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Êxodo 10:12

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 28 acessos
Então o SENHOR disse a Moisés: “Estenda a mão sobre a terra do Egito, para que venham os gafanhotos sobre a terra do Egito e comam toda a erva da terra, tudo o que o granizo deixou.”
Homem de manto escuro, sozinho num descampado do Egito ao entardecer, com o braço erguido apontando para a extensão dos campos verdes do vale; ao fundo, tamareiras e o rio, e nenhum outro vulto à vista.

Estudo


Então o SENHOR disse a Moisés: “Estenda a mão sobre a terra do Egito, para que venham os gafanhotos sobre a terra do Egito e comam toda a erva da terra, tudo o que o granizo deixou.”

1. Introdução

A negociação acabou e a ordem chega direto a Moisés.

Arão não é mencionado — nem aqui, nem em nenhuma das ordens seguintes do capítulo. A instrução é breve e define o alvo com precisão: a erva da terra, e dentro dela tudo o que o granizo tinha deixado. O que a praga anterior poupou é o que esta vai comer, e a frase diz isso antes de o primeiro gafanhoto aparecer.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que se fazia quando o bando estava vindo

Um lavrador do mundo antigo não ficava parado esperando. Havia um repertório de providências contra gafanhoto, e conhecê-lo é o que permite medir o que este versículo anuncia.

As providências físicas eram três, e todas exigiam gente e tempo.

Atacar antes de o bicho voar. O gafanhoto passa semanas no chão, sem asas funcionais, avançando a pé em faixas compactas. Nesse estágio ele pode ser enterrado, queimado ou esmagado. É o único momento em que a luta tem alguma chance.

Cavar valas. Abriam-se trincheiras no caminho da frente que avançava, a turma empurrava os insetos para dentro com ramos e fumaça, e depois cobria tudo com terra.

Fazer barulho e fogo. Contra o bando já em voo restava tentar desviá-lo: fumaça, gritaria, batidas em metal. Os relatos antigos e modernos concordam que o resultado é quase nulo — desvia-se o que passa por cima, não o que desce para comer.

A lei que transformou isso em obrigação militar

O documento mais organizado que a Antiguidade deixou sobre o assunto vem de Cirene, na costa do norte da África, e chegou até nós pelo mesmo naturalista romano do século I que o estudo de Êxodo 10:5 cita a propósito dos estragos.

Ele registra que ali havia uma lei obrigando a fazer guerra aos gafanhotos três vezes por ano, e nas três fases do bicho: primeiro destruindo os ovos, depois as formas jovens que ainda andam no chão, por último os adultos alados. Quem faltasse à convocação era punido como desertor.

Leia de novo a última frase, porque é ela que dá a medida. Faltar à campanha contra gafanhoto tinha a mesma pena que abandonar o exército. Não era jardinagem: era defesa do território, com calendário, mobilização e castigo.

E quando não dava mais

Quando o bando já estava no ar, sobrava o que se fazia diante de qualquer desastre que não se pode deter: pedir.

Na Mesopotâmia há orações e fórmulas contra as pragas do campo, dirigidas aos deuses responsáveis pela lavoura. Em Israel, o gafanhoto entra numa lista oficial. Na oração de dedicação do templo, em 1 Reis 8:37, ele aparece ao lado da fome, da peste, do crestamento e do cerco inimigo, como um dos casos em que o povo deve vir orar — isto é, como desgraça para a qual a resposta prevista não é técnica.

Por que nada disso serve aqui

Postas as opções sobre a mesa, o anúncio deste capítulo aparece pelo que é.

O aviso foi dado para o dia seguinte. Nenhuma das providências conhecidas funciona em um dia: destruir ovos supõe semanas de antecedência e um lugar onde procurá-los; cavar valas supõe saber por onde a frente vem andando. Um bando que chega voando, de um dia para o outro, é justamente o caso em que o repertório inteiro não tem o que fazer.

E há um segundo ponto, que o versículo põe na frase e ninguém pode conferir: o alvo está definido de antemão. Não é "a lavoura" em geral — é "tudo o que o granizo deixou". Um bando de gafanhotos come o que encontra; esta ordem diz, antes do fato, exatamente qual resto será comido.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então o SENHOR disse a Moisés"

Um nome só. E é este o dado do versículo.

Arão esteve na sala até quatro versículos atrás: foi ele quem entrou com Moisés no versículo 3, foi ele quem foi trazido de volta no versículo 8, foi ele quem saiu expulso no versículo 11. A partir desta ordem, o nome dele desaparece do capítulo até o versículo 16, quando o rei manda chamar os dois de novo — e nas ordens de Deus não volta mais.

Vale medir a mudança com cuidado, porque ela não começa aqui. Nas primeiras pragas quem estendia a mão e quem segurava o cajado era Arão: a água, as rãs, os piolhos. No granizo, no capítulo 9, o executor já tinha passado a ser Moisés. Este versículo confirma o arranjo e acrescenta uma coisa — agora Arão não é sequer mencionado como destinatário da fala.

Por que a troca, o Êxodo não diz em nenhum lugar. Uma explicação corrente liga o papel de Arão à dificuldade de fala de Moisés, declarada em Êxodo 4:10, e supõe que ela deixa de fazer diferença quando o que se exige não é falar, e sim agir. É leitura, não está escrita, e o próprio texto a complica: aqui, e nas pragas anteriores em que Arão agiu, quem fala com o rei é sempre Moisés.

"Estenda a mão sobre a terra do Egito"

A ordem é de gesto, não de fala. Não há aqui nenhuma mensagem a entregar, nenhum "assim diz o SENHOR", nenhuma nova chance dada ao rei. A conversa acabou no versículo 11, e o que vem agora é execução.

A ordem diz "mão"; o versículo seguinte mostrará Moisés estendendo o cajado. A alternância entre as duas coisas não é novidade e o estudo de Êxodo 9:23 já a examinou — o cajado estava na mão, e os dois modos de dizer aparecem trocados nas pragas anteriores.

Repare ainda no alvo do gesto: "sobre a terra do Egito". Não sobre o Nilo, não sobre o pó, não para o céu. O gesto aponta para o país inteiro — e é a primeira vez no livro que uma ordem dessas tem o território como alvo direto.

"para que venham os gafanhotos sobre a terra do Egito"

A expressão "a terra do Egito" aparece duas vezes na mesma frase, coladas. O hebraico não evita a repetição, e o efeito é o de um cerco: o gesto é sobre o país, e o que vem é sobre o país.

Repare também no verbo: os gafanhotos sobem, no original. É o verbo do que sobe de baixo ou de fora para dentro de um território, o mesmo com que os textos antigos descrevem um exército que avança sobre uma terra. A escolha é discutida — pode ser simplesmente a palavra usual para a chegada de um bando — e o item 10 trata dela.

Falta um dado na ordem, e a falta é notável: não se diz de onde eles vêm. O versículo 13 dirá que o vento os trouxe, e nem ali há origem geográfica. O Êxodo descreve o transporte e não a procedência.

"e comam toda a erva da terra"

A palavra traduzida por "erva" designa a vegetação rasteira que cresce do chão: o capim, a hortaliça, o cereal enquanto ainda é verde. Não é a árvore, que aparece à parte no versículo 15, e não é o grão guardado no celeiro.

É, portanto, a camada que alimenta duas coisas ao mesmo tempo — a mesa das pessoas e o pasto dos animais. Uma praga que come a erva não atinge só quem planta; atinge também o que sobrou dos rebanhos.

O "toda" merece a ressalva de sempre. O próprio capítulo 9 mostrou o Êxodo usando fórmulas totais e depois detalhando o que escapou, nos versículos 31 e 32. Ler esses "todos" com rigor de contabilidade é forçar o texto para além do que ele faz.

"tudo o que o granizo deixou"

A última frase é a que encaixa esta praga na anterior, e ela funciona como um balanço.

O granizo do capítulo 9 não destruiu tudo. Derrubou o linho e a cevada, que estavam adiantados, e poupou o trigo e a espelta, que ainda não tinham crescido — a conta está em Êxodo 9:31-32. O que ficou de pé foi exatamente o que garantia a comida do ano seguinte.

E é esse resto que a ordem nomeia como alvo. A frase não descreve o que os gafanhotos farão por acaso; define o objeto da operação. O verbo hebraico usado para "deixar" é o de quem poupa deliberadamente alguma coisa, o mesmo campo do "restante" que sobra de um desastre.

Daí um ponto que costuma passar despercebido: a oitava praga só faz sentido depois da sétima. Se o granizo tivesse arrasado tudo, não haveria o que comer. O anúncio pressupõe o balanço da praga anterior e se encaixa nele — e é essa articulação, e não o tamanho do bando, que faz o peso do versículo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés, sozinho

Ele recebe a ordem sem intermediário e sem companhia. É o único personagem humano nomeado no versículo.

A posição dele mudou ao longo do livro, e vale ver o trajeto. No começo, em Êxodo 4:10, ele alega não saber falar; em Êxodo 4:16, Arão é designado para ser a boca dele. Nas primeiras pragas, Arão também é a mão: é o cajado dele que fere a água e o pó. A partir do granizo, no capítulo 9, quem estende é Moisés. Aqui a transferência se completa — Arão nem sequer aparece na fala.

Arão, ausente

Ele não está no versículo e esteve em todos os anteriores da cena. Voltará a ser nomeado no versículo 16, chamado pelo rei junto com Moisés, e nas ordens de Deus deste capítulo não volta mais.

O Êxodo não comenta a mudança, não a explica e não a justifica. Ela se lê na lista de nomes, e não em nenhuma frase.

Os gafanhotos

O bicho foi anunciado ao rei no versículo 4, com um dia de antecedência, e é a segunda vez que o texto o nomeia. Aqui ele aparece como o objeto de uma ordem — não como fenômeno que acontece, mas como coisa que é mandada vir.

De onde vêm, o versículo não diz, e o livro não dirá em lugar nenhum. O que o texto fornece é o meio de transporte, no versículo seguinte.

"A terra do Egito"

Nomeada duas vezes na mesma frase. Não é uma província, não é o palácio, não é Gósen: é o país como unidade territorial, do jeito que os documentos egípcios o tratam.

Este capítulo, ao contrário do anterior, não menciona nenhuma separação entre a terra dos egípcios e a de Israel. Em Êxodo 8:22 e em Êxodo 9:26 a distinção é feita com todas as letras; nas duas pragas deste capítulo, o texto não a repete — e não diz se ela valia.

O granizo

A praga anterior entra no versículo como um marco de contabilidade: define o que existe para ser comido. Ela caiu no capítulo 9, derrubou o linho e a cevada, poupou o trigo e a espelta, e feriu as árvores do campo.

O que acontecera na cena anterior

Moisés e Arão foram expulsos da presença do rei no versículo 11, depois de uma proposta que liberava apenas os homens adultos. Entre aquele versículo e este não há transição nenhuma: nem lugar, nem hora, nem o que os dois fizeram. A fala de Deus simplesmente começa.

5. Pontos de Ensino

Um papel pode terminar sem que ninguém anuncie

Arão foi a boca e foi a mão. Aqui não é nem uma coisa nem outra, e o texto não explica, não despede e não elogia. Quem lê só este versículo nem percebe; quem lê o livro inteiro vê um nome sair de cena.

A negociação acabou

Não há nova mensagem ao rei, nem novo prazo, nem nova chance. A ordem é de gesto. Depois da expulsão do versículo 11, o que segue é execução — e a mudança de registro está no que o versículo não contém.

O alvo é definido antes do fato

"Tudo o que o granizo deixou" nomeia de antemão o resto exato que será comido. Uma praga natural come o que encontra; a ordem aqui descreve o resultado antes de ele existir. O Êxodo não comenta a diferença, e ela está na frase.

Uma perda se mede pelo que sobrou da anterior

A oitava praga só tem sentido porque a sétima deixou alguma coisa de pé. É o encaixe entre as duas que produz o dano, e não o tamanho de nenhuma delas isolada.

A erva alimenta duas bocas

A palavra do versículo cobre o que a gente come e o que o gado pasta. Uma praga que a consome atinge ao mesmo tempo a mesa e o rebanho — inclusive o rebanho que tinha sido recolhido a tempo, em Êxodo 9:20, e escapara do granizo.

Os "todos" do Êxodo pedem leitura sóbria

"Toda a erva da terra" é linguagem de totalidade, e o próprio livro mostra, no capítulo anterior, que ela convive com exceções detalhadas logo em seguida. Ler essas fórmulas como inventário é exigir do texto um gênero que não é o dele.

6. Aspectos Filosóficos

Um braço estendido no ar faz um bando de insetos aparecer?

A pergunta parece ingênua e não é. O versículo põe lado a lado duas coisas de tamanhos incomparáveis: um homem levantando o braço, e uma nuvem de insetos cobrindo um país. Entre uma e outra não há nada que se pareça com causa — nem no sentido de quem empurra, nem no de quem fabrica.

Esse descompasso é um problema antigo, e ele aparece sempre que um gesto humano é tratado como início de um efeito que ele não poderia produzir.

Três modos de entender o gesto

O primeiro é o do instrumento que age. O braço faria o efeito, por meio de uma força depositada nele. É a concepção mágica, e é a que o próprio Êxodo desmonta em outro lugar: o gesto não funciona quando Moisés quer, funciona quando lhe é ordenado, e não há fórmula que o acione.

O segundo é o do sinal. O braço não faz nada; ele marca o momento, como a bandeira que abre a corrida. O efeito vem de outro lugar, e o gesto serve para que se saiba quando e por quê.

O terceiro é o da obediência. O que importa não é o braço nem o momento, e sim que um homem fez o que lhe foi mandado fazer, sem ter meios de produzir o resultado. O gesto seria então o ponto em que a obediência de alguém entra na história como um elo — não como causa.

O texto favorece o segundo e o terceiro, e há um indício simples disso: quando Moisés estende a mão sobre o mar, sobre a terra ou para o céu, o que vem em seguida é sempre atribuído, na mesma frase, a outro sujeito. No versículo 13, quem conduz o vento é o SENHOR; Moisés só estende.

O incômodo que sobra

Dito isso, um problema fica de pé e é honesto não escondê-lo. Se o gesto não causa nada, por que ele é exigido?

Não há resposta no texto. O que se observa é que as pragas do Êxodo quase nunca acontecem sem um ato humano — um cajado, uma mão, um punhado de cinza — e que esse ato é sempre público, feito diante de alguém. Uma hipótese possível é que o gesto exista para tornar visível a ligação entre o anúncio e o acontecido; outra é que ele pertença à forma de agir com que o livro trabalha, em que Deus faz as coisas por meio de gente. As duas são leituras, e o Êxodo não escolhe entre elas.

E o que isso não resolve

Nada disso responde à pergunta sobre o que de fato aconteceu no Egito, e não é essa a matéria aqui. As explicações naturais propostas para as pragas têm exame próprio no estudo de Êxodo 8:24, com os nomes de quem as sustenta e o custo de cada uma.

7. Aplicações Práticas

Fazer a parte que se pode fazer

A ordem dada a Moisés é de um gesto que ele consegue executar e cujo resultado ele não controla. Estender o braço custa nada; o que vem depois não depende dele em ponto algum.

Há muita coisa que funciona assim. Mandar a mensagem, fazer a visita, apresentar o pedido, dizer a verdade que precisava ser dita. O ato está ao alcance; a consequência, não. Confundir as duas coisas produz dois erros opostos — não agir porque o resultado é incerto, e achar-se responsável por um resultado que nunca esteve nas nossas mãos.

Quando o papel muda, e ninguém avisa

Arão desaparece deste versículo sem uma palavra de explicação. Foi porta-voz e foi executor, e agora não é chamado.

Isso acontece em qualquer trabalho feito a dois — numa sociedade, num ministério, num casamento. Os papéis se reorganizam pelo uso, quase nunca por conversa, e quem só percebe quando já aconteceu costuma passar mal. Perceber cedo e falar a respeito é mais barato do que descobrir tarde.

A perda que se mede pelo que tinha sobrado

O peso desta praga está inteiro numa expressão: "tudo o que o granizo deixou". Ela não descreve um desastre novo; descreve o fim da reserva.

É uma distinção prática. Um golpe sobre quem está inteiro dói e se absorve; o mesmo golpe sobre quem já usou a margem é outra coisa. Quem cuida de alguém — ou de uma conta, ou de uma equipe — faria bem em perguntar não quanto o próximo baque pesa, mas quanto ainda há de pé para receber o baque.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Arão não aparece mais nas ordens?

O Êxodo não diz. A explicação mais repetida liga o papel dele à dificuldade de fala de Moisés, declarada em Êxodo 4:10, e supõe que ela pesa menos quando o que se exige é agir. A explicação é razoável e tem um problema: quem fala com o rei, nas pragas em que Arão agia, também era Moisés. Não é possível decidir, e o que o texto oferece é a mudança, não o motivo.

A ordem diz "mão" e Moisés estende o cajado. Ele desobedeceu?

Não, e o próprio livro alterna os dois modos de dizer para o mesmo gesto — o cajado estava na mão. O assunto tem tratamento no estudo de Êxodo 9:23, onde a alternância aparece pela primeira vez com Moisés como executor.

De onde vieram os gafanhotos?

O versículo não diz, e o Êxodo não dirá em lugar nenhum. O versículo 13 informa o meio — o vento oriental — e não a procedência. Os comentaristas propuseram origens, e são propostas deles, construídas a partir do rumo do vento.

"Toda a erva da terra" quer dizer absolutamente toda?

É linguagem de totalidade, e o próprio Êxodo mostra como ela funciona: no capítulo 9, depois de dizer que o granizo feriu "toda planta do campo", o texto detalha nos versículos 31 e 32 o que escapou. Exigir da fórmula um inventário exato é pedir ao livro um gênero que não é o dele.

Por que uma ordem de gesto, e não uma nova mensagem ao rei?

Porque a conversa tinha acabado no versículo 11, com a expulsão. Esta é a única praga do capítulo cuja execução não é precedida de um novo recado ao palácio — o recado tinha sido dado no versículo 4, antes da audiência.

Israel foi atingido?

O capítulo não diz. Nas pragas anteriores, em Êxodo 8:22 e Êxodo 9:26, a separação entre as duas terras é afirmada com todas as letras; aqui não há nenhuma frase sobre isso, nem num sentido nem no outro. O silêncio não prova que a distinção deixou de valer, e também não prova que valeu.

9. Conexão com Outros Textos

O que o granizo tinha deixado

Êxodo 9:31 — "O linho e a cevada foram feridos, porque a cevada estava em espiga e o linho, em botão."

Êxodo 9:32 — "Mas o trigo e a espelta não foram feridos, porque são tardios."

É este o resto que a ordem deste versículo nomeia como alvo. Sem a conta do capítulo anterior, a frase final não teria objeto.

O anúncio feito ao rei, antes da audiência

Êxodo 10:4 — "Porque, se você se recusar a deixar o meu povo ir, eis que amanhã trarei gafanhotos ao seu território."

Êxodo 10:5 — "Eles cobrirão o olho da terra, e não se poderá ver a terra; comerão o restante do que escapou, o que sobrou para vocês do granizo, e comerão toda árvore que cresce para vocês no campo."

A ordem que Moisés recebe agora repete o conteúdo do que ele já tinha dito ao rei — e não acrescenta nenhuma advertência nova.

A ordem paralela, na praga anterior

Êxodo 9:22 — "Então o SENHOR disse a Moisés: ‘Estenda a mão para o céu, e haverá granizo em toda a terra do Egito, sobre os homens, sobre os animais e sobre toda a planta do campo, na terra do Egito.’"

Mesma fórmula de abertura, mesmo destinatário único, e um alvo diferente: ali a mão vai para o céu, aqui sobre a terra.

O gafanhoto como praga listada

1 Reis 8:37 — "Se houver na terra fome ou peste, se houver crestamento ou ferrugem, gafanhotos ou lagarta; se o inimigo sitiar as suas cidades — qualquer que seja a praga, qualquer que seja a doença…"

Na oração de dedicação do templo, o gafanhoto entra na lista das desgraças para as quais a resposta prevista é orar.

A praga lembrada nos salmos

Salmo 105:34 — "Ele falou, e vieram gafanhotos, e pulgões sem número."

O salmo condensa este versículo numa palavra: "ele falou". Nem gesto, nem vento, nem Moisés.

Salmo 78:46 — "Entregou as colheitas deles ao pulgão, e o trabalho deles ao gafanhoto."

Quem estendia a mão antes

Êxodo 7:19 — "E o SENHOR disse a Moisés: 'Diga a Arão: Tome o seu cajado e estenda a mão sobre as águas do Egito…'"

A ordem em três tempos das primeiras pragas — Deus fala a Moisés, Moisés fala a Arão, Arão age — comparada com a ordem direta deste versículo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então o SENHOR disse a Moisés: “Estenda a mão sobre a terra do Egito, para que venham os gafanhotos sobre a terra do Egito e comam toda a erva da terra, tudo o que o granizo deixou.”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה נְטֵה יָדְךָ עַל־אֶרֶץ מִצְרַיִם בָּאַרְבֶּה וְיַעַל עַל־אֶרֶץ מִצְרָיִם וְיֹאכַל אֶת־כָּל־עֵשֶׂב הָאָרֶץ אֵת כָּל־אֲשֶׁר הִשְׁאִיר הַבָּרָד׃

Transliteração

wa-yomer YHWH el-Mosheh: neteh yadekha al-erets Mitsrayim ba-arbeh, we-ya'al al-erets Mitsrayim, we-yokhal et-kol-esev ha-arets, et kol-asher hish'ir ha-barad.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר יְהוָה אֶל־מֹשֶׁה — wa-yomer YHWH el-Mosheh, "e o SENHOR disse a Moisés".

Um só destinatário. Compare com a fórmula das primeiras pragas, em Êxodo 7:19 e Êxodo 8:5, que traz "diga a Arão" logo em seguida. Aqui não há segundo degrau.

נְטֵה יָדְךָ — neteh yadekha, "estende a tua mão".

Neteh é o imperativo de natah, estender, inclinar, esticar. O verbo serve para armar tenda, para esticar corda e para inclinar alguma coisa numa direção. Aplicado ao braço, dá o gesto de apontar para um lado.

Yadekha é "tua mão". A palavra yad, mão, cobre também o antebraço, e por isso o gesto descrito é mais amplo do que o português sugere — não é a palma, é o braço apontado.

עַל־אֶרֶץ מִצְרַיִם בָּאַרְבֶּה — al-erets Mitsrayim ba-arbeh, "sobre a terra do Egito, pelo gafanhoto".

A última palavra tem uma construção que merece nota. Ba-arbeh é a preposição be mais o artigo mais arbeh, gafanhoto. Traduzida ao pé da letra, a frase diz "estende a mão sobre a terra do Egito pelo gafanhoto" — e o sentido dessa preposição aqui é discutido.

A leitura mais aceita é a de finalidade: estende a mão por causa do gafanhoto, isto é, para que ele venha. Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) resolve assim, numa nota de três palavras. Outra leitura toma a preposição como instrumental — a mão estendida traz consigo o gafanhoto. Não é possível decidir, e o sentido geral não muda.

אַרְבֶּה — arbeh, o gafanhoto.

É a palavra principal do capítulo. A etimologia proposta pelos léxicos liga-a à raiz ravah, "ser muito", "multiplicar-se" — o nome do bicho seria, então, "o numeroso". A proposta é antiga e plausível, e não é demonstrável.

O termo aparece vinte e quatro vezes no Antigo Testamento, e a concentração diz algo: seis delas estão neste capítulo. Fora daqui, ele volta na lista de animais comestíveis de Levítico 11:22, na maldição de Deuteronômio 28:38, nos exércitos comparados a bandos em Juízes 6:5 e 7:12, nos salmos que recontam as pragas, e sobretudo em Joel, onde sustenta dois capítulos inteiros.

O hebraico tem ainda outros nomes para formas ou espécies do mesmo animal, e Joel 1:4 os empilha numa sequência. O que cada um designa exatamente — espécies diferentes, ou estágios do mesmo bicho — é discutido há séculos e não está resolvido.

וְיַעַל — we-ya'al, "e que suba".

O verbo é alah, subir. É o verbo do que vem de fora ou de baixo para dentro de um território, e os textos bíblicos o usam para exércitos que avançam sobre uma terra. Está no singular, concordando com arbeh, que funciona como coletivo: um gafanhoto é o bando inteiro.

וְיֹאכַל אֶת־כָּל־עֵשֶׂב הָאָרֶץ — we-yokhal et-kol-esev ha-arets, "e que coma toda a erva da terra".

Esev designa a vegetação rasteira que brota do chão: capim, hortaliça, cereal ainda verde. Distingue-se de ets, a árvore, que aparece à parte no versículo 15, e de dagan, o grão já colhido. É a palavra de Gênesis 1:11-12, na criação da vegetação.

אֵת כָּל־אֲשֶׁר הִשְׁאִיר הַבָּרָד — et kol-asher hish'ir ha-barad, "tudo o que o granizo deixou".

Hish'ir é o verbo sha'ar no Hifil, a forma causativa: "fazer restar", "deixar sobrar". É o verbo da família do she'ar e do she'erit, o "resto" e o "remanescente" que atravessam os profetas — aquela parte que sobrevive a um desastre e da qual depende a continuação.

A escolha não é neutra. O texto não diz que o granizo "não alcançou" o restante; diz que o granizo o deixou, como quem poupa. E o que foi poupado é justamente o que esta ordem manda comer.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo.

A negociação foi encerrada e a fase seguinte é de execução. Não há aqui recado ao rei, prazo, condição ou nova oportunidade. Depois da expulsão do versículo 11, o texto passa direto para uma ordem de gesto — e é essa ausência, e não nenhuma frase, que marca a mudança de fase.

Arão saiu de cena sem que nada fosse dito. Ele foi a boca de Moisés e foi a mão que executava as primeiras pragas; a partir desta ordem não é sequer destinatário da fala. O Êxodo não explica a mudança, e as explicações propostas — todas ligadas à dificuldade de fala declarada em Êxodo 4:10 — esbarram no fato de que quem falava ao rei sempre foi Moisés.

O alvo é o resto, e ele é nomeado antes do fato. "Tudo o que o granizo deixou" não descreve o que um bando de insetos faria por acaso: define de antemão qual sobra será consumida. É o encaixe entre a sétima praga e a oitava que produz o peso da cena — e é por isso que a frase final, e não o tamanho do bando, é o centro do versículo.

Duas coisas o texto deliberadamente não dá. Não diz de onde vêm os gafanhotos, aqui nem em lugar nenhum do livro. E não diz, neste capítulo, se a terra em que Israel morava foi poupada — coisa que os capítulos 8 e 9 afirmam com todas as letras. Preencher qualquer um dos dois silêncios é acrescentar ao Êxodo o que ele não escreveu.

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