרֵי הַכִּכָּר וַיִּזְכֹּר אֱלֹהִים אֶת־אַבְרָהָם וַיְשַׁלַּח אֶת־לוֹט מִתּוֹךְ הַהֲפֵכָה בַּהֲפֹךְ אֶת־הֶעָרִים אֲשֶׁר־יָשַׁב בָּהֵן לוֹט

Transliteração

vayehi beshachet Elohim et-arei hakkikkar vayyizkor Elohim et-Avraham vayshallach et-Lot mittokh hahafekhah bahafokh et-he'arim asher-yashav bahen Lot

Palavra por palavra

וַיְהִי (vayehi) — "e aconteceu"

Fórmula de abertura, comuníssima na narrativa hebraica. Marca transição e, muitas vezes, introduz um resumo ou um comentário sobre o que já foi contado.

É essa a função aqui: nada de novo acontece neste versículo. Ele recapitula os versículos 15 a 26 e acrescenta uma causa.

בְּשַׁחֵת (beshachet) — "ao destruir"

Preposição temporal mais o infinitivo do verbo shachat na forma intensiva: arruinar, corromper, destruir.

Vale registrar que este verbo tem uma história dentro do Gênesis. É o mesmo de 6:11-13, onde a terra estava "corrompida" e Deus anuncia que vai "destruir" — a mesma raiz nos dois sentidos, o que produz um jogo que o texto do dilúvio explora.

Aqui ele aparece só no sentido de destruir, e emoldura o versículo: abre a frase e reaparece, com outro verbo, no fecho.

אֱלֹהִים (Elohim) — "Deus"

O termo comum para divindade, no plural de forma mas com verbo no singular quando designa o Deus de Israel.

Aqui está o dado que faz deste versículo um caso discutido: é a única vez em todo o capítulo 19 que o texto usa este termo, e ele aparece duas vezes. Nos demais versículos — 13, 14, 16, 24 duas vezes, e 27 — o nome é YHWH.

A alternância entre os dois nomes divinos no Pentateuco é observação antiga, e está na origem da hipótese de que o livro reúne materiais de proveniências diferentes. Segundo a formulação clássica dessa hipótese, este versículo pertenceria à camada chamada sacerdotal, que prefere Elohim, escreve em estilo formular e produz sumários como este.

Há explicações alternativas, que dispensam a hipótese: há quem sustente que Elohim corresponde a contextos de juízo universal, e YHWH a contextos de relação pessoal.

Não é possível decidir, e não decido. O que se pode afirmar é o dado bruto: aqui o nome muda, e muda só aqui.

עָרֵי הַכִּכָּר (arei hakkikkar) — "as cidades do disco"

Plural de ir, cidade, em estado construto, mais kikkar com artigo.

Kikkar vem de uma raiz que significa ser redondo, e designa coisas circulares — um disco de pão, um peso em forma de disco — e, em sentido geográfico, um distrito de contorno definido: a bacia do vale do Jordão na extremidade sul.

É a mesma palavra de Gênesis 13:10-12, onde Ló olhou a planície e a escolheu, e a mesma do versículo 28, que Abraão acabou de olhar do alto.

Note-se o plural. A narrativa dos versículos anteriores é sobre Sodoma; aqui tudo é dito em bloco, como quem resume de fora.

וַיִּזְכֹּר (vayyizkor) — "e lembrou-se"

Raiz zakar, na forma simples. Este é o verbo central do versículo.

Em português, "lembrar-se" descreve uma operação mental: algo que estava fora da consciência volta a ela. No hebraico bíblico, quando o sujeito é Deus, o verbo funciona de outro modo — não descreve um estado da mente, mas inaugura uma ação.

O padrão é constante e verificável. Em Gênesis 8:1, Deus se lembra de Noé e faz passar um vento sobre a terra. Em Gênesis 30:22, lembra-se de Raquel e abre o ventre dela. Em Êxodo 2:24, lembra-se do pacto e começa o êxodo. Em 1 Samuel 1:19, lembra-se de Ana e ela concebe.

Em nenhuma dessas passagens há sugestão de esquecimento anterior. A fórmula é de intervenção, não de memória.

Convém acrescentar que a raiz tem uso amplo: dela vem o substantivo que significa memorial, e dela vem o imperativo com que o povo pede a Deus que se lembre — pedido que, no vocabulário bíblico, significa "age", e não "recorda".

אֶת־אַבְרָהָם (et-Avraham) — "de Abraão"

A partícula do objeto direto mais o nome.

Aqui está o dado que organiza o versículo inteiro, e ele é puramente gramatical: Abraão é o objeto do verbo lembrar-se. Não Ló.

O hebraico não deixa margem. A construção é a mesma de Gênesis 8:1 com Noé e de Gênesis 30:22 com Raquel: verbo, partícula, nome de quem é levado em conta.

E vale acrescentar o que a narrativa anterior estabelece: Abraão, nos onze versículos da intercessão, nunca mencionou Ló.

וַיְשַׁלַּח (vayshallach) — "e enviou para fora"

Raiz shalach na forma intensiva piel: enviar, despachar, mandar embora, deixar ir.

Este é o segundo dado importante do versículo, e costuma passar despercebido: não é um verbo de salvamento.

O hebraico tem verbos próprios para salvar (yasha), livrar (natsal) e arrancar do perigo (malat) — e, curiosamente, é este último que aparece na boca do mensageiro no versículo 17, "escapa por tua vida". Nenhum deles está aqui.

O verbo escolhido é o de despachar. É o mesmo com que Abraão despede Agar em 21:14, e o mesmo que Moisés usará diante do faraó: deixa ir o meu povo.

Compare-se com o versículo 16, que narra o mesmo fato: ali os homens pegam Ló pela mão, e à mulher e às filhas, e os põem fora da cidade, porque ele se demorava. A cena é de força; aqui, de despacho administrativo.

Registro a diferença de tom. Se ela é intencional ou apenas efeito do resumo, não é possível decidir.

מִתּוֹךְ הַהֲפֵכָה (mittokh hahafekhah) — "do meio da virada"

Tokh significa meio, interior, dentro. Com a preposição, "de dentro de".

Hafekhah vem da raiz hafakh: virar, revirar, pôr de cabeça para baixo, transtornar. O substantivo designa, literalmente, "a virada".

Essa palavra tornou-se quase um termo técnico para este episódio. Reaparece em Deuteronômio 29:23, Isaías 13:19, Jeremias 49:18 e 50:40, e Amós 4:11 — sempre como referência à catástrofe das cidades da planície.

Vale registrar um contraste que raramente se aponta: em Jonas 3:4, o profeta anuncia que Nínive será virada, com o mesmo verbo. E Nínive não foi virada. A mesma palavra descreve a cidade que acabou e a cidade que não acabou.

בַּהֲפֹךְ אֶת־הֶעָרִים (bahafokh et-he'arim) — "ao virar as cidades"

Preposição temporal mais o infinitivo da mesma raiz que acabou de aparecer no substantivo.

É repetição deliberada de raiz, recurso frequente na prosa hebraica: "do meio da virada, ao virar as cidades".

E é aqui que se fecha a estrutura mais bonita do versículo, que vale expor.

A frase abre com a destruição das cidades. Fecha com a destruição das cidades. E, no meio — cercado pelas duas menções à catástrofe —, está o resgate.

A sintaxe faz o que a palavra "do meio" diz. Ló é tirado de dentro da destruição, e a frase o coloca, também ela, dentro dela.

Que o efeito existe é verificável. Que o autor o construiu de propósito é provável, dada a técnica da narrativa hebraica, e não é demonstrável.

אֲשֶׁר־יָשַׁב בָּהֵן לוֹט (asher-yashav bahen Lot) — "em que Ló habitava"

Pronome relativo, verbo yashav (sentar-se, habitar, estabelecer-se) no perfeito, preposição com sufixo plural feminino, e o nome.

Duas observações.

A primeira: o plural "nelas". Segundo o capítulo 13, Ló armou as tendas até Sodoma; segundo o 14 e o 19, morava em Sodoma. Uma cidade. O plural aqui é generalizante, próprio de um sumário — não é erro, é linguagem de resumo.

A segunda: o nome de Ló aparece duas vezes no versículo, e nas duas ele é objeto ou sujeito de um verbo estático. É enviado para fora; habitava. Não age em nenhum momento.

Nota — o que o versículo afirma e o que não afirma

Convém fechar com o inventário, porque este versículo é curto e carrega muito.

Afirma: que Deus destruiu as cidades; que se lembrou de Abraão; que enviou Ló para fora do meio da destruição.

Não afirma: que Ló era justo, nem que não era. Que houve dez justos, ou nenhum. Que a oração de Abraão foi ouvida, ou respondida, ou que causou isto. Que Abraão soube. Que Ló soube.

E não menciona a mulher de Ló, retirada da cidade com os outros três e morta no caminho.

Este último silêncio é o mais duro do versículo, e o menos citado. A explicação oferecida para o resgate cobre um dos quatro que saíram, e o texto não diz nada sobre por que não cobriu a segunda.

11. Conclusão

Um resumo de dezenove palavras hebraicas, encaixado entre a catástrofe e o que vem depois dela, faz o trabalho que a narrativa inteira deixara pendente: dá o motivo.

E o motivo desloca o eixo de todo o capítulo. A pessoa que aparece como razão do resgate não é a que foi resgatada. É um homem que estava longe, que não pediu por aquele sobrinho em nenhum momento da negociação da véspera, e que nunca ficará sabendo do que se passou.

Vale reter três coisas, e mantê-las distintas.

A primeira é de gramática, e não admite discussão. O verbo da lembrança tem um objeto, e esse objeto tem nome: Abraão. Quem é enviado para fora é outro, e esse outro, no versículo inteiro, não faz nada — é despachado, e habitava. A frase encerra o resgatado dentro da catástrofe também sintaticamente: as cidades são destruídas na abertura, são destruídas no fecho, e a saída dele acontece no meio, entre as duas.

A segunda é de vocabulário. "Lembrar-se", nesta língua, não é o contrário de esquecer. É o verbo que abre uma intervenção — o mesmo de Noé na arca, o de Raquel sem filhos, o do pacto no início do êxodo, o de Ana em Ramá. Em nenhum desses lugares há um Deus distraído que subitamente recorda. Há, em todos, uma ação que começa.

A terceira é o incômodo, e não convém dissolvê-lo. Este é o versículo que o Gênesis oferece a quem pergunta por que aquele homem escapou — e a resposta que ele dá não é sobre o caráter dele. Séculos depois, uma carta grega chamará esse mesmo homem de justo, três vezes em duas linhas, e descreverá uma alma atormentada dia após dia pela conduta dos vizinhos. O capítulo que estamos lendo contém, onze versículos atrás, a oferta das duas filhas à multidão.

Os dois textos estão na mesma Bíblia. Escolher um e apagar o outro é o procedimento mais comum e o menos honesto.

Falta ainda dizer o que ninguém costuma dizer. Quatro pessoas foram arrancadas daquela cidade pela mão. Três chegaram vivas ao seu destino. Este versículo, feito para explicar o livramento, nomeia uma só, e sobre a mulher que ficou no caminho não escreve uma linha.

Fica assim: uma causa dada ao leitor e negada a todos os personagens, uma palavra que promete ação e não memória, e uma conta que não fecha.

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Gênesis 19:29

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