O sacerdote de Midiã tinha sete filhas. Elas vieram tirar água e encher os bebedouros para dar de beber ao rebanho do pai.
1. Introdução
Um versículo inteiro para apresentar sete pessoas que não são nomeadas e uma tarefa que se repetia todo dia.
O Êxodo interrompe a história de Moisés e vira a câmera. Ele fica lá, sentado, sem fazer nada; o texto passa a acompanhar um grupo que chega ao poço para trabalhar. Só no versículo seguinte as duas cenas se encontram. Três pontos merecem exame.
O primeiro é o homem que o versículo apresenta e não nomeia. Ele é "o sacerdote de Midiã" — um cargo, sem nome próprio, que só virá em Êxodo 2:18. E o próprio cargo é discutido: a palavra hebraica traduzida por "sacerdote" também designa, em alguns lugares da Bíblia, um chefe civil, e há tradução antiga que a entendeu assim aqui.
O segundo é o número. Sete filhas. O Êxodo podia ter escrito "as filhas do sacerdote", como escreve depois, e escolheu contar. Vale perguntar o que uma casa com sete mulheres na lida do rebanho diz sobre essa casa — e o que o texto deixa de dizer sobre ela.
O terceiro é o trabalho, que o versículo detalha com precisão incomum: elas vêm, tiram água, enchem os bebedouros, dão de beber. Quatro verbos para uma tarefa que a maioria dos textos resolveria com um. Tirar água para um rebanho, à mão, é serviço pesado e demorado, e o item 2 mostra o que isso custava.
O poço, o atrito por água e a cena de encontro que este trecho abre têm dono em outros estudos, e não serão reabertos aqui: Gênesis 21:25 trata da disputa por poços e Gênesis 24:11, da convenção do encontro que termina em casamento.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quanto trabalho há neste versículo
O leitor moderno abre uma torneira e não faz ideia do que o texto descreve. Convém tornar a cena concreta, porque tudo o que vem depois depende dela.
Um poço escavado até o lençol pode ter de poucos metros a algumas dezenas de profundidade. Não há roldana com manivela nem balde de ferro: tira-se água com um recipiente de couro amarrado numa corda, puxado com os braços, e cada subida traz alguns litros. Um animal de rebanho bebe vários litros por dia, e mais no calor; um rebanho familiar tem dezenas de cabeças, podendo chegar às centenas. A conta, mesmo feita por baixo, dá centenas de litros — muitas dezenas de subidas de corda, uma a uma, todos os dias.
É por isso que o versículo separa duas operações que parecem uma só. Os bebedouros são tanques de pedra ao lado do poço, e existem porque o rebanho não pode beber do poço: a água precisa estar disponível ao mesmo tempo para muitos animais. Encher os tanques é a etapa demorada; o rebanho bebe depois, e depressa.
A palavra hebraica para esses tanques é rara e aparece também em Gênesis 30:38, na cena das varas de Jacó. É instalação fixa e comunitária: quem chega primeiro ocupa, quem chega depois espera. Esse é o pano de fundo do atrito do versículo seguinte, e a disputa por água em si está desenvolvida no estudo de Gênesis 21:25.
Quem cuidava do rebanho
A divisão corrente do trabalho pastoril no Oriente antigo punha o rebanho a cargo dos filhos homens da casa ou de assalariados. Os comentaristas clássicos, porém, são unânimes em dizer que moças cuidando de rebanho não era anomalia: a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) observa que entre grupos beduínos essa era ocupação das moças solteiras, e Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) registra que o serviço era tido como honroso e digno de filhas de gente importante, lembrando o caso de Raquel em Gênesis 29:9.
Convém não exagerar em nenhuma direção. O dado do versículo não é que moças pastoreassem, e sim que sete da mesma casa façam a tarefa inteira, sozinhas, e que a única presença masculina no poço seja a dos pastores que as expulsam.
Sacerdote ou chefe?
A palavra traduzida por "sacerdote" designa, na esmagadora maioria das suas ocorrências, quem exerce função de culto. Mas há passagens em que ela nomeia um cargo civil de primeira linha — em 2 Samuel 8:18, por exemplo, os filhos de Davi são chamados assim, e o paralelo em 1 Crônicas 18:17 troca a palavra por "os primeiros ao lado do rei".
Por isso a tradução aramaica antiga atribuída a Onquelos verte o termo, aqui, por "chefe" e não por "sacerdote", leitura que reaparece em comentaristas posteriores. Outros sustentam que os dois ofícios andavam juntos e que o homem podia ser as duas coisas, como se lê a respeito de Melquisedeque em Gênesis 14:18. Não é possível decidir pelo versículo.
O que não se sabe sobre a religião de Midiã
Praticamente nada. Não há textos midianitas que descrevam culto, divindade ou clero, e o pouco que se conhece do povo vem de escavação e dos próprios relatos bíblicos. Reconstituições sobre o que este sacerdote adorava são hipóteses construídas de fora, e a mais discutida delas — a de que a veneração de YHWH teria chegado a Israel pelo sul, por grupos midianitas ou aparentados — é debatida há mais de um século sem consenso. O estudo de Gênesis 25:2 trata dessa discussão.
3. Análise Teológica do Versículo
"O sacerdote de Midiã"
O homem entra na história por função, e não por nome — como o Faraó, e como os pais de Moisés em Êxodo 2:1, apresentados como "um homem da casa de Levi" e "uma filha de Levi". O capítulo identifica pela posição e adia o nome, quando o dá. O leitor conhece primeiro o cargo e o número das filhas: a informação que o Êxodo julga essencial para entender a cena é a função dele, não a identidade.
E há a ambiguidade do cargo, tratada no item 2. O que não é ambíguo é isto: a Bíblia chama um estrangeiro de sacerdote, no meio de um livro sobre a libertação de Israel, e não acrescenta uma linha de reprovação — nem aqui, nem quando este homem oferecer sacrifício em Êxodo 18:12 e Arão comer com ele. É um silêncio notável, e transformá-lo em aprovação ou em condenação é ir além do texto.
"tinha sete filhas"
O número é escolha do texto, e ele custa uma palavra a mais.
Sete, na Bíblia hebraica, é o número da conta completa: sete dias, sete anos, sete vezes. Não é preciso ler simbolismo oculto para observar o efeito prático — "sete filhas" soa como casa cheia, e cheia de um tipo só.
O que o texto não diz é mais interessante do que o que diz. Não há menção a filho homem, nem a genro, nem a servo, nem a assalariado. O Êxodo não afirma que não existiam; afirma quem estava no poço. E a consequência aparece já no versículo seguinte: um grupo sem nenhum homem adulto do lado, no ponto mais disputado da região, é um grupo sem defesa. A vulnerabilidade delas não é dita, é montada.
Vale ainda uma observação sobre nomes. Sete mulheres entram na história e nenhuma é apresentada pelo nome. Zípora será nomeada em Êxodo 2:21, e só porque se casa; as outras seis atravessam o capítulo sem nome — o mesmo tratamento dado à mãe, à irmã e à filha de Faraó. O Êxodo 2 nomeia pouquíssima gente, e a observação de conjunto pertence ao estudo de Êxodo 2:1.
"Elas vieram tirar água e encher os bebedouros"
Quatro verbos seguidos, todos com elas por sujeito: vieram, tiraram, encheram, e no fim deram de beber. É uma sequência de ações completas, sem auxílio de ninguém.
O detalhamento não é decorativo. Um texto que quisesse apenas situar a cena escreveria "as filhas dele vieram ao poço". Este descreve a operação por etapas, e as etapas são as de um serviço pesado. O Êxodo está mostrando trabalho, e mostrando quem o faz.
Repare também que não há queixa — nem no texto, nem na boca delas, que ainda não falaram. Elas não reclamarão do serviço nem depois, quando contarem ao pai o que aconteceu. O trabalho é o normal do dia.
"para dar de beber ao rebanho do pai"
A frase fecha com uma informação de propriedade. O rebanho é do pai; o trabalho é delas. Não há nada de escandaloso nisso para a época — a casa era a unidade econômica, e o que os filhos produziam era da casa —, mas o texto poderia ter escrito "o rebanho", e escreveu "o rebanho do pai". A distinção entre quem faz e quem tem está posta na letra.
E há consequência narrativa. Como o rebanho é do pai, o atraso delas é assunto do pai, e é por isso que Êxodo 2:18 começa com ele perguntando pelo horário. A cadeia inteira — trabalho, atraso, pergunta, hospitalidade, casamento — depende desta meia frase.
Sobre o que a chegada de moças a um poço significava para um leitor antigo, e por que ele já sabia como aquilo terminaria, o dono do assunto é o estudo de Gênesis 24:11. Aqui basta registrar que a cena está armada e que Moisés continua sentado, sem ter feito nada.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O sacerdote de Midiã
Apresentado só pelo cargo. Receberá o nome de Reuel em Êxodo 2:18, será chamado de Jetro em Êxodo 3:1 e em Êxodo 18, e o problema que essa alternância cria está tratado por inteiro no estudo de Êxodo 2:18.
O que se sabe dele pelo Pentateuco: é chefe religioso em Midiã, tem sete filhas e rebanho, acolhe um estrangeiro em casa, dá-lhe uma filha em casamento e o emprega como pastor. Muito depois, em Êxodo 18, virá ao acampamento de Israel, oferecerá sacrifício, comerá com Arão e os anciãos e proporá a Moisés a organização judiciária por chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez. Moisés atende sem consultar Deus.
As sete filhas
Nenhuma é nomeada aqui. Zípora aparecerá pelo nome em Êxodo 2:21, quando se casa com Moisés; as outras seis nunca são identificadas e não voltam ao texto.
São elas as personagens ativas do versículo: chegam, tiram, enchem, dão de beber. Nos versículos seguintes serão expulsas, socorridas e, no versículo 19, serão as únicas pessoas da história a dizer quem elas acham que Moisés é.
O poço, os bebedouros e o rebanho
O poço é o mesmo do versículo anterior, junto ao qual Moisés se sentou; os bebedouros são tanques ao lado dele, e o item 2 explica para que serviam. Onde ficava esse poço não se sabe: o Êxodo não dá nome ao lugar, o que contrasta com o Gênesis, que costuma nomear os poços das suas cenas.
A palavra hebraica traduzida por "rebanho" cobre ovelhas e cabras juntas, que é como esses rebanhos de fato eram compostos. É o patrimônio da casa — leite, lã, pelo, couro, carne — e é o que obriga a família a ir ao poço todos os dias. É também o que põe Moisés em contato com a cena: ele não procura ninguém e não pede nada, está sentado ao lado da água, e a água é o que traz as pessoas.
5. Pontos de Ensino
O texto conta o que podia ter resumido
Vieram, tiraram, encheram, deram de beber. A Bíblia hebraica é econômica com verbos, e aqui gasta quatro numa tarefa doméstica.
Quando um texto assim detalha, o detalhe está fazendo alguma coisa. Aqui ele produz duas informações de uma vez: quanto trabalho aquilo dava, e que o trabalho era inteiramente delas. Nenhuma das duas coisas é dita; as duas ficam demonstradas.
Um estrangeiro é chamado de sacerdote e ninguém protesta
No livro da libertação de Israel, o sogro do libertador é apresentado como sacerdote de outro povo, sem uma palavra de ressalva — nem aqui, nem quando oferecer sacrifício em Êxodo 18:12. Isso não autoriza a concluir que o texto aprova o culto midianita, e também não permite dizer que o reprova. O ponto de ensino é o silêncio, e a disciplina de não preenchê-lo.
Quem faz o trabalho e quem é dono do trabalho
"O rebanho do pai." A frase é comum, e por isso passa despercebida. Ela informa que o esforço das sete produz para uma propriedade que não é delas. Não há denúncia no versículo, e seria anacronismo fabricá-la; o que há é o registro exato de quem carrega a corda e de quem é o rebanho.
A vulnerabilidade não é anunciada, é montada
O versículo não diz que as moças estavam desprotegidas. Diz quem foi ao poço, e não menciona nenhum homem da casa.
Um versículo depois, os pastores as expulsam. A informação necessária para entender por que isso podia acontecer já tinha sido dada — sem alarme, sem adjetivo e sem comentário. É assim que a Bíblia hebraica costuma preparar as suas cenas: fornecendo o dado e confiando no leitor.
O número que o texto escolhe dizer
Sete filhas. Podia ser "as filhas dele". Contar é uma decisão — e onde o texto especifica, especificar significa alguma coisa. Onde ele deixa vago, como faz com os nomes de seis dessas sete mulheres, o vago também significa. Ler bem é notar as duas coisas, e não só a que interessa ao argumento de quem lê.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão que a reflexão sobre o trabalho trata desde a Antiguidade: a diferença entre a tarefa que alguém escolhe e a tarefa que sobra para alguém.
As sete não decidiram cuidar do rebanho. Elas nasceram numa casa, a casa tem rebanho, o rebanho bebe todo dia, e não há mais ninguém. A tarefa não foi distribuída por preferência nem por aptidão: foi distribuída por ausência.
Esse tipo de trabalho tem uma característica que o distingue dos demais e que costuma passar sem exame. Ele não termina. Um objeto fabricado fica pronto; uma colheita se encerra. Dar água ao rebanho não produz nada que dure: amanhã os animais terão sede outra vez, e a corda subirá o mesmo número de vezes. É trabalho que só se vê quando falta.
Daí decorre a segunda observação, e ela é sobre o texto, não sobre elas. O Êxodo descreve a operação em quatro verbos e não a qualifica de modo nenhum. Não diz que era nobre, não diz que era humilhante, não diz que era injusto que coubesse às filhas. Apenas registra.
Essa recusa é rara. A tentação de quem escreve sobre trabalho invisível é escolher entre dois gestos igualmente confortáveis: dignificar, dizendo que ali havia virtude escondida, ou denunciar. Os dois resolvem o incômodo do leitor. O versículo não faz nem um nem outro.
Fica, por fim, uma questão em aberto: se a tarefa cabe a alguém por ausência de outro, então a posição dessa pessoa depende de um dado que não tem nada a ver com ela. Basta que apareça um irmão, um assalariado, um marido, e a vida muda — como, de fato, muda para uma delas três versículos adiante.
7. Aplicações Práticas
O versículo descreve uma rotina de trabalho e não enuncia princípio nenhum. As aplicações abaixo são as que têm relação real com o que está escrito.
O trabalho que só aparece quando falta
Encher os bebedouros não deixa resultado visível: no dia seguinte é preciso encher de novo. Boa parte do trabalho que sustenta uma casa, uma equipe ou uma instituição é assim — cuidado, limpeza, manutenção, acompanhamento de rotina.
A aplicação não é elogiar quem faz, que é fácil e barato. É outra: quem organiza trabalho precisa saber quantas subidas de corda um dia exige, porque só se conta o que se enxerga, e esse tipo de tarefa é justamente o que não se enxerga. O versículo enxerga, e por isso descreve em quatro verbos o que podia ter resolvido em um.
Quem faz não é necessariamente quem tem
"O rebanho do pai" separa, em três palavras, a mão do serviço e o dono do bem. Reconhecer com clareza de quem é o esforço e de quem é o resultado evita boa parte dos ressentimentos que se acumulam em famílias e em empresas sem nunca serem ditos.
Nem toda posição frágil se anuncia
Sete mulheres sozinhas no ponto mais disputado da região não declaram estar em risco, e o texto também não. Ele dá o dado e segue.
Vale como hábito de atenção: a exposição de alguém raramente vem anunciada por quem a vive. Costuma estar na composição da cena — quem está presente, quem não está, e a que horas. Reparar nisso antes é diferente de socorrer depois.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O sacerdote de Midiã não tinha filhos homens?
O versículo não afirma isso. Ele diz que o homem tinha sete filhas e que foram elas ao poço. Números 10:29 menciona um Hobabe, filho de Reuel, o que complica a conta — e essa passagem faz parte do problema dos nomes tratado no estudo de Êxodo 2:18.
O que o texto garante é o que estava acontecendo naquele dia: sete mulheres fazendo o serviço, e nenhum homem da casa junto.
O número sete tem significado especial aqui?
Sete é, na Bíblia hebraica, o número da conta cheia, e aparece em contextos muito diversos. Isso não autoriza a ler simbolismo neste versículo: o Êxodo não comenta o número, não o repete e não constrói nada sobre ele. O efeito verificável é de quantidade.
Onde ficava esse poço?
Não se sabe. O Êxodo não nomeia o lugar, ao contrário do Gênesis, que costuma dar nome aos poços das suas cenas. Identificações modernas com sítios do noroeste da Arábia ou da península do Sinai dependem de escolhas prévias sobre a localização de Midiã, e nenhuma reúne consenso.
9. Conexão com Outros Textos
Moças cuidando de rebanho
Gênesis 29:9 — "Enquanto ele ainda falava com eles, chegou Raquel com as ovelhas do pai, porque era ela quem as pastoreava."
O Gênesis achou necessário explicar por que a moça vinha com o rebanho; o Êxodo não explica nada. E lá era uma; aqui são sete.
Os bebedouros
Gênesis 30:38 — "E pôs as varas que havia descascado diante do rebanho, nos bebedouros, nos tanques de água onde o rebanho vinha beber."
A palavra hebraica traduzida por "bebedouros" é rara e aparece nesses dois lugares e mais um. Nos dois casos é instalação fixa ao lado da água.
O sogro, com os outros nomes
Êxodo 3:1 — "E Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã."
O mesmo cargo, outro nome — e agora é Moisés quem toca o rebanho. O problema dos nomes está no estudo de Êxodo 2:18.
Êxodo 18:12 — "Então Jetro, sogro de Moisés, tomou um holocausto e sacrifícios para Deus; e Arão e todos os anciãos de Israel vieram comer pão com o sogro de Moisés diante de Deus."
O sacerdote estrangeiro deste versículo oferece sacrifício e come com a liderança de Israel, e o texto não faz nenhuma ressalva.
Sacerdote fora de Israel, e sacerdote que não é de culto
Gênesis 14:18 — "E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e ele era sacerdote do Deus Altíssimo."
2 Samuel 8:18 — "E os filhos de Davi eram os principais oficiais."
O primeiro é outro sacerdócio de fora da linha de Israel apresentado sem censura. No segundo, o hebraico usa a mesma palavra deste versículo para um cargo que não é de culto — e é esse o apoio textual da leitura que traduz "chefe de Midiã".
Onde as sete voltam a aparecer
Êxodo 2:21 — "Moisés concordou em morar com aquele homem, que lhe deu por mulher a sua filha Zípora."
Das sete apresentadas aqui, uma recebe nome cinco versículos adiante. As outras seis não voltam.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
O sacerdote de Midiã tinha sete filhas. Elas vieram tirar água e encher os bebedouros para dar de beber ao rebanho do pai.
Texto hebraico
וּלְכֹהֵן מִדְיָן שֶׁבַע בָּנוֹת וַתָּבֹאנָה וַתִּדְלֶנָה וַתְּמַלֶּאנָה אֶת־הָרְהָטִים לְהַשְׁקוֹת צֹאן אֲבִיהֶן
Transliteração
u-le-khohen Midyan sheva banot; wa-tavonah wa-tidlenah wa-temalenah et ha-rehatim le-hashqot tson avihen
Análise palavra por palavra
וּלְכֹהֵן מִדְיָן — u-le-khohen Midyan, "e ao sacerdote de Midiã".
O hebraico não tem verbo para "ter": a posse se diz com a preposição le e um verbo de existência. Aqui nem isso — a frase é puramente nominal, sem verbo nenhum: "e ao sacerdote de Midiã sete filhas". A nossa tradução pôs "tinha", que é o português inevitável.
Kohen é a palavra corrente para sacerdote, a mesma que designa o sacerdócio de Israel, aplicada aqui a um estrangeiro e sem qualificação. As passagens em que ela nomeia cargo civil estão no item 2.
שֶׁבַע בָּנוֹת — sheva banot, "sete filhas".
Detalhe de gramática que costuma surpreender: os numerais hebraicos de três a dez invertem a aparência do gênero. Com substantivo feminino usa-se a forma curta, sheva; com masculino, a terminada em -ah. Como banot é feminino plural, o numeral vem sem terminação.
Bat, filha, faz o plural em banot — a mesma palavra de "a filha de Faraó", em Êxodo 2:5, e de "uma filha de Levi", em Êxodo 2:1.
וַתָּבֹאנָה וַתִּדְלֶנָה וַתְּמַלֶּאנָה — wa-tavonah wa-tidlenah wa-temalenah, "e vieram, e tiraram água, e encheram".
Três verbos seguidos, todos na terceira pessoa feminina do plural, todos com a mesma terminação -nah. É sequência incomum: o hebraico narrativo prefere o masculino plural, inclusive para grupos mistos, e três formas femininas encadeadas chamam atenção pela sonoridade. A tradução não reproduz o efeito, porque em português o "elas" resolve tudo na primeira palavra.
O verbo do meio é o que interessa. Dalah não é "pegar água" em geral: é içar água de um poço, e está ligado ao substantivo deli, o balde. A imagem é a da corda subindo. Ele reaparece, dobrado e com ênfase, na boca das próprias moças em Êxodo 2:19. Male, encher, vem na forma intensiva piel, que é simplesmente a forma corrente desse verbo.
אֶת־הָרְהָטִים — et ha-rehatim, "os bebedouros".
Palavra rara. No sentido de tanque de dar água ao gado, só aparece aqui e em Gênesis 30:38 e 30:41, na cena das varas de Jacó. Há uma terceira ocorrência, em Cântico dos Cânticos 7:6, de sentido discutido, em que descreve cabelos; a ligação entre os dois usos não é certa.
O artigo merece nota: "os bebedouros", e não "uns bebedouros". São instalações conhecidas e fixas, que já estavam ali. O texto não descreve construção nem improviso.
לְהַשְׁקוֹת — le-hashqot, "para dar de beber".
Infinitivo do verbo shaqah na forma causativa hifil: não é "beber", é "fazer beber". A distinção marca quem age — quem bebe é o rebanho; quem o faz beber são elas.
É uma das costuras do trecho: o verbo volta em Êxodo 2:17, quando Moisés dá de beber ao rebanho delas, e em Êxodo 2:19, quando elas contam ao pai o que ele fez. Três vezes em quatro versículos, sempre trocando de sujeito.
צֹאן אֲבִיהֶן — tson avihen, "o rebanho do pai delas".
Tson é o rebanho miúdo, ovelhas e cabras juntas, tratado como coletivo singular; para gado bovino o hebraico usa outra palavra.
O sufixo -hen é o detalhe que a tradução perde. Em hebraico, "delas" tem forma própria, distinta de "deles": a língua marca no possessivo que os possuidores são mulheres. O versículo diz duas vezes que são elas — nas terminações dos verbos e na do pronome. Em português "do pai" não mostra nada disso, e forçar um "do pai delas" pesaria a frase.
11. Conclusão
Três conclusões se sustentam a partir do que foi examinado.
A primeira é sobre quem o versículo mostra trabalhando. Sete mulheres da mesma casa executam sozinhas, do começo ao fim, a operação que sustenta o rebanho da família: chegam, içam a água, enchem os tanques, dão de beber. Nenhum homem da casa aparece. O Êxodo não explica a ausência, não a lamenta e não a elogia — e é justamente por não comentar que a informação fica disponível para o que vem em seguida, quando um grupo sem defesa é expulso do poço.
A segunda é sobre o homem que o texto apresenta e não julga. Ele é sacerdote, é de fora de Israel, e o livro que narra a aliança do Sinai o introduz sem uma linha de ressalva — a mesma discrição que manterá quando ele oferecer sacrifício diante dos anciãos de Israel. Se o cargo era religioso, civil ou os dois, a palavra hebraica não resolve, e as traduções antigas já se dividiam.
A terceira é sobre o modo de contar. O versículo gasta quatro verbos numa tarefa doméstica e três palavras para dizer de quem é o rebanho. Nenhuma dessas escolhas é enfeite: elas produzem, sem adjetivo e sem comentário, o retrato de um trabalho pesado, diário e sem resultado visível, feito por quem não é dono do que ele sustenta. O Êxodo mostra e não avalia — e ler este versículo é resistir a fazer por ele o julgamento que ele recusa.













