📖 Navegar na Bíblia:
‹

Êxodo 10:19

›
✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 22 acessos
E o SENHOR mudou o vento para um vento do mar, muito forte, que levantou os gafanhotos e os lançou no mar dos Juncos. Não ficou um só gafanhoto em todo o território do Egito.
Um vento forte vindo do mar arrasta a nuvem de gafanhotos para fora do Egito e a despeja nas águas do mar dos Juncos.

Estudo


E o SENHOR mudou o vento para um vento do mar, muito forte, que levantou os gafanhotos e os lançou no mar dos Juncos. Não ficou um só gafanhoto em todo o território do Egito.

1. Introdução

O mesmo vento que trouxe os gafanhotos os leva embora — trocado de direção.

E o lugar onde eles são despejados tem nome: o mar dos Juncos. É a primeira vez que a expressão aparece no Êxodo, e é o mar que a tradição chama de "mar Vermelho" por causa de uma escolha feita pelos tradutores gregos.

O versículo fecha com uma fórmula de totalidade: não ficou um só gafanhoto em todo o território do Egito.

Três coisas pedem exame aqui: por que um "vento do mar" é vento de oeste num texto escrito por quem vive a leste do Mediterrâneo, onde ficava esse mar de juncos, e o que significa a praga ser jogada justamente ali.

2. Contexto Histórico e Cultural

O mar dos Juncos: onde fica, e por que se diz "mar Vermelho"

O hebraico escreve yam suph, duas palavras: "mar" e "junco". A tradução literal é mar de juncos, e nenhuma Bíblia em português a adota — todas trazem "mar Vermelho". Convém saber de onde vem cada coisa.

A palavra "junco" veio do Egito

A segunda palavra da expressão não é de origem hebraica. A opinião dominante entre os estudiosos é que suph foi tomada do egípcio twf (pronúncia aproximada "tchuf"), que designa o papiro e as plantas de brejo em geral. O hebraico usa a palavra assim em Êxodo 2:3-5, onde o cesto do menino Moisés é posto entre os juncos da margem do rio.

Os egípcios tinham, além disso, um nome de lugar formado sobre essa palavra: pa-twfy, que se pode verter por "o brejo de papiro" ou "os juncais". Ele aparece em textos do Império Novo referindo-se a uma região pantanosa do delta oriental, não muito longe da cidade real de Ramessés.

Um desses textos é o Onomástico de Amenemope, uma lista egípcia de nomes de coisas e lugares — que o acervo já usou, por outro motivo, no estudo de Gênesis 47:6. Na lista, pa-twfy figura entre os últimos pontos da fronteira nordeste do Egito, ao lado de Tjaru, a praça-forte do caminho para Canaã.

A proposta que decorre disso

O raciocínio é direto e tem defensores de peso. Se suph vem de twf, e se os egípcios chamavam de pa-twfy uma região de brejos no delta oriental, então yam suph seria essa região — e não o braço de mar que hoje se chama Vermelho.

A favor, há um argumento de botânica: papiro não cresce em água salgada. Não há juncal nas margens do golfo de Suez nem do golfo de Ácaba. Um "mar de juncos" teria de ser água doce ou salobra — um lago, um pântano, uma laguna.

O egiptólogo James Hoffmeier é o nome mais associado a essa posição. Manfred Bietak, escavador de Tell el-Dab'a, propôs identificar pa-twfy com os antigos lagos Ballah, uma cadeia de águas rasas que se estendia por cerca de vinte quilômetros ao sul de Cantara e que o canal de Suez drenou no século XIX.

As objeções, e elas são sérias

Primeira: um brejo não é um mar. O hebraico chama a coisa de yam, e pa-twfy, nos textos egípcios, designa um distrito de terras alagadas, não um corpo de água. A crítica é de Bernard Batto, que em 1983 publicou um artigo de título provocador — "O mar de juncos: descanse em paz" — sustentando que todas as ocorrências seguras de yam suph na Bíblia apontam para o mar Vermelho ou para os seus dois golfos.

Segunda: as outras passagens não cabem num lago do delta. Esta é a objeção mais dura. Em 1 Reis 9:26, Salomão constrói uma frota em Eziom-Geber, "na praia do mar Vermelho, na terra de Edom" — e o hebraico ali diz yam suph. Eziom-Geber fica na ponta do golfo de Ácaba, a centenas de quilômetros do delta. Colin Humphreys, de Cambridge, usa justamente esse versículo: não se constroem navios de alto-mar num brejo.

Terceira: Números 33 separa duas coisas. Batto observou que, no roteiro das etapas do deserto, a travessia do mar (versículo 8) e uma parada "junto ao mar dos Juncos" (versículos 10-11) aparecem como episódios distintos, com jornadas entre eles. Se forem o mesmo lugar, o roteiro se contradiz.

A saída que alguns propõem

Diante disso, há quem sustente que yam suph não é o nome de um lugar só. Seria uma designação aplicável a mais de um corpo de água — o golfo de Ácaba em 1 Reis, um lago do delta no Êxodo, e possivelmente ainda outro na Transjordânia, como propõe David Ben-Gad HaCohen a partir de Números 21:4 e Deuteronômio 2:1.

A saída tem a vantagem de respeitar cada contexto e a desvantagem de ser cômoda: quando um nome pode designar qualquer coisa, ele deixa de decidir alguma coisa. Não há consenso.

E o "mar Vermelho"?

A troca é antiga e tem endereço. A Septuaginta, a tradução grega da Torá feita em Alexandria no século III a.C., verteu yam suph por erythra thalassa, "mar Vermelho" — inclusive aqui, neste versículo, onde o grego diz que o vento lançou o gafanhoto "no mar Vermelho".

A escolha não foi descuido. Os mesmos tradutores conheciam bem a palavra suph e, quando ela aparece sozinha, em Êxodo 2:3, eles a traduziram corretamente por "brejo". Diante da expressão composta, preferiram o nome geográfico que os gregos já usavam para as águas ao sul do Egito.

Da Septuaginta a coisa passou à Vulgata latina, das duas às versões modernas, e é por isso que praticamente toda Bíblia em português traz "mar Vermelho" — inclusive onde o hebraico fala de juncos.

Há ainda uma explicação antiga para o nome grego, que Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) registra: o mar se chamaria vermelho por causa de Esaú, também chamado Edom, palavra que significa "vermelho", cujos descendentes ocupavam a costa. É engenhosa e não passa de conjectura; a origem do nome grego é discutida e não se resolve por aí.

O que se pode afirmar

Quatro coisas, e nenhuma delas resolve a localização.

Que a palavra hebraica significa junco, e que ela provavelmente veio do egípcio. Que o Egito tinha um brejo de papiro com nome parecido, na fronteira nordeste. Que a tradução "mar Vermelho" nasceu em Alexandria, no século III a.C., e não no texto hebraico. E que nenhuma das identificações propostas explica bem todas as passagens bíblicas em que a expressão ocorre.

Quem apresentar a questão como resolvida — em qualquer direção — estará indo além do que as fontes sustentam.

3. Análise Teológica do Versículo

"E o SENHOR mudou o vento"

O verbo é forte: não é "enviou" nem "fez soprar", é virou, no sentido de revirar, inverter. O mesmo instrumento que trouxe a praga é girado e passa a levá-la.

Isso amarra o versículo ao versículo 13, onde o SENHOR conduziu um vento oriental sobre a terra durante um dia e uma noite inteiros, e foi esse vento que trouxe os gafanhotos. Agora ele é revertido. O episódio começa e termina com a mesma força, usada nas duas direções.

Repare em quem age. Moisés orou no versículo 18 e não faz nada aqui: não estende a mão, não ergue o cajado, não fala. O sujeito de todos os verbos deste versículo é o SENHOR. Na chegada da praga houve gesto humano — Moisés estendeu o cajado (Êxodo 10:13); na retirada, não há.

"um vento do mar"

Aqui está o detalhe que mais informa sobre quem escreveu o texto, e ele passa despercebido em português.

O hebraico diz, ao pé da letra, "vento de mar". E "mar", em hebraico, é a palavra corrente para oeste — o ponto cardeal. Quem fala assim mora num lugar onde o mar fica a oeste.

Esse lugar é a terra de Israel, com o Mediterrâneo na costa ocidental. Não é o Egito. No Egito, o Mediterrâneo fica ao norte, e o deserto ocidental é justamente o lado onde não há mar nenhum.

A observação é feita pela Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa), e é de uma objetividade rara: a expressão é um idiotismo formado na Palestina, e o texto a aplica ao Egito sem adaptação. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) entende que se trata de um vento vindo do noroeste; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) fala do vento do Mediterrâneo, que estaria a oeste do Egito.

Duas leituras decorrem daí, e cada uma afirma uma coisa.

Primeira leitura: é uma marca de quem escreve. A frase não descreve a rosa dos ventos egípcia; usa a do autor. É um dos poucos lugares do ciclo em que o ponto de observação do texto aparece sem querer.

Segunda leitura: é simplesmente "vento do lado do mar". A palavra manteria aqui o sentido concreto, e o mar em questão seria o Mediterrâneo, ao norte. Nessa leitura não há nada a notar.

A primeira é a mais aceita, porque o uso de "mar" para oeste é fixo no hebraico bíblico. A segunda não pode ser descartada, porque a palavra continua significando mar. Não é possível decidir com certeza — e, nos dois casos, o que se afirma é que o vento veio do lado contrário ao do versículo 13.

"muito forte"

O adjetivo é o mesmo que o Êxodo usa para o coração de Faraó quando Deus o torna firme. Aqui ele qualifica o vento, e a palavra "muito" reforça.

Não se deve construir sobre isso: a palavra é comum, e o livro a emprega para coisas diversas. Registre-se apenas como dado.

"que levantou os gafanhotos e os lançou no mar dos Juncos"

Dois verbos, e o segundo é o que surpreende.

O primeiro é "levantar", "erguer" — o mesmo verbo que aparece no versículo 17, quando o rei pede que se levante a falta dele. Nos dois lugares alguma coisa é tirada de cima do Egito e levada embora.

O segundo verbo é mais bruto. Ele significa cravar, fincar, enfiar com força; é o verbo de fincar uma estaca no chão e de bater palmas. Aplicado ao vento, descreve um golpe: os gafanhotos não são levados à deriva, são atirados na água.

Quanto ao destino, vale marcar o que está e o que não está no texto.

Está: o nome do mar, que aparece aqui pela primeira vez no Êxodo.

Não está: nenhum comentário sobre esse nome. O Êxodo não diz que aquele mar terá importância, não antecipa nada e não pisca para o leitor. A ligação entre este versículo e o que acontecerá naquele mesmo mar é feita pelo leitor, que já conhece o livro inteiro, e não pelo texto, que segue adiante sem observação nenhuma.

Essa distinção merece ser mantida, porque é fácil perdê-la. O fato de a praga ser despejada no mar dos Juncos é notável. O texto, porém, não o apresenta como notável — apresenta como informação geográfica de para onde foi o vento.

"Não ficou um só gafanhoto em todo o território do Egito"

A frase é absoluta, e o Êxodo já usara uma igual: em Êxodo 8:31, depois dos insetos, "não ficou um sequer". O gosto dos relatos antigos por fórmulas de totalidade está tratado no estudo daquele versículo.

O que é próprio daqui é o contraste que a frase produz dentro do capítulo. A praga chegou "em peso muito grande" (Êxodo 10:14) e comeu tudo o que havia de verde (Êxodo 10:15). A remoção é igualmente completa: nem um.

E há um dado que a simetria esconde. Os gafanhotos foram embora; o que eles comeram não voltou. O versículo desfaz a presença do bicho e não desfaz nada do estrago — o país continua sem colheita, sem pasto e sem fruto, exatamente como estava no versículo 15. É por isso que o pedido do rei, em Êxodo 10:17, falava de "esta morte": a morte anunciada não era o inseto, e o inseto é a única coisa que sai.

Jamieson, Fausset e Brown (trio de comentaristas britânicos do século XIX) observaram que a remoção total foi tão fora do comum quanto o envio. O Pulpit Commentary junta relatos de testemunhas de enxames que desapareciam em poucas horas quando o vento virava. Os dois comentários dizem a mesma coisa por caminhos opostos, e nenhum deles decide nada — o texto não menciona causa alguma além do vento, e o vento ele atribui ao SENHOR.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O vento

É o único agente físico do versículo, e o Êxodo o trata como instrumento, não como força autônoma: quem o muda é o SENHOR.

A trajetória dele fecha um arco de sete versículos. No 13, um vento oriental sopra um dia e uma noite inteiros e traz os gafanhotos ao amanhecer. No 19, o vento é invertido e os leva. O bicho entra por uma ponta do Egito e sai pela outra.

O mar dos Juncos

É a primeira aparição do nome no Êxodo, e o lugar não é identificável com segurança.

Do que se pode dizer com apoio: o nome significa "mar de juncos" em hebraico; a palavra "junco" provavelmente veio do egípcio; o Egito tinha uma região de brejos de papiro na fronteira nordeste, com nome formado sobre a mesma palavra; e a tradução "mar Vermelho" é escolha dos tradutores gregos de Alexandria, no século III a.C.

Do que não se pode dizer: onde exatamente ficava. As propostas vão dos lagos rasos do istmo de Suez ao golfo de Ácaba, e cada uma resolve umas passagens bíblicas e tropeça noutras.

O território do Egito

A palavra hebraica traduzida por "território" significa, ao pé da letra, fronteira, limite — e daí o que está dentro dela.

É a mesma palavra do versículo 4, quando a praga foi anunciada: "trarei gafanhotos ao seu território". O anúncio e a remoção usam o mesmo termo, e entre um e outro cabe o episódio inteiro.

Quem não aparece

Moisés orou no versículo anterior e desaparece deste. Arão não é mencionado. Faraó não é mencionado. Israel não é mencionado.

O versículo inteiro tem um sujeito só, e é o SENHOR. Depois do pedido do rei e da oração de Moisés, a cena se esvazia de gente.

5. Pontos de Ensino

O mesmo instrumento serve para as duas direções

O vento que trouxe a praga é o vento que a leva. Nada foi acrescentado ao mundo: uma direção foi trocada.

O texto não faz disso uma lição, e convém não transformá-lo numa. O que se pode registrar é a economia do relato: a remoção não exige um novo recurso, exige o mesmo revirado.

A praga sai; o estrago fica

Este é o ponto mais aproveitável do versículo, e ele é fácil de perder porque a frase final é triunfal — nem um gafanhoto restou.

Restou tudo o mais. As árvores continuam sem fruto, os campos sem erva, o gado sem pasto. O que acabou foi a presença do bicho, e o bicho não era o problema.

Quem mede o fim de uma crise pelo desaparecimento da sua causa visível vai comemorar cedo. Foi o que o próprio rei entendeu, quando chamou a praga de "morte" — ele estava falando do ano seguinte, não do enxame.

Um nome que não se consegue localizar

O mar deste versículo é mencionado dezenas de vezes na Bíblia e ninguém sabe onde fica com segurança.

Isso tem valor de método para quem lê textos antigos. Um nome próprio parece a informação mais sólida de uma frase — e é, frequentemente, a mais escorregadia, porque os nomes se deslocam, se traduzem e se aplicam a mais de um lugar. Saber disso protege contra dois erros: o de achar que o texto não informa nada, e o de achar que informa mais do que informa.

O texto não pisca para o leitor

A praga é despejada num mar que voltará a aparecer neste livro. O Êxodo não faz nenhum comentário sobre isso.

É um traço constante da narrativa hebraica: ela raramente aponta para o que vem. Quem lê pela segunda vez enxerga ligações que quem lê pela primeira não enxerga — e as duas leituras são legítimas, desde que não se confunda o que o texto diz com o que o leitor já sabe.

6. Aspectos Filosóficos

O que um nome prova?

O versículo dá um nome a um lugar, e há vinte séculos se discute qual lugar é. A discussão levanta um problema que vai além da geografia bíblica: o que exatamente se sabe quando se sabe o nome de uma coisa?

A resposta ingênua é: sabe-se qual é a coisa. O nome apontaria para ela como um dedo aponta para o objeto na mesa.

Essa resposta funciona bem enquanto o objeto está na mesa. Quando ele não está — quando o nome chega por escrito, de outra língua, de outro milênio —, o dedo aponta para o vazio, e é preciso reconstruir a direção por outros meios.

Os meios são três, e este versículo mostra os três em ação.

O primeiro é o significado da palavra. "Mar de juncos" descreve o lugar: água com plantas de brejo. Isso restringe o campo, porque elimina água salgada aberta. Só que a descrição pode ser antiga demais — nomes sobrevivem à realidade que descreviam, e há cidades chamadas "vale" no alto de morros.

O segundo é o uso no resto do texto. Se a mesma expressão aparece noutras passagens, cada uma impõe uma condição. Aqui está a dificuldade central: 1 Reis 9:26 exige um mar navegável na ponta de um golfo, e a botânica exige um brejo. As duas condições não se satisfazem no mesmo ponto do mapa.

O terceiro é a documentação externa. O egípcio tem um nome parecido para uma região de brejos. Isso puxa a identificação para o delta — e é o argumento mais forte de um dos lados, até que se pergunte se um distrito de terras alagadas pode ser chamado de "mar".

O que a discussão ensina

Repare no que aconteceu com os três meios. Cada um funciona, cada um restringe, e nenhum decide. A conjunção dos três produz não uma resposta, mas um conjunto de respostas incompatíveis.

Dessa situação saem duas tentações opostas, e as duas são ruins.

A primeira é escolher uma resposta e apresentá-la como fato. É o que se faz quando se afirma, sem ressalva, que os israelitas atravessaram o mar Vermelho, ou que atravessaram um pântano raso. As duas afirmações têm defensores sérios e nenhuma tem prova.

A segunda é concluir que, como não se decide, não se sabe nada. Isso também é falso: sabe-se o que a palavra significa, sabe-se de onde ela veio, sabe-se quando e onde nasceu a tradução "mar Vermelho", e sabe-se quais são as condições que qualquer identificação teria de satisfazer. É muita coisa. Só não é a localização.

A tradução que vira realidade

Há um segundo problema no versículo, e ele é de outra ordem.

Por mais de dois mil anos, a esmagadora maioria dos leitores da Bíblia leu "mar Vermelho" neste ponto. Não porque o texto o dissesse, mas porque tradutores gregos do século III a.C. assim decidiram, e a decisão atravessou o latim e chegou às línguas modernas.

O resultado é que a imagem mental de milhões de pessoas — um braço de mar largo e profundo — nasceu de uma escolha de tradução, e não do texto traduzido. Quem hoje ouve "mar dos Juncos" tem a impressão de estar diante de uma novidade moderna, quando está diante da palavra antiga.

Isso não é acusação aos tradutores gregos, que trabalhavam com o que tinham e provavelmente identificavam assim o lugar. É a constatação de um mecanismo: a tradução não transporta o texto, ela o reescreve, e a reescrita passa a ser aquilo que as pessoas conhecem. O caso deste versículo é apenas um dos mais visíveis, porque a diferença entre um junco e a cor vermelha não passa despercebida.

A consequência prática, para quem lê qualquer texto antigo em tradução, é modesta e vale: onde uma palavra parece estranhamente concreta ou estranhamente familiar, convém desconfiar — pode ser a língua de chegada falando, e não a de partida.

7. Aplicações Práticas

Comemorar o fim da causa não é o fim do problema

O versículo fecha com a frase mais absoluta do capítulo: não ficou um só gafanhoto. E o Egito continua sem nada verde.

A aplicação é direta para qualquer situação em que a causa do dano vai embora e o dano fica: a dívida que parou de crescer e continua devida, a doença tratada e a sequela, o conflito encerrado e a relação avariada. O alívio de ver a causa sumir é real, e ele não é o mesmo que reparação.

Quem confunde as duas coisas faz duas contas erradas. Acha que acabou quando não acabou; e depois se espanta com um problema que, a rigor, nunca foi resolvido.

Dar por resolvido o que não se pode decidir

O mar deste versículo não tem localização segura, e é fácil encontrar quem afirme que tem.

A aplicação aqui é de honestidade intelectual, e ela custa alguma coisa: dizer "não se sabe" é menos satisfatório do que dizer qualquer resposta. Vale mesmo assim, porque a alternativa é construir sobre chão que pode ceder — e quem apoia uma convicção numa identificação geográfica incerta terá de mexer na convicção quando a identificação mudar.

O que veio de fora pode voltar por onde veio

O relato é econômico: o vento traz, o vento leva. Nenhum recurso novo entra em cena.

Não é regra geral, e o Êxodo não a apresenta como tal. O que a cena mostra é apenas isto: a mesma força, aplicada noutra direção, produz o efeito contrário — e ninguém precisou inventar uma segunda força.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se o hebraico diz "juncos", por que a minha Bíblia diz "mar Vermelho"?

Porque a tradução grega de Alexandria, no século III a.C., fez essa escolha, e ela passou para a Vulgata latina e daí para quase todas as versões modernas.

Não foi engano de vocabulário. Os mesmos tradutores verteram a palavra "junco" corretamente em Êxodo 2:3. Diante da expressão composta, preferiram o nome geográfico corrente entre os gregos — o que sugere que identificavam o lugar assim.

Então a travessia do mar aconteceu num pântano?

Esta é a pergunta que o assunto sempre provoca, e a resposta honesta é que não se sabe.

Há quem defenda um lago raso do istmo de Suez, com argumento botânico forte: papiro não cresce em água salgada. Há quem defenda o golfo de Ácaba, com argumento textual forte: 1 Reis 9:26 chama de yam suph a água em que Salomão construiu uma frota, e não se constrói frota em brejo.

Os dois lados têm especialistas sérios, e nenhum dos dois explica todas as passagens. Quem apresenta a questão como decidida está escolhendo um lado e omitindo o outro.

O Êxodo está indicando que este é o mar que vai se abrir?

Não há nada no versículo que indique isso.

O texto informa para onde o vento levou os gafanhotos e segue adiante. Não comenta o nome, não antecipa nada e não faz nenhuma ligação. A ligação existe para quem já leu o livro inteiro — e é do leitor, não do texto.

Vale manter a distinção, porque ela é frequentemente apagada. Dizer "a praga foi jogada no mar que depois se abriria" é verdadeiro. Dizer "o Êxodo aponta para isso aqui" não é.

Por que Moisés não faz nada neste versículo?

Porque a oração dele já aconteceu, no versículo 18, e o texto trata o resto como consequência.

O padrão do ciclo varia nesse ponto. Na chegada das pragas quase sempre há gesto humano — a mão estendida, o cajado. Na retirada, em geral não há: o texto passa da oração ao resultado.

Um vento pode mesmo limpar um país inteiro de gafanhotos?

Enxames deslocam-se com o vento, e há relatos de invasões que desapareceram em horas quando a direção mudou. O Pulpit Commentary reúne alguns.

Isso responde a uma pergunta e não responde a outra. Explica o mecanismo; não explica o momento. O Êxodo atribui a inversão do vento ao SENHOR e não menciona nenhuma outra causa — e a discussão sobre explicações naturais para a série inteira está no estudo de Êxodo 8:24.

9. Conexão com Outros Textos

O vento que trouxe

Êxodo 10:13 — "Moisés estendeu o seu cajado sobre a terra do Egito, e o SENHOR conduziu um vento oriental sobre a terra todo aquele dia e toda a noite. Quando amanheceu, o vento oriental trouxe os gafanhotos."

O par completo: um vento de leste traz, um vento de oeste leva. Entre os dois versículos cabe a praga inteira.

Um vento que faz as águas baixarem

Gênesis 8:1 — "Deus se lembrou de Noé e de todos os animais, selvagens e domésticos, que estavam com ele na arca. Então Deus fez passar um vento sobre a terra, e as águas baixaram."

É o primeiro vento da Bíblia com função de reverter um desastre. A construção é a mesma: Deus faz passar o vento, e a situação se desfaz.

O mesmo mar, com o mesmo nome, no fim da fuga

Êxodo 13:18 — "Porém Deus fez rodear o povo pelo caminho do deserto, pelo mar Vermelho; e os filhos de Israel saíram arregimentados da terra do Egito."

A expressão hebraica é idêntica à deste versículo. Três capítulos depois, o mesmo mar aparece na rota da saída.

O mesmo nome num golfo navegável

1 Reis 9:26 — "Fez Salomão uma frota em Eziom-Geber, que é perto de Elate, na praia do mar Vermelho, na terra de Edom."

O versículo que complica tudo. Eziom-Geber fica na ponta do golfo de Ácaba, longe do delta, e o hebraico ali diz yam suph. É a principal objeção a quem identifica a expressão com um brejo do Egito.

O mesmo nome como etapa do deserto

Números 33:10 — "Tendo partido de Elim, acamparam-se junto ao mar Vermelho."

Números 33:11 — "Tendo partido do mar Vermelho, acamparam-se no deserto de Sim."

No roteiro das etapas, o mar dos Juncos é uma parada entre duas jornadas, distinta do lugar da travessia. É o argumento de Batto contra a identificação única.

Outro exército de gafanhotos lançado num mar

Joel 2:20 — "Mas removerei para longe de vós o exército do Norte e o lançarei para uma terra árida e desolada, a sua vanguarda para dentro do mar oriental e a sua retaguarda para o mar ocidental. Subirá o seu fedor, e subirá o seu mau cheiro, porque ele tem feito grandes coisas."

Joel descreve uma praga de gafanhotos e a remoção dela para dentro dos dois mares. O paralelo é próximo o bastante para sugerir que a cena do Êxodo era conhecida — e Joel acrescenta um detalhe que o Êxodo omite: o cheiro dos bichos apodrecendo.

A fórmula da remoção total, uma praga antes

Êxodo 8:31 — "E o SENHOR fez conforme a palavra de Moisés: afastou os enxames de Faraó, dos seus servos e do seu povo; não ficou um sequer."

A mesma frase final, com a mesma força. Nos dois casos a remoção é completa — e nos dois o rei volta atrás em seguida.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E o SENHOR mudou o vento para um vento do mar, muito forte, que levantou os gafanhotos e os lançou no mar dos Juncos. Não ficou um só gafanhoto em todo o território do Egito.

Texto hebraico

וַיַּהֲפֹךְ יְהוָה רוּחַ־יָם חָזָק מְאֹד וַיִּשָּׂא אֶת־הָאַרְבֶּה וַיִּתְקָעֵהוּ יָמָּה סּוּף לֹא נִשְׁאַר אַרְבֶּה אֶחָד בְּכֹל גְּבוּל מִצְרָיִם׃

Transliteração

wa-yahafokh YHWH ruach-yam chazaq me'od wa-yissa et-ha-arbeh wa-yitqa'ehu yammah suph; lo nish'ar arbeh echad be-khol gevul Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

וַיַּהֲפֹךְ — wa-yahafokh, "e virou".

Verbo hafakh na forma simples (o Qal). A raiz significa virar, revirar, transformar em outra coisa. É o verbo de virar um vaso de boca para baixo, e é o mesmo que a Bíblia usa para a destruição de Sodoma, "as cidades que o SENHOR revirou".

Aqui o objeto é o vento. Não se trata de mandar um vento novo: o que existia foi invertido. Nenhuma tradução portuguesa consegue guardar essa nuance sem ficar estranha, e todas escrevem "mudou".

רוּחַ־יָם — ruach-yam, "vento de mar".

Duas palavras ligadas, e a segunda é a interessante.

Ruach é vento, sopro, respiração — e, noutros contextos, espírito. Aqui é vento no sentido meteorológico.

Yam é mar. Mas o hebraico bíblico usa essa palavra também como ponto cardeal: oeste. É um uso fixo, não ocasional: quando um texto diz que alguma coisa fica "do lado do mar", está dizendo que fica a oeste. O mesmo acontece com "Negueve", o deserto do sul, que passou a significar "sul".

Esse tipo de nome de direção só se forma onde a geografia o justifica, e a geografia que o justifica é a de Canaã, com o Mediterrâneo na costa ocidental. No Egito o Mediterrâneo fica ao norte.

Então a expressão ruach-yam é, ao mesmo tempo, "vento do mar" e "vento de oeste", e a segunda leitura é a corrente. Ela contrasta ponto a ponto com o ruach qadim, "vento oriental", do versículo 13 — e "oriente", em hebraico, vem da palavra para "o que está à frente", porque quem se orienta olha para o nascente.

חָזָק מְאֹד — chazaq me'od, "forte muito".

Adjetivo da raiz chazaq, ser forte, firme, consistente — a mesma raiz de um dos três verbos do coração de Faraó, cujo sistema está exposto no estudo de Êxodo 4:21. Me'od é o advérbio de intensidade do hebraico, "muito", "em grande medida".

וַיִּשָּׂא אֶת־הָאַרְבֶּה — wa-yissa et-ha-arbeh, "e levantou o gafanhoto".

O verbo é nasa, levantar, erguer, carregar — o mesmo que Faraó usou no versículo 17 ao pedir que a falta dele fosse levantada. Nos dois casos, alguma coisa é tirada de cima do Egito.

Ha-arbeh está no singular com artigo: "o gafanhoto", e não "os gafanhotos". O hebraico trata o enxame como uma coisa só, do mesmo modo que o português diz "o mosquito" para falar da praga inteira. A palavra vem provavelmente da raiz de "ser muito, multiplicar-se", o que faria do nome do bicho uma descrição do número dele.

וַיִּתְקָעֵהוּ — wa-yitqa'ehu, "e o cravou".

Verbo taqa, com sufixo de objeto na terceira pessoa. A raiz é concreta e violenta: significa fincar, cravar, enfiar — é o verbo de fincar a estaca de uma tenda, de bater palmas e de tocar a trombeta, que se "crava" com o sopro.

Aplicado ao vento, o verbo não descreve um transporte suave. Descreve um golpe: os gafanhotos são atirados na água. As traduções dizem "lançou", e é o mais próximo que o português chega.

יָמָּה סּוּף — yammah suph, "para o mar dos Juncos".

Aqui está a expressão que dá nome ao assunto, e ela aparece pela primeira vez no Êxodo neste versículo.

Yam, mar, com a terminação de direção — a mesma que em Êxodo 4:21 faz "para o Egito". Então: "em direção ao mar". E suph, logo em seguida, identifica qual mar.

Suph significa junco, papiro, planta de brejo. A palavra não é de raiz hebraica reconhecível, e a explicação aceita pela maioria é que ela foi tomada do egípcio twf, com o mesmo sentido. O hebraico a usa sozinha em Êxodo 2:3 e 2:5, onde o cesto do menino é posto "entre os juncos" da margem do rio — mesma palavra, sem ambiguidade nenhuma.

A expressão inteira, yam suph, ocorre cerca de vinte e três vezes na Bíblia hebraica. Ela aparece em contextos geograficamente incompatíveis entre si — a fuga do Egito, a frota de Salomão no golfo de Ácaba, as etapas do deserto —, e é dessa incompatibilidade que nasce a discussão sobre a localização, exposta no item 2.

Registre-se aqui apenas o dado linguístico, que é seguro: a expressão hebraica não contém nenhuma palavra que signifique "vermelho". A cor entrou pela tradução grega.

Há ainda uma proposta minoritária que merece menção, e é honesto dizer que é minoritária: alguns estudiosos aproximaram suph de soph, "fim", "extremidade", o que daria "mar do fim" ou "mar da extremidade" — cabível num nome dado à água que fecha o mundo conhecido a sudeste. A aproximação é foneticamente possível e não tem apoio nas ocorrências, onde a palavra significa junco. Não há consenso, e a leitura corrente continua sendo "juncos".

לֹא נִשְׁאַר אַרְבֶּה אֶחָד — lo nish'ar arbeh echad, "não restou um gafanhoto".

Verbo sha'ar, restar, sobrar, na forma passiva do hebraico (o Nifal). É a raiz de onde vem she'ar e she'erit, "o resto", "o remanescente" — palavra central nos profetas para o grupo que sobrevive a uma catástrofe.

O uso aqui é o oposto: não houve remanescente nenhum. E a mesma raiz aparece no versículo 5, quando a praga foi anunciada: os gafanhotos comeriam "o restante do que escapou" do granizo. O que restou do granizo foi comido; do gafanhoto não restou nada.

Echad é o numeral "um", posto depois do substantivo para reforçar: nem um único.

בְּכֹל גְּבוּל מִצְרָיִם — be-khol gevul Mitsrayim, "em todo o território do Egito".

Gevul significa, na origem, fronteira, limite, marco, e daí o espaço delimitado por ela. É a mesma palavra do versículo 4, no anúncio da praga, e do versículo 14, quando os gafanhotos pousaram "em todo o território do Egito". Três vezes no mesmo episódio, sempre marcando a extensão total.

A tradução grega antiga

A Septuaginta escreveu eis ten erythran thalassan — "no mar Vermelho". É a escolha que atravessou a Vulgata e chegou às Bíblias modernas.

Repare que os mesmos tradutores, diante da palavra suph sozinha em Êxodo 2:3, puseram helos, "brejo", "pântano". Eles sabiam o que a palavra significava. Diante da expressão composta, trataram-na como nome próprio de um lugar que já tinha outro nome em grego — e é por isso que a maioria dos leitores do mundo nunca ouviu falar em juncos neste versículo.

11. Conclusão

O versículo resolve a praga com uma inversão: o vento que trouxe é o vento que leva, e nada mais entra em cena. Conclui-se daí que o relato trata a retirada como operação simétrica à chegada — mesma força, direção contrária, e nenhum agente humano.

Conclui-se também que o Egito não foi restituído. Não ficou um gafanhoto, e não voltou uma folha. A frase final do versículo é absoluta a respeito do inseto e silenciosa a respeito do estrago, que continua exatamente onde o versículo 15 o deixou.

Sobre o nome do mar, a conclusão é do tipo que desagrada aos dois lados: o hebraico diz juncos, e onde fica esse mar não se sabe. A palavra é segura, a origem egípcia dela é provável, a tradução "mar Vermelho" tem data e endereço — Alexandria, século III a.C. —, e nenhuma das identificações propostas satisfaz todas as passagens em que a expressão ocorre.

Resta o que o texto não faz. Ele despeja a praga no mar dos Juncos e não diz uma palavra sobre o que aquele mar significa. A ligação com o que virá é real e é do leitor. Quem a atribui ao Êxodo está emprestando ao texto uma intenção que ele não manifesta aqui.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Êxodo 10:19

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%