Mas vieram os pastores e as expulsaram. Então Moisés se levantou, defendeu-as e deu de beber ao rebanho delas.
1. Introdução
É a terceira vez, em sete versículos, que Moisés vê alguém apanhando e se mete.
Em Êxodo 2:12 ele viu um egípcio espancando um hebreu e matou o egípcio. Em Êxodo 2:13 viu dois hebreus brigando e falou com o agressor — e ouviu a resposta que o desqualificou. Aqui vê pastores expulsando sete mulheres do poço, e age outra vez.
Esta é a única das três em que ninguém morre, ninguém foge e ninguém pergunta quem o autorizou. É também a primeira em que ele não age em favor dos seus.
Dois pontos merecem exame. O primeiro é a série: o Êxodo põe as três cenas em sequência apertada, com o mesmo esquema — alguém sob agressão, Moisés reage — e três resultados diferentes, sem avaliar nenhuma. Transformar isso em progresso moral, com o herói aprendendo a agir direito, é justamente o que o texto não faz.
O segundo é o que vem depois do socorro. O versículo não termina no gesto de defesa: termina com Moisés dando água ao rebanho. Ele não afasta os pastores e vai embora — fica e faz o serviço que era delas, e é isso que as filhas contarão ao pai.
O poço, a briga por água e a convenção do encontro que termina em casamento têm dono em outros estudos e não serão reabertos: a disputa por poços está no estudo de Gênesis 21:25 e a cena de encontro, no de Gênesis 24:11. O que é deste versículo são os dois verbos que ele escolhe — expulsar e salvar — e o que cada um deles fará no resto do livro.
2. Contexto Histórico e Cultural
Num poço aberto não há quem decida
A disputa por água no Oriente antigo, e o que um poço valia numa região seca, estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 21:25. O que este versículo acrescenta é de outra natureza, e vale isolar: aqui não há nenhum mecanismo para resolver o conflito.
Compare com os dois outros casos que a Bíblia narra. Em Gênesis 21, a disputa entre Abraão e Abimeleque termina em tratado, com juramento, testemunhas e entrega de animais. Em Gênesis 29, o poço de Harã tem uma regra local: a pedra só sai quando todos os rebanhos estão reunidos, e os pastores a cumprem sem discutir.
Neste poço não existe nem tratado nem regra. Existem pessoas chegando em horários diferentes, e existe força. Quando os pastores expulsam as moças, ninguém arbitra e ninguém é chamado: não há ancião, não há juiz, não há dono. É por isso que o socorro vem de um estrangeiro sentado ali por acaso — não havia mais ninguém a quem recorrer.
O texto também não diz que a expulsão foi uma vez só. A pergunta do pai no versículo seguinte pressupõe que o normal era voltarem tarde, e comentaristas clássicos leem aí a marca de um atraso habitual. É leitura razoável, e não é o que o texto afirma: o Êxodo descreve um dia.
Quem são "os pastores"
O hebraico usa o particípio com artigo — "os que pastoreiam" —, sem número, sem nome e sem indicação de a quem serviam. Podiam ser donos de rebanho, filhos de casas da região ou assalariados de terceiros; o texto não distingue. Vale a comparação com o versículo 16, que apresentou as filhas com cargo, número e parentesco: o Êxodo individualiza as vítimas e deixa os agressores no plural anônimo.
O que custava perder a vez
Ser expulso do poço não é só constrangimento. A água já içada, se consumida pelos rebanhos dos outros, tem de ser içada de novo, corda por corda — o serviço descrito no estudo de Êxodo 2:16. Ellicott (comentarista inglês do século XIX) observa que foi exatamente isso que aconteceu: os pastores gastaram a água que as moças tinham tirado, e por isso Moisés precisou tirar mais. A observação explica por que o versículo termina com ele dando de beber ao rebanho, e não com os pastores indo embora.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas vieram os pastores e as expulsaram"
O verbo é forte, e é uma das palavras que o Êxodo vai usar muito. "Expulsar", aqui, não é pedir que saiam nem disputar a vez: é pôr para fora à força. É o verbo com que Deus expulsa o homem do jardim em Gênesis 3:24 e o da ordem de Sara em Gênesis 21:10. E é o verbo que voltará, no próprio Êxodo, para dizer o que os egípcios acabarão fazendo com Israel — está em Êxodo 6:1, em Êxodo 11:1 e em Êxodo 12:39.
Vale registrar o desenho sem forçá-lo. O livro que termina com um povo sendo expulso do Egito começa a carreira desse verbo com sete mulheres sendo expulsas de um poço. O Êxodo não faz o comentário e não sugere ligação nenhuma; a repetição da palavra é verificável, e a leitura que a aproveita é do leitor.
Repare também no que o texto não conta: quantos eram os pastores, o que disseram, se houve violência física. Diz que vieram e que expulsaram, e nada mais.
"Então Moisés se levantou"
Duas palavras que mudam a posição do personagem, no sentido literal. Ele estava sentado desde Êxodo 2:15, e o texto fez questão de dizer isso. Agora se levanta. Entre uma coisa e outra houve o versículo 16 inteiro, em que ele assistiu ao trabalho das sete sem fazer nada — não se ofereceu, não falou com elas, não pediu água. Ele só se move quando alguém é atacado.
Esta é a terceira intervenção do capítulo, e vale enfileirar as três como o Êxodo as põe, sem tirar lição. Em Êxodo 2:11-12, ele vê um egípcio batendo num hebreu, olha para os dois lados, mata e esconde o corpo. Em Êxodo 2:13, vê dois hebreus brigando e fala com o agressor, e recebe a pergunta que o desautoriza. Aqui, vê pastores expulsando moças e as defende.
As diferenças estão à vista. Na primeira ele age escondido e mata; na segunda age falando e é rejeitado; na terceira age às claras, sem matar e sem ser contestado. Nas duas primeiras defende alguém do próprio povo; nesta, estrangeiras. Nas duas primeiras o resultado é fuga; nesta, casa, trabalho e casamento.
O que não se pode fazer é transformar isso em progresso moral, como se o texto mostrasse um homem impulsivo aprendendo a agir bem. O Êxodo não avalia nenhuma das três cenas, não descreve arrependimento e não menciona mudança nenhuma no personagem. Ele registra três episódios com o mesmo gatilho e três desfechos diferentes — e a diferença mais visível entre eles não está em Moisés: está em quem estava do outro lado.
"defendeu-as"
Este é o verbo mais carregado do versículo, e a nossa tradução o abrandou. O hebraico usa aqui a raiz de "salvar" — a mesma que forma a palavra "salvação" e os nomes Josué e Oseias, e a mesma de Êxodo 14:30, quando o SENHOR salva Israel do Egito no mar. É a primeira vez que essa raiz aparece no livro, e aparece com Moisés por sujeito e sete midianitas por objeto.
Traduzir por "defendeu" é aceitável, porque "salvou-as dos pastores" soaria solene demais para uma briga de poço; nenhuma das duas escolhas é isenta de custo. Mas convém dizer o que se perde: o Êxodo escreveu, no primeiro socorro bem-sucedido de Moisés, a palavra que vai carregar o livro inteiro — e a escreveu numa cena pequena, entre estrangeiros, sem Deus na frase. O item 10 examina a forma verbal, que tem um detalhe raro.
"e deu de beber ao rebanho delas"
O versículo podia ter acabado uma palavra antes, e não acaba. Afastar os pastores resolveria a agressão; o Êxodo acrescenta que Moisés ficou e fez o serviço — a tarefa descrita no versículo anterior, com corda, odre e tanques, para um rebanho inteiro.
Repare em quem faz o quê. No versículo 16, as sete tiram, enchem e dão de beber; aqui, quem dá de beber é ele, com o mesmo verbo. O Êxodo transfere a ação de um sujeito para outro sem comentar — e é esse detalhe que as moças vão destacar ao pai em Êxodo 2:19, mais do que a defesa contra os pastores.
Uma última observação sobre o que não está aqui: não há fala. Moisés não diz nada aos pastores nem às mulheres, e elas não dizem nada a ele. Nas duas intervenções anteriores houve palavra — a pergunta ao hebreu agressor e a resposta que o feriu. Nesta ninguém fala, e é a única que dá certo. O texto não estabelece relação entre as duas coisas.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os pastores
Grupo anônimo, sem número e sem filiação. O texto não diz de quem eram os rebanhos que tocavam, nem se eram da região. Aparecem para expulsar e desaparecem sem uma palavra: não respondem a Moisés, não reagem, não voltam ao capítulo. Um leitor esperaria pelo menos um confronto; o versículo passa direto do socorro para a água, e o Êxodo não explica.
Moisés
Está em Midiã há pouco tempo — o suficiente para ter chegado e se sentado. Não conhece ninguém, não tem função, não tem casa. É a última cena do capítulo em que ele age sem que ninguém saiba quem ele é.
É também a primeira vez, no Êxodo, em que ele age em favor de pessoas que não são do povo dele. Em Êxodo 2:11 o texto marcou duas vezes que o agredido era "um dos seus irmãos"; aqui não há laço nenhum.
As sete filhas
Apresentadas no versículo anterior, continuam sem nome. Aqui são inteiramente passivas: são expulsas e são defendidas, e não fazem nem dizem nada. Em Êxodo 2:16 elas eram sujeito de quatro verbos seguidos; neste versículo, objeto de dois. Voltam a agir no versículo 18 e a falar no 19.
O que aconteceu antes
As duas intervenções anteriores de Moisés estão em Êxodo 2:11-12 e 2:13-14. A primeira terminou com um homem morto e um corpo escondido na areia; a segunda, com a pergunta "quem o pôs como chefe e juiz sobre nós?" e a descoberta de que o assassinato era conhecido. A fuga que resultou disso está em Êxodo 2:15.
5. Pontos de Ensino
A mesma reação, três desfechos
Moisés faz, nas três cenas, a mesma coisa: vê alguém sendo tratado com violência e intervém. Os resultados são um homem morto, uma humilhação pública e um casamento.
A conclusão que o texto permite não é sobre o caráter dele, e sim sobre o alcance de qualquer intervenção: o que acontece depois de agir depende de fatores que quem age não controla — quem estava presente, quem soube, quem tinha poder ali.
Ele não ajuda a trabalhar; ele reage a uma agressão
No versículo anterior, sete mulheres executam um serviço pesado ao lado de um homem sentado, e ele não se levanta. Levanta-se quando aparece violência. É um dado sobre o personagem, dado sem adjetivo: o gatilho dele não é a necessidade alheia, é o abuso. O texto não diz se isso é virtude ou limitação.
O socorro não termina em afastar o agressor
O versículo acrescenta que ele deu de beber ao rebanho, isto é, assumiu o trabalho que a agressão tinha interrompido. A diferença é prática e vale reter: expulsar quem atrapalha devolve a segurança, e não devolve o dia perdido. Foi a segunda parte, e não a primeira, que as moças acharam digna de contar ao pai.
O verbo da salvação estreia numa briga por água
A raiz que o Êxodo usará para dizer que o SENHOR salvou Israel do mar aparece pela primeira vez no livro aqui, com Moisés por sujeito e sete midianitas por objeto. Não é preciso construir teologia sobre isso — o texto não constrói. Basta observar onde a palavra decisiva do livro estreia: fora do Egito, entre estrangeiros, numa cena que nenhum resumo da história de Moisés costuma mencionar.
Ninguém pergunta quem o autorizou
Em Êxodo 2:14, um hebreu perguntou a Moisés: "quem o pôs como chefe e juiz sobre nós?". Aqui ele faz de novo, sem autorização nenhuma, o mesmo tipo de coisa — e ninguém pergunta. O contraste é do texto, e ele não o explica.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta um problema antigo e mal resolvido: quem tem direito de intervir numa situação em que não é parte.
Moisés não é da região, não conhece as mulheres, não é dono do rebanho, não tem cargo e não foi chamado. Está sentado num poço porque fugiu de outro país. Por qualquer critério formal, aquele conflito não é assunto dele.
A resposta corrente para casos assim é a da autorização: age quem foi investido de poder para agir. É uma resposta boa, porque protege contra o arbítrio de quem se acha no direito de resolver a vida dos outros. E é insuficiente exatamente onde este versículo se passa, porque num poço aberto do deserto não há investidura nenhuma. Se só age quem foi autorizado, ninguém age.
A resposta oposta também tem defensores: age quem pode, e o que legitima a intervenção é a situação, não o cargo. Ela resolve o caso do poço e cria outro problema, maior — quem intervém sem mandato responde a quem? Foi essa a objeção que o hebreu de Êxodo 2:14 atirou em Moisés, e ela continua de pé.
O capítulo deixa a tensão aberta. As três intervenções de Moisés são todas sem autorização. Numa ele foi contestado, e a contestação era razoável. Nesta ninguém contesta — e não porque ele tenha ganhado algum direito no intervalo, e sim porque as socorridas quiseram ser socorridas, e as da outra cena, não.
Isso desloca o critério de lugar: a legitimidade não estaria no cargo de quem age nem na gravidade do que acontece, mas na posição de quem sofre. É critério frágil, porque depende de alguém em situação ruim conseguir dizer o que quer — e as sete não dizem nada neste versículo. Elas falam depois, ao pai, e é essa fala que faz Moisés ser chamado para dentro.
7. Aplicações Práticas
Socorrer não é só afastar quem agride
O versículo separa dois gestos: defender e depois dar de beber. O primeiro interrompe o abuso; o segundo repara o que o abuso custou.
Isso tem uso imediato. Quem intervém num conflito — em casa, no trabalho, numa escola — costuma parar no primeiro gesto, porque é o que resolve a cena. Mas o dia da pessoa continua desorganizado: o trabalho que ela não fez, o prazo que perdeu, a água que precisa ser içada de novo. Perguntar "o que ficou por fazer?" é diferente de perguntar "está tudo bem agora?".
Nem toda ajuda precisa de conversa
Não há uma palavra dita neste versículo. Moisés não se apresenta, não pergunta o que houve, não explica quem é, não recebe agradecimento. Vale como correção de um hábito: em muitas situações a ajuda útil é a que faz a coisa, e não a que abre uma conversa sobre a coisa. O texto não elogia o silêncio dele nem o transforma em método; registra que a ajuda foi executada, e não negociada.
O resultado de intervir não está nas mãos de quem intervém
Três vezes o mesmo gesto, três desfechos que não têm nada a ver uns com os outros. Quem age não controla quem estava por perto, quem vai contar, nem como a história será usada depois.
A aplicação honesta não é "aja sempre" nem "pense duas vezes". É mais modesta: julgar a decisão de intervir pelo resultado que ela teve é um erro de contabilidade, tanto quando o resultado é bom quanto quando é ruim. O Êxodo, ao pôr as três cenas em sequência sem avaliar nenhuma, deixa isso exposto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Quantos eram os pastores?
O texto não diz, e a informação faria diferença. Um homem contra dois é uma coisa; contra dez é outra. O hebraico usa só o plural com artigo, sem número.
A tradição judaica antiga e vários comentaristas cristãos leram a cena como feito de coragem contra muitos, e há quem tenha ido além, imaginando luta física. Nada disso está no versículo: ele diz que Moisés se levantou e as salvou, e não descreve como.
Por que os pastores não reagiram?
O Êxodo não conta; eles somem da narrativa depois de duas palavras. As explicações propostas — a autoridade de um homem com porte e vestes egípcias, o susto, o fato de estarem em falta — são reconstituições, e o texto não apoia nenhuma. A lacuna revela o modo de contar do capítulo: o Êxodo 2 se interessa por quem sofre e por quem age, e quase nunca pelos agressores.
O texto está dizendo que Moisés estava sendo preparado para libertar Israel?
Não. Não há aqui menção a Deus, a vocação, a preparo ou a plano. A leitura que vê nesta cena um ensaio da libertação é antiga e coerente com o resto do livro, e é leitura — construída de fora, olhando para trás.
O que é verificável e vale por si: a raiz de "salvar" aparece pela primeira vez no Êxodo neste versículo, e o objeto dela são sete midianitas.
Por que Moisés não ajudou antes, no versículo 16?
O Êxodo não explica, e a pergunta é legítima. Ele estava sentado ali enquanto sete mulheres içavam água por horas, e não se mexeu. O que o move é a agressão, não o esforço alheio. O texto registra o fato e não o comenta.
9. Conexão com Outros Textos
As outras duas intervenções
Êxodo 2:12 — "Olhou para um lado e para o outro e, vendo que não havia ninguém, matou o egípcio e escondeu-o na areia."
Êxodo 2:13 — "No dia seguinte saiu de novo, e havia dois hebreus brigando. Ele disse ao que estava errado: Por que você bate no seu companheiro?"
O mesmo gatilho, três dias diferentes, três desfechos.
O verbo "expulsar" no resto do livro
Êxodo 6:1 — "Porque por mão forte os deixará ir, e por mão forte os expulsará da sua terra."
Êxodo 12:39 — "Porque foram expulsos do Egito e não puderam deter-se, e também não tinham preparado provisão para si."
É a mesma palavra que descreve o que os pastores fazem com as sete moças, e ela volta ainda em Êxodo 11:1.
Gênesis 21:10 — "Expulse essa escrava e o filho dela, porque o filho dessa escrava não herdará com o meu filho."
A expulsão de Agar, e a do homem do jardim em Gênesis 3:24, usam o mesmo verbo.
O verbo "salvar" no resto do livro
Êxodo 14:30 — "Assim o SENHOR salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar."
A palavra que Moisés estreia num poço de Midiã é a que o livro reserva, doze capítulos depois, para o que Deus faz no mar.
Outros poços e outros forasteiros
Gênesis 29:10 — "Jacó chegou, removeu a pedra da boca do poço e deu de beber ao rebanho de Labão, irmão de sua mãe."
O mesmo gesto de dar água ao rebanho de uma moça, com outro obstáculo. A comparação entre as três cenas de poço está desenvolvida no estudo de Gênesis 24:11.
O direito de quem não tem quem o defenda
Êxodo 22:21-22 — "Você não maltratará o estrangeiro, nem o oprimirá; porque vocês foram estrangeiros na terra do Egito. A nenhuma viúva nem órfão afligirão."
A lei que o próprio Moisés transmitirá protege exatamente o tipo de pessoa que ele defende aqui: quem está no poço sem ninguém por perto. O Êxodo não faz a ligação.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas vieram os pastores e as expulsaram. Então Moisés se levantou, defendeu-as e deu de beber ao rebanho delas.
Texto hebraico
וַיָּבֹאוּ הָרֹעִים וַיְגָרְשׁוּם וַיָּקָם מֹשֶׁה וַיּוֹשִׁעָן וַיַּשְׁקְ אֶת־צֹאנָם
Transliteração
wa-yavo'u ha-ro'im wa-yegareshum; wa-yaqom Mosheh wa-yoshi'an wa-yashq et tsonam
Análise palavra por palavra
וַיָּבֹאוּ — wa-yavo'u, "e vieram".
É o mesmo verbo que abriu a ação das moças em Êxodo 2:16, e agora no masculino plural. O texto repete a palavra e troca o gênero: elas vieram, eles vieram. Em português a repetição some, porque "vieram" serve para os dois.
הָרֹעִים — ha-ro'im, "os pastores".
Particípio do verbo ra'ah, pastorear, com artigo: ao pé da letra, "os que pastoreiam". É a mesma forma que dá o substantivo "pastor" em todo o Antigo Testamento, inclusive onde Deus é chamado assim. Não há número, nome nem indicação de a quem serviam — contraste gritante com o versículo anterior, que trouxe cargo, número e parentesco.
וַיְגָרְשׁוּם — wa-yegareshum, "e os expulsaram".
Verbo garash na forma intensiva piel, com sufixo de objeto. Garash é expulsar à força, tirar de um lugar contra a vontade de quem está nele; serve para o jardim, para a casa, para o país, e é também o verbo do repúdio da mulher no casamento. Êxodo 6:1, Êxodo 11:1 e Êxodo 12:39 o usarão para dizer que o Egito acabaria expulsando Israel do seu território; aqui ele estreia no livro, numa briga por vez no poço.
Um detalhe gramatical merece registro honesto: o sufixo de objeto é masculino plural, embora as expulsas sejam sete mulheres. Duas explicações circulam. A primeira é de gramática: o hebraico bíblico usa com frequência o sufixo masculino plural para antecedentes femininos, e o fenômeno é comum demais para carregar sentido. A segunda é de leitura: o objeto seria o rebanho, e não as moças. Não é possível decidir, e as duas dão no mesmo resultado prático.
וַיָּקָם מֹשֶׁה — wa-yaqom Mosheh, "e Moisés se levantou".
Verbo qum, levantar-se, ficar de pé, pôr-se em ação. Em hebraico narrativo ele funciona muitas vezes como sinal de que alguém passa a agir, e não como descrição de postura — mas aqui as duas coisas valem, porque o texto disse em Êxodo 2:15 que ele estava sentado.
Vale reparar em quem mais "se levanta" neste livro. Êxodo 1:8 abre a história inteira com a mesma forma verbal: "levantou-se um novo rei sobre o Egito". As duas únicas pessoas que o Êxodo apresenta com esse verbo, até aqui, são o rei que decidiu oprimir e o homem que decidiu socorrer.
וַיּוֹשִׁעָן — wa-yoshi'an, "e as salvou".
Esta é a palavra do versículo. O verbo é yasha na forma causativa hifil: livrar, socorrer, dar vitória, salvar. É a raiz do substantivo yeshu'ah, salvação, e dos nomes Oseias e Josué.
É a primeira vez que essa raiz aparece no livro do Êxodo. Ela voltará em Êxodo 14:30 — "o SENHOR salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios" —, que é a frase para a qual o livro inteiro caminha. Aqui o sujeito é Moisés e o objeto são sete midianitas.
O sufixo -an, objeto de terceira pessoa feminina plural, é forma pouco frequente na Bíblia hebraica, e contrasta com o sufixo masculino do verbo anterior, na mesma frase: o texto expulsa "eles" e salva "elas". Se a alternância é descuido de língua, escolha de estilo ou sinal de objetos diferentes, não é possível decidir.
Sobre a nossa tradução: pusemos "defendeu-as", e não "salvou-as". A escolha é nossa e tem custo. "Salvar", em português religioso, carrega peso que a cena não comporta — é uma briga de poço, sem Deus na frase. Mas o hebraico usou ali a palavra grande, e o leitor precisa saber disso.
וַיַּשְׁקְ אֶת־צֹאנָם — wa-yashq et tsonam, "e deu de beber ao rebanho delas".
Mesmo verbo causativo de Êxodo 2:16 — shaqah no hifil, "fazer beber" —, agora com Moisés por sujeito. O Êxodo passa a ação de um lado para o outro sem uma palavra de comentário.
O sufixo de "rebanho delas" volta a ser masculino plural, -am, enquanto o versículo anterior usara a forma feminina em "o rebanho do pai delas". A mesma flutuação, em dois versículos, é dado a favor da explicação gramatical: se o texto alterna as duas formas para o mesmo grupo, a escolha provavelmente não carrega sentido.
11. Conclusão
Três conclusões se sustentam a partir do que foi examinado.
A primeira é sobre a série que o capítulo monta. Moisés intervém três vezes em favor de quem está apanhando, e as três acabam de maneiras que não têm nada em comum: um homem morto e escondido, uma pergunta que o humilha em público, e um dia de trabalho salvo. O gesto é o mesmo; o que muda está do lado de fora dele. A leitura que transforma a sequência em amadurecimento do personagem faz por conta própria um trabalho que o texto recusou.
A segunda é sobre as duas palavras que o versículo escolhe. "Expulsar" e "salvar" são, as duas, palavras que o livro vai carregar até o fim: uma dirá o que o Egito faz com Israel, a outra dirá o que Deus faz por Israel no mar. As duas estreiam aqui, na mesma frase, num poço sem nome, entre gente que a história de Israel não voltará a mencionar. O Êxodo não sublinha isso, e é verificável.
A terceira é sobre onde o versículo termina. Ele não acaba quando o perigo passa: acaba quando o trabalho interrompido é feito. Moisés afasta os pastores e depois iça água para um rebanho inteiro, sozinho — o serviço que sete mulheres faziam. É essa segunda metade, e não a primeira, que elas escolherão contar ao pai dois versículos adiante. O socorro que o texto registra não é o que devolve a segurança; é o que devolve o dia.













