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Gênesis 19:31

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 41 min de leitura·👁 9 acessos
Então a mais velha disse à mais nova: “Nosso pai está velho, e não há homem na terra que se una a nós, segundo o costume de toda a terra.
Duas jovens conversando em voz baixa dentro de uma caverna à luz de fogo, com um homem idoso adormecido ao fundo.

Estudo


Então a mais velha disse à mais nova: “Nosso pai está velho, e não há homem na terra que se una a nós, segundo o costume de toda a terra.

1. Introdução

A primeira frase dita dentro da caverna não é de Ló. É da filha mais velha, e ele não a ouve.

Ela apresenta dois fatos e uma conclusão implícita. O pai está velho. Não há homem na terra. Logo, alguma coisa precisa ser feita.

O problema está no segundo fato, porque ele é falso — ou pelo menos parece falso ao leitor que acabou de acompanhar a fuga. Zoar continua de pé, e elas saíram de lá no versículo anterior.

Como essa frase deve ser entendida é uma das discussões mais antigas do capítulo, e ela tem defensores de peso dos dois lados desde a Antiguidade.

Deste versículo até o fim do capítulo, quem fala e quem age são as filhas. Ló não diz mais uma palavra em toda a Bíblia.

2. Contexto Histórico e Cultural

Duas mulheres sem nome

Convém começar por um detalhe que atravessa toda a cena: as filhas de Ló nunca são nomeadas.

Aparecem cinco vezes no capítulo — nos versículos 8, 12, 15, 16 e 30 — sempre como "as suas duas filhas". A partir daqui, passam a ser distinguidas apenas pela ordem de nascimento: a mais velha e a mais nova.

Isso não é raro na narrativa bíblica, que nomeia com parcimônia e costuma identificar personagens pela função. Mas produz um efeito específico aqui, porque os filhos que nascerão delas serão nomeados, e os nomes virarão povos. As mães ficam sem nome; os filhos dão nome a nações inteiras.

Os termos hebraicos para as duas são ha-bekhirah e ha-tseirah: literalmente, a primogênita e a menor. O par reaparece em Gênesis 29:26, quando Labão explica a Jacó que ali não se dá a mais nova antes da mais velha — e também ali a ordem de nascimento decide o que acontece.

O que este relato explica

Este é o ponto que uma leitura honesta não pode contornar: a cena existe, na forma em que chegou até nós, para explicar de onde vieram dois povos vizinhos de Israel.

Os versículos 37 e 38 dirão sem rodeios: a mais velha teve um filho e o chamou Moabe, pai dos moabitas; a mais nova teve um filho e o chamou Ben-Ami, pai dos amonitas. Moabe e Amom eram os vizinhos do outro lado do mar Morto, na região exata onde a narrativa põe a caverna.

Narrativas que explicam a origem de um povo, de um nome ou de um acidente geográfico têm nome nos estudos bíblicos: chamam-se etiológicas. O Gênesis está cheio delas, e o próprio capítulo 19 traz outra no versículo 22, ao explicar o nome de Zoar.

E é preciso dizer o óbvio: esta etiologia não é elogiosa. Ela atribui aos dois povos vizinhos uma origem em ato incestuoso, cometido dentro de uma caverna, com o pai embriagado. Nenhum povo conta a própria origem assim.

Muitos estudiosos leem aí, portanto, uma tradição israelita sobre os vizinhos — do tipo que se conta sobre os outros, não sobre si. Isso não prova que o episódio seja invenção nem que não tenha base antiga; prova apenas que ele funciona, no lugar em que está, como explicação de uma origem alheia. Registrar isso é honestidade, não ceticismo.

A relação de Israel com Moabe e Amom

Vale reunir os dados, porque eles são contraditórios e a contradição é interessante.

De um lado, Deuteronômio 2:9 e 2:19 mandam expressamente que Israel não moleste Moabe nem Amom, porque aquelas terras foram dadas "aos filhos de Ló" como herança. O parentesco é reconhecido e protege.

De outro, Deuteronômio 23:3 exclui amonitas e moabitas da assembleia do SENHOR até a décima geração. Números 25 registra o episódio de Baal-Peor, com as filhas de Moabe. E os profetas voltam repetidamente contra os dois povos.

E há o terceiro dado, o mais desconcertante: Rute, a moabita, entra na genealogia de Davi. O livro de Rute termina exatamente nisso, e Mateus 1:5 repete a informação na abertura do Novo Testamento.

Ou seja: o povo cuja origem este capítulo conta desse modo é o mesmo de onde vem a bisavó do rei Davi. A Bíblia guarda os dois materiais sem os harmonizar, e não convém harmonizá-los à força.

A comparação com Noé, que a tradição judaica fez cedo

Os leitores antigos perceberam depressa que esta cena repete um roteiro que o Gênesis já contara.

Em Gênesis 6 a 9, uma catástrofe destrói o mundo. Sobrevive um homem justo com a família. Ele planta uma vinha, bebe do vinho, embriaga-se e fica descoberto na tenda. Segue-se um ato do filho — descrito com um verbo que o texto não explica — e o resultado é uma maldição sobre um povo vizinho, Canaã.

Aqui: uma catástrofe destrói as cidades. Sobrevive um homem com a família. Há vinho, embriaguez, um ato sexual envolvendo o pai inconsciente, e o resultado são dois povos vizinhos.

Os elementos se repetem quase na mesma ordem. Isso não é opinião moderna: o rabino Rashbam, no século XII, formulou a leitura desta cena precisamente nos termos do dilúvio, como se verá adiante.

Convém, ainda assim, marcar o limite. A semelhança de roteiro é observável; a conclusão de que um episódio foi construído a partir do outro é hipótese, e não se pode demonstrar qual seria anterior.

Quem falava assim no mundo antigo

Um último elemento de contexto, para que a fala da mais velha não seja lida com os olhos de hoje.

Numa sociedade em que a mulher não herdava e a linhagem se transmitia pelo varão, ficar sem descendência não era tristeza pessoal: era o fim da casa. A terra, o nome e a memória acabavam junto.

Por isso a Bíblia registra, sem escândalo, várias iniciativas de mulheres para conseguir filhos por caminhos irregulares: Sarai entrega a serva a Abrão em Gênesis 16:2; Raquel faz o mesmo em Gênesis 30:3; Tamar se disfarça e engravida do sogro em Gênesis 38, e o próprio Judá acaba dizendo que ela foi mais justa do que ele; Rute deita-se aos pés de Boaz na eira, em Rute 3.

Nenhum desses episódios é idêntico ao desta caverna, e é importante não achatá-los todos no mesmo plano — as diferenças, sobretudo quanto ao consentimento, são grandes e serão tratadas nos versículos seguintes. Mas o horizonte é o mesmo: garantir descendência era assunto de sobrevivência, e mulheres tomaram iniciativa nesse terreno em mais de uma história do Gênesis.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então a mais velha disse à mais nova"

Vale começar reparando em quem fala, porque a mudança de voz é abrupta.

Do versículo 1 ao 30, Ló é o sujeito quase permanente: recebe, insiste, oferece, avisa, hesita, suplica, sobe, habita. Fala nos versículos 2, 7, 8, 14, 18 a 20.

A partir daqui ele não diz mais nada. Nem neste capítulo, nem em nenhum outro lugar da Bíblia. A última palavra de Ló nas Escrituras foi o pedido do versículo 20, para que o deixassem ir à cidade pequena.

Quem fala agora é a filha mais velha, e ela fala com a irmã, não com o pai. A conversa acontece sem ele, e tudo o que virá depois será decidido nessa conversa.

O termo hebraico para a mais velha é ha-bekhirah, formado sobre bekhor, primogênito. É palavra rara: no Gênesis, o feminino só aparece aqui, nos versículos 33, 34 e 37, e no capítulo 29, quando Labão justifica a troca das filhas dizendo que não se dá a mais nova antes da mais velha.

Há um detalhe curioso na palavra usada para a irmã. "A mais nova" é ha-tseirah, da raiz que significa ser pequeno, insignificante. É a mesma raiz de Tsoar, o nome da cidade que Ló pediu no versículo 20 justamente porque era pequena.

Não construo tese sobre isso — é coincidência de raiz, e o hebraico é uma língua de raízes reaproveitadas. Registro porque o dado é verificável e porque, no espaço de dez versículos, a mesma raiz nomeia o refúgio que foi pedido e a filha que vai executar a segunda noite.

"Nosso pai está velho"

A frase é curta e o hebraico é ainda mais curto: duas palavras, avinu zaqen.

Convém tratar primeiro do que ela constata e depois do que ela ecoa.

Como constatação, é o primeiro dos dois fundamentos do argumento. O pai é velho, portanto o tempo é curto. Se houver descendência, terá de ser agora.

O adjetivo zaqen é o termo comum para idoso, e a raiz é a mesma de zaqan, barba. Em outros contextos designa o ancião no sentido de autoridade — os "anciãos" que decidem à porta da cidade são zeqenim.

E aqui vem o eco, que é notável e que os comentadores antigos já haviam percebido.

Treze versículos antes, no capítulo 18, o Gênesis escreveu que Abraão e Sara eram idosos, avançados em dias. E Sara, rindo por dentro, disse: depois que envelheci terei prazer, sendo também meu senhor já velho?

A expressão de Sara, em hebraico, é wa-adoni zaqen — "e o meu senhor é velho". A da filha de Ló é avinu zaqen — "o nosso pai é velho". A construção é a mesma, o adjetivo é o mesmo, e o assunto das duas frases é o mesmo: a possibilidade de haver descendência de um homem idoso.

A diferença está no que se segue. Na tenda de Abraão, a resposta veio de fora: há alguma coisa demasiado maravilhosa para o SENHOR? E o filho nasceu no tempo anunciado. Na caverna, não há promessa, não há visita, não há voz nenhuma — e as filhas resolvem o problema sozinhas.

Duas cenas de descendência ameaçada pela velhice, separadas por um capítulo. Numa, alguém promete. Na outra, ninguém aparece.

Convém não transformar isso em sistema. O texto não estabelece a comparação de modo explícito, e ela é observação de quem lê seguido. Mas o vocabulário é o mesmo, e a proximidade é de um capítulo.

"e não há homem na terra que se una a nós"

Esta é a frase discutida, e ela merece o tratamento mais longo do estudo.

O hebraico é we-ish ein ba-arets: "e homem não há na terra". A ordem das palavras põe ish, homem, na frente, o que a realça.

A questão é simples de enunciar e difícil de resolver: o que significa "na terra"?

A primeira leitura: elas creem que o mundo acabou

Nessa interpretação, ha-arets quer dizer a terra inteira, o mundo. As filhas de Ló acreditam que a destruição que viram não foi local — foi universal, como o dilúvio. Estariam convencidas de que os três são os últimos seres humanos vivos, e de que a espécie depende delas.

Essa leitura é antiga e tem defensores de primeira grandeza.

O Gênesis Rabá, coletânea de comentários rabínicos, registra em 51:8 a explicação de que elas pensavam que o mundo havia sido destruído como na geração do dilúvio.

Rashi, o comentador francês do século XI cuja explicação acompanha o texto hebraico em praticamente todas as edições tradicionais, segue essa linha.

Rashbam — neto de Rashi, e conhecido por insistir no sentido simples e direto do texto — formula a leitura com uma expressão que ficou: elas supunham que Deus trouxera mabbul shel esh, um dilúvio de fogo, do mesmo modo como antes trouxera um dilúvio de águas.

Ibn Ezra, o gramático espanhol do século XII, também entende que a fala supõe a destruição geral.

Fora do judaísmo, o historiador Flávio Josefo, no século I, apresenta as filhas convencidas de que toda a humanidade perecera. E entre os autores cristãos antigos, Ireneu, Agostinho e João Crisóstomo leem do mesmo modo, o que os leva, aliás, a tratar as filhas com bastante indulgência: se acreditavam ser as últimas, agiram por um motivo que não era a devassidão.

A força dessa leitura está em dois pontos. Primeiro, explica por que a frase é tão absoluta: não diz "não há homem que nos queira", diz que não há homem. Segundo, encaixa a cena no roteiro do dilúvio, que o Gênesis já contara — catástrofe, sobrevivente, vinho, embriaguez, ato sexual, povos.

A segunda leitura: falta pretendente aceitável

Nessa interpretação, ha-arets significa a terra no sentido de região, distrito, aquela área — uso comum e perfeitamente normal em hebraico, e presente inclusive neste capítulo. E o que falta não é a espécie humana: é homem com quem se pudesse casar.

Radak — David Kimhi, o gramático provençal do século XII e XIII — defende essa leitura, citando a explicação do rabino Yosef Kará: a fala é sobre a região, não sobre o mundo.

Sforno, o comentador italiano do século XVI, formula com precisão o argumento: não há homem neste distrito que seja digno de vir a nós. O acento cai sobre a qualidade do pretendente, não sobre a existência de seres humanos.

Entre os intérpretes cristãos, Calvino e, no século XIX, o comentarista alemão Keil seguem a mesma direção.

A força dessa leitura é sobretudo negativa, e é forte: ela não obriga a atribuir às filhas uma crença que a narrativa desmente.

O argumento que pesa contra a primeira leitura

E aqui está o problema sério, que precisa ser dito com todas as letras.

Zoar não foi destruída.

Ló pediu que ela fosse poupada no versículo 20. O pedido foi concedido no versículo 21. O versículo 22 registra que a destruição ficou suspensa até que ele chegasse lá. E o versículo 30 diz que os três moraram em Zoar e saíram de lá por vontade própria.

Ou seja: as três pessoas que estão nesta caverna acabam de sair de uma cidade habitada, com gente viva dentro, a poucas horas de caminhada. Não é notícia distante nem boato — é o lugar de onde vieram.

Sustentar que elas acreditavam ser as últimas pessoas do mundo exige, portanto, supor que elas ignoravam ou esqueceram aquilo que tinham acabado de viver. É possível construir explicações — trauma, isolamento prolongado, a suposição de que Zoar teria sido destruída depois da saída delas, como Nahmânides supôs a respeito do medo de Ló. Mas todas essas explicações são acrescentadas por quem lê; o texto não traz nenhuma.

Por outro lado, a segunda leitura tem o seu próprio custo. Se o problema fosse apenas a falta de pretendente aceitável, a solução mais simples estaria a poucas horas dali, na mesma Zoar. E a frase, que é absoluta, teria de ser lida como exagero de linguagem.

Não é possível decidir a questão com o texto na mão. As duas leituras têm defensores sérios e ambas exigem que se acrescente alguma coisa ao que está escrito.

A terceira hipótese: a costura do relato

Há ainda uma explicação de outra natureza, e ela não tenta resolver a incoerência — tenta explicar por que ela existe.

Hermann Gunkel observou que a fala da mais velha só faz sentido pleno se a cena não for continuação da história de Sodoma. Se o episódio da caverna circulou originalmente sozinho, como tradição sobre a origem de Moabe e de Amom, o pressuposto dela poderia ser simplesmente uma catástrofe que não deixou ninguém — sem Zoar, sem pedido, sem cidade poupada.

Ao ser encaixada na saga de Sodoma, a cena teria trazido consigo esse pressuposto, que passou a conflitar com o material anterior. A incoerência não seria descuido do personagem, e sim marca da junção.

Isso é hipótese de crítica literária, e é preciso ser claro quanto ao seu estatuto: não é demonstrável, e não deve ser apresentada como fato. Mas explica com economia aquilo que as outras duas leituras precisam contornar, e por isso merece figurar ao lado delas.

O leitor pode ficar com qualquer das três, ou com nenhuma. O que não se deve fazer é apresentar a dificuldade como se ela não existisse.

"que se una a nós"

O hebraico é lavo aleinu, literalmente "para vir sobre nós" ou "vir a nós".

O verbo bo, vir, entrar, seguido de preposição e de pessoa, é uma das expressões correntes da Bíblia hebraica para a união sexual. Aparece em Gênesis 16:2, quando Sarai diz a Abrão que entre à serva; em Gênesis 30:3, na fala de Raquel; em Gênesis 38:8-9, na instrução de Judá a Onã.

Não é linguagem crua nem eufemismo delicado: é a forma normal de dizer a coisa naquela língua.

Vale notar que a mesma construção aparece em Deuteronômio 25:5, na lei do cunhado que deve entrar à viúva do irmão para lhe suscitar descendência. A semelhança de vocabulário entre o que a filha propõe e a instituição destinada a preservar a linhagem de um morto não é acidental do ponto de vista da língua — as duas coisas pertencem ao mesmo campo, o da descendência que corre risco de acabar.

Isso não transforma a proposta em ato legítimo, e o próximo versículo mostrará por que a comparação tem limite. Mas ajuda a entender o que a personagem julga estar fazendo.

"segundo o costume de toda a terra"

O hebraico é ke-derekh kol-ha-arets: "conforme o caminho de toda a terra".

Derekh é caminho, estrada — e, por extensão, modo de proceder, praxe, costume. A expressão significa aqui aquilo que todo mundo faz: casar, ter filhos, dar continuidade à casa.

O detalhe que vale registrar é que essa mesma expressão aparece duas vezes na Bíblia com outro sentido, e é um sentido pesado.

Em Josué 23:14, o velho Josué diz ao povo: eis que eu estou para entrar hoje pelo caminho de toda a terra. Em 1 Reis 2:2, Davi diz a Salomão: eu vou pelo caminho de toda a terra.

Nos dois casos, "ir pelo caminho de toda a terra" significa morrer. É a expressão do homem que se despede.

Convém não forçar. As palavras são as mesmas, mas as construções diferem — aqui a locução é comparativa, "conforme o caminho", e ali é de movimento, "ir pelo caminho" —, e o sentido de "praxe universal" é o que o contexto pede.

Ainda assim, o dado é curioso e merece registro: a mesma sequência de palavras que, na boca de dois velhos, anuncia a morte, aparece aqui na boca de uma jovem para descrever a continuidade da vida. Se o autor percebeu isso, não é possível saber.

O que a fala não diz

Convém fechar registrando as ausências, porque elas serão decisivas no versículo seguinte.

A mais velha não menciona Deus. Não invoca promessa, não cita a ordem de multiplicar-se, não apela a nada além da situação de fato.

Não menciona Abraão, que está vivo, que é parente próximo e que uma vez juntou trezentos e dezoito homens para resgatar o pai delas.

Não cogita voltar a Zoar, nem procurar os pastores e viajantes que certamente circulavam por aquelas encostas.

E não pergunta ao pai. Toda a decisão será tomada entre as duas.

Registro as ausências como ausências. O texto não diz por que nenhuma dessas alternativas foi considerada, e supor motivos seria escrever a história no lugar de quem a escreveu.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A filha mais velhaha-bekhirah, a primogênita. Toma a palavra pela primeira vez e assume a iniciativa que governará o resto do capítulo. Continua sem nome. Será a mãe de Moabe, segundo o versículo 37.

A filha mais novaha-tseirah, a menor, da raiz que significa ser pequeno. Ouve sem responder: o texto não registra nenhuma palavra dela em todo o episódio. Será a mãe de Ben-Ami, segundo o versículo 38.

— mencionado apenas como "nosso pai", na terceira pessoa, e descrito como velho. Não participa da conversa. Este é o versículo em que ele deixa de ser sujeito da narrativa; não voltará a falar em nenhum lugar da Bíblia.

"A terra"ha-arets, a palavra em disputa. Pode significar o mundo inteiro ou a região, e a escolha entre os dois sentidos muda inteiramente o que a personagem está afirmando.

Zoar — não é mencionada aqui, e é justamente essa ausência que cria o problema. A cidade continuava habitada, e as três pessoas tinham acabado de sair de lá.

Moabe e Amom — ainda não nomeados, mas já pressupostos: os povos cuja origem esta cena vai explicar nos versículos 37 e 38.

Os comentadores — Gênesis Rabá, Rashi, Rashbam, Ibn Ezra, Josefo, Ireneu, Agostinho e Crisóstomo leem a frase como crença na destruição universal; Radak, citando Yosef Kará, e Sforno, além de Calvino e Keil, leem como falta de pretendente na região.

5. Pontos de Ensino

A voz muda de dono neste versículo. Ló falou nos versículos 2, 7, 8, 14 e 18 a 20; daqui em diante quem fala são as filhas, e ele não dirá mais nada em toda a Bíblia.

O argumento tem dois pilares. O pai é velho, e não há homem na terra. O segundo é o que está em disputa.

"Nosso pai está velho" repete a fala de Sara. Em 18:12 ela diz "o meu senhor é velho", com o mesmo adjetivo e o mesmo assunto: descendência de um homem idoso. Lá houve promessa; aqui não há voz alguma.

Primeira leitura de "não há homem na terra": elas creem que o mundo acabou. Gênesis Rabá 51:8, Rashi, Rashbam — que fala em um dilúvio de fogo —, Ibn Ezra, Josefo, Ireneu, Agostinho e Crisóstomo.

Segunda leitura: "a terra" é a região, e falta pretendente aceitável. Radak, citando Yosef Kará, e Sforno, que escreve "não há homem neste distrito digno de vir a nós"; também Calvino e Keil.

Zoar é o argumento contra a primeira leitura. A cidade não foi destruída, continuava habitada, e elas acabavam de sair de lá.

Gunkel propõe outra explicação para a incoerência. A cena teria circulado separada, e o pressuposto dela conflitaria com o material de Sodoma no qual foi encaixada. É hipótese, não demonstração.

"Vir a nós" é a expressão hebraica corrente para a união sexual. A mesma construção aparece em 16:2, 30:3, 38:8-9 e na lei do cunhado, em Deuteronômio 25:5.

"Conforme o caminho de toda a terra" significa a praxe comum. A mesma sequência de palavras, em Josué 23:14 e 1 Reis 2:2, é como dois velhos anunciam a própria morte.

A fala não menciona Deus, nem Abraão, nem Zoar. As quatro alternativas possíveis ficam de fora, e o texto não explica por quê.

6. Aspectos Filosóficos

A troca de protagonista

O primeiro dado a registrar é de composição, e nota-se por simples leitura seguida.

Durante trinta linhas, o sobrinho de Abraão comandou a cena: acolheu hóspedes, discutiu com a multidão, avisou os futuros genros, resistiu à saída, negociou o refúgio, mudou de ideia e subiu. Falou seis vezes.

Daqui por diante, ele é apenas mencionado. A palavra passa para a irmã mais velha, e passa em conversa da qual o pai não participa. O requerimento do versículo 20 foi a última frase pronunciada por esse personagem em todas as Escrituras.

Quem lê apressado costuma manter Ló no centro do episódio, por inércia. O texto já o tirou de lá. O que resta a ele é beber, dormir e não perceber — três verbos que os próximos versículos repetirão.

O raciocínio e a peça que falta nele

A argumentação apresentada é breve e tem forma de silogismo incompleto: a idade avançada do pai fecha o prazo, a ausência de homens fecha a alternativa, e a conclusão é deixada para a linha seguinte.

A primeira premissa é verificável e ninguém a discute. A segunda é que sustenta o edifício inteiro, e é justamente ela que colide com o que a narrativa acabou de contar.

A cidade requerida pelo pai permaneceu de pé por concessão expressa, a ruína ficou contida até que ele entrasse nela, e as três pessoas moraram lá antes de subir. Havia, portanto, gente viva a poucas horas de caminho — e não por informação de terceiros, mas por experiência direta das três.

Nenhuma leitura desta cena escapa dessa dificuldade. Ou se supõe que as duas ignoravam o que haviam vivido, ou se supõe que a expressão empregada por elas era mais estreita do que parece, ou se supõe que o episódio nasceu fora daqui e trouxe consigo pressupostos alheios. As três saídas custam alguma coisa.

O peso dos intérpretes de cada lado

Convém dizer que a discussão não é moderna nem marginal: ela atravessa a tradição judaica e a cristã desde a Antiguidade, com nomes de primeira ordem em ambas as posições.

De um lado, a coletânea rabínica antiga, o comentador de Troyes do século XI, o neto dele — que cunhou a fórmula do dilúvio de fogo —, o gramático espanhol, o historiador judeu do século I e três autores cristãos de enorme influência sustentam que as irmãs supunham extinta a humanidade.

De outro, o gramático provençal, apoiado num mestre anterior, o comentador italiano do Renascimento, o reformador de Genebra e um comentarista alemão do século XIX entendem que a palavra traduzida por terra designa ali a comarca, e que o problema era a inexistência de partido conveniente.

Registrar essa lista não é enfeite erudito. Ela mostra que a dificuldade é reconhecida há muitos séculos, e que quem a percebe hoje não está inventando problema: está repetindo uma pergunta que já foi feita por gente que dedicou a vida ao texto.

Uma frase que serve a duas coisas ao mesmo tempo

O verbo empregado para o ato pertence ao vocabulário corrente da união conjugal na língua hebraica, e reaparece, com preposição idêntica, na regra que obriga o irmão do falecido a gerar filho em nome dele.

Essa proximidade de linguagem tem consequência interpretativa. Aquilo que a personagem propõe está formulado com as mesmas palavras da instituição destinada a impedir que uma casa termine sem herdeiro.

Não decorre daí legitimidade alguma — as diferenças entre uma coisa e outra são enormes e aparecerão nas linhas seguintes. Decorre, isso sim, uma pista sobre a categoria mental em que ela própria enquadra o que vai fazer. Ela não descreve o ato como transgressão; descreve como remédio contra a extinção da casa.

O silêncio que cerca a decisão

Resta observar o que não comparece na fala, e a lista é comprida.

Nenhuma menção à divindade, cuja intervenção dominara todo o capítulo. Nenhuma menção ao tio poderoso que mora a alguns dias de distância e que já organizara uma expedição armada para resgatar aquele mesmo homem. Nenhuma cogitação de descer de volta ao povoado poupado. Nenhuma consulta ao pai, que está ali ao lado.

Quatro caminhos possíveis, quatro ausências. O relato não explica nenhuma delas, e preencher esse vazio com motivos plausíveis seria substituir o autor.

O que se pode dizer com segurança é que a decisão nasce de um raciocínio fechado, tomado por duas pessoas dentro de um espaço fechado, sem consulta a ninguém de fora. E que a premissa central desse raciocínio é falsa, ou pelo menos indemonstrável — o que raramente impede uma conclusão de parecer inevitável a quem já a aceitou.

7. Aplicações Práticas

Uma premissa falsa produz conclusões coerentes

O raciocínio da mais velha é impecável na forma. O pai é velho, não há homem na terra, portanto é preciso agir. Se as duas premissas fossem verdadeiras, a conclusão viria quase sozinha.

O problema não está no encadeamento: está no segundo dado. E é um dado que elas tinham como verificar, porque haviam morado em Zoar poucos dias antes.

Vale a pena reparar em como raciocínios bem construídos sobre bases erradas são mais perigosos do que raciocínios confusos. O erro confuso desperta desconfiança; o erro coerente convence. Antes de examinar se a conclusão decorre das premissas, convém examinar se as premissas ainda são verdadeiras — sobretudo aquelas que a gente já não checa há algum tempo.

Espaços fechados estreitam o que parece possível

A decisão é tomada por duas pessoas dentro de uma caverna, sem consulta a ninguém. Não há terceiro para dizer que Zoar continua de pé, que Abraão está a alguns dias de caminho, que pastores circulam por aquelas encostas.

A fala não menciona nenhuma dessas alternativas. Não que tenham sido examinadas e descartadas: simplesmente não aparecem.

Grupos pequenos e isolados perdem a capacidade de gerar objeções, porque objeção depende de alguém que esteja fora. Quando uma decisão difícil começa a parecer a única possível, é sinal de que faltou gente na conversa — e a solução costuma ser menos convencer-se melhor do que ampliar o círculo de quem pode discordar.

Palavras absolutas merecem verificação

"Não há homem na terra" é uma afirmação total. Não admite exceção, não admite grau, não admite exame.

Séculos de comentadores se dividiram exatamente sobre o alcance dela, e a discussão continua sem solução justamente porque a frase é absoluta demais para o que a narrativa mostra.

É útil desconfiar do próprio vocabulário quando ele fica assim. "Nunca", "ninguém", "não há mais nada", "não tem jeito" descrevem menos a realidade do que o estado de quem fala. Trocar o absoluto por uma frase verificável — quantos, quais, onde, desde quando — costuma devolver alternativas que a formulação total havia apagado.

Situações extremas não suspendem as perguntas

É possível que as duas acreditassem sinceramente estar diante do fim da espécie. Foi assim que Josefo, Agostinho e Crisóstomo leram, e foi por isso que trataram as filhas com indulgência.

Mesmo nessa leitura mais benigna, resta que a solução escolhida envolve embriagar o pai para que ele não perceba — o que os versículos seguintes deixarão explícito.

A emergência real muda o cálculo de muitas decisões, e seria desonesto fingir que não muda. Mas a alegação de emergência é também o argumento mais fácil de invocar quando já se decidiu. Vale reparar em quantas vezes a urgência aparece depois da escolha, e não antes — funcionando menos como razão do que como autorização.

Quem cala nem sempre concorda

A mais nova não responde. O texto não registra uma única palavra dela, nem aqui, nem no versículo 34, nem em lugar nenhum do capítulo. Ela apenas executa o que foi combinado.

O silêncio dela pode ser adesão, pode ser resignação, pode ser incapacidade de discordar de quem manda pela ordem de nascimento. O relato não diz.

É um bom lembrete quanto à leitura de silêncios em geral, dentro e fora da Bíblia. Ausência de objeção registrada não é prova de acordo, e tratar como consenso aquilo que foi apenas não contestado costuma ser a maneira mais rápida de transformar uma decisão de um em decisão de todos.

Duas cenas de descendência ameaçada, um capítulo de distância

No capítulo 18, Sara diz que o seu senhor é velho e ri da possibilidade de um filho. Recebe uma resposta de fora, e o filho nasce no prazo anunciado.

No capítulo 19, a filha de Ló diz que o pai é velho, com o mesmo adjetivo e sobre o mesmo assunto. Não há visita, não há promessa, não há voz nenhuma — e a solução é construída dentro da caverna.

O contraste é do material, e não convém torcê-lo em lição fácil sobre esperar ou não esperar. O que se pode dizer é mais modesto e mais útil: as duas cenas mostram que o mesmo problema pode ser enfrentado de maneiras completamente diferentes, e que a diferença começa em quem se supõe estar ouvindo. Numa tenda alguém escutava; numa caverna, aparentemente, ninguém.

A urgência de continuar não é sentimentalismo

Para quem lê hoje, a preocupação das duas pode soar exagerada. Convém lembrar que, naquele mundo, uma casa sem descendência acabava — terra, nome e memória se perdiam junto, porque a mulher não herdava e a linhagem corria pelo varão.

Por isso a Bíblia registra, sem escândalo, iniciativas femininas por caminhos irregulares: Sarai entrega a serva, Raquel faz o mesmo, Tamar se disfarça, Rute vai à eira. Nenhuma dessas histórias é igual a esta, e as diferenças são grandes.

Mas a semelhança de horizonte ajuda a evitar dois erros de leitura simétricos: tratar as filhas de Ló como monstros isolados, o que apaga o contexto, ou tratá-las como heroínas incompreendidas, o que apaga o que está escrito nos próximos versículos. O texto permite entender o motivo sem endossar o meio, e essa é normalmente a leitura mais difícil de sustentar — e a mais honesta.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a filha diz que não há homem na terra, se Zoar não foi destruída?

Essa é exatamente a dificuldade do versículo, e ela é reconhecida há séculos. Zoar foi poupada a pedido de Ló, conforme os versículos 20 a 22, continuava habitada, e as três pessoas tinham acabado de sair de lá. Quem sustenta que as filhas acreditavam ser as últimas pessoas vivas precisa supor que elas ignoravam ou esqueceram o que haviam vivido. O texto não fornece essa explicação; ela é acrescentada pelo intérprete.

Quem defende que elas achavam que o mundo tinha acabado?

Uma lista de peso. O Gênesis Rabá 51:8 registra a explicação; Rashi a segue; Rashbam a formula dizendo que elas supunham um dilúvio de fogo, paralelo ao dilúvio de águas; Ibn Ezra entende do mesmo modo. Fora do judaísmo, Flávio Josefo apresenta as filhas convencidas de que a humanidade perecera, e Ireneu, Agostinho e João Crisóstomo leem assim — o que os leva a tratá-las com indulgência.

E quem defende a outra leitura?

Radak, citando o rabino Yosef Kará, entende que "a terra" designa ali a região. Sforno é ainda mais explícito: não há homem neste distrito digno de vir a nós, de modo que o problema seria a qualidade do pretendente. Calvino e Keil seguem a mesma linha. O uso de ha-arets como região é normal em hebraico, o que dá base linguística à posição.

Qual das duas leituras está certa?

Não é possível decidir com o texto na mão. A primeira explica a força absoluta da frase, mas choca com Zoar. A segunda não choca com Zoar, mas precisa tratar uma afirmação absoluta como exagero de linguagem, e ainda deixa aberta a pergunta de por que não voltaram àquela cidade. As duas cobram um preço.

Há uma terceira explicação?

Há. Gunkel propôs que a incoerência seja marca de costura: a cena da caverna teria circulado como tradição separada sobre a origem de Moabe e de Amom, com o pressuposto de uma catástrofe sem sobreviventes, e ao ser encaixada na história de Sodoma teria trazido esse pressuposto consigo. É hipótese de crítica literária, não demonstração — mas explica com economia o que as outras leituras precisam contornar.

"Nosso pai está velho" tem paralelo em algum lugar?

Tem, e muito próximo. Em Gênesis 18:12 Sara diz "o meu senhor é velho", com o mesmo adjetivo, tratando do mesmo assunto: a possibilidade de descendência de um homem idoso. A diferença é o que se segue. Na tenda de Abraão vem uma promessa de fora; na caverna não aparece voz nenhuma, e as filhas resolvem por conta própria.

O que significa "que se una a nós", literalmente?

O hebraico diz "para vir a nós". O verbo bo seguido de preposição e pessoa é a expressão corrente da Bíblia para a união sexual, e aparece assim em Gênesis 16:2, 30:3 e 38:8-9. A mesma construção está em Deuteronômio 25:5, na lei que obriga o cunhado a gerar descendência para o irmão morto.

Isso quer dizer que a proposta era legítima?

Não. Significa apenas que a personagem formula o que pretende fazer com o vocabulário da preservação da linhagem, e não com o vocabulário da transgressão. A comparação com a lei do cunhado tem limite evidente: ali há consentimento, publicidade e obrigação legal; aqui haverá vinho e um homem que não percebe nada. Os versículos 32 e 33 tornam a diferença explícita.

Por que as filhas não têm nome?

O texto não explica. São identificadas cinco vezes como "as suas duas filhas" e, a partir daqui, apenas pela ordem de nascimento. O efeito é notável: as mães ficam anônimas e os filhos delas darão nome a dois povos, conforme os versículos 37 e 38.

"O costume de toda a terra" é uma expressão comum?

A sequência de palavras aparece mais duas vezes na Bíblia, com sentido diferente: em Josué 23:14 e 1 Reis 2:2, "ir pelo caminho de toda a terra" é como dois velhos anunciam a própria morte. Aqui a construção é comparativa e o sentido pedido pelo contexto é o de praxe universal — casar e ter filhos. O paralelo é curioso e vale registro, mas não se pode afirmar que o autor o tenha construído.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 19:20Eis que agora esta cidade está próxima para fugir ali, a qual é pequena; escaparei agora ali, (não é ela pequena?) e viverá minha alma.

A cidade que sobreviveu, e que torna problemática a frase "não há homem na terra".

Gênesis 19:21E lhe respondeu: Eis que recebi também tua súplica sobre isto, e não destruirei a cidade de que falaste.

A concessão expressa. Zoar foi poupada, e as três pessoas moraram lá.

Gênesis 18:11Abraão e Sara eram idosos, avançados em dias; a Sara já havia cessado o costume das mulheres.

O mesmo adjetivo, um capítulo antes, no mesmo assunto.

Gênesis 18:12Riu, pois, Sara consigo mesma, dizendo: Depois que envelheci terei prazer, sendo também meu senhor já velho?

"O meu senhor é velho" e "o nosso pai é velho": a construção hebraica é a mesma.

Gênesis 7:23Assim foi destruída toda criatura que vivia sobre a face da terra, desde o ser humano até o animal, e os répteis, e as aves do céu; e foram apagados da terra; e restou somente Noé, e os que com ele estavam na arca.

A catástrofe que não deixou ninguém — o pressuposto da primeira leitura da fala.

Gênesis 9:20-21E começou Noé a lavrar a terra, e plantou uma vinha; e bebeu do vinho, e se embriagou, e estava descoberto dentro de sua tenda.

O roteiro que esta cena repete: sobrevivente, vinho, embriaguez, ato do filho, povo vizinho.

Gênesis 16:2Disse, pois, Sarai a Abrão: Já vês que o SENHOR me fez estéril: rogo-te que entres a minha serva; talvez terei filhos dela. E atendeu Abrão ao dito de Sarai.

A mesma construção verbal, e a mesma iniciativa feminina diante da falta de descendência.

Gênesis 30:3E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; deita-te com ela, e dará à luz sobre meus joelhos, e eu também terei filhos por meio dela.

Raquel, com o mesmo horizonte: a casa que não pode acabar.

Deuteronômio 25:5Quando irmãos estiverem juntos, e morrer algum deles, e não tiver filho, a mulher do morto não se casará fora com homem estranho: seu cunhado entrará a ela, e a tomará por sua mulher, e fará com ela parentesco.

A lei que emprega a mesma expressão para preservar a linhagem de um morto.

Gênesis 29:26E Labão respondeu: Não se faz assim em nosso lugar, que se dê a mais nova antes da mais velha.

O único outro lugar do Gênesis com o mesmo par de termos, e também ali a ordem de nascimento decide.

Josué 23:14E eis que eu estou para entrar hoje pelo caminho de toda a terra.

A mesma sequência de palavras, na boca de um velho que se despede: significa morrer.

1 Reis 2:2Eu vou pelo caminho de toda a terra: esforça-te, e sê homem.

Davi, com a mesma locução e o mesmo sentido.

Deuteronômio 2:9E o SENHOR me disse: Não perturbeis a Moabe, nem te empenhes com eles em guerra, que não te darei possessão de sua terra; porque eu dei a Ar por herança aos filhos de Ló.

O parentesco reconhecido, e protegendo o povo que nascerá desta caverna.

Deuteronômio 23:3Não entrará amonita nem moabita na congregação do SENHOR; nem ainda na décima geração entrará na congregação do SENHOR para sempre.

O outro lado do mesmo material, sem harmonização possível.

Mateus 1:5E Salmom gerou de Raabe a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé.

Rute, a moabita, na linhagem de Davi. A Bíblia guarda os dois materiais lado a lado.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então a mais velha disse à mais nova: “Nosso pai está velho, e não há homem na terra que se una a nós, segundo o costume de toda a terra.

Texto hebraico

וַתֹּאמֶר הַבְּכִירָה אֶל־הַצְּעִירָה אָבִינוּ זָקֵן וְאִישׁ אֵין בָּאָרֶץ לָבוֹא עָלֵינוּ כְּדֶרֶךְ כָּל־הָאָרֶץ

Transliteração

wattomer ha-bekhirah el ha-tseirah avinu zaqen we-ish ein ba-arets lavo aleinu ke-derekh kol-ha-arets

Palavra por palavra

הַבְּכִירָה (ha-bekhirah) — "a primogênita"

Feminino de bekhor, primogênito, formado sobre a raiz que designa a primeira coisa a vir — os primeiros frutos, o primeiro parto.

A forma feminina é rara. No Gênesis aparece apenas neste capítulo, nos versículos 31, 33, 34 e 37, e no capítulo 29, quando Labão explica a Jacó que não se dá a mais nova antes da mais velha. Fora do Gênesis, ocorre em 1 Samuel 14:49, a respeito das filhas de Saul.

Ela não é chamada de filha nem de irmã: é chamada pela posição na ordem de nascimento, e essa posição é o que lhe dá a palavra.

הַצְּעִירָה (ha-tseirah) — "a mais nova"

Da raiz tsaar, ser pequeno, ser insignificante, diminuir.

É a mesma raiz do nome Tsoar, a cidade do versículo 22, e do mitsar — "coisa pequena" — que Ló usou no versículo 20 para argumentar que o lugar era insignificante e por isso podia ser poupado.

Registro a coincidência sem construir tese sobre ela. O hebraico reaproveita raízes o tempo todo, e nada obriga a ver intenção aqui. Mas o dado é verificável: a mesma raiz nomeia a cidade que foi pedida e a irmã que executará a segunda noite.

אָבִינוּ זָקֵן (avinu zaqen) — "o nosso pai é velho"

Av, pai, com o sufixo de primeira pessoa do plural; zaqen, velho, idoso.

A raiz de zaqen é a mesma de zaqan, barba — a associação entre idade e barba é antiga na língua. O plural zeqenim, os anciãos, designa os homens de autoridade que decidiam à porta da cidade.

A construção é idêntica à de Sara em 18:12, wa-adoni zaqen, "e o meu senhor é velho", e o assunto das duas frases é o mesmo: a chance de haver descendência.

וְאִישׁ אֵין בָּאָרֶץ (we-ish ein ba-arets) — "e homem não há na terra"

Ish é homem no sentido de varão, indivíduo do sexo masculino. Ein é a partícula da inexistência: não há. Ba-arets é a preposição com o artigo mais erets.

A ordem das palavras põe ish antes da negação, o que o destaca: "e homem — não há na terra".

Aqui está o problema. Erets cobre uma faixa larga de sentidos: a terra em oposição ao céu, o mundo habitado, um país, uma região, um distrito. Todos esses usos são normais, e o próprio Gênesis emprega a palavra nos dois extremos.

Se o sentido for o primeiro, as filhas estão dizendo que a humanidade acabou. Se for o segundo, estão dizendo que não há partido disponível por ali. A gramática permite as duas coisas, e é por isso que a discussão nunca se encerrou.

לָבוֹא עָלֵינוּ (lavo aleinu) — "para vir a nós"

Infinitivo de bo, vir, entrar, com a preposição al e o sufixo de primeira pessoa do plural.

O verbo bo seguido de preposição e pessoa é uma das maneiras correntes de dizer, em hebraico, a união sexual — Gênesis 16:2, 30:3, 38:8-9 e Deuteronômio 25:5 usam a mesma construção.

O acréscimo importante é que a frase descreve o ato como algo que o homem faria a elas. A iniciativa está gramaticalmente do lado masculino, e é exatamente essa iniciativa que a proposta do versículo seguinte vai inverter.

כְּדֶרֶךְ כָּל־הָאָרֶץ (ke-derekh kol-ha-arets) — "conforme o caminho de toda a terra"

Ke é a preposição comparativa; derekh é caminho, estrada e, por extensão, modo de proceder, praxe; kol é todo, e ha-arets repete a palavra da frase anterior.

O sentido pedido pelo contexto é claro: como se faz em toda parte, como todo mundo faz — casar e gerar filhos.

Repare-se que ha-arets aparece duas vezes na mesma linha. Se o sentido fosse o mesmo nas duas, a frase diria que não há homem no mundo e que o costume é o do mundo inteiro, o que é ao menos estranho. Alguns leem aí um argumento a favor do sentido regional na primeira ocorrência. É observação legítima, mas não decide a questão, porque a repetição de uma palavra em dois valores é comum na prosa hebraica.

Nota — o alcance de "na terra", em resumo

Convém organizar num só lugar o que está em jogo, porque este é o ponto mais discutido do capítulo depois do versículo 26.

A leitura ampla — o mundo acabou — é sustentada pelo Gênesis Rabá 51:8, por Rashi, por Rashbam, que fala em mabbul shel esh, um dilúvio de fogo, e por Ibn Ezra; fora do judaísmo, por Josefo, Ireneu, Agostinho e Crisóstomo. Ela explica a força absoluta da frase e alinha a cena ao roteiro do dilúvio.

A leitura estreita — a região, sem pretendente aceitável — é sustentada por Radak, que cita o rabino Yosef Kará, e por Sforno, que escreve não haver homem naquele distrito digno de vir a elas; entre os cristãos, por Calvino e por Keil. Ela evita atribuir às personagens uma crença que a narrativa desmente.

O obstáculo da primeira leitura é Zoar, que continuava de pé e de onde elas acabavam de sair. O obstáculo da segunda é que a frase, do jeito que está escrita, não parece admitir exceção — e que, se o problema fosse só a falta de partido, a mesma Zoar oferecia solução a poucas horas.

Gunkel propôs que a incoerência seja sinal de junção, e que a cena tenha nascido fora da saga de Sodoma. É hipótese, e como hipótese deve ser tratada.

Não é possível decidir. Registrar a dificuldade com honestidade vale mais do que escolher uma saída e apresentá-la como se fosse a leitura óbvia — que é, aliás, o que a maior parte dos comentários faz, sem avisar o leitor de que há discussão.

11. Conclusão

A palavra troca de dono nesta linha, e a troca é definitiva. Depois de trinta versículos em que o sobrinho de Abraão comandou a cena — acolhendo, discutindo, avisando, resistindo, negociando e finalmente subindo —, quem toma a iniciativa é a irmã mais velha, e o faz numa conversa da qual o pai está ausente. O requerimento que ele fizera para obter a cidade pequena foi a última frase que esse personagem pronuncia em toda a Bíblia; daqui em diante ele bebe, dorme e não percebe. Os termos que designam as duas irmãs não são nomes, e sim posições: a primeira a nascer e a menor. Nenhuma delas será nomeada até o fim do livro, embora os filhos que gerarem venham a dar nome a dois povos inteiros.

O argumento apresentado tem duas bases. A idade avançada do pai encerra o prazo — e o adjetivo empregado é exatamente o que Sara usara um capítulo antes, ao rir da hipótese de gerar um filho com um marido idoso, com a diferença de que ali houve promessa vinda de fora e aqui não há voz alguma. A segunda base é a que sustenta tudo e é a que não se sustenta: a declaração de que não existe varão na terra. A cidade requerida pelo pai permanecera de pé por concessão expressa, a ruína chegara a ficar contida até que ele entrasse nela, e as três pessoas ali moraram antes de subir ao planalto. Havia, portanto, gente viva a poucas horas de distância, conhecida por experiência direta.

Como entender a frase é disputa antiga e com nomes de peso dos dois lados. A tradição rabínica antiga, o comentador de Troyes, o neto dele com a fórmula do dilúvio de fogo, o gramático espanhol, o historiador judeu do primeiro século e três autores cristãos de grande influência entendem que as duas supunham extinta a humanidade — e é essa suposição que leva vários deles a tratá-las com indulgência. Do outro lado, o gramático provençal apoiado num mestre anterior, o comentador italiano do Renascimento, o reformador de Genebra e um comentarista alemão do século XIX entendem que o vocábulo traduzido por terra designa ali a comarca, e que faltava partido conveniente, não humanidade. A gramática autoriza os dois valores, o que explica por que a discussão jamais se encerrou. Ainda uma terceira via foi proposta pelo estudioso alemão que tratou o livro como coleção de tradições: a contradição seria marca de costura, sinal de que o episódio da gruta circulou por conta própria antes de ser encaixado na história das cidades destruídas — hipótese econômica, e apenas hipótese.

Duas observações de língua completam a linha. O verbo escolhido para o ato pertence ao vocabulário corrente da união conjugal e reaparece, com preposição idêntica, na regra que obriga o irmão do falecido a gerar filho em nome dele: a personagem enquadra o que pretende fazer na categoria do remédio contra a extinção de uma casa, e não na categoria da transgressão. E a locução final — segundo o que se pratica em toda parte — coincide, palavra por palavra, com a maneira pela qual Josué e Davi anunciam a própria morte, embora aqui a construção seja comparativa e o sentido pedido pelo contexto seja o de praxe universal. Resta o que a fala omite: nenhuma menção à divindade que dominara o capítulo inteiro, nenhuma lembrança do tio poderoso que uma vez armara trezentos e dezoito homens para resgatar aquele mesmo pai, nenhuma cogitação de descer de volta ao povoado poupado, nenhuma consulta ao homem que dorme ao lado. Quatro caminhos, quatro silêncios — e uma conclusão que, aceita a premissa, parece não ter alternativa.

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