Mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar, e as águas lhes eram muralha à direita e à esquerda.
1. Introdução
Este versículo já foi escrito antes, sete versículos atrás, quase com as mesmas palavras.
O que ele tem de novo não é informação: é posição. Ele vem depois do afogamento, e não antes, e é isso que o transforma em outra coisa.
Três detalhes do hebraico mudaram entre uma versão e outra — o verbo, a forma do verbo e a ordem das palavras —, e cada um deles tem efeito.
O achado deste versículo, portanto, não é o que ele diz: é o fato de ele repetir.
2. Contexto Histórico e Cultural
Repetir palavra por palavra era técnica, não desperdício
A literatura do Oriente antigo repetia muito, e repetia de propósito.
Os textos de Ugarite — cidade da costa síria cujos poemas em tabuinhas do século XIV antes de Cristo são o material mais próximo que existe da poesia hebraica antiga — mostram o procedimento com clareza. Nas histórias de Kirta e de Aqhat, quando um deus manda um recado, o texto escreve o recado inteiro; quando o mensageiro o entrega, o texto escreve o recado inteiro outra vez, sem cortar uma linha. O mesmo acontece no ciclo de poemas sobre Baal.
O detalhe que interessa é o custo. Escrever custava caro: tabuinha, couro e papiro eram materiais trabalhosos, e o escriba que repetia trinta linhas gastava trinta linhas de suporte. Ninguém repetia por descuido nesse regime. Quando um texto antigo diz duas vezes a mesma coisa, é razoável presumir decisão.
E a decisão tinha função. Essa era uma literatura feita para ser ouvida, não folheada. Quem escuta não pode voltar duas páginas; a repetição faz por ele o que o dedo do leitor faria — reancora, confirma, marca onde o ouvinte está. Num relato longo com dois grupos em movimento, repetir o que aconteceu com um deles é o modo de dizer ao ouvinte que aquele grupo continua na história.
A prova pelos copistas
Há um indício material de que os antigos tratavam a repetição completa como o normal, e a abreviação como falha.
O Pentateuco samaritano — a versão dos cinco primeiros livros conservada pela comunidade do monte Gerizim — tem por hábito completar repetições que o texto hebraico tradicional deixa pela metade. Onde a versão massorética manda Moisés dizer algo a Faraó e depois narra apenas "e ele disse", o texto samaritano escreve o discurso outra vez, inteiro. A prática é sistemática e bem documentada.
Ou seja: entre copistas antigos, a tendência era repetir mais, e não menos. Um texto que repete não estava sendo prolixo pelos padrões do seu tempo — estava fazendo o que se esperava.
Isso muda a pergunta que se faz a este versículo. Não é "por que o texto se repete?", que soa como reclamação moderna. É "o que a repetição está colocando lado a lado?".
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas os filhos de Israel"
A frase começa pelo sujeito, e isso em hebraico é uma escolha.
Em Êxodo 14:22, a versão anterior desta mesma cena, o verbo vem primeiro: "entraram os filhos de Israel". Aqui o sujeito vem antes do verbo. A construção existe no hebraico narrativo para uma função específica — marcar troca de foco, do tipo que o português resolve com "quanto a", "já", "mas". A nossa tradução pôs "mas", que é o mais próximo disponível.
O efeito é imediato. O versículo anterior terminou com "não ficou nem um deles". Este começa dizendo de quem vai falar, e é outro povo. A oposição está armada antes de o verbo aparecer.
"caminharam em terra seca pelo meio do mar"
Compare com Êxodo 14:22: "E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em terra seca." Três coisas mudaram, e todas são visíveis no hebraico.
Mudou o verbo. Lá era "entrar"; aqui é "caminhar". Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) registra a diferença e explica: "caminharam" aparece porque agora está em vista a travessia inteira, e não o instante de pôr o pé na água. Entrar é um ponto; caminhar é um percurso.
Mudou a forma do verbo. Este é o detalhe que nenhuma tradução portuguesa consegue mostrar, e é o mais importante. O hebraico tem uma forma verbal própria para encadear acontecimentos — é ela que produz o "e… e… e…" da narrativa bíblica — e Êxodo 14:22 a usa. Este versículo não a usa: ele emprega o perfeito simples, que em meio a uma narrativa serve para sair da corrente e olhar para trás.
Em português seria algo como "os filhos de Israel haviam caminhado". Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) corrige justamente nesse sentido na segunda metade do versículo, preferindo "as águas tinham sido muralha". E Rashbam (rabino francês do século XII, neto de Rashi) tira do mesmo dado a leitura mais explícita: enquanto tudo isso acontecia, Israel já havia completado a travessia.
Mudou a ordem. Êxodo 14:22 diz "pelo meio do mar, em terra seca"; aqui é "em terra seca, pelo meio do mar". O que vinha por último vem primeiro. Lá a informação nova era o lugar; aqui é a condição do chão.
Então por que o versículo repete?
Três respostas, e cada uma tem dono.
Primeira resposta: para pôr os dois destinos lado a lado. É a de Chizkuni (compilação de comentário judaico do século XIII), e ele é enfático: este versículo é inseparável do anterior, porque o que ele faz é contrastar o que aconteceu a Israel e o que aconteceu aos egípcios no mesmo momento. Sem a repetição, o leitor teria os dois fatos em dois lugares distantes do capítulo; com ela, tem-nos encostados.
Segunda resposta: para consertar o relógio. É a de Rashbam e a de Pulpit. A sequência de versículos, lida como cadeia de acontecimentos, sugeriria que Israel atravessou depois de os egípcios se afogarem, o que é absurdo. A forma verbal deste versículo desfaz o engano: ele não conta o que aconteceu em seguida, e sim o que já havia acontecido.
Terceira resposta: são duas mãos escrevendo. É a de Cambridge, que trata o versículo como repetição característica de uma das camadas de texto que os estudiosos identificam no Pentateuco. A leitura tem a vantagem de explicar a duplicação sem lhe atribuir intenção — e a desvantagem de que, sendo a divisão em camadas ela mesma uma reconstrução, o argumento se apoia em hipótese.
As três não se excluem. Um texto pode ter chegado à sua forma atual por composição em camadas e, ainda assim, funcionar como contraste na forma em que chegou.
E há um ponto que nenhuma das três diz e que é o mais simples de todos: a linguagem não consegue mostrar duas coisas ao mesmo tempo. Uma pintura mostra o mar fechado sobre os egípcios e Israel a salvo na margem num único olhar. Um texto tem de dizer um, depois o outro. Quando o que importa é que os dois aconteceram juntos, a única ferramenta disponível é repetir — dizer de novo o primeiro depois de contar o segundo, para que o leitor os sobreponha. É o que este versículo faz.
"e as águas lhes eram muralha à direita e à esquerda"
Esta metade é copiada de Êxodo 14:22 sem nenhuma alteração de palavra, e o que as muralhas de água são está desenvolvido no estudo daquele versículo.
Duas observações, porém, são próprias daqui.
A primeira é que a frase não tem verbo em hebraico. Ao pé da letra: "e as águas para eles muralha, à direita deles e à esquerda deles". O hebraico dispensa o verbo de ligação, e por isso o tempo da frase é decidido pelo contexto — que é exatamente o ponto em disputa. Quem lê o versículo como acontecimento seguinte traduz "eram"; quem o lê como retorno ao passado traduz "tinham sido". A nossa tradução pôs "eram", e o custo é esse.
A segunda é uma leitura rabínica que só funciona aqui. A palavra "muralha" está escrita neste versículo com uma letra menos do que em Êxodo 14:22 — grafia mais curta, sem mudança de sentido. Só que, escrita dessa forma reduzida, ela coincide com outra palavra hebraica, que significa fúria, ira. O Mekhilta, comentário rabínico antigo ao Êxodo, aproveita a coincidência: leia não "muralha", e sim "fúria" — as águas estavam cheias de ira contra os egípcios. É jogo de palavras, e a própria fonte o apresenta como tal, com a fórmula "leia não X, mas Y". O que ele registra é que a diferença de grafia entre os dois versículos foi notada muito cedo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os filhos de Israel
Reaparecem por nome depois de dois versículos de ausência. Em Êxodo 14:27 e Êxodo 14:28 eles estavam presentes apenas como pronome — "atrás deles" —, o rastro que os egípcios seguiram. Aqui voltam a ser sujeito, e é a última vez no capítulo que o texto os chama assim: nos dois versículos seguintes eles são "Israel", sem "filhos de", e depois "o povo".
A terra seca
O chão do corredor. O hebraico deste capítulo usa duas palavras diferentes para terreno sem água, e a nossa tradução verteu as duas por "terra seca"; a distinção entre elas é assunto do estudo de Êxodo 14:21.
Repare no que a palavra deste versículo carrega: ela é a mesma que designa o continente em oposição ao mar, e é a palavra que Gênesis 1:9-10 usa no terceiro dia da criação, quando as águas se juntam e aparece o seco.
As águas
No versículo anterior foram sujeito de um verbo que cobre e mata. Aqui voltam à posição de parede — e são as mesmas águas, no mesmo lugar, a poucas horas de distância.
O meio do mar
A quinta e última ocorrência da expressão no capítulo. Ela foi usada na ordem dada a Moisés em Êxodo 14:16, na entrada de Israel em Êxodo 14:22, na entrada dos egípcios em Êxodo 14:23, no lugar em que o Egito é sacudido em Êxodo 14:27 e agora aqui. Um só endereço para tudo o que aconteceu.
5. Pontos de Ensino
Repetição, num texto antigo, é sinal — não folga
O leitor moderno treinado a cortar redundância vê aqui um versículo dispensável. Num texto feito para ser ouvido, e escrito em material caro, dizer a mesma coisa duas vezes é das decisões mais visíveis que se pode tomar. Quando encontrar repetição na Bíblia hebraica, a pergunta produtiva não é se ela sobra: é o que ela aproxima.
A repetição não é exata, e a diferença é o recado
Dos onze elementos deste versículo, três mudaram em relação a Êxodo 14:22 — o verbo, a forma do verbo e a ordem de duas expressões. Quem compara os dois em português percebe duas dessas mudanças; a terceira só aparece no hebraico. É um bom exemplo de por que a comparação de versões e o recurso a um interlinear valem o trabalho.
A ordem em que o texto conta não é a ordem em que aconteceu
A narrativa hebraica encadeia com "e", e o leitor tende a ler tudo como sequência. Este versículo mostra que não é assim: ele volta atrás, e a volta está marcada na gramática. Ler a Bíblia como se cada versículo fosse o momento seguinte ao anterior produz absurdos — aqui, o de Israel atravessando um mar em que os egípcios já se afogaram.
O contraste é feito sem nenhuma palavra de juízo
Dois povos, o mesmo lugar, a mesma água, resultados opostos. O texto põe as duas coisas uma ao lado da outra e não acrescenta uma sílaba de avaliação — não diz que foi justo, não diz que foi terrível, não explica. Quem lê é que faz o comentário, e é bom saber que o está fazendo.
Um detalhe de grafia pode gerar séculos de leitura
A palavra "muralha" está mais curta aqui do que sete versículos antes, e a forma curta coincide com a palavra "fúria". Os rabinos antigos viram isso e construíram uma leitura sobre a coincidência. Não é análise gramatical, e eles não a apresentam como tal — mas mostra o nível de atenção com que o texto era lido antes de existir concordância impressa.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo enfrenta um problema que nenhuma habilidade de escritor resolve: o que aconteceu ao mesmo tempo tem de ser contado um depois do outro.
Lessing: cada arte tem o que não pode fazer
Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781), dramaturgo e crítico alemão, publicou em 1766 um livro chamado Laocoonte — o nome vem de uma estátua grega que mostra um sacerdote e os filhos sendo esmagados por serpentes. O assunto do livro é a diferença entre o que a pintura e a escultura podem fazer e o que a poesia pode fazer.
A tese é simples e tem consequências longas. As artes visuais trabalham no espaço; a poesia trabalha no tempo. Uma pintura oferece tudo de uma vez: o olho recebe o conjunto num instante e depois percorre as partes na ordem que quiser. Um texto não tem essa opção — ele é uma fila. As palavras chegam uma depois da outra, e o leitor não escolhe a ordem.
Daí Lessing tira o que cada arte faz bem. A pintura é boa em coexistência: mostrar coisas juntas. A poesia é boa em sucessão: mostrar coisas mudando. E daí tira também o que cada uma faz mal, que é o inverso. Descrever em versos um objeto parado, peça por peça, resulta em catálogo enfadonho; pintar uma história resulta em quadro que precisa de legenda.
O problema deste versículo, nos termos de Lessing
O que Êxodo 14 tem para contar, neste ponto, é uma coexistência: dois povos, na mesma água, na mesma hora, com destinos opostos. É material de pintura. Um quadro resolveria em um olhar — água fechada à esquerda, povo caminhando à direita.
O texto não pode fazer isso. Ele tem de escolher uma ordem, e qualquer ordem que escolha mente sobre o tempo: se conta primeiro o afogamento, sugere que a travessia veio depois; se conta primeiro a travessia, sugere que o afogamento veio depois.
A saída que ele encontra é dizer duas vezes. Conta a travessia, conta o afogamento, e conta a travessia de novo — agora com o verbo numa forma que significa "isto já havia acontecido". O leitor, que recebeu as informações em fila, é levado a sobrepô-las. A repetição não é preguiça: é a única ferramenta que a sucessão tem para produzir o efeito da coexistência.
O momento que contém o antes e o depois
Há um segundo ponto de Lessing que ilumina o capítulo inteiro. Ele observa que o escultor e o pintor, tendo um instante só, devem escolher o instante mais fecundo — aquele que deixa o espectador imaginar o que veio antes e o que vem depois. A estátua não mostra o sacerdote já morto, e é por isso que funciona.
Êxodo 14 faz a escolha oposta, e pode fazê-la porque é texto: ele não escolhe um instante, ele percorre uma noite. Mas a repetição deste versículo cria, artificialmente, um instante — o único ponto do capítulo em que as duas coisas estão simultaneamente diante do leitor.
O limite
Lessing escrevia sobre escultura grega e sobre a poesia de Homero, e não fazia ideia de narrativa hebraica; aplicar as categorias dele aqui é movimento de quem lê, não do texto. O que a leitura oferece não é a intenção de quem escreveu — essa não é recuperável — e sim um nome para a dificuldade técnica que o versículo resolve. E há uma ressalva a mais: a tese de Lessing sobre o que cada arte pode fazer é discutida há dois séculos e tem contestação séria. O que dela resta de pé, e é o que basta aqui, é a observação de partida: o texto é uma fila, e a vida não é.
7. Aplicações Práticas
Um versículo que repete o que já foi dito não produz mandamento. O que ele oferece é um jeito de ler, e vale para muito mais do que a Bíblia.
Compare antes de concluir que algo é redundante
Este versículo parece uma cópia e não é: três coisas mudaram. Em texto legal, em ata, em contrato revisado, a cláusula "repetida" costuma ter uma palavra diferente — e a palavra diferente é a razão de ela estar ali outra vez. O hábito de colocar as duas versões lado a lado, literalmente, é dos mais úteis que existem.
Não confunda a ordem do relato com a ordem dos fatos
Quem conta uma história — um depoimento, um relatório de ocorrência, uma notícia — organiza por interesse, não por cronologia. Aqui o texto volta atrás e marca a volta na gramática. Em português, essa marca é o "havia acontecido", e quem escreve relato de fato deve usá-la em vez de confiar que o leitor entenderá.
Dois destinos opostos podem ocupar o mesmo lugar e a mesma hora
É a observação que a repetição existe para tornar visível, e ela é do texto. O que não é do texto é a lição que se costuma tirar dela sobre quem merece o quê: o versículo não avalia nada, e emprestar-lhe avaliação é decisão de quem lê.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O versículo é uma repetição ou um acontecimento novo?
Nem uma coisa nem outra, exatamente. Não é acontecimento novo, porque a forma do verbo hebraico sai da cadeia narrativa e aponta para o passado. E não é repetição pura, porque três elementos mudaram. O melhor nome para o que ele faz é retomada — o texto volta a um fato já contado para pô-lo ao lado de outro.
Se Israel já tinha atravessado, por que não dizer isso antes?
Dizer antes é exatamente o que Êxodo 14:22 faz. A questão é que, entre um versículo e outro, a atenção do leitor foi inteiramente para os egípcios — seis versículos seguidos. Sem a retomada, a imagem final do capítulo seria a de um mar cheio de mortos, e o texto quer que a imagem final seja dupla.
Por que a água não afogou os dois grupos?
O capítulo não responde, e é bom registrar isso com clareza. Ele não diz que as muralhas se sustentaram para uns e caíram para outros por decisão tomada no momento; diz apenas o que aconteceu com cada grupo. Chizkuni arrisca uma explicação física — dois ventos em sentidos opostos —, e a apresenta como tentativa, não como leitura do texto.
A diferença de grafia em "muralha" é significativa?
Provavelmente não, no sentido de intenção. O hebraico bíblico alterna grafia cheia e reduzida da mesma palavra com frequência, dentro do mesmo livro e até do mesmo versículo, e ninguém sustenta que cada alternância carregue mensagem. O que o caso mostra é outra coisa: a leitura rabínica antiga trabalhava com o texto consoante por consoante, e por isso via aberturas que a leitura em tradução não pode ver.
Existe alguma outra retomada assim no capítulo?
Não desta magnitude. Êxodo 14 tem fórmulas que voltam — a promessa de ser glorificado aparece em Êxodo 14:4 e em Êxodo 14:17, o gesto da mão estendida em Êxodo 14:21 e em Êxodo 14:27 —, mas nenhum outro versículo é a reescrita quase completa de um versículo anterior. Este é o caso único do capítulo.
9. Conexão com Outros Textos
O versículo que este retoma
Êxodo 14:22 — "E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em terra seca; e as águas lhes eram muralha à direita e à esquerda."
A comparação palavra por palavra é o trabalho todo deste estudo. Repare, mesmo em português, na troca do verbo e na inversão das duas expressões finais.
O versículo de que este é o contraponto
Êxodo 14:28 — "As águas voltaram e cobriram os carros e os cavaleiros de todo o exército de Faraó, que tinham entrado atrás deles no mar; não ficou nem um deles."
As duas frases estão encostadas de propósito. A mesma água, a mesma hora, o mesmo lugar.
A palavra do chão seco, no terceiro dia da criação
Gênesis 1:9 — "E disse Deus: 'Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça o seco.' E assim se fez."
É a mesma palavra hebraica. O que aparece quando as águas se juntam, na primeira página da Bíblia, é o que aparece aqui.
A cena refeita no Jordão
Josué 3:17 — "Os sacerdotes que levavam a arca da aliança do SENHOR pararam em seco no meio do Jordão, e todo o Israel passou em seco, até que todo o povo acabou de passar o Jordão."
Josué 4:23 — "Porque o SENHOR seu Deus fez secar as águas do Jordão diante de vocês, até que passassem, como fez ao mar de juncos, que secou diante de nós."
Josué usa a mesma palavra para o chão e faz a comparação por escrito. É a única passagem bíblica que liga os dois episódios com todas as letras.
A cena em forma de louvor
Salmos 66:6 — "Converteu o mar em terra seca; a pé passaram pelo rio; ali nos alegramos nele."
O salmo funde as duas travessias numa frase e muda de pessoa no meio — "passaram" e depois "nos alegramos".
Isaías 63:13 — "Aquele que os guiou pelos abismos, como a um cavalo no deserto, sem que tropeçassem?"
Um profeta do exílio descreve a travessia pelo que ela não teve: tropeço.
A leitura cristã antiga desta travessia
1 Coríntios 10:1-2 — "Não quero que vocês ignorem, irmãos, que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem e todos passaram pelo mar, e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar."
Paulo lê a travessia como figura do batismo, e escolhe justamente os dois elementos que Êxodo 14 tem: a nuvem e o mar. É leitura do primeiro século, legítima e antiga, e é dela que vem toda a tradição posterior de ler o capítulo como imagem de batismo — inclusive Matthew Henry, que comenta este versículo nesse registro. O Êxodo não faz a ligação e não a sugere; quem a faz é uma carta escrita mil e duzentos anos depois.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas os filhos de Israel caminharam em terra seca pelo meio do mar, e as águas lhes eram muralha à direita e à esquerda.
Texto hebraico
וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל הָלְכוּ בַיַּבָּשָׁה בְּתוֹךְ הַיָּם וְהַמַּיִם לָהֶם חֹמָה מִימִינָם וּמִשְּׂמֹאלָם׃
Transliteração
u-venei Yisra'el halkhu va-yabashah be-tokh ha-yam; we-ha-mayim lahem chomah mi-yeminam u-mi-semolam.
Análise palavra por palavra
וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל — u-venei Yisra'el, "e os filhos de Israel".
Benei é o plural de ben, filho, em estado ligado ao nome seguinte. A expressão inteira é a designação padrão do povo no livro.
O que importa aqui é a posição. O u inicial é a conjunção "e", ligada diretamente ao sujeito, e não ao verbo. Em hebraico narrativo, conjunção mais sujeito mais verbo — nesta ordem — é a construção que interrompe a corrente dos acontecimentos para tratar de outro assunto ou de outro grupo. Êxodo 14:22 começa pelo verbo; este começa pelo sujeito.
הָלְכוּ — halkhu, "caminharam", ou melhor, "haviam caminhado".
Raiz halakh, andar, ir, caminhar, na forma simples do verbo hebraico (o Qal), no perfeito, terceira pessoa do plural.
Duas diferenças em relação a Êxodo 14:22, e as duas estão nesta palavra.
A primeira é de raiz: lá o verbo é bo, entrar, vir — wa-yavo'u, "e entraram". Bo marca o ponto de passagem para dentro; halakh marca o trajeto. Quem entra cruzou uma linha; quem caminha percorreu uma distância.
A segunda é de forma, e é a mais consequente. Êxodo 14:22 usa a forma encadeada da narrativa, a que liga um acontecimento ao seguinte. Este versículo usa o perfeito simples, sem a conjunção de encadeamento no verbo. Na narrativa hebraica, essa troca é um dos recursos disponíveis para indicar que o que se conta não é o acontecimento seguinte, e sim um fato anterior ou paralelo. É a razão pela qual Pulpit Commentary e Rashbam leem o versículo no mais-que-perfeito.
בַיַּבָּשָׁה — va-yabashah, "em terra seca".
Preposição be, artigo e o substantivo yabashah, o seco, a terra firme. A palavra vem da raiz de secar e designa, tipicamente, a terra em oposição à água: é ela que Gênesis 1:9-10 usa quando o seco aparece, e é ela que Jonas 2:11 usa quando o peixe devolve o profeta em terra.
O capítulo tem outra palavra para terreno sem água, charavah, em Êxodo 14:21, e a diferença entre as duas é assunto do estudo de Êxodo 14:22, onde as duas aparecem lado a lado.
בְּתוֹךְ הַיָּם — be-tokh ha-yam, "no meio do mar".
Tavekh, o meio, o interior, em estado ligado, com a preposição be. A expressão é a mesma de Êxodo 14:16, 14:22, 14:23 e 14:27.
Note-se a inversão. Em Êxodo 14:22 a ordem é be-tokh ha-yam ba-yabashah — primeiro o mar, depois o chão. Aqui é va-yabashah be-tokh ha-yam — primeiro o chão, depois o mar. A nossa tradução conservou a inversão, e é por isso que os dois versículos soam diferentes em português apesar de trazerem as mesmas palavras.
וְהַמַּיִם לָהֶם חֹמָה — we-ha-mayim lahem chomah, "e as águas para eles muralha".
Não há verbo. O hebraico constrói a frase justapondo sujeito e predicado — ha-mayim, as águas; lahem, para eles; chomah, muralha —, e o tempo fica a cargo do contexto. Por isso é possível traduzir "eram" ou "tinham sido", e a escolha depende de como se lê o verbo anterior.
Chomah é a palavra da muralha de cidade: é ela que cerca Jericó em Josué 6:5 e que Neemias reconstrói. Não é tapume nem barreira improvisada — é a estrutura defensiva de uma povoação, coisa alta, espessa e feita para não cair.
Aqui a palavra aparece na grafia reduzida, sem a letra vav que Êxodo 14:22 traz. A alternância entre grafia cheia e reduzida é comum no hebraico bíblico e não muda o sentido. Ela tem, porém, um efeito lateral: escrita assim, chomah fica com as mesmas consoantes de cheimah, fúria, ira — e o Mekhilta construiu sobre essa coincidência a leitura exposta no item 3.
מִימִינָם וּמִשְּׂמֹאלָם — mi-yeminam u-mi-semolam, "à direita deles e à esquerda deles".
Yamin, direita, e semol, esquerda, cada um com a preposição min, "de, a partir de", e com sufixo de terceira pessoa masculina do plural. Ao pé da letra: "desde a direita deles e desde a esquerda deles".
O par direita-esquerda funciona no hebraico como maneira de dizer "de ambos os lados", e é a mesma construção de Êxodo 14:22. As duas palavras aparecem juntas dezenas de vezes na Bíblia hebraica, quase sempre para significar totalidade de lados — em Gênesis 24:49, por exemplo, "à direita ou à esquerda" quer dizer "para qualquer lado".
11. Conclusão
Quatro conclusões saem da leitura deste versículo.
A repetição é o conteúdo. O versículo não acrescenta fato nenhum ao que Êxodo 14:22 já dissera. Ele acrescenta posição: colocado depois do afogamento, faz com que o leitor veja as duas coisas juntas. Num texto que só pode dizer uma coisa por vez, dizer duas vezes é o modo de mostrar simultaneidade.
A repetição não é exata, e as três diferenças cabem numa frase. O verbo passou de entrar para caminhar, a forma verbal saiu da cadeia narrativa para o passado anterior, e a ordem das duas expressões finais se inverteu. Duas dessas mudanças chegam ao português; a do meio, não — e é a que decide a cronologia do capítulo.
A cronologia do capítulo depende de gramática, não de suposição. Israel não atravessou depois de os egípcios morrerem. Quem lê a sequência de versículos como sequência de acontecimentos conclui o contrário, e a forma verbal deste versículo é o que impede o erro. Rashbam e Pulpit dizem isso com palavras diferentes e chegam ao mesmo lugar.
O contraste está montado e não está comentado. Dois povos, a mesma água, a mesma noite, destinos opostos — e nenhuma palavra de avaliação. O texto oferece a sobreposição e cala. Toda leitura que a transforma em lição sobre juízo, mérito ou proteção está acrescentando o que não está escrito, e é honesto dizer quando se acrescenta.













