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Êxodo 14:30

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✍️ Por Alberto Adriano·27 de setembro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 41 acessos
Assim o SENHOR salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar.
Israelitas parados na beira da água ao amanhecer, olhando corpos de soldados egípcios e restos de carros lançados na faixa de areia.

Estudo


Assim o SENHOR salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar.

1. Introdução

É aqui que o livro usa, pela primeira vez, o verbo "salvar" com o SENHOR por sujeito.

O objeto não é uma pessoa nem um grupo: é um povo inteiro, nomeado, e num dia que o texto marca.

A segunda metade do versículo faz o que a pregação costuma pular: põe Israel olhando corpos.

No hebraico esses corpos estão no singular — "Israel viu o Egito morto" —, como se o país todo estivesse deitado na areia.

E a palavra traduzida por "praia" quer dizer, ao pé da letra, lábio.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que se tirava de um morto no campo de batalha

Um soldado antigo carregava consigo quase tudo o que possuía de valor, e essa é a primeira coisa a saber para entender por que o texto insiste em que os corpos ficaram à vista.

O equipamento militar era caro. Bronze para pontas de lança e escamas de armadura, couro trabalhado, arco composto — peças que levavam semanas de oficina e que um exército distribuía e cobrava de volta. Somava-se a isso o que o homem levava por sua conta: anéis e braceletes de metal, que funcionavam como reserva de valor num mundo sem moeda cunhada, e amuletos, comuns em qualquer soldado egípcio.

Recolher isso do inimigo caído era direito reconhecido do vencedor em todo o Oriente antigo, e não excesso. Os relatos militares tratam o despojo como parte normal do resultado da campanha, listado ao lado do número de mortos, e uma parte dele cabia ao rei, outra à tropa. Quem vencia e não recolhia estava desperdiçando o que a batalha produzira.

A tradição judaica antiga levou isso a sério e construiu sobre o versículo uma ideia própria: a de que houve um despojo à beira do mar, e que ele foi maior do que o que Israel havia levado do Egito. O Mekhilta, comentário rabínico antigo ao Êxodo, arrola entre os motivos de os corpos terem sido lançados na areia justamente este — que Israel tomasse o que eles carregavam, prata, ouro, pedras. O texto de Êxodo 14 não diz uma palavra sobre isso; o assunto do que Israel trouxe do Egito é do estudo de Êxodo 12:36.

"Salvar" era palavra de rei

O verbo que este versículo estreia com Deus por sujeito pertencia, no vocabulário do Oriente antigo, a governantes.

Era assim que um rei se descrevia e era descrito: aquele que livra a sua terra, que resgata o seu povo do inimigo, que salva a cidade do cerco. Nas inscrições reais da Mesopotâmia e do Egito o soberano aparece como o que socorre — não por bondade declarada, mas porque socorrer era a função que justificava o cargo. Um rei que não livrava não tinha por que ser rei.

A mesma raiz hebraica produziu nomes próprios que sobreviveram a tudo: Oseias, Isaías e Josué trazem-na dentro, e cada um desses nomes é uma frase curta sobre alguém que socorre. Dar esse nome a uma criança era declaração, e o hábito é largamente documentado em selos e cerâmica com nomes gravados.

O que este versículo faz, portanto, não é inventar vocabulário: é transferi-lo. A palavra que descrevia o ofício de um rei aparece com o SENHOR por sujeito e um povo inteiro por objeto — e o rei que aparece na frase é o rei derrotado, dono do exército que morreu.

3. Análise Teológica do Versículo

"Assim o SENHOR salvou Israel naquele dia"

O verbo é o da salvação, e esta é a primeira vez no livro do Êxodo em que ele aparece com o SENHOR por sujeito.

A palavra já havia entrado no capítulo, mas como substantivo e como promessa. Em Êxodo 14:13 Moisés disse ao povo: "Fiquem firmes e vejam a salvação do SENHOR, que ele fará hoje por vocês." Dezessete versículos depois, o substantivo vira verbo e a promessa vira relato. O par é do texto e é exato: prometeu-se salvação, cumpriu-se salvar.

Mas a mesma frase de Êxodo 14:13 continha outra coisa, e ela colide com este versículo. Moisés prometeu: "os egípcios que vocês veem hoje, nunca mais os verão." E este versículo termina dizendo que Israel viu os egípcios. Não vivos — mortos, na areia. A promessa se cumpre e se rompe na mesma frase, dependendo de como se leia o verbo "ver", e o que a promessa tem de arriscado é assunto do estudo de Êxodo 14:13. O que pertence a este versículo é o registro da tensão: o texto poderia ter evitado o verbo "ver" e não evitou.

"naquele dia" é o único marcador de tempo da frase, e ele é grande. Não é "naquela hora" nem "então": é a expressão que o hebraico usa para datar um acontecimento que passa a ter lugar na contagem. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) faz aqui uma observação de calendário: embora Israel tenha saído do Egito dias antes, não se poderia dizer propriamente que estava salvo até este dia — o sétimo da festa da Páscoa. A conta é dele, feita a partir das datas do capítulo 12, e não está no texto.

"da mão dos egípcios"

"Mão", em hebraico, é a palavra corrente para poder, domínio, controle: estar na mão de alguém é estar sob o que ele pode fazer. Salvar "da mão" é retirar de dentro do alcance.

Repare, sem desenvolver ainda, que a palavra volta no versículo seguinte com outro dono. Aqui é a mão do Egito, de onde Israel sai; lá será a grande mão, que Israel vê. Duas mãos em dois versículos, e o capítulo fecha com a segunda.

"e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar"

Esta é a frase que os resumos cortam, e é metade do versículo.

Três coisas nela pedem exame separado.

A primeira é o singular. No hebraico não está "os egípcios mortos", no plural, e sim "o Egito morto": um nome de país com um particípio no singular, concordando com ele. Ao pé da letra, "Israel viu o Egito morto sobre o lábio do mar". Chizkuni (compilação de comentário judaico do século XIII) registra o fenômeno e aponta o paralelo dentro do próprio capítulo — Êxodo 14:10 diz, na mesma construção, que "o Egito marchava atrás deles". O país é tratado como um corpo, e o efeito é de imagem única: não uma praia com mortos espalhados, mas uma coisa só, deitada.

A segunda é o lugar. A palavra traduzida por "praia" significa lábio, borda, beira — a linha em que uma coisa acaba. O mar tem lábio como um copo tem, e é sobre ele que os corpos estão. A escolha é precisa: não estão no mar, nem na terra, mas na faixa entre os dois.

A terceira é o verbo. Israel vê. Não recolhe, não sepulta, não comenta, não canta — isso vem no capítulo seguinte. Olha.

Por que os corpos foram para a areia?

O versículo não explica. A tradição antiga produziu um conjunto de explicações, e elas mostram o que incomodava os leitores.

O Mekhilta lista quatro motivos. Primeiro: para que Israel não pensasse que os egípcios tinham saído do mar pelo outro lado e viriam atrás. Segundo: para que os egípcios não pudessem dizer que Israel também se perdera na água. Terceiro: para que Israel tomasse o despojo. Quarto: para que Israel os visse morrendo. Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido) fica com o primeiro motivo ao comentar o versículo, e é o mais sóbrio dos quatro — resolve um problema militar concreto.

O Talmude conta a mesma coisa em forma de história, nos tratados Pessachim e Arakhin: o mar reluta, pede garantia, e ao receber a garantia cospe os egípcios para a terra firme, e então Israel chega e vê que estão mortos. É narrativa de comentário, não leitura do versículo, e a fonte não pretende outra coisa.

Entre os comentaristas cristãos, Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do século XVIII) acrescenta o detalhe que ninguém quer: os corpos lançados na praia ficaram ali, e serviram de alimento a aves e animais. O texto não diz isso, e é acréscimo — mas é o acréscimo que descreve o que acontece com cadáveres numa praia.

A leitura mais inesperada é a de Rashbam (rabino francês do século XII, neto de Rashi). Para ele Israel estava já na margem, do outro lado, e o que percebeu do afogamento foi mais ouvido do que visto — e ele apoia a ideia num princípio que já havia usado ao comentar Gênesis 3:8: na Bíblia hebraica, o verbo "ver" cobre também a percepção que chega pelo ouvido, e o inverso acontece em Êxodo 20:18, onde o povo "vê" os sons. É leitura minoritária e ninguém precisa aceitá-la, mas ela mostra que a cena incomodava até quem não tinha escrúpulo com violência.

O que o texto não faz

Não celebra. Não lamenta. Não diz quantos eram, não descreve os corpos, não nomeia nenhum. E não poupa o leitor: a frase que conta a libertação de Israel e a frase que põe cadáveres na areia estão no mesmo versículo, ligadas por um "e".

Amaciar isso é tentador e é fácil — basta parar de ler na metade. Mas a segunda metade é o preço que o texto cobra pela primeira, e ele a escreveu de propósito no mesmo lugar.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR

Sujeito do primeiro verbo, e nomeado. É a terceira vez em quatro versículos que o texto o põe na posição de agente — em Êxodo 14:27 ele sacode, em Êxodo 14:28 as águas voltam sem sujeito declarado, aqui ele salva.

Israel

Aqui o nome muda. Nos versículos anteriores o povo era "os filhos de Israel"; deste em diante é "Israel", e no fim do capítulo será "o povo". O texto encurta a designação à medida que o episódio fecha.

E o papel muda também. Israel é objeto do primeiro verbo — foi salvo — e sujeito do segundo: viu. Do meio do versículo em diante ele deixa de receber ação e passa a ter olhos.

Os egípcios

Aparecem duas vezes na frase e nas duas como coletivo no singular: são a "mão" de onde Israel sai e são o corpo deitado na areia. Nenhum deles tem nome. Nenhum deles é contado.

A praia do mar

O lugar onde o capítulo acaba, e um lugar que não aparecera antes. Até aqui a cena tinha três endereços: o acampamento, o meio do mar e a margem por onde se entrava. A praia é o quarto, e é o único em que Israel e o Egito estão ao mesmo tempo sem se tocar.

"Naquele dia"

A data. O capítulo mediu o tempo por luz até Êxodo 14:27 — noite, vigília, amanhecer — e agora troca a medida: passa a contar por dia inteiro, do tipo que se guarda na memória de um povo. É a fórmula com que a Bíblia hebraica marca datas que viram referência.

5. Pontos de Ensino

Uma promessa cumprida pode ter uma face que ninguém encomendou

O que Moisés prometeu em Êxodo 14:13 foi que o povo veria a salvação do SENHOR. O que o povo vê, no fim, é um exército morto na areia. As duas coisas são a mesma, e o texto as escreve com o mesmo verbo. Nenhum resumo devoto do episódio conserva essa segunda metade, e é ela que está no versículo.

O livro passa treze capítulos usando outra palavra para socorro

Até aqui o Êxodo falava em tirar, fazer subir, livrar, resgatar. O verbo "salvar" com Deus por sujeito entra neste versículo e não antes. Quem lê a Bíblia em português não percebe, porque as traduções usam "salvar" em vários lugares para verbos diferentes — mas a estreia é real, e cai justamente onde o livro chega ao seu ponto mais alto.

Ver não é o mesmo que entender

Israel vê corpos neste versículo e vê "a grande mão" no seguinte — dois objetos muito diferentes para o mesmo verbo. O texto não diz que a segunda visão explica a primeira; põe as duas em sequência e deixa o leitor com elas.

O despojo é ideia da tradição, não do versículo

A leitura de que Israel se enriqueceu com o que os egípcios carregavam é antiga, tem lógica e está no Mekhilta. Não está no Êxodo. Distinguir uma coisa da outra é o mínimo que se deve ao leitor, e vale para qualquer detalhe pitoresco que se conte sobre uma cena bíblica.

O texto conta a libertação sem esconder o custo

Um versículo que dissesse apenas "o SENHOR salvou Israel naquele dia" seria mais confortável e teria a mesma informação. A segunda metade não acrescenta fato: acrescenta o que se via. Um relato que mostra o resultado, e não só a conclusão, é mais difícil de citar em pregação e mais difícil de distorcer.

6. Aspectos Filosóficos

Um povo recém-libertado está de pé numa praia olhando os mortos de quem o perseguia. A pergunta filosófica do versículo não é sobre os mortos: é sobre quem olha.

Sontag: o que acontece com quem vê a dor alheia

Susan Sontag (1933-2004), ensaísta norte-americana, publicou em 2003 um livro chamado Diante da dor dos outros, dedicado a uma pergunta só: o que fazemos, e o que se faz de nós, quando olhamos a imagem do sofrimento de outras pessoas.

O livro discute fotografia de guerra, e por isso a distância em relação a este versículo é grande — aqui não há imagem, há gente numa praia. Mas três teses dele atravessam a diferença.

A primeira: ver é que torna uma coisa real. Sontag observa que uma matança da qual só se ouve falar permanece, para quem ouviu, informação; vista, ela passa a ser acontecimento. O corpo faz um trabalho que o relato não faz. É exatamente o que o versículo encena: Israel já sabia que os egípcios haviam entrado no mar, porque o capítulo o contou dois versículos antes. O que muda aqui é que eles olham.

A segunda: olhar o morto do inimigo não é neutro. Sontag insiste em que a imagem do cadáver do adversário sempre serviu a alguém — como prova de vitória, como advertência, como garantia de que a ameaça acabou. Ela nota também que a identidade do morto é o que primeiro se apaga: fotografa-se "os mortos", sem nome. Este versículo faz as duas coisas. Os corpos servem de garantia — é essa a primeira razão que o Mekhilta arrola, para que Israel não temesse uma perseguição vinda do outro lado — e nenhum deles tem nome.

A terceira: olhar não produz compaixão por si. É a tese mais dura do livro, e Sontag a dirigia contra uma crença otimista da sua época — a de que mostrar o horror bastaria para reduzi-lo. Ver pode gerar piedade, pode gerar alívio, pode gerar satisfação, pode não gerar nada. A imagem não determina a resposta.

E é aqui que o versículo é notável: ele não informa a resposta. Diz que Israel viu, e para. O versículo seguinte dirá que o povo temeu e creu, e não liga uma coisa à outra por causa nenhuma. O que Israel sentiu diante daqueles corpos é precisamente o que o texto não conta.

O espectador em segurança

Há um dado que agrava tudo isso e é do próprio texto: Israel olha de um lugar seguro. Os corpos estão na beira do mar, e quem os vê está em terra, do outro lado, com a travessia concluída.

A situação é um lugar-comum antigo da filosofia — o naufrágio observado da margem, usado desde a Antiguidade para pensar a estranha tranquilidade de quem contempla o desastre sem estar nele. A tradição que o discute costuma dizer que o que o espectador sente não é alegria com o mal do outro, mas a percepção nítida de não estar ali. Aplicada à cena, essa distinção explica por que o versículo pode terminar sem juízo: o texto não precisa dizer se Israel se alegrou para dizer que Israel entendeu onde estava.

O limite

Duas ressalvas. A primeira: Sontag escrevia sobre fotografia e sobre o consumo de imagens em série, condição que não tem paralelo num povo diante de uma praia; usar as categorias dela aqui é decisão de quem lê, e é preciso dizê-lo. A segunda, mais importante: nada disto está no versículo como intenção. O texto não teoriza sobre olhar. Ele registra que houve olhar, e é da insistência desse registro — num versículo que poderia ter parado na primeira metade — que a discussão nasce.

7. Aplicações Práticas

Este versículo tem uma aplicação prática, e é uma só: sobre o que se faz com a parte incômoda de uma história que nos favorece.

Conte o episódio inteiro, inclusive o que ele custou a outros

O versículo tem duas metades: a libertação e os corpos. Quem repete só a primeira não está mentindo — está citando pela metade, que é o modo mais limpo de distorcer. Vale para pregação, vale para relato de empresa, vale para história de família. Um resultado bom que teve preço é contado com o preço.

Desconfie do detalhe pitoresco sem origem

Boa parte do que se conta sobre esta cena — o despojo recolhido na areia, o vento que trouxe os corpos, o mar que os cuspiu — vem de comentários antigos, não do versículo. Nada disso é desonesto na origem: os textos que o dizem se apresentam como comentário. A desonestidade entra quando alguém repassa o detalhe como se fosse bíblico. A pergunta é simples e quase sempre responde: isto está no texto ou está em alguém que o comentou?

Ver não decide o que você vai sentir

O versículo põe um povo diante de cadáveres e não diz o que sentiram. É um bom antídoto contra a ideia, muito difundida, de que basta expor alguém ao sofrimento alheio para torná-lo melhor. Quem trabalha com isso profissionalmente — jornalista, professor, pastor, médico — sabe que não é assim, e o texto, ao calar, dá razão à experiência.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se Israel já estava salvo desde a saída do Egito, por que "naquele dia"?

Porque, até este dia, o Egito ainda podia ir buscá-los — e foi. Gill resolve pelo calendário, contando os dias desde a Páscoa; o texto resolve pelo fato: a perseguição acabou aqui. O que se pode afirmar é que o livro trata a saída e a salvação como duas coisas, separadas por quatorze capítulos.

O texto aprova o que aconteceu com os egípcios?

Não diz nada a respeito. Não os chama de merecedores, não comemora, não explica. O cântico do capítulo seguinte celebra, e é uma celebração — mas é outro gênero de texto e outro versículo. Confundir a prosa de Êxodo 14 com a poesia de Êxodo 15 é um erro de leitura comum e consequente.

Israel enterrou os corpos?

O texto não diz. Não há uma palavra sobre o que se fez com eles, e a próxima coisa que o livro registra é um cântico. O silêncio é completo, e as histórias que preenchem essa lacuna — aves de rapina, despojo recolhido — são todas posteriores.

Por que o hebraico diz "o Egito morto", no singular?

Porque o nome de um povo, em hebraico, funciona como coletivo e admite concordância no singular; o mesmo capítulo faz isso em Êxodo 14:10. Não é erro nem ênfase mística. Mas tem efeito de imagem, e o efeito é o de uma coisa só deitada na areia, e não de uma contagem de indivíduos.

Rashbam tem razão ao dizer que eles ouviram em vez de ver?

Provavelmente não, e ele mesmo apresenta a ideia como leitura do sentido simples, não como certeza. O argumento tem base — o hebraico realmente usa verbos de percepção com folga, e Êxodo 20:18 tem um povo "vendo" sons —, mas o versículo diz "viu" duas vezes em duas frases, e a segunda tem por objeto uma coisa que só se pode ver. O interesse da proposta não está em convencer: está em registrar que a cena pesava.

9. Conexão com Outros Textos

A promessa que este versículo cumpre, com as duas metades

Êxodo 14:13 — "Moisés disse ao povo: 'Não tenham medo. Fiquem firmes e vejam a salvação do SENHOR, que ele fará hoje por vocês; porque os egípcios que vocês veem hoje, nunca mais os verão.'"

"Vejam a salvação" cumpre-se aqui como verbo. "Nunca mais os verão" cumpre-se de um modo que a promessa não anunciou.

A estreia do verbo no livro, com outro sujeito

Êxodo 2:17 — "Mas vieram os pastores e as expulsaram. Então Moisés se levantou, defendeu-as e deu de beber ao rebanho delas."

O hebraico de "defendeu-as" é o verbo deste versículo. Doze capítulos antes, o sujeito era Moisés e o objeto eram sete midianitas num poço.

A imagem que o Mekhilta usa para explicar o que foi salvo aqui

Deuteronômio 4:34 — "Ou tentou Deus vir tomar para si um povo do meio de outro povo, com provas, com sinais, com maravilhas, com peleja, com mão forte e braço estendido, e com grandes espantos, conforme tudo o que o SENHOR seu Deus fez por vocês no Egito diante dos seus olhos?"

"Um povo do meio de outro povo" é a expressão que o comentário rabínico lê como parto — e é a única passagem da Torá que descreve o que aconteceu no mar com essa figura.

O cântico transforma o verbo em substantivo e o aplica a quem canta

Êxodo 15:2 — "A minha força e o meu cântico é o SENHOR; ele se tornou a minha salvação. Este é o meu Deus, e eu o adornarei; o Deus de meu pai, e eu o exaltarei."

A mesma raiz, agora na primeira pessoa. O que foi feito a um povo é dito por um cantor no singular.

Um salmo que resume o versículo e acrescenta o que Israel fez depois

Salmos 106:10-12 — "E os salvou da mão de quem os odiava, e os livrou da mão do inimigo. E as águas cobriram os seus adversários; nem um deles ficou. Então creram nas suas palavras e cantaram o seu louvor."

O salmo usa o verbo deste versículo, repete a fórmula do anterior e emenda direto na fé do versículo seguinte. É o resumo mais compacto de Êxodo 14:30-31 em toda a Bíblia.

Uma recapitulação feita séculos depois, diante do povo

Josué 24:7 — "Então clamaram ao SENHOR, e ele pôs escuridão entre vocês e os egípcios, e trouxe o mar sobre eles, e os cobriu; e os seus olhos viram o que eu fiz no Egito."

Josué recita o episódio numa assembleia e escolhe, como este versículo, o verbo ver.

Salmos 78:53 — "E os guiou em segurança, e não temeram; mas o mar cobriu os seus inimigos."

O mesmo par de destinos, em dois membros de um só versículo. É o que Êxodo 14 faz em três.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Assim o SENHOR salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar.

Texto hebraico

וַיּוֹשַׁע יְהוָה בַּיּוֹם הַהוּא אֶת־יִשְׂרָאֵל מִיַּד מִצְרָיִם וַיַּרְא יִשְׂרָאֵל אֶת־מִצְרַיִם מֵת עַל־שְׂפַת הַיָּם׃

Transliteração

wa-yosha YHWH ba-yom ha-hu et-Yisra'el mi-yad Mitsrayim; wa-yar Yisra'el et-Mitsrayim met al-sefat ha-yam.

Análise palavra por palavra

וַיּוֹשַׁע יְהוָה — wa-yosha YHWH, "e o SENHOR salvou".

Raiz yasha, na forma causativa do verbo hebraico (o Hifil), terceira pessoa masculina do singular, na forma que encadeia a narrativa.

A raiz não existe na forma simples: ela só aparece no Hifil e no Nifal, o que significa que o sentido básico é sempre "fazer alguém sair de um aperto" — livrar, socorrer, dar vitória, abrir espaço para quem estava cercado. É dela que vem yeshu'ah, salvação, e os nomes Josué e Oseias. O campo completo da raiz está desenvolvido no estudo de Êxodo 2:17, que é onde ela estreia no livro, com Moisés por sujeito.

O que é próprio deste versículo é a mudança de sujeito. Esta é a primeira vez no Êxodo em que o SENHOR é sujeito deste verbo. Antes dele, o livro tinha usado a raiz uma vez, com um homem por sujeito, e tinha usado o substantivo em Êxodo 14:13, na promessa de Moisés. Aqui o verbo e o sujeito se encontram.

Note-se também a ordem das palavras. O hebraico põe o verbo, o sujeito, a data e só então o objeto: "e salvou o SENHOR naquele dia a Israel". A data entra antes de quem foi salvo, o que em hebraico é posição de destaque.

בַּיּוֹם הַהוּא — ba-yom ha-hu, "naquele dia".

Preposição be, artigo e yom, dia, seguidos do demonstrativo com artigo. A construção é uma das fórmulas de datação mais usadas da Bíblia hebraica, e o seu efeito é fazer do dia uma referência: "naquele dia" é o dia que ficou.

Nos profetas a mesma expressão vira anúncio de um dia futuro decisivo. Aqui ela aponta para trás, e é a primeira vez no capítulo que o tempo é medido em dias e não em vigílias.

אֶת־יִשְׂרָאֵל — et-Yisra'el, "Israel", com a partícula de objeto direto.

O nome sem "filhos de". O capítulo usou benei Yisra'el, "os filhos de Israel", quinze vezes; deste versículo em diante usa só Yisra'el, três vezes, e depois ha-am, o povo. A designação encurta à medida que o episódio se fecha.

מִיַּד מִצְרָיִם — mi-yad Mitsrayim, "da mão do Egito".

Yad, mão, em estado ligado, com a preposição min, "de, a partir de". A expressão "da mão de" é idiomática e significa "do poder de, do domínio de": é a construção de Gênesis 37:21, quando Rúben livra José da mão dos irmãos, e de Êxodo 3:8, onde o SENHOR desce para livrar o povo da mão dos egípcios.

A palavra reaparece no versículo seguinte, e lá com adjetivo: "a grande mão". A análise do par pertence a Êxodo 14:31.

וַיַּרְא יִשְׂרָאֵל — wa-yar Yisra'el, "e Israel viu".

Raiz ra'ah, ver, na forma simples e na forma narrativa, terceira pessoa masculina do singular — concordando com "Israel" como coletivo. O verbo se repete, palavra por palavra, na abertura do versículo 31: as duas últimas frases do capítulo começam com "e Israel viu".

O campo de ra'ah é largo: cobre ver com os olhos, perceber, entender, experimentar, e é essa largura que permite a Rashbam sustentar que a percepção pode ter sido de ouvido.

אֶת־מִצְרַיִם מֵת — et-Mitsrayim met, "o Egito morto".

Aqui está a construção que nenhuma tradução portuguesa reproduz.

Mitsrayim é nome de país, com a partícula de objeto direto. Met é o particípio de mut, morrer, masculino singular. Não é metim, no plural: é um particípio singular concordando com o nome do país.

Ao pé da letra, portanto: "e Israel viu o Egito morto". O hebraico trata o povo inteiro como uma pessoa deitada. A construção é gramaticalmente normal — nome de povo funciona como coletivo, e Êxodo 14:10 traz o mesmo fenômeno com outro verbo —, mas o resultado, aqui, é uma imagem que o plural desfaz.

עַל־שְׂפַת הַיָּם — al-sefat ha-yam, "sobre o lábio do mar".

Safah significa, em primeiro lugar, lábio: é a palavra da boca humana. Dela saem dois sentidos derivados que convivem em toda a Bíblia hebraica.

O primeiro é borda: a beira de um vaso em 1 Reis 7:23, a margem de um rio em Gênesis 41:3, a orla do mar aqui. É a linha onde uma coisa acaba, tal como o lábio é onde acaba a boca.

O segundo é língua, no sentido de idioma: é safah que aparece em Gênesis 11:1, quando toda a terra tinha uma só fala. Em hebraico, o órgão dá nome ao que ele produz.

Neste versículo o sentido é o primeiro, sem ambiguidade. O que ele acrescenta é precisão de lugar: os corpos não estão no mar nem em terra, e sim na faixa estreita entre um e outro — que é, por acaso, o único ponto do capítulo onde os dois povos ocupam o mesmo lugar sem se encontrar.

11. Conclusão

A leitura deste versículo leva a quatro conclusões.

O livro guardou a palavra "salvar" para este momento. Com o SENHOR por sujeito, o verbo estreia aqui — depois de treze capítulos em que o socorro foi dito por outros verbos, e dezessete versículos depois de a promessa ter sido feita com o substantivo. O vocabulário do Êxodo converge neste ponto, e isso é decisão de quem escreveu, não acidente de tradução.

A libertação é narrada com os mortos no quadro. As duas metades do versículo estão ligadas por um "e", e a segunda não acrescenta fato: acrescenta o que se via. Quem cita só a primeira tem a informação inteira e perdeu o versículo.

O hebraico apresenta os mortos como um corpo só. "O Egito morto", no singular, transforma uma contagem em imagem. O plural das traduções é correto e é necessário, e custa isso.

O texto registra o olhar e não registra a reação. Diz que Israel viu e para. A fé e o temor vêm no versículo seguinte, sem nenhuma palavra de causa entre um e outro. Preencher esse intervalo — com alívio, com gratidão, com horror — é trabalho do leitor, e o texto não o autoriza nem o proíbe.

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