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Êxodo 10:13

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 25 acessos
Moisés estendeu o seu cajado sobre a terra do Egito, e o SENHOR conduziu um vento oriental sobre a terra todo aquele dia e toda a noite. Quando amanheceu, o vento oriental trouxe os gafanhotos.
Campo egípcio sob vento forte ao amanhecer: as tamareiras vergam todas para o mesmo lado, o ar está carregado de poeira dourada e, no horizonte claro, forma-se uma faixa escura que se aproxima.

Estudo


Moisés estendeu o seu cajado sobre a terra do Egito, e o SENHOR conduziu um vento oriental sobre a terra todo aquele dia e toda a noite. Quando amanheceu, o vento oriental trouxe os gafanhotos.

1. Introdução

Moisés faz o gesto, e não acontece nada.

O que começa é um vento, e o vento trabalha um dia inteiro e uma noite inteira antes de trazer o que foi anunciado. Entre o ato e o resultado há um intervalo medido — e o Êxodo, que costuma pular o tempo, se dá ao trabalho de contá-lo. Quem conduz o vento não é quem estendeu o cajado: a frase troca de sujeito no meio. E os gafanhotos chegam de manhã, o que cumpre à risca o "amanhã" prometido ao rei.

2. Contexto Histórico e Cultural

No Egito, o vento bom vinha do norte

Para ouvir o que "vento oriental" significava para quem morava ali, é preciso saber de que lado vinha o vento que eles queriam.

O Egito é um vale estreito, e a vida dele depende de um rio que corre do sul para o norte. Quem desce o rio vai com a correnteza. Quem sobe precisa de vento — e o vento que sobe o vale, no verão, é o do norte, vindo do Mediterrâneo.

Essa dependência ficou gravada na própria escrita. O sinal hieroglífico para "ir ao sul" é um barco com a vela erguida; o de "ir ao norte" é um barco com a vela recolhida, descendo só pela corrente. Um povo escreve assim quando o vento do norte faz parte da geografia mental dele.

E o mesmo vento era o alívio térmico. Vindo do mar, entra no vale com ar mais fresco e mais úmido, e é ele que torna o verão suportável. Os textos egípcios o tratam como coisa boa por definição: as orações funerárias pedem para o morto o sopro doce do vento do norte, e a palavra para vento é a mesma para fôlego e respiração — escrita, aliás, com o sinal de uma vela de barco inflada.

Os quatro ventos tinham lugar na religião

O assunto não era só clima. No Livro dos Mortos — a coleção de fórmulas que acompanhava o morto egípcio, copiada em papiro e em parede desde meados do século XVI antes de Cristo — há uma fórmula dedicada exatamente a isso.

Nela, o deus Tot abre quatro aberturas no céu, uma para cada vento, e cada vento tem uma tarefa declarada: entrar pelo nariz do morto. A fórmula era copiada com uma ilustração que mostra a abertura do céu e a saída dos ventos, e serviu do Império Novo até a época romana — um dos textos funerários de uso mais longo que o Egito produziu.

Leia a tarefa de novo, porque ela explica tudo o que vem depois: o vento entra pelo nariz e é o que faz viver. Vento, no Egito, é respiração; respiração é vida; e os quatro ventos são portas do céu que Tot abre para que o morto volte a respirar.

E o vento de leste é o que vem do deserto

Agora o contraste fica claro. De norte vem o mar. De leste vem a areia.

O vento que sobe do deserto oriental não traz fôlego: traz calor seco e pó fino. Ele é conhecido, tem nome árabe moderno e tem tratamento próprio no estudo de Gênesis 41:6, onde o assunto aparece pela primeira vez — e onde se mostra o que ele faz com uma lavoura.

O que importa acrescentar aqui é a inversão. A praga deste capítulo chega pelo vento errado. Num país cuja religião funerária pede que os ventos entrem pelo nariz do morto para que ele viva, o que entra é o vento do lado seco, e o que ele carrega come o que estava vivo.

Um vento que trabalha por encomenda

Falta um dado de fundo, e ele é técnico. Gafanhoto voa mal sozinho.

Um bando em migração não escolhe o rumo: vai para onde o ar o leva, e sem vento sustentado não atravessa distância nenhuma. Essa dependência era conhecida dos observadores antigos e é mencionada pelos comentaristas do século XIX, que a usavam para explicar por que os relatos de invasão sempre começam com uma mudança de vento.

É esse o detalhe que o versículo trata como dado, e não como explicação: o vento vem primeiro, trabalha um dia e uma noite, e só então aparece o bando. A ordem dos fatos está certa do ponto de vista de quem conhece o bicho — e o texto não a apresenta como causa natural, apresenta-a como execução de uma ordem.

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés estendeu o seu cajado sobre a terra do Egito"

A ordem do versículo anterior dizia "a mão". Ele estende o cajado — e o texto acrescenta um possessivo: o seu cajado.

Nas primeiras pragas, o objeto em ação era o de Arão. Desde o granizo, é o de Moisés, e o estudo de Êxodo 9:23 examina a alternância entre "mão" e "cajado" nas ordens e na execução. Aqui o dado novo é só o pronome: o instrumento tem dono, e o dono é quem age.

"e o SENHOR conduziu um vento oriental sobre a terra"

No meio da frase, o sujeito muda. Moisés estendeu; o SENHOR conduziu. São duas orações e dois agentes, e o segundo não é uma consequência do primeiro — é outra ação, com outro sujeito, posta ao lado.

O verbo escolhido é o que mais diz. Ele não significa "soprar" nem "enviar": significa tocar adiante, como se toca um rebanho ou uma boiada. É o verbo do vaqueiro e do tropeiro, usado no Antigo Testamento para gente que leva gado de um lugar a outro. Aplicado ao vento, transforma a corrente de ar em animal conduzido — e quem o conduz vai atrás, empurrando, durante todo o tempo que o versículo vai medir em seguida.

"vento oriental" — e aqui entra a única divergência textual do versículo, que vale expor pelo que ela ensina.

O hebraico diz leste. A tradução grega antiga, a Septuaginta, diz sul. A diferença é de uma palavra e mudou séculos de comentário.

Por que os tradutores gregos teriam trocado? A explicação corrente é geográfica: quem conhecia o Egito sabia que as invasões de gafanhoto costumam vir do sul, das regiões acima da primeira cachoeira do Nilo. O tradutor teria, nessa hipótese, corrigido o texto para o que sabia do mundo.

Os comentaristas modernos em geral defendem o hebraico. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) argumentam que bandos vindos do leste, da Arábia do norte, são documentados; o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) cita a observação do viajante francês Vivant Denon, que viu uma nuvem enorme entrar no Egito pelo lado leste. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) registra a mesma divergência e conclui pelo leste, apontando que o hebraico não é ambíguo.

Duas coisas ficam disso. A primeira é que o Êxodo diz leste e não explica por quê. A segunda é mais útil: tradutores antigos mexiam no texto quando ele contrariava o que sabiam, e esta é uma das ocasiões em que se pode flagrar o gesto.

"todo aquele dia e toda a noite"

Esta é a frase do versículo. E o que ela faz é raro no Êxodo: mede o tempo.

O livro costuma passar por cima da duração. As pragas anteriores acontecem — a água vira sangue, as rãs sobem, o granizo cai — e o texto raramente diz quanto durou o processo. Aqui a medida é dupla e completa: o dia inteiro, e a noite inteira.

Três consequências saem disso.

A primeira: o gesto não produziu efeito imediato. Moisés estendeu o cajado e, pelas horas seguintes, não havia gafanhoto nenhum. Havia vento. Quem estivesse olhando não teria como distinguir aquilo de um mau tempo qualquer.

A segunda: o prazo anunciado foi cumprido com exatidão. No versículo 4 a ameaça dizia "amanhã". Um dia e uma noite de vento levam exatamente à manhã seguinte — e é na manhã seguinte que o bando aparece. A conta fecha.

A terceira: o vento também é castigo. Vinte e quatro horas de vento seco do deserto não são um prelúdio inofensivo. Antes de o primeiro inseto chegar, o país já passou um dia e uma noite dentro daquilo.

"Quando amanheceu, o vento oriental trouxe os gafanhotos."

A frase fecha o ciclo, e o hebraico a constrói com uma expressão curta: "a manhã foi" — isto é, quando a manhã veio.

O verbo aplicado ao vento muda de novo. Antes ele era conduzido; agora ele carrega, com o verbo de quem levanta e transporta um peso. O bando não vem por conta própria em nenhum momento da frase: é levantado e posto ali.

E repare no que continua faltando. O Êxodo não diz de onde os gafanhotos vieram. Diz o rumo do vento, o tempo que ele soprou e a hora em que a carga chegou — e nada sobre a procedência. Todas as origens propostas pelos comentaristas, da Arábia à Núbia, são deduções feitas a partir da direção do vento, não informação do texto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

Executa sozinho e em silêncio. Não há fala dele no versículo, não há oração, não há fórmula. Entre a ordem do versículo 12 e o gesto deste não se registra sequer um deslocamento: o texto não diz onde ele estava, nem se havia alguém vendo.

É a segunda praga em que ele age com o próprio cajado. A primeira foi o granizo, no capítulo 9.

O cajado

O objeto entrou no livro em Êxodo 4:17, quando Deus mandou levá-lo na mão para fazer os sinais, e Êxodo 4:20 o chamou de "o cajado de Deus". Aqui ele é "o seu cajado" — o de Moisés.

Nas pragas iniciais, quem manejava um cajado diante do rei era Arão; desde o granizo, é Moisés.

O vento oriental

É personagem do versículo, e o texto o trata como tal: ele é conduzido, sopra e carrega. Não é pano de fundo.

No Antigo Testamento, o vento de leste aparece quase sempre ligado a secura e a destruição — é o vento que resseca a planta, que estraga o que está a caminho de amadurecer e que se abate sobre quem o texto quer mostrar em desgraça. O tratamento do fenômeno em si, e do nome pelo qual ele é conhecido no Egito moderno, está no estudo de Gênesis 41:6.

Os gafanhotos

Chegam de manhã. Até este ponto do capítulo eles tinham sido anunciados duas vezes — ao rei, no versículo 4, e na ordem a Moisés, no versículo 12 — e não haviam aparecido.

De onde vieram, o livro não diz. As propostas dos comentaristas dividem-se entre a Arábia do norte, pelo rumo do vento que o hebraico registra, e as regiões ao sul do Egito, pelo rumo que a tradução grega antiga registra. Nenhuma das duas está no texto.

"Todo aquele dia e toda a noite"

Não é um personagem, e é o elemento mais trabalhado do versículo. O Êxodo raramente cronometra as pragas; aqui dá o período completo, nas duas metades em que o dia antigo se divide.

A medida encaixa no prazo que fora dado ao rei: a ameaça do versículo 4 dizia "amanhã", e um dia mais uma noite de vento levam à manhã seguinte.

O que se passou antes

A audiência terminou com a expulsão de Moisés e Arão, no versículo 11. Deus então ordenou o gesto, no versículo 12, definindo o alvo: a erva da terra, e dentro dela o que o granizo tinha deixado. Este versículo executa a ordem e acrescenta o que ela não continha — o meio pelo qual a praga chega.

5. Pontos de Ensino

O efeito não veio junto com o gesto

Moisés estendeu o cajado e passou-se um dia e uma noite antes de qualquer resultado visível. Quem estivesse olhando naquele intervalo não veria praga nenhuma — veria vento.

O texto troca de sujeito no meio da frase

Moisés estende; o SENHOR conduz. São duas ações e dois agentes, e a segunda não é apresentada como consequência da primeira. O Êxodo poderia ter escrito "e veio um vento"; escreveu quem o trouxe.

O prazo dado foi cumprido

A ameaça do versículo 4 dizia "amanhã". Um dia e uma noite de vento levam à manhã seguinte, e é ali que os gafanhotos aparecem. O aviso não era vago, e a conta fecha sem ajuste.

O caminho da praga é descrito; a origem dela, não

O versículo informa o rumo, a duração e a hora, e nada sobre de onde vieram os insetos. As origens propostas pelos comentaristas são deduções do rumo do vento. Conhecer o mecanismo não é o mesmo que conhecer a fonte.

O vento é conduzido como se conduz gado

A palavra escolhida no original é a de quem toca um rebanho adiante. Não é imagem decorativa: ela põe uma corrente de ar na posição de animal levado, e mantém quem o leva presente durante as vinte e quatro horas que o versículo mede.

Um tradutor antigo mexeu no texto, e dá para ver

Onde o hebraico diz leste, a tradução grega antiga diz sul — provavelmente porque quem traduzia sabia de onde os gafanhotos costumam entrar no Egito. É um lembrete útil: versões antigas às vezes corrigem o que lhes parece errado, e comparar as duas mostra onde isso aconteceu.

6. Aspectos Filosóficos

O que acontece com um ato enquanto o seu efeito não chega?

O versículo abre um intervalo e o mede: um dia e uma noite entre o gesto e o resultado. Vale perguntar o que existe dentro desse intervalo, porque não é nada.

Imagine a cena pelos olhos de quem estivesse presente. Um homem levanta um cajado sobre o país. Nada acontece. Começa a ventar — e o vento é coisa comum, sobretudo naquela estação. Passa a tarde, passa a noite. Até a manhã seguinte, quem viu o gesto não tem como saber se ele foi um ato ou uma pose.

Por que a demora muda o problema

Um efeito imediato dispensa interpretação. Se o bando tivesse aparecido no instante do gesto, a ligação entre as duas coisas se imporia a qualquer testemunha, inclusive às hostis.

Um efeito adiado exige outra coisa. Entre o ato e o resultado entram horas em que qualquer explicação cabe: coincidência, estação do ano, vento que já vinha vindo. Quanto maior o intervalo, mais frouxo fica o laço — e mais depende de quem viu o começo ter memória e ter dito antes o que ia acontecer.

É por isso que o anúncio prévio importa tanto neste capítulo. O que amarra o gesto ao resultado não é a proximidade no tempo; é a palavra dita na véspera, diante de testemunhas, com data marcada. Sem o "amanhã" do versículo 4, o dia e a noite de vento seriam apenas um dia e uma noite de vento.

O outro lado do intervalo

Há um segundo aspecto, e ele não é sobre prova — é sobre quem espera.

Quem executou o gesto passou essas horas sem nenhuma confirmação de que tinha servido para alguma coisa. O Êxodo não conta o que Moisés fez nesse tempo, não descreve dúvida nem confiança, não põe uma palavra dele na página. O silêncio é do texto, e convém não preenchê-lo com sentimentos que ele não atribui.

O que se pode observar é a forma do episódio: uma ação humana pequena e verificável, um período em que nada a confirma, e um resultado que chega por um meio que quem agiu não controla. Essa forma aparece em outros lugares do livro, e ela é o contrário da mágica — na mágica o efeito é imediato e pertence a quem faz o gesto.

Onde o exame para

Nada disso responde a como a coisa aconteceu, e não é esse o assunto aqui. As explicações naturais propostas para as pragas, com os nomes de quem as defende e o preço de cada uma, estão no estudo de Êxodo 8:24.

7. Aplicações Práticas

O intervalo entre fazer e ver

Entre o gesto de Moisés e o resultado passa-se um dia e uma noite. Não é muito tempo, e é tempo suficiente para que quem agiu não tenha nenhuma confirmação do que fez.

Quase tudo o que vale a pena funciona assim. A conversa difícil que se teve ontem, o tratamento que começou esta semana, o dinheiro guardado, a carta enviada, o filho corrigido. O ato termina e o resultado demora — às vezes um dia, às vezes anos —, e no meio há um período em que tudo parece igual a antes.

Aguentar esse período sem refazer o que já foi feito é, na prática, a parte difícil. Quem repete o gesto a cada hora por falta de confirmação normalmente atrapalha o processo que ele mesmo começou.

Ter dito antes é o que segura a conta depois

O que liga o gesto ao resultado, neste capítulo, não é a proximidade no tempo: é a palavra dita na véspera, com data. "Amanhã", disse o versículo 4 — e foi amanhã.

Em qualquer relação em que a confiança está em jogo, é isso que se pode fazer de mais útil e de mais barato: dizer antes o que vai acontecer, e com prazo. Quem só explica depois está sempre no terreno da interpretação; quem anunciou antes tem um registro.

Reconhecer o que não está nas suas mãos

Moisés estende o cajado. Não conduz o vento, não escolhe a direção dele, não decide a hora da chegada. A frase separa as duas coisas com clareza, e não há nenhum esforço do texto em atribuir a ele mais do que o gesto.

Fazer essa separação honestamente — isto o fiz eu, aquilo não depende de mim — é o que impede dois excessos comuns: o orgulho de quem se credita o resultado e o desânimo de quem se culpa por ele.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto mede o tempo, se em outras pragas não mede?

O Êxodo não explica. Duas leituras circulam: a medida serve para mostrar que o prazo anunciado ao rei — "amanhã", no versículo 4 — foi cumprido com exatidão; ou serve para registrar que a praga chegou por um processo, e não por aparição instantânea. As duas se sustentam, não se excluem, e o texto não escolhe.

O vento de leste ou o vento de sul?

O hebraico diz leste; a tradução grega antiga diz sul. A explicação mais aceita para a diferença é que o tradutor conhecia o Egito e sabia que os bandos costumam entrar pelo sul. Os hebraístas modernos em geral mantêm o leste, e citam bandos documentados vindos da Arábia do norte. Não é possível decidir pela evidência interna, e o que o versículo diz é leste.

De onde vieram os gafanhotos?

O Êxodo não informa, aqui nem em nenhum outro lugar. Toda origem proposta — Arábia, Núbia, deserto oriental — é dedução a partir do rumo do vento. O texto dá o transporte e cala sobre a procedência.

Moisés desobedeceu ao usar o cajado, se a ordem dizia "mão"?

Não. O cajado estava na mão, e o próprio livro alterna os dois modos de dizer para o mesmo gesto, ora na ordem, ora na execução. O que o versículo acrescenta é apenas o possessivo: o cajado é dele.

O vento em si já fazia estrago?

O versículo não diz, e não seria estranho que fizesse — um dia e uma noite de vento seco do deserto não passam sem consequência. Mas o texto atribui o dano aos gafanhotos, nos versículos 14 e 15, e não ao vento. Acrescentar prejuízo ao vento é completar o relato por conta própria.

Se o vento trouxe os insetos, a praga é natural?

A pergunta é legítima e o versículo não a resolve: ele descreve um meio conhecido — bando transportado por vento sustentado — e atribui a condução desse vento a um sujeito nomeado. As duas coisas estão na mesma frase, e o Êxodo não as opõe. As explicações naturais propostas para as pragas, com nomes e ressalvas, têm exame próprio no estudo de Êxodo 8:24.

9. Conexão com Outros Textos

O prazo que este versículo cumpre

Êxodo 10:4 — "Porque, se você se recusar a deixar o meu povo ir, eis que amanhã trarei gafanhotos ao seu território."

Um dia e uma noite de vento levam exatamente à manhã seguinte.

A ordem que ele executa

Êxodo 10:12 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Estenda a mão sobre a terra do Egito, para que venham os gafanhotos sobre a terra do Egito e comam toda a erva da terra, tudo o que o granizo deixou.'"

O vento de leste no resto da Bíblia

Oseias 13:15 — "…virá o vento oriental, vento do SENHOR, subindo do deserto; a fonte dele secará, a nascente dele se esgotará, e ele saqueará o tesouro de tudo o que é precioso."

A mesma combinação: vento de leste, atribuído ao SENHOR, subindo do deserto e levando o que era valioso.

Jonas 4:8 — "E aconteceu que, ao nascer do sol, Deus preparou um vento oriental abrasador; e o sol feriu a cabeça de Jonas, de modo que ele desfalecia e desejava a morte."

Gênesis 41:6 — "Depois delas brotavam outras sete espigas, mirradas e crestadas pelo vento oriental."

Um vento que traz o que se come, e outro que traz o que come

Números 11:31 — "Então soprou um vento da parte do SENHOR, que trouxe codornizes do mar e as deixou cair sobre o acampamento…"

O mesmo desenho — vento enviado, animais trazidos, acampamento coberto —, com o resultado invertido: ali é comida caindo do céu, aqui é a comida sendo levada.

Salmo 78:26 — "Fez soprar nos céus o vento do oriente, e pelo seu poder trouxe o vento do sul."

O salmo que reconta o episódio das codornizes nomeia os dois ventos — e é esse mesmo par que separa o hebraico da tradução grega antiga neste versículo.

A praga resumida numa frase

Salmo 105:34 — "Ele falou, e vieram gafanhotos, e pulgões sem número."

Sem cajado, sem vento, sem manhã: o salmo guarda só a palavra e o resultado.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés estendeu o seu cajado sobre a terra do Egito, e o SENHOR conduziu um vento oriental sobre a terra todo aquele dia e toda a noite. Quando amanheceu, o vento oriental trouxe os gafanhotos.

Texto hebraico

וַיֵּט מֹשֶׁה אֶת־מַטֵּהוּ עַל־אֶרֶץ מִצְרַיִם וַיהוָה נִהַג רוּחַ קָדִים בָּאָרֶץ כָּל־הַיּוֹם הַהוּא וְכָל־הַלָּיְלָה הַבֹּקֶר הָיָה וְרוּחַ הַקָּדִים נָשָׂא אֶת־הָאַרְבֶּה׃

Transliteração

wa-yet Mosheh et-matehu al-erets Mitsrayim, wa-YHWH nihag ruach qadim ba-arets kol-ha-yom ha-hu we-khol-ha-laylah; ha-boqer hayah, we-ruach ha-qadim nasa et-ha-arbeh.

Análise palavra por palavra

וַיֵּט מֹשֶׁה אֶת־מַטֵּהוּ — wa-yet Mosheh et-matehu, "e Moisés estendeu o seu cajado".

O verbo wa-yet é a forma narrativa, abreviada, de natah, estender — o mesmo verbo do imperativo do versículo anterior.

Matehu é matteh, cajado, bordão, vara, com o sufixo de terceira pessoa: o cajado dele. A ordem falara em "mão"; a execução traz o objeto, e traz com dono.

Há um detalhe de som que o hebraico produz e o português perde: o verbo e o substantivo vêm da mesma raiz de três letras, n-t-h, "estender", "inclinar". Um matteh é literalmente "aquilo que se estende". A frase, portanto, soa como "e estendeu Moisés o seu estendedor".

וַיהוָה נִהַג רוּחַ קָדִים — wa-YHWH nihag ruach qadim, "e o SENHOR conduziu um vento oriental".

A construção interrompe a cadeia narrativa e põe o nome divino na frente do verbo. Isso não é acaso de estilo: em hebraico, adiantar o sujeito separa a ação das anteriores e a destaca. Moisés estendeu — e o SENHOR, ele, conduziu.

Nihag é o verbo nahag no Piel, a forma intensiva. O sentido básico não é soprar nem enviar: é tocar adiante, conduzir de trás, e o uso mais comum na Bíblia hebraica é com gado. É o verbo de quem leva um rebanho de um lugar para outro, e aparece assim em vários lugares do Gênesis.

Aplicado ao vento, o verbo o coloca na posição de animal conduzido — e mantém, durante todo o período que a frase vai medir, alguém atrás dele tocando.

Ruach é uma das palavras mais largas do hebraico: vento, sopro, fôlego, espírito. Aqui o sentido é meteorológico, e o versículo não joga com os outros.

Qadim é o vento de leste. O nome vem de qedem, que significa ao mesmo tempo "leste" e "o que está à frente", porque a orientação hebraica se toma de rosto voltado para o nascente. O campo semântico da palavra e o fenômeno que ela designa estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 41:6.

בָּאָרֶץ כָּל־הַיּוֹם הַהוּא וְכָל־הַלָּיְלָה — ba-arets kol-ha-yom ha-hu we-khol-ha-laylah, "sobre a terra, todo aquele dia e toda a noite".

Duas vezes kol, "todo". O hebraico não diz "um dia e uma noite": diz o dia inteiro, aquele dia, e a noite inteira. A insistência é do texto.

O par dia-e-noite é o modo hebraico de dizer o período completo de vinte e quatro horas, e a ordem aqui segue a contagem que começa pela luz. Somados, levam à manhã seguinte — que é a palavra seguinte da frase.

הַבֹּקֶר הָיָה — ha-boqer hayah, "a manhã foi".

Três sílabas para marcar a virada. A construção é curta e seca, sem conjunção que a ligue ao que veio antes: acaba a noite, e a frase recomeça.

וְרוּחַ הַקָּדִים נָשָׂא אֶת־הָאַרְבֶּה — we-ruach ha-qadim nasa et-ha-arbeh, "e o vento oriental carregou o gafanhoto".

O vento reaparece, agora com artigo — "o vento oriental", aquele mesmo — e como sujeito de um verbo novo.

Nasa significa levantar, erguer, carregar, transportar. É palavra de peso: usa-se para quem levanta um fardo, para quem carrega alguém nos braços e, num sentido derivado, para quem carrega uma culpa ou a perdoa. Nada nela sugere leveza.

Aplicada aqui, a escolha diz que o bando foi levantado e trazido, e não que ele veio. Em nenhuma parte do versículo os gafanhotos são sujeito de alguma coisa: eles são conduzidos pelo vento, que por sua vez é conduzido por outro.

Ha-arbeh, o gafanhoto, vem no singular com artigo, funcionando como coletivo — um substantivo designando o bando inteiro.

A cadeia do versículo

Vale ver a frase de uma vez, porque a estrutura é limpa. Moisés estende o cajado; o SENHOR conduz o vento; o vento carrega o bando. São três elos, cada um com o seu verbo, e o primeiro não produz o segundo — o texto apenas os põe em sequência.

11. Conclusão

Deste versículo se conclui, primeiro, que a praga chegou por um processo, e não por aparição. Houve um gesto, houve vinte e quatro horas de vento e houve uma chegada ao amanhecer. O Êxodo, que quase nunca cronometra as pragas, aqui mede o intervalo nas duas metades do dia — e a medida fecha exatamente o prazo que tinha sido dado ao rei.

Segundo, o texto distribui as ações entre agentes diferentes e não confunde nenhum. Moisés estende o cajado; o SENHOR conduz o vento, com o verbo de quem toca um rebanho adiante; o vento carrega o bando, com o verbo de quem levanta um peso. Os gafanhotos não são sujeito de coisa nenhuma na frase. E o que Moisés fez não é apresentado como causa do que veio depois: é o primeiro de três elos postos em sequência.

Terceiro, o meio é descrito e a origem é omitida. Sabe-se o rumo do vento, a duração dele e a hora da chegada; não se sabe de onde os insetos vieram, e o livro não dirá em lugar nenhum. As procedências propostas pelos comentaristas — a Arábia, pelo hebraico; as regiões do sul, pela tradução grega antiga — são deduções do rumo, e é honesto tratá-las como tais.

Fica, por fim, um dado que a comparação das versões torna visível e que o Êxodo não resolve: onde o hebraico diz leste, a Septuaginta diz sul. A divergência é de uma palavra, não muda o relato e mostra uma coisa que vale para todo o acervo — traduzir é decidir, e às vezes é possível flagrar a decisão.

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