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Êxodo 10:16

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 25 acessos
Faraó apressou-se em chamar Moisés e Arão e disse: “Pequei contra o SENHOR, o seu Deus, e contra vocês.
Faraó, no palácio, manda chamar às pressas Moisés e Arão depois da praga dos gafanhotos, com o campo devastado ao fundo.

Estudo


Faraó apressou-se em chamar Moisés e Arão e disse: “Pequei contra o SENHOR, o seu Deus, e contra vocês.

1. Introdução

O rei que acabara de mandar expulsar Moisés e Arão do palácio manda chamá-los de volta às pressas.

E diz uma frase que não tinha dito antes: "Pequei contra o SENHOR, o seu Deus, e contra vocês." É a segunda vez que ele admite culpa, e a primeira em que diz contra quem.

O versículo levanta três pontos que o estudo desenvolve adiante: a pressa, registrada por um verbo que não aparece em nenhuma das outras convocações; a inclusão dos dois homens entre os ofendidos; e o possessivo "o seu Deus", que o rei não troca por "o meu".

Há também uma ausência, e ela pesa: desta vez Faraó não promete deixar o povo ir.

2. Contexto Histórico e Cultural

Confessar sem saber o quê: como o Antigo Oriente escrevia a admissão de culpa

Um homem daquele mundo que adoecia, perdia a colheita ou via o filho morrer costumava concluir que tinha ofendido um deus. O passo seguinte não era procurar na memória o que havia feito. Era chamar um especialista e ler uma lista.

A lista existe, e sobreviveu. Chama-se Šurpu ("Queima", em acádio — o nome vem do rito de queimar objetos que carregavam o mal), e é uma série de nove tabuinhas de conjuros em sumério e em acádio, copiada e recopiada nas bibliotecas da Mesopotâmia. A segunda tabuinha é a mais longa, e é um inventário: o sacerdote recitava, uma atrás da outra, todas as faltas possíveis, na esperança de que a do doente estivesse entre elas e fosse desfeita ao ser nomeada.

O tom da lista é este, em tradução livre: quem comeu o que era proibido ao seu deus, quem comeu o que era proibido à sua deusa; quem disse "não" por "sim" e "sim" por "não"; quem desprezou o pai e odiou o irmão mais velho; quem derramou o sangue do vizinho. Faltas de culto, faltas de palavra e faltas contra pessoas, misturadas na mesma enumeração.

Duas coisas se aprendem disso. O ofendido podia ser um deus ou um homem, e as duas ofensas entravam na mesma conta — a separação moderna entre "pecado", coisa de religião, e "dano", coisa de tribunal, não organizava aquele mundo. E o confessante normalmente não sabia o que tinha feito: a lista existe justamente porque ele não sabia, e o procedimento era passar por todas as hipóteses até acertar.

Faraó faz o contrário. Ele não recita possibilidades: nomeia os dois ofendidos e para por aí. Sabe quem são; não diz o que fez. É o inverso exato do formulário mesopotâmico, e essa inversão não é acidente — o leitor do capítulo sabe exatamente o que o rei fez, porque acabou de ler.

No Egito, quem errava não era o rei

A ideologia real egípcia não tinha lugar para a frase deste versículo. O rei era o responsável pela ordem do mundo, e os textos oficiais o apresentam como quem a restabelece, nunca como quem a rompe. Um monumento não registra o erro do rei; registra a correção que ele traz. Isso não quer dizer que no Egito ninguém confessasse: homens e mulheres comuns deixaram pedras com a admissão de uma falta contra um deus, examinadas no estudo de Êxodo 8:15. O que não existe é o equivalente real.

Daí decorre um dado que costuma passar em branco. A cena deste versículo não teria lugar na documentação egípcia. Não porque contradiga algum registro — nenhum registro egípcio trata do episódio —, mas porque o gênero em que os reis do Egito falavam não comportava esta frase. Isso não decide se a cena aconteceu; decide outra coisa: que a fala não foi copiada de um modelo egípcio.

A pressa de um rei tem custo

Convocar alguém à presença do rei do Egito não era mandar um recado: era acionar uma cadeia de funcionários, com ordem, portador e protocolo de entrada. O que o verbo deste versículo acrescenta é a velocidade: o rei atropela o próprio andamento da casa. E chamar de volta, depressa, quem se acabou de pôr para fora é, num palácio antigo, uma cena pública de recuo.

3. Análise Teológica do Versículo

"Faraó apressou-se em chamar Moisés e Arão"

Nas outras vezes o texto disse apenas que o rei chamou. Em Êxodo 8:8, "Faraó chamou Moisés e Arão". Em Êxodo 8:25, "Faraó chamou Moisés e Arão". Em Êxodo 9:27, "Faraó mandou chamar Moisés e Arão". Aqui entra uma palavra a mais, e ela descreve a maneira: com pressa.

É a única vez em toda a série. O Êxodo não costuma informar o ritmo de uma ação; quando informa, está dizendo alguma coisa.

O que ele diz fica claro se o leitor voltar cinco versículos. Em Êxodo 10:11, Moisés e Arão foram expulsos da presença do rei. Agora o mesmo rei manda buscá-los depressa — e chama os dois, porque foram os dois que ele pôs para fora.

"Pequei"

A palavra não é nova na boca dele. Em Êxodo 9:27 o rei já tinha dito "desta vez pequei". O que mudou entre uma frase e outra é o que interessa, e são três mudanças.

Primeira: sumiu o "desta vez". Lá a confissão vinha limitada a um episódio; aqui ela vem sem recorte. A frase fica mais larga — e também mais vaga, porque não diz de que erro se trata.

Segunda: apareceu contra quem. Em Êxodo 9:27 o rei disse "pequei" e não completou; era preciso deduzir o ofendido pela frase seguinte. Aqui os ofendidos estão nomeados, e são dois.

Terceira, e a mais notável: sumiu o povo. Em Êxodo 9:27 ele disse "eu e o meu povo somos os culpados" — repartiu a falta com o Egito inteiro. Aqui diz "pequei", no singular, e não põe mais ninguém junto. A culpa se concentra nele.

Como ler essa concentração? Primeira leitura: é um avanço — quem repartia a culpa com a nação agora a assume sozinho. Segunda leitura: é economia — um homem apressado diz o mínimo necessário para chegar ao pedido do versículo seguinte, e assumir a culpa sozinho é o caminho mais curto. Não é possível decidir: o Êxodo não descreve o que o rei sentia, nem então nem agora.

"contra o SENHOR, o seu Deus"

O rei usa o nome. Já o vinha usando desde Êxodo 8:8. O que é novo é o possessivo: "o seu Deus", de vocês, não meu.

Três leituras estão em circulação, e todas cabem no hebraico.

Primeira leitura: é linguagem diplomática. Falar do deus do interlocutor pelo nome e pelo dono era o jeito corrente de se dirigir a um estrangeiro naquele mundo. A frase não diria nada sobre a crença de quem fala.

Segunda leitura: é recusa. O possessivo mantém a distância. O rei admite ter ofendido aquele deus e continua sem tomá-lo por seu — o que é coerente com a pergunta com que ele abriu o livro, em Êxodo 5:2. Essa é a leitura de Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII), que observa que Faraó reconhece o SENHOR como o Deus deles, e não o seu.

Terceira leitura: é descrição exata. O rei diz simplesmente de quem é o deus que está agindo, e a frase não carrega nem adesão nem recusa.

Um dado pesa dos dois lados. A favor da segunda leitura: o rei nunca, em todo o livro, chama o SENHOR de "o meu Deus". Contra ela: também nunca chama assim nenhum deus egípcio — o Êxodo não põe na boca dele profissão de fé nenhuma, de tipo nenhum.

"e contra vocês"

Esta é a novidade do versículo.

Em Êxodo 9:27 o rei falou de justiça e de culpa sem dizer quem tinha sido lesado. Aqui os dois homens à frente dele entram na conta como parte ofendida. Um rei do Egito reconhece que errou com dois estrangeiros.

O que exatamente ele admite? O texto não diz, mas o capítulo oferece candidatos concretos: a promessa de Êxodo 8:28, que ele não cumpriu; a recusa de Êxodo 10:11, que desfez uma concessão já anunciada diante de testemunhas; e a expulsão do mesmo versículo.

Duas leituras do "e contra vocês" merecem ficar registradas, e uma terceira as reúne.

Primeira leitura: é o ponto alto da confissão. Admitir falta contra um deus custa pouco a um rei; admitir falta contra dois homens sem exército custa a posição.

Segunda leitura: é cálculo. Ele vai pedir, no versículo seguinte, que esses mesmos dois homens orem por ele. Reconhecer-se em falta com quem se vai pedir um favor é a maneira mais eficiente de obtê-lo.

Terceira leitura: as duas coisas ao mesmo tempo. Uma frase pode ser verdadeira e conveniente. O texto não obriga a escolher entre sinceridade e interesse, e não fornece o critério para separá-las.

O que não está aqui

Duas ausências, e as duas são concretas.

Não há sentença. Em Êxodo 9:27 o rei declarou: "O SENHOR é o justo, e eu e o meu povo somos os culpados." Era um veredito, com as partes nomeadas. Aqui não há nada disso. A confissão perdeu a parte que dizia quem tinha razão.

E não há promessa. Esta é a ausência maior. Em Êxodo 8:8 o rei prometeu: "eu deixarei o povo ir". Em Êxodo 8:28: "eu deixarei vocês irem". Em Êxodo 9:28: "eu deixarei vocês irem, e vocês não ficarão mais aqui". Desta vez ele confessa, pede perdão, pede oração — e não oferece nada em troca. O versículo 17 é só pedido.

Quem lê depressa preenche a lacuna sozinho, porque as quatro negociações anteriores criaram a expectativa. O texto não a preenche. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) leu esta confissão como um avanço sobre a de Êxodo 9:27, por reconhecer culpa dupla, e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) foi na mesma direção. Nenhum dos dois observou que esta é a única negociação da série em que o rei não promete coisa nenhuma.

O limite

O Êxodo registra o que o rei disse e a velocidade com que mandou chamar. Não registra o que ele pensava, nem se acreditava no que dizia. Na cena anterior havia uma avaliação, e ela vinha de dentro do relato: em Êxodo 9:30 foi Moisés quem disse não acreditar. Aqui Moisés não diz nada. Ele sai e ora.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

O Êxodo nunca diz o nome dele. Neste versículo ele aparece fazendo duas coisas que um rei do Egito não fazia: correr atrás de quem expulsou e dizer que errou.

A posição dele se move ao longo do capítulo: recebe Moisés e Arão e ouve uma ameaça (Êxodo 10:3-6); ouve os próprios servos falarem contra ele (Êxodo 10:7); reabre a negociação e a fecha expulsando os dois (Êxodo 10:8-11). Depois vem a praga. E agora ele chama de volta.

Moisés e Arão

Os dois são convocados juntos e tratados juntos: o "vocês" da confissão está no plural, e o "o seu Deus" também. Mas só Moisés age. É ele quem sai e ora, no versículo 18; Arão não fala nem aparece de novo até o capítulo seguinte.

Esse arranjo vem de antes. A partir de Êxodo 10:12, as ordens do SENHOR passam a ser dadas só a Moisés, e o gesto sobre a terra é feito só por ele. Arão continua presente nas audiências e ausente na ação.

Os servos de Faraó

Eles não aparecem neste versículo, e é por isso que merecem uma linha. Foram eles que, em Êxodo 10:7, disseram ao rei que o Egito estava perdido — a primeira vez no livro em que a corte fala contra o soberano. Naquela ocasião o rei cedeu em parte, reabriu a audiência e depois recuou.

Agora, com a colheita destruída, quem os servos avisaram é o único a falar. O texto não conta o que eles disseram desta vez, e a ausência da fala deles, num palácio cheio, é um silêncio que o Êxodo escolhe.

O que tinha acabado de acontecer

A praga durou pouco tempo e destruiu tudo. O vento oriental soprou um dia e uma noite inteiros; os gafanhotos chegaram de manhã (Êxodo 10:13); cobriram o país e comeram o que o granizo tinha deixado (Êxodo 10:14-15). O resultado está escrito com quatro palavras: "não ficou nada verde".

O Egito acabava de perder, em sequência, o linho e a cevada, destruídos pelo granizo (Êxodo 9:31), e agora tudo o mais: não havia pasto para o gado que sobrara, não havia fruto nas árvores, não havia horta. A conversa deste versículo acontece dentro desse cenário.

O palácio

A cena se passa na residência real, para onde Moisés e Arão são trazidos. O Êxodo não a descreve: não diz onde ficava, que aparência tinha nem quem mais estava na sala. Quem imagina um salão de trono está acrescentando ao texto o que ele não fornece.

5. Pontos de Ensino

Dizer contra quem se errou muda a frase

"Errei" e "errei com você" não são a mesma coisa. A primeira descreve o falante; a segunda reconhece que existe alguém do outro lado, com direito a ser reparado. Faraó dá esse passo aqui, e não o tinha dado em Êxodo 9:27.

O passo tem preço, e é por isso que ele é raro. Nomear o ofendido significa admitir que ele pode cobrar.

Uma admissão pode ser verdadeira e insuficiente ao mesmo tempo

O rei diz coisas exatas. Ele ofendeu o SENHOR; ele ofendeu os dois homens. Nada do que ele fala é falso.

O que falta não é verdade: é o que vem depois. Ele não devolve nada, não desfaz nada e não se compromete com nada. Uma frase pode estar inteiramente certa e não mover um milímetro a situação que descreve.

A pressa mede a pressão, não a convicção

O rei corre porque o país está arruinado, e o texto não registra motivo nenhum além do que o leitor acabou de ver na plantação. Quem medir a mudança de alguém pela urgência com que essa pessoa procura reparo vai errar — quatro versículos adiante, tudo está como estava.

Quem foi expulso pode ser chamado de volta — e aceitar

Moisés e Arão tinham sido postos para fora daquela sala. Voltam sem exigir retratação e sem cobrar nada. Isso não é um princípio geral sobre humildade: é o comportamento de dois homens numa negociação cujo objetivo é tirar um povo do Egito, e que por isso não têm interesse em vencer discussões.

Reconhecer o deus de outro povo não é adotá-lo

"O seu Deus" é a fórmula de quem admite que aquele deus agiu e continua fora do círculo dele. O ensino que sai daqui é de método, e vale para a leitura de qualquer texto antigo: reconhecer um poder e aderir a ele são atos diferentes, e confundi-los faz o leitor ver adesão onde o texto registra constatação.

O que o texto não conta também ensina

Não há uma palavra sobre o que o rei sentia. Nem arrependimento, nem fingimento, nem cálculo: nada. Quem lê o versículo e conclui que o rei estava mentindo está fazendo o mesmo movimento de quem conclui que estava sincero — os dois acrescentam ao texto uma informação que ele não deu.

6. Aspectos Filosóficos

O que torna verdadeira a frase "eu errei"?

A pergunta parece simples e não é. Quando alguém diz "está chovendo", há um modo de conferir: olha-se pela janela. Quando alguém diz "eu pequei", não há janela — o único acesso ao fato que a frase descreve é a própria frase.

Três maneiras de encarar isso circulam desde a Antiguidade, e o versículo se lê de modo diferente conforme a escolhida.

A primeira trata a confissão como relato de um estado interno. Dizer "pequei" seria descrever um sentimento: remorso, pesar, vergonha. A frase é verdadeira se o sentimento existe, e falsa se não existe.

O problema é imediato, e o versículo o exibe: ninguém tem acesso ao interior de Faraó — nem o leitor, nem Moisés, nem o Êxodo. Se a verdade da frase depende de algo por princípio inacessível, ninguém pode julgá-la, e a discussão acaba antes de começar.

A segunda trata a confissão como um ato, não como um relato. Quem diz "pequei" não está descrevendo nada: está fazendo alguma coisa — assumindo uma dívida, reconhecendo um direito do outro, abrindo-se a uma cobrança. A pergunta deixa de ser se a frase é sincera e passa a ser se o compromisso foi honrado. Isso torna a coisa verificável, e custa caro: esvazia a diferença entre quem se arrepende e quem apenas cumpre um protocolo.

A terceira trata a confissão como movimento numa negociação. Dizer "errei com você" muda a posição das partes: quem confessa sobe um degrau moral e desce um degrau de força, e com isso obtém algo que a força não obteria. Não há nada de cínico em notar o cálculo — o cálculo é parte normal de como as pessoas conversam.

Nenhuma das três exclui as outras. A mesma frase pode, ao mesmo tempo, descrever um estado real, assumir um compromisso e melhorar a posição de quem fala.

O que o capítulo oferece não é solução, é um teste bruto: o que aconteceu depois. Quatro versículos adiante, nada mudou. Isso não prova que a frase era falsa no primeiro sentido, porque um sentimento verdadeiro pode não durar; prova que ela não valeu nada no segundo; e deixa o terceiro intacto, porque a negociação deu ao rei o que ele queria naquela hora.

A confissão obtida sob pressão

Há ainda uma dificuldade específica desta cena, e ela é antiga: vale alguma coisa uma admissão de culpa feita enquanto o golpe está caindo?

De um lado, a pressão dispensa a sinceridade. Quem está sendo esmagado dirá o que for necessário para que o peso saia; a fala deixa de informar sobre quem a diz e passa a informar apenas sobre o que ele quer. Por isso o direito moderno desconfia da confissão arrancada.

Do outro, a pressão é o que torna a coisa visível. Quase ninguém percebe que errou enquanto tudo vai bem. Exigir que uma confissão só valha quando nada a provoca é exigir uma condição que quase nenhuma confissão humana cumpre.

O Êxodo não decide a questão. Fornece o dado bruto: houve pressão, houve confissão, e a confissão não durou mais que o alívio.

7. Aplicações Práticas

Pedir desculpa e pedir alívio são coisas diferentes

A cena tem uma aplicação direta, porque ela se repete em escala pequena o tempo todo: alguém erra, o erro cobra um preço, e então vem a conversa.

O que o versículo mostra é a diferença entre duas frases que se parecem. Uma é "eu errei com você". A outra é "eu errei com você, e é por isso que preciso que você faça uma coisa por mim". A segunda não é desonesta — é apenas outra coisa, e quem a recebe faz bem em saber qual das duas chegou.

O teste prático é simples e não depende de adivinhar intenção: a frase vem acompanhada de algum compromisso? Faraó diz o que fez de errado e não oferece nada. Quem recebe uma desculpa assim não precisa duvidar da sinceridade de quem fala; basta notar o que está e o que não está sobre a mesa.

Mudar de ideia em público

O rei tinha expulsado os dois diante da corte, e manda chamá-los de volta com pressa. Recuar assim é caro; por isso tanta gente sustenta uma posição já perdida só para não recuar diante de testemunhas. Faraó paga o preço porque a alternativa ficou mais cara ainda — e o que se aprende daí não é moral, é prático: as pessoas costumam recuar quando o custo de não recuar passa o de recuar, e não quando entendem que estão erradas.

O reconhecimento que não repara

Há um ponto de aplicação que o versículo sustenta e que convém não esticar.

O rei reconhece a falta contra os dois homens e não faz nada a respeito dela. Não desfaz a expulsão, não restitui a concessão que tinha anunciado e retirado em Êxodo 10:11, não muda uma vírgula do que estava em disputa.

Quem já recebeu um reconhecimento assim sabe o desconforto que ele produz: é difícil rejeitar, porque o outro admitiu o erro, e é difícil aceitar, porque nada mudou. A cena não ensina o que fazer nesse caso. Ela apenas mostra que o caso existe, e que existe desde muito antes de nós.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Arão é chamado se não vai dizer nem fazer nada?

O Êxodo não responde. Dá para observar duas coisas e parar aí: Arão foi expulso junto em Êxodo 10:11, e o rei chama de volta exatamente quem pôs para fora; mas desde Êxodo 10:12 as ordens do SENHOR vêm dirigidas só a Moisés, e é Moisés sozinho quem sai e ora no versículo 18. Há, portanto, uma diferença entre quem a corte convoca e quem o texto mostra agindo — e o Êxodo não a comenta.

Faraó está mentindo?

Não há como saber, e essa é a resposta honesta. A pergunta é atraente porque o leitor já sabe o final — sabe que em quatro versículos nada terá mudado —, e com essa informação na mão é quase automático reclassificar a confissão como teatro. Mas isso é ler de trás para a frente: o que aconteceu depois mostra que a frase não teve consequência, não mostra o que ia na cabeça de quem a disse.

A confissão deste versículo é melhor ou pior que a anterior?

Depende do critério, e é por isso que os comentaristas divergem.

Pelo critério da precisão, esta é melhor: nomeia os ofendidos, coisa que a outra não fez.

Pelo critério da responsabilidade assumida, esta também é melhor: o rei não reparte mais a culpa com o povo.

Pelo critério do que se segue dela, esta é pior: a de Êxodo 9:28 vinha com uma promessa de soltar o povo, e esta não vem com nada.

Não há um critério único que decida. Quem responde "melhor" ou "pior" sem dizer com que régua está medindo não respondeu.

Quanto tempo passou entre a expulsão e esta convocação?

O capítulo permite um cálculo grosseiro e não mais que isso. Depois da expulsão, o vento oriental soprou "todo aquele dia e toda a noite" (Êxodo 10:13); os gafanhotos chegaram ao amanhecer e comeram tudo.

Então: pelo menos um dia e uma noite, mais o tempo da devastação. O Êxodo não dá datas, não nomeia meses e não informa quanto tempo se passou entre uma praga e outra em nenhum ponto da série. Qualquer cronologia mais fina do que isso é reconstrução.

9. Conexão com Outros Textos

A fórmula exata, na boca de Israel

Números 21:7 — "Veio o povo a Moisés e disse: Pecamos, porque temos falado contra o SENHOR e contra ti; ora ao SENHOR que tire de nós as serpentes. Orou Moisés pelo povo."

É a mesma estrutura, peça por peça: pecado contra o SENHOR e contra o homem, pedido de oração, praga que se quer ver retirada, Moisés que ora. A diferença está em quem fala. Ali é o povo de Israel no deserto; aqui é o rei do Egito.

Um rei que confessa contra Deus e contra um homem

1 Samuel 15:24 — "Disse Saul a Samuel: Pequei, pois transgredi a ordem do SENHOR e as tuas palavras. Tive medo do povo e obedeci à sua voz."

Saul também divide a falta em duas: contra a ordem de Deus e contra a palavra do profeta. E acrescenta o que Faraó não acrescenta — o motivo. Saul explica por que fez; Faraó não diz o que fez.

A confissão de uma frase só

2 Samuel 12:13 — "Respondeu Davi a Natã: Pequei contra o SENHOR. Tornou Natã a Davi: Também o SENHOR fez passar o teu pecado; não morrerás."

O ofendido é um só, e o profeta responde com o perdão. Aqui o rei nomeia dois ofendidos, e ninguém responde nada: Moisés não diz "está perdoado" nem "não está".

O caminho contrário: tirar o homem da conta

Salmo 51:4 — "Contra ti, contra ti só, pequei e fiz o que é mal diante dos teus olhos, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares."

O salmo faz o movimento inverso: concentra tudo em Deus e retira a parte humana. Há quem leia a frase como exagero de devoção e quem a leia como afirmação de que, diante de Deus, o dano ao homem é secundário; não é possível decidir. O contraste é que serve — um retira o homem da conta, o outro o inclui.

A confissão com dois destinatários, no Novo Testamento

Lucas 15:18 — "Levantar-me-ei, irei a meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti;"

A mesma armação de duas partes, num cenário sem praga nenhuma: uma ofensa ao alto e uma ofensa a quem está na frente. "Contra o céu" é o modo judaico de dizer "contra Deus" sem pronunciar o nome.

Uma confissão que não leva a nada

Mateus 27:4 — "dizendo: 'Pequei, traí sangue inocente.' Mas eles responderam: 'Que nos importa? A conta é sua.'"

Judas diz exatamente o que fez, que é a parte que falta a Faraó — e recebe a recusa de quem poderia agir. Aqui, ao contrário, quem é procurado atende.

A primeira confissão do mesmo rei

Êxodo 9:27 — "Então Faraó mandou chamar Moisés e Arão e lhes disse: 'Desta vez pequei. O SENHOR é o justo, e eu e o meu povo somos os culpados.'"

Lá havia um veredito e a culpa dividida com o Egito; aqui há os ofendidos nomeados e a culpa sozinha. E o leitor chega a este versículo já sabendo como terminou a vez anterior — é daí que vem a tentação de julgar a frase antes de o capítulo acabar.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Faraó apressou-se em chamar Moisés e Arão e disse: “Pequei contra o SENHOR, o seu Deus, e contra vocês.

Texto hebraico

וַיְמַהֵר פַּרְעֹה לִקְרֹא לְמֹשֶׁה וּלְאַהֲרֹן וַיֹּאמֶר חָטָאתִי לַיהוָה אֱלֹהֵיכֶם וְלָכֶם׃

Transliteração

wa-yemaher Par'oh liqro le-Mosheh u-le-Aharon wa-yomer: chatati la-YHWH Eloheikhem we-lakhem.

Análise palavra por palavra

וַיְמַהֵר — wa-yemaher, "e apressou-se".

Verbo mahar na forma intensiva do hebraico (o Piel), terceira pessoa do masculino singular, na forma que encadeia a narrativa. A raiz significa ser rápido, apressar-se.

Aqui ele governa um segundo verbo no infinitivo e funciona como advérbio: "apressou-se a chamar" quer dizer "chamou depressa". Em toda a série das pragas, este é o único lugar em que o texto qualifica a velocidade de um ato de Faraó. Nas convocações anteriores o verbo é só qara, chamar (Êxodo 8:8; 8:25), ou shalach com qara, mandar chamar (Êxodo 9:27).

חָטָאתִי — chatati, "pequei".

Verbo chata na forma simples (o Qal), perfeito, primeira pessoa do singular. Uma palavra só em hebraico; três em português.

A raiz tem um sentido concreto documentado, e ele ajuda. Em Juízes 20:16 fala-se de setecentos homens capazes de atirar uma pedra com a funda contra um fio de cabelo sem errar — e o verbo usado para "errar" é este. O campo básico é o de não acertar o alvo, não atingir a marca, falhar no que se pretendia.

Daí o sentido religioso e jurídico: a falta é o desvio de uma rota estabelecida. Não é, na origem, uma metáfora de sujeira nem de dívida — é de pontaria. A forma no perfeito indica ação concluída: o ato está feito.

לַיהוָה — la-YHWH, "contra o SENHOR".

Aqui está a peça gramatical que o português esconde. A preposição é le, que normalmente significa "a", "para", "em favor de". O hebraico não escreve "pequei contra" com uma preposição de oposição: escreve com a preposição de direção.

Ao pé da letra, a frase diz "pequei ao SENHOR". A ideia é a do alvo — de novo a pontaria: a falta foi dirigida àquele destinatário.

אֱלֹהֵיכֶם — Eloheikhem, "o Deus de vocês".

Elohim, Deus, com o sufixo de posse da segunda pessoa do masculino plural: de vocês dois. Faraó fala com dois homens e atribui o Deus aos dois. Não é "o Deus de Israel" nem "o Deus dos hebreus", que é a fórmula usada por Moisés em Êxodo 10:3. É o Deus de vocês que estão aqui na minha frente.

וְלָכֶם — we-lakhem, "e a vocês".

A mesma preposição le, agora com sufixo de segunda pessoa do masculino plural, sem repetir o verbo. Duas sílabas em hebraico, e são elas que carregam a novidade do versículo. O hebraico não precisa dizer "pequei contra vocês": basta prolongar a preposição da frase anterior — e o resultado é que as duas partes ofendidas ficam penduradas no mesmo verbo, no mesmo nível, sem hierarquia marcada na gramática.

Uma nota sobre a tradução grega antiga

O hebraico usa a mesma preposição para os dois ofendidos. A tradução grega antiga desfez a igualdade.

Ela escreveu hemarteka enantion Kyriou tou theou hymon kai eis hymas — "pequei diante do Senhor, o Deus de vocês, e contra vocês". Duas preposições diferentes: enantion, "diante de", para Deus, e eis, "para dentro de", "contra", para os homens.

O efeito é curioso. O grego abranda a ofensa a Deus, que passa a ser cometida "na presença" dele em vez de contra ele, e mantém a ofensa aos homens como golpe direto. Se a escolha foi teológica — evitar dizer que alguém atinge Deus — ou apenas estilística, não é possível decidir; mas o resultado, em grego, é uma frase com dois pesos, e em hebraico é uma frase com um só.

11. Conclusão

A confissão do rei do Egito é, do ponto de vista do que afirma, correta. Ele ofendeu o SENHOR e ofendeu os dois homens, e diz as duas coisas. Nenhuma parte da frase é falsa.

Conclui-se daí que o problema de uma confissão não está necessariamente no que ela diz. Está no que ela não traz junto. Esta não traz o que ele fez, não traz reparação e não traz compromisso — e é a única das negociações da série em que o rei não promete soltar o povo.

Conclui-se também que o Êxodo mede o rei por atos, não por declarações: registra a fala inteira, sem cortar e sem ironizar, e deixa que os versículos seguintes façam o resto.

E há uma conclusão de método. O texto não abre a cabeça de Faraó em nenhum momento. Quem afirma que ele mentiu e quem afirma que ele estava sincero cometem o mesmo excesso, e nenhum dos dois pode apoiar-se no que está escrito.

Por fim, a pressa. Ela é o dado mais objetivo do versículo, e o que ela mede é a dimensão do estrago, não a do arrependimento. O rei corre porque o país acabou de perder tudo o que era verde. É possível que, correndo, ele estivesse dizendo a verdade; o que o capítulo mostra é que a verdade dita naquela hora não sobreviveu ao alívio.

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