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Gênesis 19:30

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 39 min de leitura·👁 9 acessos
Ló subiu de Zoar e habitou no monte, e as suas duas filhas com ele, porque teve medo de permanecer em Zoar; e habitou numa caverna, ele e as suas duas filhas.
Homem idoso e duas jovens à entrada de uma caverna na encosta rochosa, ao entardecer, com a planície do mar Morto ao fundo.

Estudo


Ló subiu de Zoar e habitou no monte, e as suas duas filhas com ele, porque teve medo de permanecer em Zoar; e habitou numa caverna, ele e as suas duas filhas.

1. Introdução

Onze versículos antes, Ló disse que não conseguiria chegar ao monte. Pediu uma cidade pequena em troca, e recebeu.

Agora ele sai dessa cidade e sobe ao monte. Sem que ninguém mande, sem que ninguém insista, sem que a narrativa explique.

O narrador põe as duas coisas na mesma página e não comenta nenhuma delas. É a maneira do Gênesis: registra e segue.

Este versículo é a dobradiça do capítulo. Fecha a história da fuga e abre a última cena, que é a mais desconfortável do livro inteiro.

E há um dado que só se percebe contando: a partir daqui, até o fim do capítulo, nenhum nome divino aparece mais.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde a cena acontece

Convém situar a geografia, porque ela não é decorativa neste versículo.

A planície do Jordão, na parte sul, corresponde à região do mar Morto — o ponto mais baixo da superfície da terra, cerca de quatrocentos metros abaixo do nível do mar. Zoar ficava na borda dessa depressão, provavelmente na extremidade sudeste, próxima da entrada dos vales que sobem para o planalto de Moabe.

"Subir" ao monte, aqui, não é figura de linguagem. Do fundo da depressão até o planalto a leste há um desnível real de mais de mil metros, vencido por gargantas íngremes. Quem sai de Zoar e vai para as alturas sobe de verdade, e sobe muito.

As encostas dessa região são de calcário e giz, e estão cheias de cavidades naturais. Cavernas eram abrigo corrente ali — para pastores, para fugitivos, para quem não tinha casa. O relato não descreve nada de extraordinário quando põe três pessoas dentro de uma delas.

A trajetória social de Ló, em quatro etapas

Vale reunir o percurso do personagem, porque ele desenha uma linha bem marcada.

Em Gênesis 13, Ló é um pastor rico que escolhe a terra bem regada e vai armando as tendas até Sodoma. Ainda é homem de tenda, como o tio.

Em Gênesis 14, já mora dentro da cidade, e é levado cativo justamente por isso.

Em Gênesis 19:1, está sentado à porta de Sodoma. No mundo antigo, a porta da cidade era o lugar onde se resolviam os negócios públicos, os litígios e os contratos. Sentar-se ali indica alguém integrado, com algum peso local — embora os próprios moradores, no versículo 9, lhe lembrem que ele veio de fora.

Neste versículo 30 ele está numa caverna, com duas filhas, sem cidade, sem genros, sem mulher e sem propriedade mencionada.

A linha vai da tenda ao portão da cidade e do portão da cidade ao buraco na rocha. O narrador não faz nenhum comentário sobre isso. Apenas escreve as posições, uma depois da outra, ao longo de sete capítulos.

Zoar, a cidade que sobrevive

Um dado histórico que costuma passar despercebido: Zoar continuou existindo.

Isaías 15:5 e Jeremias 48:34 mencionam Zoar séculos depois, em oráculos sobre Moabe, como ponto de referência conhecido — para onde correm os fugitivos moabitas. Escritores gregos e romanos e a documentação bizantina posterior também registram uma localidade com esse nome na região.

Ou seja: a cidade que Ló pediu para ser poupada foi de fato poupada, e durou. E o nome dela reaparece na Bíblia associado exatamente ao povo que vai nascer dentro da caverna deste versículo. A coincidência é do material, não da nossa leitura, e não se deve tirar dela mais do que ela dá.

O silêncio de Deus a partir daqui

Há um fato que qualquer leitor pode conferir contando as palavras: do versículo 30 até o fim do capítulo, nem YHWH nem Elohim aparecem uma única vez.

Nos vinte e nove versículos anteriores, a presença divina é constante: os mensageiros chegam, avisam, puxam pela mão, destroem, e o versículo 29 declara que Deus se lembrou de Abraão.

Nos nove versículos finais, não há mensageiro, não há voz, não há ordem e não há juízo declarado. Só há três pessoas, uma caverna, vinho e uma decisão tomada por conta própria.

Isso é escolha de composição, e é observável. O que significa já é interpretação, e há mais de uma possível. Registro o dado agora e volto a ele adiante.

Como a tradição judaica leu a subida

Entre os comentadores medievais, Nahmânides — o rabino catalão do século XIII conhecido também como Ramban — propôs uma explicação para o medo de Ló que merece registro.

O raciocínio dele é o seguinte: Zoar pertencia ao grupo das cidades da planície e estava, portanto, incluída na sentença. Foi excluída da destruição a pedido de Ló e por causa dele, conforme o versículo 21. Se a isenção existia por causa do hóspede, a saída do hóspede a suspenderia — e Ló teria receado permanecer num lugar cuja salvação dependia da presença dele e que, uma vez sem ele, voltaria a ficar exposto.

Registro isso como leitura, não como o que o texto afirma. O versículo diz que Ló teve medo; não diz de quê. A explicação de Nahmânides é engenhosa e coerente com o versículo 21, mas é dedução dele, e outras deduções cabem no mesmo silêncio.

A questão da costura do relato

Hermann Gunkel, o estudioso alemão que no início do século XX analisou o Gênesis como coleção de narrativas de origem popular, observou que esta última cena tem sinais de ter existido separada do resto.

Ele apontou, entre outras coisas, o artigo definido de "a caverna", que sugere um lugar conhecido de quem contava a história — uma caverna determinada, mostrada localmente, e não uma gruta qualquer. Histórias ligadas a acidentes geográficos visíveis costumam nascer assim.

É hipótese, e desse tipo de hipótese não se extraem provas. Mas ela ajuda a explicar por que a costura entre esta cena e a anterior range em vários pontos, como se verá no versículo 31.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ló subiu de Zoar"

Convém começar pela ironia, porque ela é do próprio texto e é grande demais para ser tratada de passagem.

No versículo 17, a ordem foi explícita: escapa para o monte, para que não pereças. Era o destino determinado, e era inegociável na boca de quem falava.

No versículo 19, Ló respondeu que não podia. Não que não quisesse — que não conseguiria. E deu o motivo: o mal o alcançaria pelo caminho e ele morreria.

No versículo 20, apresentou a alternativa: existe uma cidade pequena ali perto, deixe-me escapar para lá, e a minha alma viverá. No versículo 21, o pedido foi concedido. No versículo 22, o narrador registrou que a cidade passou a se chamar Zoar, "pequena", por causa desse pedido.

Onze versículos depois, Ló sai de Zoar por vontade própria e sobe ao monte.

O monte é o mesmo. A palavra hebraica é a mesma, com o mesmo artigo definido: ha-har, o monte. Não é outro lugar nem outro termo.

Vale medir o tamanho disso antes de seguir. O lugar que ele alegou não conseguir alcançar é aquele para onde vai sozinho, sem que ninguém mande, poucos versículos adiante. E a cidade que implorou para receber é aquela de onde ele foge com medo.

O narrador não diz uma palavra sobre a inversão. Não escreve que Ló se contradisse, não o censura, não o justifica. Põe os dois fatos no mesmo capítulo, a onze versículos de distância, e segue adiante.

Esse é um traço característico da prosa do Gênesis, e é bom nomeá-lo: o relato mostra em vez de julgar. A avaliação fica por conta de quem lê, e o texto não entrega a resposta.

O que se pode afirmar com segurança é o seguinte. A alegação de incapacidade do versículo 19 não se sustentou como descrição permanente das forças de Ló: ele alcançou o monte. Se era falsa quando foi feita, ou se era verdadeira naquele momento e deixou de ser depois — porque o pânico passou, porque a pressa acabou, porque não havia mais catástrofe correndo atrás —, o texto não permite decidir.

A segunda alternativa é perfeitamente razoável. Fugir a pé com uma catástrofe em curso e caminhar tranquilamente semanas depois são coisas diferentes, e a capacidade de um corpo assustado não é a mesma de um corpo em paz.

Mas a primeira alternativa também tem base, e ela não deve ser varrida para debaixo do tapete: o versículo 22 informa que a destruição ficou suspensa até Ló chegar a Zoar. O pedido dele atrasou o juízo. E o lugar que custou esse atraso foi abandonado logo em seguida.

Registro os dois lados. O relato não escolhe, e forçar uma escolha seria acrescentar ao texto o que ele não diz.

Quanto ao verbo, "subir" é alah, o verbo comum do movimento para cima, e aqui ele é literal. Zoar ficava na depressão do mar Morto; o monte é o planalto que se ergue mais de mil metros acima. A subida é geográfica antes de ser qualquer outra coisa.

"e habitou no monte, e as suas duas filhas com ele"

O verbo é yashav, e a escolha merece atenção, porque não é o verbo que se esperaria.

Yashav significa sentar-se, assentar-se, morar, estabelecer residência. É o verbo da permanência. Não é malat, escapar, que foi o verbo usado três vezes na ordem e no pedido dos versículos 17 a 22.

Ló não escapa para o monte: ele se instala no monte. A diferença é de natureza, não de intensidade. Quem escapa está de passagem; quem se assenta ficou.

Convém notar ainda que o mesmo verbo aparece duas vezes neste único versículo, e uma terceira vez na forma do infinitivo, dentro da explicação do medo. Três ocorrências de "habitar" em uma linha: habitou no monte, teve medo de habitar em Zoar, habitou na caverna. O relato está falando de onde esse homem vai morar, e o repete até que o leitor não possa deixar de perceber.

Sobre as duas filhas: a expressão "as suas duas filhas" já apareceu neste capítulo, e sempre em momentos difíceis. No versículo 8, quando Ló as ofereceu à multidão que cercava a casa. No versículo 15, quando os mensageiros mandaram que ele tomasse a mulher e as duas filhas que ali estavam. No versículo 16, quando as mãos foram seguradas.

Agora elas sobem com ele, e a fórmula reaparece — duas vezes no mesmo versículo, no começo e no fim.

Vale reparar em quem não está mais na lista. A mulher ficou no caminho, no versículo 26. Os homens que iam casar com as filhas ficaram na cidade, no versículo 14, porque acharam que Ló brincava. Não há servos, não há rebanho, não há bens mencionados — e Ló era, no capítulo 13, homem de rebanhos numerosos a ponto de a terra não sustentar os dele e os de Abraão juntos.

O que sobe ao monte é o resto de uma casa. Três pessoas.

"porque teve medo de permanecer em Zoar"

Esta é a única explicação que o versículo oferece, e ela é curta demais para o peso que carrega.

Comece-se pelo dado gramatical, que é interessante: é a primeira vez no capítulo que o narrador atribui medo a Ló. Nos versículos anteriores, quem falava de perigo e de morte era o próprio Ló, na súplica do versículo 19. Aqui a informação vem de fora, na voz que conta a história, e é apresentada como fato: ele temeu.

O verbo é yare, o verbo comum do temor, o mesmo que a Bíblia usa tanto para o medo diante do perigo quanto para a reverência diante de Deus. O contexto aqui é claramente o primeiro sentido.

E então vem o silêncio: o texto não diz do que ele teve medo.

Isso precisa ser dito com todas as letras, porque a maioria dos comentários preenche a lacuna sem avisar que está preenchendo. O versículo informa que houve medo e informa o objeto imediato — permanecer em Zoar. A causa fica em branco.

As explicações propostas ao longo dos séculos são basicamente três, e vale expor as três com o que cada uma tem de força e de fraqueza.

A primeira é a de Nahmânides, já mencionada: Zoar estava entre as cidades condenadas e só foi poupada por causa de Ló, conforme o versículo 21; retirado o motivo da isenção, a cidade voltaria a ficar sujeita à sentença, e Ló não quis estar dentro dela quando isso acontecesse. A favor: o versículo 21 realmente vincula a poupança ao pedido dele. Contra: o texto não diz que a isenção era temporária nem condicionada à presença dele, e Zoar de fato continuou existindo por séculos, como mostram Isaías 15:5 e Jeremias 48:34. É leitura, não é o que está escrito.

A segunda é a mais simples: Ló teve medo dos habitantes de Zoar. Chega ali um estrangeiro, e no mesmo dia todas as cidades vizinhas viram fumaça e desapareceram. Não é difícil imaginar como um recém-chegado nessas condições seria olhado — e o versículo 9 já mostrou como Sodoma tratava o forasteiro que se metia a opinar. A favor: é humanamente plausível e não exige nada além do que a narrativa fornece. Contra: o texto não menciona nenhum habitante de Zoar, nem antes nem depois. É reconstrução.

A terceira é psicológica: depois do que viu, Ló não conseguiu mais morar em cidade nenhuma. A cidade, para ele, passou a ser o lugar que queima. A favor: a trajetória do personagem, da tenda ao portão e do portão à caverna, encaixa bem. Contra: é exatamente o tipo de leitura moderna que o Gênesis não costuma autorizar, porque a narrativa hebraica quase nunca descreve estados interiores.

Nenhuma das três pode ser demonstrada. O que o versículo afirma é apenas que houve medo, e que o medo foi suficiente para desfazer o único pedido que Ló fez no capítulo inteiro.

Vale reter esse ponto, porque ele é do texto e não depende de escolha entre as três explicações: o medo é o motor de Ló do começo ao fim. Foi o medo que o fez hesitar no versículo 16, foi o medo do caminho que o fez pedir Zoar no versículo 19, e é o medo que agora o tira de Zoar. O personagem se move sempre empurrado, nunca puxado.

"e habitou numa caverna, ele e as suas duas filhas"

Aqui há um detalhe do hebraico que as traduções em português quase sempre apagam, e ele importa.

O original não diz "uma caverna". Diz ba-mearah — com artigo definido: a caverna.

Em hebraico, o artigo definido nesse tipo de construção costuma indicar que o objeto é conhecido, identificável, já situado no horizonte de quem ouve. Não é qualquer gruta da encosta: é aquela.

Gunkel viu nisso o sinal de uma tradição local antiga — uma caverna determinada, que se podia apontar na região, e à qual a história estava colada. Narrativas ligadas a lugares visíveis funcionam assim: existem porque existe o lugar, e o lugar as sustenta.

Convém ser honesto sobre o alcance do argumento. O hebraico usa o artigo definido com mais liberdade do que o português, e há casos em que ele aparece sem que se identifique nada de específico. A observação de Gunkel é plausível e bem fundamentada, mas não é prova, e não se deve apresentá-la como se fosse.

Há ainda um contraste que vale registrar, sem forçar conclusão. A palavra mearah, caverna, aparece poucas vezes no Gênesis, e a outra ocorrência importante está no capítulo 23: a caverna de Macpela, que Abraão compra dos hititas por preço integral, na frente de testemunhas, para sepultar Sara.

Os dois episódios estão a quatro capítulos de distância. Um homem compra uma caverna, formalmente, para enterrar a mulher e garantir um pedaço de terra à descendência. O outro ocupa uma caverna, sem nada, depois de perder a mulher no caminho.

Não afirmo que o autor construiu esse paralelo de propósito. Não é possível demonstrar. Mas os dois quadros existem no mesmo livro e produzem o efeito de comparação em quem lê seguido, e essa é uma observação legítima sobre o texto tal como ele está.

Por fim, a repetição do fecho: "ele e as suas duas filhas". A mesma fórmula do início do versículo, agora com o pronome dele na frente.

O versículo abre e fecha com a mesma companhia, e é a única companhia que resta. Esse tipo de moldura — a frase que retorna no fim — é recurso comum da prosa hebraica para delimitar uma unidade e para insistir num dado.

E o dado é este: agora são três, sozinhos, num lugar fechado. Tudo o que o próximo versículo vai dizer depende inteiramente dessa aritmética.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

— deixa Zoar por vontade própria e se instala no monte que declarara não poder alcançar. É a última vez que age por iniciativa própria na narrativa; a partir do versículo 31, tudo o que acontece é decidido por outras pessoas.

As duas filhas — mencionadas duas vezes no mesmo versículo, na abertura e no fecho. São as mesmas do versículo 8, oferecidas à multidão, e as mesmas do versículo 15, que os mensageiros mandaram tirar da cidade. Continuam sem nome, como o serão até o fim do capítulo.

Zoar — a cidade pequena que Ló pediu nos versículos 20 a 22 e cujo nome vem desse pedido. Poupada da destruição por causa dele, é abandonada por ele. Continuará existindo por séculos, e reaparecerá em Isaías 15:5 e Jeremias 48:34 como referência geográfica em oráculos sobre Moabe.

O monteha-har, com artigo, o mesmo destino ordenado no versículo 17 e recusado no versículo 19. Provavelmente o planalto a leste ou sudeste do mar Morto, mais de mil metros acima da depressão.

A caverna — em hebraico com artigo definido, "a caverna", o que sugere um lugar conhecido. Abrigo comum na região, e o cenário de tudo o que vem a seguir.

O medo — o único motivo que o versículo apresenta, e apresentado sem objeto. O narrador informa que houve, e não informa de quê.

Os ausentes — a mulher de Ló, deixada no versículo 26; os pretendentes das filhas, deixados no versículo 14; os rebanhos e servos do capítulo 13, que a narrativa simplesmente não menciona mais.

5. Pontos de Ensino

Ló vai por conta própria ao lugar que dissera não alcançar. Ninguém ordena a subida. O monte é o mesmo do versículo 17, com a mesma palavra e o mesmo artigo.

E abandona a cidade que implorou para receber. Zoar existe porque ele pediu, e a destruição chegou a ficar suspensa até ele chegar lá.

O narrador não comenta nem um lado nem outro. Escreve os dois fatos a onze versículos de distância e segue.

Não é possível decidir se a alegação do versículo 19 era falsa. Pode ter sido verdadeira sob pânico e deixado de ser depois. O relato não informa.

O verbo é "habitar", não "escapar". Ló não passa pelo monte: assenta-se nele. E o mesmo verbo aparece três vezes na linha.

O medo é declarado sem objeto. Nahmânides propôs que Zoar perderia a isenção; outros apontam receio dos moradores ou trauma da cidade. Nenhuma explicação é demonstrável.

O medo move Ló do começo ao fim. Faz hesitar no versículo 16, faz pedir Zoar no 19 e faz abandonar Zoar no 30.

"A caverna" está no hebraico com artigo definido. Sinal possível de um lugar conhecido, ligado a uma tradição local — plausível, não demonstrado.

Restaram três pessoas. Sem mulher, sem genros, sem rebanho, sem cidade. A conta importa para tudo o que vem depois.

Nenhum nome divino aparece do versículo 30 ao 38. É um dado observável, e é escolha de composição.

6. Aspectos Filosóficos

Um homem que se contradiz sem que ninguém o acuse

A primeira coisa a encarar neste versículo é a inversão, e ela é grande.

A ordem recebida mandava buscar as alturas. O personagem alegou incapacidade e negociou um refúgio urbano em substituição, obtendo-o inclusive com uma pausa no juízo até que chegasse lá. Passadas onze linhas, ele deixa o refúgio negociado e cumpre, espontaneamente, o que dissera não ter forças para cumprir.

Quem conta a história não faz observação alguma. Não há reprovação, não há elogio, não há esclarecimento. Há apenas dois registros que se chocam, dispostos lado a lado.

Esse procedimento tem consequências para o modo como se deve ler o Gênesis. A narrativa hebraica raramente carimba os personagens; ela dispõe os atos e deixa o leitor com o trabalho de avaliar. Quando um comentário chega e resolve o impasse rapidamente — dizendo que Ló mentiu, ou que Ló amadureceu —, está acrescentando um veredito que a fonte recusou dar.

Duas explicações permanecem abertas, e ambas são defensáveis. A capacidade de um corpo em pânico não é a capacidade do mesmo corpo semanas depois, e caminhar sem catástrofe atrás é outra coisa. Por outro lado, a alegação custou caro à narrativa e foi desfeita cedo demais para não incomodar. O material não permite arbitrar, e a honestidade consiste em dizer isso.

Sair de um lugar não é o mesmo que chegar a outro

Convém observar por que a mudança acontece, porque a razão declarada é negativa.

O relato não afirma que Ló desejou a montanha, nem que reconheceu o acerto da ordem original, nem que se arrependeu do requerimento. Afirma que ele receou continuar onde estava.

Toda a movimentação da personagem obedece a essa lógica ao longo do capítulo. Ele demora a sair de Sodoma e precisa ser puxado; requer a cidade próxima porque teme o percurso; abandona a cidade próxima porque teme ficar. Nunca se lê que ele buscou alguma coisa — lê-se, repetidas vezes, que ele fugiu de alguma coisa.

A distinção entre os dois modos de agir é considerável. Quem escolhe um destino avalia o destino; quem apenas se afasta do que assusta avalia somente o que deixou para trás, e pode terminar em qualquer lugar. O desfecho deste capítulo depende, em grande medida, de onde esse tipo de deslocamento acabou depositando as três pessoas.

A lacuna deixada aberta de propósito

O motivo do receio não é informado, e essa ausência é o convite mais eficiente do versículo.

Preencher lacunas é o que fazem, há dois milênios, os comentadores. O rabino catalão do século XIII sugeriu que a poupança de Zoar dependia da presença do hóspede e cessaria com a saída dele. Outros supuseram hostilidade dos moradores diante do estrangeiro cuja chegada coincidiu com o desaparecimento das cidades vizinhas. Outros ainda pensaram em impossibilidade interior de voltar a morar entre muros depois do que fora visto.

As três reconstruções são engenhosas e nenhuma delas é verificável. Convém enunciá-las como o que são — tentativas de completar o que ficou incompleto — e resistir ao hábito de repetir a preferida como se fosse leitura direta.

O que o relato diz é uma frase de quatro palavras em hebraico: houve temor de permanecer ali. O resto foi acrescentado depois, por gente que também não sabia.

A palavra que marca o abrigo

O detalhe gramatical do fecho costuma sumir na tradução, e vale trazê-lo de volta.

O original marca o esconderijo com artigo determinado — aquela cavidade, não uma cavidade qualquer. Em narrativas de origem popular, esse tipo de precisão aponta para um ponto do terreno que os ouvintes conheciam e que, provavelmente, alguém já lhes havia mostrado.

O estudioso alemão que no início do século XX tratou o Gênesis como coleção de tradições orais fez exatamente essa observação, e ela ajuda a entender por que a última cena do capítulo parece encaixada com força no que vem antes.

Prudência, porém: o hebraico emprega o determinante com mais largueza do que o português, e há empregos sem valor identificador. A hipótese é boa; prova não é.

O desaparecimento da voz divina

Resta o fato de composição mais eloquente da unidade, e ele se verifica por simples contagem.

Até aqui, o capítulo esteve saturado de intervenção sobrenatural: enviados que chegam, avisam, cegam, arrastam pela mão e destroem; e um versículo de fecho que explica o resgate pela lembrança de Abraão.

Da linha seguinte até o fim do capítulo, nenhuma designação divina reaparece. Não há mensagem, não há proibição, não há sentença pronunciada sobre o que vai ser feito na caverna.

O que se faz com essa constatação já depende de interpretação, e há mais de uma via. Pode-se entender que a narrativa deixa a avaliação inteiramente a cargo do leitor, que já conhece as leis posteriores. Pode-se entender que o episódio veio de outro ambiente de transmissão, no qual essas categorias não operavam. Pode-se entender que o silêncio é ele próprio uma forma de comentário.

Nenhuma dessas vias é demonstrável a partir do texto. Mas ignorar o silêncio seria pior do que discuti-lo, porque ele é o dado mais visível dos nove versículos que restam.

7. Aplicações Práticas

O que se diz não conseguir nem sempre é o que não se consegue

Ló afirmou, diante de quem lhe dava uma ordem, que não teria forças para chegar ao monte. Onze versículos depois chegou ao monte sozinho, sem que ninguém o mandasse.

O narrador não o acusa de mentira, e há explicações honestas: sob pânico, ninguém mede bem as próprias forças, e o que parece impossível durante a emergência costuma parecer simples depois dela.

Vale a pena guardar as duas pontas ao ouvir alguém — inclusive a si mesmo — declarar impossibilidade. A declaração pode ser sincera e ainda assim falsa; pode ser verdadeira naquele instante e não na semana seguinte. O erro não está em acreditar, está em tratar a avaliação feita no susto como se fosse medida definitiva de capacidade.

Fugir de um lugar não é escolher o próximo

A razão declarada da mudança é negativa: Ló temeu permanecer. Não há uma linha dizendo que ele quis o monte, que reconsiderou a ordem ou que preferiu as alturas.

É o padrão do personagem no capítulo inteiro. Ele hesita e é arrastado, pede a cidade pequena porque teme o caminho, abandona a cidade pequena porque teme ficar. Sempre empurrado, nunca puxado.

Quem se move apenas para longe do que assusta não escolhe destino — apenas se afasta. E a diferença aparece depois, quando o lugar onde se parou revela as próprias condições, que ninguém avaliou porque ninguém as escolheu. Vale examinar, em decisões grandes, se o que está no comando é a atração pelo que vem ou a pressa de sair do que ficou.

Trocar de lugar não desfaz o que foi vivido

Ló saiu da planície, subiu mais de mil metros e se instalou numa caverna. O cenário mudou por completo — de cidade a rocha, de vizinhos a solidão.

O medo, porém, subiu junto. Foi ele que motivou a viagem, e a narrativa não registra que tenha ficado para trás.

Mudanças de cenário resolvem problemas de cenário. O que uma pessoa carrega dentro atravessa a mudança sem esforço, e quem espera que a distância faça o trabalho costuma descobrir, do outro lado, que o trabalho continua inteiro. Não é argumento contra mudar; é argumento contra confiar apenas na mudança.

O motivo declarado às vezes é curto demais

Este versículo informa que houve medo e não informa de quê. Séculos de comentário tentaram completar a frase, e cada tentativa diz mais sobre quem a fez do que sobre Ló.

Nahmânides supôs uma isenção que cessaria; outros supuseram vizinhos hostis; outros, uma recusa interior da vida urbana. Nenhuma dessas leituras pode ser confirmada.

É bom exercício reparar em como preenchemos lacunas alheias com a nossa própria experiência, e em como esse preenchimento se disfarça de leitura. Quando alguém diz apenas "tive medo", "não deu certo", "preferi sair", a explicação que aparece na nossa cabeça foi construída por nós — e vale marcá-la como nossa antes de sair repetindo-a como se fosse informação recebida.

Quem sobrou é quem vai decidir o que vem

O versículo abre e fecha com a mesma companhia: ele e as duas filhas. Não há mulher, não há genros, não há servos nem rebanhos, embora o capítulo 13 tenha descrito Ló como homem de posses consideráveis.

Três pessoas, um abrigo fechado, nenhum vizinho. Tudo o que os versículos seguintes narram depende dessa aritmética, e o narrador a apresenta duas vezes na mesma linha para que ninguém a perca.

Vale reparar em como o círculo de convivência define o que passa a parecer razoável. Numa sala com três pessoas isoladas, ideias que não sobreviveriam a uma conversa mais ampla se tornam a única conversa disponível. Não é acaso que decisões extremas costumem nascer em grupos pequenos e fechados, e não é sentimentalismo dizer que a companhia é parte do que se pensa.

O que se pede não é necessariamente o que se quer

Ló obteve exatamente o que requereu. A cidade foi poupada por causa dele, ganhou nome por causa do pedido dele, e a destruição foi contida até que ele entrasse ali.

Onze versículos depois, ele não estava mais lá.

Isso não faz do pedido um erro nem transforma o pedinte num ingrato — a situação era de emergência e a decisão foi tomada sob fogo. Mas o desenho é reconhecível, e é comum: pede-se com urgência, obtém-se, e o objeto obtido revela-se não ser o que resolvia. É bom motivo para pensar em como distinguir, quando houver tempo, entre o que aliviaria o susto e o que sustentaria a vida depois.

Silêncio não é aprovação

A partir deste versículo, nenhum nome divino aparece até o fim do capítulo. Não há ordem, não há advertência, não há sentença sobre o que se passa na caverna.

Esse silêncio já foi lido de muitas maneiras, e nenhuma delas se impõe. O que não se pode fazer é confundir a ausência de condenação explícita com concordância.

O mesmo vale para a leitura de muitos episódios difíceis do Antigo Testamento. O relato descreve, e descrever não é aprovar. Quem trata cada ato narrado como recomendação faz a Bíblia dizer coisas que ela não disse — e, o que é pior, deixa de perceber que o silêncio, aqui, é justamente o que obriga o leitor a pensar por conta própria.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Ló mentiu no versículo 19, quando disse que não conseguiria chegar ao monte?

Não é possível decidir. O fato observável é que ele alegou incapacidade e, onze versículos depois, subiu ao mesmo monte por vontade própria. Isso admite pelo menos duas explicações honestas: a alegação pode ter sido falsa desde o início, ou pode ter sido verdadeira sob pânico e ter deixado de valer quando a emergência passou. O narrador não escolhe, e não fornece elementos para escolher.

É o mesmo monte?

Sim. O hebraico usa a mesma palavra, ha-har, com o mesmo artigo definido, nos versículos 17, 19 e 30. Não há indicação de que se trate de outro lugar.

Por que Ló saiu de Zoar, se ele mesmo pediu aquela cidade?

O texto dá apenas um motivo, e sem objeto: teve medo de permanecer ali. Nahmânides propôs que Zoar fora poupada por causa de Ló e que a saída dele suspenderia a isenção — leitura coerente com o versículo 21, mas que o texto não afirma. Outros supõem receio dos moradores, ou recusa de voltar a viver em cidade. Nenhuma dessas explicações é demonstrável.

Zoar foi destruída depois?

Não, segundo o restante da Bíblia. Isaías 15:5 e Jeremias 48:34 mencionam Zoar séculos mais tarde como ponto de referência conhecido em oráculos sobre Moabe. Esse dado enfraquece a suposição de que a cidade só sobreviveria enquanto Ló estivesse dentro dela.

Por que o texto diz "a caverna" e não "uma caverna"?

Porque o hebraico traz o artigo definido, ba-mearah. Em narrativas de origem popular, isso costuma indicar um lugar conhecido de quem ouvia — uma caverna determinada, mostrável na região. Gunkel leu assim, e a leitura é plausível. Convém lembrar, porém, que o hebraico usa o artigo com mais liberdade que o português, de modo que a observação é boa hipótese e não prova.

Que fim levaram os bens de Ló?

O relato não diz. Em Gênesis 13 ele aparece com rebanhos e tendas em quantidade suficiente para gerar conflito com os pastores de Abraão. A partir daqui, nada disso é mencionado — nem para dizer que se perdeu. O silêncio é completo.

O que significa o verbo "habitar" aparecer três vezes no mesmo versículo?

Yashav é o verbo da permanência: assentar-se, morar, estabelecer residência. Ele contrasta com malat, escapar, que dominou os versículos 17 a 22. O relato deixa de falar em fuga e passa a falar em moradia, e insiste no ponto três vezes numa linha só.

É verdade que Deus não é mencionado no restante do capítulo?

É verdade, e qualquer leitor pode conferir. Do versículo 30 ao 38 não aparecem nem YHWH nem Elohim. Nos vinte e nove versículos anteriores, a presença divina é constante. O que esse contraste significa é discutido: há quem veja aí a marca de outra tradição, quem veja um recurso deliberado que devolve o julgamento ao leitor e quem veja o silêncio como forma de reprovação. Nenhuma dessas leituras se impõe sobre as outras.

Este versículo pertence mesmo à mesma história de Sodoma?

É discutido. Gunkel notou indícios de que a cena final circulou separada — o artigo definido da caverna, a mudança abrupta de cenário e, sobretudo, a incoerência que aparecerá no versículo 31. São indícios, não demonstração; o texto que temos apresenta os episódios em sequência contínua.

Ló aparece agindo depois deste versículo?

Praticamente não. A partir do versículo 31 quem fala e decide são as filhas; Ló bebe, dorme e não percebe. Este versículo registra a última iniciativa dele em toda a Bíblia — e é uma iniciativa que desfaz o que ele mesmo havia pedido.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 19:17E foi que quando os tirou fora, disse: Escapa por tua vida; não olhes atrás de ti, nem pares toda esta planície; escapa ao monte, não seja que pereças.

A ordem original. O destino é o mesmo deste versículo, com a mesma palavra.

Gênesis 19:20Eis que agora esta cidade está próxima para fugir ali, a qual é pequena; escaparei agora ali, (não é ela pequena?) e viverá minha alma.

O pedido que criou Zoar como refúgio — abandonado dez versículos depois.

Gênesis 19:22Apressa-te, escapa-te ali; porque nada poderei fazer até que ali tenhas chegado. Por isto foi chamado o nome da cidade, Zoar.

A destruição ficou suspensa até Ló entrar na cidade que ele depois deixaria.

Gênesis 13:10E levantou Ló seus olhos, e viu toda a planície do Jordão, que toda ela era bem regada, antes que destruísse o SENHOR a Sodoma e a Gomorra, como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito entrando em Zoar.

A escolha inicial. Zoar já aparece ali, como marco do limite da planície.

Gênesis 14:10E o vale de Sidim estava cheio de poços de betume: e fugiram o rei de Sodoma e o de Gomorra, e caíram ali; e os demais fugiram ao monte.

Antes de Ló, outros já haviam fugido para o monte na mesma região.

Gênesis 19:26Então a mulher de Ló olhou atrás, às costas dele, e se tornou estátua de sal.

A ausência que explica por que sobem apenas três.

Gênesis 19:14Então saiu Ló, e falou a seus genros, os que haviam de se casar com suas filhas, e lhes disse: Levantai-vos, saí deste lugar; porque o SENHOR vai destruir esta cidade. Mas pareceu a seus genros como que se ridicularizava.

Os pretendentes ficaram na cidade. É por isso que não há homens no monte.

Gênesis 23:9Para que me dê a caverna de Macpela, que tem na extremidade de sua propriedade: que por seu justo preço a dê a mim, para possessão de sepultura em meio de vós.

A outra caverna do Gênesis: comprada por preço integral, com testemunhas, para a descendência.

Isaías 15:5Meu coração dá gritos por Moabe, seus fugitivos foram até Zoar e Eglate-Selisia; pois sobem com choro pela subida de Luíte, pois no caminho de Horonaim levantam um grito de desespero.

Séculos depois, Zoar continua de pé — e num oráculo sobre Moabe.

Jeremias 48:34Houve um grito desde Hesbom até Eleale e até Jaaz; deram sua voz desde Zoar até Horonaim e Eglate-Selísia; pois também as águas de Ninrim serão assoladas.

Outra confirmação da sobrevivência da cidade poupada a pedido de Ló.

Juízes 6:2E a mão de Midiã prevaleceu contra Israel. E os filhos de Israel, por causa dos midianitas, se fizeram covas nos montes, e cavernas, e lugares fortes.

Caverna como abrigo de quem tem medo: o uso é corrente na Bíblia.

1 Samuel 22:1E indo-se Davi dali escapou-se à cova de Adulão; o qual quando ouviram seus irmãos e toda a casa de seu pai, vieram ali a ele.

O mesmo tipo de refúgio, na boca de outra história de fuga.

1 Reis 19:9E ali se meteu em uma cova, de onde teve a noite. E foi a ele palavra do SENHOR, o qual lhe disse: Que fazes aqui, Elias?

Ali, dentro da caverna, uma voz pergunta o que o homem está fazendo. Aqui, nenhuma voz pergunta nada.

2 Pedro 2:7E livrou ao justo Ló, que estava cansado do corrupto modo de viver dos maus.

A leitura que o Novo Testamento faz do personagem, e que o Gênesis não formula em nenhum lugar.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Ló subiu de Zoar e habitou no monte, e as suas duas filhas com ele, porque teve medo de permanecer em Zoar; e habitou numa caverna, ele e as suas duas filhas.

Texto hebraico

וַיַּעַל לוֹט מִצּוֹעַר וַיֵּשֶׁב בָּהָר וּשְׁתֵּי בְנֹתָיו עִמּוֹ כִּי יָרֵא לָשֶׁבֶת בְּצוֹעַר וַיֵּשֶׁב בַּמְּעָרָה הוּא וּשְׁתֵּי בְנֹתָיו

Transliteração

wayyaal Lot mi-Tsoar wayyeshev ba-har u-shtei venotav immo ki yare la-shevet be-Tsoar wayyeshev ba-mearah hu u-shtei venotav

Palavra por palavra

וַיַּעַל (wayyaal) — "e subiu"

Do verbo alah, subir, ascender, elevar-se. É o verbo comum do movimento para cima.

Aqui o sentido é literal e geográfico: Zoar ficava na depressão do mar Morto, e o planalto a leste está mais de mil metros acima. A subida é física.

Vale notar que alah é o verbo que a Bíblia usará depois para "subir" a Jerusalém e para o sacrifício que "sobe" no altar — o holocausto se chama olah, "aquilo que sobe", da mesma raiz. Não há nada disso neste versículo, e registro apenas para que a palavra não seja confundida com um termo neutro de deslocamento.

מִצּוֹעַר (mi-Tsoar) — "de Zoar"

A preposição min, "de, a partir de", prefixada ao nome da cidade.

O nome Tsoar vem da raiz tsaar, ser pequeno, insignificante. O versículo 20 explica: Ló pediu a cidade dizendo duas vezes que ela era pequena, e o versículo 22 registra que o nome ficou por causa disso.

Ou seja: a cidade se chama "Pequena" por causa do argumento com que Ló a pediu. E a primeira coisa que o versículo 30 registra é que ele saiu dela.

וַיֵּשֶׁב (wayyeshev) — "e habitou"

Do verbo yashav: sentar-se, assentar-se, morar, permanecer. É o verbo da residência estabelecida.

Não é malat, escapar, que apareceu três vezes entre os versículos 17 e 22, nem nus, fugir. O vocabulário mudou: deixou-se de falar em fuga e passou-se a falar em morada.

O verbo ocorre três vezes neste versículo — duas na forma narrativa e uma no infinitivo, dentro da explicação do medo. Numa linha só, o texto diz três vezes onde esse homem vai morar.

בָּהָר (ba-har) — "no monte"

Preposição be mais o artigo definido mais har, monte, montanha, região montanhosa.

É exatamente a mesma forma do versículo 19, na frase em que Ló disse não poder fugir para lá, e corresponde ao ha-harah do versículo 17, com o sufixo de direção.

A identidade é do hebraico, não da tradução. O lugar recusado e o lugar escolhido são um só.

וּשְׁתֵּי בְנֹתָיו (u-shtei venotav) — "e as suas duas filhas"

Shtei é a forma construta de "duas"; banot é o plural de bat, filha, com o sufixo possessivo de terceira pessoa.

A fórmula aparece duas vezes neste versículo, na abertura e no fecho, formando uma moldura.

É a mesma expressão do versículo 8, quando Ló ofereceu as filhas à multidão, e do versículo 15, quando os mensageiros mandaram que as tirasse da cidade. Elas não têm nome em nenhuma ocorrência.

כִּי יָרֵא (ki yare) — "porque teve medo"

Ki é a conjunção causal, "porque". Yare é o verbo do temor.

Este verbo cobre, em hebraico, tanto o medo diante do perigo quanto a reverência diante de Deus — a expressão "temer ao SENHOR" usa a mesma raiz. Aqui o contexto indica o primeiro sentido.

O importante é que a frase não tem complemento de causa. Diz-se do que ele teve medo — permanecer em Zoar — mas não se diz por quê.

לָשֶׁבֶת (la-shevet) — "de habitar"

Infinitivo construto de yashav com a preposição le.

É a segunda das três ocorrências do verbo. Note-se a construção: ele teme morar em Zoar, não teme a destruição de Zoar. O objeto do medo, gramaticalmente, é a permanência.

בַּמְּעָרָה (ba-mearah) — "na caverna"

Mearah, caverna, gruta, cavidade natural. A preposição be vem contraída com o artigo definido: ba, "na", e não be, "em uma".

Esse é o ponto mais discutido do versículo no plano da língua. O texto diz "a caverna", como quem se refere a algo já conhecido.

A outra ocorrência marcante da palavra no Gênesis é a caverna de Macpela, no capítulo 23, comprada por Abraão para sepultar Sara.

הוּא (hu) — "ele"

Pronome independente de terceira pessoa masculino singular, acrescentado por ênfase antes de repetir a companhia.

A construção "ele e as suas duas filhas" é enfática: separa o sujeito e recoloca, ao lado dele, exatamente quem sobrou.

Nota — o artigo definido de "a caverna"

Vale desenvolver o ponto, porque ele sustenta uma discussão real entre estudiosos.

Hermann Gunkel, no comentário ao Gênesis do início do século XX, apontou o artigo como indício de tradição local: a caverna determinada, conhecida de quem contava e de quem ouvia, provavelmente mostrável na região. Histórias assim nascem coladas a um ponto do terreno, e o ponto do terreno é o que as mantém vivas.

A observação é plausível e tem paralelos: várias narrativas do Gênesis terminam explicando um nome de lugar ou uma marca geográfica, e o próprio capítulo faz isso com Zoar no versículo 22.

O contrapeso é linguístico. O hebraico usa o artigo definido em situações em que o português usaria o indefinido, inclusive para objetos únicos na cena ou determinados pela função. Portanto o argumento é bom, mas não é conclusivo, e apresentá-lo como demonstração seria exagerar.

Nota — o desaparecimento do nome divino

Convém fechar com o dado de composição mais visível da unidade, que se apura por contagem simples.

Entre os versículos 1 e 29, o capítulo nomeia Deus repetidamente: YHWH na maior parte das ocorrências e Elohim duas vezes no versículo 29.

Do versículo 30 ao 38 não há nenhuma ocorrência de nenhum dos dois. Nove versículos sem menção divina, num capítulo em que a intervenção divina era o assunto.

Não se deve extrair disso uma tese apressada. O silêncio admite mais de uma explicação, e as principais são: que a cena provém de outro ambiente de transmissão; que o narrador retirou deliberadamente a voz divina para que o leitor julgasse com as leis que já conhece; ou que a ausência funciona ela mesma como avaliação, sem precisar de palavra.

Nenhuma dessas leituras pode ser provada pelo texto. O que se pode afirmar é o fato: a partir daqui, a história corre sozinha.

11. Conclusão

Poucos versículos do Gênesis desfazem tão rapidamente o que a própria narrativa acabara de construir. A ordem recebida na saída da cidade indicava as alturas; o fugitivo declarou-se incapaz de alcançá-las e obteve, em substituição, um povoado próximo, cuja poupança lhe foi concedida e cujo nome passou a lembrar o argumento com que ele o requereu — a pequenez. A destruição chegou a ficar retida até que ele entrasse ali. Onze linhas adiante, ele deixa esse povoado e alcança, por deliberação própria e sem que ninguém lho ordene, precisamente as alturas que dissera não poder atingir. O hebraico não deixa margem: a palavra e o artigo são idênticos nos dois lugares. Quem conta a história registra as duas coisas e não emite juízo sobre nenhuma, e essa recusa de comentar é procedimento constante da prosa do livro.

A explicação oferecida cabe em quatro palavras do original e é toda negativa: houve receio de continuar ali. Não se lê que a montanha tenha passado a ser desejada, nem que a ordem primitiva tenha sido reconhecida como acertada, nem que o requerimento anterior tenha sido lamentado. Lê-se apenas que ficar deixou de ser suportável. O mesmo mecanismo governa o personagem desde o início do capítulo: demora e é arrastado pela mão, requer o povoado por temer o percurso, abandona o povoado por temer a permanência. Nunca o vemos escolher; sempre o vemos afastar-se.

Do que exatamente ele se afasta, o relato não informa, e essa lacuna alimentou séculos de suplência. Um comentador catalão do século XIII supôs que a isenção concedida ao povoado dependia da presença do hóspede e cessaria com a partida dele; outros imaginaram a hostilidade de moradores que viram um forasteiro chegar no dia em que as cidades vizinhas desapareceram; outros ainda supuseram a impossibilidade interior de tornar a viver entre muros. As três reconstruções são coerentes e nenhuma é verificável, de modo que o correto é enunciá-las como tentativas de completar o incompleto, e não repetir a preferida como se fosse informação recebida.

Dois traços de língua fecham a unidade. O primeiro é o verbo de assentar-se, que comparece três vezes numa só linha e substitui integralmente o vocabulário da fuga que dominara os versículos anteriores: já não se trata de escapar, trata-se de morar. O segundo é o determinante que marca o abrigo — não uma cavidade qualquer, mas aquela, indício de um ponto do terreno familiar a quem transmitia a história, conforme observou o estudioso alemão que tratou o Gênesis como coleção de tradições populares; hipótese respeitável, e não demonstração, porque o hebraico emprega o determinante com largueza. Sobrepõe-se a tudo isso o dado de composição mais eloquente: a partir daqui e até o fim do capítulo, nenhuma designação da divindade reaparece. Restam três pessoas, uma rocha aberta na encosta e nenhuma voz. A moldura do versículo repete duas vezes quem são elas, e toda a cena seguinte depende dessa conta.

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