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Êxodo 9:32

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 10 min de leitura·👁 22 acessos
Mas o trigo e a espelta não foram feridos, porque são tardios.
Campo egípcio depois da tempestade, com a cevada alta quebrada ao fundo e, em primeiro plano, fileiras de trigo ainda baixo e verde, intacto sob o céu que clareia.

Estudo


Mas o trigo e a espelta não foram feridos, porque são tardios.

1. Introdução

Nem tudo se perdeu: o trigo e a espelta escaparam do granizo, porque ainda estavam baixos.

O versículo completa o inventário do anterior. O Egito perdeu a cevada e o linho, mas guardou os cereais de que fazia o pão. Esse "não foram feridos" convive com a frase do v.25 de que o granizo feriu "toda planta do campo". E a palavra que a nossa versão traduz por "espelta" provavelmente não designa a espelta, e sim o trigo antigo que o Egito de fato plantava.

2. Contexto Histórico e Cultural

Que cereal é a "espelta" deste versículo?

A palavra hebraica é kussemet (o nome de um cereal de grão vestido, isto é, que sai da debulha ainda preso à casca). As traduções portuguesas a verteram por "espelta", seguindo uma tradição antiga. O problema é que a espelta propriamente dita — a espécie que os botânicos chamam Triticum spelta, cultivada na Europa — não aparece nos restos de plantas do Egito antigo. As escavações encontram grãos, palha e pão em tumbas, casas e silos, e a espelta não está entre eles.

O que se encontra, em quantidade, é o trigo antigo de grão vestido, o emmer, que era a base do pão egípcio. O papel dele na mesa do Egito foi exposto no estudo de Gênesis 41:22.

Daí a identificação mais aceita hoje. Os botânicos Daniel Zohary e Maria Hopf, no livro de referência sobre a domesticação das plantas no Velho Mundo, propõem que kussemet seja o emmer. Duas traduções antigas vão na mesma direção. A Vulgata, a tradução latina de Jerônimo, escreveu far, que era em latim o nome desse trigo vestido — o antepassado do que os italianos ainda chamam de farro. A Septuaginta, a tradução grega feita no próprio Egito, usou olyra, nome que os gregos davam a um cereal egípcio de grão vestido.

Se a identificação estiver certa, o versículo diz que escapou do granizo justamente o cereal do pão egípcio. É hipótese bem fundada, mas não demonstrável: nomes de plantas antigas mudam de sentido de uma língua para outra, e o hebraico não dá descrição do grão.

E o "trigo"?

A outra palavra, chittah ("trigo"), é o termo geral do hebraico para trigo. No Egito da época, o trigo de grão nu — o que se solta da casca na debulha, parente do trigo de hoje — era raro, e só se tornou comum séculos depois, no tempo dos Ptolomeus. Não é possível saber que planta exata o texto tinha em mente; é provável que use o par corrente em Canaã, "trigo e kussemet", para dizer "os trigos".

Por que eram tardios

O trigo vestido amadurece mais devagar que a cevada. Semeado na mesma época, entre outubro e novembro, ele ainda estava em folha — hastes curtas e verdes, sem espiga — quando a cevada já espigava. Planta baixa e flexível dobra sob o granizo e se levanta depois; planta alta e com espiga quebra. A colheita do trigo vinha cerca de um mês depois da da cevada.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas o trigo e a espelta não foram feridos"

O "mas" abre a outra metade do inventário. Depois do que se perdeu, o que ficou.

A frase cria uma tensão com o v.25, onde se lê que o granizo "feriu toda planta do campo". Se o trigo não foi ferido, nem toda planta foi. Há três maneiras de ler.

O "toda" é de ênfase. A linguagem de totalidade do v.25 descreve a impressão do desastre, e o v.32 corrige o detalhe. É um uso comum em hebraico, que diz "todo" para "em grande quantidade".

"Não foram feridos" quer dizer "não foram destruídos". As hastes baixas podem ter apanhado o granizo e se recuperado. O verbo seria então sobre o resultado, não sobre o impacto.

O v.25 fala do que estava de pé. "Planta do campo" seria o que já tinha crescido; o trigo, ainda rente ao chão, não entraria na conta.

O texto não harmoniza as duas frases. Deixa-as a sete versículos de distância e segue.

"porque são tardios"

A explicação é de lavoura, como no versículo anterior: o que salvou o trigo foi a hora em que ele estava, não uma proteção especial. O texto não diz que Deus poupou o trigo. Diz que o trigo ainda não tinha crescido.

Há leitores que veem nisso um limite posto ao castigo: o Egito perde o que estava pronto e guarda o pão. É uma leitura possível, e o texto não a afirma. O que ele registra é o dado: sobrou comida. Para que o dado servirá, o versículo não diz.

E há uma consequência que o versículo deixa implícita. A cevada era a cerveja e parte do pão; o trigo vestido era o pão. O Egito ficou sem uma coisa e com a outra. O golpe foi pesado, mas não foi a fome.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O trigo

O termo geral hebraico para trigo. Que espécie exata designava no Egito, não é possível dizer.

A espelta

Provavelmente o emmer, o trigo vestido que era a base do pão egípcio, e não a espelta europeia (ver o item 2).

O Egito

Os campos atingidos pela tempestade, que perderam as lavouras mais adiantadas e guardaram as mais lentas.

5. Pontos de Ensino

O texto registra também o que não se perdeu

O relato do desastre não termina no dano. Diz o que ficou de pé, e por quê.

A salvação do trigo é explicada pelo tempo

O versículo não fala em milagre. O trigo escapou por estar atrasado.

Tensões dentro do capítulo ficam à vista

"Toda planta do campo" e "não foram feridos" estão no mesmo relato. O texto não as ajusta, e o leitor não precisa forçar o ajuste.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe diante do leitor uma coisa simples e desconcertante: o que salvou o trigo foi estar atrasado. Não foi força, nem mérito, nem proteção; foi a fase em que a planta estava quando a tempestade chegou. A mesma pedra de gelo destrói uma lavoura e poupa a do lado, conforme a hora de cada uma. Isso toca na velha questão de como o acaso e a providência se relacionam — se o momento em que as coisas nos encontram é parte de um plano ou apenas circunstância. O texto, que atribui a tempestade a Deus, atribui a sobrevivência do trigo ao calendário, e não faz nenhum esforço para juntar as duas explicações.

7. Aplicações Práticas

O que ainda não cresceu pode ser o que sobra

Numa perda grande, costuma-se contar o que estava pronto e se foi. O versículo lembra de contar também o que ainda está em formação e resistiu por isso. Num negócio que perdeu os clientes antigos, num ano que levou o que parecia garantido, pode ser justamente o que estava no começo que dá para recomeçar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Foi um milagre o trigo escapar?

O versículo não diz isso. A explicação que ele dá é agrícola. Houve, porém, uma leitura rabínica que viu milagre na palavra "tardios": Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, comentarista judeu do século XI) registra que os mestres antigos leram a palavra como se viesse de "maravilhas", e ensinaram que foi por maravilha que o trigo não foi atingido. É jogo com as letras da palavra, não o sentido dela (ver o item 10).

A espelta errada muda o sentido do versículo?

Não muda o sentido principal: dois cereais tardios escaparam. Muda o peso. Se kussemet é o trigo do pão egípcio, o que escapou não foi um cereal secundário, e sim o principal alimento do país.

O texto quer preparar alguma coisa com esse dado?

O versículo não diz. Registra que sobrou trigo e para aí.

9. Conexão com Outros Textos

A frase que este versículo corrige

Êxodo 9:25 — "O granizo feriu, em toda a terra do Egito, tudo o que estava no campo, desde os homens até os animais. O granizo feriu toda planta do campo e quebrou todas as árvores do campo."

"Toda planta do campo" ali; "não foram feridos" aqui.

A mesma palavra no campo de um lavrador de Israel

Isaías 28:25 — "Depois de lhe ter nivelado a superfície, não semeia a nigela, não espalha o cominho, não lança o trigo a eito, a cevada no lugar determinado e a espelta na margem?"

O profeta descreve um lavrador que planta cada grão no lugar certo, e a kussemet vai para a beira do campo. É a mesma palavra do versículo.

A mesma palavra no pão de cerco

Ezequiel 4:9 — "Toma também trigo, e cevada, e favas, e lentilhas, e milho miúdo, e espelta, e mete-os num só vaso, e deles faze pão para ti."

A terceira e última ocorrência da palavra na Bíblia. Nas três, ela aparece ao lado do trigo e da cevada.

O trigo e a cevada como riqueza de uma terra

Deuteronômio 8:8 — "numa terra de trigo, de cevada, de vides, de figueiras e de romeiras; numa terra de azeite de oliveiras e de mel;"

Os dois cereais abrem a lista dos produtos da terra prometida. No Egito, o granizo levou um e deixou o outro.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Mas o trigo e a espelta não foram feridos, porque são tardios.

Texto hebraico

וְהַחִטָּה וְהַכֻּסֶּמֶת לֹא נֻכּוּ כִּי אֲפִילֹת הֵנָּה׃

Transliteração

we-ha-chittah we-ha-kussemet lo nukku, ki afilot hennah.

Análise palavra por palavra

וְהַחִטָּה — we-ha-chittah, "mas o trigo".

O "e" hebraico, no começo da frase e com o sujeito antes do verbo, marca contraste com o versículo anterior: "mas o trigo". Chittah é o nome comum do trigo, tanto da planta quanto do grão.

וְהַכֻּסֶּמֶת — we-ha-kussemet, "e a espelta".

Palavra rara: aparece só aqui, em Isaías 28:25 e em Ezequiel 4:9. Uma proposta antiga a liga ao verbo kasam, "aparar, cortar rente" — o verbo que Ezequiel 44:20 usa para o corte de cabelo dos sacerdotes. O cereal seria "o aparado", talvez pelo aspecto da espiga. É proposta, não demonstrável.

A identificação da planta está discutida no item 2: a maioria dos estudiosos a entende hoje como o emmer, o trigo vestido do Egito.

לֹא נֻכּוּ — lo nukku, "não foram feridos".

O mesmo verbo do versículo anterior, nakah, na mesma forma passiva, agora no plural e com a negação. O paralelo é exato: nukkatah, "foram feridos", para o linho e a cevada; lo nukku, "não foram feridos", para o trigo e a espelta. Os dois versículos se respondem palavra por palavra.

כִּי אֲפִילֹת הֵנָּה — ki afilot hennah, "porque são tardios".

Afilot é outra palavra que só aparece aqui em toda a Bíblia. Vem de uma raiz ligada à escuridão (ofel, "trevas"; afelah, "escuridão"). O sentido de "tardio" seria figurado: o que chega no escuro, no fim do dia, depois dos outros. O hebraico pós-bíblico usa a palavra para as colheitas tardias, o que confirma o sentido.

Hennah é o pronome "elas", no feminino plural, concordando com as duas plantas. Frase sem verbo: "porque tardias elas".

A leitura rabínica mencionada no item 8 brinca com a palavra: trocando a ordem de duas letras, afilot soa como pil'ot, "maravilhas". É exercício de interpretação, que a tradição judaica pratica com consciência de que não está dando o sentido literal.

11. Conclusão

O versículo leva a três conclusões.

O inventário do granizo é completo. Os v.31 e 32 dizem o que se perdeu e o que ficou, e explicam os dois lados pelo mesmo critério: a fase de cada planta. O relato é preciso onde poderia ter sido apenas dramático.

O Egito ficou com o pão. Se a kussemet é o trigo vestido, como é provável, o que escapou foi justamente o cereal do pão egípcio. O golpe foi pesado sem ser a fome.

O texto convive com as próprias tensões. "Toda planta do campo" e "o trigo não foi ferido" estão no mesmo capítulo, e o Êxodo não se dá ao trabalho de ajustá-las. Quem lê pode reconhecer a linguagem de ênfase de um lado e o detalhe do outro, sem precisar escolher um contra o outro.

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