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Êxodo 14:22

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✍️ Por Alberto Adriano·27 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 33 acessos
E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em terra seca; e as águas lhes eram muralha à direita e à esquerda.
Israelitas caminhando pelo leito exposto do mar, com paredes de água contida à direita e à esquerda, sob a luz da coluna ao fundo.

Estudo


E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em terra seca; e as águas lhes eram muralha à direita e à esquerda.

1. Introdução

O povo entra, e a água fica de pé. É o versículo mais difícil do capítulo, e a dificuldade não está no chão: está nos dois lados. A palavra traduzida aqui por “terra seca” não é a mesma do versículo anterior, e a diferença entre as duas descreve o mesmo pedaço de fundo de mar visto de dois ângulos opostos. “Muralha” é a palavra do muro de cidade, e o hebraico a escreve no singular para os dois lados — desconforto que três versões antigas resolveram de três maneiras diferentes. E é aqui, não no versículo 21, que toda explicação natural do episódio encontra o seu obstáculo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que uma explicação do episódio tem de entregar

As propostas de explicação natural da travessia são antigas, numerosas e feitas por gente séria. Para julgá-las sem torcida convém saber, antes, o que este versículo exige delas — e são três coisas: chão que se possa pisar, tempo suficiente para um povo passar, e água de pé nos dois lados de quem passa.

A primeira exigência várias propostas atendem. A segunda, algumas. A terceira é onde todas param, e é por isso que este versículo, e não o anterior, é o centro da discussão.

As lagunas do litoral norte: o lago Sirbônis

A proposta mais antiga entre as modernas é do egiptólogo alemão Heinrich Brugsch, em 1878, retomada depois por Otto Eissfeldt, Henri Cazelles e Emmanuel Anati. Ela desloca a cena para o norte: o lago Sirbônis, hoje Bardawil, uma laguna salgada que corre ao longo da costa mediterrânea do Sinai, separada do mar aberto por uma restinga estreita de areia.

O que ela explica bem é o terreno: a restinga é passagem natural, usada como estrada, e há relatos antigos de gente e animais engolidos ali, porque a areia cobre pontos alagados e o mar transborda sobre ela em tempestade. Um lugar assim mata quem passa sem nenhum prodígio.

O que ela deixa em aberto é o resto. Restinga é caminho ao longo da água, não através dela: quem anda por ali tem mar de um lado e laguna do outro por natureza, não porque as águas se abriram. E o itinerário do livro não vai para o norte — Êxodo 13:17 diz que Deus não levou o povo pelo caminho da terra dos filisteus, que é justamente esse.

Os lagos do istmo e a laguna do delta

A família mais discutida hoje trabalha com corpos de água rasos entre o delta e o Sinai. A discussão sobre qual deles o hebraico chamaria de “mar de juncos” está tratada no estudo de Êxodo 10:19; o que falta é o que o modelo entrega.

No estudo de 2010 de Carl Drews e Weiqing Han, o melhor resultado sai numa laguna do delta oriental, onde um vento forte de leste abriria uma faixa de chão por cerca de quatro horas. Os próprios autores, porém, são explícitos quanto ao limite: o modelo não produz água em pé. Eles escrevem que quem atravessasse veria água à esquerda e à direita — mas essa água resulta da forma que eles reconstroem para a bacia, um cotovelo com dois braços, e não do vento. O que o vento produz é um corredor com água ao lado, em nível baixo; não uma parede.

É a distinção que quase todo resumo de imprensa apagou, e a única que importa: haver água nos flancos não é a mesma coisa que haver muralha.

A maré

Os comentaristas do século XIX preferiram a vazante, sozinha ou combinada com vento. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) imagina um canal raso ligando os Lagos Amargos ao golfo, com vento de sudeste empurrando a água para o norte enquanto a maré a puxava para o sul; a Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) fala de vento nordeste cooperando com a vazante para manter um vau limpo.

O que a maré explica é a volta da água, porque ela tem hora marcada e o capítulo tem duas fases. O que ela não explica é a escala: a maré no extremo norte do golfo de Suez é de um a dois metros, e nos lagos do istmo e nas lagunas do litoral não há maré que conte. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) admitem a vazante apenas como influência secundária, e pelo motivo certo — maré baixa não empilha água em dois sentidos opostos.

A onda

Em 1981, Hans Goedicke, egiptólogo e chefe do departamento de estudos do Oriente Próximo na Universidade Johns Hopkins, propôs que a cena registrasse um maremoto vindo da erupção do vulcão de Terá, no mar Egeu, que teria atravessado o delta e o lago Manzala.

A força da proposta é a forma do relato: maremoto é justamente recuo violento seguido de retorno violento, e é essa a estrutura de Êxodo 14. O custo é caro. Goedicke precisava situar a saída do Egito em 1477 antes de Cristo, no reinado de Hatshepsut, cerca de dois séculos antes do que a maioria das reconstruções propõe, e a datação da própria erupção é discutida — a hipótese depende de duas cronologias em disputa ao mesmo tempo. E há a objeção simples: o recuo de um maremoto dura minutos, não uma noite, e a água que ele deixa de fora não fica de pé, fica baixa.

O saldo

Cada proposta entrega o piso e nenhuma entrega a parede. Isso não as torna ridículas — elas respondem a uma pergunta legítima, e duas delas explicam bem por que aquela região era um lugar onde um exército podia morrer afogado. O que se pode afirmar é que nenhuma explica este versículo, e que os comentaristas que as aceitam, sem exceção, leem a muralha como imagem e não como descrição. Não se compra a explicação natural sem pagar a muralha.

3. Análise Teológica do Versículo

“E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar”

A expressão “pelo meio” soa mais precisa em português do que é no original, e os comentaristas medievais gastaram tinta nisso.

Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) adverte: não pense que, porque o texto diz “no meio do mar”, os israelitas tenham chegado ao centro dele. Basta que tenham entrado meia légua para que a expressão caiba — e dá um paralelo decisivo, Números 11:4, onde a gente estrangeira que saiu com Israel é descrita como estando “no meio do povo”, embora estivesse na franja. Chizkuni (comentário francês do século XIII) repete em termos mais crus: ainda que pusessem meio pé dentro da água, já se diria “no meio do mar”.

O que decorre disso é sóbrio e importante: o versículo não informa a largura da travessia. As contas de quilômetros dos comentaristas do século XIX — Gill compila estimativas de seis a dezesseis quilômetros, colhidas de viajantes — não saem do texto.

“em terra seca”

Aqui está a palavra que faz deste versículo um par com o anterior, e a diferença entre as duas desaparece em toda tradução corrente, inclusive na desta obra.

O versículo 21 diz que o mar se tornou leito enxuto, com a palavra hebraica que descreve o chão de onde a água saiu — a palavra das travessias do Jordão e do castigo aplicado aos canais do Nilo. Este versículo usa outra: a de Gênesis 1:9, quando a parte seca aparece sob as águas reunidas, e de Jonas 1:9, onde “o mar e a terra seca” nomeiam as duas metades do mundo. Não é o chão que secou: é o chão firme como categoria, a metade sólida da criação.

Junte as duas e o retrato fica exato. Do lado do mar, aquilo é leito exposto; do lado de quem caminha, é terra firme — pelas horas da travessia, o fundo do mar foi contado na metade seca do mundo. Uma palavra descreve o resultado de uma operação; a outra nomeia uma categoria. O item 10 mostra as ocorrências.

A pergunta dos rabinos sobre as duas expressões juntas

A justaposição incomodou a leitura antiga, e a formulação do Shemot Rabbah — coleção de comentários judaicos ao Êxodo — é das mais afiadas de toda a literatura sobre este capítulo: “Se no meio do mar, por que em terra seca? Se em terra seca, por que no meio do mar?”

A resposta que eles tiram dali é famosa: o mar não se dividiu para eles até que entrassem com a água na altura do nariz, e só então virou chão seco. É midraxe, e não pretende ser reconstituição — mas repare no que ele faz: leva a sério a estranheza de o texto dizer as duas coisas na mesma frase, e resolve a estranheza no tempo, primeiro água e depois chão, no mesmo lugar. Nenhum comentário moderno chega tão perto de explicar por que a frase tem essa forma.

“e as águas lhes eram muralha”

A palavra escolhida não é genérica. É a palavra da muralha de cidade — a estrutura alta, espessa e defensiva que cerca uma povoação, a de Jericó e a que Neemias reconstruiu —, e ocorre cerca de cento e trinta vezes na Bíblia hebraica, quase sempre como arquitetura.

Há, porém, um uso que ilumina este e quase nunca é citado. Em 1 Samuel 25:16, os pastores de Nabal dizem dos homens de Davi: “eles foram muralha para nós, de noite e de dia, todo o tempo em que estivemos com eles apascentando as ovelhas”. Mesma palavra, mesma construção sem verbo, e até a mesma menção à noite — e ali a muralha não é coisa: são pessoas armadas paradas no flanco.

Isso dá base textual, e não apenas conveniência, à leitura que os comentaristas ingleses preferem: Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) fala de trincheira, cuja função é impedir ataque de flanco durante o trajeto; o Pulpit Commentary diz que a ideia principal da palavra é proteção, e não dureza; Ellicott critica expressamente o literalismo excessivo; e a Cambridge Bible chama a descrição de poética e exagerada, imaginando um vau raso com bacias mais profundas dos dois lados.

Uma muralha no singular, para dois lados

O hebraico diz “muralha”, no singular, e em seguida diz “à direita e à esquerda”. São dois lados e um só substantivo — e isso não passou em branco na Antiguidade, porque três versões independentes mexeram na frase, cada uma para um lado diferente.

A Septuaginta dobrou: o grego escreve “muralha à direita e muralha à esquerda”, repetindo a palavra. O Targum de Ônquelos, a tradução aramaica oficial do Pentateuco, pluralizou: “e as águas eram para eles muralhas”. E a Vulgata latina amaciou: Jerônimo escreve que a água era como muralha à direita e à esquerda, e o “como” não está no hebraico.

Três tradutores antigos, três desconfortos, três soluções opostas: acrescentar, pluralizar, comparar. Nenhum deixou a frase como está, e nenhum deles tinha interesse em reduzir o episódio.

As leituras que tomam a muralha ao pé da letra

Do outro lado da discussão, a tradição judaica medieval trabalhou com água endurecida, e apoiada num texto: Êxodo 15:8 diz que “os abismos coalharam no coração do mar”.

Ibn Ezra é direto — as águas congelaram — e tira disso uma explicação para o resto do capítulo: depois que a maior parte de Israel passou, as paredes derreteram, e é a água derretida que separa os egípcios do chão firme, o que explicaria a frase de Êxodo 14:27 em que eles fogem “ao encontro” do mar. Sforno (Ovadia Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI) propõe algo mais físico: o vento leste congelou a lama do fundo, e o povo caminhou sobre lodo endurecido. O Targum de Pseudo-Jônatas vai ao extremo oposto da sobriedade — doze passagens, uma por tribo, com paredes congeladas por trezentas milhas de cada lado.

O que se pode e o que não se pode decidir

Não é possível decidir entre as duas famílias de leitura com os dados do texto. A favor da literal: a palavra é de arquitetura, o verbo do versículo 21 é de fender um sólido, e o cântico do capítulo 15 fala de águas que coalharam. A favor da leitura por proteção: a palavra tem em 1 Samuel 25:16 um uso figurado bem estabelecido, a frase não tem verbo e por isso não afirma consistência nenhuma, e o Êxodo não descreve as paredes em ponto nenhum.

Esse silêncio é o dado mais interessante do versículo. O texto mais reencenado da Bíblia hebraica diz que havia água dos dois lados e não descreve a água. Toda a imagem que o leitor tem na cabeça — a altura, a transparência, os peixes — veio de outro lugar.

“à direita e à esquerda”

A expressão fixa o ponto de vista, e ele é de quem anda: direita e esquerda não são pontos cardeais, são lados de um corpo em movimento. O versículo é descrito de dentro da passagem, não da margem — e o capítulo inteiro respeita isso, porque não há, em Êxodo 14, nenhum espectador na praia. A frase voltará idêntica em Êxodo 14:29, e o que ela faz ali é do estudo daquele versículo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os filhos de Israel

O sujeito é coletivo, e o versículo não o divide. Não há nome próprio, não há número, não há ordem de marcha, não há quem vá na frente. É a primeira vez no livro em que o povo inteiro faz uma coisa perigosa ao mesmo tempo, e o texto o trata como um só corpo.

A tradição não aceitou o vazio. O Mekhilta registra uma discussão entre Rabi Meir e Rabi Yehudá sobre quem entrou primeiro, e Rabi Meir conta que as tribos discutiam entre si, cada uma querendo a primazia, até que Benjamim se atirou na água. O Midrash Tehillim, comentário aos Salmos, prefere outro protagonista: Naassom, filho de Aminadabe, da tribo de Judá, que salta nas ondas enquanto os outros ainda discutiam. O nome dele é analisado no estudo de Êxodo 6:23.

Essas histórias não estão no Êxodo. O que elas registram é a percepção de um problema real: alguém tem de dar o primeiro passo dentro de uma coisa daquelas, e o texto não diz quem foi.

O meio do mar

Não é o centro geométrico: é o interior, o lado de dentro. A expressão aparece cinco vezes em Êxodo 14 — nos versículos 16, 22, 23, 27 e 29 — e é a única descrição de lugar que o capítulo repete. Israel está “no meio do mar”; os egípcios vão “até o meio do mar”; e é no meio do mar que eles morrem.

As muralhas de água

São o elemento mais citado do episódio na cultura popular e o menos descrito no texto. O Êxodo não informa altura, cor, consistência nem aparência; diz apenas que havia água nos dois lados e que ela era muralha para eles.

O que acontece

A travessia, e só ela. O versículo não conta o tempo que levou, o ruído, o cheiro, a lama, as crianças, os animais. Entre a preparação do versículo 21 e a perseguição do versículo 23, o acontecimento central do livro do Êxodo ocupa vinte palavras.

5. Pontos de Ensino

O chão e a parede são duas coisas diferentes

Separe as duas metades do versículo e o que cada uma faz fica claro. O chão seco é o que torna a travessia possível: sem ele ninguém anda. A água em pé é o que torna a travessia sobrevivível: sem ela ninguém chega do outro lado. São problemas distintos, resolvidos por coisas distintas, e a segunda não decorre da primeira.

É por isso que uma explicação que entregue o piso não resolveu o versículo. E é por isso que, no relato, a água precisa ser descrita como muralha: ela não está ausente — está contida.

A descrição é feita de dentro

“À direita e à esquerda” é o vocabulário de quem caminha. Não há em Êxodo 14 nenhum observador na margem, nenhuma vista de cima, nenhuma voz de fora contando o que a cena parecia de longe. Quem lê o capítulo está no chão, entre as duas águas, com o exército atrás.

Isso muda a leitura de todo o episódio. O que o texto oferece não é o espetáculo: é a posição.

O texto não descreve as muralhas

Nenhuma palavra sobre altura, aparência ou consistência. Quem tem na cabeça duas paredes translúcidas com peixes dentro não tirou isso daqui.

Esse silêncio é o que mantém a discussão viva há dois mil anos, e o que faz com que as duas leituras — água endurecida ou imagem de proteção — sejam ambas defensáveis. Saber que o silêncio existe é a parte que o leitor pode verificar sozinho.

Alguém entrou primeiro

O versículo diz “entraram”, no plural, e não nomeia ninguém. Mas um povo não entra simultaneamente numa passagem: alguém põe o pé antes dos outros, e é esse alguém que arrisca sem ter visto dar certo.

Os rabinos preencheram o vazio com nomes, e a discussão entre eles é instrutiva: não concordavam sobre quem foi, e a única coisa de que não duvidavam era que alguém teve de ser. A resposta rabínica é acréscimo — mas a pergunta está no texto, na diferença entre “entraram” e a ausência de sujeito individual.

6. Aspectos Filosóficos

Um mar que não se navega e não se assiste

Repare na posição em que o versículo põe as pessoas. Elas não estão num barco, e não estão na praia. Estão no fundo do mar, a pé, com água dos dois lados. Em toda a literatura antiga do Mediterrâneo não há nada parecido com isso, e a razão é simples: para quem morava ali, havia duas maneiras de se relacionar com o mar, e esta não era nenhuma das duas.

Blumenberg e as duas posições possíveis diante do mar

Hans Blumenberg (1920-1996, filósofo alemão) dedicou um livro inteiro a essa questão: Naufrágio com espectador (Schiffbruch mit Zuschauer, 1979). O método dele é rastrear uma imagem ao longo dos séculos até que ela revele o que estava pressuposto em quem a usava — o mesmo procedimento que ele aplicou à metáfora da luz, tratada no estudo de Êxodo 13:21.

A imagem, aqui, é o mar. Blumenberg mostra que a tradição ocidental o fixou como o domínio do sem-limite e sem-lei: o lugar onde não há caminho marcado e onde o homem entra por sua conta e risco. Daí decorre que navegar foi, por muito tempo, lido como transgressão; e daí decorre a segunda posição, que dá título ao livro — a do espectador em terra firme, que vê o naufrágio de longe e mede, na desgraça alheia, a própria segurança. É a figura que Lucrécio deu à filosofia com quatro versos sobre a doçura de olhar do alto o esforço dos outros no alto-mar.

Navegar ou assistir: as duas posições esgotam o quadro. Numa, você entra e arrisca; noutra, fica e olha.

O que este versículo faz com o quadro

Êxodo 14:22 não cabe em nenhuma das duas, e é isso que o torna estranho na história da imagem.

Não há embarcação: o mar é atravessado por baixo, andando, no único lugar da metáfora que ninguém previu — o fundo. O que era o domínio do informe vira, por algumas horas, chão com direita e esquerda. E não há espectador: a margem de trás está ocupada por um exército, e o único que olha a cena de fora é quem vem matar. Na posição de segurança da tradição — o observador em terra firme — está, aqui, o perseguidor; e ele vai morrer.

Há ainda uma inversão que fecha o argumento. Em Blumenberg, o mar é o que não tem caminho. Neste versículo o mar é o caminho, e a terra que havia atrás deixou de ser uma opção. As posições trocaram de conteúdo: o lugar impossível é por onde se passa, e o lugar firme é de onde não se pode mais voltar.

O limite

Nada disso está afirmado no Êxodo, que não faz teoria do mar e não compara nada. O que se pode dizer é que a Bíblia hebraica compartilha com o mundo grego a ideia do mar como domínio hostil — o mar é o adversário em Jó 38, no Salmo 74 e no Salmo 89 — e que, tendo essa ideia, ela constrói aqui a única cena em que o adversário é atravessado a pé. A imagem não foi feita para ser bonita: foi feita para pôr o leitor num lugar em que não há como estar, sem barco e sem margem, dentro daquilo que, no vocabulário da própria Bíblia, é o que devora.

7. Aplicações Práticas

Caminho aberto não é o mesmo que caminho seguro

O versículo separa as duas coisas com clareza, e é aí que ele encosta na vida de quem lê. Havia chão: a passagem existia. E havia água contida dos dois lados: a passagem só era passagem enquanto alguém a mantivesse assim.

Quem confunde as duas costuma errar nas duas direções. De um lado, há quem trate a abertura de uma porta como garantia de chegada, e entre sem contar com o que ainda precisa se manter de pé para que a travessia termine. De outro, há quem, vendo que a segurança não depende de si, conclua que a porta não vale nada.

O versículo não resolve isso por ninguém. O que ele mostra é que as duas condições eram reais e nenhuma delas era obra de quem andava.

O primeiro passo se dá sem precedente

Alguém entrou antes de ver a coisa funcionar com outra pessoa. Isso é uma diferença de situação, não de virtude: quem vai atrás tem uma informação que o primeiro não tinha.

Daí sai uma aplicação modesta e verificável. Ao avaliar coragem — sua e alheia —, o dado que mais pesa costuma ser a ordem de entrada, e é justamente o que ninguém registra. O Êxodo também não registrou.

Uma ressalva contra o uso corrente

Este versículo é usado com frequência para dizer que Deus abre caminho onde não há caminho. A frase é legítima, e vem do próprio texto.

O que não vem do texto é a parte que costuma ser acrescentada: a de que quem confia atravessa a seco. O capítulo tem duas travessias, e ambas foram pelo mesmo chão. O que decidiu o desfecho não foi o piso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Quanto tempo levou a travessia?

O Êxodo não diz, e a ausência é mais séria do que parece: o capítulo dá horários para quase tudo — a noite do versículo 21, a vigília da manhã do versículo 24, o amanhecer do versículo 27 — e não dá nenhum para a passagem do povo. Quem quiser calcular terá de supor o número de pessoas, a largura e o ritmo de marcha, e nenhum dos três está no capítulo.

O chão estava firme ou enlameado?

O versículo diz que era terra firme, e é tudo. Sforno, no século XVI, supôs lodo endurecido pelo vento leste, o que é uma tentativa de resolver o problema físico — fundo de mar recém-exposto é lama, e lama não sustenta um povo com rebanho.

A objeção é boa e o texto não a enfrenta. Duas saídas são defensáveis: ou a palavra “firme” é justamente o que responde à objeção, dizendo que o chão estava em condição de ser pisado; ou o Êxodo simplesmente não se interessa pela pergunta. Não é possível decidir.

Eles viram as muralhas?

O texto não diz que alguém olhou. Era noite, e a única fonte de luz mencionada no capítulo é a coluna de Êxodo 14:20 — que, segundo aquele versículo, iluminava para um lado e era treva para o outro.

Ibn Ezra tira daí uma inferência: se os egípcios entraram atrás, é porque enxergavam Israel caminhando, e logo havia luz na passagem. É leitura, e o versículo não a confirma.

Alguém se recusou a entrar?

O Êxodo não registra recusa, hesitação nem morte de ninguém na travessia. Duas páginas antes o mesmo povo acusava Moisés de tê-los trazido para morrer no deserto, em Êxodo 14:11-12; aqui não há uma palavra de queixa.

O silêncio é notável e não é conclusivo. O capítulo pode estar omitindo o que não interessa ao desfecho, como omite tanta coisa — ou pode estar registrando que, na hora, ninguém discutiu.

Se a muralha é imagem, o episódio perde alguma coisa?

Perde o que estiver em jogo para cada leitor. Quem lê o versículo como descrição de água endurecida perde, sim, se a expressão for figurada: o que restaria seria um vau raso numa noite de vento, e o extraordinário passaria a ser a coincidência entre o anúncio e o fato. Quem lê a expressão como imagem de proteção não perde nada, porque nunca dependeu da consistência da água. As duas leituras têm defensores antigos e sérios, e o Êxodo não decide entre elas.

9. Conexão com Outros Textos

A ordem de que este versículo é o cumprimento

Êxodo 14:16 — “E você, levante o seu cajado, estenda a mão sobre o mar e divida-o, para que os filhos de Israel passem pelo meio do mar em terra seca.”

A ordem já traz “pelo meio do mar em terra seca”, com as mesmas palavras. Este versículo é o único do capítulo que repete uma frase da ordem sem mexer nela.

A palavra “terra seca” na sua estreia

Gênesis 1:9 — “Disse Deus: 'Juntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a parte seca.' E assim foi.”

É a primeira vez que a palavra aparece na Bíblia, e ali ela nomeia uma das duas metades do mundo — a outra é o mar, e Jonas 1:9 usa o par para dizer “tudo”. Em Êxodo 14:22 o fundo do mar passa a ser contado na metade seca.

A muralha que é gente armada

1 Samuel 25:16 — “Eles foram muralha para nós, de noite e de dia, todo o tempo em que estivemos com eles apascentando as ovelhas.”

A mesma palavra, a mesma construção sem verbo, a mesma menção à noite — e ali a muralha são homens no flanco. É o paralelo mais próximo que a Bíblia oferece para a frase deste versículo, e quase nenhum comentário o cita.

O mesmo episódio em poesia, com água endurecida

Êxodo 15:8 — “Com o vento das tuas narinas as águas se amontoaram; as correntes ficaram de pé como um dique; os abismos coalharam no coração do mar.”

O cântico usa outra palavra para parede, "dique", e acrescenta as águas que coalharam. É dele que a leitura literal da muralha tira o seu apoio — e é bom saber que o apoio vem da poesia, não da prosa.

A frase recitada séculos depois

Neemias 9:11 — “Você dividiu o mar diante deles, e eles o atravessaram em terra seca; e lançou nas profundezas os que os perseguiam, como pedra em águas violentas.”

Numa oração pública de arrependimento, no século V antes de Cristo, a frase reaparece com as mesmas duas peças: o mar dividido e a terra seca. A muralha, porém, desaparece.

Salmo 66:6 — “Ele transformou o mar em terra seca; a pé atravessaram o rio. Ali nos alegramos nele.”

O salmo funde as duas travessias, a do mar e a do Jordão, numa frase só — e o detalhe que ele guarda é o mesmo: a pé.

Salmo 78:13 — “Dividiu o mar e os fez passar, e fez as águas ficarem firmes como um monte.”

Aqui a imagem é de acúmulo, não de parede: a água empilhada como colina. Três textos bíblicos que contam o mesmo fato usam três imagens diferentes para o que aconteceu com a água.

A outra travessia, com a mesma palavra

Josué 4:22 — “Então vocês farão saber a seus filhos: Israel atravessou este Jordão em terra seca.”

No relato do Jordão acontece exatamente o mesmo que aqui: no momento do acontecimento, em Josué 3:17, o hebraico usa a palavra do leito exposto; na recontagem para os filhos, usa a palavra da terra firme. A troca de vocabulário entre o fato e a sua transmissão repete-se em dois livros diferentes.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em terra seca; e as águas lhes eram muralha à direita e à esquerda.

Texto hebraico

וַיָּבֹאוּ בְנֵי־יִשְׂרָאֵל בְּתוֹךְ הַיָּם בַּיַּבָּשָׁה וְהַמַּיִם לָהֶם חוֹמָה מִימִינָם וּמִשְּׂמֹאלָם׃

Transliteração

wa-yavo'u venei Yisra'el be-tokh ha-yam ba-yabbashah; we-ha-mayim lahem chomah mi-yeminam u-mi-semolam.

Análise palavra por palavra

וַיָּבֹאוּ — wa-yavo'u, “e entraram”.

Raiz bo, “vir, entrar, chegar”, no Qal — a forma simples do verbo hebraico —, terceira pessoa masculina do plural. O que importa aqui é o que o verbo não é: não é o de atravessar, que virá em Êxodo 14:29. Este versículo registra a entrada.

בְּתוֹךְ הַיָּם — be-tokh ha-yam, “no meio do mar”.

Tavekh é o meio, o interior, o que está dentro. Não designa o ponto central de uma extensão: designa o lado de dentro, por oposição à borda — e é por isso que Ibn Ezra pôde comparar a expressão com Números 11:4.

בַּיַּבָּשָׁה — ba-yabbashah, “em terra seca”.

Aqui está a palavra deste versículo, e a comparação com a do versículo anterior é o que torna as duas frases um par.

Yabbashah é substantivo feminino formado sobre a raiz yavesh, “secar, estar enxuto”, e designa o chão firme por oposição à água — a metade sólida do mundo. Ocorre catorze vezes na Bíblia hebraica: Gênesis 1:9 e 1:10, quando a parte seca aparece e recebe o nome de “terra”; Êxodo 4:9, cujo estudo traz o percurso da palavra; Êxodo 14:16, 14:22 e 14:29 e Êxodo 15:19, neste episódio; Josué 4:22, na recontagem da travessia do Jordão; Neemias 9:11; Salmo 66:6; Isaías 44:3; e Jonas 1:9, 1:13 e 2:10 — inclusive na frase em que o profeta define Deus como aquele “que fez o mar e a terra seca”.

Compare agora com charavah, a palavra de Êxodo 14:21. Aquela vem da raiz de estar seco e devastado, ocorre oito vezes, e designa o chão de onde a água saiu: leito exposto, e num dos casos, em Ezequiel 30:12, leito exposto como castigo. Esta vem da raiz de estar enxuto, ocorre catorze vezes, e designa o chão firme como categoria do mundo.

Em dois versículos seguidos, portanto, o mesmo pedaço de fundo de mar recebe dois nomes, e cada um o descreve de um lado: leito que ficou sem água, e terra firme. O dado que confirma que a escolha não é aleatória vem de outro livro — na travessia do Jordão, o momento do acontecimento usa charavah, em Josué 3:17, e a recontagem aos filhos usa yabbashah, em Josué 4:22. Nenhuma tradução corrente conserva a distinção, porque o português não tem duas palavras à altura.

וְהַמַּיִם לָהֶם חוֹמָה — we-ha-mayim lahem chomah, “e as águas para eles muralha”.

A oração não tem verbo. O hebraico justapõe sujeito e predicado — “as águas”, “para eles”, “muralha” — e deixa o tempo a cargo do contexto. Consequência: a frase não afirma um estado nem descreve uma consistência; ela atribui uma função. É a diferença entre dizer “a água estava dura” e dizer “a água fazia o serviço de muralha”, e o hebraico diz a segunda coisa.

Chomah é a palavra da muralha de cidade — particípio formado sobre uma raiz que não se usa mais e que provavelmente significava juntar, unir. Ocorre cerca de cento e trinta vezes, quase sempre como arquitetura militar. Os usos figurados são poucos: Provérbios 18:11 chama a riqueza de muralha de quem confia nela; Provérbios 25:28 descreve o homem sem domínio próprio como cidade com a muralha derrubada; o Cântico dos Cânticos 8:9-10 aplica a palavra a uma pessoa. E há 1 Samuel 25:16, o paralelo mais próximo deste versículo, porque ali a muralha são homens armados protegendo um flanco, na mesma construção sem verbo.

מִימִינָם וּמִשְּׂמֹאלָם — mi-yeminam u-mi-semolam, “à direita deles e à esquerda deles”.

Yamin é a direita e semol a esquerda, cada uma com a preposição min, “de, a partir de”, e o sufixo de terceira pessoa do plural: “a partir da direita deles e a partir da esquerda deles”. Direita e esquerda pertencem a um corpo em movimento, não ao mapa — a frase é escrita de dentro da passagem.

E há o desencontro que a Antiguidade tentou corrigir: “muralha” está no singular, e os lados são dois. As três soluções antigas estão no item 3; o texto hebraico não adotou nenhuma.

11. Conclusão

Três conclusões se impõem, e a primeira é de método.

A discussão sobre a travessia está no lugar errado. Ela costuma se concentrar no chão: quanto vento, qual bacia, que maré. Mas o chão é a parte fácil — várias propostas o entregam, e uma delas até com número de horas. O que nenhuma entrega é a água de pé nos dois lados, e é essa a frase deste versículo. Quem quiser discutir a plausibilidade do episódio tem de discutir a muralha; quem discute só o piso está resolvendo o problema do versículo anterior.

A frase não afirma o que se supõe que ela afirme. Em hebraico não há verbo: as águas são muralha para eles, o que atribui uma função e não descreve um estado. Somada ao silêncio do texto sobre a aparência da água, essa construção deixa as duas leituras de pé — e é significativo que os três tradutores antigos que mexeram na frase tenham mexido em três direções diferentes.

O par de palavras para “terra seca” é o achado deste versículo. Em dois versículos consecutivos, o mesmo chão é nomeado de dois modos: leito de onde a água saiu, e terra firme como categoria do mundo. Não é variação de estilo, e a prova está em Josué, onde a mesma troca reaparece entre o relato do acontecimento e a recontagem aos filhos. Quem lê em tradução não tem como ver isso, e é por isso que precisa que alguém lhe diga.

Resta o que o versículo não permite afirmar: a largura da passagem, o tempo que ela levou, se havia uma ou várias, e se alguém viu as paredes. Nenhum desses dados está no texto, e todos os quatro foram fornecidos pela tradição — em versões que se contradizem entre si.

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