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Êxodo 14:20

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✍️ Por Alberto Adriano·27 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 25 acessos
colocando-se entre o acampamento dos egípcios e o acampamento de Israel. E era a nuvem e a escuridão, e iluminava a noite; e não se aproximaram um do outro durante toda a noite.
A coluna de nuvem parada entre o acampamento egípcio e o de Israel durante a noite, escura de um lado e luminosa do outro.

Estudo


colocando-se entre o acampamento dos egípcios e o acampamento de Israel. E era a nuvem e a escuridão, e iluminava a noite; e não se aproximaram um do outro durante toda a noite.

1. Introdução

Dois exércitos passam uma noite inteira a poucas centenas de metros um do outro e nada acontece. Entre eles há uma nuvem, e a meia frase que descreve essa nuvem é o trecho mais difícil do capítulo: "e era a nuvem e a escuridão, e iluminava a noite". Para quem era escuridão e para quem era luz, o hebraico não diz — e a nossa tradução conserva de propósito esse silêncio, porque preencher a lacuna é escolher uma leitura entre seis. A Septuaginta apagou a luz, os Targums acrescentaram os nomes dos dois povos e um comentarista do século XIX propôs que o texto está corrompido. O versículo fecha com a frase mais estranha de Êxodo 14: durante uma noite inteira, um não se aproximou do outro.

2. Contexto Histórico e Cultural

Por que os exércitos antigos paravam ao anoitecer

Uma noite sem combate entre dois exércitos que já se avistaram não era, no mundo antigo, coisa estranha — era o normal. Sem uniforme visível no escuro e sem meio de transmitir ordem a distância, quem atacava às escuras não sabia onde estavam os próprios homens nem distinguia amigo de inimigo no momento do choque. A regra era acampar, pôr sentinelas e esperar a luz.

A Bíblia descreve várias vezes esse tipo de espera. Em 1 Samuel 17:3, filisteus e israelitas ficam cada um no seu monte com o vale no meio, e o impasse dura quarenta dias. Em 1 Reis 20:29, sírios e israelitas passam sete dias acampados um diante do outro antes de a batalha começar. Duas forças à vista uma da outra, sem se tocar, é uma cena de rotina militar, e é assim que um leitor antigo entenderia o fim deste versículo se ele não viesse com uma explicação colada na frente.

O brilho que aterroriza: uma categoria que o leitor antigo já tinha

Na Mesopotâmia havia uma palavra para o esplendor terrível que envolve deuses e reis: melammu ("brilho pavoroso", em acádio, a língua da Babilônia e da Assíria — a claridade sobrenatural que cerca uma divindade). As inscrições reais assírias a usam como arma: o inimigo não é vencido por golpe, é derrubado pelo melammu que cai sobre ele, e verbos de pavor acompanham a palavra. E trata-se do mesmo brilho: glória do lado de quem o possui, terror do lado de quem o recebe. Uma luz que produz efeitos opostos em dois grupos ao mesmo tempo não era, portanto, ideia nova para quem ouviu este capítulo pela primeira vez — era vocabulário disponível.

A leitura judaica mais antiga que temos desta noite

O livro da Sabedoria de Salomão foi escrito em grego por um judeu de Alexandria, provavelmente no século I a.C., e não faz parte da Bíblia hebraica; está nas Bíblias católicas. O capítulo 17 dele é dedicado às trevas do Egito, e o assunto está tratado no estudo de Êxodo 10:22. A virada vem no capítulo seguinte.

Sabedoria 18:1 abre assim: "para os teus santos havia uma luz muito grande". E descreve o outro lado — os inimigos ouviam as vozes deles sem lhes ver as formas. Adiante, fala de "uma coluna de fogo flamejante" dada como guia para uma jornada desconhecida, e em Sabedoria 19:7 menciona "a nuvem que cobria o acampamento" e a terra seca aparecendo onde antes havia água.

Duas coisas se aprendem com isso. A leitura que distribui a treva e a luz entre dois povos já existia antes dos Targums e do midraxe, num autor judeu que escrevia em grego. E esse autor mistura livremente a praga das trevas e a noite do mar, tratando as duas como um episódio só — sinal de que a associação é antiga e de que ela não nasceu de análise gramatical.

3. Análise Teológica do Versículo

“colocando-se entre o acampamento dos egípcios e o acampamento de Israel”

A coluna deixa de ser referência e passa a ser obstáculo. Até aqui ela era uma coisa que se olhava; agora é uma coisa que não se atravessa. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) resume a função com a palavra certa: a coluna virou muro. E o Jamieson-Fausset-Brown (comentário escocês do século XIX) acrescenta o que o muro faz além de barrar — ele também esconde, ocultando o movimento de Israel dos olhos dos perseguidores.

Quem se colocou entre os dois, a frase não diz: o hebraico começa com um verbo no singular sem sujeito expresso. Rashi (Salomão ben Isaac, rabino francês do século XI, o comentador judeu mais lido) e a maioria entendem que foi a nuvem; Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentador judeu espanhol do século XII) diz, em duas palavras, "o anjo".

“E era a nuvem e a escuridão, e iluminava a noite”

Aqui está a dificuldade central do capítulo, e ela é fácil de enunciar: o hebraico não diz a quem a escuridão e a luz se aplicam. O que está escrito é, palavra por palavra, "e foi a nuvem e a escuridão, e iluminou a noite" — duas afirmações contrárias sobre a mesma coisa, postas uma ao lado da outra, sem destinatário e sem distribuição. A nossa tradução reproduz essa frase como ela está, e o leitor tropeça no mesmo lugar em que tropeça quem lê o original.

Basta comparar as versões em português para ver o tamanho do problema. A tradução de Almeida escreve "a nuvem era escuridade para aqueles, e para estes esclarecia a noite" — e acrescenta os dois destinatários. A Bíblia Livre vai mais longe e nomeia um deles: "era nuvem e trevas para aqueles, e iluminava a Israel de noite". A Tradução Brasileira recusa a saída e conserva o impasse: "Havia a nuvem e as trevas; contudo, brilhava de noite". A nossa versão faz a mesma escolha da última, e por motivo declarado: completar a frase aqui é adotar uma das seis leituras abaixo sem dizer ao leitor que se adotou. Entre entregar um texto que fecha e entregar o problema, a ABC entrega o problema.

A pergunta, posta com todas as palavras, é esta: a frase diz que a nuvem era escura para o Egito e luminosa para Israel, ou diz outra coisa? Seis respostas ocupam o campo.

Primeira leitura: faltam duas palavras, e todo mundo sabe quais são. A frase é elíptica, e o sentido se completa sozinho: treva para os egípcios, luz para Israel. É a leitura das traduções aramaicas antigas — Onquelos acrescenta, literalmente, "para os egípcios" e "para Israel" —, da versão siríaca, de Rashi, de Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, comentador francês do século XII) e dos modernos que o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) enumera: Knobel, Maurer, Rosenmüller e Kalisch. O próprio Pulpit reconhece o custo com franqueza — não há no hebraico nada que corresponda a "para aqueles" e "para estes" — e sustenta, mesmo assim, que os tradutores ingleses apreenderam bem o sentido. O ganho é uma frase que funciona; o preço é escrever no texto o que o texto não tem.

Segunda leitura: a nuvem tinha dois lados. O Targum de Jônatas resolve descrevendo o objeto: a nuvem era metade luz e metade treva, escurecendo de um lado sobre os egípcios e brilhando do outro sobre Israel. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) citam essa solução com aprovação, e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz o mesmo em termos de orientação: o lado voltado para os egípcios era escuro, o voltado para Israel era claro. A contradição desaparece por completo, porque as duas metades do objeto são diferentes — ao preço de descrever um objeto que o versículo não descreve.

Terceira leitura: são duas colunas, e a ordem no terreno explica tudo. Ramban (Moisés ben Nachman, comentador catalão do século XIII) monta a reconstrução mais engenhosa. As duas colunas foram para a retaguarda nesta ordem: primeiro o acampamento de Israel, depois a coluna de fogo, depois a coluna de nuvem, e por fim os egípcios. A nuvem não se interpôs entre o fogo e Israel — interpôs-se entre o fogo e o Egito. Como a coluna de fogo era alta, continuava iluminando Israel por cima, mesmo estando atrás; para os egípcios, a nuvem funcionava como nuvem diante do sol. Sforno (Ovadia Sforno, médico e comentador italiano do século XVI) e Chizkuni (comentário judeu francês do século XIII) trabalham a mesma solução com variantes.

E Ramban dá o passo mais radical da discussão: para ele, "a nuvem e as trevas" são os nomes das duas colunas — a nuvem é a coluna de nuvem, e "as trevas" é a coluna de fogo, porque na leitura que ele fez de Gênesis 1 o elemento fogo se chama escuridão. A leitura dispensa qualquer palavra acrescentada e faz a frase funcionar com o vocabulário que está ali, ao preço de depender de uma física que é dele, não do Êxodo.

Quarta leitura: "iluminava" quer dizer "escureceu". Ibn Ezra registra, para rejeitar, a proposta de Rabi Marinus — nome pelo qual ele designa o gramático Jonas ibn Janah — segundo a qual o verbo hebraico traduzido por "iluminou" significa aqui o seu contrário. Os apoios são dois: Salmo 139:11, onde uma frase sobre luz é lida como frase sobre escuridão, e a expressão rabínica "a luz do dia quatorze", registrada no tratado Pesachim do Talmude, que designa a noite anterior ao dia quatorze.

Ibn Ezra responde com três argumentos, e são os melhores de toda a discussão. Primeiro: nenhuma língua admite que uma palavra signifique uma coisa e o contrário dela, exceto no eufemismo — e o exemplo que ele dá é do próprio hebraico bíblico, 1 Reis 21:13, onde se acusa Nabote de "abençoar" Deus e o rei quando se quer dizer que ele os maldisse. Segundo: por que o texto diria "e escureceu a noite", se toda noite é escura? A informação seria vazia. Terceiro, e é o mais forte: se Israel não tinha luz, como atravessou o mar? A travessia foi de noite. O mesmo gramático já tinha sido recusado por Ibn Ezra em Êxodo 13:8 — ali por princípio, aqui por técnica.

Quinta leitura: o texto está corrompido. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa), na análise de S. R. Driver, é categórica: "deve haver algum erro no texto". Driver observa que traduzir com um "contudo" é forçar a frase, que o hebraico daria naturalmente "e iluminou a noite", e registra a conjectura de Wellhausen — "e quando estava escuro, a nuvem iluminou a noite" — com a ressalva de que o texto hebraico atual não se obtém dela por corrupção fácil. Antes disso, Ewald havia proposto ler "e as trevas" como verbo, "e a nuvem escureceu"; Keil e Delitzsch rejeitam a emenda porque a gramática exigiria outra forma verbal e porque tanto Onquelos como a versão grega leram ali um substantivo. Nos fragmentos de Êxodo publicados de Qumran este versículo não está preservado, de modo que o texto massorético não tem concorrente hebraico a que se comparar.

Sexta leitura: não havia luz nenhuma. A testemunha mais antiga do versículo é a Septuaginta (tradução grega da Bíblia hebraica, feita a partir do século III a.C.), e ela não traz a luz: "e houve escuridão e treva espessa, e a noite passou". Onde o hebraico tem "iluminou a noite", o tradutor grego pôs a noite transcorrendo — e com a luz somem a contradição e o problema.

E há um segundo apoio para essa direção, dentro da própria Bíblia: a única passagem que reconta este versículo, Josué 24:7, diz apenas que Deus "pôs escuridão entre vocês e os egípcios" — treva, e nada mais. Chizkuni já havia notado o paralelo. A tradução mais antiga e o único recontar interno concordam em ter só escuridão.

Não é possível decidir, e por três razões: o hebraico admite mais de uma análise, as versões antigas divergem entre si, e cada solução proposta funciona ao preço de acrescentar, trocar ou corrigir alguma coisa. O que se afirma com segurança é isto: a leitura corrente — treva para o Egito, luz para Israel — é antiga, está documentada desde o livro da Sabedoria e é plausível, mas é uma interpretação, não uma tradução.

“e não se aproximaram um do outro durante toda a noite”

O hebraico é ainda mais seco: "e este não se aproximou deste, toda a noite". Duas vezes a mesma palavra, no singular, sem dizer o que são "este" e "este" — e é por conservar esse singular que a nossa tradução escreve "um do outro", e não "uns dos outros".

Rashi precisa esclarecer, seguindo o Mekhilta de Rabi Ishmael (comentário rabínico antigo ao livro do Êxodo), que se trata de campo e campo, não de pessoa e pessoa — e o fato de precisar esclarecer mostra que o hebraico permitia a outra leitura. Chizkuni propõe uma terceira: "este" e "este" seriam as duas colunas, que não se encostaram de noite e só se juntaram na madrugada. Nenhuma das três se demonstra a partir da frase.

E a tradição antiga afirma que houve ato hostil naquela noite. O Targum de Jônatas explica a mudança de posto da coluna dizendo que os egípcios atiravam flechas e pedras contra Israel e a nuvem as recebia. O Mekhilta diz o mesmo e acrescenta um raciocínio de ótica: quem está no escuro vê quem está na luz, e não o contrário — de modo que os egípcios viam os israelitas comendo, bebendo e festejando, e atiravam contra eles. Nada disso está no texto bíblico: a frase registra ausência de contato, e a tradição a preencheu com uma cena de tiro bloqueado.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os dois acampamentos

É a primeira vez no livro que Israel e o Egito são nomeados com a mesma palavra, lado a lado, na mesma construção — o acampamento de um e o acampamento do outro. O texto os iguala gramaticalmente no instante em que os separa fisicamente. E o Egito vem primeiro: a frase é construída de fora para dentro, do perseguidor para o perseguido.

A noite

A noite é o assunto do versículo, e não o cenário dele. A palavra aparece duas vezes em três linhas, e volta uma terceira em Êxodo 14:21, "toda aquela noite". Nenhuma outra unidade de tempo é mencionada no capítulo com essa insistência. Quando a madrugada chegar, em Êxodo 14:24, tudo estará decidido.

O evento: a noite em que nada aconteceu

O capítulo tem um só versículo sem ação, e é este. Em Êxodo 14:18 Deus acaba de falar; em Êxodo 14:21 Moisés estende a mão e o vento começa. No meio, uma noite inteira de imobilidade entre dois exércitos que já se viram. É o vazio narrativo mais longo de Êxodo 14, e é dentro dele que a travessia do mar tem tempo de acontecer.

5. Pontos de Ensino

A mesma coisa, dois efeitos

O versículo afirma dois efeitos contrários de um objeto só, e não os explica. Quem quiser ensinar a partir dele tem de decidir antes o que a frase diz — e o item 3 mostra que essa decisão não é pacífica. Os pontos abaixo valem para a leitura corrente, a que distribui treva e luz entre os dois campos, e deixam de valer se a leitura for outra.

O que separa dois povos pode ser uma coisa só. Não há duas nuvens, uma boa e outra má. Há uma, e a diferença está em qual lado dela cada um está. A imagem é difícil de amaciar: o texto não diz que os egípcios fizeram por merecer a treva naquela hora, diz onde eles estavam.

Noite sem acontecimento nenhum também é parte da história. A tradição rabínica não conseguiu deixar este versículo em paz: preencheu a noite com flechas, com festa e com um argumento de ótica. A frase bíblica, sozinha, registra apenas que nada se aproximou de nada. Há horas em que o que está acontecendo é o tempo passando.

Um texto difícil não precisa ser alisado para ser útil. Este versículo foi corrigido, completado e emendado por tradutores e comentaristas ao longo de dois mil anos, cada um com boa intenção. O resultado é que o leitor médio nunca soube que havia um problema ali. Mostrar a dificuldade é mais honesto — e mais instrutivo — do que entregar a versão já resolvida.

6. Aspectos Filosóficos

Uma coisa só, com dois valores contrários

O versículo diz, numa respiração, que aquilo era treva e que aquilo iluminava. Na leitura corrente não há contradição lógica, porque os dois efeitos ficam com públicos diferentes — mas a afirmação continua estranha, porque nenhuma outra coisa do mundo é descrita assim: ninguém diz que uma pedra é dura para uns e mole para outros. O fogo, porém, aceita esse tratamento sem resistência, e há um filósofo que explicou por quê.

Bachelard: o fogo é o único fenômeno que recebe os dois valores

Gaston Bachelard (1884-1962, filósofo francês que veio da filosofia das ciências e passou a estudar a imaginação) publicou em 1938 A psicanálise do fogo (La psychanalyse du feu). A tese do livro é que o fogo nunca foi, para nós, um objeto de observação: é um objeto de devaneio. Quem olha uma chama não a examina — pensa em outra coisa, lembra, imagina. E o conhecimento que temos dele chega carregado de valores antes de qualquer medição.

Daí a formulação central, e é ela que interessa a este versículo: o fogo é o único fenômeno capaz de receber com igual nitidez as duas valorizações contrárias, o bem e o mal. Ele brilha no paraíso e queima no inferno. Bachelard insiste que isso não é ambiguidade de linguagem nem falta de rigor: é a estrutura da imagem. A mesma chama que aquece é a que destrói, e nenhuma das duas descrições é figurada. Em 1961, num dos últimos livros que escreveu, A chama de uma vela (La flamme d'une chandelle), ele voltaria ao assunto pela porta mais estreita possível — uma chama pequena, à noite, e alguém sozinho olhando para ela. Outro tema seu, a verticalidade da imagem, já foi tratado no estudo de Gênesis 37:9.

O que isso esclarece no versículo

Esclarece por que a frase, sendo esquisita, nunca soou esquisita a ninguém. Leitor nenhum tropeça em "era a nuvem e a escuridão, e iluminava a noite": a treva e a luz do mesmo fogo são coisas que a imaginação aceita de imediato, e foi essa facilidade que permitiu a dezenas de tradutores completar a frase sem perceber que estavam completando. Na leitura tradicional os dois valores não estão no objeto, estão nas duas plateias — e Bachelard diria que essa distribuição é o movimento mais natural do mundo, porque o valor do fogo nunca esteve no fogo.

O limite, e ele corta contra a filosofia

Bachelard descreve imaginação, e este versículo não fala de imaginação nenhuma. Ele faz uma afirmação sobre o que houve: a nuvem era treva e iluminou a noite. Se a diferença fosse só de percepção, o texto não teria o problema que tem — bastaria dizer que os egípcios viam escuro e os israelitas viam claro. O incômodo do hebraico está em que ele não atribui os efeitos a ninguém, e é essa ausência de destinatário que nenhuma psicologia das imagens resolve.

E o texto resiste num ponto ainda mais direto. Nas duas leituras mais fortes do item 3 — a de Ramban e a da Septuaginta — o problema nem chega a ser de valor duplo: numa, "a nuvem e a escuridão" são nomes de dois objetos distintos; na outra, a luz não está no texto. Se qualquer uma delas estiver certa, Bachelard explica um efeito de leitura que o versículo nunca produziu — e o mérito dele passa a ser mostrar por que esse efeito se impôs por dois mil anos a leitores que tinham o hebraico à frente dos olhos.

7. Aplicações Práticas

A noite em que não há o que fazer

O versículo descreve um intervalo: o inimigo está perto, o perigo não passou, e durante horas não há nada a executar. Quem já esperou um resultado de exame, uma decisão judicial ou uma resposta que só vem na segunda-feira conhece esse tempo. Ele não é vazio — é o tempo dentro do qual a coisa se resolve —, mas do lado de dentro parece vazio, e é aí que se estraga.

O que o texto oferece a quem está nessa posição é modesto e é concreto: a barreira não é obra de quem espera. Israel não construiu a nuvem, não a pediu e não soube quando ela mudou de lugar. A única coisa que eles fizeram naquela noite foi andar. E o versículo não é lição sobre paciência: é o relato de uma noite em que um povo escapou porque não foi alcançado — os egípcios também a passaram esperando.

Dois lados da mesma notícia

Há uma segunda aplicação, de convivência. O mesmo fato pode ser alívio para um lado e ameaça para o outro, com as duas leituras corretas e ninguém mentindo: a decisão que protege um time fecha a porta de outro, e a regra que dá segurança a um filho soa como cerco ao irmão. Reconhecer isso não resolve o conflito, mas evita a acusação fácil de má-fé.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a tradução do site não diz para quem era escuridão e para quem era luz?

Porque o hebraico não diz, e preencher a lacuna seria escolher uma das seis leituras do item 3 sem avisar o leitor. A maioria das traduções faz o contrário: quem escreve "para aqueles" e "para estes" acrescenta destinatários que não estão no original, e quem escreve "contudo, brilhava de noite" acrescenta uma oposição que também não está. Nenhuma das duas é desonesta — é que passar esta frase para qualquer língua obriga a decidir alguma coisa, e a decisão de não decidir tem o seu preço: o leitor recebe uma frase que não fecha. Ela não fecha no hebraico também.

Por que a noite inteira? Por que não atravessar logo?

O capítulo não responde, e a hipótese mais desenvolvida é de Ramban: se a coluna de fogo tivesse seguido à frente como nas outras noites, Israel atravessaria depressa, os egípcios não veriam para onde foram e não entrariam no mar — o que frustraria o que Deus anunciou em Êxodo 14:17. Na leitura dele, portanto, a lentidão é proposital e serve à armadilha. É reconstrução, e ele a apresenta como sua.

O que os egípcios viram naquela noite?

O texto não diz nada. O Mekhilta responde com um argumento de ótica — quem está no escuro vê quem está na luz, não o contrário — e conclui que eles viam os israelitas em festa e atiravam flechas. É leitura rabínica, não dado bíblico, e o item 3 mostra em que ela se apoia.

É o mesmo fenômeno da praga das trevas?

Há semelhança forte, e um leitor antigo já a percebeu: o livro da Sabedoria trata os dois episódios como um só. Mas na praga a escuridão cobre a terra do Egito e a luz está nas casas de Israel, a quilômetros de distância; aqui as duas coisas estão no mesmo lugar, separadas por metros.

9. Conexão com Outros Textos

O único lugar da Bíblia que reconta este versículo

Josué 24:7 — "Então clamaram ao SENHOR, e ele pôs escuridão entre vocês e os egípcios, e trouxe o mar sobre eles, e os cobriu; e os seus olhos viram o que eu fiz no Egito. Depois vocês moraram muitos dias no deserto."

No discurso de despedida de Josué, a noite do mar é resumida em quatro palavras: Deus pôs escuridão entre os dois. Não há luz, não há nuvem e não há coluna — só a treva interposta. É o testemunho interno mais importante para a leitura do versículo, e ele fica do lado de quem lê ali apenas escuridão.

As duas releituras que mantiveram a luz e perderam a barreira

Salmo 105:39 — "Ele estendeu uma nuvem como cobertor, e um fogo para iluminar a noite."

O salmo conserva a dupla nuvem e fogo, conserva a luz da noite e transforma a nuvem em cobertura — um toldo, não um muro. A função de separar desaparece.

Neemias 9:12 — "E com coluna de nuvem os guiaste de dia, e com coluna de fogo de noite, para os iluminares no caminho por onde haviam de ir."

Na grande oração de confissão dos levitas, a divisão do mar é contada no versículo anterior e as colunas no seguinte — mas no regime antigo, guiando e iluminando, como em Êxodo 13:21. A noite em que a coluna virou barreira não entra na oração.

A única outra ocorrência da expressão "este ao outro"

Isaías 6:3 — "E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos exércitos; toda a terra está cheia da sua glória."

A construção hebraica que fecha o nosso versículo — "este ao outro" — aparece na Torá uma vez só, aqui, e a sua ocorrência famosa fora dela é esta, no chamado de Isaías. Lá dois seres celestes se dirigem um ao outro e a expressão é de comunicação; aqui ela vem negada, e dois exércitos passam a noite sem se dirigir nada.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

colocando-se entre o acampamento dos egípcios e o acampamento de Israel. E era a nuvem e a escuridão, e iluminava a noite; e não se aproximaram um do outro durante toda a noite.

Texto hebraico

וַיָּבֹא בֵּין מַחֲנֵה מִצְרַיִם וּבֵין מַחֲנֵה יִשְׂרָאֵל וַיְהִי הֶעָנָן וְהַחֹשֶׁךְ וַיָּאֶר אֶת־הַלָּיְלָה וְלֹא־קָרַב זֶה אֶל־זֶה כָּל־הַלָּיְלָה׃

Transliteração

va-yavo bein machaneh Mitsrayim u-vein machaneh Yisrael; va-yhi he-anan ve-ha-choshekh va-ya'er et ha-laylah; ve-lo qarav zeh el zeh kol ha-laylah.

Análise palavra por palavra

וַיָּבֹא — va-yavo, "e veio", "e entrou".

Verbo comum de chegar ou entrar, no singular masculino, sem sujeito expresso. Quem veio, o hebraico não informa: pode ser a nuvem do versículo anterior, pode ser o anjo. A forma é compatível com os dois, e é por isso que a nossa tradução deixou o sujeito indeterminado, com um gerúndio.

בֵּין ... וּבֵין — bein ... u-vein, "entre... e entre".

O hebraico não diz "entre A e B": repete a preposição antes de cada termo, e essa repetição é obrigatória na língua. A frase nomeia, portanto, duas vezes a mesma fronteira.

E há um detalhe que só existe no manuscrito hebraico: depois da primeira preposição, o texto massorético traz um traço vertical chamado paseq ("separador" — o sinal que manda o leitor fazer uma pausa onde a leitura corrida não faria). É um sinal raro. Ele obriga a destacar a palavra "entre" da palavra "acampamento", de modo que quem lê em voz alta produz, na própria dicção, um intervalo entre os dois campos.

וַיְהִי הֶעָנָן וְהַחֹשֶׁךְ — va-yhi he-anan ve-ha-choshekh, "e foi a nuvem e a escuridão".

Dois pontos difíceis, e ambos estão na base da discussão do item 3. O verbo está no singular e os sujeitos são dois. E, segundo — o que Keil e Delitzsch chamam de chocante —, as duas palavras vêm com artigo: não é "e havia nuvem e escuridão", é "a nuvem e a escuridão". Artigo aponta para algo já conhecido; a nuvem é conhecida, vem do versículo anterior, mas escuridão nenhuma foi mencionada antes neste capítulo. A nossa tradução conserva os dois artigos justamente por isso. A proposta de Ewald resolvia lendo a segunda palavra como verbo, "e escureceu", e foi rejeitada por razões de forma e pelo testemunho das versões antigas, que a leram como substantivo. A escuridão conhecida mais próxima, no livro, é a da nona praga, e a comparação entre as duas cenas está no estudo de Êxodo 10:23.

וַיָּאֶר אֶת־הַלָּיְלָה — va-ya'er et ha-laylah, "e iluminou a noite".

Forma causativa da raiz de or, "luz": fazer haver luz. O que chama atenção é a partícula seguinte — a marca de objeto direto, que anuncia sobre o que o verbo age. Aqui ela marca a noite. O verbo não ilumina pessoas, não ilumina o caminho e não ilumina o acampamento: ilumina a noite, a única coisa que o versículo diz receber a luz. Nenhum destinatário humano aparece em toda a oração — e é essa ausência que a maioria das traduções preenche e que a nossa conserva.

וְלֹא־קָרַב זֶה אֶל־זֶה — ve-lo qarav zeh el zeh, "e este não se aproximou deste".

O verbo qarav é o de aproximar-se, e é a raiz do vocabulário do culto: qorban ("oferenda", ao pé da letra "o que se faz aproximar") vem dela. Está no singular, e os dois pronomes são o mesmo demonstrativo repetido, sem indicação do que representam — daí as três leituras do item 3.

Traduzir por "uns dos outros" apaga o singular, e com ele o que a frase tem de específico, razão pela qual a nossa versão escreve "um do outro". A construção zeh el zeh tem uma particularidade: nas cinco partes da Torá ela aparece uma única vez, aqui. A ocorrência célebre está fora, em Isaías 6:3, na visão dos seres que clamam um ao outro. A mesma fórmula serve, num lugar, para dizer que houve chamado, e no outro, negada, para dizer que não houve contato. E a palavra "noite" fecha as duas últimas orações do versículo: primeiro como aquilo que foi iluminado, depois como a medida do tempo em que nada aconteceu.

As versões antigas, e o que cada uma decidiu

A Septuaginta traz: kai egeneto skotos kai gnophos, kai dielthen he nyx — "e houve escuridão e treva espessa, e a noite passou". Ela substitui "nuvem" por uma segunda palavra de escuridão e troca o verbo de iluminar por um verbo de passar. No fim, escreve ou synemixan allelois, "não se misturaram uns com os outros", com o verbo que descreve o entrelaçamento de duas forças no combate: para o tradutor grego, o que não houve foi batalha.

O Targum de Onquelos conserva a nuvem e acrescenta os dois destinatários que o hebraico não tem: treva "para os egípcios", luz "para Israel". O Targum de Jônatas vai além e descreve a nuvem repartida em duas metades, uma luminosa e outra escura.

A Vulgata escolhe caminho próprio: et erat nubes tenebrosa, et illuminans noctem — "e a nuvem era tenebrosa, e iluminava a noite". Jerônimo faz das duas afirmações duas qualidades do mesmo objeto, sem nomear ninguém, e assim conserva o paradoxo em vez de resolvê-lo. Na última oração, porém, ele decide, e decide forte: accedere non valerent, "não foram capazes de se aproximar". Onde o hebraico registra um fato, o latim afirma uma impossibilidade.

11. Conclusão

Deste versículo seguem duas conclusões, e a primeira é sobre o próprio texto.

A frase mais citada do capítulo é a menos segura. "Treva para os egípcios, luz para Israel" é uma leitura antiga, atestada desde antes da era cristã, e é plausível. Não é, porém, o que está escrito: o hebraico não distribui os dois efeitos entre dois povos, e cada solução proposta em dois mil anos — completar a frase, repartir a nuvem em dois lados, identificar duas colunas, inverter o sentido do verbo, corrigir o texto ou apagar a luz — custa algum acréscimo, alguma troca ou alguma emenda. A conclusão honesta é que não é possível decidir, e que quem ensina este versículo deve dizer qual leitura está usando.

A coluna acabou de mudar de natureza, não só de posto. O versículo anterior a levou para a retaguarda; este mostra o que ela faz lá. Ela não guia mais nem serve de referência: ocupa um espaço e não deixa ninguém passar. É a única vez, em toda a Bíblia hebraica, em que a presença que acompanha Israel aparece exercendo função de obstáculo — e a releitura de Josué 24:7, que resume a cena como "escuridão posta entre", registra precisamente isso e mais nada. E é dentro dessa noite imóvel, a única de Êxodo 14 em que nada ocorre, que o mar tem tempo de se abrir.

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Êxodo 14:20

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Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%