Moisés e Arão saíram da presença de Faraó, e Moisés clamou ao SENHOR por causa das rãs que ele havia posto sobre Faraó.
1. Introdução
A negociação acabou e os dois homens deixam o palácio. A partir daqui, tudo acontece fora da presença do rei.
O versículo registra três coisas em uma frase, e as três merecem exame.
A primeira: quem ora é Moisés, sozinho. Arão sai com ele e desaparece da cena sem dizer nada.
A segunda: o verbo não é o que tinha sido combinado. Faraó pediu que suplicassem; Moisés clama — que é a palavra do grito de socorro, a mesma que o livro vinha usando para o sofrimento de Israel debaixo do Egito.
A terceira, e é a mais pesada: o texto diz, de passagem, numa oração subordinada, quem pôs as rãs em cima do rei. Não foram os magos, não foi o rio, não foi Arão, que estendeu a mão. O Êxodo atribui a praga a quem Moisés está orando — e não faz disso um problema.
2. Contexto Histórico e Cultural
Pôr um mal sobre uma pessoa nomeada era, no Egito, um procedimento
A frase final deste versículo — rãs que alguém "havia posto" sobre um homem com nome e cargo — não era, naquele mundo, uma maneira de falar. Descrevia uma operação que existia.
O Egito praticava o que hoje se chama de textos de execração. O procedimento está documentado principalmente no Reino Médio, e era mais ou menos assim: escreviam-se num vaso de cerâmica, ou numa figurinha de barro em forma de prisioneiro amarrado, os nomes daquilo que se queria destruir — chefes estrangeiros, povos vizinhos, egípcios revoltosos, às vezes males em geral. Depois o objeto era quebrado, cuspido, pisado e enterrado.
Foram achados depósitos desses em Sacará, em Tebas e, o mais completo deles, na fortaleza de Mirgissa, na Núbia, com o material do rito ainda no lugar.
Duas coisas importam aqui. A primeira é que o gesto se fazia sobre um nome: o alvo tinha de ser identificado para que o mal tivesse endereço. A segunda é que aquilo era assunto de Estado, executado em nome do rei e contra os inimigos do rei.
E o mesmo vocabulário existia na Mesopotâmia
Do outro lado do mundo conhecido, a linguagem era parecida. Os textos médicos mesopotâmicos chamam certas doenças de "a mão" de tal ou tal deus — a mão de Ishtar, a mão de Sin —, e a expressão não é imagem literária: é diagnóstico. Identificado o autor, sabia-se a quem recorrer.
Ou seja: dizer que uma desgraça foi posta sobre alguém por um deus era, para quem vivia ali, linguagem técnica e comum.
O que muda neste versículo
Três coisas, e vale enumerá-las.
O alvo é o próprio rei. A operação que o Egito executava em nome do faraó, contra os inimigos dele, aqui tem o faraó como destinatário — e o nome dele é escrito duas vezes no versículo.
Não há rito nenhum. Ninguém quebra vaso, ninguém escreve nome, ninguém pronuncia fórmula, ninguém enterra objeto. O texto não descreve procedimento algum, nem no momento de pôr nem no de tirar.
E quem desfaz é quem fez. Na execração egípcia, o mal posto sobre um inimigo não se destinava a ser retirado; aqui, o pedido de retirada é dirigido justamente a quem o pôs.
Convém marcar o limite: nada indica que o Êxodo conheça o gênero dos textos de execração, e a comparação não é de prática, e sim de expectativa cultural. Serve para mostrar o que a frase soaria a quem a ouvisse naquele tempo — e não para dizer que o livro esteja descrevendo um rito.
3. Análise Teológica do Versículo
"Moisés e Arão saíram da presença de Faraó"
Os dois entraram, os dois saem. No meio, só um falou.
Arão é nomeado aqui pela última vez na negociação deste capítulo, e é nomeado para sair. Ele foi chamado pelo rei em Êxodo 8:8, esteve presente em todas as falas e não tem uma linha de discurso. O Êxodo não comenta.
Mas o dado principal da frase é outro, e é fácil passar por ele: a oração não acontece dentro do palácio.
Isso é uma constante do livro, e vale notá-la. Moisés fala com Deus na montanha, no deserto, à beira do rio, do lado de fora — nunca diante do trono. A cena se repetirá idêntica em Êxodo 8:30, e ali o texto usará a mesma expressão de saída.
Não é possível decidir se há intenção nisso ou se é apenas o modo como as coisas se davam. O que se observa é que, entre o pedido do rei e o atendimento, o Êxodo sempre põe uma porta.
"e Moisés clamou ao SENHOR"
Aqui está a palavra que muda a cena, e ela não é a palavra combinada.
O rei pediu "supliquem" (Êxodo 8:8); Moisés respondeu "suplicar" (Êxodo 8:9). Era esse o verbo do acordo. Na hora de fazer, o texto escreve outro: clamar — o berro de quem pede socorro sob pressão.
Que não se trata de descuido, o próprio capítulo demonstra. Em Êxodo 8:30, na mesma situação e com a mesma estrutura de frase, o Êxodo escreve "suplicou", que é o verbo do acordo. Quer dizer: o livro sabe usar a outra palavra, e aqui não usou.
E a palavra tem história dentro deste livro. É a do grito de Israel sob a escravidão — "ouvi o grito dele diante dos seus feitores", em Êxodo 3:7; "o grito dos filhos de Israel chegou até mim", em Êxodo 3:9. É a dos supervisores israelitas berrando diante do trono, em Êxodo 5:15. O campo da raiz está tratado nos estudos de Êxodo 3:7 e 5:15, e não se reabre.
O que é deste versículo é a inversão. O verbo com que os oprimidos gritavam por causa do Egito é agora o verbo com que se grita em favor do rei do Egito. A palavra atravessou o livro e mudou de lado.
E há um segundo dado, que é de percurso. Esta é a primeira vez no livro que Moisés pede alguma coisa em favor de outra pessoa. Em Êxodo 5:22 ele voltou ao SENHOR, mas para reclamar — "por que trouxeste mal a este povo? Por que me enviaste?". Em Êxodo 4:13 pediu que mandasse outro. Falou de si, falou do povo, discutiu a própria missão. Aqui, pela primeira vez, pede por alguém — e o alguém é o rei do Egito.
Convém ser exato sobre o alcance disso. Os dois verbos têm áreas de uso que se sobrepõem, e o hebraico não os trata como opostos; construir sobre a troca uma teoria da oração seria ir longe demais. O que se pode afirmar é o que está no texto: a palavra escolhida aqui não é a do contrato, é a da aflição — e o Êxodo não explica por quê.
"por causa das rãs"
A expressão hebraica é, ao pé da letra, "sobre a palavra das rãs" — isto é, no assunto delas, a respeito do caso delas. É modo corrente de dizer "por causa de", e não tem nada de solene.
Vale só registrar que é a segunda de três ocorrências seguidas da mesma palavra em três versículos. Em Êxodo 8:10 ela era a palavra do rei; aqui é o assunto das rãs; em Êxodo 8:13 será a palavra de Moisés. O item 10 acompanha a cadeia.
"que ele havia posto sobre Faraó"
Esta é a frase pesada do versículo, e o Êxodo a escreve como quem não quer nada: uma oração subordinada, encaixada no fim, sem ênfase e sem comentário.
Comecemos pelo que ela exclui.
Não foram os magos. Eles aparecem em Êxodo 8:7 acrescentando rãs, e o texto não lhes atribui a praga. Não foi o rio, que em Êxodo 8:3 é o lugar de onde elas sobem, não a causa. Não foi Arão, que estendeu a mão em Êxodo 8:6 — e esse é o ponto delicado, porque a mão que executou foi a dele.
O sujeito do verbo não está escrito. O hebraico diz apenas "que pôs para Faraó", sem nome, e o leitor tem de supri-lo. O único candidato plausível é aquele a quem Moisés está clamando na mesma frase: o SENHOR. É assim que praticamente todas as traduções leem, e é a leitura que o contexto impõe. Ler "que Moisés havia posto" é gramaticalmente possível e fica sem sentido na cena: Moisés não está pedindo a si mesmo.
Aceito isso, o que a frase diz é o seguinte, e é melhor dizê-lo com todas as letras: Moisés está pedindo a Deus que desfaça o que Deus fez.
O Êxodo não trata isso como dificuldade. Não explica, não justifica, não ameniza e não discute justiça. Registra a autoria da praga numa frase de passagem e segue adiante — e é precisamente a naturalidade da frase que a torna informativa. Para este livro, que o mal enviado tenha autor conhecido não é escândalo nem paradoxo: é o pressuposto da própria intercessão. Só se pede a quem pode desfazer, e quem pode desfazer é quem fez.
Isso está longe de ser exclusivo daqui. Amós 3:6 o formulará como pergunta retórica, e o versículo está citado no item 9. Mas convém não transformar a observação em doutrina geral: o Antigo Testamento também fala de males que ele não atribui a Deus, e a discussão sobre isso não cabe neste versículo nem é levantada por ele.
E há um detalhe de preposição que quase ninguém traduz
O hebraico não diz "sobre Faraó". Diz "para Faraó" — a preposição do destinatário, a mesma de quando se dá alguma coisa a alguém.
As rãs foram destinadas a ele. Atingiram o país inteiro, e a frase as endereça a um homem. É coerente com o que o capítulo vem fazendo desde Êxodo 8:2, quando a ameaça foi dirigida ao "seu território", e explica por que a negociação inteira se passa entre duas pessoas: na contabilidade do texto, a praga tem um destinatário nominal.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
É o único sujeito das duas ações do versículo: sai e clama. A função de intercessor, que ele assumira em Êxodo 8:9 ao aceitar suplicar, é exercida aqui pela primeira vez — e exercida sozinho, longe de testemunhas.
Arão
Aparece como sujeito de um verbo só, o de sair, e some. Foi ele quem estendeu a mão sobre as águas em Êxodo 8:6; não é ele quem pede que as rãs saiam. O Êxodo separa as duas funções sem explicar a separação.
Faraó
Nomeado duas vezes no versículo: uma como aquele de cuja presença se sai, outra como aquele sobre quem as rãs foram postas. Não fala e não age. É, nesta frase, inteiramente objeto — do que foi feito e do que está sendo pedido.
O SENHOR
Destinatário do clamor e, pela leitura que o contexto impõe, autor da praga. As duas coisas na mesma frase.
A saída do palácio
Vale como acontecimento, porque marca a divisão da cena. Dentro do palácio houve negociação; fora dele, oração. O Êxodo nunca põe Moisés orando diante do trono, e repetirá esta mesma saída em Êxodo 8:30.
As rãs
Mencionadas aqui como assunto, e não como presença: são o caso sobre o qual se clama. É a última vez que aparecem vivas no capítulo.
5. Pontos de Ensino
Pedir a quem pode desfazer
A oração deste versículo é dirigida a quem o texto aponta como autor do que se quer desfazer. Não há rodeio nisso, e não há queixa.
O ponto não é confortável, e é melhor não suavizá-lo: o Êxodo não apresenta o intercessor como alguém que protesta contra uma injustiça. Apresenta-o como alguém que sabe a quem se dirigir.
Orar longe de onde se negociou
Moisés não ora diante do rei. Sai primeiro. A separação entre o lugar onde se discute e o lugar onde se pede é uma constante do livro, e aqui fica explícita: o versículo gasta metade da sua extensão para dizer que eles saíram.
Interceder por quem não merece
O beneficiário do clamor é o homem que escravizava o povo de quem clama. Não há uma palavra sobre mérito, arrependimento ou condição.
Moisés tinha combinado fazer isso, e fez. A qualidade moral de Faraó não entra na conta em momento nenhum da cena.
A forma da oração não é a que foi prometida
Prometeu-se súplica; o que saiu foi grito. Vale reter o dado sem forçá-lo: o texto descreve o que aconteceu, não o que era protocolar.
Quem executa o sinal não é necessariamente quem intercede
Arão estendeu a mão que trouxe as rãs. Moisés é quem pede que elas saiam. As duas funções andam juntas no capítulo e não são a mesma, e o texto as distribui sem comentar.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo põe um problema que a linguagem religiosa corrente costuma contornar: a quem se pede, quando se acredita que o mal foi enviado?
Há duas maneiras de organizar a resposta, e elas produzem religiões diferentes.
Na primeira, o mal vem de um lado e o socorro de outro. Pede-se a um poder que proteja contra outro poder. A oração é, no fundo, um pedido de aliança — e foi assim que boa parte do mundo antigo montou as suas práticas de defesa.
Na segunda, que é a deste versículo, não há dois lados. Quem pôs e quem pode tirar são o mesmo, e a oração não é aliança contra ninguém: é apelo a quem decidiu. Não sobra terceiro a quem culpar, e não sobra instância acima daquela a quem se fala.
A diferença tem consequência prática imediata. Na primeira montagem, orar é escolher lado; na segunda, orar é reconhecer a autoria e ainda assim dirigir-se ao autor. O gesto exige alguma coisa que não é ingenuidade nem resignação, e para a qual não há nome fácil.
Vale o registro de limite. O texto não formula nada disso. Ele diz o que Moisés fez e por causa de quê, numa frase, e a arrumação acima é do comentário — não do Êxodo, que sobre este assunto é econômico até a aspereza.
7. Aplicações Práticas
Sair da sala antes de decidir o que fazer
A estrutura do versículo é simples e imitável: negociou-se num lugar, sai-se dele, e só então se age. Entre a conversa e a resposta há uma porta.
Boa parte dos compromissos ruins nasce de não haver essa porta — de se responder no mesmo ambiente, sob os mesmos olhos, com a pressão ainda no corpo.
Cumprir o que se combinou com quem não merece
Moisés não reavalia o acordo depois de sair. Não discute se o rei merece, não condiciona, não adia. O que tinha sido combinado é feito.
Isso é diferente de confiar. Em Êxodo 8:29 o mesmo Moisés dirá ao rei, na cara, que não volte a agir com engano. Cumprir a palavra dada e ter ilusões sobre o outro são coisas separadas — e este versículo é a prova de que dá para fazer uma sem a outra.
Não medir a oração pela forma dela
Estava combinada uma súplica; o que aconteceu foi um grito. O texto não corrige nem comenta, e o resultado vem no versículo seguinte.
Quem cresceu ouvindo que existe um jeito certo de pedir encontra aqui um contraexemplo curto: a palavra usada é a do desespero, e nada indica que isso tenha atrapalhado.
Não fingir que o problema não tem autor
A frase final do versículo nomeia a origem da praga sem constrangimento. É um exemplo raro de um texto religioso que não protege o próprio Deus da frase incômoda — e, para quem lê, é um convite a também não fugir da parte difícil quando for a sua vez de formular um pedido.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Moisés não orou ali mesmo, diante do rei?
O texto não diz. O que se observa é que isso nunca acontece no livro: em nenhum ponto do Êxodo Moisés ora diante do trono. A cena se repete igual em Êxodo 8:30. Se é protocolo, prudência ou hábito, não é possível decidir.
Por que "clamou" e não "suplicou", se o acordo era suplicar?
Não há explicação no texto, e a pergunta é legítima porque o próprio capítulo usa o verbo combinado em Êxodo 8:30. O que se pode dizer é que a palavra escolhida aqui pertence ao campo do socorro urgente, e que foi a mesma que o livro empregou para o grito de Israel escravizado.
Quem é o "ele" que pôs as rãs sobre Faraó?
O hebraico não escreve o sujeito. Pelo contexto é o SENHOR, a quem Moisés está clamando na mesma frase, e é assim que as traduções leem. A alternativa — entender que o sujeito é Moisés — é possível na gramática e não se sustenta na cena, porque tornaria o pedido dirigido a quem o faz.
Arão orou também?
O texto não diz que sim nem que não. Diz que os dois saíram e que Moisés clamou. O verbo do clamor tem um sujeito só, e ele está escrito.
Se Deus pôs as rãs, por que pedir a Deus que as tire?
Porque, na lógica do texto, não há outro a quem pedir. A pergunta pressupõe que autor do mal e fonte do socorro sejam instâncias distintas, e o Êxodo não trabalha com essa separação. É o assunto do item 6, e é um dos pontos em que este livro é mais direto do que a pregação costuma ser.
Por que o texto diz "para Faraó" e não "sobre Faraó"?
Porque a preposição hebraica é a do destinatário. A praga é apresentada como destinada a ele — o que, num país inteiro coberto de rãs, é uma escolha de linguagem, não uma descrição do alcance. O item 10 trata da forma.
9. Conexão com Outros Textos
Êxodo 8:8 — "Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: 'Supliquem ao SENHOR que tire as rãs de mim e do meu povo...'"
O verbo combinado. Compare-se com o que o texto escreve na hora de executar: não é o mesmo.
Êxodo 8:30 — "Moisés saiu da presença de Faraó e suplicou ao SENHOR."
A mesma cena, no fim do capítulo, com a mesma saída e com o verbo do acordo. É a prova de que a troca deste versículo não é acaso de vocabulário.
Êxodo 3:7 — "E o SENHOR disse: 'Eu vi, sim, a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi o grito dele diante dos seus feitores; pois conheço as dores dele.'"
A palavra do clamor, na primeira vez em que o livro a emprega. Ali é Israel gritando por causa do Egito.
Êxodo 5:15 — "Então os supervisores dos filhos de Israel foram e gritaram a Faraó: 'Por que você trata assim os seus servos?'"
O mesmo verbo, com destinatário humano. Três capítulos depois, quem grita é Moisés, e o beneficiário é o homem a quem se gritava.
Êxodo 4:21 — "...veja que faça diante de Faraó todos os prodígios que pus na sua mão."
O verbo de "pôr" que reaparece no fim deste versículo, e com o mesmo sujeito. Lá os prodígios foram postos na mão de Moisés; aqui, as rãs foram postas para Faraó.
Amós 3:6 — "Tocará a trombeta na cidade sem que o povo se assuste? Haverá desgraça na cidade sem que o SENHOR a tenha feito?"
A mesma atribuição, formulada como pergunta que não espera resposta. O que aqui é dito de passagem, ali vira princípio — e convém ler os dois textos sabendo que nem todo o Antigo Testamento fala assim.
Gênesis 20:17 — "Então Abraão orou a Deus, e Deus curou Abimeleque, sua mulher e suas servas, para que voltassem a ter filhos."
O precedente mais próximo: um estrangeiro atingido por causa de um conflito com o homem de Deus, e curado pela oração do próprio adversário.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Moisés e Arão saíram da presença de Faraó, e Moisés clamou ao SENHOR por causa das rãs que ele havia posto sobre Faraó.
Texto hebraico
וַיֵּצֵא מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן מֵעִם פַּרְעֹה וַיִּצְעַק מֹשֶׁה אֶל־יְהוָה עַל־דְּבַר הַצְפַרְדְּעִים אֲשֶׁר־שָׂם לְפַרְעֹה׃
Transliteração
wa-yetse Mosheh we-Aharon me-im Par'oh; wa-yits'aq Mosheh el-YHWH al-devar ha-tsefarde'im asher-sam le-Far'oh.
Análise palavra por palavra
וַיֵּצֵא מֹשֶׁה וְאַהֲרֹן — wa-yetse Mosheh we-Aharon, "e saiu Moisés e Arão".
O verbo é yatsa, sair, no Qal (a forma simples), terceira pessoa do singular — e os sujeitos são dois.
Não é erro. Quando o verbo vem antes de um sujeito composto, o hebraico costuma concordar com o primeiro nome da lista, deixando o segundo como acompanhante gramatical. A construção aparece com frequência no Pentateuco, e o português não tem como reproduzi-la.
O efeito, aqui, é o de sempre neste capítulo: Arão está na frase e não está no verbo.
מֵעִם פַּרְעֹה — me-im Par'oh, "de junto de Faraó".
Preposição composta: min ("de, para fora de") mais im ("com, junto de"). Ao pé da letra, "de estar com".
Não é apenas sair de um lugar — é sair da companhia de alguém. A mesma expressão aparecerá em Êxodo 8:30, e é a fórmula com que o livro marca o fim de uma audiência.
וַיִּצְעַק — wa-yits'aq, "e clamou".
Raiz צעק, Qal, terceira pessoa do masculino singular. O campo da raiz — o berro de socorro de quem está sob violência, e a variante com z que o Êxodo também usa — está desenvolvido nos estudos de Êxodo 3:7 e 5:15, e não se repete aqui.
O que é próprio deste versículo é a troca. O verbo do acordo era outro: atar ("suplicar"), que aparece em Êxodo 8:8 e 8:9 e volta em Êxodo 8:30. Neste ponto o texto escreve tsa'aq.
Como os dois verbos têm áreas de uso que se tocam, é preciso não exagerar a diferença. Mas o dado é sólido: o mesmo capítulo, na mesma situação, usa os dois — logo, a escolha é observável, ainda que o Êxodo não a comente.
אֶל־יְהוָה — el-YHWH, "ao SENHOR".
Preposição de direção com o nome próprio de Deus. Vale comparar com Êxodo 5:15, onde o mesmo verbo de clamor vinha seguido da mesma preposição e do nome de Faraó. A mesma construção, com destinatários opostos, nos dois lados do livro.
עַל־דְּבַר — al-devar, "por causa de".
Ao pé da letra, "sobre a palavra de", "a respeito do assunto de". É expressão fixa e corriqueira, equivalente ao nosso "no tocante a", "por causa de". Não tem nenhuma solenidade.
Registre-se apenas a cadeia, que é do original e não passa para a tradução. Davar aparece em três versículos seguidos, com três empregos: em Êxodo 8:10 é a palavra dita pelo rei ("conforme a sua palavra"); aqui é o assunto das rãs; em Êxodo 8:13 será a palavra de Moisés, à qual Deus obedece. A mesma palavra hebraica percorre a negociação, o pedido e o cumprimento.
הַצְפַרְדְּעִים — ha-tsefarde'im, "as rãs".
O substantivo, tratado no estudo de Êxodo 8:2.
אֲשֶׁר־שָׂם — asher-sam, "que pôs".
Pronome relativo mais o verbo sim, pôr, colocar, estabelecer, no Qal, perfeito, terceira pessoa do masculino singular. Perfeito: ação concluída, já feita.
E o sujeito não está escrito. O hebraico diz "que pôs", sem nome nenhum. Quem lê tem de supri-lo, e o único candidato na frase é aquele a quem Moisés acaba de clamar.
Vale dizer que essa é uma lacuna real, e não invenção de comentarista: nenhuma palavra do versículo identifica o autor da praga. A leitura que aponta para o SENHOR é a que o contexto impõe e a que as traduções adotam, e a alternativa — tomar Moisés como sujeito — desmonta o sentido da cena.
O verbo, aliás, já foi usado com esse sujeito no livro. Em Êxodo 4:21 é o SENHOR quem diz "os prodígios que pus na sua mão", com a mesma raiz.
לְפַרְעֹה — le-Far'oh, "para Faraó".
Aqui está o detalhe que quase todas as traduções apagam. A preposição é le, a do destinatário — "a", "para". Não é al, "sobre", que é a que aparece em português.
Ao pé da letra, portanto: as rãs que ele destinou a Faraó. A praga cobriu o Egito inteiro, e a frase a endereça a uma pessoa, como quem entrega uma encomenda.
Se isso é escolha deliberada ou uso solto da preposição, não é possível decidir; le tem empregos amplos em hebraico. O que se registra é que a leitura literal existe e que ela combina com o resto do capítulo, onde tudo o que acontece ao Egito é negociado entre dois homens.
Uma observação sobre o conjunto
O versículo nomeia Moisés duas vezes e Faraó duas vezes. Arão, uma. E não nomeia ninguém no ponto em que a informação mais pesada é dada: quem pôs as rãs aparece na frase apenas como uma terminação verbal.
11. Conclusão
Do que foi examinado, três conclusões.
A primeira: o Êxodo não esconde a autoria da praga. Ela é dita numa oração subordinada, sem ênfase, sem defesa e sem desconforto aparente — e é dita dentro de uma frase de oração. Para este texto, pedir a quem enviou não é contradição: é a única coisa que faz sentido fazer. Quem espera do livro um cuidado em separar o Deus que socorre do Deus que envia não vai encontrá-lo aqui.
A segunda: a intercessão não segue o roteiro combinado. Prometeu-se súplica e o que o texto descreve é clamor — a palavra do grito de socorro, a mesma com que Israel gritava por causa do Egito. O livro não comenta a troca, e o mesmo capítulo mostra que ele sabia usar a outra palavra. O dado fica registrado sem explicação, e é honesto deixá-lo assim.
A terceira: entre a negociação e o atendimento há sempre uma saída. Moisés não pede diante do trono. Sai, e só então fala. O gesto se repetirá no fim do capítulo, e é o modo como o Êxodo mantém separados o lugar onde se discute e o lugar onde se pede.
Fica de fora do alcance do versículo, e convém dizê-lo, tudo o que diz respeito a mérito. Nada aqui condiciona o clamor ao arrependimento do rei, à sinceridade da promessa dele ou a qualquer sinal de mudança. O acordo foi feito, e é cumprido — e a resposta vem no versículo seguinte.













