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Êxodo 10:5

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 18 acessos
Eles cobrirão o olho da terra, e não se poderá ver a terra; comerão o restante do que escapou, o que sobrou para vocês do granizo, e comerão toda árvore que cresce para vocês no campo.
campo egípcio coberto por gafanhotos até onde a vista alcança, com árvores já sem folhas ao fundo

Estudo


Eles cobrirão o olho da terra, e não se poderá ver a terra; comerão o restante do que escapou, o que sobrou para vocês do granizo, e comerão toda árvore que cresce para vocês no campo.

1. Introdução

A descrição da praga começa por uma imagem que quase nenhuma tradução conserva: os gafanhotos vão cobrir "o olho da terra". O hebraico diz isso mesmo, e a frase seguinte explica para que serve a expressão — não se poderá ver a terra. Depois vem a parte que amarra esta praga à anterior: o que os insetos comerão é o que o granizo deixou, e a palavra "sobra" aparece três vezes em três formas diferentes na mesma linha. No fim, o texto diz que eles comerão a árvore, e não o fruto nem a folha. O que segue trata da imagem do olho, da acumulação das palavras de resto e do que se sabe sobre o que uma nuvem dessas deixa atrás de si.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como fica um lugar por onde a nuvem passou

Os comentaristas bíblicos do século XIX tinham um recurso que nós não temos: eles liam relatos de viajantes que tinham acabado de ver aquilo acontecer. Reuniram-nos nos comentários, e o retrato que sai dali é o melhor material disponível para entender o versículo.

Constantin-François Volney, que viajou pelo Egito e pela Síria no fim do século XVIII, descreveu o resultado numa frase que Charles Ellicott (bispo anglicano do século XIX) cita: as árvores e as plantas ficam sem folha, e não se vê senão ramos e talos nus.

Os mesmos comentários registram estimativas de área que impressionam mesmo hoje. John Barrow e Vivant Denon, viajando em regiões diferentes, falaram de extensões da ordem de mil e seiscentas a mil e oitocentas milhas quadradas cobertas por um único bando — algo como quatro mil quilômetros quadrados.

O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) junta testemunhos sobre o que os insetos fazem com uma árvore. Não param na folha: roem a casca e a fibra da madeira, e há relatos de tamareiras deixadas completamente peladas. Plínio, o Velho, naturalista romano do século I, já registrava na sua História Natural que os gafanhotos roem tudo, inclusive as portas das casas — e é dele que vem boa parte das descrições antigas que circulavam entre os comentaristas.

O barulho e a escuridão

Duas coisas aparecem em quase todos os relatos, e nenhuma delas é o que se esperaria.

A primeira é a luz. Um bando em voo escurece o céu; o viajante Guillaume-Antoine Olivier, descrevendo o que viu na Síria, diz que o céu ficou escuro por causa dos insetos.

A segunda é o som. O mesmo relato compara o ruído da nuvem ao da chuva. Quem estava no chão ouvia, antes de ver, um barulho constante e amplo — e o que o produzia era um número de mandíbulas trabalhando ao mesmo tempo.

Isso ajuda a ler a frase do versículo. "Não se poderá ver a terra" não é exagero de estilo: é a descrição do que acontece quando uma camada de insetos cobre o solo e outra camada voa por cima.

O bicho que devora também era comido

Há um dado que raramente entra na leitura desta praga e que pertence ao mundo em que ela se passa: o gafanhoto era comida.

A lei hebraica o inclui entre os pouquíssimos insetos permitidos, contra a regra geral que os proíbe. E não era exceção local.

A prova mais bonita disso está numa parede do palácio sudoeste de Nínive, na Assíria, hoje no Museu Britânico. Os relevos daquele corredor mostram uma procissão de serventes levando comida para um banquete de vitória: cestos de fruta, lebres, aves de caça — e homens carregando gafanhotos secos espetados em varetas, do mesmo jeito que se leva espetinho.

Não é comida de miserável, portanto. Era iguaria servida na mesa do rei da Assíria no século VII antes da era comum. O método era secar ao sol ou salgar, e assim o inseto se guardava.

Há uma ironia nisso, e ela não deve ser esticada. Um bando que come a colheita de um ano não devolve, sendo comido, nem uma fração do que tirou — a conta não fecha nem de longe. O que o dado mostra é outra coisa: quem ouvia este versículo no mundo antigo conhecia o bicho de perto, sabia o gosto dele, e ainda assim entendia perfeitamente por que uma nuvem deles era uma catástrofe.

3. Análise Teológica do Versículo

"Eles cobrirão o olho da terra"

A expressão é literal. O hebraico diz "o olho da terra", e quase todas as traduções põem "a superfície" ou "a face". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) chamam a frase de antiga e genuinamente poética, e observam que ela só aparece no Pentateuco.

O que ela quer dizer é discutido, e há três caminhos.

Primeira leitura: "olho" aqui significa aparência, aspecto. A palavra hebraica de "olho" tem esse uso em outros lugares — fala-se do "olho" de uma substância para dizer a cor e o brilho dela. Nesse caso, cobrir o olho da terra é cobrir o que se vê dela, a sua aparência. É a leitura mais econômica e a que a frase seguinte parece confirmar.

Segunda leitura: o olho é da terra mesma. Keil e Delitzsch levam a imagem a sério: a terra tem um olho, com o qual ela olha para cima, para o homem — e a nuvem de gafanhotos fecha esse olho. É leitura poética, e é preciso dizer que é uma interpretação da imagem, não um dado da língua.

Terceira leitura: o olho é o sol. John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) registra que Abarbanel, comentarista judeu do século XV, entendeu assim: o olho que vê a terra é o sol, e o que os gafanhotos tapam é ele. A leitura tem a vantagem de explicar por que se escolheu "olho" em vez de "face", e a desvantagem de forçar a construção da frase.

Não é possível decidir. O que se pode registrar é que o hebraico escolheu uma imagem e o português quase sempre a troca por um termo técnico de geometria.

Onde mais a frase aparece

Ela ocorre quatro vezes na Bíblia hebraica: duas aqui, nos versículos 5 e 15 deste capítulo, e duas em Números 22, nos versículos 5 e 11.

E as de Números são notáveis. Quem fala é Balaque, rei de Moabe, mandando chamar Balaão; e o que ele descreve com essas palavras — com o mesmo verbo e a mesma expressão — é Israel saindo do Egito: "eis que um povo saiu do Egito; eis que ele cobriu o olho da terra".

Um rei estrangeiro olha para Israel e usa a frase que aqui descreve os gafanhotos. O Êxodo não comenta isso, Números tampouco, e não há como saber se a repetição é proposital ou apenas o uso de uma expressão feita. Mas ela está lá, e é a única outra ocorrência da fórmula.

"e não se poderá ver a terra"

A frase funciona como explicação da anterior, e é por isso que a primeira leitura da imagem é a mais provável: o texto diz "cobrirão o olho da terra" e em seguida esclarece que ninguém verá o chão.

O verbo está numa construção impessoal — "não se poderá" —, sem dizer quem. O sujeito é qualquer um: egípcio, israelita, rei ou lavrador. A cegueira é geral.

A perda é de visão, não de terra. O solo continua ali. O que some é o acesso dos olhos a ele — e, num país cuja economia inteira dependia de olhar para o campo e para o rio, isso tem peso próprio.

"comerão o restante do que escapou, o que sobrou para vocês do granizo"

Aqui está a costura entre esta praga e a anterior, e ela é feita com uma acumulação que o português não consegue reproduzir inteira.

O hebraico empilha três palavras diferentes de sobra em sequência: o que restou, o que escapou, o que ficou. São três raízes distintas, e nenhuma delas é redundante por acidente — a construção insiste. O que vai ser comido não é a colheita: é o que sobrou da colheita.

Isso define a natureza desta praga. Ela não repete a anterior; ela a completa. O granizo quebrou o que estava de pé e o texto registrou, no capítulo anterior, que o linho e a cevada foram feridos porque já estavam adiantados, e que o trigo e a espelta escaparam por serem tardios. Era esse resto que sustentaria o ano. O que este versículo anuncia é que ele será comido. A extensão do estrago do granizo está no estudo de Êxodo 9:25.

"para vocês"

Duas vezes no mesmo versículo — o que sobrou "para vocês" e a árvore que cresce "para vocês" —, e as duas no plural.

Isso é uma mudança. No versículo 4, Moisés falava ao rei no singular: "se você se recusar", "ao seu território". Aqui ele passa a falar a um grupo. O texto não diz que outras pessoas entraram na sala; o mais provável é que a corte já estivesse lá, como estará no versículo 7.

A forma hebraica é a do interesse: não é "o que sobrou" e sim "o que sobrou a vocês" — o resto pertence a eles, e é deles que será tirado. A tradução literal soa estranha em português, e por isso quase sempre se apaga.

"e comerão toda árvore que cresce para vocês no campo"

O objeto do verbo é a árvore, não o fruto nem a folha.

Há duas maneiras de entender isso, e as duas são defensáveis.

Primeira: é modo de dizer. Comer a árvore significa comer o que ela tem — folhas e frutos —, como quando se diz que um incêndio comeu uma casa. O hebraico usa esse tipo de abreviação com frequência.

Segunda: é literal. Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) observa que os gafanhotos atacam não só as folhas, mas os ramos e a própria madeira, e os relatos de viajantes reunidos pelos comentaristas confirmam que a casca é roída. Nessa leitura, a frase descreve o que de fato acontece.

A segunda é provavelmente a certa, e ela tem consequência prática. Erva do campo se refaz numa estação; árvore não. Uma tamareira leva anos até produzir. O anúncio não é de um ano ruim.

O particípio "que cresce" acrescenta um detalhe fácil de perder: a árvore está em crescimento. O que se perde inclui o que ainda ia render.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

"A terra"

A palavra aparece duas vezes no versículo e é a mesma que o Êxodo usa para a terra do Egito. Aqui ela não designa o país como Estado, e sim o chão — aquilo que se vê, que se planta e que some sob os insetos.

O granizo

É o acontecimento de referência, e ele é do capítulo anterior. Caiu sobre todo o Egito, feriu homens e animais que estavam no campo, derrubou plantas e quebrou árvores.

O que ficou de pé depois dele está registrado: o linho e a cevada se perderam porque estavam adiantados; o trigo e a espelta escaparam por serem tardios. Esse é o "restante" de que o versículo fala, e é o que sustentaria o ano seguinte.

"Vocês"

O plural que entra aqui é novo no discurso de Moisés. Até o versículo 4, ele falava ao rei. A partir deste versículo, o destinatário é um grupo — e no versículo 6 ele nomeará esse grupo: o rei, os seus servos e todos os egípcios.

O Êxodo não descreve quem estava na sala. Pelo versículo 7, sabe-se que os servos do rei estavam por perto e ouviram tudo.

O campo

A palavra hebraica designa a terra cultivada fora da cidade — o oposto do que está dentro de casa ou dentro de muros. É onde ficou o que o granizo deixou, e é para lá que os gafanhotos vão primeiro.

No versículo 6, o texto fará justamente a passagem do campo para dentro das casas.

A árvore

No Egito, árvore era bem plantado, regado e contado, e não coisa que nasce sozinha. O que a perda de um pomar significava naquele país foi tratado no estudo de Êxodo 9:25.

5. Pontos de Ensino

A praga é construída sobre a anterior

Não é mais um desastre ao lado dos outros. O que os gafanhotos comem é definido pelo que o granizo deixou. As duas pragas formam um par, e a segunda existe em função do que a primeira não alcançou.

O texto insiste na palavra "sobra"

Três termos diferentes, na mesma linha, para dizer resto. Quem escreveu não quis que o leitor passasse por cima: o alvo desta praga é justamente aquilo que restou.

A imagem escolhida é de visão, não de fome

"Cobrirão o olho da terra", "não se poderá ver a terra". A primeira coisa anunciada não é a perda da comida — é a perda da vista do chão. A fome vem depois, na segunda metade do versículo.

A árvore é nomeada à parte

O versículo separa o que sobrou da lavoura e o que cresce como árvore. Erva se refaz numa estação; árvore leva anos. A distinção é agrícola, não retórica.

O destinatário mudou no meio da fala

Moisés começou falando ao rei e passa a falar a um grupo. Duas vezes o versículo diz "para vocês". A perda anunciada é de todos os que estão ouvindo.

A mesma frase descreve Israel em outro livro

"Cobriu o olho da terra" é o que um rei de Moabe dirá, em Números 22, a respeito do povo que saiu do Egito. A coincidência de vocabulário existe, não é comentada por nenhum dos dois textos, e não se deve construir doutrina sobre ela — mas quem lê a Bíblia inteira tropeça nisso.

6. Aspectos Filosóficos

O que muda quando alguém perde não a maior parte, mas o que tinha sobrado? A pergunta parece de grau e não é: há uma diferença de natureza entre perder muito e perder o resto.

A função do resto

Um campo arrasado pelo granizo ainda tem trigo tardio de pé. Uma casa que perdeu quase tudo ainda tem alguma coisa. E é esse "ainda" que sustenta o comportamento de quem sofreu a perda: quem tem resto planeja, calcula, recomeça. O resto não é só valor material; é a base sobre a qual se organiza o dia seguinte.

Quando ele vai, o que se perde junto é a possibilidade de recomeço. Não se trata de sentimento: trata-se de uma condição prática. Sem semente não há plantio; sem árvore não há colheita em cinco anos.

Daí decorre uma observação que vale para qualquer perda: o último golpe não é proporcional aos anteriores. Tirar metade de dez é tirar cinco; tirar tudo de um é tirar o um e mais a possibilidade que ele guardava. Quem calcula danos somando quantidades erra sistematicamente nesse ponto.

Ver e poder agir

A outra metade do versículo levanta um problema diferente, e ele é sobre conhecimento.

"Não se poderá ver a terra." Um país agrícola funciona olhando: olha-se a cor da planta, a altura da água, a sombra, o estado do solo. Toda decisão de quem planta é tomada com base no que os olhos informam.

Tapar a vista de um lugar é, portanto, mais que um incômodo estético. É retirar de quem está ali a informação de que ele precisa para decidir. Uma pessoa que não vê o próprio campo não sabe o que fazer com ele — não por ignorância, mas porque o dado sumiu.

Isso ilumina um traço da cena que é fácil não perceber. As pragas deste livro não atingem só o corpo e o bolso: várias delas atingem a capacidade de se orientar. A água que não se pode beber, o chão que não se pode ver — em cada caso, o que é retirado é uma relação prática com o mundo, e não apenas um bem.

O limite desta leitura

Uma coisa é o que o texto diz; outra, o que nós acrescentamos. O Êxodo não teoriza sobre resto, sobre recomeço nem sobre visão. Ele descreve uma praga e diz o que ela vai comer.

O que se pode afirmar com segurança é bem menor do que o parágrafo anterior sugere: o versículo escolhe imagens de visão antes de imagens de fome, e insiste três vezes na palavra "sobra". As consequências disso são leitura de quem lê, e é honesto dizer que são.

7. Aplicações Práticas

O segundo golpe é o que quebra

Este versículo descreve uma situação que se reconhece fora da Bíblia sem esforço: a perda que vem em cima de outra perda.

Uma família que ficou sem renda e depois adoece. Um negócio que teve um ano ruim e depois perde o cliente que restava. Quem passou por isso sabe que o segundo baque não é o dobro do primeiro — é de outra ordem, porque atinge a reserva que ainda permitia manobrar.

A aplicação prática é de gestão, não de consolo: quem está em recuperação precisa proteger o resto com mais cuidado do que protegia o todo. O que sobra tem uma importância desproporcional ao seu tamanho, e tratá-lo como "o pouco que ficou" é o erro mais comum.

Distinguir o que se repõe do que não se repõe

O versículo separa a erva do campo da árvore. É uma distinção que serve para qualquer decisão sob aperto: há perdas que uma estação repõe e há perdas que levam anos.

Numa casa em dificuldade, isso significa saber a diferença entre cortar um gasto e vender um bem que levou dez anos para ser comprado. Num negócio, entre reduzir o estoque e demitir quem sabia fazer. A pressa costuma tratar as duas coisas como iguais.

Falar a quem está na sala

Há um detalhe pequeno e aproveitável. Moisés começa falando ao rei e passa a falar a "vocês" — inclui os que estão ouvindo em volta.

Numa negociação real, isso é uma escolha: dirigir-se só a quem decide ou também a quem assiste. O capítulo mostra o efeito dois versículos adiante, quando os que assistiam tomam a palavra contra o chefe.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que "olho" e não "face"?

O hebraico tem a palavra "face" e a usa o tempo todo para superfícies — a face das águas, a face da terra. Neste versículo escolheu outra. Nenhum comentarista explica a troca de modo convincente, e as três leituras da imagem continuam em disputa.

A promessa se cumpriu como foi dita?

O versículo 15 deste capítulo repete quase palavra por palavra o que este anuncia, com um acréscimo: lá se diz também que a terra escureceu e que não ficou nada verde. A comparação entre os dois é o melhor modo de ver o que o texto considera cumprimento.

Por que o texto não menciona o gado?

O granizo tinha ferido homens e animais no campo. Aqui só se fala de vegetal. A razão prática é evidente — gafanhoto não ataca animal —, mas a consequência para o gado é direta, porque o que some é o pasto. O versículo não a menciona, e o capítulo tampouco.

Os egípcios não podiam comer os gafanhotos e reduzir a perda?

Podiam, e havia quem comesse. A conta, porém, não fecha: um bando consome numa jornada o que alimentaria dezenas de milhares de pessoas, e o que se recolhe dele à mão é fração mínima. O Êxodo não trata do assunto em nenhum momento.

Quem é "vocês"?

O texto muda do singular para o plural sem avisar. O mais provável é que a corte estivesse presente, como o versículo 7 dá a entender. Mas o Êxodo não descreve a sala, e a leitura é dedução.

A frase de Números 22 é citação ou coincidência?

Não é possível decidir. A expressão pode ser uma fórmula feita, disponível para qualquer autor, e nesse caso o encontro é acidental. Pode também ser deliberada, e há intérpretes que a leem assim. Nenhum dos dois textos dá pista.

9. Conexão com Outros Textos

A única outra ocorrência da expressão

Números 22:5 — "E enviou mensageiros a Balaão, filho de Beor, dizendo: Eis que um povo saiu do Egito; eis que cobriu o olho da terra e está acampado diante de mim."

Números 22:11 — "Eis que o povo que saiu do Egito cobriu o olho da terra; venha agora, amaldiçoe-o para mim."

Mesmo verbo, mesma expressão — e o sujeito, ali, é Israel.

O que o granizo tinha deixado

Êxodo 9:31 — "O linho e a cevada foram feridos, porque a cevada estava em espiga e o linho, em botão."

Êxodo 9:32 — "Mas o trigo e a espelta não foram feridos, porque são tardios."

É esse "restante" que o versículo anuncia que será comido.

O cumprimento, dez versículos adiante

Êxodo 10:15 — "Cobriram o olho de toda a terra, e a terra escureceu. Comeram toda a erva da terra e todo o fruto das árvores que o granizo tinha deixado, e não ficou nada verde nas árvores nem na erva do campo, em toda a terra do Egito."

A praga que vem sobre o que a anterior deixou

Joel 1:4 — "O que ficou do gafanhoto cortador, o gafanhoto migrador comeu; e o que ficou do migrador, o gafanhoto devorador comeu; e o que ficou do devorador, o gafanhoto destruidor comeu."

Joel monta a mesma escada em quatro degraus, com a mesma palavra de resto entre eles.

A árvore como medida do que se perde

Habacuque 3:17 — "Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que falhe o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento."

A ameaça de ficar sem ver

Deuteronômio 28:29 — "E você andará às apalpadelas ao meio-dia, como o cego anda às apalpadelas na escuridão."

A perda da vista como castigo anunciado aparece na mesma lista de maldições que ameaça com gafanhotos.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Eles cobrirão o olho da terra, e não se poderá ver a terra; comerão o restante do que escapou, o que sobrou para vocês do granizo, e comerão toda árvore que cresce para vocês no campo.

Texto hebraico

וְכִסָּה אֶת־עֵין הָאָרֶץ וְלֹא יוּכַל לִרְאֹת אֶת־הָאָרֶץ וְאָכַל אֶת־יֶתֶר הַפְּלֵטָה הַנִּשְׁאֶרֶת לָכֶם מִן־הַבָּרָד וְאָכַל אֶת־כָּל־הָעֵץ הַצֹּמֵחַ לָכֶם מִן־הַשָּׂדֶה׃

Transliteração

we-khissah et-ein ha-arets we-lo yukhal lir'ot et-ha-arets; we-akhal et-yeter ha-peletah ha-nish'eret lakhem min-ha-barad, we-akhal et-kol-ha-ets ha-tsomeach lakhem min-ha-sadeh.

Análise palavra por palavra

וְכִסָּה — we-khissah, "e cobrirá".

Verbo kasah na forma intensiva (Piel), terceira pessoa masculina do singular. O sujeito é o gafanhoto do versículo anterior, tratado como coletivo — por isso o português precisa do plural onde o hebraico usa o singular.

A raiz é a de cobrir, esconder, tapar. É a mesma do verbo que descreve as águas cobrindo a terra no dilúvio, em Gênesis 7:19-20.

אֶת־עֵין הָאָרֶץ — et-ein ha-arets, "o olho da terra".

Ayin é o olho. A palavra tem, em hebraico, uma segunda vida que ajuda aqui: ela designa também a fonte de água — o olho d'água, expressão que o português conserva —, e ainda a aparência de alguma coisa, o seu aspecto e brilho. É nesse terceiro sentido que ela é usada, por exemplo, para descrever a cor do maná em Números 11:7.

Esse terceiro uso é o que dá sustentação à leitura mais comum: "o olho da terra" seria a aparência da terra, o que se vê dela.

A expressão inteira ocorre quatro vezes na Bíblia hebraica, e só no Pentateuco: aqui, no versículo 15 deste capítulo e em Números 22:5 e 22:11, onde é dita a respeito de Israel saído do Egito, com o mesmo verbo kasah.

וְלֹא יוּכַל לִרְאֹת — we-lo yukhal lir'ot, "e não poderá ver".

Verbo yakhol, "poder, ser capaz", no imperfeito de terceira pessoa masculina do singular, seguido do infinitivo de ra'ah, "ver".

O verbo está no singular e sem sujeito expresso. Essa é a maneira hebraica de construir a impessoal: "não se poderá", "não haverá quem possa". Há quem prefira ler o gafanhoto como sujeito também aqui, mas o sentido resultante seria estranho, e a leitura impessoal é a corrente.

אֶת־יֶתֶר הַפְּלֵטָה הַנִּשְׁאֶרֶת — et-yeter ha-peletah ha-nish'eret, "o restante da sobrevivência que ficou".

Aqui está a construção mais carregada do versículo: três palavras de resto, de três raízes diferentes, uma atrás da outra.

Yeter vem da raiz de sobrar, exceder — é o que fica depois que se tirou. Dela vem também o nome próprio Jetro.

Peletah vem da raiz de escapar, livrar-se. Não é qualquer sobra: é o que escapou de um perigo. A palavra é usada na Bíblia hebraica para os que sobrevivem a uma guerra ou a uma destruição — é o termo dos "remanescentes".

Ha-nish'eret é o particípio do Nifal (a forma passiva) da raiz sha'ar, ficar, restar, ser deixado. É a raiz de onde vem she'ar, "resto", e she'erit, "restante" — o vocabulário com que os profetas falarão do resto de Israel.

As três empilhadas dão algo como "o resto do que escapou, aquilo que restou". Nenhuma tradução consegue reproduzir isso sem soar ruim em português, e todas escolhem simplificar.

לָכֶם — lakhem, "para vocês".

Preposição le com sufixo de segunda pessoa masculina do plural. Até o versículo anterior, Moisés falava ao rei no singular; a partir daqui, a um grupo.

A função da preposição é a do interesse: não é apenas "o que sobrou", e sim "o que sobrou a vocês", o que estava reservado a eles. O hebraico usa muito essa construção, e o português a perde quase sempre.

Ela aparece duas vezes no versículo — com a sobra e com a árvore.

מִן־הַבָּרָד — min-ha-barad, "do granizo".

Barad é o granizo, a pedra de gelo. A preposição min marca a origem da sobra: o que restou a partir do granizo, isto é, o que ele não pegou.

אֶת־כָּל־הָעֵץ הַצֹּמֵחַ — et-kol-ha-ets ha-tsomeach, "toda a árvore que cresce".

Ets é ao mesmo tempo a árvore e a madeira — o hebraico não separa as duas coisas, e é a mesma palavra da árvore do jardim em Gênesis 2 e da madeira da arca em Gênesis 6.

Está no singular com kol, "todo": a construção significa "toda árvore", cada uma delas.

Note-se que o objeto do verbo comer é a árvore, e não o fruto nem a folha dela. Isso pode ser abreviação — comer a árvore por comer o que ela produz — ou pode ser literal, já que o inseto ataca também a casca e os ramos novos.

Ha-tsomeach é o particípio de tsamach, brotar, crescer. É a raiz de onde vem tsemach, "renovo", palavra que os profetas usarão como título messiânico. Aqui ela descreve simplesmente a árvore em crescimento.

מִן־הַשָּׂדֶה — min-ha-sadeh, "do campo".

Sadeh é a terra cultivada fora da cidade, o campo aberto, por oposição ao que está dentro de casa ou de muros. A preposição aqui indica lugar: a árvore que cresce no campo.

É a última palavra do versículo, e ela prepara a do versículo seguinte, que é "casas".

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo.

A primeira: a praga é definida pelo que a anterior deixou. O hebraico empilha três palavras de sobra na mesma linha, de três raízes diferentes, e uma delas é a palavra dos que escapam de uma destruição. O alvo anunciado não é a colheita do Egito — é o que restou dela. A oitava praga não repete a sétima; ela a termina.

A segunda: a imagem escolhida é de visão, e ela não é reproduzida em português. "Cobrirão o olho da terra" é o que o hebraico diz, e a frase seguinte explica para quê: ninguém verá o chão. Se o olho é a aparência da terra, o olho da própria terra ou o sol que a ilumina é questão sem solução aceita por todos; o que se pode afirmar é que a expressão existe em apenas quatro lugares na Bíblia hebraica, e que em dois deles ela descreve Israel saindo do Egito.

A terceira: a perda anunciada tem dois prazos diferentes. O que sobrou do granizo é comida de um ano. A árvore é outra coisa: leva anos para repor, e o texto a nomeia à parte, com o particípio que indica que ela ainda estava crescendo. Quem ouvia isso no Egito, onde árvore era bem plantado e contado, entendia a diferença sem que fosse preciso explicá-la.

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