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Êxodo 10:15

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 24 acessos
Cobriram o olho de toda a terra, e a terra escureceu. Comeram toda a erva da terra e todo o fruto das árvores que o granizo tinha deixado, e não ficou nada verde nas árvores nem na erva do campo, em toda a terra do Egito.
Pomar egípcio depois da praga: tamareiras e figueiras completamente desfolhadas, chão de terra batida sem uma folha, muros de barro e o rio ao fundo sob um céu pálido, tudo em tons de ocre e cinza.

Estudo


Cobriram o olho de toda a terra, e a terra escureceu. Comeram toda a erva da terra e todo o fruto das árvores que o granizo tinha deixado, e não ficou nada verde nas árvores nem na erva do campo, em toda a terra do Egito.

1. Introdução

O balanço da praga é escrito como uma ausência.

O versículo conta o que comeram — a erva e o fruto das árvores — e depois faz a conta pelo avesso: não ficou nada verde. Não há número, não há estimativa de prejuízo, não há descrição de quem perdeu o quê. Há uma cor que sumiu. E a terra, antes de perder o verde, perde a luz: o texto diz que ela escureceu, e há duas explicações antigas para isso.

2. Contexto Histórico e Cultural

No Egito, "verde" era a palavra da vida

A frase final do versículo — não ficou nada verde — soa, em português, como observação de paisagem. No país em que a cena se passa, ela tocava numa palavra de peso.

A língua egípcia tinha um termo, uadj, que significa ao mesmo tempo três coisas: verde, fresco e florescente. Não são três sentidos separados que um dicionário lista por acaso; é um só campo de ideia. Estar verde, ali, é estar vivo e indo bem.

O sinal com que a palavra se escrevia diz o resto: um talo de papiro. A planta que cresce na beira da água, que se renova sozinha e que era o emblema do Baixo Egito — o delta — serviu de desenho para a ideia de vigor.

O verde como objeto que se usa

A ideia não ficou na língua. Ela virou objeto.

Existe um amuleto egípcio em forma de coluna de papiro, chamado pelo mesmo nome da cor, que se pendurava no pescoço. Era feito preferencialmente de pedra verde — feldspato — e as fórmulas funerárias mandam colocá-lo na garganta do morto. O que ele promete é exatamente o que a palavra carrega: frescor, saúde, renovação.

E há o caso mais visível de todos. Osíris, o deus dos mortos que volta à vida, é pintado nas paredes com a pele verde. Não é alegoria de decomposição, como às vezes se lê: é a cor da vegetação que rebrota, aplicada ao corpo do deus que rebrota.

Por que isso muda a leitura da última frase

Ponha as duas coisas lado a lado e a frase deixa de ser paisagem.

Num país onde a palavra para "verde" é a mesma para "próspero", onde o amuleto do vigor é uma pedra verde ao pescoço do morto e onde o deus da ressurreição tem a cor da folha nova, dizer que não restou nada verde é uma frase de duplo fundo. Ela descreve a lavoura — e usa a palavra que aquela cultura reservara para dizer que a vida continua.

Há um limite aqui, e é fácil ultrapassá-lo. O versículo está em hebraico, e a palavra hebraica para verde tem história própria, examinada no item 10. Não há como saber se quem escreveu tinha em mente o campo de sentido egípcio, e o texto não faz nenhuma alusão a Osíris, a papiro ou a amuleto. O que se pode dizer é o que um leitor egípcio ouviria — e ele ouviria mais do que a cor.

O que o verde significava na prática

Há ainda um sentido rasteiro, e ele é o mais importante dos dois.

Verde, numa lavoura, é o que ainda está crescendo. O grão guardado no celeiro não é verde; a palha não é verde; a árvore quebrada pelo granizo, com os galhos no chão, não é verde. Verde é a parte viva — a que ia dar colheita, a que ia dar fruto, a que ia virar pasto.

Por isso a conta do versículo é sobre o futuro, e não sobre o estoque. O que a praga tirou não foi o que havia: foi o que estava por vir.

E a estação em que isso acontece

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) faz aqui uma observação que ajuda a ver a cena. Pelo ponto do calendário em que ele situa a praga, as frutas do Egito — o figo, a uva, a azeitona, a romã, a tâmara — estariam em estágios diferentes de formação, nenhuma delas pronta para colher.

A datação é dele e depende de leituras do capítulo 9 que são discutidas. O que ela ilustra, de qualquer modo, é o mecanismo: uma praga que chega antes da colheita não leva o produto, leva a promessa dele.

3. Análise Teológica do Versículo

"Cobriram o olho de toda a terra"

A frase cumpre o anúncio do versículo 5 quase palavra por palavra, e a expressão que ela usa — o olho da terra — é dali, onde aparece pela primeira vez no capítulo.

Há uma diferença pequena e vale registrá-la: o anúncio dizia "o olho da terra"; o cumprimento diz "o olho de toda a terra". O texto acrescenta o total no momento em que descreve o fato.

"e a terra escureceu"

Esta frase não estava no anúncio. É acréscimo do relato, e é a única informação sensorial do versículo.

Como a terra escurece por causa de gafanhotos? Duas explicações circulam desde os comentários antigos, e elas não descrevem a mesma coisa.

Primeira explicação: o escuro vem de cima. Um bando em voo forma uma camada espessa entre o sol e o chão, e quem está embaixo vê a luz diminuir como se uma nuvem tivesse passado. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) registra essa leitura e lembra que os relatos de viajantes descrevem exatamente isso: o céu obscurecido pelos insetos.

Segunda explicação: o escuro vem de baixo. O bando pousado cobre o solo com uma camada de corpos pardos e apaga a cor da terra — não é o ar que escurece, é a superfície. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) prefere essa leitura, apoiada em relatos de terreno coberto por vários centímetros de insetos ao longo de quilômetros.

O versículo anterior favorece um pouco a segunda: ele acabou de dizer que o bando pousou. Mas o verbo hebraico aqui é o de escurecer, sem sujeito que indique de onde, e o texto não decide. As duas leituras são plausíveis e podem, aliás, ter acontecido em momentos diferentes do mesmo dia.

"Comeram toda a erva da terra e todo o fruto das árvores que o granizo tinha deixado"

Aqui o versículo faz uma coisa que só se percebe comparando três lugares do capítulo, e vale fazer a comparação.

O anúncio ao rei, no versículo 5, prometia duas coisas: o restante que escapou do granizo, e toda árvore que crescia no campo.

A ordem a Moisés, no versículo 12, mencionava uma só: a erva da terra, tudo o que o granizo tinha deixado. Árvore não aparece ali.

O cumprimento, neste versículo, traz as duas — a erva e o fruto das árvores.

O que a diferença significa não é possível decidir, e convém não construir teoria sobre ela. Pode ser variação normal de repetição, frequente no Êxodo; pode ser que "a erva da terra" fosse entendida como abrangendo o que cresce no campo em geral. O dado verificável é que o resultado corresponde ao que foi prometido ao rei, e não à letra estrita da ordem dada a Moisés.

Repare também no que foi comido nas árvores: o fruto. Não a árvore. O granizo do capítulo 9 tinha quebrado as árvores do campo; o gafanhoto leva o que ainda estava pendurado nas que sobraram. As duas pragas se dividem o mesmo pomar em camadas.

"e não ficou nada verde nas árvores nem na erva do campo"

A frase final faz a conta, e faz pelo avesso.

Não há aqui quantidade, percentual ou estimativa. Não se diz quanto se perdeu, quantos campos, quantas casas. Diz-se o que não havia: nada verde.

Há um detalhe no original que a tradução não consegue mostrar. O verbo de "não ficou" e o verbo de "o granizo tinha deixado" são o mesmo verbo, na mesma frase, em duas formas diferentes — uma ativa, outra passiva. Ao pé da letra: "o que o granizo tinha feito restar… e não restou nada verde". A frase fecha sobre si mesma: o que ficou de uma praga é exatamente o que não ficou da outra.

Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) chama a atenção para o que torna isso extraordinário no relato, e o ponto dele é bom: uma invasão de gafanhotos comum atinge uma região de cada vez e avança devagar; aqui o texto descreve o país inteiro atingido ao mesmo tempo, e o estrago consumado num único dia.

"em toda a terra do Egito"

É a quarta vez que a expressão aparece em quatro versículos: na ordem, duas vezes; no cumprimento, uma; e aqui, fechando. O Êxodo não evita a repetição — ao contrário, martela o mesmo par de palavras.

E vale a ressalva de sempre, que o próprio livro autoriza: fórmulas de totalidade convivem, nele, com exceções detalhadas logo adiante — foi o que aconteceu com o granizo, no capítulo 9. Ler "toda a terra" como inventário é exigir do texto um rigor que ele não pratica em nenhuma praga.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A erva e as árvores

São os dois grupos que o versículo separa, e a distinção é a do próprio hebraico.

A erva é a vegetação rasteira que brota do chão: capim, hortaliça, cereal ainda verde. É o que alimenta a gente no dia a dia e o que alimenta o gado no pasto.

A árvore é o que leva anos para crescer. No Egito, que é um vale estreito entre dois desertos, quase nenhuma árvore útil nascia sozinha: era plantada, regada e protegida. O que se sabe sobre o valor delas no país está no estudo de Êxodo 9:25, onde o granizo as quebra.

Neste versículo o que se perde das árvores é o fruto — não o tronco, não o galho. As duas pragas dividiram o pomar: uma partiu a madeira, a outra levou o que ainda estava pendurado.

O granizo

Aparece pela terceira vez no capítulo como referência de conta. Foi ele que definiu, lá no capítulo 9, o que existia para ser comido agora.

Quem quiser a conta exata encontra-a no próprio capítulo 9: o linho e a cevada foram feridos, porque estavam adiantados; o trigo e a espelta escaparam, porque eram tardios.

Os gafanhotos

São sujeito de três verbos seguidos: cobriram, comeram, e — pela negativa — não deixaram. É a única aparição deles em que o texto descreve o que fazem, e não o que são ou de onde vêm.

A terra do Egito

A expressão fecha o versículo e é a quarta ocorrência dela em quatro versículos. Não há aqui nenhuma menção a Gósen nem à região onde Israel morava — e o capítulo, ao contrário dos dois anteriores, não afirma nem nega que a distinção valesse.

Ninguém humano

Como no versículo anterior, não há personagem: nem Moisés, nem Arão, nem o rei, nem os egípcios. Dois versículos seguidos sem gente, num capítulo que é quase todo feito de conversa. A cena volta a ter pessoas no versículo seguinte, quando o rei manda chamar os dois com pressa — e é razoável ler essa pressa à luz do que este versículo acaba de descrever, ainda que o texto não faça a ligação.

5. Pontos de Ensino

O balanço é escrito pelo que falta

O versículo não informa quanto se perdeu. Informa o que não havia depois: nada verde. É uma forma de medir que dispensa números e que ninguém pode contestar por estimativa.

A praga levou o futuro, não o estoque

Verde, numa lavoura, é a parte que ainda ia crescer. O grão no celeiro não é verde. O que este versículo descreve, portanto, não é o fim das reservas — é o fim da próxima colheita.

Duas pragas dividiram o mesmo pomar

O granizo quebrou as árvores; o gafanhoto comeu o fruto das que sobraram. Nenhuma das duas fez tudo, e é o encaixe das duas que produz o resultado descrito aqui.

O texto repete a mesma expressão sem constrangimento

"Toda a terra do Egito" aparece quatro vezes em quatro versículos. O Êxodo não procura sinônimo e não varia: martela. Quem lê esperando elegância de estilo lê o livro errado — a repetição é o recurso, não o defeito.

O que se diz "assim como se anunciou" nem sempre é a letra

O resultado corresponde ao que foi prometido ao rei no versículo 5, e não à letra da ordem dada a Moisés no versículo 12, que não mencionava árvores. É observação de leitura, não acusação: o próprio livro repete as suas fórmulas com variações, e exigir identidade literal é pedir a ele o que ele não faz.

Uma palavra pode carregar mais do que a cor

Num país cuja língua usava o mesmo termo para verde, fresco e próspero, e cujo deus da ressurreição era pintado com a pele verde, dizer que não restou nada verde tocava numa corda que o português não tem. Saber disso não muda o que o versículo afirma; muda o que ele ressoa.

6. Aspectos Filosóficos

Como se descreve o que não está lá?

O versículo termina com uma frase que não descreve coisa nenhuma: "não ficou nada verde". É uma afirmação sobre uma ausência — e ausências, ao contrário de objetos, não se veem.

Pense no que seria preciso para constatá-la. Não basta olhar um campo e não achar verde ali: seria preciso olhar todos e não achar em nenhum. Uma afirmação negativa e universal exige, para ser verificada, exatamente aquilo que ninguém consegue fazer — percorrer o conjunto inteiro.

Isso não a torna falsa nem vazia. Torna-a uma afirmação de tipo diferente das outras do capítulo. "Os gafanhotos pousaram" é do tipo que uma testemunha sustenta; "não ficou nada verde em toda a terra do Egito" é do tipo que nenhuma testemunha sustenta sozinha.

Por que o texto escolhe essa forma

Há uma vantagem prática na descrição pela ausência, e ela explica por que os relatos de desastre a preferem.

Números envelhecem e se discutem. Dizer que se perderam dois terços da lavoura abre uma conversa sobre a conta. Dizer que não restou nada verde fecha a conversa — não porque seja mais exato, mas porque muda o assunto: em vez de medir o estrago, descreve o estado em que as coisas ficaram.

E há um segundo efeito, mais difícil de nomear. Uma perda parcial se compara: é pior do que aquela, melhor do que a outra. Uma perda descrita como total sai da escala. Não se pergunta mais quanto — pergunta-se o que fazer agora.

O que é perder uma qualidade e não uma coisa

Repare no que o versículo diz que sumiu. Não sumiram as árvores; elas continuam lá, e o texto até as nomeia — "nas árvores nem na erva do campo". O que sumiu foi o verde delas.

Verde não é um objeto que se possa levar embora. É um estado das coisas vivas, o sinal de que estão crescendo. Uma árvore sem verde continua sendo árvore, e não é mais a mesma coisa para quem depende dela.

Daí um modo útil de entender o que a praga fez. Ela não removeu o patrimônio do Egito: removeu a propriedade que fazia aquele patrimônio produzir. O que ficou tem a forma do que havia e não tem a função.

Onde isto para

Nada disso é dito pelo texto, que não comenta a própria frase e segue adiante. O que se pode afirmar é a escolha de forma: entre contar o que foi comido e dizer o que não havia, o Êxodo faz as duas coisas — e reserva a segunda para o fim, como fecho.

E convém não transformar a observação em tese sobre a linguagem bíblica em geral. Este versículo fecha assim; o capítulo 9, na praga anterior, fechou com um balanço detalhado do que escapou. O livro faz as duas coisas, em versículos vizinhos.

7. Aplicações Práticas

Distinguir o que foi levado do que deixou de crescer

A praga deste versículo não esvaziou celeiro: comeu o que estava verde. O prejuízo não aparece na conta de hoje — aparece na colheita que não vai acontecer.

Perdas assim são as mais difíceis de enxergar enquanto acontecem, e são comuns fora do texto. O cliente que não voltou, o estudo que se interrompeu, a conversa que se adiou por anos, a saúde que se foi deixando para depois. Nada disso reduz o saldo no dia em que acontece. Tudo isso reduz o que vem depois.

Quem faz um balanço honesto de qualquer coisa — de um negócio, de um ano, de uma relação — precisa somar as duas colunas: o que foi tirado e o que deixou de ser produzido.

Um desastre raramente é obra de um golpe só

O granizo quebrou as árvores; o gafanhoto comeu o fruto do que ficou de pé. Nenhuma das duas pragas, sozinha, teria produzido o quadro deste versículo.

É assim que as coisas costumam desandar. Não há um acontecimento único a que se possa apontar: há uma sequência em que cada peça atinge justamente o que a anterior poupou. Reconhecer a sequência, em vez de procurar o culpado único, é o que permite interromper a próxima.

Quando a descrição vira "nada"

O versículo fecha com uma palavra absoluta. Fora de um texto, palavras assim precisam de cuidado: "não sobrou nada", "não adiantou nada", "nunca deu certo". Elas descrevem menos do que parecem e fecham a conversa mais do que deviam.

No relato, a frase tem função — é o fecho de um balanço. Numa avaliação nossa, ela costuma ser o começo de um erro, porque impede a pergunta seguinte, que é o que ainda existe e serve.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a terra escureceu?

Há duas explicações antigas e o texto não decide entre elas: o bando em voo, tapando o sol; ou o bando pousado, cobrindo o solo com uma camada de corpos e apagando a cor da terra. O versículo anterior, que diz que os insetos pousaram, favorece um pouco a segunda. As duas são plausíveis e podem descrever momentos diferentes do mesmo dia.

A ordem dada a Moisés não falava em árvores. Por que o resultado inclui o fruto delas?

A pergunta é boa e não tem resposta no texto. O anúncio ao rei, no versículo 5, mencionava as árvores; a ordem a Moisés, no versículo 12, não. O cumprimento segue o anúncio. Pode ser variação normal de repetição, frequente no livro, ou entendimento de que "a erva da terra" abrangia o que cresce no campo em geral. Não é possível decidir, e construir teoria sobre isso é ir além do que o Êxodo permite.

"Não ficou nada verde" pode ser levado ao pé da letra?

É linguagem de balanço, e o próprio livro mostra como ela funciona: no capítulo 9, depois de dizer que o granizo feriu "toda planta do campo", o texto detalha nos versículos 31 e 32 o que tinha escapado. Aqui não há detalhamento — o que não autoriza concluir que a fórmula seja exata, nem que não seja.

E a terra de Israel?

O capítulo não diz nada a respeito. Nas pragas dos capítulos 8 e 9, a separação entre as duas terras é afirmada com todas as letras; aqui ela não é afirmada nem negada. O silêncio não é informação.

O que sobrou para comer, então?

O versículo não trata disso, e o leitor que faz a pergunta está certo em fazê-la. O que a praga come é o verde — o que ainda crescia. Grão colhido e guardado é outra categoria, e nem este versículo nem os seguintes dizem o que havia nos celeiros do Egito naquele momento. Quem afirma que houve fome está completando o relato.

O verde tem algum peso especial no Egito?

Tem, e é considerável: a palavra egípcia para verde significa também fresco e florescente, o amuleto do vigor era uma coluna de papiro em pedra verde, e Osíris é pintado com a pele dessa cor. Isso não prova que o autor do versículo pensasse nisso — o texto está em hebraico e não faz alusão nenhuma. Mostra o que um ouvinte egípcio escutaria na frase.

9. Conexão com Outros Textos

O anúncio que este versículo cumpre

Êxodo 10:5 — "Eles cobrirão o olho da terra, e não se poderá ver a terra; comerão o restante do que escapou, o que sobrou para vocês do granizo, e comerão toda árvore que cresce para vocês no campo."

Quase palavra por palavra, com duas diferenças: o cumprimento acrescenta "toda" à terra coberta, e acrescenta o escurecimento, que o anúncio não previra.

A ordem, que não falava em árvores

Êxodo 10:12 — "…e comam toda a erva da terra, tudo o que o granizo deixou."

O que o granizo tinha feito

Êxodo 9:25 — "O granizo feriu, em toda a terra do Egito, tudo o que estava no campo, desde os homens até os animais. O granizo feriu toda planta do campo e quebrou todas as árvores do campo."

Lá as árvores são quebradas; aqui o fruto do que sobrou é comido.

A planta verde, no começo de tudo

Gênesis 1:30 — "E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus e a tudo o que se move sobre a terra e tem em si fôlego de vida, dou toda planta verde por alimento. E assim foi."

A mesma palavra, "verde", na frase em que ela é entregue como alimento a tudo o que vive. O Êxodo não faz a ligação, e ela fica visível para quem lê os dois livros.

O mesmo estrago, contado em Israel

Joel 1:12 — "A videira secou, a figueira murchou; a romãzeira, a palmeira e a macieira, todas as árvores do campo secaram — e por isso secou a alegria entre os filhos dos homens."

Joel 1:18 — "Como geme o gado! As manadas de bois andam desnorteadas, porque não têm pasto; até os rebanhos de ovelhas estão perdidos."

O detalhe que este versículo não dá: sem erva não há pasto, e sem pasto o gado que escapou das pragas anteriores fica sem o que comer.

Amós 4:9 — "Eu os feri com crestamento e com ferrugem; o gafanhoto devorou as suas muitas hortas, as suas vinhas, as suas figueiras e as suas oliveiras; e, apesar disso, vocês não voltaram para mim, diz o SENHOR."

A praga resumida nos salmos

Salmo 105:35 — "E comeram toda a erva da terra deles, e devoraram o fruto do solo deles."

O salmo guarda exatamente os dois termos deste versículo: a erva e o fruto.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Cobriram o olho de toda a terra, e a terra escureceu. Comeram toda a erva da terra e todo o fruto das árvores que o granizo tinha deixado, e não ficou nada verde nas árvores nem na erva do campo, em toda a terra do Egito.

Texto hebraico

וַיְכַס אֶת־עֵין כָּל־הָאָרֶץ וַתֶּחְשַׁךְ הָאָרֶץ וַיֹּאכַל אֶת־כָּל־עֵשֶׂב הָאָרֶץ וְאֵת כָּל־פְּרִי הָעֵץ אֲשֶׁר הוֹתִיר הַבָּרָד וְלֹא־נוֹתַר כָּל־יֶרֶק בָּעֵץ וּבְעֵשֶׂב הַשָּׂדֶה בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם׃

Transliteração

wa-yekhas et-ein kol-ha-arets, wa-techshakh ha-arets; wa-yokhal et-kol-esev ha-arets we-et kol-peri ha-ets asher hotir ha-barad; we-lo-notar kol-yereq ba-ets u-ve-esev ha-sadeh be-khol-erets Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַיְכַס אֶת־עֵין כָּל־הָאָרֶץ — wa-yekhas et-ein kol-ha-arets, "e cobriu o olho de toda a terra".

Wa-yekhas é de kasah, cobrir, no Piel — a forma intensiva. É o verbo de cobrir com roupa, com terra, com água. Está no singular, concordando com o coletivo "gafanhoto".

Ein ha-arets, "o olho da terra", é a expressão que dá o tom do capítulo e que aparece pela primeira vez no versículo 5, onde tem tratamento próprio. Aqui o texto acrescenta kol, "toda".

וַתֶּחְשַׁךְ הָאָרֶץ — wa-techshakh ha-arets, "e escureceu a terra".

O verbo chashakh significa escurecer, ficar escuro, e está no Qal — a forma simples —, com a terra como sujeito. Não há agente na frase: não se diz que os gafanhotos escureceram a terra, diz-se que a terra escureceu.

Essa construção é o que deixa as duas leituras abertas. Se o escuro viesse do bando em voo, o hebraico poderia tê-los posto como sujeito; ao dizer que a terra escureceu, deixa em aberto se o escuro é do ar acima ou da superfície mesma.

אֶת־כָּל־עֵשֶׂב הָאָרֶץ — et-kol-esev ha-arets, "toda a erva da terra".

Esev é a vegetação rasteira que brota do chão — a mesma palavra da ordem do versículo 12 e a mesma da criação da vegetação, em Gênesis 1.

כָּל־פְּרִי הָעֵץ — kol-peri ha-ets, "todo o fruto da árvore".

Peri é o fruto; ets é a árvore, e vem no singular com artigo, funcionando como coletivo, do mesmo modo que "gafanhoto". O que foi comido é o fruto, e não a árvore.

אֲשֶׁר הוֹתִיר הַבָּרָד — asher hotir ha-barad, "que o granizo deixou".

Hotir é o verbo yatar no Hifil, a forma causativa: fazer sobrar, deixar de resto.

Uma nota de precisão: o versículo 12 usara, para a mesma ideia, um verbo de outra raiz — hish'ir, de sha'ar. Os dois significam "deixar sobrar" e são praticamente sinônimos; a troca entre eles, num par de versículos, é variação de estilo e não mudança de sentido.

וְלֹא־נוֹתַר כָּל־יֶרֶק — we-lo-notar kol-yereq, "e não restou nenhum verde".

Aqui está o fecho, e ele traz o achado formal do versículo.

Notar é a mesma raiz de hotir, três palavras antes, agora no Nifal — a forma passiva. Numa só frase o texto diz o que o granizo fez restar e o que não restou. Em português a coincidência some, porque as traduções usam "deixou" num lugar e "ficou" no outro; no hebraico a frase se fecha sobre si mesma.

Yereq é o verde. A palavra vem da mesma raiz de yaraq, a hortaliça, e do adjetivo que descreve a folha nova; designa a cor e, por ela, o que está vivo e crescendo.

Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) faz aqui uma nota de tradutor, e ela é precisa: yereq, neste versículo, não significa "hortaliça", e sim folha verde — e ele traduz a palavra pelo termo francês de sua época para verdura, como fazia sempre que o hebraico corria o risco de ser mal entendido.

בָּעֵץ וּבְעֵשֶׂב הַשָּׂדֶה — ba-ets u-ve-esev ha-sadeh, "na árvore e na erva do campo".

Os dois termos do versículo voltam, agora na ordem inversa: antes foi erva e depois árvore; aqui é árvore e depois erva. O hebraico usa muito essa inversão para fechar uma unidade — o que se abre numa ordem, fecha-se na outra.

בְּכָל־אֶרֶץ מִצְרָיִם — be-khol-erets Mitsrayim, "em toda a terra do Egito".

A expressão fecha o versículo e é a quarta ocorrência dela em quatro versículos seguidos. O Êxodo não procura variação: repete o mesmo par de palavras na ordem, no cumprimento e no balanço.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo.

O balanço é feito por ausência, e não por medida. Não há número, percentual nem estimativa: há uma frase que diz o que não havia depois. É uma escolha de forma, e ela tem efeito — uma perda descrita assim sai da escala em que se comparam prejuízos e passa a descrever um estado.

O que a praga levou foi o que ainda ia crescer. Verde, numa lavoura, é a parte viva: a que daria colheita, fruto e pasto. As árvores continuam de pé no próprio versículo — o texto as nomeia — e o que sumiu foi a propriedade que as fazia produzir. A perda não é de patrimônio; é de produção futura.

O estrago é obra de duas pragas encaixadas. O granizo quebrou as árvores e derrubou parte da lavoura; o gafanhoto comeu a erva e o fruto do que tinha sobrado. Nenhuma das duas, sozinha, produz o quadro descrito aqui — e o próprio hebraico marca o encaixe pondo, numa frase só, o verbo do que o granizo fez restar e o verbo do que não restou.

Duas coisas ficam em aberto, e é melhor deixá-las assim. O texto não diz de onde veio o escuro — se do bando em voo, se da camada pousada —, e as duas leituras antigas continuam defensáveis. E o texto não diz nada sobre a terra em que Israel morava, coisa que os dois capítulos anteriores afirmam com todas as letras. O que este versículo entrega é o balanço de um país, escrito em quatro palavras: nada verde, em nenhum lugar.

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